{"id":67477,"date":"2022-07-06T13:13:28","date_gmt":"2022-07-06T16:13:28","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=67477"},"modified":"2022-08-03T03:18:36","modified_gmt":"2022-08-03T06:18:36","slug":"entrevista-orlando-sena-lara-beck-e-jamille-fortunato-voltam-ao-amor-dentro-da-camera-por-ocasiao-de-sua-estreia-em-streaming-e-no-canal-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/07\/06\/entrevista-orlando-sena-lara-beck-e-jamille-fortunato-voltam-ao-amor-dentro-da-camera-por-ocasiao-de-sua-estreia-em-streaming-e-no-canal-brasil\/","title":{"rendered":"Entrevista: Orlando Sena, Lara Beck e Jamille Fortunato voltam ao &#8220;Amor Dentro da C\u00e2mera&#8221;, agora dispon\u00edvel em streaming"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 dois anos, em maio de 2020, Concei\u00e7\u00e3o Sena nos deixava ap\u00f3s 81 primaveras bem vividas, sendo que quase 60 delas, inclusive, ao lado de seu namorado, marido, parceiro de trabalho, melhor amigo e companheiro de vida, Orlando Sena. Um ano depois, em abril do ano passado, em uma entrevista via internet com Orlando, Jamille Fortunato e Lara Beck, diretoras do tenro \u201cO Amor Dentro da C\u00e2mera\u201d (2021), o cineasta baiano disse: &#8220;Agora j\u00e1 posso assistir ao filme com tranquilidade. No momento em que ela aparece, j\u00e1 consigo assistir sem toda a melancolia em cima de mim. Acho uma coisa muito bonita que esse filme tenha acontecido&#8221;. A explica\u00e7\u00e3o surgiu no contexto de supera\u00e7\u00e3o da perda, algo que, obviamente, nunca ser\u00e1 completa. Com um amor de d\u00e9cadas em uma vida compartilhada juntos, essa supera\u00e7\u00e3o tardar\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu acho que n\u00e3o absorvi todo luto&#8221;, afirma Orlando neste junho de 2022. &#8220;Mas absorvi boa parte dele. H\u00e1 dois anos, eu s\u00f3 sofria. E somente agora estou retomando algo de cria\u00e7\u00e3o. Mas esse luto fort\u00edssimo se mistura, ainda, com outros lutos que tive nos \u00faltimos dois anos. Com lutos de ver muita coisa que eu ajudei a fazer no campo pol\u00edtico, por exemplo, dar para tr\u00e1s. \u00c9 terr\u00edvel voc\u00ea pensar que esse dar para tr\u00e1s pode ser definitivo. Que ningu\u00e9m mais vai recompor&#8221;, salienta Orlando, que atuou como secret\u00e1rio de Cultura do governo Lula, e que denota, tamb\u00e9m, a surpresa de ter, aos 80 anos de idade, passado por uma pandemia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Para mim, era coisa de literatura. Peguei (a pandemia) de cara. De frente. De repente, assim, sem nem saber direito o que era. Tive que voltar ao (livro) &#8216;A Peste&#8217;, de Albert Camus, para ver o que era uma epidemia. E tudo foi se somando tendo como base, como substrato, a dor enorme de Concei\u00e7\u00e3o&#8221;, complementa Orlando em uma pausa na qual as l\u00e1grimas se tornam inevit\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Produzido com o apoio do Rumos Ita\u00fa Cultural, \u201cO Amor Dentro da C\u00e2mera\u201d (j\u00e1 dispon\u00edvel para aluguel nos canais Now, Vivo Play, Oi Play, Google Play e Apple Play) \u00e9 uma obra que se passa toda dentro de uma casa. \u00c9 atrav\u00e9s da intimidade daquele casal entre aquelas paredes, texturas, cheiros e conforto, bem como pelas fotos que servem como portas de revisita ao passado e sa\u00eddas para al\u00e9m daquele lugar, que tanto n\u00f3s como espectadores quanto Concei\u00e7\u00e3o e Orlando como protagonistas adentramos naquelas lembran\u00e7as que constru\u00edram uma vida. A co-diretora Lara Beck traz uma an\u00e1lise precisa de como a chegada do filme ao streaming e, no dia 06 de julho, ao Canal Brasil, rima com essa ambienta\u00e7\u00e3o, bem como com a fase de confinamento pand\u00eamico que todos n\u00f3s vivemos em 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A gente nunca assistiu ao filme na tela grande, at\u00e9 o momento&#8221;, explica Lara. &#8220;Ele foi para o streaming e vai estrear em julho na TV sem que tiv\u00e9ssemos tido essa experi\u00eancia do cinema. Mas eu fico pensando, tamb\u00e9m, que se trata de um filme do amor dentro de uma casa. E que tamb\u00e9m representa esse amor. E as pessoas assistiram a esse filme dentro das suas casas. Esse filme entrela\u00e7ado de amor entre pessoas. De amor entre pessoas e cinema. De amor entre cinemas. At\u00e9 como Orlando fala no filme, que \u00e9 amor entre tudo. Amor entre os minerais, amor entre todas as formas de vida. E tamb\u00e9m acho que o cinema \u00e9 uma forma de vida&#8221;, aprofunda a cineasta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Co-diretora ao lado de Lara, Jamille Fortunato, relembra a surpresa de perceber como os caminhos do filme se deram. &#8220;Fizemos um filme pensado todo dentro de casa, antes da pandemia, sem pensar em pandemia. Um filme no qual tentamos ser o mais \u00edntimo poss\u00edvel, todo dentro de casa. E quando vai estrear, acontece uma pandemia. E acontece de estar todo mundo dentro de casa. Tivemos que circular pelos festivais dentro de casa. N\u00e3o tivemos contato com o p\u00fablico, n\u00e3o tivemos contato com os cinemas, com a tela grande. Tivemos esse retorno apenas virtual&#8221;, explica Jamille. A diretora pontua, tamb\u00e9m, que a decis\u00e3o de j\u00e1 lan\u00e7ar a obra em streaming se deu por conta da incerteza em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo. &#8220;N\u00e3o quer\u00edamos esperar mais por isso. At\u00e9 porque a gente n\u00e3o sabe at\u00e9 quando vai isso. Hoje mesmo eu j\u00e1 recebi e-mail dizendo que vai voltar a obrigatoriedade das m\u00e1scaras nas escolas. Ent\u00e3o, resolvemos investir logo nessa quest\u00e3o de levar o filme para as telas das casas com o streaming e, agora, com o Canal Brasil&#8221;, pontua Jamile.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante de um filme cujas descri\u00e7\u00f5es s\u00e3o t\u00e3o voltadas para o amor, o risco de soar como uma romantiza\u00e7\u00e3o exacerbada e banal poderia ser grande. Mas \u00e9 o inverso que acontece. Lara explica: &#8220;Foi uma coisa engra\u00e7ada conviver com Con\u00e7a e Lando para al\u00e9m do filme, mas, tamb\u00e9m, no filme, e tamb\u00e9m no processo de montagem. \u00c9 importante dizer que isso n\u00e3o \u00e9 uma romantiza\u00e7\u00e3o boba das rela\u00e7\u00f5es. Existem rela\u00e7\u00f5es que precisam terminar, entende? Que n\u00e3o devem durar. N\u00e3o \u00e9 que todos os amores devem ser duradouros. \u00c0s vezes, os amores duram menos e s\u00e3o amores, tamb\u00e9m&#8221;, explana Lara Beck, e relembra: &#8220;Orlando sempre falava que eles eram tr\u00eas. Havia ele, mesmo. Havia Concei\u00e7\u00e3o, mesma. E havia uma terceira entidade que eram os dois juntos. Essa no\u00e7\u00e3o de aventura do estarem juntos a cada dia&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com exatid\u00e3o e serenidade, Orlando Sena vai al\u00e9m e crava: &#8220;\u00c9 um filme sobre envelhecimento. Inclusive, de uma maneira muito natural. O tema entrou no filme sem nenhum esfor\u00e7o, sem nada de quem o criou. O tema apareceu como aparece na vida&#8221;. Aos 82 anos, o diretor comprova aquilo que John Lennon, que partiu com apenas 40, cantou no seu cl\u00e1ssico \u201cBorrowed Time\u201d: &#8220;\u00c9 bom envelhecer. Tudo fica mais claro.&#8221; Neste novo papo com o Scream &amp; Yell, Orlando, Lara e Jamille trazem novas impress\u00f5es sobre o processo de cria\u00e7\u00e3o de &#8220;O Amor Dentro da C\u00e2mera&#8221;, sobre o cinema como imers\u00e3o, sobre longevidade e, claro, sobre Concei\u00e7\u00e3o Sena e a falta que ela faz. Vem ler!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-67482\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Lando-e-Conce_arquivo-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Lando-e-Conce_arquivo-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Lando-e-Conce_arquivo-copiar-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Lando-e-Conce_arquivo-copiar-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para al\u00e9m do filme, eu queria lhe perguntar sobre voc\u00ea e Concei\u00e7\u00e3o. No papo que levamos ano passado, voc\u00ea comentou sobre quando a conheceu. Demorou muito tempo para voc\u00ea perceber que ela seria sua parceira de vida?<\/strong><br \/>\nOrlando \u2013 Foi na hora. Eu tinha feito vestibular e estava com a cabe\u00e7a raspada por causa de um trote. Lembro que peguei um \u00f4nibus em Salvador e l\u00e1 dentro estavam uns amigos, uns colegas de cursinho pr\u00e9-vestibular fazendo algazarras. A minha gera\u00e7\u00e3o, minha turma, estava fazendo vestibular. Conversei com alguns deles e vi que l\u00e1 no fundo do \u00f4nibus tinha uma esp\u00e9cie de aglomera\u00e7\u00e3o. Tinha mais gente que no meio, que era onde eu estava. A\u00ed eu fui l\u00e1 e eles estavam conversando com Concei\u00e7\u00e3o. Eram colegas conhecidos dela. Inclusive, gente do interior, da cidade dela que estava chegando a Salvador. Ela, inclusive estava chegando. A\u00ed o Roberto me apresentou. N\u00e3o sei quem ele era, mas sei que se chamava Roberto. E respondendo sua pergunta, foi neste momento que eu soube. A gente se deu as m\u00e3os e ficamos nos olhando, como se estiv\u00e9ssemos bobando. Ela conta, eu n\u00e3o me lembro, que nesse momento da apresenta\u00e7\u00e3o, ela fez um cumprimento &#8220;normal&#8221;, segundo ela. Ou seja, ela disse assim: &#8220;muito prazer\u201d. E minha resposta foi um frio: &#8220;Como vai?&#8221; E isso chamou muito a aten\u00e7\u00e3o dela. Na verdade, n\u00e3o foi isso que chamou a aten\u00e7\u00e3o dela. Fomos n\u00f3s que causamos uma impress\u00e3o muito forte um no outro. Eu, a partir da\u00ed, fiquei obcecado. Logo depois aconteceu uma coisa que me obcecou ainda mais: a aus\u00eancia dela. Eu n\u00e3o a vi mais nesse \u00f4nibus, que era um que n\u00f3s dois costum\u00e1vamos pegar diariamente para ir pra casa. Perguntei aos colegas dela, os conterr\u00e2neos dela, mas eles n\u00e3o sabiam. Apenas me disseram que, possivelmente, ela havia voltado para o interior. Pois como ela n\u00e3o estava no \u00f4nibus, era porque ela n\u00e3o estava mais em Salvador. Devia ter voltado para a sua cidade. Na minha cabe\u00e7a, ela tinha voltado para l\u00e1 e nunca mais viria a Salvador e que eu nunca mais iria v\u00ea-la. E foi um tempo que levou, umas duas ou tr\u00eas semanas. Acho que nem tanto. Umas duas semanas muito fortes em rela\u00e7\u00e3o a isso. Algo relacionado \u00e0 perda. E isso j\u00e1 levando para um lado, assim, definitivo, louco. At\u00e9 que nos reencontramos atrav\u00e9s de uma c\u00e2mera, que foi essa do filme de Lara e Jamille.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas e \u00e0 \u00e9poca, como se deu esse reencontro que levou voc\u00eas a se tornarem um casal?<\/strong><br \/>\nOrlando \u2013 Eu acabei a reencontrando de novo no \u00f4nibus. Mas a\u00ed j\u00e1 foi outro tipo de coisa. Foi como se eu suspirasse. Como se eu tivesse um al\u00edvio: &#8220;Aqui est\u00e1 ela! Ela n\u00e3o desapareceu. N\u00e3o foi embora para sempre&#8221;. Mas foi essa sensa\u00e7\u00e3o maluca que eu tive. Como se ela tivesse sumido e nunca mais fosse v\u00ea-la. Algo que trouxe uma confus\u00e3o emocional enorme pensar que eu a tinha perdido. Ela contava sobre esse nosso segundo encontro de outra maneira. N\u00e3o me lembro exatamente como foi. Montar a cena desse momento eu n\u00e3o conseguiria. Eu ia fazer uma fic\u00e7\u00e3o. Mas ela dizia que n\u00e3o foi nada disso. Que ela estava sentada, veio o cobrador do \u00f4nibus, que passou por ela, e ela apresentou o dinheiro. Ele disse: &#8220;N\u00e3o precisa. Aquele menino j\u00e1 pagou o seu&#8221;. E a\u00ed ela come\u00e7ou a brincar com isso. Toda vez que a gente se encontrava nesse \u00f4nibus&#8230; Na verdade, nem era um \u00f4nibus. Era algo pequeno. Tinha um nome para isso em Salvador. Algo tipo uma &#8220;marinete&#8221;. N\u00e3o sei se voc\u00eas conhecem essa palavra. \u00c9 um \u00f4nibus pequeno. E se transformou em algo para ver quem pagava a passagem do outro primeiro.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-67483\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/O-Amor-Dentro-da-Camera-Foto-Casa_acervo-pessoall-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/O-Amor-Dentro-da-Camera-Foto-Casa_acervo-pessoall-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/O-Amor-Dentro-da-Camera-Foto-Casa_acervo-pessoall-copiar-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na sua trajet\u00f3ria de vida, voc\u00ea passou por diversas \u00e9pocas marcantes da Hist\u00f3ria. Conheceu nomes como Gabriel Garcia Marquez, Fernando Birri, foi co-fundador da Escola de Cinema de Cuba&#8230; Aos 82 anos, ao olhar para tr\u00e1s e perceber tudo isso, lhe causa um susto? Uma reflex\u00e3o? Qual \u00e9 o sentimento?<\/strong><br \/>\nOrlando \u2013 Eu vou al\u00e9m. Eu, quando era garoto, vi Getulio Vargas. Estive em Salvador ainda menino com minha fam\u00edlia e fomos ver uma passeata que estava acontecendo. E l\u00e1 estava Vargas passando de carro. Meu pai me colocou nos seus ombros para eu poder ver. E eu me lembro perfeitamente de Get\u00falio. Lembro tamb\u00e9m de ter fugido do col\u00e9gio interno onde eu estudava na ocasi\u00e3o em que Vargas se matou. Eu corri para a Pra\u00e7a Municipal para ouvir os discursos, para ver como as pessoas estavam reagindo. Mas respondendo sua pergunta, olha&#8230; (pausa) Eu senti e sinto isso, essa rela\u00e7\u00e3o com o tempo, essa rela\u00e7\u00e3o com a longevidade, da maneira mais natural poss\u00edvel. De vez em quando, penso na longevidade. Por esses tempos, peguei esse livro, pois tinha que ver uma coisa (\u201cCole\u00e7\u00e3o Aplauso &#8211; Orlando Sena\u201d, livro de Hermes Leal), aqui est\u00e1 o s\u00e9culo XX. Por acaso, eu o peguei hoje e est\u00e1 aqui. \u00c0s vezes me assusto com a longevidade. Me assusto na brincadeira comigo mesmo. Mas o fato de estar vivendo um tempo t\u00e3o longo, n\u00e3o me causa medo, n\u00e3o me causa espanto, me causa s\u00f3 isso de \u00e0s vezes at\u00e9 achar engra\u00e7ado. Tem um lado muito incr\u00edvel, que as coisas e as pessoas v\u00e3o desaparecendo. Eu sinto que estou vendo o final do s\u00e9culo XX. Que ainda \u00e9 o final do s\u00e9culo XX. Isso porque pessoas do s\u00e9culo XX ainda se d\u00e3o comigo. A gente ainda conversa, a gente \u00e9 amigo. Tamb\u00e9m tenho amigos velhos. Mais velhos do que eu. Parece incr\u00edvel que se tenha. Isso me lembra uma anedota do Austreg\u00e9silo de Athayde, grande escritor que foi presidente da Academia Brasileira de Letras por 30 anos ou mais. Ele dizia que n\u00e3o ia a enterros porque se fosse se dedicar a ir aos enterros dos amigos, n\u00e3o faria outra coisa na vida. \u00c9 isso. N\u00f3s que temos mais de 80 anos, tamb\u00e9m vemos a vida com essa coisa de brincadeira. Isso \u00e9 uma piada do velho Austreg\u00e9silo, evidentemente. Mas o \u00fanico lado doloroso \u00e9 essa perda constante. A partir dos 65, dos 70 anos, essas perdas se aceleram. Mas fora isso, esse dado de perder amigos, de perder coisas, de perder lugares, voc\u00ea s\u00f3 percebe ap\u00f3s os 70 anos. E tem outras percep\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m. Na verdade, voc\u00ea s\u00f3 v\u00ea o correr da vida, a vida passar de verdade, voc\u00ea sentir que ela est\u00e1 passando, a partir dos 60. Tem alguns velhos que dizem que come\u00e7aram a ver a vida passando aos 40. N\u00e3o \u00e9 verdade. &#8220;A vida recome\u00e7a aos 40 anos&#8221;. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 verdade. Ela passa e a gente a ver passando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No ano passado, quando conversamos, voc\u00ea falou que demorou a assistir ao filme, pois durante muito tempo era doloroso rever Concei\u00e7\u00e3o. Nestes \u00faltimos dois anos desde a partida dela em 2020, como tem sido a sua rotina de cria\u00e7\u00e3o ap\u00f3s ter absorvido o luto?<\/strong><br \/>\nOrlando \u2013 Olha, acho que ainda n\u00e3o absorvi todo o luto. Absorvi boa parte dele, eu diria. J\u00e1 \u00e9 outra coisa. Nessa \u00e9poca que voc\u00ea est\u00e1 falando, durante os meses ap\u00f3s a partida dela, eu s\u00f3 sofria. E a coisa da cria\u00e7\u00e3o s\u00f3 agora que estou retomando. Praticamente, n\u00e3o escrevi nada nestes dois anos. E nem fiz filmes. Eu terminei de fazer filmes um pouco antes desse acontecimento. Esse luto fort\u00edssimo se mistura ainda com outros lutos que tive nos \u00faltimos dois anos. Com lutos de ver muita coisa que ajudei a fazer no campo pol\u00edtico, por exemplo, dar para tr\u00e1s. \u00c9 terr\u00edvel voc\u00ea pensar que esse dar para tr\u00e1s pode ser definitivo. Ningu\u00e9m mais vai recompor as coisas que eu fiz ou que eu fiz com a minha gente. Isso \u00e9 uma mistura. A outra mistura foi que nunca esperei na minha vida pegar uma pandemia. Para mim, era coisa de literatura. Peguei de cara. De frente. De repente, assim, sem nem saber direito o que era. Tive que voltar \u00e0 &#8220;A Peste&#8221;, de Albert Camus, para ver o que era uma pandemia. E tudo foi se somando, tendo como base, e eu diria como substrato, a dor enorme de Concei\u00e7\u00e3o. (pausa, l\u00e1grimas). Dor que n\u00e3o passou ainda, como voc\u00eas est\u00e3o vendo. Mas eu me esfor\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 (fazendo cora\u00e7\u00e3o e mandando beijo) Te amo, Landinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Te amo, tamb\u00e9m. Voc\u00ea e Jamille. Porque Jamille pode ficar zangada.<br \/>\nJamille \u2013 H\u00e1 amor para todos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_67479\" aria-describedby=\"caption-attachment-67479\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-67479 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/BANNER_diretoras-e-Orlando_foto-Gabriel-Teixeira-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/BANNER_diretoras-e-Orlando_foto-Gabriel-Teixeira-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/BANNER_diretoras-e-Orlando_foto-Gabriel-Teixeira-copiar-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-67479\" class=\"wp-caption-text\"><em>Orlando, Lara e Jamille<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lara, Jamille, o filme passou pelo per\u00edodo de festivais em plena pandemia, quando todos os eventos foram on line. Agora, ele entra no streaming e no Canal Brasil, seguindo um novo caminho de sua trajet\u00f3ria. Queria ouvir de voc\u00eas sobre esse momento. Sobre essa trajet\u00f3ria de \u201cO Amor Dentro da C\u00e2mera\u201d.<\/strong><br \/>\nLara \u2013 Menino&#8230; (Pausa) Pois \u00e9. O filme&#8230; ele&#8230; (pausa) Concei\u00e7\u00e3o se vai, tem a partida dela. O filme estreia, vem a pandemia. O filme meio que foi tra\u00e7ando seus caminhos. Voc\u00ea entende? Claro que fomos n\u00f3s que tra\u00e7amos esse caminho junto com ele, mas havia tantas demandas. E que, de certa forma, a gente foi conduzindo o filme. Ele foi indo para os festivais, e n\u00f3s fomos tentando viver, estar bem de alguma maneira. Ent\u00e3o, acho que nesse ponto o filme, realmente, desgrudou de mim. Eu o sinto bastante desgrudado. Ele estava bastante grudadinho em n\u00f3s quatro. Eu, Jamille, Orlando, Concei\u00e7\u00e3o \u00e9ramos um grupinho bem grudadinho, assim, o tempo inteiro. Eles dois, inclusive, relutaram a ter outras pessoas na equipe. Que depois foram muito bem recebidas. Mas foi um filme feito com muito poucas pessoas dentro do set de filmagem e isso se agrega em outros \u00e2mbitos. Mas sinto que a gente teve que se desgrudar. Ficamos mais separados, tamb\u00e9m, fisicamente. Teve uma despedida de Conce desse plano. E o filme foi para um outro lado. Agora, espero que seja algo muito bonito para quem assista. Que esse filme entre na casa de cada um com o streaming e com o Canal Brasil. Que realmente entre na casa de cada um mais ainda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Quando voc\u00ea falou sobre o filme ser lindo, eu me lembrei que todo mundo que assiste ao filme diz isso. As pessoas n\u00e3o precisam esperar uma pergunta nossa. Nunca precisou. Eles assistem ao filme e vem falar sobre terem se emocionado. N\u00e3o precisa a gente ficar perguntando, como aqueles diretores de cinema nervosos, na porta do cinema esperando que o cara passe depois de ver o filme. N\u00e3o precisa. Se esse filme for passar no cinema e a gente ficar na porta, vem todo mundo para abra\u00e7ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Essa \u00e9 uma boa ideia. Recebemos muitos abra\u00e7os virtuais. A gente nunca assistiu ao filme na tela grande, at\u00e9 o momento. O filme foi para o streaming, agora estreia no Canal Brasil, sem a gente ter tido essa experi\u00eancia do cinema. Mas fico pensando, tamb\u00e9m, que se trata de um filme sobre o amor dentro de uma casa. E que, tamb\u00e9m, representa esse amor. E as pessoas assistiram a esse filme dentro das suas casas. Esse filme entrela\u00e7ado de amor entre pessoas, de amor entre pessoas e cinema. De amor entre cinemas. At\u00e9 como Orlando fala no filme, que \u00e9 amor entre tudo. Amor entre os minerais, amor entre todas as formas de vida. E tamb\u00e9m acho que o cinema \u00e9 uma forma de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 N\u00e3o \u00e0 toa existe a express\u00e3o &#8220;coisa de cinema&#8221;. N\u00e3o \u00e9 coisa da vida. \u00c9 uma coisa de cinema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Exatamente. \u00c9 verdade. \u00c9 uma coisa de cinema. E acho que, hoje, eu sou p\u00fablico desse filme, tamb\u00e9m, sabe? Assisti a ele recentemente e assisti como p\u00fablico. N\u00e3o senti aquela apreens\u00e3o de ter dirigido. Eu senti uma vontade de&#8230; Uma coisa que falo \u00e9 que eu fa\u00e7o audiovisual, mas que eu nunca posso deixar de ser p\u00fablico. N\u00e3o uso as ferramentas que tenho para fazer o meu trabalho sempre para julgar um filme. Gosto de simplesmente ser capturada e ser abra\u00e7ada por um filme. E estou conseguindo viver isso com um filme que a gente dirigiu. Isso \u00e9 muito legal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O filme agora passa por essa ressignifica\u00e7\u00e3o com o streaming, do mesmo modo que o cinema passa.<\/strong><br \/>\nOrlando \u2013 Para os cin\u00e9filos, esse aspecto \u00e9 muito interessante. Eles se interessam muito por isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jamille \u2013 A gente foi pega de surpresa pela pandemia. Nem eu, mesma, pensei que iria passar por uma pandemia. Ter um filho crescendo na pandemia \u00e9 muito louco. Crian\u00e7a que nasce achando que \u00e9 normal uso de m\u00e1scara. Que \u00e9 anormal n\u00e3o usar. Mas, voltando, a gente fez um filme pensado todo dentro de casa, antes da pandemia, sem pensar em pandemia. Fizemos um filme no qual tentamos ser o mais \u00edntimo poss\u00edvel, todo dentro de casa. E quando vai estrear, acontece uma pandemia e acontece de estar todo mundo dentro de casa. Tivemos que circular pelos festivais dentro de casa. N\u00e3o tivemos contato com o p\u00fablico, n\u00e3o tivemos contato com os cinemas, com a tela grande. Tivemos esse retorno apenas virtual. E por causa da pandemia, a gente meio que passou pelo per\u00edodo de cinema. N\u00e3o quer\u00edamos esperar mais por isso. At\u00e9 porque a gente n\u00e3o sabe at\u00e9 quando vai isso. Hoje mesmo recebi e-mail dizendo que vai voltar a obrigatoriedade das m\u00e1scaras nas escolas. Ent\u00e3o, resolvemos investir logo nessa quest\u00e3o de levar o filme para as telas das casas atrav\u00e9s dos canais de streaming e do Canal Brasil justamente porque estamos vivendo um momento totalmente incerto e n\u00e3o sabemos o que vai acontecer. Queremos que \u201cO Amor Dentro da C\u00e2mera\u201d v\u00e1 para as casas das pessoas e n\u00e3o s\u00f3 aquelas que tiveram acesso aos festivais on line. Queremos que as pessoas que sempre perguntam, os familiares, os amigos, finalmente possam ter o filme dentro de casa. Acho importante ter esse retorno das pessoas j\u00e1 que a gente n\u00e3o pode estar dentro do cinema recebendo esse abra\u00e7o pessoal, j\u00e1 que \u00e9 um filme que fala de amor. Eacho importante continuar espalhando amor em um momento t\u00e3o estranho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Interessante que o que estamos falando, a s\u00edntese dessas frases, pois tamb\u00e9m \u00e9 um filme sobre envelhecimento. Inclusive, de uma maneira muito natural, de uma maneira muito&#8230; O tema entrou no filme sem nenhum esfor\u00e7o, sem nada de quem criou o filme. Ele apareceu como aparece na vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 E tem uma coisa engra\u00e7ada no filme que \u00e9 sobre conviver com Con\u00e7a e Lando para al\u00e9m do filme, mas, tamb\u00e9m, no filme, e tamb\u00e9m no processo de montagem do filme. E \u00e9 importante dizer que isso n\u00e3o \u00e9 uma romantiza\u00e7\u00e3o boba das rela\u00e7\u00f5es. Existem rela\u00e7\u00f5es que precisam terminar, entende? Que n\u00e3o devem durar. N\u00e3o \u00e9 que todos os amores devem ser duradouros. \u00c0s vezes os amores duram menos e s\u00e3o amores, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 \u00c0s vezes os amores nem duram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Nem duram. E s\u00e3o amores. Mas ao mesmo tempo despertou muito essa curiosidade durante o fazer do filme. Orlando sempre falava que eles eram tr\u00eas. Havia ele, mesmo. Havia Concei\u00e7\u00e3o, mesma. E havia uma terceira entidade que eram os dois juntos. E ele falava, tamb\u00e9m, dessa no\u00e7\u00e3o de aventura do estar junto a cada dia. Muitas vezes \u00e9 associado at\u00e9 mesmo a uma mesmice. O tipo que pode trazer uma apatia. E \u00e0s vezes traz, mesmo. E \u00e0s vezes as rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o duram. E est\u00e1 tudo bem. Mas, assim, de certa forma, essa no\u00e7\u00e3o de aventura e de entender as personas e as entidades que se formam no amor, desperta muito a minha curiosidade no dia a dia. De entender do que \u00e9 que surge. Duas pessoas s\u00e3o infinitas. Acho que \u00e9 uma no\u00e7\u00e3o na fala de voc\u00eas. Que, no fundo, duas pessoas s\u00e3o infinitas. Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 exatamente o mesmo. \u00c9 sempre novo, de alguma maneira. N\u00e3o sei o que voc\u00ea acha, Mille. Voc\u00ea que j\u00e1 est\u00e1 casada h\u00e1 15, 20 anos. (risos) Estou h\u00e1 quase seis. Mas Jamille \u00e9 uma longeva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Voc\u00ea usou um conceito que, pelo menos me rela\u00e7\u00e3o a n\u00f3s, define muito: aventura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Para a gente, pelos dois, sem nenhuma combina\u00e7\u00e3o, a vida sempre foi uma aventura. Sempre foi um descobrir de coisas. Tentar realizar coisas, o que \u00e9 t\u00edpico da aventura humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 E tem a coisa da consci\u00eancia e da rebeldia que voc\u00ea traz, tamb\u00e9m. Eu acho que isso, tamb\u00e9m, tem a ver com amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Faz parte do todo do filme. Claro que tem que ver com amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jamille \u2013 Vou fazer 13 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Vai fazer 13 anos de casamento?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Hastag Resist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jamille \u2013 Eu acho que o amor tem que estar ligado muito com a aventura, mesmo. Porque, claro, nesses 13 anos tivemos crises. Principalmente nesse momento pand\u00eamico. Quem n\u00e3o, n\u00e9? E veio aquela ideia de: &#8220;ah, vamos nos separar&#8221;. Mas a\u00ed fal\u00e1vamos: &#8220;Beleza. Mas porque mesmo que vamos nos separar?&#8221; A\u00ed come\u00e7amos a analisar. &#8220;Porra, velho, \u00e9 porque n\u00e3o estamos nos divertindo. Esse \u00e9 o problema.&#8221; Ent\u00e3o, isso n\u00e3o \u00e9 motivo. A gente precisa se divertir, precisamos de aventuras. Ent\u00e3o, n\u00e3o nos separamos (risos) porque nos demos conta que esses momentos de crise t\u00eam a ver com esse stress \u2013 que veio da pandemia, principalmente, um momento em que a gente tem que levar em considera\u00e7\u00e3o v\u00e1rias coisas e tem que pensar que \u00e9 um momento de sobreviv\u00eancia. \u00c9 um momento de sobreviver, n\u00e3o \u00e9 de tomar muitas decis\u00f5es. E por isso que, sim, o amor est\u00e1 totalmente interligado \u00e0 aventura. Como o amor de Concei\u00e7\u00e3o e Orlando, que \u00e9 um amor que me inspira muito. E eu queria complementar uma pergunta que voc\u00ea fez para Orlando no in\u00edcio, Jo\u00e3o. Sobre essas pessoas que eles conheceram, que fizeram parte de toda essa trajet\u00f3ria, que s\u00e3o contempor\u00e2neos deles. Pois foi a partir de escutar essas hist\u00f3rias que eles sempre nos contavam, tipo, pegar \u00f4nibus com Sartre&#8230; A gente n\u00e3o colocou v\u00e1rias coisas no filme. Conhecer Glauber aos 13 anos, depois Glauber vai escrever boa parte dos livros dele na casa deles. Garcia Marquez, tamb\u00e9m, escreveu alguns contos na casa deles. Enfim, v\u00e1rias hist\u00f3rias e aventuras de hist\u00f3rias de amor e aventuras de amizades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Falando em aventuras, o Garcia Marquez ficou escondido da imprensa e dos f\u00e3s aqui nessa casa. Ele escrevia aqui nessa mesa. Ele fugiu do hotel e veio para c\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jamille \u2013 Pois \u00e9. A gente n\u00e3o colocou nem a vig\u00e9sima parte disso. Est\u00e1vamos lidando com uma eterna metragem. E tivemos que fechar tudo em um longa. Mas na verdade \u00e9 um curta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 \u00c9 um ba\u00fa. Qualquer filme, qualquer vida \u00e9 um ba\u00fa muito grande. N\u00e3o vai caber tudo. Uma grande aventura que n\u00f3s consideramos que passou por n\u00f3s foi termos conhecido uma santa de verdade. N\u00f3s conhecemos uma santa da igreja cat\u00f3lica, a Irm\u00e3 Dulce. Porque os sobrinhos dela eram do teatro, o Manoel Lopes Pontes. At\u00e9 hoje tem gente do teatro na Bahia que s\u00e3o Lopes Pontes. Eles t\u00eam essa tradi\u00e7\u00e3o. E n\u00f3s \u00edamos na casa de Manoel Lopes Pontes. Concei\u00e7\u00e3o foi, durante um tempo, do grupo de teatro que ele montou. \u00cdamos muito l\u00e1 e, \u00e0s vezes, Irm\u00e3 Dulce aparecia. Sab\u00edamos que ela era uma santa como mulher, mas, depois ela virou santa de verdade. Celebramos isso como se fosse uma coisa n\u00e3o religiosa, mas, sim, uma coisa de vida. Uma santa viva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jamile \u2013 At\u00e9 santa eles conheceram. Conheceram milh\u00f5es de pessoas e eu n\u00e3o conheci ningu\u00e9m assim como eles falam. Mas me sinto muito contemplada por t\u00ea-los conhecido, pelo menos (risos). A contempla\u00e7\u00e3o vem atrav\u00e9s das hist\u00f3rias contadas. Das hist\u00f3rias ouvidas. Das hist\u00f3rias compartilhadas. E acho que foi a partir dessas hist\u00f3rias que gerou a vontade de fazer o filme. Dessas hist\u00f3rias que a gente ouvia, dessas hist\u00f3rias que a gente acaba vivendo de tanto ouvir, sentir e pensar nelas. N\u00f3s nos sentimos contempladas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Eu gosto muito de dizer que fizemos um filme de amor. Esse g\u00eanero dentro do document\u00e1rio e de todas as outras possibilidades de linguagem, no fundo no fundo \u00e9 um filme de amor. \u00c9 o que eu sinto. E teve muitas aventuras. Teve at\u00e9 o trisal que voc\u00eas iam fazer. N\u00e3o sei se isso \u00e9 muito em off.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 N\u00e3o, porque eu acho que foi uma brincadeira da Norma Bengell, ou seja, nem est\u00e1 mais entre n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 \u00c9 verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Ela n\u00e3o se incomodaria de jeito nenhum. Eu acho at\u00e9 que tivemos que segur\u00e1-la para que n\u00e3o anunciasse. Mas foi um desejo real dela de a gente organizar um trisal, ao inv\u00e9s de um casal. Morar\u00edamos juntos, tudo normal, mas s\u00f3 que com tr\u00eas e n\u00e3o com dois. (risos).<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-67485\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Conce-e-Lando-em-Cannes_frame_acervo-pessoal.jpg\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Conce-e-Lando-em-Cannes_frame_acervo-pessoal.jpg 720w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Conce-e-Lando-em-Cannes_frame_acervo-pessoal-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Orlando, para voc\u00ea que passou por tantas vidas, que conheceu tantas pessoas not\u00f3rias, o que \u00e9 o glamour? O que \u00e9 a ideia de ser famoso, na sua opini\u00e3o?<\/strong><br \/>\nOrlando \u2013 (longa pausa) \u00c0s vezes eu confundo glamour com carisma. Agora, pensando melhor, talvez n\u00e3o tenha nada a ver uma coisa com a outra. Mas para entender o mist\u00e9rio do glamour, eu misturava. Eu achava que eram sin\u00f4nimos. Mas n\u00e3o sei o que \u00e9 o glamour. \u00c9 igual ao carisma nesse sentido. A gente n\u00e3o sabe de onde vem, de onde sai daquela pessoa essa for\u00e7a. Uma for\u00e7a energ\u00e9tica muito forte. Essa energia contamina as pessoas que est\u00e3o perto. N\u00e3o \u00e9 que conquista, ela contamina, mesmo. Para poder ser glamour. Mas definir \u00e9 dif\u00edcil. Defina &#8220;deus&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Boa resposta.<\/strong><br \/>\nOrlando \u2013 Manifesta\u00e7\u00f5es do divino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Curioso como na minha profiss\u00e3o de jornalista, muitas pessoas me abordam sobre esse pretenso glamour que, para mim, n\u00e3o existe de modo algum. Essa ideia da internet concedendo uma fama pl\u00e1stica e descart\u00e1vel \u00e9 outro ponto.<\/strong><br \/>\nOrlando \u2013 \u00c9. Ser glamouroso tamb\u00e9m faz parte da vida de algumas pessoas. E essas pessoas, tamb\u00e9m, n\u00e3o obrigatoriamente sabem se explicar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Creio ser uma ideia de voc\u00ea saber conciliar esse equil\u00edbrio sem pender para um deslumbre, para uma coisa fr\u00edvola.<\/strong><br \/>\nOrlando \u2013 De uns 10 anos para c\u00e1, isso se tornou algo muito forte. A hist\u00f3ria da humanidade sempre teve essa coisa do charme, do carisma. Mas nesses \u00faltimos anos isso virou uma maneira de viver. Um modus vivendi. Uma febre. Qual a necessidade do ser humano? A necessidade pessoal de cada um? Os famosos 15 minutos da fama. Isso \u00e9 uma quase verdade. As pessoas saem correndo quando veem uma c\u00e2mera. Saem correndo em dire\u00e7\u00e3o a ela. Outros saem correndo na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. Eu estive nessa fase de correr na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. Agora, isso melhorou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Lando, voc\u00ea e Con\u00e7a j\u00e1 se sentiram glamourosos, famosos, em algum momento?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Depende da roupa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Risos gerais)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Adorei!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 \u00c9 verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 (risos) \u00c9 que eu estou precisando me sentir. Preciso de algum evento para me sentir. E voc\u00ea, Jamille, est\u00e1 glamourosa ultimamente?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jamille \u2013 Atualmente, os meus momentos de glamour s\u00e3o as lives.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Eu n\u00e3o sinto o glamour nem nas lives. Preciso caprichar mais. Nas partes de baixo das lives, eu estou de pijama.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Olha a\u00ed. Pijama com um manto em cima pode transformar uma pessoa em celebridade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jamille \u2013 Meu momento de glamour atual \u00e9 que, finalmente, ap\u00f3s quase cinco anos, eu estou come\u00e7ando a ter os meus primeiro vale-nights. (risos) Porque voc\u00eas est\u00e3o em dois anos de pandemia, mas, na verdade, eu emendei a maternidade com a pandemia. Estou fazendo cinco anos nesse isolamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Eu tenho um amigo que anda metido com essa coisa de celebridades e que ele tem uma frase que diz assim: &#8220;Estou fazendo um sucesso absurdo. \u00c9 que as pessoas n\u00e3o viram ainda. N\u00e3o notaram ainda.&#8221; (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jamille \u2013 Tem um poeminha que eu escrevi que diz: &#8220;Troco glamour por amour&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 O que significa, em franc\u00eas, glamour? Sempre tive essa curiosidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Deve ser o que n\u00f3s conhecemos, tamb\u00e9m. Deve ser a mesma coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jamille \u2013 Quando eu fiz o curso de jornalismo, eu tinha uma mat\u00e9ria chamada Hist\u00f3ria do Jornalismo, com uma professora chamada M\u00f4nica Davi. Me lembro que com um cal\u00e7a jeans surrada, uma bata branca, ela meio que sentava na cadeira e falava assim: &#8220;Quem \u00e9, quem \u00e9, quem \u00e9 aquele ser humano que circula por entre as estrelas, que est\u00e1 sempre ao redor de pessoas glamourosas, quem \u00e9, quem \u00e9? Mas que, no fim das contas, n\u00e3o tem um centavo no bolso? \u00c9 o jornalista&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Mas para ter glamour, n\u00e3o precisa ter dinheiro. Muita gente constr\u00f3i essa busca pelo glamour sem dinheiro. Jorginho Guinle, o maior playboy glamouroso aqui do Brasil, morreu sem dinheiro. Ele viveu o fim da vida dele sem dinheiro. Era uma pessoa que gastava um milh\u00e3o de francos em uma noite em Paris. Isso porque a fam\u00edlia dele tinha dinheiro. Ele nunca meteu a m\u00e3o em dinheiro, nunca procurou dinheiro. N\u00e3o sabia nem o que era. At\u00e9 o dia que ficou sem dinheiro. Quando ficou pobre, ele foi ao banco, que era dos primos dele e que tinha sido do pai dele, pedir um empr\u00e9stimo. O primo dele disse que n\u00e3o poderia, pois ele n\u00e3o tinha o que dar como garantia, como uma casa. E ele s\u00f3 disse: &#8220;Mas esse banco \u00e9 do meu pai. Meu dinheiro est\u00e1 a\u00ed&#8221;. Mesmo assim o parente n\u00e3o lhe deu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 O glamour n\u00e3o est\u00e1 resolvendo muita coisa, n\u00e3o. Ah, uma coisa que eu lembrei, Mille e Lando, falando em rela\u00e7\u00e3o ao amor, n\u00e3o ao glamour exatamente, mas ao amor do filme. Acho que durante as filmagens&#8230; Eu fiquei lembrando disso. Sempre me lembro disso, na verdade. E sempre reafirmo o que me veio \u00e0 mente na primeira pergunta. Era assim: a gente est\u00e1 mostrando um amor, tamb\u00e9m o cinema e tamb\u00e9m uma hist\u00f3ria de amor de duas pessoas, e a parte ruim dessa hist\u00f3ria. &#8216;&#8221;Ah, ser\u00e1 que estamos idealizando, mostrando somente a parte boa?&#8221; ou &#8220;Ah, mas toda rela\u00e7\u00e3o tem problemas, \u00e0s vezes grandes. E decep\u00e7\u00f5es e tristezas tamb\u00e9m&#8221;. Eu sempre penso nisso. Acho que a resposta que eu sempre digo \u00e9 que n\u00f3s escolhemos fazer um filme carinhoso, sabe? Foi uma escolha. Temos o direito de mostrar esse amor dessa forma, entende?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 As pessoas n\u00e3o passam t\u00e3o inc\u00f3lume pelo filme, n\u00e3o. \u00c9 um filme de amor, sim. \u00c9 gostoso do in\u00edcio ao fim, do primeiro ao \u00faltimo segundo de proje\u00e7\u00e3o? N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9. Tem coisas como Concei\u00e7\u00e3o chorando no final&#8230; \u00e9 duro. Ou seja, \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o de que a dor tamb\u00e9m est\u00e1 ali no meio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Eu n\u00e3o sei o que voc\u00ea acha, Jo\u00e3o. At\u00e9 voltando a pergunta a Mille. A gente se questionou durante o fazer do filme. Para n\u00e3o mostrar um amor idealizado, entendeu? \u00c0s vezes temos esse medo. At\u00e9 onde o amor vai? At\u00e9 onde se idealiza o amor?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Eu usei uma palavra, que n\u00e3o me lembro qual \u00e9, que voc\u00ea me deu um car\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Eu?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Sim. Como diretora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Eu nunca briguei com voc\u00ea. S\u00f3 quando voc\u00ea n\u00e3o quis tomar um banho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Voc\u00ea estava me entrevistando em uma mesa. E falo sobre beijinhos serem piegas, que n\u00e3o queria saber disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Ah, foi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Eu estava me referindo \u00e0 superficialidade que tamb\u00e9m existe no amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Mas n\u00e3o acho carinho e beijinho superficiais. Sou louca por carinho e beijinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Eu tamb\u00e9m!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Queria defender a meu ponto de vista. Acho que (dizer) &#8220;Te amo, meu amorzinho&#8221; \u00e9 fundamental. Eu amo essas coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jamille \u2013 \u201cO Amor Dentro da C\u00e2mera\u201d \u00e9 um filme de amor, mas acho que a gente buscou mostrar quais s\u00e3o os elementos com os quais se constr\u00f3i o amor. E elementos reais e palp\u00e1veis, no sentido n\u00e3o s\u00f3 positivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 No amor, os argumentos precisam ser palp\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 \u00c9. (risos) E eu acho que colocamos no filme pensando nessas coisas, tipo&#8230; ci\u00fames, d\u00favidas, incertezas, saudade, aventura, mudan\u00e7as&#8230; Tudo isso constr\u00f3i uma rela\u00e7\u00e3o. Constr\u00f3i o amor de uma rela\u00e7\u00e3o. E acho que a gente buscou esse elementos que constroem e constru\u00edram esse amor para colocar no filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Faz parte dessa receita desse bolo um tomar conta do outro. \u00c9 um aspecto que acho importante em uma rela\u00e7\u00e3o, qualquer rela\u00e7\u00e3o, mas principalmente nas longevas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Voc\u00ea at\u00e9 fala que a sua rela\u00e7\u00e3o com Concei\u00e7\u00e3o \u00e9 de depend\u00eancia amorosa no sentido mais profundo. Acho que \u00e9 isso. \u00c9 um filme de amor, mas n\u00e3o \u00e9 aquela coisa o tempo todo &#8220;tchuck tchuck&#8221; (risos). \u00c9 essa constru\u00e7\u00e3o, mesmo. E que faz parte do nosso dia a dia, da nossa realidade. \u00c9 do ser humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Respondendo sua pergunta, Lara, n\u00e3o creio que seja um filme que romantiza de modo raso aquela rela\u00e7\u00e3o, n\u00e3o. Inclusive, tem um momento em que Concei\u00e7\u00e3o demonstra certa impaci\u00eancia, perguntando \u00e0s meninas a hora em que era iam embora aquele dia.<\/strong><br \/>\nOrlando \u2013 Sim. Tem esse momento. E eu tamb\u00e9m dou um fora assim: &#8220;Vou-me embora. Tamb\u00e9m tenho que sair&#8221;. As pessoas estavam irritadas naquele momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim. Isso \u00e9 a prova que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 romantiza\u00e7\u00e3o. H\u00e1 momentos em que as pessoas est\u00e3o \u00e0 flor da pele por alguma raz\u00e3o.<\/strong><br \/>\nOrlando \u2013 Sim. Uma raz\u00e3o at\u00e9 externa ao filme, a qualquer coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Sim. Fizemos quest\u00e3o de colocar essa parte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Concei\u00e7\u00e3o chega a dizer que est\u00e1 nervosa, acho. Ela diz algo&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Ela diz que est\u00e1 muito excitada e que vai sair por isso. &#8220;Hoje voc\u00eas v\u00e3o embora mais cedo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jamille \u2013 Fizemos quest\u00e3o de colocar essa parte no filme justamente para refor\u00e7ar que isso faz parte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Ficou perfeito. O filme que tem uma coisa&#8230; Estamos discutindo o porqu\u00ea das pessoas gostarem do filme. Nem \u00e9 porque gostamos, mas por que as pessoas gostam. E \u00e9 porque tem um equil\u00edbrio. Essas coisas fazem parte desse equil\u00edbrio interno. Fazem parte do filme essas coisas. Se elas n\u00e3o estivessem ali, seria outro filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Orlando amou o filme. Voc\u00eas podem reparar. A gente tamb\u00e9m amou. N\u00e3o temos problema nenhum em dizer isso. Amamos o filme que fizemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 \u00c9 algo muito pessoal. Muito pessoal de cada um. S\u00f3 poder\u00edamos gostar, mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Eu vou ficar me maltratando, mostrando defeitos? N\u00e3o! Eu amo o filme, mesmo. N\u00e3o estou dizendo que ele seja perfeito, mas, sim, que o amo. Fa\u00e7o coisas para achar ruim? Fa\u00e7o para achar bom, mesmo. O mundo est\u00e1 t\u00e3o dif\u00edcil e eu ainda vou ficar falando mal da gente? Nosso filme \u00e9 lindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 N\u00e3o temos tempo para trag\u00e9dias. Acabo de criar essa frase. Se algu\u00e9m quiser usar, eu cobro 10%. (risos)<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-67481\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/fotos-de-cena-06_frame-copiar.png\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/fotos-de-cena-06_frame-copiar.png 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/fotos-de-cena-06_frame-copiar-300x176.png 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Orlando, voc\u00ea passou por v\u00e1rias revolu\u00e7\u00f5es do cinema. Viu surgir os diferentes modos de capta\u00e7\u00e3o, pel\u00edcula, super 8, v\u00eddeo, digital. Agora a pouco voc\u00ea comentou sobre a import\u00e2ncia da sala de cinema. Para algu\u00e9m que passou por tudo isso, qual sua opini\u00e3o acerca do futuro do cinema?<\/strong><br \/>\nOrlando \u2013 J\u00e1 est\u00e1 se vendo. N\u00e3o \u00e9 preciso nem se pensar muito para se adivinhar o futuro. A apreens\u00e3o do cinema, n\u00e3o s\u00f3 a feitura, mas, talvez, basicamente e principalmente, a apreens\u00e3o da arte cinema por aqueles que gostam disso e at\u00e9 pelos que n\u00e3o gostam, est\u00e1 mudando muito. E vai mudar radicalmente. Com o streaming, inclusive. Todas essas novas tecnologias de distribui\u00e7\u00e3o e exibi\u00e7\u00e3o \u2013 a exibi\u00e7\u00e3o est\u00e1 mudando totalmente. N\u00e3o tem muito tempo que as pessoas n\u00e3o queriam ver filme aqui (apontando para o celular). Isso aqui n\u00e3o \u00e9 filme. Hoje, ningu\u00e9m sequer pensa nisso. J\u00e1 come\u00e7am a consumir naturalmente, como se fosse uma coisa normal de ser consumida. Ent\u00e3o, isso da gente j\u00e1 poder ver agora e estar ainda no in\u00edcio dessa evolu\u00e7\u00e3o, dessa mudan\u00e7a&#8230; n\u00e3o sei se \u00e9 uma evolu\u00e7\u00e3o, mas acho que sim. \u00c9 uma coisa que j\u00e1 d\u00e1 at\u00e9 para definir. N\u00e3o est\u00e1 muito longe de uma realidade total. Lembro que n\u00e3o tem muito tempo que eu pegava o celular e dizia assim: &#8220;Daqui a pouco todo mundo vai ter uma c\u00e2mera&#8221; e mostrava o aparelho nas confer\u00eancias que eu participava. E n\u00e3o tem nem oito anos isso. S\u00f3 tem isso. &#8220;Daqui a pouco isso aqui se tornar\u00e1 uma c\u00e2mera&#8221;. E n\u00e3o era assim ainda. &#8220;Todo mundo vai ter uma. Todo mundo vai ser cineasta&#8221;. Eu defendi essa tese durante muito tempo. E continuo defendendo. Acho que vai acontecer isso. E j\u00e1 est\u00e1 se sentindo isso. Estou trabalhando agora com o pessoal da Mar\u00e9. Jovens cineastas da Mar\u00e9, e n\u00e3o-cineastas jovens. Todo mundo tem uma c\u00e2mera. Pode n\u00e3o ter comida, mas c\u00e2mera tem. E isso vai ser um sonho do Dziga Vertov. Todo mundo com uma c\u00e2mera. Ele viu al\u00e9m disso. No filme dele, \u201cO Homem com a C\u00e2mera\u201d (1929), a c\u00e2mera e o trip\u00e9 saem articuladamente da caixa, sem que ningu\u00e9m toque neles. Eu acho que por a\u00ed vai o futuro do cinema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Essa maneira de ver o cinema, de assistir aos filmes, de considerar a tela do celular como um meio de acesso natural ao cinema, \u00e9 algo que, na sua opini\u00e3o, pode torn\u00e1-lo f\u00fatil?<\/strong><br \/>\nOrlando \u2013 F\u00fatil, acho que n\u00e3o. Olha, de vez em quando, agora que est\u00e1 f\u00e1cil assistir a filmes cl\u00e1ssicos de verdade em canais como esse da Globoplay (hoje, inclusive, vi um de 1919), \u00e9 que a gente percebe o tamanho da evolu\u00e7\u00e3o. \u00c9 enorme. Lembro de um estudo que foi feito na Fran\u00e7a e que levou \u00e0 seguinte conclus\u00e3o: se pegassem um cara dos anos 1910 que gostava de cinema naquela d\u00e9cada e o trouxessem para o tempo presente em um filme atual, como algo de super-her\u00f3i, por exemplo, que ele n\u00e3o aguentaria assistir ao filme. Para come\u00e7ar, ele ficaria nauseado, teria que ir ao banheiro. Ele, possivelmente, passaria por um processo de sentir cheiros. Pois \u00e9 algo t\u00e3o diferente que ele n\u00e3o conseguiria assistir, simplesmente. Nos campos das teorias, chega-se at\u00e9 a essa teoria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 E o contr\u00e1rio, tamb\u00e9m. Falo isso porque o meu enteado de 12 anos, quando eu o coloco para assistir a filmes cl\u00e1ssicos&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Mas esse a\u00ed \u00e9 filho do cinema. Aos 12 anos, j\u00e1 \u00e9 outra rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara: Mas sempre tem uma estranheza dos filmes mais antigos para quem est\u00e1 acostumado com outro tipo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 \u00c9 claro que \u00e9 diferente. \u00c9 com o olho pregado na tela e perguntando: &#8220;o que \u00e9 isso?&#8221; Deve ter sido essa rea\u00e7\u00e3o, mais ou menos: &#8220;O que \u00e9 isso?&#8221; Mas essa rea\u00e7\u00e3o passa. Isso que eu estou mencionando \u00e9 algo de choque total. Do cara adoecer. Acho que \u00e9 por a\u00ed. Voc\u00ea tem que pensar nisso e tamb\u00e9m do chipzinho aqui incrustado (aponta para a pr\u00f3pria cabe\u00e7a).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Como Concei\u00e7\u00e3o fala no filme. Est\u00e1 vindo o chip por a\u00ed. A nanotecnologia. (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual sua opini\u00e3o, Lara?<\/strong><br \/>\nLara \u2013 Eu tenho a maior dificuldade em prever coisas. Tudo que eu prevejo \u00e9 diferente. Eu duvidava que Bolsonaro ganhasse. Que Dilma sofresse impeachment. Se eu for dar algum palpite sobre o futuro do cinema&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Est\u00e1 at\u00e9 mais f\u00e1cil do que dar palpite com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Mas a sua pergunta foi sobre a mudan\u00e7a para o streaming, sobre o passado e o presente do cinema?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sobre a banaliza\u00e7\u00e3o do cinema pelo espectador quando se tem acesso \u00e0s obras em uma tela de celular.<\/strong><br \/>\nLara \u2013 Eu acho que o cinema est\u00e1 al\u00e9m da ferramenta. Uma coisa \u00e9 a ferramenta. \u00c9 o celular. Certo? A outra coisa \u00e9 a narrativa. \u00c9 tudo que envolve o cinema. A narrativa, o desejo, a hist\u00f3ria, as pessoas, a forma de lidar. Ent\u00e3o, acho que o celular \u00e9 a ferramenta. Agora, o que faremos com ela&#8230; Voc\u00ea entende? O celular, sozinho, n\u00e3o faz o cinema. Quando dou minhas aulas, sempre coloco o celular no ch\u00e3o. Eu digo: filma! Claro que a ideia \u00e9 uma conjun\u00e7\u00e3o dos nossos corpos, sentimentos e da c\u00e2mera, que est\u00e1 no dispositivo. Mas isso vai al\u00e9m do dispositivo somente, entende? Eu acho que \u00e9 uma conjun\u00e7\u00e3o. \u00c9 a nossa humanidade com o celular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Dentro disso que a gente j\u00e1 sabe que vai existir, podemos pensar desde hoje, desde agora, coisas da evolu\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o ao olhar. Ou seja, o que as pessoas v\u00e3o ver. J\u00e1 tem lanternas exibidoras. Voc\u00ea tira do bolso, coloca no aparelho e projeta em 6mx6m, e voc\u00ea v\u00ea uma tela que nunca viu. J\u00e1 tem celulares projetores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Eu diria que s\u00e3o duas coisas: o acesso e a educa\u00e7\u00e3o. Uma coisa \u00e9 acessar, outra \u00e9 essa coisa maravilhosa de se educar &#8220;audiovisualmente&#8221;, que \u00e9 uma coisa que Orlando sempre falou. E isso antes dos celulares serem algo t\u00e3o acess\u00edvel. Antes. E n\u00f3s nos conhecemos h\u00e1 16 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Eu peguei essa tese antes do Big Bang.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Antes de a gente ter nascido.<br \/>\nOrlando \u2013 Mas \u00e9 uma coisa organizada. Desde a escola fundamental at\u00e9 a universidade. O que eu pregava era que se desse a mesma aten\u00e7\u00e3o que as escolas d\u00e3o \u00e0 l\u00edngua matter do pa\u00eds em que est\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Ent\u00e3o, o acesso \u00e9 algo conjugado. H\u00e1 um contexto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Conjugado com a educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Exatamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jamille: McLuhan fala que os meios de comunica\u00e7\u00e3o s\u00e3o nossas extens\u00f5es. Mas o celular, a c\u00e2mera, a previs\u00e3o \u00e9 que seja, tamb\u00e9m, uma extens\u00e3o do corpo. Mas n\u00e3o adianta voc\u00ea ter essa ferramenta se n\u00e3o souber direito como us\u00e1-la. Eu tamb\u00e9m trabalho com Educa\u00e7\u00e3o e fala-se muito da sensibiliza\u00e7\u00e3o do olhar. De como cuidar disso. Porque, hoje em dia, \u00e9 isso. Todo mundo tem um celular com a c\u00e2mera, todo mundo posta v\u00eddeos, mas dizer que aquilo \u00e9 ou n\u00e3o cinema, \u00e9 outro caminho. Temos que trabalhar nessa educa\u00e7\u00e3o audiovisual. Nessa sensibiliza\u00e7\u00e3o do olhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 E isso j\u00e1 \u00e9 outro tipo de educa\u00e7\u00e3o que essa tecnologia est\u00e1 pedindo. O \u201cDa Ideia ao Roteiro\u201d, (livro) de Doc Comparato, pode jogar no lixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Por que? Eu n\u00e3o li.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando: \u00c9 o best seller do Doc Comparato. Todo mundo fazia isso antigamente. Todo roteirista queria fazer o seu pr\u00f3prio livro sobre o assunto. Eu mesmo fiz um, mas n\u00e3o publiquei. Meus alunos conhecem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Eu acho que as coisas existem juntas. Coexistem. Sinto o cinema extremamente corporal, sabe? Isso coexiste com a ideia do celular, e de Vertov etc. Mas sinto extremamente corporal. Porque quando eu lembro desse filme que fizemos, e que continuamos vivendo ele, agora que vai estrear no Canal Brasil, eu lembro do cheiro do apartamento, lembro de passar a m\u00e3o no cabelo de Orlando. Essa ideia da m\u00e3o adentrando na cabeleira branca, assim. Prateada, pois agora ela j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 mais branca, mas, sim, quase diamante. Ent\u00e3o, enfim, acho no final isso leva para a gente, tamb\u00e9m. Isso \u00e9 massa. E que bom que temos essas ferramentas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 A verdade \u00e9 que o filme n\u00e3o \u00e9 eterno, mas o Cinema, sim. Uma boa frase a\u00ed para a sua chamada, Jo\u00e3o. Criei agora j\u00e1 com os 10%.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Estamos muito criativos, hoje (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jamille \u2013 Quando surgiu o jornal, o r\u00e1dio, a TV, sempre se especulou que o anterior ia se acabar. N\u00e3o \u00e9 porque a televis\u00e3o chegou&#8230; N\u00e3o \u00e9 porque a gente tem um cinema, digamos, dentro de um aparelho de celular, que vai acabar o cinema, que vai acabar a TV. N\u00e3o. S\u00e3o outras formas que se agregam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 O podcast que \u00e9 uma r\u00e1dio, por exemplo. Um novo formato de r\u00e1dio que voc\u00ea v\u00ea de outro jeito, de certa forma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Al\u00e9m disso, tem esse &#8220;dar-se conta&#8221; nas pessoas que trabalham nisso. Essa evolu\u00e7\u00e3o incr\u00edvel, nesse momento est\u00e1 produzindo uma incr\u00edvel procura por filmes antigos. Todo filme antigo existente no mundo est\u00e1 sendo ca\u00e7ado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gostaria de fechar a conversa com uma pergunta sobre nosso contexto pol\u00edtico que se difere muito daquela falta de horizontes que existia na ocasi\u00e3o de nosso papo ano passado. Orlando, voc\u00ea foi secret\u00e1rio do governo Lula, e ele poder\u00e1 voltar ao cargo ano que vem. Voc\u00ea \u00e9 otimista para os pr\u00f3ximos quatro, qui\u00e7\u00e1 oito, anos no Brasil?<\/strong><br \/>\nOrlando \u2013 Eu sou um otimista por v\u00edcio. \u00c9 aquela coisa que n\u00e3o sabermos como largar. Confio no ser humano. O ser humano faz cagadas \u00e0 vontade. Cagadas horrorosas. Terr\u00edveis. Mas de alguma maneira, t\u00eam uma sa\u00edda. Sabem como sair. Inventam. T\u00eam uma certa inventividade. Uma certa criatividade para sair dos buracos, dos abismos que os pr\u00f3prios humanos criaram. Acho que a gente sabe, ou inventa o saber para sair dessas terr\u00edveis coisas que n\u00f3s mesmos fazemos a n\u00f3s e ao planeta. Por isso sou otimista. Mas n\u00e3o sou um otimista que diz que tudo ser\u00e1 feito \u00e0s mil maravilhas. N\u00e3o. Haver\u00e1 guerras e muito sangue. As imagens das cidades mortas da Ucr\u00e2nia \u00e9 algo que isso nos mostra. Nem nas Grandes Guerras que aconteceram no s\u00e9culo XX, as pessoas matavam a cidade e iam embora. Matavam a cidade era para matar os soldados que estavam l\u00e1 dentro visando amedrontar o pa\u00eds inimigo. Mas, n\u00e3o. Agora, na Ucr\u00e2nia, est\u00e3o fazendo esse tipo de coisa. Uma coisa nova: matando cidades. Vai l\u00e1, destr\u00f3i tudo, se houver pessoas, corram ou morram. Parte das cidades mortas s\u00e3o um monte de cad\u00e1veres. Mas o conceito \u00e9 cidades mortas. \u00c9 matar cidades. Isso \u00e9 s\u00f3 um exemplo. As pessoas pensar\u00e3o em coisas mais terr\u00edveis. Mas isso n\u00e3o quer dizer que eu abandone o meu otimismo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"O AMOR DENTRO DA CAMERA - trailer\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Sqyq9sPlntA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Neste novo papo com o Scream &#038; Yell, Orlando, Lara e Jamille trazem novas impress\u00f5es sobre o processo de cria\u00e7\u00e3o de &#8220;O Amor Dentro da C\u00e2mera&#8221;, sobre o cinema como imers\u00e3o, sobre longevidade e, claro, sobre Concei\u00e7\u00e3o Senna e a falta que ela faz. \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/07\/06\/entrevista-orlando-sena-lara-beck-e-jamille-fortunato-voltam-ao-amor-dentro-da-camera-por-ocasiao-de-sua-estreia-em-streaming-e-no-canal-brasil\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":67478,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/67477"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=67477"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/67477\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":67494,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/67477\/revisions\/67494"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/67478"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=67477"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=67477"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=67477"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}