{"id":66376,"date":"2022-05-15T00:46:19","date_gmt":"2022-05-15T03:46:19","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=66376"},"modified":"2022-06-13T14:17:30","modified_gmt":"2022-06-13T17:17:30","slug":"entrevista-tatiana-lazzarotto-fala-sobre-o-livro-quando-as-arvores-morrem-uma-das-vencedoras-do-edital-proac-de-obras-de-ficcao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/05\/15\/entrevista-tatiana-lazzarotto-fala-sobre-o-livro-quando-as-arvores-morrem-uma-das-vencedoras-do-edital-proac-de-obras-de-ficcao\/","title":{"rendered":"Entrevista: Tatiana Lazzarotto fala sobre seu livro \u201cQuando as \u00e1rvores morrem\u201d, um dos vencedores do edital ProAC"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/linktr.ee\/navionoespaco\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcela G\u00fcther<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quantas lembran\u00e7as atravessam um corpo enlutado? O que fazer com o desejo de nossos mortos? Em sua estreia, a escritora <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tatiana.lazzarotto\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tatiana Lazzarotto<\/a> nos apresenta, em prosa po\u00e9tica, o desenrolar de uma not\u00edcia de morte. \u00c9 tamb\u00e9m uma hist\u00f3ria sobre um pai, uma filha e uma \u00e1rvore. Um deles est\u00e1 morto. Os outros dois ter\u00e3o de sobreviver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O romance \u201c<a href=\"https:\/\/www.editoraclaraboia.com.br\/product-page\/quando-as-arvores-morrem\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Quando as \u00e1rvores morrem<\/a>\u201d (Editora Claraboia, 164 p.) acompanha o desenrolar de uma not\u00edcia de morte e as mem\u00f3rias que atravessam o corpo de quem fica. A obra foi uma das vencedoras do edital ProAC de obras de fic\u00e7\u00e3o, promovido pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na hist\u00f3ria, narrada em primeira pessoa, a protagonista perde o pai de forma repentina e retorna a Prov\u00edncia \u2013 cidade fict\u00edcia \u2013, para atender aos desejos deixados por ele: recuperar a casa da fam\u00edlia e garantir que a velha \u00e1rvore do quintal, j\u00e1 condenada, n\u00e3o seja derrubada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesclar a experi\u00eancia do luto com as mem\u00f3rias de inf\u00e2ncia, a narradora relembra a trajet\u00f3ria do pai, que deixou a profiss\u00e3o de comerciante quando ela e os irm\u00e3os eram crian\u00e7as, para se transformar em Papai Noel profissional. O romance busca esmiu\u00e7ar um personagem pouco vis\u00edvel na literatura, al\u00e9m de lan\u00e7ar um olhar sobre os milhares de homens que encarnam o personagem m\u00edtico no final do ano: de que maneira esses profissionais se relacionam na intimidade, com suas fam\u00edlias?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro tamb\u00e9m \u00e9 uma experi\u00eancia ficcional a partir de uma viv\u00eancia de luto da escritora. Assim como a personagem, Tatiana perdeu o pai, falecido em 2018, que <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/sc\/santa-catarina\/noticia\/2014\/12\/catarinense-registra-nome-papai-noel-do-brasil-e-vive-como-personagem.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">durante sua trajet\u00f3ria quebrou recordes nacionais como Papai Noel<\/a>. Al\u00e9m de honrar a mem\u00f3ria do seu pai, grande incentivador da sua escrita, o livro tem como miss\u00e3o poder abra\u00e7ar quem fica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEspecialmente num luto coletivo como este que vivemos, acredito que este abra\u00e7o, que eu busco com o livro, n\u00e3o se estende apenas aos que perderam algu\u00e9m. Mas a todos n\u00f3s\u201d, aponta Tatiana. \u201cTamb\u00e9m \u00e9 um livro sobre pessoas que n\u00e3o cabem, pessoas que transbordam. As duas experi\u00eancias se confundem. Perder algu\u00e9m tamb\u00e9m \u00e9 n\u00e3o caber\u201d, diz a escritora. Mais voc\u00ea pode ler na entrevista abaixo!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-66377\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/mockup_quandoasarvores.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"511\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/mockup_quandoasarvores.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/mockup_quandoasarvores-300x204.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Se voc\u00ea pudesse resumir os temas centrais do livro \u201cQuando as \u00e1rvores morrem\u201d, quais seriam? Por que escolher esses temas?<\/strong><br \/>\nLuto, pertencimento e mem\u00f3ria. Tenho um grande amigo que perdeu o pai, assim como eu, anos antes de mim. Ambos sofremos essa perda \u00e0 dist\u00e2ncia e enfrentamos, cada um, uma longa viagem para nos despedir. Tivemos uma conversa honesta sobre os momentos cruciais do luto \u2013 ouvir a not\u00edcia pelo telefone, comprar a passagem, chegar ao vel\u00f3rio. Falamos tamb\u00e9m sobre os dias seguintes aos dias seguintes. Sobre como sonhamos com os nossos pais e como s\u00e3o essas sensa\u00e7\u00f5es. Como as lembran\u00e7as se perdem e se reconstituem em novas perspectivas. Percebi que nunca tinha ouvido algo assim antes de perder uma pessoa pr\u00f3xima. E entendi que, depois da perda, nunca tive vontade de contar isso a algu\u00e9m que n\u00e3o teve a viv\u00eancia de \u00f3rf\u00e3o, especialmente os desgarrados, que n\u00e3o encontrar\u00e3o outra vez uma casa depois do luto. Meu livro \u00e9 esta conversa. Tamb\u00e9m \u00e9 um livro sobre pessoas que n\u00e3o cabem, pessoas que transbordam. As duas experi\u00eancias se confundem. Perder algu\u00e9m tamb\u00e9m \u00e9 n\u00e3o caber.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual a principal mensagem que voc\u00ea quis passar com a obra?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei se posso falar em mensagem. Eu penso que o que eu mais queria com esse livro, al\u00e9m de honrar a mem\u00f3ria do meu pai (grande incentivador da minha escrita), \u00e9 poder abra\u00e7ar quem fica. Especialmente num luto coletivo como este que vivemos, acredito que este abra\u00e7o n\u00e3o se estende apenas aos que perderam algu\u00e9m. Todos n\u00f3s ficamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que motivou a escrita do livro? Como foi o processo de escrita?<\/strong><br \/>\nEmbora a ideia de escrever um romance sempre estivesse presente em algum lugar dos meus desejos, a premia\u00e7\u00e3o no edital ProAC de obras de fic\u00e7\u00e3o (promovido pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de S\u00e3o Paulo), em 2020, foi um enorme incentivo. Sempre pensei em apresentar uma ideia t\u00e3o boa que pudesse ser validada e fomentada com recursos destinados \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da cultura. Queria escrever uma hist\u00f3ria que esmiu\u00e7asse um personagem pouco vis\u00edvel na literatura, lan\u00e7ando um olhar sobre os milhares de homens que encarnam esse personagem m\u00edtico de Papai Noel: de que maneira esses profissionais se relacionam na intimidade, com suas fam\u00edlias? Dentro do ProAC, que \u00e9 um edital de longa dura\u00e7\u00e3o, pude me dedicar \u00e0 pesquisa e depois destinar um tempo \u00e0 escrita. Nesta \u00faltima etapa, no in\u00edcio, contei com o acompanhamento da escritora Laura Cohen, que me ajudou a entender para onde meu texto ia. Tamb\u00e9m recorri a amigas e leitoras betas, que foram bastante generosas em ler as primeiras vers\u00f5es. Embora o livro tenha sido escrito em um ano, praticamente, creio que \u00e9 uma obra que vem sendo produzida h\u00e1 muito tempo. O desejo de criar uma personagem inspirada no meu pr\u00f3prio pai existe desde antes de eu perd\u00ea-lo. Trata-se de uma obra de fic\u00e7\u00e3o, com muitas mem\u00f3rias: emprestadas, ressignificadas e, sobretudo, ficcionalizadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A hist\u00f3ria do livro \u00e9 baseada na realidade, mas voc\u00ea sempre a sustenta como fic\u00e7\u00e3o. Poderia comentar um pouco sobre suas escolhas liter\u00e1rias?<\/strong><br \/>\nA hist\u00f3ria do romance recupera algumas de minhas pr\u00f3prias viv\u00eancias pessoais. Assim como a personagem que narra este desenrolar de uma not\u00edcia de morte, perdi meu pai (em 2018), tamb\u00e9m de forma repentina. Enfrentei o luto de um pai que era um artista e que ganhava a vida como Papai Noel. Meu pai conquistou recordes em seu trabalho, foi algu\u00e9m que, em certa medida, atraiu a aten\u00e7\u00e3o da m\u00eddia e foi uma figura marcante e irreverente. Durante sua trajet\u00f3ria como Papai Noel, respondeu mais de um milh\u00e3o e meio de cartinhas enviadas at\u00e9 nossa casa, por meio de um CEP especial dos Correios, bateu o recorde de mais eventos realizados em um \u00fanico dia, palestrou em cinco confer\u00eancias TEDx no Brasil. Alguns detalhes do livro foram baseados em fatos reais &#8211; embora, refor\u00e7o, seja uma obra de fic\u00e7\u00e3o. As mem\u00f3rias que emprestei para a minha hist\u00f3ria foram transformadas em mat\u00e9ria liter\u00e1ria. Essa ficcionaliza\u00e7\u00e3o a partir do real, que alguns chamam de autofic\u00e7\u00e3o, permeou toda a constru\u00e7\u00e3o do livro. Tem uma frase do Barthes (citada pela Rosa Montero em seu livro \u201cA louca da casa\u201d) em que ele diz que toda autobiografia \u00e9 ficcional e toda fic\u00e7\u00e3o, autobiogr\u00e1fica. Acredito que todos n\u00f3s, que escrevemos essa esp\u00e9cie de autofic\u00e7\u00e3o, nos situamos com os dois p\u00e9s nessa fronteira. O leitor \u00e9 parte desse jogo, \u00e9 enredado nesse mist\u00e9rio \u2013 do que aconteceu e do que n\u00e3o aconteceu e, se aconteceu, foi da forma que est\u00e1 sendo contado. De qualquer forma, concordo com o Waly Salom\u00e3o quando ele diz que a mem\u00f3ria \u00e9 uma ilha de edi\u00e7\u00e3o. Quando nos propomos a recuperar um fato do nosso passado, ele j\u00e1 \u00e9 outra coisa. N\u00e3o d\u00e1 para desconsiderar tamb\u00e9m todo o trabalho de cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. O escritor \u00e9 um artes\u00e3o, muitas vezes \u00e9 imposs\u00edvel separar a realidade crua da fic\u00e7\u00e3o, assim como \u00e9 dif\u00edcil enxergar o bloco de m\u00e1rmore que existia antes da escultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A escrita de mulheres, muitas vezes, e erroneamente, \u00e9 resumida \u00e0 autobiografia, \u00e0 escrita confessional. Como voc\u00ea enxerga esta quest\u00e3o, agora que publicou uma obra que ficcionaliza mem\u00f3rias suas?<\/strong><br \/>\nQuando uma mulher escreve literatura no Brasil, especialmente as estreantes, mas n\u00e3o s\u00f3, h\u00e1 uma ideia de que sua obra \u00e9 algo que deriva sempre do real. H\u00e1 uma curiosidade \u2013 maior do que o normal \u2013 de entender \u201cquem s\u00e3o\u201d as pessoas retratadas ou quais foram os fatos reais que deram origem a sua obra. Desde que ganhei o edital e passei a escrever meu romance, partilho as minhas experi\u00eancias de escrita nas redes sociais e na minha newsletter mensal (intitulada \u201cEu sou toda sonho\u201d, <a href=\"https:\/\/linktr.us7.list-manage.com\/subscribe?u=94b44a34a7e1c05ac929b6993&amp;id=facde0dfd8\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">enviada de forma gratuita aos assinante<\/a>s). H\u00e1 sempre muitos retornos de mulheres que j\u00e1 escrevem sobre essa abordagem de leitores, questionando se aquilo que foi escrito realmente aconteceu, ou se a escritora pensa exatamente como o eu l\u00edrico de seus poemas, por exemplo. Acredito que isso tamb\u00e9m afasta muitas mulheres que ainda n\u00e3o se assumem publicamente como escritoras a expor suas obras \u2013 pelo medo dessa leitura taxativa. Esse tom pelo qual muitas escritoras s\u00e3o lidas reduz a literatura produzida por mulheres a uma produ\u00e7\u00e3o puramente confessional &#8211; e n\u00e3o h\u00e1 nada de errado na literatura confessional, apenas \u00e9 preciso entender que as mulheres s\u00e3o capazes sim de criar personagens e enredos ficcionais, que n\u00e3o estamos falando sempre sobre n\u00f3s mesmas. Essa licen\u00e7a po\u00e9tica, concedida de forma mais fluida e org\u00e2nica aos homens escritores, precisa fazer parte do repert\u00f3rio de leitores de mulheres. \u00c9 preciso n\u00e3o somente ler mais mulheres, mas tamb\u00e9m aprender a ler mulheres, sem reduzi-las \u00e0 autobiografia. Mesmo que meu livro tenha inspira\u00e7\u00f5es em minhas pr\u00f3prias viv\u00eancias, meu romance \u201cQuando as \u00e1rvores morrem\u201d \u00e9 uma obra de fic\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o h\u00e1 nenhum compromisso de registro biogr\u00e1fico ou hist\u00f3rico. O pai da hist\u00f3ria \u00e9 um personagem ficcional \u2013 embora seja inspirado e criado \u00e0 mem\u00f3ria de meu pr\u00f3prio pai \u2013 por isso, \u00e9 um homem com suas pr\u00f3prias nuances, mem\u00f3rias e escolhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E quais s\u00e3o as suas principais influ\u00eancias liter\u00e1rias? Que livros influenciaram diretamente \u201cQuando as \u00e1rvores morrem\u201d?<\/strong><br \/>\nMinha primeira grande influ\u00eancia foi o escritor Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez e seu realismo fant\u00e1stico, ainda durante a gradua\u00e7\u00e3o em Letras. Depois, busquei me apoiar mais na escrita de mulheres, principalmente as contempor\u00e2neas. Concei\u00e7\u00e3o Evaristo e Rosa Montero s\u00e3o duas autoras marcantes para mim. Mais recentemente, creio que fui bastante impactada pela Elena Ferrante, especialmente sua tetralogia napolitana. Vou citar algumas refer\u00eancias que busquei durante a escrita do meu livro. Como se trata de uma prosa po\u00e9tica, bebi muito na escritora mineira Ana Martins Marques (\u201cO livro das semelhan\u00e7as\u201d e \u201cA vida submarina\u201d) e no portugu\u00eas Jos\u00e9 Lu\u00eds Peixoto (\u201cMorreste-me\u201d e \u201cA crian\u00e7a em ru\u00ednas\u201d). Ainda dentro da tem\u00e1tica do luto, busquei obras que entrela\u00e7am o tema da perda com o do pertencimento, dentre as quais, cito: \u201cNoite em Caracas\u201d (Karina Sainz Borgo), \u201cFun Home\u201d (Alison Bechdel) e \u201cO lugar\u201d (Annie Ernaux). \u2018Sobre os Ossos dos Mortos\u201d, da Olga Tokarczuk, foi uma refer\u00eancia para a constru\u00e7\u00e3o da narradora-personagem, muito embora seja muito dif\u00edcil construir algo minimamente pr\u00f3ximo \u00e0 genial Senhora Dusheiko. Tamb\u00e9m me inspirei em obras que costuram lembran\u00e7as, como \u201cBecos da mem\u00f3ria\u201d (Concei\u00e7\u00e3o Evaristo), \u201cQuase mem\u00f3ria\u201d (Carlos Heitor Cony) e \u201cA resist\u00eancia\u201d (Julian F\u00faks).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em \u201cQuando as \u00e1rvores morrem\u201d, voc\u00ea dedicou-se \u00e0 pesquisa sobre o desenvolvimento e a intelig\u00eancia das \u00e1rvores, a fim de entender a din\u00e2mica das florestas e como isso se mescla com o cotidiano de uma fam\u00edlia. Poderia contar um pouco sobre esse processo?<\/strong><br \/>\nAs \u00e1rvores sempre me fascinaram, desde muito crian\u00e7a. Confesso que herdei esse fasc\u00ednio do meu pr\u00f3prio pai, que passou a se interessar quando nos mudamos para uma casa que tinha uma grande \u00e1rvore no quintal. Dividimos, durante a vida dele, alguns insights e curiosidades sobre a din\u00e2mica das florestas. Lembro-me de um document\u00e1rio que assisti que comentava brevemente que a morte das \u00e1rvores acontecia geralmente por obra do fogo, do vento ou pela a\u00e7\u00e3o humana, j\u00e1 os homens e mulheres eram mortos por in\u00fameras vari\u00e1veis. Quando pensei em escrever um livro sobre a morte, na hora me veio \u00e0 cabe\u00e7a essa frase e quis relacionar mais dessas curiosidades no livro. Por isso, escolhi uma \u00e1rvore como uma das personagens e decidi tra\u00e7ar paralelos no livro: \u00e1rvores e humanos t\u00eam din\u00e2micas parecidas? \u00c1rvores t\u00eam uma intelig\u00eancia pr\u00f3pria, como a que temos? Elas funcionam em rede, em comunidade, como uma fam\u00edlia? A partir da\u00ed, fui coletando informa\u00e7\u00f5es e costurei-as ao enredo do luto, transformando em reflex\u00f5es da pr\u00f3pria personagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea escreve desde quando? Como come\u00e7ou a escrever?<\/strong><br \/>\nSei que \u00e9 comum ouvir de escritores que escrevem \u201cdesde sempre\u201d, mas isso aconteceu mesmo comigo. Comecei a criar hist\u00f3rias desde que aprendi a escrever. Sempre li muito. Embora nunca tenhamos tido uma grande biblioteca de livros em casa, cresci rodeada de est\u00edmulos: gibis, revistas, jornais. Aos 9 anos, descobri a biblioteca municipal e come\u00e7ou a minha vida de leitora \u2013 e pretensa escritora \u2013 de livros. Na adolesc\u00eancia, desaguei a vontade de escrever trocando exaustivas cartas com as amigas, depois, j\u00e1 na faculdade, comecei a escrever cr\u00f4nicas em blogs. Mas acredito que a vontade de contar hist\u00f3rias veio da inf\u00e2ncia, dentro de casa: meu pai, que na \u00e9poca era viajante, e minha m\u00e3e, uma pernambucana radicada em Santa Catarina, me rechearam de causos, o que me deu consci\u00eancia desde cedo de que havia outros mundos. Essas s\u00e3o minhas mem\u00f3rias mais antigas e ainda hoje elas atravessam qualquer coisa que eu escreva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tem algum ritual de prepara\u00e7\u00e3o para a escrita? Tem alguma meta di\u00e1ria de escrita?<\/strong><br \/>\nGosto de aproveitar a luz natural, ent\u00e3o escrevo melhor durante o dia. Sinto-me mais atenta para revisar ou editar meus textos durante \u00e0 noite. Ent\u00e3o, procuro deixar o trabalho criativo para o per\u00edodo diurno e o acabamento para o noturno. Nem sempre escrevo todos os dias (a menos que eu esteja com um projeto em andamento \u2013 na reta final do livro, escrevi muitas horas por dia). De qualquer forma, gosto de estar sempre em estado de escrita, uma express\u00e3o que aprendi com a escritora Andrea Del Fuego. Mesmo que eu n\u00e3o esteja efetivamente escrevendo, quase tudo o que eu fa\u00e7o, vejo, leio ou assisto, funciona como uma refer\u00eancia ou uma etapa de constru\u00e7\u00e3o para meus textos. Gosto de construir meus textos pensando que estou tecendo uma colcha, costurando as diferentes ideias que absorvi depois das minhas observa\u00e7\u00f5es e estudos. Enxergo o texto como um tecido (o que vem da pr\u00f3pria etimologia da palavra, ligada a tecer, entrela\u00e7ar), com seus pontos, linhas, tramas e fios da meada. Isso ajuda a tornar a atividade mais po\u00e9tica para mim, porque me vejo mais como artes\u00e3 da palavra do que como algu\u00e9m que est\u00e1 preenchendo p\u00e1ginas de forma mec\u00e2nica. Tenho esse olhar at\u00e9 mesmo quando estou escrevendo r\u00e1pido, desaguando ideias em ritmo acelerado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea lida com as travas da escrita, como a procrastina\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nBrinco que minha procrastina\u00e7\u00e3o \u00e9 ativa. Se eu tenho dificuldade em concluir um cap\u00edtulo, geralmente \u00e9 o dia que fa\u00e7o faxina, troco os vasos das plantas ou dou banho nos cachorros. Limpar a casa \u00e9 um ciclo sem fim, sempre tem algo para fazer, ent\u00e3o, \u00e9 muito perigoso ir por esse caminho. Busco fazer um planejamento semanal para evitar que os projetos se percam. Durante a escrita do romance, escrevi textos diferentes em termos de linguagem e tem\u00e1tica, o que me ajudou a destravar a escrita do livro. Eu tamb\u00e9m deixava \u201cmarinar\u201d um cap\u00edtulo que n\u00e3o conseguia concluir para escrever outros mais adiante. Essa escrita em n\u00e3o-linearidade me ajudou muito (o final do livro foi escrito durante a produ\u00e7\u00e3o do segundo cap\u00edtulo, por exemplo). Acredito que fazer terapia ajuda a identificar de onde v\u00eam esses ciclos de procrastina\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tem melhor sa\u00edda para isso do que o autoconhecimento, embora a resposta possa levar uma vida inteira para ser encontrada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais s\u00e3o os seus projetos futuros na escrita? Planeja outro livro?<\/strong><br \/>\nMeu projeto atual \u00e9 terminar meu mestrado em Estudos Culturais, na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). Minha disserta\u00e7\u00e3o \u00e9 sobre coletivos de mulheres escritoras e a import\u00e2ncia desses espa\u00e7os exclusivos para a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de mulheres contempor\u00e2neas. Um segundo livro \u00e9 um projeto, sim, embora eu s\u00f3 saiba dele o t\u00edtulo. Espero que eu possa trabalhar nessa produ\u00e7\u00e3o em breve.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-66379\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/tatiana2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/tatiana2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/tatiana2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/linktr.ee\/navionoespaco\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcela G\u00fcther<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista, produtora de conte\u00fado, assessora de imprensa e mediadora do Leia Mulheres.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Quantas lembran\u00e7as atravessam um corpo enlutado? O que fazer com o desejo de nossos mortos? Em sua estreia, a escritora Tatiana Lazzarotto nos apresenta, em prosa po\u00e9tica, o desenrolar de uma not\u00edcia de morte. \u00c9 tamb\u00e9m uma hist\u00f3ria sobre um pai, uma filha e uma \u00e1rvore.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/05\/15\/entrevista-tatiana-lazzarotto-fala-sobre-o-livro-quando-as-arvores-morrem-uma-das-vencedoras-do-edital-proac-de-obras-de-ficcao\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":107,"featured_media":66378,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[5672],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66376"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/107"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=66376"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66376\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":66381,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66376\/revisions\/66381"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/66378"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=66376"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=66376"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=66376"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}