{"id":6601,"date":"2010-12-02T19:48:39","date_gmt":"2010-12-02T21:48:39","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=6601"},"modified":"2023-03-29T00:40:12","modified_gmt":"2023-03-29T03:40:12","slug":"retratos-de-elliott-smith","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/12\/02\/retratos-de-elliott-smith\/","title":{"rendered":"Retratos de Elliott Smith"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-6602 aligncenter\" style=\"border: 1px solid black;\" title=\"elliott_smith\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/elliott_smith.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"350\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&#8220;An Introduction to&#8230; Elliott Smith\u201d<\/strong><br \/>\n<strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/faleirofaleiro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Faleiro<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De tempos em tempos, gravadoras preparam colet\u00e2neas sobre \u00edcones de gera\u00e7\u00f5es anteriores, como forma de apresent\u00e1-los aos novos ouvintes de m\u00fasica. Com esse pressuposto, a Kill Rock Stars, dos Estados Unidos, ao lado da Domino, do Reino Unido, lan\u00e7ou em novembro \u201cAn Introduction to&#8230; Elliott Smith\u201d (2010), que varre a conturbada e magistral carreira do m\u00fasico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo que a pr\u00e1tica seja question\u00e1vel, uma vez que, o verdadeiro interessado por m\u00fasica pode ser introduzido \u00e0 obra de Smith atrav\u00e9s dos cl\u00e1ssicos \u201cEither\/Or\u201d (1997) e \u201cXO\u201d (1998), e as maiores benefici\u00e1rias no lan\u00e7amento s\u00e3o as gravadoras, n\u00e3o se pode desprezar uma sele\u00e7\u00e3o de m\u00fasicas compostas por um artista que divide postos com Nick Drake, Kurt Cobain e Jeff Buckley, n\u00e3o s\u00f3 na genialidade, mas tamb\u00e9m na forma como chegaram ao fim da vida de maneira precoce.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre as can\u00e7\u00f5es selecionadas h\u00e1 destaque para as faixas do disco \u201cElliott Smith\u201d (1995), e, principalmente, \u201cEither\/Or\u201d. Em que pese o fato deste ser o \u00e1lbum mais relevante do cantor, estes tamb\u00e9m s\u00e3o os CDs lan\u00e7ados atrav\u00e9s da Kill Rock Stars e sua parceira brit\u00e2nica. Esta \u00e9 uma das principais falhas da colet\u00e2nea, pois a tamb\u00e9m grandiosa obra \u201cXO\u201d aparece somente com a valsinha \u201cWaltz #2\u201d, e \u201cFigure 8\u201d, de 2000, s\u00f3 \u00e9 representada por \u201cHapiness\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dif\u00edcil acreditar que a sele\u00e7\u00e3o foi somente art\u00edstica e n\u00e3o houve o intuito de valorizar os discos presentes no cat\u00e1logo da gravadora. Ou que a Kill Rock Stars foi privada de mais m\u00fasicas dos discos precedentes por empecilhos financeiros e\/ou jur\u00eddicos junto \u00e0 major Dreamworks.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As feridas abertas na biografia de Elliott s\u00e3o expostas novamente no atual lan\u00e7amento. A dramaticidade est\u00e1 presente em \u201cLast Call\u201d, grava\u00e7\u00e3o lo-fi, de seu primeiro disco. A ironia explicita sua rela\u00e7\u00e3o com Los Angeles, em \u201cAngeles\u201d. Outros temas conturbados tamb\u00e9m v\u00eam \u00e0 tona novamente, como sua rela\u00e7\u00e3o com as drogas, mais especificamente a hero\u00edna, em \u201cNeedle in the Hey\u201d, e o \u00e1lcool, em \u201cBetween the Bars\u201d, m\u00fasica do \u00e1lbum de 1997 \u2013 ano em que o m\u00fasico teve sua primeira tentativa de suicido, ao saltar de um penhasco e ficar preso entre \u00e1rvores. Posteriormente, ele definiu a situa\u00e7\u00e3o como \u2018pat\u00e9tica\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A faixa \u201cMiss Misery\u201d \u00e9 um capitulo a parte, n\u00e3o s\u00f3 nesta colet\u00e2nea, mas tamb\u00e9m na vida do m\u00fasico norte-americano. Em 1996, Smith cedeu cinco m\u00fasicas para o filme \u201cG\u00eanio Indom\u00e1vel\u201d, de Gus Van Sant. Destas, quatro estavam presentes em discos do cantor. A exce\u00e7\u00e3o foi a in\u00e9dita \u201cMiss Misery\u201d. A can\u00e7\u00e3o que encerrava o filme protagonizado por Matt Damon foi indicada ao Oscar do ano seguinte, o que gerou a maior exposi\u00e7\u00e3o que o at\u00e9 ent\u00e3o m\u00fasico do underground j\u00e1 teve.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na cerim\u00f4nia, um atrapalhado Elliott Smith apresentou uma nervosa vers\u00e3o de seu maior hit. De terno branco e cabelo bagun\u00e7ado, o artista errou alguns versos e viu sua m\u00fasica ser derrotada pela enfadonha \u201cMy Heart Will Go On\u201d, de Celine Dion, trilha de Titanic.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s o epis\u00f3dio, ele fez quest\u00e3o que a m\u00fasica n\u00e3o entrasse em seu \u00e1lbum seguinte e em nenhum outro registro. No entanto, em \u201cAn Introducion to&#8230;\u201d a vontade do artista \u00e9 desrespeitada e seu maior sucesso aparece em uma vers\u00e3o anterior \u00e0 utilizada na obra de Gus Van Sant.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Elliott Smith deixou a vida em 21 de outubro de 2003, ao perfurar duplamente seu peito com uma faca, ap\u00f3s mais uma briga com a namorada Jennifer Chiba. \u00c0 \u00e9poca, foi constatado que Elliott cometeu suicido, no entanto, a necropsia do corpo tamb\u00e9m indicou a possibilidade de homic\u00eddio (uma das principais alega\u00e7\u00f5es \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel suportar uma perfura\u00e7\u00e3o no peito, retirar a faca e ferir-se novamente).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a causa da morte de Elliott ainda gera muitas d\u00favidas e contradi\u00e7\u00f5es, seu legado \u00e9 inquestion\u00e1vel e n\u00e3o h\u00e1 necessidade de colet\u00e2neas, que se confundem entre homenagem e oportunismo, para provar a profundidade de sua arte. De qualquer forma, \u201cAn Introducion to&#8230;\u201d \u00e9 uma janela que se abre para que um novo p\u00fablico descubra de Elliott Smith. Pode come\u00e7ar por esta, mas n\u00e3o deixe de abrir as demais janelas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*******<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bruno Faleiro (<a href=\"http:\/\/twitter.com\/faleirofaleiro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@faleirofaleiro<\/a>) \u00e9 jornalista, edita a Revista do Cruzeiro e assina o <a href=\"http:\/\/www.faleirolandia.wordpress.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Faleirolandia.<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*******<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-6603\" title=\"elliott_from\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/12\/elliott_from.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&#8220;From A Basement On The Hill&#8221;, Ellioth Smith<br \/>\npor Jonas Lopes<br \/>\nTexto publicado originalmente na vers\u00e3o 1.0 do Scream &amp; Yell em 17\/02\/2005<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ind\u00fastria pop nos proporciona algumas situa\u00e7\u00f5es bem curiosas. O caso de &#8220;From A Basement On The Hill&#8221; \u00e9 emblem\u00e1tico. Elliott Smith passou pelo menos dois anos brigando com a gravadora Dreamworks para conseguir lan\u00e7ar o disco, cuja primeira vers\u00e3o ficou pronta em 2001. A major se recusou a colocar o \u00e1lbum no mercado, afirmando que era depressivo demais (o que eles esperavam, tendo em vista os trabalhos anteriores de Elliott? Ska?). Expugnado, Elliott teve que recome\u00e7ar o trabalho e regravar o disco, o que vinha fazendo at\u00e9 sua morte, em outubro passado. E agora, quase um ano depois, o disco \u00e9 lan\u00e7ado pelo selo Anti, o mesmo de Tom Waits, Nick Cave e Neko Case (ou seja, j\u00e1 pode ser considerada a gravadora mais melanc\u00f3lica do planeta). O produtor Rob Schnapf (que mixou &#8220;Either\/Or&#8221;) e a baixista dos Jicks (banda de apoio de Stephen Malkmus) Joanna Bolme finalizaram a mixagem do \u00e1lbum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira coisa a se dizer sobre &#8220;From A Basement On The Hill&#8221; (o nome vem de um verso de &#8220;Memory Lane&#8221;) \u00e9 que n\u00e3o \u00e9, como vinha sendo divulgado, um retorno \u00e0 est\u00e9tica lo-fi e simplista de &#8220;Either\/Or&#8221; (1997) e &#8220;Elliott Smith&#8221; (1995). A n\u00e3o ser que Elliott houvesse desejado assim e a p\u00f3s-produ\u00e7\u00e3o tenha limado esta pretens\u00e3o. O disco come\u00e7a onde &#8220;Figure 8&#8221; (2000) parou: produ\u00e7\u00e3o expansiva e exemplar (exagerada, para os puristas), algumas guitarras pesadas, experimenta\u00e7\u00f5es com canais e instrumenta\u00e7\u00f5es, harmonias vocais cada vez mais complexas e arranjos de cordas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Coast To Coast&#8221;, que abre &#8220;From A Basement On The Hill&#8221;, lembra &#8220;Son of Sam&#8221;, primeira faixa de &#8220;Figure 8&#8221;; as guitarras com distor\u00e7\u00e3o, que chamavam a aten\u00e7\u00e3o em &#8220;LA&#8221;, aparecem na arrastada &#8220;King&#8217;s Crossing&#8221;; &#8220;Last Hour&#8221; \u00e9 prima distante de &#8220;I Better Be Quiet&#8221;. Por\u00e9m, &#8220;From A Basement On The Hill&#8221; \u00e9 mais coeso que o anterior, e n\u00e3o deixa aquela impress\u00e3o de que duas ou tr\u00eas m\u00fasicas poderiam ter ficado de fora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma velha influ\u00eancia de Elliott bate ponto no disco novo: os Beatles. Foi o quarteto de Liverpool que chamou a aten\u00e7\u00e3o de Elliott para a m\u00fasica, depois que o americano, ent\u00e3o com cinco anos, ouviu o &#8220;White Album&#8221; &#8211; &#8220;como n\u00e3o virar baixista depois de ouvir Helter Skelter?&#8221;, dizia. A paix\u00e3o sempre esteve expl\u00edcita em seus discos (&#8220;Baby Britain&#8221;, de &#8220;XO&#8221;, \u00e9 a cara de &#8220;Getting Better&#8221;) e, por mais que Lennon fosse seu beatle favorito, era com George Harrison que ele mais se assemelhava musicalmente (em outra faixa de &#8220;XO&#8221;, O&#8221;h Well, Okay&#8221;, d\u00e1 pra notar bem a semelhan\u00e7a entre as vozes). A muralha de guitarras de &#8220;Don&#8217;t Go Down&#8221; parece algo arranjado por Phil Spector para &#8220;All Things Must Pass&#8221;. &#8220;Strung Out Again&#8221; e &#8220;Shooting Star&#8221; lembram um pouco as contribui\u00e7\u00f5es de Harrison para &#8220;Abbey Road&#8221; e &#8220;White \u00c1lbum&#8221;. As faixas ac\u00fasticas, &#8220;Let&#8217;s Get Lost&#8221; e &#8220;Last Hour&#8221; (com solo lindo de viol\u00e3o) em especial, est\u00e3o imbu\u00eddas de momentos tocantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lendo e ouvindo as letras das can\u00e7\u00f5es d\u00e1 para, n\u00e3o concordar, mas entender os motivos de temor da Dreamworks. &#8220;From A Basement On The Hill&#8221; \u00e9 sim um disco muito deprimido. Provavelmente o mais triste que Elliott gravou. E \u00e9 uma melancolia desolada, desesperada, de versos de quem estava desistindo de viver, como &#8220;anything that I could be\/would never be good enough for you\/if you can&#8217;t help it, just leave me alone (\u2026) it sounds like being here just wasn&#8217;t that much fun&#8221; (&#8220;Coast To Coast&#8221;). &#8220;Little One&#8221; \u00e9 quase um testamento, um adeus: &#8220;and I won&#8217;t know the fact that I&#8217;m dying\/if I seem to be reckless with myself&#8221;. Em King&#8217;s Crossing Elliott ainda tenta buscar raz\u00f5es ao cantar &#8220;give me just one good reason not to do it&#8221;. Os produtores tiveram a sacada de incluir um sampler depois deste verso, retirado de um show, da namorada de Elliott, Jennifer Chiba, respondendo bem baixinho na mixagem: &#8220;because we love you&#8221;. Comovente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A can\u00e7\u00e3o mais deprimida do \u00e1lbum, no entanto, \u00e9 &#8220;Twilight&#8221;: &#8220;you don&#8217;t deserve to be lonely\/but those drugs you got won&#8217;t make you feel better&#8221;. Seu arranjo, infelizmente, ficou um pouco abaixo do esperado. Era melhor ao vivo, com piano. E aqui fica claro que a voz de Smith j\u00e1 n\u00e3o era mais a mesma. Outra m\u00fasica cujo arranjo decepcionou \u00e9 &#8220;A Distorted Reality Is Now A Necessity To Be Free&#8221;. A vers\u00e3o lan\u00e7ada ano passado, como b-side de &#8220;Pretty (Ugly Before)&#8221;, era superior (a letra tamb\u00e9m \u00e9 diferente). Se Elliott tivesse terminado o disco, poderia ser o melhor \u00e1lbum do ano, ou at\u00e9 o melhor de sua carreira. De qualquer forma, &#8220;From A Basement On The Hill&#8221; \u00e9 uma obra sublime, uma despedida digna de seu talento, e pelo menos foi lan\u00e7ado. Isto \u00e9 que importa. Pena que Elliott teve que nos deixar pra isso acontecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*******<br \/>\nJonas Lopes \u00e9 jornalista e assina o blog <a href=\"http:\/\/gymnopedies.blogspot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Gymnopedies<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Bruno Faleiro e Jonas Lopes\n\u00c9 s\u00f3 uma colet\u00e2nea, mas s\u00e3o m\u00fasicas compostas por um artista que divide postos com Nick Drake, Kurt Cobain e Jeff Buckley&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/12\/02\/retratos-de-elliott-smith\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":122,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6601"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/122"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6601"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6601\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73626,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6601\/revisions\/73626"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6601"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6601"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6601"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}