{"id":673,"date":"2008-12-23T11:26:18","date_gmt":"2008-12-23T13:26:18","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=673"},"modified":"2016-09-10T10:16:46","modified_gmt":"2016-09-10T13:16:46","slug":"o-livro-obrigatorio-numero-1-sobre-rock","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2008\/12\/23\/o-livro-obrigatorio-numero-1-sobre-rock\/","title":{"rendered":"O livro obrigat\u00f3rio n\u00famero 1 sobre rock"},"content":{"rendered":"<p style=\"TEXT-ALIGN: center\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-674  aligncenter\" title=\"bill_graham\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2008\/12\/bill_graham.jpg\" alt=\"\" width=\"480\" height=\"689\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2008\/12\/bill_graham.jpg 480w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2008\/12\/bill_graham-208x300.jpg 208w\" sizes=\"(max-width: 480px) 100vw, 480px\" \/><br \/>\n<strong>Por Marcelo Costa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabe o &#8220;Mate-me Por Favor&#8221;? Esque\u00e7a. &#8220;Hammer of Gods&#8221;? Deixe de lado. &#8220;Come As You Are&#8221;? Aposente. O livro definitivo sobre rock and roll atende pelo nome de &#8220;Bill Graham Apresenta: Minha Vida Dentro e Fora do Rock&#8221;, escrito a quatro m\u00e3os pelo pr\u00f3prio Graham e por Robert Greenfield. Agora, cacete, quem \u00e9 esse tal de Bill Graham, pergunta o leitor esperto antes de &#8220;dar um google&#8221;. Vamos l\u00e1: Bill Graham foi um dos produtores respons\u00e1veis em transformar o rock em um neg\u00f3cio lucrativo. Bem poss\u00edvel que sem ele o rock ainda estivesse na idade da pedra e, hoje em dia, voc\u00ea estivesse ouvindo jazz, bebop ou quetais ao inv\u00e9s de guitarras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro segue o mesmo formato do citado &#8220;Mate-me Por Favor&#8221;, acumulando centenas de entrevistas que se sucedem uma ap\u00f3s a outra em um trabalho primoroso de edi\u00e7\u00e3o que procura esmiu\u00e7ar o assunto do cap\u00edtulo ouvindo todas as partes da hist\u00f3ria, com exce\u00e7\u00e3o, \u00f3bvia, aos m\u00e1rtires do rock que partiram cedo demais. Jim Morrison (que faltou a um show produzido por Graham para assistir \u2013 tr\u00eas vezes \u2013 ao filme &#8220;Casablanca&#8221;), Jimi Hendrix (que tocou fogo dezenas de vezes em sua guitarra na frente de Graham) e Janis Joplin (que desabafou para o amigo: &#8220;os caras da minha banda est\u00e3o l\u00e1 se divertindo com as garotas. E o que uma mulher faz ap\u00f3s um show?&#8221;) estrelam passagens antol\u00f3gicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria de Bill Graham, por\u00e9m, come\u00e7a muito antes dele fundar o Fillmore, em S\u00e3o Francisco. Filho de russos, criado na Alemanha, Graham deixou Berlim aos oito anos no auge da ca\u00e7a aos judeus promovida pelo ex\u00e9rcito de Hitler. Sua m\u00e3e deixou que um padre o levasse primeiro para Paris, depois para Barcelona, e ent\u00e3o para os Estados Unidos, enquanto tentava salvar a vida de suas tr\u00eas irm\u00e3s. Uma delas acabou indo para Auschwitz, e saiu de l\u00e1 viva em 1945. As outras acabaram tentando a sorte em pa\u00edses vizinhos enquanto a matriarca morreu sufocada com g\u00e1s em um \u00f4nibus a caminho do campo de concentra\u00e7\u00e3o. Toda primeira parte do livro traz a fam\u00edlia Graham remoendo lembran\u00e7as da guerra. S\u00e3o socos no est\u00f4mago atr\u00e1s de socos no est\u00f4mago do leitor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20273\" title=\"bill1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/bill1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos Estados Unidos, Bill primeiro v\u00ea a Est\u00e1tua da Liberdade, depois \u00e9 adotado por uma fam\u00edlia, vira gar\u00e7om e segue um espiral de acontecimentos at\u00e9 descobrir sua grande voca\u00e7\u00e3o: produtor de shows. \u00c9 aqui que o livro come\u00e7a a se tornar obrigat\u00f3rio para f\u00e3s de rock castigados pelo fustigante e excelente come\u00e7o do livro. Bill Graham torna-se um grande produtor dono de badaladas casas de shows em S\u00e3o Francisco e Nova York. Passa a se relacionar com todos os principais nomes do rock no mundo e muitos deles rendem passagens cl\u00e1ssicas em &#8220;Bill Graham Apresenta: Minha Vida Dentro e Fora do Rock&#8221;. N\u00e3o a toa, o pref\u00e1cio \u00e9 escrito por Pete Townshend, apresentado no final como &#8220;guitarrista principal do The Who, uma \u00f3tima banda do distrito de Shepherds Bush, em Londres&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para se ter a ideia da import\u00e2ncia do nome do homem no cen\u00e1rio rock dos anos 60, 70 e 80, quando Bill Graham sentou para conversar sobre a turn\u00ea que os Rolling Stones pretendiam fazer em 1981, o martelo s\u00f3 foi batido de verdade quando o produtor avisou a Mick Jagger que os cartazes n\u00e3o iriam trazer &#8220;Bill Graham apresenta&#8230;&#8221;, como de praxe em todo o show produzido por Bill, mas apenas &#8220;Rolling Stones&#8221;. Foi uma das poucas vezes que o nome do produtor n\u00e3o figurou no topo do cartaz em letras garrafais maiores que o nome dos artistas que ele apresentava. Bill Graham era uma grife, um atestado de qualidade ambulante que enfrentava produtores, empres\u00e1rios e m\u00fasicos de igual para igual na busca incans\u00e1vel do que ele julgava primordial no meio em que ajudou a criar: entregar ao p\u00fablico um grande espet\u00e1culo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escrito a quatro m\u00e3os, sendo que duas s\u00e3o do pr\u00f3prio Bill, \u00e9 de se esperar que o livro tenha uma tend\u00eancia chapa branca. Robbie Robertson, l\u00edder da The Band (e respons\u00e1veis por uma das passagens Top 5 do livro), d\u00e1 a deixa quando \u00e9 perguntando sobre o motivo em que ele e Bill deixaram de se falar. &#8220;Vou dizer exatamente o que aconteceu. Como todos n\u00f3s, Bill \u00e9 famoso pelo editor de mem\u00f3rias na cabe\u00e7a dele&#8221;. O m\u00fasico segue contando a sua vers\u00e3o da hist\u00f3ria, e o leitor ganha mais objeto para an\u00e1lise. Isso acontece em grande parte do livro. Bill \u00e9 acusado de oportunista pelos hippies, de manipulador por advers\u00e1rios, de ausente pela fam\u00edlia, e tudo isso \u00e9 escrito \u00e0s claras, sem enrola\u00e7\u00e3o. \u00c9 claro que, ao final, o peso pende para o lado criativo do produtor, mas as hist\u00f3rias valem \u00e0 pena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bill conta detalhes da grava\u00e7\u00e3o do especial &#8220;The Last Waltz&#8221;, da The Band, filme produzido por Martin Scorsese no Winterland, uma de seus templos de shows. O produtor relembra o primeiro Woodstoock (em que aparece no filme sobre o festival descendo a lenha na organiza\u00e7\u00e3o), rememora tretas com a pol\u00edcia e abre o ba\u00fa para contar com detalhes a hist\u00f3ria da confus\u00e3o que envolveu membros de sua produtora com integrantes da equipe do Led Zeppelin, o que causou a pris\u00e3o do empres\u00e1rio Peter Grant, do baterista John Bonham, do empres\u00e1rio de turn\u00ea e de um seguran\u00e7a. O caso acabou num processo de dois milh\u00f5es de d\u00f3lares pelos funcion\u00e1rios de Bill Graham. E o Led Zeppelin, ap\u00f3s esse show, nunca mais tocou nos Estados Unidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20275\" title=\"bill2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/bill2.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"422\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/bill2.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/bill2-300x209.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O produtor ainda se envolveu nos anos seguintes com o Live Aid e a turn\u00ea Conspiracy of Hope da Anistia Internacional, mas s\u00e3o suas lembran\u00e7as sobre astros da m\u00fasica um dos maiores destaques do livro. N\u00e3o \u00e0 toa, ainda na \u00e9poca das entrevistas (Bill Graham morreu em 1991), cinq\u00fcenta e oito discos gravados no Fillmore foram lan\u00e7ados e dezessete destes foram disco de ouro (a conta deve ter duplicado nos \u00faltimos quinze anos). Em 2006, um site foi processado por integrantes do Doors, Led Zeppelin e Santana \u2013 entre muitos outros \u2013 por vender milhares de grava\u00e7\u00f5es raras de \u00e1udio e v\u00eddeo de shows coletados durante 30 anos nas casas de Bill Graham. A cole\u00e7\u00e3o foi descrita por analistas como uma das mais importantes do rock reunidas em um \u00fanico neg\u00f3cio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mesmo pode ser dito do livro &#8220;Bill Graham Apresenta: Minha Vida Dentro e Fora do Rock&#8221;. As mem\u00f3rias do produtor que ajudou a lan\u00e7ar \u00edcones do rock n\u00e3o invalidam, de forma alguma, os outros livros de rock (como os citados com ironia brincalhona na abertura deste texto), mas ampliam o alcance ao registrar imagens de dezenas de personalidades e contar \u2013 um pouco que seja \u2013 sobre o submundo do rock. N\u00e3o \u00e9 preciso ser um expert em m\u00fasica para saber que a briga de egos de malas geniosos como Crosby, Stills, Nash and Young deveria ser uma tortura para os que estavam ao redor da banda \u2013 e um deleite para quem estava na plateia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses momentos, por\u00e9m, acabam sendo sublimados por passagens l\u00edricas como a de um casal que falsificou o bilhete de entrada de uma noite de fim de ano no Fillmore, e foi levado at\u00e9 a administra\u00e7\u00e3o. Bill olhou os bilhetes, perguntou como o casal tinha feito aquele trabalho, elogiou a arte gr\u00e1fica e deixou-os curtir o ano novo na companhia de Janis Joplin e Grateful Dead. Ou ent\u00e3o uma carta que o produtor recebeu de algu\u00e9m que entrou sem pagar num show, e dizia ter tido uma das melhores experi\u00eancias de sua vida. O tal rapaz enviou cinco notas de um e o resto em moedas para pagar pelo ingresso do show que viu de gra\u00e7a. Fatos pequenos como esses s\u00e3o jogados aqui e ali no colo do p\u00fablico em um livro que muitas vezes soa violento como uma can\u00e7\u00e3o do Sex Pistols, do Black Sabbath ou do Led Zeppelin, mas que tamb\u00e9m poderia ter momentos de Otis Redding, Bob Dylan e Rolling Stones na trilha sonora, entre muitos, mas muitos outros. Entre os livros obrigat\u00f3rios de rock, este passa a ser o n\u00famero 1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20276\" title=\"bill\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/bill.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\">Calmantes com Champagne<\/a><strong><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia alguns trechos:<\/strong><br \/>\n&#8211; Bill Graham e Jim Morrison: &#8220;Eu vi &#8220;Casablanca&#8221; tr\u00eas vezes&#8221; (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2008\/11\/26\/bill-graham-e-jim-morrison\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Graham e Otis Redding: Como deixar claro que eu queria que ele tocasse para mim? (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2008\/11\/19\/bill-graham-e-otis-redding\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Marcelo Costa Sabe o &#8220;Mate-me Por Favor&#8221;? Esque\u00e7a. &#8220;Hammer of Gods&#8221;? Deixe de lado. &#8220;Come As You Are&#8221;? Aposente. 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