{"id":67215,"date":"2002-05-24T23:15:00","date_gmt":"2002-05-25T02:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=67215"},"modified":"2022-06-20T23:32:49","modified_gmt":"2022-06-21T02:32:49","slug":"cinema-cidade-dos-sonhos-de-david-lynch-e-para-entender-e-admirar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2002\/05\/24\/cinema-cidade-dos-sonhos-de-david-lynch-e-para-entender-e-admirar\/","title":{"rendered":"Cinema: &#8220;Cidade dos Sonhos&#8221;, de David Lynch, \u00e9 para entender e admirar"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-67218 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/drive3.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"724\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/drive3.jpg 500w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/drive3-207x300.jpg 207w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto por\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcelo Costa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Oscar 2002. Whoopi Goldberg apresentava a cerim\u00f4nia e ia encaixando aqui e ali suas piadinhas. Numa dessas, Goldberg solta: &#8220;Eu entendo tudo! A \u00fanica coisa que eu n\u00e3o consegui entender foi &#8216;Mulholland Drive&#8217;. Era para entender?&#8221;, risos gerais da plat\u00e9ia. A pergunta em quest\u00e3o era direcionada para David Lynch, respons\u00e1vel pelo filme e, ali, concorrendo ao Oscar de Melhor Diretor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">David Lynch \u00e9, com toda certeza, o diretor mais estranho a andar pelos est\u00fadios de Hollywood pois tem fasc\u00ednio por hist\u00f3rias que beiram o bizarro, mas, vez por outra, esbarra no cinema humanista (&#8220;Hist\u00f3ria Real&#8221;, 1999), no tocante (&#8220;O Homem Elefante&#8221;, 1980) e no suspense (o primoroso &#8220;Veludo Azul&#8221;, de 1986, e a s\u00e9rie &#8220;Twin Peaks&#8221;, 1990\/1991).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Mulholland Drive&#8221;, seu novo longa (no Brasil, &#8220;Cidade dos Sonhos&#8221;) \u00e9 uma mistura de tudo isso. \u00c9 cinema humanista (quer coisa mais humana que filmar o amor?), tocante (&#8220;Crying&#8221;, imortalizada na voz do destruidor de cora\u00e7\u00f5es Roy Orbison, ganha uma dolorida vers\u00e3o em espanhol) e suspense dos bons. Tudo isso batido no liquidificador e jogado na tela sem ordem aparente, com v\u00e1rias pequenas dicas que, ao final, parecem n\u00e3o levar a nada, beirando o estranho e abrindo margens para mil e um entendimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resumo? Hummm, o pr\u00f3prio Lynch diz que \u00e9 uma hist\u00f3ria de amor na cidade dos sonhos. Mas, verifico, amor e sonho se confundem a todo o momento, principalmente na cabe\u00e7a dos apaixonados. N\u00e3o \u00e9 sempre assim?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Cidade dos Sonhos&#8221; come\u00e7a com um acidente na auto-estrada (uma estrada perdida?) que Michael Stipe canta em &#8220;Electrolite&#8221;, faixa derradeira de &#8220;New Adventures in Hi-fi&#8221;, do R.E.M.: a Mulholland Drive.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O violento acidente de carro, por mais bizarro que pare\u00e7a, salva a vida de uma garota (a bela Laura Harring), morena, linda, que se perde pelas ruas da cidade at\u00e9 encontrar uma casa, para dormir. O acidente afeta a mem\u00f3ria da garota que, simplesmente n\u00e3o lembra quem \u00e9 e nem porque carrega uma pequena fortuna dentro da bolsa. Para n\u00e3o parecer maluca, ela decide assumir o nome de Rita (ap\u00f3s ver um p\u00f4ster de &#8220;Gilda&#8221; com Rita Hayworth na parede). E \u00e9 assim que ela se apresenta a Betty (Naomi Watts), sobrinha da dona da casa que foi invadida por Rita, em sua busca por um lugar para descansar ap\u00f3s o acidente. Betty acaba de chegar a Los Angeles, a Cidade dos Sonhos, e chega com todos os sonhos que levam aspirantes a atrizes \u00e0 capital do cinema mundial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Betty acaba tornando-se amiga de Rita e procura auxili\u00e1-la em sua busca pela mem\u00f3ria perdida. Tudo nos trilhos at\u00e9 aqui, certo? Possivelmente errado. Toda primeira hora da trama surge, aparentemente, como um sonho. Na hora final, ap\u00f3s sermos apresentados a um diretor de cinema em fase de testes para seu novo filme e que se v\u00ea obrigado, pela m\u00e1fia, a ceder o papel principal para um atriz indicada pelos mafiosos, a um cowboy e uma misteriosa caixinha azul, a um restaurante e cinzeiros, an\u00f5es, monstros, copos e um teatro chamado &#8220;Sil\u00eancio&#8221; (em espanhol mesmo), tudo parece inversamente o que era, em uma obra que traduz a dualidade confund\u00edvel do real\/irreal (aqui, amparada na beleza de duas mulheres: uma loira e uma morena).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lynch brinca com o espectador. A mem\u00f3ria acostumada a preencher v\u00e1cuos de uma hist\u00f3ria de suspense perde-se totalmente na riqueza de detalhes que, por vezes, parece n\u00e3o significar nada. Alguns, todavia, se sobressaltam. O principal \u00e9 seu t\u00edtulo: Mulholland Drive, a tal auto-estrada que nomeia o filme, \u00e9 zona residencial de astros de Hollywood tanto quanto zona de suicidas, de gente que sonhou alto demais com a fama e o sonho tornou-se pesadelo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Michael Stipe canta em &#8220;Electrolite&#8221;, na primeira estrofe do refr\u00e3o: &#8220;Se voc\u00ea quiser voar\/ Mulholland Drive \/ eu estou vivo \/ com Hollywood abaixo de mim \/ eu sou Martin Sheen \/ sou Steve McQueen \/ sou James Dean&#8221;. A segunda estrofe \u00e9 ainda mais esclarecedora sobre a estrada: &#8220;Se voc\u00ea quiser voar \/ Mulholland Drive \/ suspensa no c\u00e9u \/ v\u00e1 \u00e0 beirada do despenhadeiro e olhe l\u00e1 para baixo \/ n\u00e3o tenha medo \/ voc\u00ea est\u00e1 vivo.&#8221; Suicidas n\u00e3o tem medo, talvez apenas da vida ap\u00f3s a morte, mas e se aos mortos for concedido o prazer dos sonhos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguindo essa \u00f3tica (das v\u00e1rias poss\u00edveis), Lynch aproxima-se de Billy Wilder e seu &#8220;Sunset Boulevard&#8221; (&#8220;Crep\u00fasculo dos Deuses&#8221;, 1950) na tentativa de desmistificar a idolatria hollywoodiana. E se no filme de Wilder o personagem relembrava hist\u00f3rias ap\u00f3s a morte, aqui Lynch vai al\u00e9m permitindo que seu personagem, morto, sonhe. Genialidade absurda. Real ou irreal? Cada um escolhe como quer lembrar das coisas, isso \u00e9 inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A estrada \u00e9 objeto de culto e an\u00e1lise de muitos: Nabukov j\u00e1 escreveu em um poema que &#8220;por baixo de Mulholland h\u00e1 corpos enterrados&#8221; enquanto o ensa\u00edsta David Thomson dizia que quem trafega na estrada, que tem de um lado as montanhas de Santa M\u00f4nica e, de outro, permite avistar-se o Hollywood Bowl, o letreiro HOLLYWOOD e, olhando para baixo, os arranha-c\u00e9us da Baixa LA, ou \u00e9 aventureiro ou \u00e9 suicida. Um territ\u00f3rio real\/irreal onde convivem vivos em suas mans\u00f5es (o pr\u00f3prio Michael Stipe e Courtney Love, Marlon Brando, Jack Nicholson, entre outros) e mortos em suas hist\u00f3rias (foi l\u00e1 que Charles Manson abrigou sua seita e que v\u00e1rios artistas optaram pela sa\u00edda suicida).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se encararmos o filme como um retrato de dualidades (morena x loiras \u2013 irreal x real \u2013 sonhos x pesadelos \u2013 l\u00f3gica x imagina\u00e7\u00e3o) e dividirmos o filme em dois &#8211; em sonho e realidade &#8211; podemos perceber que a loira, Betty, sorri apenas no primeiro (sonho) e no segundo \u00e9 apenas uma sombra escura masturbando-se entre l\u00e1grimas. Rita, por sua vez, \u00e9 conduzida na primeira parte em que, sem mem\u00f3ria, ap\u00f3ia-se inocentemente em Betty (outra vez o sonho). Na segunda, quando tudo parece voltar ao real, Rita &#8211; que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais Rita, encharca seu personagem de libido e um q de arrog\u00e2ncia passando a conduzir Betty. O amor imposs\u00edvel brindado em copos de vinho a beira de uma piscina em uma mans\u00e3o acima da estrada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">David Lynch levou o pr\u00eamio pela dire\u00e7\u00e3o em Cannes e foi indicado tamb\u00e9m ao Globo de Ouro e ao Oscar. No Globo de Ouro, &#8220;Cidade dos Sonhos&#8221; ainda foi indicado para roteiro, filme drama e melhor trilha sonora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u00edrico at\u00e9 n\u00e3o poder mais, num apoio cinematogr\u00e1fico de duas belas mulheres se amando (ali\u00e1s, apenas uma delas diz &#8220;eu amo voc\u00ea&#8221;. A rec\u00edproca n\u00e3o surge), Lynch preenche com confus\u00f5es\/pervers\u00f5es sua obra. O resultado \u00e9 esquizofr\u00eanico, enigm\u00e1tico, surpreendente e&#8230; genial?!?! A certa altura da trama, um dos personagens diz: &#8220;\u00c9 tudo ilus\u00e3o&#8221;. Mas ningu\u00e9m vai entender nada. E \u00e9 para se entender?<\/p>\n<p>\u2013\u00a0<strong>Marcelo Costa<\/strong>\u00a0(<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Calmantes com Champagne<\/a>.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-67216\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/drive1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"469\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/drive1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/drive1-300x188.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\">Dez dicas para se entender &#8220;Mulholland Drive&#8221;<br \/>\npor David Lynch<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um texto especial para o jornal ingl\u00eas The Guardian, o diretor David Lynch, tamb\u00e9m autor do roteiro, elaborou dez pistas sobre Cidade dos Sonhos. Anote num papel, decore direitinho e divirta-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1) No come\u00e7o do filme, antes dos cr\u00e9ditos, duas pistas s\u00e3o reveladas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2) Fique atento para o que est\u00e1 escrito no luminoso vermelho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3) Qual o t\u00edtulo do filme, para qual o personagem Adam Kesher est\u00e1 realizando teste de elenco? Ele ser\u00e1 mencionado mais uma vez durante CIDADE DOS SONHOS?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4) O acidente \u00e9 um importante acontecimento em CIDADE DOS SONHOS. Onde ele acontece?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5) Quem entrega a chave azul e porque?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6) Fique atento para o roup\u00e3o, o cinzeiro e a caneca de caf\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">7) Qual mist\u00e9rio \u00e9 revelado no palco do &#8220;Club Silencio&#8221;?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">8) Somente o talento de Camilla pode ajud\u00e1-la?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">9) Fique atento para o objeto que est\u00e1 nas m\u00e3os do estranho homem que vive perto da lanchonete &#8220;Winkie&#8221;!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">10) Onde est\u00e1 tia Ruth?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Mulholland Drive - Cidade dos Sonhos |  Trailer Oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/adCEuXANKbc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"L\u00edrico at\u00e9 n\u00e3o poder mais, num apoio cinematogr\u00e1fico de duas belas mulheres se amando (ali\u00e1s, apenas uma delas diz &#8220;eu amo voc\u00ea&#8221;. 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