{"id":66944,"date":"2022-06-10T14:50:24","date_gmt":"2022-06-10T17:50:24","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=66944"},"modified":"2022-06-27T23:57:46","modified_gmt":"2022-06-28T02:57:46","slug":"balanco-nos-primavera-sound-porto-portugal-dia-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/06\/10\/balanco-nos-primavera-sound-porto-portugal-dia-1\/","title":{"rendered":"Balan\u00e7o: NOS Primavera Sound Porto 2022, em Portugal &#8211; Dia 1 (DIVV, Nick Cave, Tame Impala, Caroline Polachek, Kim Gordon)"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>Texto por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Capelas<\/a> e <a href=\"https:\/\/twitter.com\/loveology_x\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Anna Vit\u00f3ria Rocha<\/a><\/strong><br \/>\n<strong>Fotos e v\u00eddeos por Bruno Capelas, exceto onde notado<br \/>\n<span style=\"color: #ff0000;\">SAIBA COMO FOI O <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/06\/11\/balanco-nos-primavera-sound-porto-2022-em-portugal-dia-2\/\">DIA 2<\/a> e o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/06\/13\/balanco-nos-primavera-sound-porto-2022-em-portugal-dia-3\/\">DIA 3<\/a> DO FESTIVAL<\/span><br \/>\n<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se 2022 \u00e9 o ano em que o Brasil receber\u00e1 sua primeira edi\u00e7\u00e3o do Primavera Sound, a temporada tamb\u00e9m marca os 10 anos da primeira jornada internacional do festival barcelon\u00eas. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/05\/26\/entrevista-jose-barreiro-fala-do-nos-primavera-sound-porto\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Realizado desde 2012, mas com interrup\u00e7\u00f5es em 2020 e 2021 por conta da pandemia<\/a>, o NOS Primavera Sound, no Porto, \u00e9 um bom ponto de partida para quem deseja entender o que esperar por a\u00ed. Foi pensando nisso (e tamb\u00e9m em ver grandes shows e nos melhores vinhos do Porto) que o Scream &amp; Yell designou a dupla-casal Bruno Capelas e Anna Vit\u00f3ria Rocha para cobrir o festival \u2013 \u00e9 a terceira vez que o S&amp;Y est\u00e1 no evento e vale relembrar como foi em <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/05\/31\/optimus-primavera-sound-2013-porto\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">2013<\/a> e <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/06\/17\/balancao-primavera-porto-2019-bonito-confortavel-e-quase-perfeitinho\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">2019<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sediado no bel\u00edssimo Parque da Cidade, entre o oeste da cidade do Porto e o munic\u00edpio vizinho de Matosinhos, o NOS Primavera Sound \u00e9 uma vers\u00e3o redux &amp; deluxe do irm\u00e3o mais velho catal\u00e3o. Em 2022, traz, como dizem os lusitanos, \u201ccabe\u00e7as de cartaz\u201d do porte de Nick Cave &amp; The Bad Seeds, Tame Impala, Pavement, Beck, Gorillaz e Interpol, al\u00e9m de um sem n\u00famero de shows entre novas leituras do pop alternativo, indie velho e sensa\u00e7\u00f5es recentes. Para dar conta de tudo isso, a dupla de rep\u00f3rteres resgata um antigo formato do S&amp;Y, contando o que viram em pequenos textos ao longo do intervalo de duas horas. \u201cEnt\u00e3o, vamos a isto?\u201d<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">18h-20h<\/h2>\n<figure id=\"attachment_66986\" aria-describedby=\"caption-attachment-66986\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-66986 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/primaverasound_hugolima2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/primaverasound_hugolima2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/primaverasound_hugolima2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-66986\" class=\"wp-caption-text\"><em>Foto de Hugo Lima \/ NOS Primavera Sound<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas:<\/strong> Chegar foi dif\u00edcil, mas entramos. Ap\u00f3s uma tarde na Funda\u00e7\u00e3o Serralves (um museu de arte contempor\u00e2nea com projeto de tirar o f\u00f4lego de \u00c1lvaro Siza Vieira \u2013 o mais premiado arquiteto portugu\u00eas \u2013 e uma bela exposi\u00e7\u00e3o do brasileiro Leonilson), partimos para o Parque da Cidade esperando os \u00f4nibus na Avenida da Boavista. Um, dois, tr\u00eas\u2026 todos lotados e passando reto. O jeito foi recorrer a um Uber para chegar a tempo. Enquanto a credencial de imprensa saiu r\u00e1pida, vale notar a longa fila para o p\u00fablico, que se estendia do port\u00e3o at\u00e9 a Pra\u00e7a Cidade do Salvador, ponto de descida dos \u00f4nibus para o festival. Uma vez l\u00e1 dentro, uma r\u00e1pida passeada pela pra\u00e7a de alimenta\u00e7\u00e3o, com op\u00e7\u00f5es para todos os gostos \u2013 dos cl\u00e1ssicos pizza e hamb\u00farguer at\u00e9 tradi\u00e7\u00f5es do Porto, como a Cervejaria Gazela, dona de um lanche de lingui\u00e7a que conquistou at\u00e9 o cora\u00e7\u00e3o de Stephen Malkmus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas enquanto o Pavement s\u00f3 toca na sexta, era hora de outras viagens \u2013 e coube ao DIIV a tarefa de abrir os trabalhos no palco Cupra, bem na entradinha do festival. Muita marra, muitas guitarras e belas can\u00e7\u00f5es naquela baguncinha gostosa entre o shoegaze, o post punk e um cadinho de post-rock, com boas conversas entre as guitarras de Zachary Cole Smith e Andrew Bailey. Tamb\u00e9m tinha muita gente sem m\u00e1scara, o cheiro da verdinha e bastante empolga\u00e7\u00e3o dos presentes, surpreendendo o DIIV. Um bonito show, muito bem harmonizado com cidra Somersby \u2013 500ml sa\u00edam por 6\u20ac, mais 1\u20ac para o copo reutiliz\u00e1vel do festival. Show encerrado, hora de encher a barriga\u2026<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"DIIV - Blankenship (Live - NOS Primavera Sound, Porto, PT - 09.06.2022)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wu-EIWmfM-0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Anna Vit\u00f3ria Rocha:<\/strong> Em minha primeira experi\u00eancia num festival de m\u00fasica fora do pa\u00eds, foi quase reconfortante viver um perrengue para chegar at\u00e9 o Parque da Cidade. O rel\u00f3gio indicava o fim da tarde no Porto, mas o sol ardia no ponto de \u00f4nibus. Era f\u00e1cil identificar outros primaverers no local &#8211; um pouco pelas roupas, um pouco pelo semblante preocupado de quem via os \u00f4nibus passarem apinhados de gente, impossibilitando at\u00e9 a abertura das portas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu era a \u00fanica de preto e mangas compridas \u2013 a meia arrast\u00e3o e o casaco de pelinhos foi o melhor que minha mala pode entregar para o encontro com Nick Cave). J\u00e1 as europeias estavam primaveris com vestidos frescos e estampados, sapatos abertos, chap\u00e9us e bon\u00e9s. Aquele c\u00e9u trincando de azul era motivo de celebra\u00e7\u00e3o, assim como o desabrochar dos festivais depois de um longo inverno pand\u00eamico. Brasileira capiau que sou, fiquei intimidada pelo vento no Porto, assim como a mistura de trauma e cautela me fez manter a m\u00e1scara no rosto, algo pouco visto pela cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, no momento em que passamos todos a recalcular nossa rota de partida, nos tornamos todos iguais. Aproveitei o Uber para tirar um cochilo, momento pelo qual meu corpo me agradeceria l\u00e1 pela 1h da manh\u00e3. Pulseiras no bra\u00e7o, segui pela entrada direto para o palco Cupra. Ali, a banda DIIV fazia um show empolgado, com seus integrantes surpresos pela calorosa recep\u00e7\u00e3o do p\u00fablico do festival: \u201cThis isn\u2019t normal for us, feels like watching TV\u201d, disse o vocalista em determinado momento. Em bom portugu\u00eas: \u201cO que \u00e9 isso, um filme?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Joguei o nome deles no Google para um dever de casa r\u00e1pido. Em 2013, quando eles ainda eram novidade, L\u00facio Ribeiro fez a defesa do grupo como algo que vai al\u00e9m do que se espera de mais uma bandinha do Brooklyn. Quase 10 anos depois, o quarteto me soou exatamente como uma bandinha do Brooklyn, mas de um jeito \u00f3timo. Um quentinho no cora\u00e7\u00e3o que nos lembra que ser indie \u00e9 ruim, mas tamb\u00e9m \u00e9 bom demais.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">20h-22h<\/h2>\n<figure id=\"attachment_66950\" aria-describedby=\"caption-attachment-66950\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-66950 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/DSCN7388-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"467\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/DSCN7388-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/DSCN7388-copiar-300x187.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-66950\" class=\"wp-caption-text\"><em>Kim Gordon \/ Foto: Bruno Capelas<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas:<\/strong> Comida \u00e9 neg\u00f3cio s\u00e9rio em festival. Para abrir os trabalhos, um dos sandu\u00edches (ou sandes, dizem os portugueses) mais gostosos da vida: a sandes de leit\u00e3o com queijo de ovelha (7\u20ac) da Casa Guedes, tradicional estabelecimento portuense, acompanhada de dois bolinhos de bacalhau (5\u20ac). T\u00e3o bom que a gente nem lembra da fila longa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Longo tamb\u00e9m foi o caminho para chegar at\u00e9 o palco \u201calternativo\u201d Binance \u2013 patroc\u00ednio da corretora de criptomoedas que substituiu o antigo palco\u2026 Pitchfork. Sinal dos tempos. Em compensa\u00e7\u00e3o, parece que o tempo n\u00e3o passou para Kim Gordon, a diva que o indie merece. Com sol ainda forte e acompanhada por uma banda s\u00f3 de mulheres, ela subiu ao palco para mostrar as can\u00e7\u00f5es de seu primeiro disco solo, \u201cNo Home Record\u201d, de 2019, em um espet\u00e1culo experimental. \u00c9 o caso cl\u00e1ssico de show que funcionaria melhor num teatro que num festival, mas que ao mesmo tempo d\u00e1 a um festival sua raz\u00e3o de existir, instigando o p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quinta-feira era dia de Nick Cave and the Bad Seeds, mas antes ainda tinha espa\u00e7o para Sky Ferreira, que chegou 20 minutos atrasada e fez uma apresenta\u00e7\u00e3o curta, com apenas seis can\u00e7\u00f5es. Depois de tanto ru\u00eddo, foi bom ouvir refr\u00f5es pop, cantados pela ala mais teen do Primavera. Mas \u00e0s vezes, certo shows s\u00e3o como sorvete de casquinha: depois do frescor, parece que derretem na mem\u00f3ria. J\u00e1 outros, como um bom pastel de nata\u2026 s\u00f3 crescem. E era o que viria a seguir.<\/p>\n<figure id=\"attachment_66949\" aria-describedby=\"caption-attachment-66949\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-66949 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/DSCN7484.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"483\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/DSCN7484.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/DSCN7484-300x193.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-66949\" class=\"wp-caption-text\"><em>Sky Ferreira \/ Foto: Bruno Capelas<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Anna Vit\u00f3ria Rocha:<\/strong> Comida era uma das minhas grandes preocupa\u00e7\u00f5es da noite: sou vegetariana e n\u00e3o andava dando muita sorte com as op\u00e7\u00f5es sem carne dos menus do Porto. Na primeira pra\u00e7a de alimenta\u00e7\u00e3o, essa ang\u00fastia foi aos poucos se dissipando, j\u00e1 que quase todos os foodtrucks traziam ao menos uma alternativa veggie em seus card\u00e1pios. Em nome do bom jornalismo, decidi experimentar o prego vegan da Central dos Pregos, com tofu, cogumelo e piment\u00f5es fazendo as vezes do bife da vers\u00e3o original da iguaria (o combo, com batata, saiu por 9\u20ac). Ap\u00f3s quase uma hora de fila, confesso que achei que faltou sal \u00e0 mistura, apesar do sabor satisfat\u00f3rio de maneira geral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Terminei as batatas (com bastante ketchup) enquanto atravessava o local a passos r\u00e1pidos para n\u00e3o perder o primeiro show marcado na minha agenda da noite: Sky Ferreira. Os 20 minutos de atraso da cantora (de ascend\u00eancia portuguesa, como o sobrenome denuncia) foram quase uma met\u00e1fora para a espera (de nove anos!) dos f\u00e3s por seu aguardado segundo \u00e1lbum. A entrada no palco, sem gracinhas ou desculpas, foi uma esp\u00e9cie de anticl\u00edmax que talvez indique que n\u00e3o devemos esperar grandes coisas do \u201cMasochism\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cOh fuck\u201d, foi o que ela disse antes de come\u00e7ar a cantar \u201cBoys\u201d, um dos hits de \u201cNight Time, My Time\u201d, como quem se arrepende de uma brincadeira que foi levada a s\u00e9rio demais, iniciada num tempo em que o mundo era muito diferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para n\u00e3o dizer que n\u00e3o h\u00e1 mais nada para esperar dela, o palco Super Bock viu a estreia de duas novas can\u00e7\u00f5es: \u201cDon\u2019t Forget\u201d e \u201cInnocent Kind\u201d. Meu masoquismo felizmente se esgotou antes e achei melhor sair \u00e0 francesa para garantir um lugar na plateia do Nick Cave. Acho que acabei n\u00e3o perdendo muita coisa.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><strong>22h-0h<\/strong><\/h2>\n<figure id=\"attachment_66994\" aria-describedby=\"caption-attachment-66994\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-66994 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/nickcvave.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/nickcvave.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/nickcvave-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-66994\" class=\"wp-caption-text\"><em>Nick Cave and The Bad Seeds \/ Foto de Hugo Lima, NOS Primavera Sound<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas:<\/strong> Certos artistas parecem incapazes de fazer um show ruim. \u00c9 algo que parece ir contra sua \u00e9tica de trabalho ou as leis de sua natureza \u2013 como se o simples ato de subir ao palco j\u00e1 fosse uma liturgia. E isso pode acontecer mesmo sob as condi\u00e7\u00f5es mais dif\u00edceis. Algu\u00e9m j\u00e1 disse que um dos acontecimentos mais tristes que pode acontecer a algu\u00e9m \u00e9 enterrar um filho. E Nick Cave, que j\u00e1 havia perdido o ca\u00e7ula Arthur em 2015, velou o segundo filho, Jethro, h\u00e1 cerca de um m\u00eas. Muita gente achou que ele ia cancelar a apresenta\u00e7\u00e3o no Porto, mas talvez como uma prova de f\u00e9 (na arte, sobretudo), l\u00e1 estava o australiano no palco principal do festival.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi uma apresenta\u00e7\u00e3o incr\u00edvel, da primeira gota de suor at\u00e9 a \u00faltima palma no bis: escudado pelos Bad Seeds, com destaque para o grande Warren Ellis, Cave fez uma viagem pelo melhor de seu repert\u00f3rio, entre cl\u00e1ssicos (\u201cThe Mercy Seat\u201d, \u201cThe Ship Song\u201d, \u201cFrom Her to Eternity\u201d), pedradas (\u201cGet Ready for Love\u201d, \u201cRed Right Hand\u201d, \u201cTupelo\u201d) e can\u00e7\u00f5es soturnas mais recentes (\u201cHiggs Boson Blues\u201d, incr\u00edvel como sempre). Como diria outro soturno, Leonard Cohen, as can\u00e7\u00f5es mais escuras de Nick Cave tem sempre uma rachadura por onde passa a luz \u2013 atestando, mais uma vez, o poder salvador da m\u00fasica. E talvez n\u00e3o haja melhor can\u00e7\u00e3o para dizer isso do que \u201cInto My Arms\u201d, entoada por um Cave visivelmente emocionado e mais de 10 mil pessoas ali presentes. \u201cObrigado, Portugal\u201d, disse ele, em sotaque digno de Mercearia S\u00e3o Pedro. Mas a gente \u00e9 que agradece.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Nick Cave and the Bad Seeds - Into My Arms @ NOS Primavera Sound\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/V63pZ8oRGlg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Anna Vit\u00f3ria Rocha:<\/strong> Pontual, elegante e com terno extremamente bem passado: foi assim que Nick Cave tomou o palco principal do NOS Primavera Sound exatamente \u00e0s 21h20, a golden hour do Parque da Cidade. Eu, que por uma s\u00e9rie de motivos esperava um show mais intimista e soturno, fui chacoalhada pela abertura com \u201cGet Ready For Love\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acostumada ao calor e \u00e0 energia do p\u00fablico brasileiro, demorei um pouco para entrar no show, ainda que Nick Cave j\u00e1 estivesse entregue ao p\u00fablico do gargarejo na primeira faixa, distribuindo apertos de m\u00e3o e espalhando seu \u201ccheir\u00e3o de Azzaro\u201d na grade. Ou talvez, pensei comigo depois, ele fosse apenas um \u00eddolo pag\u00e3o que desce dos c\u00e9us para desfilar entre seus fi\u00e9is que estendem o bra\u00e7o para tocar sua imagem, como devotos que se acotovelam para ro\u00e7ar num santo em prociss\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na manh\u00e3 do dia 9, os assinantes da \u201cThe Red Hand Files\u201d, newsletter em que Nick Cave responde cartas de seus f\u00e3s, receberam uma missiva sobre amor e f\u00e9. Foi um dos primeiros n\u00fameros enviados ap\u00f3s a morte de Jethro Cave, segundo filho que o m\u00fasico perde. \u201cO que \u00e9 Deus?\u201d, perguntou Sue, direto de Paris. Em sua resposta, Cave escreveu que Deus \u00e9 amor, sendo o amor uma necessidade que at\u00e9 a mais c\u00e9tica das criaturas \u00e9 capaz de sentir. No evangelho segundo Nick Cave, nossa busca por amor e nossa insist\u00eancia em amar \u00e9 o que faz a beleza permanecer em um mundo que tamb\u00e9m \u00e9 t\u00e3o cruel, enquanto o trauma \u00e9 um \u201cfogo purificador\u201d que nos permite encontrar, mas encontrar de verdade, o que existe de bom no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para mim, essa resposta explica a beleza, a entrega, a energia e a comunh\u00e3o que Nick Cave foi capaz de conjurar em suas duas horas de show no NOS Primavera Sound. Em meio a trag\u00e9dias pessoais e coletivas, algo de sagrado nos faz resistir. E se por alguns minutos me parecia quase imposs\u00edvel entrar no show por conta dos ru\u00eddos do entorno, quando Nick Cave deixou o palco pela \u00faltima vez eu j\u00e1 n\u00e3o queria mais sair dali.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><strong>0h-2h<\/strong><\/h2>\n<figure id=\"attachment_66947\" aria-describedby=\"caption-attachment-66947\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-66947 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/tameimpala1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/tameimpala1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/tameimpala1-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-66947\" class=\"wp-caption-text\"><em>Tame Impala \/ Foto: NOS Primavera Sound<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas:<\/strong> A cidade do Porto \u00e9 um desafio para os joelhos \u2013 e o Parque da Cidade n\u00e3o \u00e9 diferente. Haja perna para voltar at\u00e9 a entrada e conferir o Cigarettes After Sex, uma banda que eu ouvi muito l\u00e1 pra 2017, enquanto fazia plant\u00e3o, preenchia planilhas ou andava de \u00f4nibus. Um som meio triste, meio sensuellen\u2026 e muito chato ao vivo. A paci\u00eancia n\u00e3o durou tr\u00eas m\u00fasicas \u2013 e foi uma portuguesa que definiu o esp\u00edrito da coisa: \u201ceste gajo \u00e9 uma seca, foda-se, todas as m\u00fasicas s\u00e3o iguais\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A seguir, uma r\u00e1pida passada pela tenda eletr\u00f4nica (com N\u00eddia fazendo fritar com \u201cBaile de Favela\u201d), e\u2026 sim, o Tame Impala. H\u00e1 uma d\u00e9cada, eles marcaram \u00e9poca, abrindo espa\u00e7o para uma nova psicodelia. Hoje, parece tudo velho. De longe, parece que as grandes guitarras e refr\u00f5es l\u00e1 do come\u00e7o (\u201cFeels Like We Only Go Backwards\u201d, que hit) viraram um Jamiroquai meio enfuma\u00e7ado, sujinho, sem gra\u00e7a, sem din\u00e2mica. E ali, entre uma fuma\u00e7a de cigarro e outra, um pensamento solto: quando a gente n\u00e3o precisa mais comprar um disco pra consumir a m\u00fasica, a barreira de entrada pra um som que n\u00e3o incomoda muito \u00e9 menor. Talvez por isso (e pelos algoritmos &amp; playlists autom\u00e1ticas) \u00e9 que eu tenha escutado tanto o Cigarettes After Sex e que tanta gente ou\u00e7a o Tame Impala. Quando o n\u00famero de plays vira o de vendas, isso influencia um lineup \u2013 mas nem toda banda que \u00e9 boa no meu quarto \u00e9 boa ao vivo, especialmente quando faltam refr\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se voc\u00ea discorda, \u00e9 porque algu\u00e9m botou algo no meu Porto T\u00f4nica de latinha (4\u20ac). Mas se concorda, encerre a noite com um refr\u00e3o gostoso: \u201cSo Hot You\u2019re Hurting My Feelings\u201d, popzinho gostoso de Caroline Polachek, num show que surpreendeu. Outra surpresa foi a volta pra casa, de \u00f4nibus, f\u00e1cil e sem filas. E bora dormir que amanh\u00e3 tem Pavement.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Caroline Polachek - So Hot You\u2019re Hurting My Feelings @ NOS Primavera Sound\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ooxqSSNWTSQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Anna Vit\u00f3ria Rocha:<\/strong> N\u00e3o me parecia correto impor qualquer outro tipo de m\u00fasica sobre meu corpo depois da verdadeira un\u00e7\u00e3o de Nick Cave, por isso decidi descansar e matar um tempo na \u00e1rea dedicada \u00e0 imprensa. Com Coca-Cola, Sprite, cerveja e banheiros limpos de cortesia, foi ali que me dei um certo tempo para absorver aquelas \u00faltimas duas horas. Ao fundo era poss\u00edvel ouvir o show do Cigarettes After Sex, um sonzinho pau-mole que serviu de trilha sonora enquanto eu andava sem pressa entre os palcos e apertava meu casaco de pelinhos contra o corpo para me proteger do vento &#8211; um excelente figurino, no final das contas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 com as pernas doloridas e o cansa\u00e7o de mais de doze horas fora de casa batendo, parei no quiosque da Taylor\u2019s para prestigiar um Porto T\u00f4nica \u2013 we\u2019re really not in Kansas anymore. Mais algumas pernadas e chegamos ao palco Binance, em que Caroline Polachek encerraria minha primeira noite. A ideia era aproveitar os morrinhos do parque para curtir o show de longe e sem m\u00e1scara, bebericando meu drink, mas a energia da artista foi t\u00e3o contagiante que decidi chegar perto e \u2013 pasme! \u2013 dan\u00e7ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caroline Polachek (ou Caroline Bolachinha, como gosto de cham\u00e1-la) tem s\u00f3 1,60m, mas parece ganhar alguns cent\u00edmetros de bra\u00e7os e pernas quando dan\u00e7a no palco de forma adoravelmente desajeitada, com movimentos ao mesmo tempo estranhos e harm\u00f4nicos. Ela sabe que n\u00e3o dan\u00e7a como uma cantora pop tradicional, mas achou um jeito de fazer isso dar certo do seu jeito. Para mim, \u00e9 uma boa forma de resumir sua identidade enquanto artista: uma mistura de Kate Bush e Carly Rae Jepsen, uma criatura di\u00e1fana que pode ser sua melhor amiga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Prova disso foi o show que fez o p\u00fablico dan\u00e7ar na madrugada com os sucessos de \u201cPang\u201d, seu \u00e1lbum de estreia, e boas surpresas, como o cover de \u201cBreathless\u201d, do The Corrs, e \u201cBillions\u201d, um lan\u00e7amento recente de um \u00e1lbum sucessor que deve pintar logo mais. Temos bons motivos para aguardar sua passagem pelo Brasil. Tame Impala who?<\/p>\n<figure id=\"attachment_66989\" aria-describedby=\"caption-attachment-66989\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-66989 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/primavera_caroline1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/primavera_caroline1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/primavera_caroline1-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-66989\" class=\"wp-caption-text\"><em>Caroline Polachek \/ Foto de Hugo Lima, NOS Primavera Sound<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>Top 3 do primeiro dia de NOS Primavera Sound<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno Capelas<\/strong><br \/>\n1 &#8211; Nick Cave and the Bad Seeds<br \/>\n2 &#8211; DIIV<br \/>\n3 &#8211; Caroline Polachek<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Anna Vit\u00f3ria Rocha<\/strong><br \/>\n1 &#8211; Nick Cave and the Bad Seeds<br \/>\n2 &#8211; Caroline Polachek<br \/>\n3 &#8211; DIIV<\/p>\n<figure id=\"attachment_66997\" aria-describedby=\"caption-attachment-66997\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-66997 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/primaveraporto2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/primaveraporto2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/primaveraporto2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-66997\" class=\"wp-caption-text\"><em>Foto de Hugo Lima \/ NOS Primavera Sound<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong><span style=\"color: #ff0000;\">SAIBA COMO FOI O\u00a0<\/span><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/06\/11\/balanco-nos-primavera-sound-porto-2022-em-portugal-dia-2\/\">DIA 2<\/a><span style=\"color: #ff0000;\"> e o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/06\/13\/balanco-nos-primavera-sound-porto-2022-em-portugal-dia-3\/\">DIA 3<\/a> DO NOS PRIMAVERA SOUND PORTO 2022<\/span><\/strong><\/h2>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Primeiro dia do NOS Primavera Sound, uma vers\u00e3o redux &#038; deluxe do irm\u00e3o mais velho catal\u00e3o, destaca os shows de Kim Gordon, Sky Ferreira, DIIV, Caroline Polachek, Nick Cave o datado Tame Impala&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/06\/10\/balanco-nos-primavera-sound-porto-portugal-dia-1\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":14,"featured_media":66953,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[4171,5755,5754,47,93,5756,5757],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66944"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=66944"}],"version-history":[{"count":18,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66944\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":67042,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66944\/revisions\/67042"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/66953"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=66944"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=66944"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=66944"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}