{"id":66394,"date":"2022-05-15T00:45:44","date_gmt":"2022-05-15T03:45:44","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=66394"},"modified":"2022-06-02T01:02:13","modified_gmt":"2022-06-02T04:02:13","slug":"homenagem-o-cineasta-breno-silveira-em-uma-entrevista-sobre-gonzaga-de-pai-pra-filho-2012","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/05\/15\/homenagem-o-cineasta-breno-silveira-em-uma-entrevista-sobre-gonzaga-de-pai-pra-filho-2012\/","title":{"rendered":"Homenagem: O cineasta Breno Silveira (1964\/2022) em uma entrevista sobre  \u201cGonzaga \u2013 De Pai pra Filho\u201d (2012)"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Essa entrevista foi concedida por Breno Silveira a mim em 2012. Dez anos atr\u00e1s, o cineasta por tr\u00e1s de fen\u00f4menos de bilheteria como \u201c2 Filhos de Francisco\u201d (2005), trabalhava na divulga\u00e7\u00e3o de \u201cGonzaga &#8211; De Pai pra Filho\u201d, obra que teve um profundo impacto em mim por trabalhar a rela\u00e7\u00e3o entre o filho de Janu\u00e1rio e Gonzaguinha. Eu havia perdido meu pai poucos meses antes. E tendo dividido com meu velho um amor imenso por Luiz Gonzaga, o filme de Breno me tocou profundamente. Eu lhe disse isso no papo. Muito gentil e atencioso, Breno percebeu o poder que aquele seu filme tinha e demonstrou um respeito palp\u00e1vel por isso.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Breno Silveira come\u00e7ou como assistente de fotografia em \u201cBete Balan\u00e7o\u201d, filme de 1984. Na d\u00e9cada seguinte brilhou como diretor de fotografia em um dos grandes filmes brasileiros dos anos 90, \u201cCarlota Joaquina\u201d (1995), de Carla Camurati. Em 1996 trabalharia como diretor de fotografia do DVD \u201cBarulhinho Bom &#8211; Uma Viagem Musical\u201d, de Marisa Monte. Outro destaque como diretor de fotografia foi \u201c<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/cinemadois\/homemdoano.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Homem do Ano<\/a>\u201d (2003), de Jos\u00e9 Henrique Fonseca. \u201c<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/cinemadois\/doisfilhosdefrancisco.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">2 Filhos de Francisco<\/a>\u201d (2005), seu primeiro filme como diretor, foi um sucesso. Da\u00ed vieram \u201cEra Uma Vez&#8230;\u201d (2008), \u201cGonzaga &#8211; De Pai pra Filho\u201d (<a href=\"https:\/\/www.netflix.com\/br\/title\/81380287\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">assista no Netflix<\/a>, 2012), \u201cEntre Irm\u00e3s\u201d (2017) e \u201cDom\u201d (2021).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O diretor estava filmando \u201cDona Vit\u00f3ria\u201d, em Pernambuco, quando teve uma morte s\u00fabita. Infelizmente, dez anos depois dessa entrevista, com apenas 58 anos, ele veio a falecer, tra\u00eddo pelo cora\u00e7\u00e3o. Dono de um cinema que dialogava com o p\u00fablico de maneira t\u00e3o simples e eficiente, \u00e9 um cara que far\u00e1 falta. Como tributo ao realizador, o Scream &amp; Yell resgata aqui a entrevista registrada h\u00e1 dez anos.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<figure id=\"attachment_66396\" aria-describedby=\"caption-attachment-66396\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-66396 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Breno-Silveira_Foto-de-Vinicius-Celestino.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Breno-Silveira_Foto-de-Vinicius-Celestino.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Breno-Silveira_Foto-de-Vinicius-Celestino-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-66396\" class=\"wp-caption-text\"><em>O jornalista Jo\u00e3o Paulo Barreto com Breno Silveira em 2012 \/ Foto de Vinicius Celestino<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diretor cujas obras tendem a um teor emocional, Breno Silveira disse ter se assustado quando percebeu que teria que registrar em filme a vida de um mito como Luiz Gonzaga. \u201cA import\u00e2ncia dele hoje \u00e9 at\u00e9 dif\u00edcil de mensurar\u201d, explica o cineasta. O acesso \u00e0s fitas de entrevistas gravadas por Gonzaguinha nos papos que este levou com o pai nos \u00faltimos anos de sua vida serviu como ponto de partida. A ideia era tra\u00e7ar um roteiro que focasse na rela\u00e7\u00e3o conturbada entre esses dois \u00edcones da m\u00fasica brasileira sem deixar de lada a trajet\u00f3ria do velho Lua. Com tr\u00eas atores vivendo as diferentes fases da vida de Gonzag\u00e3o e uma reencarna\u00e7\u00e3o vivendo Gonzaguinha (Julio Andrade, ator que espanta pela semelhan\u00e7a com o filho do Rei do Bai\u00e3o), Breno diz que ficou muito feliz pela percep\u00e7\u00e3o do p\u00fablico nesse \u00eaxito da escolha do elenco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s o sucesso da cinebiografia da dupla sertaneja Zez\u00e9 di Camargo e Luciano em \u201c2 Filhos de Francisco\u201d e do emocionante \u201c\u00c0 Beira do Caminho\u201d, filme com Jo\u00e3o Miguel lan\u00e7ado em 2012, Breno Silveira deixa mais uma vez a marca de seu cinema emocional na hist\u00f3ria de outro \u00eddolo da m\u00fasica e ajuda a tornar Luiz Gonzaga ainda mais eterno. \u00c9 como diz a letra da can\u00e7\u00e3o-tema \u201cMundo do Lua\u201d, interpretada por Gilberto Gil, \u201cQue voc\u00eas ainda possam me escutar\/ Atrav\u00e9s de minhas velhas grava\u00e7\u00f5es\/ \u00c9 sinal que o mundo vai continuar \/ A Viver de mitos, sonhos e paix\u00f5es\u201d. Com obras como \u201cGonzaga \u2013 De Pai pra Filho\u201d, esse sinal cantado por Gil se torna ainda mais percept\u00edvel.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Gonzaga - De pai pra filho: Trailer Oficial (HD)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/63Na62E0LZk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Adentrar no universo m\u00edtico de um monumento como Gonzag\u00e3o. Voc\u00ea tinha ideia do desafio que seria transformar a vida desse cara em filme?<\/strong><br \/>\nPara mim, \u00e9 um desafio muito duro falar de um cara que mitifica ainda mais com o passar do tempo. Isso \u00e9 muito bonito. Se voc\u00ea vai a v\u00e1rios lugares do nordeste, Gonzaga ainda \u00e9 a mola de tudo. N\u00e3o tem S\u00e3o Jo\u00e3o sem que ele n\u00e3o seja o cara mais tocado. Todo ano ainda \u00e9 assim. Ele cresceu com o tempo. A import\u00e2ncia dele hoje em dia \u00e9 dif\u00edcil de medir. \u00c9 um \u00edcone nordestino de uma import\u00e2ncia absurda e \u00e9 de uma responsabilidade tremenda ter que retratar um cara que \u00e9 um mito. Eu juro que cada vez que eu pisei em Pernambuco, que \u00e9 a terra de meus av\u00f3s, eu pensava: \u201ccara, eu t\u00f4 fazendo a hist\u00f3ria desse cara? T\u00f4 maluco!\u201d (risos) Mas acho que no filme consegui ter a sorte de encontrar um eixo que foram essas fitas. E atrav\u00e9s dessa rela\u00e7\u00e3o, consigo mostrar uma parte de Gonzag\u00e3o. N\u00e3o um todo, porque acho que ia precisar de uns dez filmes pra contar toda a vida dele. No m\u00ednimo. Nem em uma miniss\u00e9rie eu acho que conseguiria. At\u00e9 mesmo porque esse filme vai se transformar em uma miniss\u00e9rie da Globo onde poderei colocar outras coisas. Mas \u00e9 porque Gonzag\u00e3o \u00e9 muito grande. A gente n\u00e3o tem ideia do tamanho desse mito. Acho que a maior dificuldade nessa produ\u00e7\u00e3o, nesses sete anos em que a hist\u00f3ria est\u00e1 comigo, foi chegar em um roteiro que tivesse come\u00e7o, meio e fim e contasse as hist\u00f3rias que eu achasse importantes para que o p\u00fablico entendesse um pouco de Gonzag\u00e3o. Mas que eu tinha certeza que n\u00e3o ia contar tudo, afinal, ele \u00e9 muito grande.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No filme, assim como em \u201c2 Filhos de Francisco\u201d, voc\u00ea opta por inserir o pr\u00f3prio personagem real na trama. No caso de Gonzag\u00e3o, imagens e \u00e1udios de arquivo permeiam a proje\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea acredita que essa mistura de document\u00e1rio com fic\u00e7\u00e3o ajuda na constru\u00e7\u00e3o da narrativa?<\/strong><br \/>\nEssa d\u00favida me surgiu durante a montagem. Quando escrevi o roteiro, nunca pensei em fazer isso. Mas, de alguma forma, comecei a sentir falta da figura do Gonzag\u00e3o no filme. Esse cara era mais emblem\u00e1tico, eu acho, do que o que eu tinha conseguido filmar. Isso acrescenta de alguma forma para o p\u00fablico que n\u00e3o conhece a figura de Luiz Gonzaga. Porque quem sabe da import\u00e2ncia dele, de alguma forma, no filme, vai entender sem precisar da interfer\u00eancia da imagem de arquivo. Mas quando eu mostrava para um p\u00fablico mais jovem, algumas dessas pessoas n\u00e3o tinham ideia da imagem dele. E aquilo causava uma pot\u00eancia, sabe? Porque o cara se assustava! \u201cP\u00f4, mas esse era o cabra?\u201d Isso acontecia quando eu mostrava para aquele p\u00fablico mais novo, ou figuras l\u00e1 do Rio de Janeiro que n\u00e3o o conheciam direito. Porque Gonzag\u00e3o \u00e9 aquele cara muito forte no nordeste, mas de alguma forma, no sul, ele \u00e9 menos lembrado. Ent\u00e3o, para esse p\u00fablico, a diferen\u00e7a era de ter uma imagem de arquivo ou n\u00e3o era t\u00e3o grande que eu cheguei \u00e0 conclus\u00e3o que tinha que inserir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea acha que isso pode facilitar, tamb\u00e9m, em uma poss\u00edvel carreira do longa no exterior?<\/strong><br \/>\nQuando penso no filme, concluo que ele tem de ser bom, tamb\u00e9m, para o estrangeiro. N\u00e3o porque penso que ele obrigatoriamente tenha que fazer carreira internacional, mas, sim, porque a gente n\u00e3o tem que pressupor que as pessoas conhe\u00e7am Luiz Gonzaga. Eu sempre penso nisso. \u201c2 Filhos de Francisco\u201d foi bem pra caramba l\u00e1 fora. Vendeu pra \u00c1sia inteira. Abri sete salas em T\u00f3quio. E \u00e9 uma hist\u00f3ria muito brasileira, mas de alguma forma, ela est\u00e1 contada de um jeito que voc\u00ea n\u00e3o pressup\u00f5e que sejam dois caras famosos. Ent\u00e3o, essa op\u00e7\u00e3o de inserir a imagem real consegue emoldurar para uma pessoa que n\u00e3o conhece o Luiz Gonzaga. E essa inser\u00e7\u00e3o do material de arquivo causa um furor, sabe? \u00c9 muito louco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sem contar que as vers\u00f5es originais das can\u00e7\u00f5es de Gonzag\u00e3o s\u00e3o dif\u00edceis de serem recriadas por causa da t\u00e9cnica \u00fanica que o velho Lua possuia.<\/strong><br \/>\nPois \u00e9. Por exemplo, ningu\u00e9m tocava o \u201cVira e Mexe\u201d do jeito que eu queria. Nenhum sanfoneiro. Nenhum! Quando eu via as imagens, eu dizia: \u201dMas olha o safado como toca!\u201d. A\u00ed algu\u00e9m sempre me dizia que aquele era um suingue que s\u00f3 um sanfoneiro como Gonzag\u00e3o tinha. Era uma particularidade dele. Ent\u00e3o, pensei, \u201cvou ter que ter ele mesmo tocando essa m\u00fasica porque n\u00e3o estou aguentando esse \u2018Vira e Mexe\u2019 de est\u00fadio que voc\u00eas fizeram\u201d (risos). Essa acabou sendo a primeira imagem de arquivo que inseri. Lembro de ter falado: \u201cVoc\u00eas est\u00e3o com um est\u00fadio moderno, com tr\u00eas ou quatro sanfoneiros! Esse cara est\u00e1 somente com uma zabumba e um triangulo e o som que est\u00e1 vindo da imagem real \u00e9 dez vezes mais bonito do que o que voc\u00eas gravaram para acompanhar o Chambinho (do Acordeon, ator que vive Gonzaga na fase adulta)\u201d. Essa foi a primeira vez que senti falta do original. Ent\u00e3o pus e ficou s\u00f3 aquele. A\u00ed quando veio \u201cAsa Branca\u201d, eu falei: \u201cAh, rapaz, \u2018Asa Branca\u2019 \u00e9 maior do que isso!\u201d. S\u00f3 o real iria dar a imagem de quem foi esse cara. N\u00e3o adiantava ser uma superprodu\u00e7\u00e3o, pois s\u00f3 o real iria conseguir transmitir a dimens\u00e3o dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E aqueles v\u00eddeos famosos dele, como a hist\u00f3ria de seu retorno a Exu e o reencontro com Janu\u00e1rio? No filme, percebi que a hist\u00f3ria n\u00e3o estava na integra. Foi doloroso ter que cortar alguns trechos?<\/strong><br \/>\nO \u00e1udio original me dava vontade de colocar a cena na integra. A fala do \u201ccheiro do velho, do cheiro da fam\u00edlia\u201d ou o barulho do \u201ctimbungado\u201d do caneco, eu tinha vontade de colocar aquilo tudo. E ficava desesperado na montagem quando percebia que tinha que cortar (risos). Escutava o pessoal na sala de montagem me dizendo que esse filme completo que eu queria fazer n\u00e3o seria poss\u00edvel. Ent\u00e3o, o jeito era cortar. O problema era que quando cortava na voz de Gonzaga, cortava tamb\u00e9m na imagem, sendo que a cena original que eu gravei tinha toda a reconstru\u00e7\u00e3o daquele momento. Pra voc\u00ea ter uma ideia, toda a cena at\u00e9 o momento chave, que era o abra\u00e7o dele no pai, tinha quase dez minutos. Ent\u00e3o, a ideia era cortar todos aqueles minutos para sermos objetivos, uma vez que a cena teria seu auge no abra\u00e7o e na festa pelo retorno do Luiz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A escolha dos atores que viveram o Gonzag\u00e3o foi algo bem eficiente, uma vez que s\u00e3o tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es e a transi\u00e7\u00e3o de um para o outro ocorre de modo bem natural. Quando vemos o adolescente Lula na interpreta\u00e7\u00e3o de Land Vieira passar para o Chambinho do Acordeon e, em seguida, para o Ad\u00e9lio Lima, sentimos uma naturalidade na transi\u00e7\u00e3o. Como foi a sele\u00e7\u00e3o desse elenco?<\/strong><br \/>\nUma das coisas que mais me deixa feliz \u00e9 esse tipo de coment\u00e1rio. O Merten (Luiz Carlos Merten, cr\u00edtico de cinema do jornal Estad\u00e3o), <a href=\"http:\/\/www.tribunadonorte.com.br\/noticia\/luiz-gonzaga-de-pai-para-filho\/224433\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">escreveu exatamente isso<\/a>. Ele falou que s\u00e3o tr\u00eas figuras que voc\u00ea n\u00e3o percebe a diferen\u00e7a entre elas. E s\u00e3o tr\u00eas atores totalmente diferentes!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu pensei que o Ad\u00e9lio Lima e o Chambinho eram a mesma pessoa!<\/strong><br \/>\n(risos) Olha que lindo isso! Realmente, fico feliz. \u00c9 aquela forma de atuar que a gente trabalha no set. Os trejeitos dos atores, as passagens. Tenho um cuidado muito grande com isso porque meu sonho era fazer com o mesmo ator. Mas j\u00e1 me deparei logo no come\u00e7o com esse problema de selecionar o protagonista. Fiz uma porrada de testes de elenco com v\u00e1rios atores famosos, alguns globais at\u00e9, e nenhum deles se parecia com o Gonzaga. Depois comecei a fazer testes para saber se algum deles tocava um instrumento. Um ou outro at\u00e9 tocava, mas sanfona era algo complexo. Depois eu quis que eles cantassem, e nenhum deles tinha aquele vozeir\u00e3o do Gonzaga. Bom, a\u00ed nesse ponto eu j\u00e1 estava achando que havia entrado em um beco sem sa\u00edda. E isso j\u00e1 com a data pra come\u00e7ar a filmar marcada e eu ainda n\u00e3o tinha meu protagonista. Mas n\u00e3o podia ser. Em algum canto desse pa\u00eds deve ter um Gonzaga, eu pensava. A\u00ed come\u00e7amos a anunciar nas r\u00e1dios. Em Caruaru, nas r\u00e1dios do nordeste. A partir desse ponto, apareceram cinco mil inscritos. Com essa quantidade de inscritos, eu comecei a perceber que com Luiz Gonzaga, nada era pequeno. N\u00e3o tinha brincadeira pequena com ele. A\u00ed tivemos que criar uma forma de triagem e separamos por foto todos aqueles que eram parecidos com ele. A\u00ed a lista caiu para 100 pessoas mais ou menos parecidas. Depois separamos todos aqueles que eram m\u00fasicos daqueles que tinham atua\u00e7\u00e3o. O n\u00famero j\u00e1 caiu para quarenta. A partir da\u00ed seguimos para as entrevistas individuais. Dez foram escolhidos e trazidos para o Rio de Janeiro onde cinco deles foram selecionados para ficar em laborat\u00f3rio de atua\u00e7\u00e3o em uma casa de Copacabana junto comigo e com o preparador de elenco. Com esses cinco, comecei a perceber que n\u00e3o tinha todas as idades e s\u00f3 o Chambinho que tinha aquele sorriso largo que esbanjava a simpatia do Gonzaga. Nesse momento, o escolhi e mandei o Ad\u00e9lio embora. Expliquei a ele que n\u00e3o dava porque ele n\u00e3o tinha aquele sorriso largo do Chambinho, que era como do do Gonzag\u00e3o. Foi quando ele me perguntou sobre a vers\u00e3o mais velha do Luiz e eu disse que preferia trabalhar com maquiagem. Mas o Chambinho n\u00e3o tinha a estrutura f\u00edsica da vers\u00e3o idosa do Luiz. A\u00ed a condi\u00e7\u00e3o que eu coloquei pro Ad\u00e9lio ganhar o papel foi ele engordar, no m\u00ednimo, dez quilos. E o cara engordou! Voltou ao Rio de Janeiro dez quilos mais gordo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gordo feito um major, como diria o velho Lula.<\/strong><br \/>\nExato. Gordo feito um major (risos). Ele falava assim. Esse texto, inclusive, est\u00e1 no filme. Mas n\u00e3o entrou para esse corte. \u00c9 quando ele entrega a sanfona para penhorar e volta na mesma birosca anos depois. Nessa volta, ele pergunta ao dono que est\u00e1 ouvindo r\u00e1dio se costuma tocar muito Luiz Gonzaga ali. O cara, sem reconhecer o homem, responde dizendo que toca demais. Luiz pergunta a ele se \u00e9 verdade que o cantor \u00e9 dali daquelas bandas. O dono da birosca se empolga dizendo que sim, ele \u00e9 o filho de Janu\u00e1rio, mas agora ele enricou. T\u00e1 gordo feito um major (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O roteiro \u00e9 baseado no livro da Regina Echeverria e nas fitas que Gonzaguinha gravou com entrevistas com pai. Como se deu o processo de filtragem para chegar ao material final?<\/strong><br \/>\nAntes dessas fitas que me levaram a fazer o filme chegarem \u00e0s minhas m\u00e3os, elas passaram pela Regina, que acabou fazendo uma bela biografia. A partir disso, a gente comprou os direitos do livro para fazer o longa. Com o tempo, eu acabei percebendo que as grava\u00e7\u00f5es me comoviam mais do que o pr\u00f3prio livro. Ent\u00e3o, eu usei muito a obra, mas nas fitas tinham informa\u00e7\u00f5es mais importantes e, fora isso, a quantidade de hist\u00f3rias que iam chegando das pessoas que viveram com ele era t\u00e3o absurda que somente a biografia n\u00e3o deu conta. Ent\u00e3o, o filme acabou tendo uma parte inspirada nela, mas o resultado final foi al\u00e9m. Afinal de contas, Luiz Gonzaga possui muito mais hist\u00f3rias do que um livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A m\u00fasica do Gilberto Gil (&#8220;Mundo do Lua&#8221;) entrou no projeto de que forma?<\/strong><br \/>\nEu procurei o Gil porque uma parte das m\u00fasicas do Luiz Gonzaga foram regravadas por ele na ocasi\u00e3o de \u201cEu Tu Eles\u201d, filme do Andrucha Waddington que eu fotografei. No disco do filme, ele regravou mais de dez m\u00fasicas do Luiz. E aquela coisa me impressionou muito porque o Gil falava demais no Luiz Gonzaga. Quando esse projeto come\u00e7ou, uma das primeiras pessoas que eu fui entrevistar foi o ele. Na ocasi\u00e3o, Gil demonstrou interesse em me ajudar e criar uma parceria no projeto. Foi quando pedi a ele uma can\u00e7\u00e3o e que me ajudasse na sele\u00e7\u00e3o das m\u00fasicas. Ele respondeu que \u201cpra Gonzag\u00e3o, qualquer coisa na terra\u201d. Pouco antes de eu terminar o corte do filme, mandei para ele algumas imagens. Acabou que ele me procurou depois dizendo que tinha se emocionado e que havia composto uma can\u00e7\u00e3o sobre o Luiz Gonzaga, \u201cMundo do Lua\u201d, cuja letra abre o filme. Uma can\u00e7\u00e3o linda demais.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Luz e Sombra - Breno Silveira\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/aCUXP5cb7QQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"BRENO SILVEIRA - Semana de Cinema e Mercado\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/5tK5Oy7gu_A?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Bate-papo \u2013 \u201cDom\u201d: O livro, a s\u00e9rie\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0LELTI6uv8M?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Essa entrevista foi concedida por Breno Silveira a mim em 2012. Dez anos atr\u00e1s, o cineasta por tr\u00e1s de fen\u00f4menos de bilheteria como \u201c2 Filhos de Francisco\u201d (2005), trabalhava na divulga\u00e7\u00e3o de \u201cGonzaga &#8211; De Pai pra Filho\u201d&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/05\/15\/homenagem-o-cineasta-breno-silveira-em-uma-entrevista-sobre-gonzaga-de-pai-pra-filho-2012\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":66395,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[5681],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66394"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=66394"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66394\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":66398,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66394\/revisions\/66398"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/66395"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=66394"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=66394"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=66394"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}