{"id":65983,"date":"2022-05-03T00:03:00","date_gmt":"2022-05-03T03:03:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=65983"},"modified":"2023-03-21T01:49:47","modified_gmt":"2023-03-21T04:49:47","slug":"tres-livros-uma-rosa-so-gotico-nordestino-e-o-avesso-da-pele","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/05\/03\/tres-livros-uma-rosa-so-gotico-nordestino-e-o-avesso-da-pele\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas livros: \u201cUma rosa s\u00f3\u201d, \u201cG\u00f3tico nordestino\u201d e \u201cO avesso da pele\u201d"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>textos por <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tgpgabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Gabriel Pinheiro<\/a><\/strong><\/h2>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-65987 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Uma-rosa-so.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"676\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Uma-rosa-so.jpg 450w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Uma-rosa-so-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cUma rosa s\u00f3\u201d, de Muriel Barbery (Companhia das Letras)<\/strong><br \/>\nRose se considera orf\u00e3 desde a morte da m\u00e3e, ocorrida h\u00e1 alguns anos. Seu pai, enquanto presen\u00e7a em sua vida, nunca existiu. Pouco sabe sobre ele: apenas que \u00e9 vivo e mora em seu pa\u00eds de origem, o Jap\u00e3o. Haru Ueno nunca buscou uma forma de contato com a filha. At\u00e9 que um dia, Rose recebe a not\u00edcia de sua morte e viaja at\u00e9 Kyoto para a leitura de seu testamento. \u201cUma rosa s\u00f3\u201d (\u201cUne rose seule\u201d, 2020), romance de Muriel Barbery que ganhou tradu\u00e7\u00e3o nacional \u2013 de Rosa Freire d&#8217;Aguiar \u2013 em 2022, tem in\u00edcio no despertar da personagem em um quarto na casa do pai, um c\u00f4modo nu adornado com apenas um delicado vaso contendo uma pe\u00f4nia vermelha. Rose \u00e9 bot\u00e2nica, e as flores atrair\u00e3o seu olhar em seu breve percurso por Kyoto, nos dias que precedem o encontro com o tabeli\u00e3o. Seja a pe\u00f4nia, as flores da cerejeira e da ameixeira ou os l\u00edrios. Nestes dias na cidade japonesa, ela visita alguns templos e restaurantes em companhia de Paul, um belga radicado no Jap\u00e3o que trabalhou com seu pai por anos. O itiner\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 uma escolha de Paul, mas do pr\u00f3prio pai, que deixara planejado antes de sua morte. \u00c9 uma forma de conhecer alguns dos lugares especiais para o pai enquanto vivo, conhec\u00ea-lo atrav\u00e9s destes espa\u00e7os e da companhia de seu antigo funcion\u00e1rio. Pouco a pouco, este revela o v\u00e9u opaco sob o qual, at\u00e9 ent\u00e3o, se encontrava a figura paterna. Al\u00e9m disso, os momentos de reflex\u00e3o e contempla\u00e7\u00e3o, se tornam parte de um processo de apaziguamento e tentativa de cura de seus pr\u00f3prios dem\u00f4nios e feridas internas. De uma escrita sens\u00edvel e profundamente po\u00e9tica, a prosa de Muriel Barbery encanta linha ap\u00f3s linha. Quem j\u00e1 teve contato com outros trabalhos da autora, sobretudo \u201cA eleg\u00e2ncia do ouri\u00e7o\u201d (2006), sabe bem o que esperar neste sentido. Abrindo cada cap\u00edtulo, Barbery ainda nos brinda com pequenos contos, narrados em tempos e dinastias antigas e conclu\u00eddos por breves prov\u00e9rbios e aforismos. Povoados por personagens reais da hist\u00f3ria japonesa, como o pintor Shitao e o poeta Kobayashi Issa, cada conto ressoa no cap\u00edtulo que o segue, nas experi\u00eancias da pr\u00f3pria Rose. <em>\u201cO mundo \u00e9 como uma cerejeira que n\u00e3o olhamos durante tr\u00eas dias\u201d<\/em>. \u201cUma rosa s\u00f3\u201d \u00e9 uma ode ao Jap\u00e3o, sua hist\u00f3ria, sua cultura, sua arte. Remete a um di\u00e1rio de viagem quando nos vemos mergulhados em Kyoto atrav\u00e9s de Rose e suas experi\u00eancias ali. Sentimos, como lembran\u00e7as v\u00edvidas registradas em um caderno e, principalmente, na mem\u00f3ria, seus aromas, suas cores, suas texturas e seus sabores. No fim, este di\u00e1rio registra n\u00e3o apenas uma viagem a um pa\u00eds alhures, mas a jornada interna de sua protagonista. Um caminho dolorosamente trilhado dentro de si: a transforma\u00e7\u00e3o, a metamorfose da dor em um novo sentimento.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-65985 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Gotico-nordestino.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"703\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Gotico-nordestino.jpg 450w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Gotico-nordestino-192x300.jpg 192w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cG\u00f3tico nordestino\u201d, de Cristhiano Aguiar (Editora Alfaguara)<\/strong><br \/>\nFantasmas, doen\u00e7as misteriosas, mil\u00edcias, sonhos premonit\u00f3rios, on\u00e7as, cangaceiros e vampiros circulam pelas p\u00e1ginas do novo livro de Cristhiano Aguiar, o volume de contos \u201cG\u00f3tico nordestino\u201d (2022). Situadas na regi\u00e3o que d\u00e1 t\u00edtulo ao livro, as narrativas de Aguiar caminham de um passado distante at\u00e9 um futuro muito pr\u00f3ximo para dizer de medos e horrores que invadem a aparente normalidade da vida ordin\u00e1ria de seus personagens. H\u00e1 contos no livro que s\u00e3o exemplares do quanto, camuflada em situa\u00e7\u00f5es supostamente n\u00e3o realistas \u2013 e mesmo sobrenaturais \u2013 a literatura de g\u00eanero, como o horror e a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, \u00e9 capaz de discutir o mundo real, o momento social e pol\u00edtico em que \u00e9 produzida. Por exemplo em &#8220;As on\u00e7as&#8221;, narrativa onde avan\u00e7amos para um per\u00edodo indeterminado, uma comunidade \u00e9 progressivamente afugentada e isolada por estes grandes felinos. Se os animais s\u00e3o uma amea\u00e7a \u00e0 espreita, n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos. Numa esp\u00e9cie de estado de s\u00edtio, mil\u00edcias cobram alugu\u00e9is por prote\u00e7\u00e3o, assaltam casas e estupram mulheres. Estes milicianos eram amea\u00e7as antes mesmo das on\u00e7as: promoviam periodicamente a limpeza racial. H\u00e1 um outro conto com ares lovecraftianos, um dos meus favoritos do volume. Pai e filha partem em viagem para uma cidadezinha paraibana buscando respostas acerca de uma suposta maldi\u00e7\u00e3o que circunda a fam\u00edlia h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es. Ali, no passado, um navio atolou. Dele saiu apenas um \u00fanico tripulante vivo e um estranho livro&#8230; A pandemia da covid-19 \u00e9 retratada de maneira inventiva, num interessante di\u00e1logo com \u201cAs intermit\u00eancias da morte\u201d, de Jos\u00e9 Saramago, em \u201cL\u00e1zaros\u201d. \u00c9 uma daquelas narrativas que te ganham logo na primeira frase: <em>&#8220;\u2013 Sim, pode vir pegar: o corpo da sua av\u00f3 acordou. \u2013 Disse, pelo telefone do IML&#8221;<\/em>. A partir da\u00ed, acompanhamos o reencontro e o estranho conv\u00edvio de uma fam\u00edlia com sua av\u00f3, agora em sua p\u00f3s-vida. \u00c9 ela que est\u00e1 ali, mas n\u00e3o exatamente como era. H\u00e1 muito mais para se descobrir nas narrativas de &#8220;G\u00f3tico Nordestino&#8221;. Num mundo real \u2013 um Brasil, especialmente \u2013 onde parece ser cada vez mais dif\u00edcil acreditar que n\u00e3o estamos sonhando um pesadelo, s\u00e3o justamente as narrativas de g\u00eanero \u2013 o horror, a fantasia e outras \u2013 algumas das formas poss\u00edveis de dar conta desta realidade cada vez mais assombrosa. Onde o medo segue sendo inoculado dentro de uma suposta normalidade cotidiana.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-65986 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/O-avesso-da-pele.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"675\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/O-avesso-da-pele.jpg 450w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/O-avesso-da-pele-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cO avesso da pele\u201d, de Jeferson Ten\u00f3rio (Companhia das Letras)<\/strong><br \/>\nPedro est\u00e1 sozinho no apartamento do pai, Henrique, morto recentemente em uma tr\u00e1gica abordagem policial. Se falta a presen\u00e7a paterna, o ambiente \u00e9 tomado pelos objetos deixados por ele, que ganham novas cores e novos sentidos, a partir de sua aus\u00eancia repentina. Uma ferida rec\u00e9m-aberta. Permeia o espa\u00e7o tamb\u00e9m a mem\u00f3ria, essa que pode tanto ter sido vivida quanto inventada. Ela \u00e9 a mat\u00e9ria para que o filho reconstitua, reelabore e reinvente a exist\u00eancia prematuramente interrompida do pai. <em>\u201cE apesar de tudo, nesta casa, neste apartamento, voc\u00ea ser\u00e1 sempre um corpo que n\u00e3o vai parar de morrer.\u201d<\/em> Em \u201cO avesso da pele\u201d (2020), vencedor do Jabuti na categoria Romance Liter\u00e1rio, Jeferson Ten\u00f3rio prop\u00f5e a genealogia de uma fam\u00edlia negra em um pa\u00eds, em um estado, em uma cidade racista. Em sua narra\u00e7\u00e3o em primeira pessoa, o filho diz de si e retorna ao passado de seu pai e de sua m\u00e3e, desde a inf\u00e2ncia deles, para dizer tamb\u00e9m das trajet\u00f3rias dos dois. Sobretudo do pai. Nesta reconstitui\u00e7\u00e3o das lembran\u00e7as que n\u00e3o s\u00e3o dele, percebemos como, de uma gera\u00e7\u00e3o para outra, a exist\u00eancia \u2013 a simples sobreviv\u00eancia \u2013 segue sendo um desafio onde tantos padecem. Jeferson exp\u00f5e p\u00e1gina a p\u00e1gina uma s\u00e9rie de situa\u00e7\u00f5es em que o racismo \u201c\u00e0 brasileira\u201d \u00e9 naturalizado nos discursos e nas atitudes daqueles com quem seus personagens se relacionam ao longo da narrativa. Seja um an\u00fancio de vaga de emprego que tinha como crit\u00e9rio \u201cter boa apar\u00eancia\u201d \u2013 o que significava, na maioria das vezes, ser branco \u2013 ou a fala de uma ex-sogra de Martha, m\u00e3e do narrador, em um relacionamento na juventude:<em> \u201cUma moreninha forte igual a voc\u00ea pode ajudar bastante\u201d.<\/em> Numa prosa de leitura flu\u00edda, \u00e9 dif\u00edcil deixar as p\u00e1ginas de \u201cO avesso da pele\u201d. Jeferson Ten\u00f3rio constr\u00f3i um texto que te fisga pelo afeto que sobrevive na voz de um filho, apesar das in\u00fameras viol\u00eancias que ele exp\u00f5e. A morte de Henrique \u00e9 fic\u00e7\u00e3o, mas poderia ser realidade. Na verdade, \u00e9. Com outros nomes nas p\u00e1ginas dos jornais e outros filhos deixados \u00f3rf\u00e3os. Este \u00e9 um livro sobre a morte de um homem, mas \u00e9 tamb\u00e9m um livro sobre a sobreviv\u00eancia. Sobreviver, apesar das diversas chances que a vida tivera para te matar. Seguir sobrevivendo, ap\u00f3s a morte, em texto, na reinven\u00e7\u00e3o de sua vida pelo olhar do filho.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Live &quot;O avesso da pele&quot;, com Jeferson Ten\u00f3rio.\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fQofi_bvpwM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Gabriel Pinheiro \u00e9 jornalista. Escreve sobre suas leituras tamb\u00e9m no Instagram:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tgpgabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@tgpgabriel<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":" \u201cUma rosa s\u00f3\u201d \u00e9 uma ode ao Jap\u00e3o, sua hist\u00f3ria, sua cultura, sua arte; H\u00e1 muito mais para se descobrir nas narrativas de &#8220;G\u00f3tico Nordestino&#8221;; \u201cO avesso da pele\u201d \u00e9 um livro sobre a morte de um homem, e tamb\u00e9m um livro sobre sobreviv\u00eancia.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/05\/03\/tres-livros-uma-rosa-so-gotico-nordestino-e-o-avesso-da-pele\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":112,"featured_media":65990,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[3007,1304,5614,5615,5613],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65983"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/112"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=65983"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65983\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":65993,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65983\/revisions\/65993"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/65990"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=65983"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=65983"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=65983"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}