{"id":66543,"date":"2022-05-20T00:57:55","date_gmt":"2022-05-20T03:57:55","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=66543"},"modified":"2022-06-16T20:32:20","modified_gmt":"2022-06-16T23:32:20","slug":"literatura-em-eva-nara-vidal-caminha-da-delicadeza-a-brutalidade-em-poucas-linhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/05\/20\/literatura-em-eva-nara-vidal-caminha-da-delicadeza-a-brutalidade-em-poucas-linhas\/","title":{"rendered":"Literatura: Em &#8220;Eva&#8221;, Nara Vidal caminha da delicadeza \u00e0 brutalidade em poucas linhas"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tgpgabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Gabriel Pinheiro<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eva mordeu o fruto proibido, o pecado original. Este \u00e9 um dos muitos mitos que t\u00eam como base a condena\u00e7\u00e3o e a repress\u00e3o do feminino. \u201cEva\u201d (2022) tamb\u00e9m d\u00e1 nome \u00e0 protagonista e ao novo livro de Nara Vidal, <a href=\"https:\/\/todavialivros.com.br\/livros\/eva\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">lan\u00e7ado pela Todavia Livros<\/a>. O nome amaldi\u00e7oa a mulher desde a inf\u00e2ncia, criada em um ambiente de constante vigil\u00e2ncia e opress\u00e3o, pautado pela moral e pela religi\u00e3o, sob o olhar materno. De ritmo vertiginoso, o romance \u00e9 narrado pela pr\u00f3pria personagem em um intenso fluxo de consci\u00eancia. \u201cH\u00e1 algu\u00e9m louco neste relato e eu me sinto muito bem e l\u00facida\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a m\u00e3e, Eva deveria ter se chamado Tereza, Francisca ou Rita. \u201cA primeira decep\u00e7\u00e3o que eu dei \u00e0 minha m\u00e3e foi meu nome\u201d. Decis\u00e3o paterna, este nome seguir\u00e1 como uma sombra, uma pedra fundamental na conflituosa rela\u00e7\u00e3o entre as duas mulheres. Para a m\u00e3e, Eva tinha o diabo no corpo. Primeiro ele se apossara de sua perna, \u201c\u00e9 o capeta fazendo com que ela rebole assim, assanhada, criancinha ainda\u201d. Depois, da boca, \u201cquando diabo ri \u00e9 porque ganhou a luta\u201d. Por fim, alcan\u00e7ou o ventre. \u201cCorria veneno na minha veia\u201d. Na inf\u00e2ncia, ela passa por uma s\u00e9rie de rituais, rezas e benzimentos, como forma de apaziguar aquele ser que, supostamente, dominava o seu corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O colo materno era o espa\u00e7o onde o afeto e a viol\u00eancia andavam juntos. O sofrimento infligido, mas embalado por boas inten\u00e7\u00f5es, pelo amor sufocante. A rela\u00e7\u00e3o que sempre fez doer, mas sempre foi para o bem, por motivos nobres. N\u00e3o havia escapat\u00f3ria, aparentemente: os tent\u00e1culos e a voz pegajosa da m\u00e3e a apanhavam novamente para o seu dom\u00ednio. Nem na morte. Ao perder a m\u00e3e, Eva mergulha em um luto profundo e conflituoso, assombrada por um espectro que resiste em partir: morreu em carne, mas segue vivo dentro da personagem. \u201cVoc\u00ea n\u00e3o deixava que eu desse um passo sem sua permiss\u00e3o. A\u00ed, agora, estou aqui, na tentativa de a cada semana tirar voc\u00ea daquela cova fedida de morte e arranc\u00e1-la de dentro de mim. Mas voc\u00ea persiste porque voc\u00ea morreu. Virou eterna. Uma imortal.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A opress\u00e3o e a viol\u00eancia marcam a exist\u00eancia da mulher, tornando-se padr\u00f5es nas diferentes rela\u00e7\u00f5es que Eva constituir\u00e1 ao longo da vida, marcadas pelo abandono, pelo abuso e pela aus\u00eancia de afeto. Eva n\u00e3o quis ser m\u00e3e, at\u00e9 que uma crian\u00e7a interrompe uma sequ\u00eancia de abortos. \u201cTudo que eu pude fazer para n\u00e3o ser m\u00e3e eu fiz. Cheguei a tirar de mim uma vida insistente umas quatro, cinco vezes. Mas o menino nasceu, no fim\u201d. Ela busca sempre lembrar de esquec\u00ea-lo. Uma contradi\u00e7\u00e3o: ter de lembrar para poder esquecer. \u201cSe pensar mesmo, com franqueza, nunca fui m\u00e3e. Saiu de mim uma crian\u00e7a, um beb\u00ea do mesmo jeito que sai uma merda. Aquela excre\u00e7\u00e3o n\u00e3o teve o menor impacto.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cEva\u201d, Nara Vidal foge dos estere\u00f3tipos da v\u00edtima ou da hero\u00edna na constru\u00e7\u00e3o de sua protagonista. A personagem \u00e9 complexa em suas contradi\u00e7\u00f5es, em um texto que caminha da delicadeza \u00e0 brutalidade em poucas linhas. No fim, temos em m\u00e3os um pungente estudo acerca de temas como o luto, a viol\u00eancia dom\u00e9stica, o trauma e o amor &#8211; ou, melhor, uma ideia de amor pautada pelo controle &#8211; e os seus efeitos irremedi\u00e1veis sobre uma exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cN\u00e3o falo com ningu\u00e9m sobre mim porque as pessoas, tamb\u00e9m cheias de segredos, n\u00e3o t\u00eam coragem para ouvir. N\u00e3o sabem o que fazer com a franqueza de um discurso. Ficam estarrecidas, desconfort\u00e1veis passam a te evitar.\u201d<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Nara Vidal comenta EVA\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/xO7WYxrdNi8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Gabriel Pinheiro \u00e9 jornalista. Escreve sobre suas leituras tamb\u00e9m no Instagram:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tgpgabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@tgpgabriel<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em \u201cEva\u201d, Nara Vidal foge dos estere\u00f3tipos da v\u00edtima ou da hero\u00edna na constru\u00e7\u00e3o de sua protagonista. 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