{"id":658,"date":"2008-12-11T20:06:49","date_gmt":"2008-12-11T22:06:49","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=658"},"modified":"2023-03-29T00:49:39","modified_gmt":"2023-03-29T03:49:39","slug":"rebobine-por-favor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2008\/12\/11\/rebobine-por-favor\/","title":{"rendered":"Cinema: &#8220;Rebobine, Por Favor&#8221;, dos Irm\u00e3os Coen"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-659 aligncenter\" title=\"rebobine\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2008\/12\/rebobine.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n<strong>Por Roberta Avila<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Sabe quando acaba a luz e voc\u00ea brinca de projetar sombras nas paredes? A falta de energia acaba mostrando que a presen\u00e7a da televis\u00e3o ali, ligada na sala o tempo todo, com o jornal do pai, a novela da m\u00e3e e sabe-se o qu\u00ea mais, acaba sendo uma imposi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. O que se perde com isso \u00e9 muito mais do que o programa favorito, mas o contato humano e o exerc\u00edcio da criatividade. Essa \u00e9 a teoria de &#8220;Rebobine, Por Favor&#8221; (Be Kind, Rewind), novo filme do franc\u00eas Michel Gondry, cujo curr\u00edculo inclui &#8220;The Science of Sleep&#8221; (in\u00e9dito no Brasil) e a dobradinha assinada pelo roteirista Charlie Kaufman, &#8220;Natureza Humana&#8221; e &#8220;Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembran\u00e7as&#8221;.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">&#8220;Brilho Eterno&#8221; conquistou uma legi\u00e3o de f\u00e3s \u2013 al\u00e9m do Oscar de Melhor Roteiro Original para Kaufman \u2013, mas quem for ao cinema esperando uma reedi\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria talvez saia decepcionado. Como explicou em entrevista no Museu da Imagem e do Som, em S\u00e3o Paulo, Gondry n\u00e3o tem a inten\u00e7\u00e3o de passar a vida repetindo uma f\u00f3rmula de sucesso. Ele prefere o desafio de se reinventar a cada novo trabalho, mas a quest\u00e3o que o move \u00e9 a mesma: que papel a tecnologia tem em nossas vidas?<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">A partir da\u00ed ele ilustra a impossibilidade de mecanizar as rela\u00e7\u00f5es humanas, de reprimir sonhos e sentimentos e a dificuldade que algumas pessoas t\u00eam em se adaptar ao capitalismo selvagem das grandes redes e blockbusters. A premissa \u00e9 autobiogr\u00e1fica. Gondry se recusa a assistir televis\u00e3o em casa, sendo sujeito passivo de imagens que n\u00e3o escolheu ver e usa o aparelho apenas para reproduzir filmes. Prefere o papel ao computador. J\u00e1 disse n\u00e3o a Hollywood porque queriam usar seu nome como um r\u00f3tulo cool e lhe ofereceram roteiros cheios de clich\u00eas est\u00fapidos, como o cara rico fabuloso e o infeliz e ris\u00edvel cara sens\u00edvel.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Em &#8220;Rebobine, Por Favor&#8221;, Jerry (Jack Black) e Mike (Mos Def) s\u00e3o encarna\u00e7\u00f5es dessas reflex\u00f5es. O filme se passa ao lado da estrada de ferro em Passaic, Nova J\u00e9rsei, uma cidadezinha pacata e decadente. Jerry \u00e9 um mec\u00e2nico que trabalha em um ferro-velho e mora em um trailer ao lado da central el\u00e9trica da cidade. Boa parte do tempo ele passa na locadora de fitas VHS que d\u00e1 nome ao filme incomodando o Sr. Fletcher (Danny Glover), dono do neg\u00f3cio, e arranjando problemas para Mike, \u00fanico funcion\u00e1rio da loja.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Convencido de que a central el\u00e9trica da cidade o vigia e est\u00e1 tentando mat\u00e1-lo, Jerry aproveita uma viagem do Sr. Fletcher e tenta sabotar o transformador. Acaba tomando um choque imenso numa cena que vai incomodar muita gente por causa do efeito especial tosco. O rapaz acaba magnetizado, e ao entrar na locadora e sair pegando em todas as fitas de v\u00eddeo do lugar, faz com que o conte\u00fado de cada uma seja apagado. O problema \u00e9 que a Srta. Falewicz (Mia Farrow), uma amiga do Sr. Fletcher e fiel cliente da loja, aparece bem nessa hora e quer alugar os &#8220;Ca\u00e7a-Fantasmas&#8221;.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Para n\u00e3o contar a ningu\u00e9m o que tinha acontecido (e escapar do esporro do Sr. Fletcher) Jerry e Mike resolvem juntar um pouco de sucata, silver tape e geleca e gravam a sua pr\u00f3pria vers\u00e3o do cl\u00e1ssico dos anos 80, levando em conta que s\u00f3 o que a Srta. Falewics saberia sobre o filme \u00e9 o que estava escrito na capinha da fita. A solu\u00e7\u00e3o provis\u00f3ria acaba virando uma nova profiss\u00e3o: outras pessoas assistem ao v\u00eddeo e os moradores do bairro come\u00e7am a fazer fila para alugar os &#8220;suecados&#8221;, nome que eles d\u00e3o \u00e0s vers\u00f5es piratas.\u00a0<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">A partir da\u00ed se estabelece uma nova din\u00e2mica no bairro, que tem a seriedade de quem leva uma brincadeira a s\u00e9rio. Ningu\u00e9m questiona o que \u00e9 um v\u00eddeo suecado, nem as regras malucas que eles inventam para as pessoas se associarem \u00e0 locadora. A comunidade se une em torno disso e a produ\u00e7\u00e3o dos filmes vai crescendo. Assim como em &#8220;Escola do Rock&#8221;, Jack Black parece mais uma vez interpretar a si mesmo. \u00c9 aquele cara que n\u00e3o cresceu, uma crian\u00e7a grande que estava se divertindo por a\u00ed, fazendo umas palha\u00e7adas ou inventando uma moda qualquer e foi flagrado por uma c\u00e2mera.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">As interpreta\u00e7\u00f5es em geral ganham pela sutileza. A naturalidade de Mos Def em cena se aplica tamb\u00e9m a Melonie Diaz, que se torna a mocinha dos suecados, e a Mia Farrow, cuja delicadeza \u00e9 um ponto de equil\u00edbrio. Danny Glover \u00e9 a do\u00e7ura em forma de um senhor. A mesma do\u00e7ura do capit\u00e3o Murtaugh, que conseguia equilibrar o vigor de um Martin Riggs suicida vivido por Mel Gibson (no auge de seus 30 aninhos) em &#8220;M\u00e1quina Mort\u00edfera&#8221;.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">O processo criativo de Gondry pode ser explicado numa met\u00e1fora c\u00f4mica: o que \u00e9 que a galinha foi fazer na igreja? Esse princ\u00edpio cl\u00e1ssico de toda a piada joga com um sentimento muito humano: o medo do rid\u00edculo. A pessoa tem medo de dar uma resposta errada e quando percebe que a resposta certa \u00e9 talvez mais boba do que qualquer erro, ri do pr\u00f3prio constrangimento. \u00c8 mais ou menos esse o objeto de trabalho do diretor. Ele pega uma id\u00e9ia que poderia ser rid\u00edcula ou que poderia acabar se dirigindo a um desdobramento \u00f3bvio e se pergunta: como isso pode ser diferente?<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">A partir da\u00ed se estabelece uma coer\u00eancia interna. As mem\u00f3rias podem ser apagadas se voc\u00ea quiser. Pessoas ficam magnetizadas e apagam fitas de v\u00eddeo. E se todos s\u00e3o capazes de aceitar essas premissas como verdadeiras, porque lidar com efeitos especiais que n\u00e3o se aproximam da realidade seria dif\u00edcil? Gondry confessa que em &#8220;Brilho Eterno&#8221; queria fazer outros efeitos, mas n\u00e3o teve grana para isso. Ent\u00e3o teve que decidir o que era mais importante, o uso da tecnologia ou da criatividade.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Para ele muitos filmes antigos como &#8220;Robocop&#8221; e os pr\u00f3prios &#8220;Ca\u00e7a-Fantasmas&#8221; eram muito mais desafiadores do que os que s\u00e3o feitos hoje em Hollywood, em que metade do tempo \u00e9 preenchido por efeitos especiais absurdos. Como diretor, ele n\u00e3o faz obras herm\u00e9ticas, dif\u00edceis de assistir ou de serem assimiladas pelo grande p\u00fablico. Mas n\u00e3o \u00e9 qualquer um que prop\u00f5e uma apropria\u00e7\u00e3o do fetiche de se ver refletido em uma tela, principalmente na da televis\u00e3o, e ainda te faz rir com isso.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">&#8220;Rebobine, Por Favor&#8221; come\u00e7a lento, ilustrando a vidinha besta dos personagens. Os planos parados e os di\u00e1logos puxam para o lado do cult e do cinema europeu. Quando a din\u00e2mica da comunidade muda, o ritmo se acelera e as rela\u00e7\u00f5es pessoais d\u00e3o um novo sentido \u00e0 vida no lugar. Nem mesmo o romance \u00e9 levado a s\u00e9rio ou transformado em clich\u00ea por Gondry. Ao inv\u00e9s da cena cl\u00e1ssica em que dois dos personagens principais se revelam apaixonados e se beijam, o diretor prefere que as suas estrelas troquem cutuc\u00f5es, brincadeiras ou simplesmente deixa as coisas no ar. Para qu\u00ea ser mais \u00f3bvio do que isso?<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: center\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-660   aligncenter\" title=\"rebobine2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2008\/12\/rebobine2.jpg\" alt=\"\" width=\"480\" height=\"321\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2008\/12\/rebobine2.jpg 480w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2008\/12\/rebobine2-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 480px) 100vw, 480px\" \/><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; &#8220;Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembran\u00e7as&#8221;, por Marcelo Costa (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/cinemadois\/brilhoeterno.html\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Roberta Avila Sabe quando acaba a luz e voc\u00ea brinca de projetar sombras nas paredes? A falta de energia acaba mostrando que \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2008\/12\/11\/rebobine-por-favor\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":124,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[26,733,24,25,27],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/658"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/124"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=658"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/658\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73661,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/658\/revisions\/73661"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=658"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=658"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=658"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}