{"id":66827,"date":"2022-06-06T01:03:09","date_gmt":"2022-06-06T04:03:09","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=66827"},"modified":"2022-07-13T15:15:46","modified_gmt":"2022-07-13T18:15:46","slug":"entrevista-jair-naves-se-redescobre-no-caos-sonoro-de-seu-novo-disco-ofuscante-a-beleza-que-eu-vejo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/06\/06\/entrevista-jair-naves-se-redescobre-no-caos-sonoro-de-seu-novo-disco-ofuscante-a-beleza-que-eu-vejo\/","title":{"rendered":"Entrevista: Jair Naves se redescobre no &#8216;caos&#8217; sonoro de seu novo disco, \u201cOfuscante A Beleza Que Eu Vejo\u201d"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\">entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/Victoranpires\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Victor de Almeida<\/a><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2010, em uma das primeiras viagens que fiz a S\u00e3o Paulo, lembro de ter entrado em uma loja de discos na Galeria do Rock, um dos pontos que visitei e, talvez, centro de um imagin\u00e1rio roqueiro para aqueles que, assim como eu, consumiam m\u00fasica na primeira d\u00e9cada dos anos 2000 e nunca tinham visitado a capital paulista. Lembro de ter pegado no balc\u00e3o da loja um folheto do tamanho de um cart\u00e3o postal com a divulga\u00e7\u00e3o do lan\u00e7amento do trabalho solo de Jair Naves, at\u00e9 ent\u00e3o conhecido pelo seu trabalho com a banda Ludovic.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cart\u00e3o era uma sobre \u201cAraguari\u201d (2010), primeiro trabalho de Jair, e trazia algumas cita\u00e7\u00f5es e, dentre elas, acho que a de H\u00e9lio Flanders me chamou a aten\u00e7\u00e3o. O cantor e compositor \u00e0 frente do Vanguart enaltecia Naves como um dos maiores compositores de sua gera\u00e7\u00e3o e chamava a aten\u00e7\u00e3o para uma beleza, digamos, \u201ccortante\u201d das m\u00fasicas do ex-Ludovic em sua empreitada solo. Em 2022, mais de uma d\u00e9cada depois, Jair Naves lan\u00e7a seu quinto \u00e1lbum de est\u00fadio, \u201c<a href=\"https:\/\/ditto.fm\/ofuscante-a-beleza-que-eu-vejo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ofuscante A Beleza Que Eu Vejo<\/a>\u201d e, ao que me parece, segue sendo um lugar comum reafirmar as palavras de Flanders no cart\u00e3o de \u201cAraguari\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naves \u00e9 dono de um estilo muito peculiar de composi\u00e7\u00e3o l\u00edrica, que mescla uma sensibilidade aflorada com uma sinceridade arrebatadora sobre si. Musicalmente, sempre transitou entre uma figura de trovador ao viol\u00e3o flertando com sonoridades folk, principalmente no in\u00edcio da sua carreira no j\u00e1 citado EP \u201cAraguari\u201d, e entre o performer roqueiro en\u00e9rgico e cat\u00e1rtico, remetendo aos tempos de sua ex-banda, em trabalhos mais recentes como \u201cTrov\u00f5es A Me Atingir\u201d (2015) e \u201cRente\u201d (2019).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse novo trabalho, Jair parece apontar para novos rumos e nos oferece um disco sobre processos, sejam eles de aprendizagem, descoberta ou experimenta\u00e7\u00e3o, mas que passam desde o desbravamento de um novo instrumento, como tamb\u00e9m novas rela\u00e7\u00f5es com a composi\u00e7\u00e3o musical em est\u00fadio, t\u00e9cnicas de grava\u00e7\u00e3o e, at\u00e9 mesmo, uma mudan\u00e7a de paradigma em rela\u00e7\u00e3o ao equipamento de \u00e1udio e etapas de p\u00f3s-produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que temos nas 13 faixas de \u201c<a href=\"https:\/\/ditto.fm\/ofuscante-a-beleza-que-eu-vejo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ofuscante A Beleza Que Eu Vejo<\/a>\u201d \u00e9 a poesia apurada de Jair Naves refletindo sobre a vida em seus agora completados 40 anos, a complexa divis\u00e3o de vida entre dois pa\u00edses (sob a perspectiva de imigrante latino em uma Calif\u00f3rnia progressista e neoliberal, assim como, um estrangeiro que, sem ufanismo, se [re]descobre brasileiro), a solid\u00e3o do isolamento social ocasionado pela pandemia e sobre um Brasil adoecido tanto pela COVID-19, ansiedade e depress\u00e3o quanto pelo fascismo espraiado pela extrema-direita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Produzido pelo pr\u00f3prio Jair, em parceria com Zeca Leme (BTG Studio), \u201cOfuscante A Beleza Que Eu Vejo\u201d \u00e9 um \u00e1lbum que traz um esmero e aten\u00e7\u00e3o aos detalhes, ao mesmo tempo que nos apresenta um compositor de longa data que redescobre uma alegria de amador, ou melhor de iniciante, no contato com o piano, pedais de efeito e novas formas de conceber a sua voz e cantar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma entrevista sincera e emocionante ao Scream &amp; Yell, Jair Naves fala sobre essas novas descobertas da carreira, desafios do cen\u00e1rio independente no Brasil, envelhecimento, sua rela\u00e7\u00e3o com Fred (seu cachorro, personagem por tr\u00e1s de \u201cBreu\u201d), inquieta\u00e7\u00f5es sobre o futuro, al\u00e9m de destrinchar alguns aspectos t\u00e9cnicos por tr\u00e1s do novo \u00e1lbum, viv\u00eancias em est\u00fadio e demonstrar um \u00e2nimo renovado para o que est\u00e1 por vir. Seja l\u00e1 o que for.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Ofuscante A Beleza Que Eu Vejo\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_k4LOv3wOTUQdzugZS1CBo9JeY4rMTnDzo\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Queria come\u00e7ar nossa conversa pelo in\u00edcio do disco. Em \u201cOfuscante A Beleza Que Eu Vejo\u201d o primeiro instrumento que se d\u00e1 para ouvir, al\u00e9m da voz, \u00e9 um piano. Coisa que me chamou a aten\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos seus outros trabalhos que tendem a come\u00e7ar com o protagonismo de guitarras\/viol\u00e3o. O piano aqui diz algo sobre o processo de composi\u00e7\u00e3o dessas m\u00fasicas?<\/strong><br \/>\nDiz muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu n\u00e3o tocava piano antes da pandemia, e comecei a tocar para n\u00e3o enlouquecer. L\u00e1 por abril de 2020, comecei num processo de me assumir como iniciante, o que \u00e9 dif\u00edcil na minha idade. Acho que a gente tem idade parecida, n\u00e3o sei como \u00e9 para voc\u00ea. Mas \u00e9 aquela coisa de pegar o tutorial do YouTube e saber onde fica o D\u00f3 e desenvolver a partir da\u00ed. Acho que nem quando comecei a estudar viol\u00e3o, eu estudei tanta m\u00fasica. N\u00e3o tinha muito o que fazer e era o que me dava prazer, sabe?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, nunca teve esse come\u00e7o mesmo e nunca teve tanto piano num disco. Acho que isso reflete muito um estado de solid\u00e3o. O piano \u00e9 um instrumento muito autossuficiente, ele pode ser percussivo, \u00e9 melodia e harmonia acontecendo ao mesmo tempo. E o que me fez decidir colocar essa m\u00fasica na abertura foi a letra. Assim&#8230; analisando o que eu fa\u00e7o, essa m\u00fasica tem uns dos versos que eu mais fiquei feliz de ter escrito, sabe?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a gente n\u00e3o sabia muito bem do tratamento musical para ela. Tentei colocar tudo na m\u00fasica, tentei colocar sintetizador, gravamos bateria e baixo, umas coisas de guitarra meio ambi\u00eancia, a gente chegou a gravar umas coisas com aquele Tascam Porta K7, tentando simular aquela coisa meio Nine Inch Nails. E a\u00ed, o Zeca (Leme, co-produtor do disco) falou: \u201ccara, essa m\u00fasica tem que ser voz e piano, parece que tudo que voc\u00ea t\u00e1 fazendo \u00e9 para colocar um escudo na sua frente que voc\u00ea t\u00e1 falando uma coisa que \u00e9 muito pessoal e acho que voc\u00ea t\u00e1 se sentindo muito exposto. Acho que a melhor vers\u00e3o \u00e9 voz e piano.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a\u00ed, acabei tentando umas outras coisas, mas acabei dando raz\u00e3o a ele. Acabei assumindo uma vulnerabilidade e um estado de esp\u00edrito que \u00e9 dif\u00edcil mesmo. Mas o piano tamb\u00e9m resgata uma coisa que sinto falta. Eu j\u00e1 fa\u00e7o m\u00fasica h\u00e1 muito tempo e eu sentia falta de um lado mais l\u00fadico, de voc\u00ea n\u00e3o saber o que est\u00e1 fazendo, sabe? Ent\u00e3o, \u00e9 um instrumento que eu n\u00e3o domino. Acho que foi uma procura por uma alegria de iniciante, coisa que a gente perde com o tempo. \u00c9 tipo aquela m\u00fasica \u201cHeavy Metal Drummer\u201d (do Wilco), eu sinto falta de uma inoc\u00eancia que eu perdi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9, acaba que tem isso mesmo. Quando \u201cMeu Calabou\u00e7o (T\u00e3o Precioso \u00c9 o Novo Dia)\u201d toca, ao contr\u00e1rio dos outros discos que come\u00e7am sempre com banda completa, aqui parece que \u00e9 um processo mais solit\u00e1rio mesmo.<\/strong><br \/>\n\u00c9 muito mais sozinho mesmo. O est\u00fadio era toda uma precau\u00e7\u00e3o, aquela coisa de m\u00e1scara, quando tinha algum convidado era meio que um evento. Acho que \u00e9 o disco mais solit\u00e1rio que fiz na vida. De fato, reflete isso mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acho que, musicalmente, \u201cOfuscante A Beleza Que Eu Vejo\u201d traz umas roupagens que muita gente tem tratado como \u201cexperimental\u201d, mas o formato can\u00e7\u00e3o permanece, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nSim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas acho que talvez mais experimental que incorporar ru\u00eddo e efeitos, uma parte grande da experimenta\u00e7\u00e3o est\u00e1 no jeito como voc\u00ea tem tratado a voz. Ainda falando de \u201cMeu Calabou\u00e7o (T\u00e3o Precioso \u00c9 o Novo Dia)\u201d, mas tamb\u00e9m poder\u00edamos falar de outras, \u00e9 poss\u00edvel ouvir como voc\u00ea tem pensado as melodias, misturando canto e spoken word, mas tamb\u00e9m em manipula\u00e7\u00f5es da voz, mexendo com satura\u00e7\u00e3o, ora soando abafado, ora soando como uma textura a mais nas m\u00fasicas. Como voc\u00ea concebeu a voz nesse disco?<\/strong><br \/>\nFoi muito tentativa e erro, o disco como um todo. Mas acho que tem uma coisa tamb\u00e9m que tem muito na m\u00fasica brasileira que \u00e9 tratar a voz quase como uma rever\u00eancia, uma coisa cristalina, que n\u00e3o pode ser tocada, mesmo em discos de rock, sabe? E, principalmente, em grandes produ\u00e7\u00f5es dos anos 80, o volume de voz sempre muito alto e tal. N\u00e3o sei, talvez seja um instinto meio autodestrutivo ou outra coisa, n\u00e3o sei. Mas acho justo tratar a voz como mais um elemento. E sempre tinha uma preocupa\u00e7\u00e3o de chegar num meio termo que ainda fosse intelig\u00edvel o que eu estava dizendo. Mas que tivesse essa coisa coerente com o resto dos instrumentos que tem muitos experimentos, efeitos em cima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, passamos muito a voz por pedais, por outros efeitos. Tamb\u00e9m o jeito como gravei a voz foi diferente, um registro muito mais alto, muito mais agudo e quase \u201cfalseteado\u201d. Muito pr\u00f3ximo do microfone tamb\u00e9m. Essa m\u00fasica, principalmente, quando ou\u00e7o sinto a minha voz muito no \u201ccangote\u201d mesmo. Uma coisa que n\u00e3o me lembro de ter feito. A gente vai se descobrindo. Tamb\u00e9m, o fato desse disco ter mudado tanto e ter sido feito de uma forma solit\u00e1ria trouxe uma coisa de autoconhecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Explorei mais a minha voz, eu n\u00e3o sou um cantor de forma\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o \u00e9 meio experimental no sentido literal da palavra. Acho que esse termo quando aplicado a m\u00fasica traz uma coisa muito carregada de querer ser vanguardista ou sei l\u00e1. Mas, no meu caso, foi meio que testar coisas que a gente n\u00e3o tinha feito antes. E nesse disco tem muito. N\u00e3o \u00e9 que eu queira assumir um r\u00f3tulo de desbravador da m\u00fasica popular, mas, dentro da minha discografia, tem coisas que eu nunca tinha feito antes mesmo. E \u00e9 muito divertido, porque, a partir do momento que voc\u00ea assume que a voz \u00e9 mais um instrumento e n\u00e3o precisa, necessariamente, ser a protagonista do arranjo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro que a letra precisa ser entendida, mas quando voc\u00ea perde um pouco esse preciosismo, voc\u00ea faz descobertas muito interessantes. Esse disco tem muito isso, desde gravar a voz de m\u00e1scara, o que \u00e9 uma ideia meio de jerico, mas trouxe essa coisa abafada, passar a voz por efeitos para trazer uma textura de fita K7 ou passar pelos pedais, n\u00e3o sei.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Jair Naves - De Arder\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/73BhJRVJBt4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Essa coisa da proximidade \u00e9 interessante, n\u00e9? Eu tive uma sensa\u00e7\u00e3o parecida quando escuto as coisas da Billie Eilish. Voc\u00ea ouve algumas m\u00fasicas dela e parece que ela est\u00e1 cantando no p\u00e9 do seu ouvido ou dentro da sua cabe\u00e7a, n\u00e9?<\/strong><br \/>\n\u00c9, engra\u00e7ado, n\u00e9? Eu acho a produ\u00e7\u00e3o dos discos dela, principalmente do primeiro, muito potente, principalmente no contexto que ela est\u00e1 inserida. Ent\u00e3o, quando voc\u00ea vai trabalhando com algu\u00e9m tem coisas que n\u00e3o s\u00e3o comunicadas, mas s\u00e3o meio que transferidas de alguma forma. Na sexta m\u00fasica, que \u00e9 uma faixa meio que s\u00f3 piano, o Zeca fez um tratamento de piano que me lembra muito as produ\u00e7\u00f5es da Billie Eilish e eu n\u00e3o falei nenhuma palavra. Acho uma refer\u00eancia muito boa, porque quando voc\u00ea pega refer\u00eancia de uma esfera pop e transfere para o que a gente faz, uma banda independente, do Brasil&#8230; Ainda mais no nosso caso, uma coisa quase kamikaze, que n\u00e3o tem nada a perder e, mesmo assim, fazer um disco que daqui a uns anos a gente vai ouvir e achar gra\u00e7a das loucuras todas. \u00c9 curioso pensar como soa diferente. \u00c9 muito louco. Voc\u00ea foi a primeira pessoa que citou essa refer\u00eancia. Acaba que o Zeca traz muito isso, at\u00e9 pela profiss\u00e3o dele, quem ele grava no est\u00fadio, n\u00e9? Ele vem de uma linha muito mais pop. E muito das conversas era meio: \u201ccara, aplica no meu disco o que voc\u00ea usou gravando o Fiuk e vamos ver o que sai\u201d. Muito das ideias de mixagem, vieram disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu queria sair um pouco do disco e focar mais na experi\u00eancia da escuta. Em parte o disco me trouxe uma mem\u00f3ria meio recorrente. Em 2019, um amigo aqui de Alagoas (Fernando Ten\u00f3rio, psiquiatra) escreveu um post no Instagram falando sobre experi\u00eancias de consult\u00f3rio e mencionava uma recorr\u00eancia de pacientes reclamando de esgotamento corporal, ansiedade, sintomas depressivos, dores de cabe\u00e7a frequentes, dentre outras quest\u00f5es decorrentes da condi\u00e7\u00e3o de trabalho, estilo de vida e condi\u00e7\u00f5es mais amplas, n\u00e3o eram quest\u00f5es apenas da ordem intima. Ele falava nesse texto que essas pessoas estavam \u201cdoentes de Brasil\u201d, de como parte desses sintomas eram decorrentes desse contexto hist\u00f3rico e de como ele, de certo modo, estava tratando no indiv\u00edduo quest\u00f5es que eram do social. Um povo inerte, adoecido, em alguma medida (Ten\u00f3rio fechou seu Instagram, <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/08\/01\/opinion\/1564661044_448590.html?outputType=amp\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">mas fala sobre o assunto nessa texto de Eliane Brum<\/a>). \u201cOfuscante A Beleza Que Eu Vejo\u201d me levou a essa mem\u00f3ria n\u00e3o por ser um disco de reflex\u00e3o desse contexto em si, mas coloca uma perspectiva subjetiva, desse indiv\u00edduo, meio adoecido, nesse contexto. Um disco que acho que sintetiza um pouco desses processos que estamos vivendo, mas trazendo a aten\u00e7\u00e3o para dentro, para a primeira pessoa. Faz algum sentido para voc\u00ea?<\/strong><br \/>\nCara, tem muito. \u00c9 inescap\u00e1vel. Eu n\u00e3o sei. S\u00e3o conversas recorrentes que eu tenho. De como o mundo mudou da gera\u00e7\u00e3o dos nossos pais para a nossa, de como esses objetivos s\u00e3o diferentes e como as etapas da vida s\u00e3o diferentes. O que voc\u00ea conseguia com 25, 30, 35, 40 anos. Eu n\u00e3o vi esse post que voc\u00ea mencionou, fiquei curioso para ver e eu nunca tinha visto ningu\u00e9m falar o que voc\u00ea me disse que ele falou, que \u00e9 pensar o individuo nesse contexto e manda ele de volta para a trincheira. Tem muito a\u00ed, \u00e9 um assunto que traria reflex\u00f5es bem longas. A gente acabou que chegou em um ponto que esse modelo de vida neoliberal, flertando e, por vezes, abra\u00e7ando o fascismo \u00e9 uma coisa insustent\u00e1vel em termos de sa\u00fade mental mesmo. Essa coisa da liberdade, esse modelo de liberdade, seja seu patr\u00e3o, fa\u00e7a seu hor\u00e1rio, o quanto isso acaba com as pessoas. Uma carga de hor\u00e1rio insana para que fa\u00e7a valer a pena e sem garantia nenhuma. N\u00e3o sei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Trazendo essa discuss\u00e3o para dentro do disco. N\u00e3o existe necessariamente uma men\u00e7\u00e3o, ou melhor uma nomea\u00e7\u00e3o, nas m\u00fasicas. Voc\u00ea cita \u201ccorja\u201d, \u201cparasitas\u201d, por exemplo. \u00c9 uma perspectiva que me parece de quem est\u00e1 dentro desse contexto hist\u00f3rico, est\u00e1 vivendo. Essas coisas que voc\u00ea viveu durante o processo de feitura do disco, at\u00e9 que ponto esse \u201cestado de doen\u00e7a\u201d nos leva a quest\u00f5es como essa que voc\u00ea apontou. Da gente pensar que \u201cj\u00e1 deveria estar calejado\u201d ou questionamentos sobre porque ainda estamos aqui. Eu queria pensar mesmo esse processo de quem est\u00e1 dentro do universo do disco.<\/strong><br \/>\n\u00c9 curioso porque eu sei exatamente do que voc\u00ea est\u00e1 falando e n\u00e3o sei muito bem o que dizer sobre isso. Tem uma m\u00fasica que fala sobre not\u00edcias ruins vindo de enxurradas, como a gente reage a isso. Sei l\u00e1, como a gente come\u00e7ou esse papo falando sobre o que aconteceu nos \u00faltimos cinco dias. A gente precisa lidar com uma quantidade de informa\u00e7\u00e3o altamente destrutiva, cotidianamente, todo santo dia. Eu n\u00e3o sei como voc\u00ea se define como individuo, qual o seu lugar no mundo, seus planos, suas ambi\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A leitura que fiz da sua pergunta e que tentei deixar claro no disco \u00e9 de quem faz parte disso. Ent\u00e3o, muito dessa guinada \u00e0 extrema direita que o pa\u00eds passou&#8230; \u00c9 dif\u00edcil a gente se ausentar disso, ignorar isso porque a gente conhece muita gente que optou por isso. Como eu n\u00e3o conseguir abrir os olhos dessas pessoas? Eu me culpava muito em grande parte. Tenho uma sorte de n\u00e3o conviver tanto, ao contr\u00e1rio de muitos amigos eu n\u00e3o tenho pais bolsonaristas, por exemplo. Nos Estados Unidos vem outra coisa&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fico com medo de parecer ingrato porque tem muita gente que queria se mudar para c\u00e1 e tudo mais. Mas, ao mesmo tempo, eu vejo um romantismo nessas pessoas que, nem de longe \u00e9 condizente com a realidade, n\u00e9? O que \u00e9 de fato voc\u00ea vir para c\u00e1, voc\u00ea est\u00e1 num lugar totalmente novo e ser um desconhecido com 30 e tantos anos, 40 anos e ter que reescrever tudo do zero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 vive h\u00e1 alguns anos em Los Angeles, viveu esse processo de imigra\u00e7\u00e3o durante a era Trump nos Estados Unidos. Acho que viu a elei\u00e7\u00e3o do Bolsonaro \u00e0 dist\u00e2ncia, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nFoi. Eu lembro exatamente como foi. Eu fui ao cinema e vi dois filmes nesse dia para n\u00e3o ficar olhando de tempo em tempo para o celular toda hora. E quando acabou o \u00faltimo, eu abri um desses portais grandes de not\u00edcia e vi \u201cBolsonaro presidente\u201d, essas duas palavras juntas n\u00e3o faziam muito sentido juntas para mim. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que isso est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ao mesmo tempo que encarar essa mudan\u00e7a durante um governo declaradamente xen\u00f3fobo, para um estado que se diz progressista, mas esse discurso neoliberal de preserva\u00e7\u00e3o de liberdades que \u00e9 bem complexo, ao mesmo tempo que se assume dentro de um progressismo rivalizando com um pa\u00eds altamente conservador e que tem seus problemas de ordem social e at\u00e9 com vacina\u00e7\u00e3o. Essas controv\u00e9rsias de certo modo aparecem no disco tamb\u00e9m, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nSim, com certeza. Tem tanta coisa a\u00ed. Eu me sinto muito mais brasileiro aqui do que a\u00ed, sabe? Eu sempre achei nacionalismo um sentimento superperigoso, nunca tive nenhuma tend\u00eancia ao ufanismo. Mas aqui eu descobri que \u00e9 uma parte gigante de quem eu sou, n\u00e3o imaginava que era tanto. Os costumes, as coisas que refletem no sotaque, \u00e9 a primeira impress\u00e3o que as pessoas t\u00eam de voc\u00ea: o lugar de onde voc\u00ea veio. O primeiro dado que eles t\u00eam. E tudo isso que voc\u00ea falou \u00e9 real. Estou numa esp\u00e9cie de o\u00e1sis de progressismo, mas que tem as quest\u00f5es de ser um local colonizador, um local muito voltado para si, que reescreve a hist\u00f3ria para se colocar como her\u00f3i. E \u00e9 muito louco porque estou (conversando com voc\u00ea via Zoom) num lugar p\u00fablico, me sinto meio mal de falar isso em voz alta, mesmo em portugu\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu acho que, tamb\u00e9m, a ideia de dist\u00e2ncia se reflete muito no disco. Seja a dist\u00e2ncia dos outros m\u00fasicos, do processo de fazer m\u00fasica. Mas tive uma coisa muito forte que \u00e9 a dist\u00e2ncia de uma parte de mim que \u00e9 essa parte criativa, que aqui estou em um modo de sobreviv\u00eancia total para me sustentar e ficar com a pessoa que eu amo, que casei e escolhi ficar. A minha m\u00fasica meio que n\u00e3o cabe aqui por v\u00e1rios motivos, primeiro que n\u00e3o tenho dinheiro para come\u00e7ar algo do zero, ser m\u00fasico em tempo integral, preciso pagar aluguel, comer etc. Mas, ao mesmo tempo, grande parte dessas m\u00fasicas foram escritas quando eu ainda estava aqui, se n\u00e3o todas elas. Tem uma dist\u00e2ncia de uma parte de mim que fica apagada, inevitavelmente. Assim, eu fico indo e vindo j\u00e1 h\u00e1 cinco anos praticamente. E \u00e9 um processo que nunca te deixa 100% presente em um lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim, claro. Imagino. Acaba que voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 ou est\u00e1 em nenhum lugar, n\u00e9? Voc\u00ea n\u00e3o mora aqui e n\u00e3o mora a\u00ed, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nTotal. E mesmo as coisas que arrumo aqui de trabalho s\u00e3o sempre provis\u00f3rias porque eu n\u00e3o vou abrir m\u00e3o das minhas coisas a\u00ed. De tentar estar com minha m\u00e3e em um per\u00edodo de crise sanit\u00e1ria sem igual ou de ver voc\u00eas, fazer minhas m\u00fasicas. Ao mesmo tempo, quando estou a\u00ed eu fico preocupado com a Britt, minha esposa, como ser\u00e1 que ela est\u00e1 lidando com as coisas? Ent\u00e3o \u00e9 muito maluco essa coisa da dist\u00e2ncia e de n\u00e3o estar 100% presente. De ser dois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acaba que sempre voc\u00ea nunca est\u00e1 feliz com a viagem. Sempre rola um cora\u00e7\u00e3o partido indo para algum lugar, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nEu n\u00e3o aguento mais despedida. Porque toda viagem que fa\u00e7o, eu estou me despedindo de algu\u00e9m. Durante dias, fico pensando que preciso interromper algo e voltar daqui a cinco ou seis meses. Claro que isso \u00e9 um problema muito classe m\u00e9dia ou classe m\u00e9dia alta, n\u00e9? \u00c9 um problema de privil\u00e9gio, mas n\u00e3o deixa de ser um problema, ainda mais nesse cen\u00e1rio doido que a gente est\u00e1 vivendo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Jair Naves - &quot;Breu&quot; (Official Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/JbI3RNIoX6c?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Queria falar um pouco de \u201cBreu\u201d. \u00c9 uma can\u00e7\u00e3o sobre seu cachorro?<\/strong><br \/>\n\u00c9. (risos) \u00c9 sobre o meu cachorro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 o que ficou em S\u00e3o Paulo?<\/strong><br \/>\nEle mesmo. Bom e velho Fred\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu acho uma das melhores can\u00e7\u00f5es, vamos dizer assim, de amor que eu j\u00e1 ouvi sua e olha que voc\u00ea tem umas muito boas. Mas n\u00e3o sobre amor com alguma outra pessoa, mas com um animal. Acho que muito dela tem a ver com sua mudan\u00e7a para Los Angeles, n\u00e9? \u201cBreu\u201d e \u201cMeu Calabou\u00e7o (T\u00e3o Precioso \u00c9 o Novo Dia)\u201d trazem um pouco a ideia de vida, passagem do tempo e envelhecimento, quest\u00f5es que ganham novos pontos de vista aqui. Outra coisa \u00e9 que o tempo de vida dos animais \u00e9 diferente dos humanos, o que parece tornar a rela\u00e7\u00e3o ainda mais intensa, n\u00e9? Como voc\u00ea tem percebido essa passagem do tempo? \u00c9 algo que voc\u00ea tem tomado consci\u00eancia?<\/strong><br \/>\n\u00c9, eu ia chamar aten\u00e7\u00e3o para esse fato. De como a vida deles \u00e9 muito mais curta e a gente presencia tudo, todo o arco, desde os primeiros passos at\u00e9 o momento final em um per\u00edodo muito curto. E eu gostei muito que voc\u00ea falou de ser uma can\u00e7\u00e3o de amor, ningu\u00e9m nunca falou&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(Jair se emociona, para e respira)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Est\u00e1 vendo? Isso \u00e9 foda, Victor. Fiquei at\u00e9 emocionado com essa defini\u00e7\u00e3o. Gostei muito do jeito que voc\u00ea encarou e colocou isso. Acho uma m\u00fasica muito diferente de tudo que fiz, e foi muito dif\u00edcil de fazer. Gravei aquela introdu\u00e7\u00e3o, e eu j\u00e1 falei disso algumas vezes, que e eu tive que sair da sala porque eu n\u00e3o aguentava ouvir, \u00e9 uma m\u00fasica que resvala em muitas coisas importantes para mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma coisa que tem me chamado muito a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o especismo, como a gente subestima a profundidade da nossa rela\u00e7\u00e3o com os animais. Como eles s\u00e3o capazes de uma complexidade emocional que a gente n\u00e3o se d\u00e1 conta muitas vezes, de uma entrega emocional que a gente \u00e9 incapaz mesmo. Essa coisa do amor completo, do perd\u00e3o completo, que \u00e9 uma coisa que os animais s\u00e3o capazes que eu n\u00e3o acho que eu seja, por exemplo. A coisa da mudan\u00e7a foi muito complicada porque eu conseguia explicar racionalmente para todos, mas como eu ia explicar para ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei, eu n\u00e3o acho que eu v\u00e1 escrever uma m\u00fasica parecida de novo. Ela reflete muita coisa sobre o envelhecimento. Agora estou chegando nos meus 40 anos e voc\u00ea come\u00e7a a pensar em muita coisa que voc\u00ea n\u00e3o pensava antes. Aposentadoria, por exemplo, sabe? E volta para o assunto do modelo de vida que a gente est\u00e1 tendo, que talvez a nossa gera\u00e7\u00e3o seja a primeira a n\u00e3o conseguir se aposentar e uma preocupa\u00e7\u00e3o maior com isso. Uma ideia de finitude maior tamb\u00e9m, sabe?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A gente come\u00e7a a se deparar com limita\u00e7\u00f5es f\u00edsicas que a gente n\u00e3o tinha antes. Coisas pequenas como uma dor nas costas ou um problema no joelho assim. Acho que essa m\u00fasica trouxe muito isso. E foi uma das poucas m\u00fasicas que tentei escrever sobre a perspectiva que n\u00e3o fosse a minha. Se voc\u00ea for analisar, a introdu\u00e7\u00e3o \u00e9 sobre como eu achava que ele estava encarando esse problema. A segunda parte era como eu achava que ele estava se sentindo. De como eu o via tateando, estranhando a disposi\u00e7\u00e3o das coisas na casa. E a m\u00fasica termina com \u2018por que isso tinha que acontecer com voc\u00ea\u2019?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 uma m\u00fasica de um teor emocional muito forte, nem sei se essa m\u00fasica vai estar nos shows porque ainda \u00e9 dif\u00edcil lidar com ela e acho que \u00e9 a primeira vez que eu tenho esse problema em m\u00e3os depois de tudo que eu j\u00e1 gravei na vida. \u00c9 estranho, n\u00e3o sei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quem tem animal e vive essa vida de viagem passa por isso. Eu tenho uma gatinha que est\u00e1 em S\u00e3o Paulo com minha esposa agora. E \u00e9 engra\u00e7ado que toda vez que eu viajo e volto, ela \u00e9 muito diferente de cachorro, toda vez que eu volto rola uns dois ou tr\u00eas dias de boicote, puro desprezo&#8230;<\/strong><br \/>\n(risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sempre rola uns dois ou tr\u00eas dias para rolar um apego novamente, um perd\u00e3o que voc\u00ea fala. Mas acho que \u00e9 isso, no fundo \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o de amor muito doida porque n\u00e3o \u00e9 uma coisa de perda, \u00e9 uma coisa de processo. \u00c9 estar perdendo. Geralmente, numa rela\u00e7\u00e3o por mais que voc\u00ea perceba isso acontecendo \u00e9 diferente, n\u00e9?<\/strong><br \/>\n\u00c9, sim. E \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o que a comunica\u00e7\u00e3o tem muitos limites. Eu n\u00e3o sei se eles sabem o que \u00e9 cegueira. Eu n\u00e3o sei. Se eu ou voc\u00ea passarmos por isso, a gente vai saber perceber que \u00e9 isso que est\u00e1 acontecendo. E eu fico pensando o que passa na cabe\u00e7a dele. Como \u00e9 isso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele n\u00e3o sabe que algu\u00e9m pode ficar cego, n\u00e3o sei o que ele acha. E acompanhar esse processo \u00e9 muito doloroso. Voc\u00ea falou da sua gata, n\u00f3s temos uma gatinha aqui tamb\u00e9m. E eu tenho que lidar com ela tamb\u00e9m quando eu vou para o Brasil, a volta \u00e9 isso. Rola um desprezo, um ressentimento, assim. \u201cOnde \u00e9 que voc\u00ea estava at\u00e9 agora?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E essa coisa da impossibilidade de uma comunica\u00e7\u00e3o completa, me pegou muito. Quando eu mudei para c\u00e1 e eu quis explicar uma coisa que aconteceu que era muito s\u00e9ria. \u00c0s vezes, voc\u00ea fala: \u201cfulano saiu, mas j\u00e1 volta\u201d ou \u201ca gente j\u00e1 vai passear\u201d, mas como voc\u00ea fala \u201colha, vou viajar e ficar fora por meses\u201d ou \u201cvoc\u00ea n\u00e3o vai enxergar mais, mas ainda d\u00e1 pra viver, fazer suas coisinhas\u201d. \u00c9 muito estranho, tem muita coisa a\u00ed. \u00c9 uma m\u00fasica que tem uma profundidade que eu ainda n\u00e3o consigo dar conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 muito tempo, me recordo de uma dessas caixinhas de pergunta no seu Instagram de algu\u00e9m perguntando sobre o seu equipamento, sobre o que voc\u00ea usava no palco. N\u00e3o lembro exatamente a resposta que voc\u00ea deu, mas fiquei com uma lembran\u00e7a que voc\u00ea meio que disse que n\u00e3o usava nada demais, apenas afinador e alguns poucos recursos. Para esse disco novo, parece que a situa\u00e7\u00e3o deu uma mudada, n\u00e9? Qual sua rela\u00e7\u00e3o com instrumentos, pedais e equipamentos de \u00e1udio hoje?<\/strong><br \/>\nSim, mudou. Mudou totalmente e abriu muitas portas. Cara, isso tudo tem a ver com a minha trajet\u00f3ria musical tamb\u00e9m, n\u00e9? No Ludovic, eu compunha as coisas no viol\u00e3o, passava para os guitarristas e tocava baixo. E quando eu comecei solo era s\u00f3 viol\u00e3o e quando tinha guitarra era uma coisa muito simples. N\u00e3o sei se era purismo, n\u00e3o sei o que era. E agora, olhando em retrospecto eu espero n\u00e3o ter dado a impress\u00e3o de ter menosprezado a pergunta da pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o acho que seja menosprezar, mas acho que tinha uma perspectiva de autenticidade vinculado a uma crueza da m\u00fasica, n\u00e3o? Por mais que boas can\u00e7\u00f5es n\u00e3o precisem de muita coisa para funcionarem, voc\u00ea parece ter apontado para outros caminhos.<\/strong><br \/>\n\u00c9, sim, claro. Acho que hoje encaro os equipamentos como instrumentos em si. N\u00e3o quero entrar em tecnicidades que n\u00f3s gostamos, mas que talvez n\u00e3o interessem tanto ao leitor comum. Mas esses pedais como o (Chase Bliss Audio) Mood, (Hologram) Microcosm eles s\u00e3o instrumentos em si. N\u00e3o s\u00e3o pedais que voc\u00ea coloca no ch\u00e3o, pisa e liga um efeito. Acho que d\u00e1 para compor uma coisa ali, nem que seja separar um loop de uma frase maluca que o pedal criou e inserir isso. Ent\u00e3o acho que estou com a cabe\u00e7a mais aberta. O que eu acho desse disco \u00e9 que ele parece ser um disco mais da sua era que os discos anteriores. Eu n\u00e3o sei. Esses recursos oferecem possibilidades muito maiores e eu estou muito animado para poder explorar mais profundamente nos pr\u00f3ximos discos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>De certa maneira esses pedais v\u00e3o no mesmo lugar do piano, n\u00e9? A gente voltou a aprender, fazer o que voc\u00ea n\u00e3o sabe o que est\u00e1 fazendo e vai entender depois, n\u00e9?<\/strong><br \/>\n\u00c9. E voc\u00ea come\u00e7a a entender suas possibilidades ali. Acho que tem muito a ver com o tipo de m\u00fasica que eu passei a consumir tamb\u00e9m. \u00c9 engra\u00e7ado como essa d\u00e9cada mudou muita coisa para mim, at\u00e9 o meu gosto musical. O meu jeito de controlar ansiedade, que esteve muito presente desde 2018, mas se acentuou em 2020, eu passei a ouvir m\u00fasicas que eu n\u00e3o ouvia antes buscando algum conforto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que se chama de \u201cm\u00fasica ambiente\u201d que \u00e9 uma coisa mais cont\u00ednua e que n\u00e3o tinha tanta quebra, n\u00e3o tinha ideia de ponte, refr\u00e3o, estrofe e aquilo passou a fazer sentido para mim. O meu disco teve uma tentativa de fazer can\u00e7\u00f5es com essa atmosfera, com essas caracter\u00edsticas, mas com um formato tradicional. Tem a ver como eu mudei ao longo desse tempo tamb\u00e9m. Acho que lembro dessa caixinha de perguntas, deve ter sido na \u00e9poca do \u201cRente\u201d. Ouvindo o \u201cRente\u201d, hoje em dia, eu vejo como uma era muito distante. Eu, realmente, encaro m\u00fasica de outra forma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por mais que voc\u00ea considere tecnicidades que n\u00e3o interessem tanto ao leitor, eu acho que tem gente que se interessa por isso. Eu mesmo me interesso bastante nesses debates. A gente j\u00e1 falou do piano, de alguns pedais, come\u00e7o do viol\u00e3o, mas voc\u00ea consegue citar algum instrumento, pedal ou equipamento que de certa maneira mudou o jeito como voc\u00ea concebeu esse disco? De como voc\u00ea pensa composi\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nSim, claro. Acho que sintetizadores foram a maior coisa de diferente, tipo aqueles que algumas pessoas n\u00e3o levam a s\u00e9rio como o (Korg) Volca, explorar a bateria eletr\u00f4nica do Volca e passar por um pedal que j\u00e1 estava produzindo aleatoriedades como o Mood mesmo. Sei l\u00e1, nem que fosse uma sequ\u00eancia simples de bumbo e caixa e aquilo gerava uma coisa r\u00edtmica que eu considerava inimagin\u00e1vel. Os sintetizadores eles oferecem muito disso, desde aspectos de parte r\u00edtmica e at\u00e9 harm\u00f4nica e mel\u00f3dica. E esse disco foi muito aberto a aleatoriedade assim. O sintetizador que eu usei foi o (Korg) Minilogue com esses pedais e distor\u00e7\u00f5es. Muita coisa de loops que eu nunca trabalhei antes. Chamava o baterista para gravar, colocava a m\u00fasica e falava para ele fazer v\u00e1rias bases que ele conseguia para aquela sequ\u00eancia harm\u00f4nica e a gente selecionava os melhores takes e colava e, a partir da\u00ed, fazia coisas novas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Existe at\u00e9 um termo em ingl\u00eas que seria a ideia de \u201chappy accidents\u201d que aparece no disco.<\/strong><br \/>\nSim, tem demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Claro que as composi\u00e7\u00f5es s\u00e3o importantes, mas \u201cOfuscante A Beleza Que Eu Vejo\u201d parece ter um trabalho muito mais esmerado na p\u00f3s-produ\u00e7\u00e3o. Algumas faixas, como \u201cA Luz Que S\u00f3 Voc\u00ea Irradia\u201d e \u201cDialeto\u201d por exemplo, parecem terem sido compostas a partir de colagens sonoras de takes distintos. \u00c9 isso mesmo? Como foi o processo de compor assim em est\u00fadio? Qual o papel do Zeca Leme (BTG Studio) nessa mudan\u00e7a?<\/strong><br \/>\nBem, eu nunca compus assim antes. Voc\u00ea citou \u201cDialeto\u201d e aquela m\u00fasica toda era uma introdu\u00e7\u00e3o para uma outra m\u00fasica, que era uma coisa meio The Cure \u201cDesintegration\u201d, meio grandiosa, meio teatral. Mas comecei a fazer varia\u00e7\u00f5es do acorde e pensei em fazer uma outra coisa a partir disso. Imagina, se eu iria compor assim antes?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a\u00ed, tem a import\u00e2ncia do Zeca que \u00e9 gigantesca, esse disco n\u00e3o existiria sem ele. E voc\u00ea bem sabe, durante o tempo de est\u00fadio \u00e9 um per\u00edodo que voc\u00ea se exp\u00f5e e de muita vulnerabilidade. Pelo menos tendo a duvidar muito do que estou fazendo e perguntar as pessoas o que elas acham, se \u00e9 por a\u00ed mesmo, se vai dar certo. E ele me encorajava muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E os efeitos que a gente conseguiu, como por exemplo em \u201cVociferando\u201d, a voz foi gravada simultaneamente com a bateria, aquela voz que fica repetindo. Aquela voz era acionada pela batida na caixa e a caixa meio que determinava a dura\u00e7\u00e3o do eco da voz. Isso foi uma ideia totalmente dele, eu n\u00e3o tenho nem dom\u00ednio t\u00e9cnico para chegar nesse tipo de experimento. Foi muito importante. Foi o primeiro disco coproduzido da minha vida. Acho que eu tinha um purismo nos anteriores e esse foi um disco de liberta\u00e7\u00e3o. E a mixagem foi t\u00e3o ou mais importante que a grava\u00e7\u00e3o. Muita coisa foi resolvida ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em uma primeira audi\u00e7\u00e3o do disco, uma coisa que me saltou foi como \u201cOfuscante A Beleza Que Eu Vejo\u201d parece ser um disco sobre um processo e, de algum modo, de aprendizado. Por mais que as m\u00fasicas no come\u00e7o j\u00e1 apresentem interven\u00e7\u00f5es de efeitos, algumas ambi\u00eancias, uns glitches aqui e ali. Parece que o disco tem uma quebra, ali por \u201cVociferando\u201d. Quando me parece que as composi\u00e7\u00f5es parecem demonstrar um dom\u00ednio maior das ferramentas, do est\u00fadio e da est\u00e9tica que se buscava. \u00c9 por a\u00ed? Quais os aprendizados que voc\u00ea tira daqui?<\/strong><br \/>\n\u00c9. Eu acho que voc\u00ea est\u00e1 numa posi\u00e7\u00e3o muito privilegiada de ver o disco de um jeito que eu n\u00e3o consigo. At\u00e9 porque as seis primeiras s\u00e3o m\u00fasicas mais mel\u00f3dicas, um poucos menos desafiadoras para o ouvinte. Eu estou tentando pensar, mas acho que cronologicamente depois de \u201cVociferando\u201d sejam as \u00faltimas mesmo e talvez a gente tenha se dado uma liberdade maior. Essa quebra foi meio consciente, por exemplo, nas m\u00fasicas que se repetem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A minha ideia era, basicamente, contar a mesma hist\u00f3ria de formas diferentes em \u201cMorre Um Apaziguador \/ Nasce Um Saqueador\u201d e \u201cNasce Um Saqueador \/ Morre Um Apaziguador\u201d. A partir dali, realmente tem uma quebra e a gente decide aprofundar um pouco mais e enfim, vamos testar mais. De fato, acho que estou falando, mas absorvendo um pouco do que voc\u00ea colocou. Acho que tem um dom\u00ednio maior e uma seguran\u00e7a maior para ir um pouco mais fundo nas \u00e1guas que a gente estava se aventurando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9, com certeza. Tem uma percep\u00e7\u00e3o minha que n\u00e3o \u00e9 um disco que mostra aonde voc\u00ea \u201cchegou\u201d, mas para onde voc\u00ea pretende ir. N\u00e3o sei. \u00c9 um disco de passagem.<\/strong><br \/>\nEu acho que voc\u00ea me contou isso uma vez e eu fiquei pensando nisso a noite toda. Cara, acho que o Victor tem raz\u00e3o sim. Porque \u00e9 um disco que aponta para muitas poss\u00edveis dire\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m. E \u00e9 por isso que j\u00e1 estou at\u00e9 animado para gravar um pr\u00f3ximo por muitos motivos, inclusive existenciais, mas um dos motivos \u00e9 esse. Agora que eu tenho essas coisas em m\u00e3os, o que mais eu vou descobrir? O que mais eu vou aprender?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas tamb\u00e9m, vale mencionar que est\u00e1 tudo ali, n\u00e9? Tem Ludovic, tem fase \u201cAraguari\u201d, tem a fase \u201cTrov\u00f5es\u201d. Est\u00e1 tudo ali, junto com essas coisas novas.<\/strong><br \/>\nAcho que isso se aplica at\u00e9 ao que a gente estava falando antes sobre envelhecimento. Ao contr\u00e1rio do que me foi passado quando eu era crian\u00e7a, talvez para voc\u00ea tamb\u00e9m. Pelo menos, eu tinha a ideia de que quando eu tivesse a idade que eu tenho hoje, talvez, eu j\u00e1 tivesse chegado em algum lugar, sabe? E eu vejo que n\u00e3o, eu estou no caminho e acho que estarei no caminho por muito tempo. Eu acho que esse disco \u00e9 tamb\u00e9m um pouco isso. Sei l\u00e1. Se permitir ainda ter um gosto infantil e amador, n\u00e3o profissional, pela m\u00fasica, sabe? Pensar que hoje eu vou chamar meus amigos para o est\u00fadio e a gente vai fazer uma merda qualquer que pode dar muito errado, mas pode dar certo. No final das contas \u00e9 o que se leva. Eu acho um pouco isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 um pouco tamb\u00e9m desse processo que voc\u00ea canta sobre \u201cestar calejado\u201d, n\u00e9? De pensar que eu nem deveria estar t\u00e3o emocionado com essas coisas, afinal de contas j\u00e1 fiz tantas vezes, n\u00e9? Mas ainda estar descobrindo coisas que gerem uma empolga\u00e7\u00e3o genu\u00edna que, se n\u00e3o igual a l\u00e1 tr\u00e1s, \u00e9 semelhante, talvez.<\/strong><br \/>\n\u00c9, equivalente sim. E acho que tem uma coisa a\u00ed que se colocada nesse contexto pol\u00edtico, social e econ\u00f4mico maior que onde a gente est\u00e1 sempre pode ser o \u00faltimo disco. \u00c9 um investimento gigante que a gente n\u00e3o sabe at\u00e9 quando a gente vai conseguir continuar fazendo, sabe? Se \u00e9 o \u00faltimo, ent\u00e3o que a gente fa\u00e7a o melhor que a gente pode, tentar aprender. Espero que n\u00e3o seja o \u00faltimo, mas se for, a gente fez o melhor que pode, falou as coisas que a gente queria falar da melhor forma poss\u00edvel. Eu acho que eu nunca pensei tanto sobre isso, quanto agora. Ser um m\u00fasico independente, no cen\u00e1rio brasileiro, que n\u00e3o dialoga tanto com outros. N\u00e3o \u00e9 como um mercado angl\u00f3fono que se prop\u00f5e a falar com o mundo inteiro. A gente fica dentro de nossas fronteiras e at\u00e9 quando isso continua sendo vi\u00e1vel? Que \u00e9 aquele neg\u00f3cio da conta n\u00e3o fechar, que uma das m\u00fasicas fala. Eu n\u00e3o sei onde se aplica exatamente, mas foi uma sensa\u00e7\u00e3o presente enquanto eu fazia o disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma coisa que acho que j\u00e1 conversamos h\u00e1 um tempo, durante os processos de grava\u00e7\u00e3o desse disco, era como a falta de perspectiva de shows fizeram voc\u00ea repensar o processo de feitura de um disco. Sem a press\u00e3o de ter que \u201crepetir\u201d o disco ao vivo, voc\u00ea se via mais disposto a ousar nas grava\u00e7\u00f5es e constru\u00e7\u00e3o do novo \u00e1lbum. No rock se tem muito isso, n\u00e9? De gravar um disco que, gravado, soe como uma apresenta\u00e7\u00e3o ou performance ao vivo e, ao vivo, soe como se fosse t\u00e3o bom, t\u00e3o cristalino e perfeitamente executado quanto o gravado. A gente acaba tirando essa liberdade de \u201cn\u00e3o ter que repetir\u201d, afinal nem show ia ter. Parece, para mim, que isso foi uma t\u00f4nica no processo do disco, correto?<\/strong><br \/>\nAh, sim, total. Ali\u00e1s, eu estava muito pessimista com o andamento da pandemia, principalmente com a rea\u00e7\u00e3o governamental em rela\u00e7\u00e3o a isso. Eu pensava, sei l\u00e1, n\u00e3o vai ter show nos pr\u00f3ximo cinco anos. E eu ainda me sinto um pouco inseguro com rela\u00e7\u00e3o a essa ideia de tocar novamente. Mas teve isso de fato, at\u00e9 nisso \u00e9 um disco que \u00e9 meio retrato de seu tempo. E, de algum modo, eu pensava daquele jeito na \u00e9poca da pergunta da caixinha. Era um purismo, eu n\u00e3o queria ter essa preocupa\u00e7\u00e3o ao vivo, cantando. Pelo menos eu achava isso. Agora n\u00e3o, agora eu quero ter at\u00e9 uma mesinha com as coisas montadas e os instrumentos de teclas. Isso foi algo muito presente mesmo. Acho at\u00e9 que me deu um gosto, me fez eu me apegar mais ao processo de grava\u00e7\u00e3o do que antes e tido a vontade que aquilo durasse mais tempo. Talvez a m\u00fasica passe por a\u00ed daqui para a frente. N\u00e3o vai ter mais palco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nesse meio tempo, a gente viu muita coisa fechando, n\u00e9? Os palcos est\u00e3o meio que se acabando tamb\u00e9m. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a quest\u00e3o sanit\u00e1ria, mas o que veio a reboque dela. Com os shows sendo retomados, como voc\u00ea v\u00ea isso? O que voc\u00ea prepara para \u201cOfuscante A Beleza Que Eu Vejo\u201d? Qual o tamanho do \u201cproblema\u201d? Parece que voc\u00ea vai ter v\u00e1rios.<\/strong><br \/>\nAh sim, vou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com rela\u00e7\u00e3o a primeira parte da pergunta, eu consigo pensar em poucas casas de show mesmo que permanecem abertas. Lidar com o fechamento das casas de shows, com o poder aquisitivo muito menor por parte das pessoas. Hoje em dia, as pessoas talvez precisem escolher um entre v\u00e1rios shows para ir no m\u00eas assim e escolher um disco, uma camiseta para comprar. E isso atrapalha muito o processo de recupera\u00e7\u00e3o do investimento feito no disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, n\u00e3o sei como vai ser isso, estou bem curioso para saber como vai ser essa parte da procura pelo ao vivo. Agora, os problemas de transpor esse disco para o palco v\u00e3o ser muitos, n\u00e9? Vamos ter que colocar um m\u00fasico a mais, mas tamb\u00e9m confesso que isso parece empolgante. N\u00e3o sei, talvez algumas m\u00fasicas precisem de uma releitura completa e outras v\u00e3o permitir uma leitura mais fiel do que est\u00e1 no disco. De fato, vai ser um problem\u00e3o, mas estou muito empolgado para encarar.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Jair Naves - &quot;Todo o meu empenho&quot; (Official Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/4rieaO5aGug?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Jair Naves - Irrompe (\u00e9 quase um milagre que voc\u00ea exista) - Official Video\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/rK4HbXcNO4o?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Victor de Almeida (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/Victoranpires\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@Victoranpires<\/a>) \u00e9 jornalista, Doutor em Comunica\u00e7\u00e3o pela UFPE e professor da Universidade Federal de Alagoas. Autor dos livros \u201cAl\u00e9m do P\u00f3s-Rock\u201d (2015) e \u201cCircuitos Urbanos e Palcos Midi\u00e1ticos\u201d (2017). A foto que abre o texto \u00e9 de Luis Naressi.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em uma entrevista sincera e emocionante, Jair Naves fala sobre essas novas descobertas da carreira, desafios do cen\u00e1rio independente no Brasil, envelhecimento, sua rela\u00e7\u00e3o com seu cachorro, inquieta\u00e7\u00f5es sobre o futuro e muito mais\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/06\/06\/entrevista-jair-naves-se-redescobre-no-caos-sonoro-de-seu-novo-disco-ofuscante-a-beleza-que-eu-vejo\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":57,"featured_media":66829,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[314],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66827"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/57"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=66827"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66827\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":66839,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66827\/revisions\/66839"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/66829"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=66827"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=66827"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=66827"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}