{"id":6562,"date":"2010-11-29T19:05:15","date_gmt":"2010-11-29T21:05:15","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=6562"},"modified":"2023-03-29T00:29:59","modified_gmt":"2023-03-29T03:29:59","slug":"watson","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/11\/29\/watson\/","title":{"rendered":"Entrevista: Watson"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-6563\" title=\"watson1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/watson1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong><a href=\"http:\/\/twitter.com\/murilo_basso\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">por Murilo Basso<\/a><br \/>\n<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea j\u00e1 ouviu essa hist\u00f3ria: amigos se conhecem, surgem afinidades e da\u00ed para formar uma banda j\u00e1 andamos meio caminho. \u201cFoi em um col\u00e9gio muito depr\u00ea aqui de Bras\u00edlia. Eu e o Adriano (baixista) nos conhecemos em algum intervalo e vimos que j\u00e1 t\u00ednhamos em comum o fato de n\u00e3o gostarmos daquele lugar\u201d, conta Miguel Martins (voz \/ guitarra).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Transitando entre temas como a frustra\u00e7\u00e3o do cotidiano e pol\u00edtica nacional, e estilos que v\u00e3o desde o pop \u00e0 MPB o quarteto de Bras\u00edlia chega a um trabalho essencialmente direto, que est\u00e1 sendo disponibilizado gratuitamente no site oficial da banda (baixe <a href=\"http:\/\/www.bandawatson.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>), e que revela um grupo n\u00e3o s\u00f3 atento \u00e0s novidades, mas tamb\u00e9m capaz de produzir can\u00e7\u00f5es sinceras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O vocalista Miguel Martins topou conversar com o S&amp;Y. Na pauta, Bras\u00edlia, influ\u00eancias e todo o processo de concep\u00e7\u00e3o do mais novo trabalho do grupo. Confira:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como a banda surgiu?<\/strong><br \/>\nFoi em um col\u00e9gio muito depr\u00ea aqui de Bras\u00edlia. Um desses col\u00e9gios bem conservadores, caretas. Eu e o Adriano (baixista) nos conhecemos em algum intervalo e vimos que j\u00e1 t\u00ednhamos em comum o fato de n\u00e3o gostarmos daquele lugar. Ele tocava baixo, gostava de funk metal e Red Hot, mas curtia umas coisas como Nick Drake, Magnetic Fields. E eu era bem britpop, Oasis, Pulp, Blur, Stone Roses. N\u00f3s gost\u00e1vamos muito de poesia, de letra de m\u00fasica. Come\u00e7amos a compor juntos, fizemos umas tr\u00eas can\u00e7\u00f5es malucas e chamamos um amigo dele, o Jack (baterista), para fechar a banda. T\u00ednhamos 16 anos em 2002, ensai\u00e1vamos em garagem mesmo, ou at\u00e9 em quarto de dormir. Eu tocava bem mal, o Jack tamb\u00e9m, talvez o Adriano fosse, na \u00e9poca, o melhor. Mas da\u00ed veio essa coisa de aprendermos juntos a tocar, o que definiu tamb\u00e9m a nossa forma de fazer m\u00fasica. L\u00e1 por 2006 entrou o Filipe (guitarrista), um cara que j\u00e1 tinha tocado em bandas legais como a Superquadra e Mentes P\u00f3stumas. Mudou muito. Quando \u00e9ramos um trio, nossa harmoniza\u00e7\u00e3o era bem crua, mas o lirismo era enorme. Hoje, acho que a banda est\u00e1 mais criativa, enquanto as letras foram ficando um pouco mais diretas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que rolou de bacana nesse meio tempo?<\/strong><br \/>\nNo comecinho, toc\u00e1vamos s\u00f3 para gente mais velha. Um dos nossos primeiros shows foi no Gate\u2019s Pub, onde lan\u00e7amos o nosso primeiro EP, em 2002. E s\u00f3 tocamos por causa de vista grossa do dono. Depois vieram uns amigos de col\u00e9gio tentando entrar, mas todo mundo foi barrado, at\u00e9 namoro acabou por causa disso. Primeira m\u00fasica, minha guitarra apaga logo no come\u00e7o. E \u00e9ramos um trio, n\u00e3o t\u00ednhamos como continuar. Recome\u00e7amos o show naquele nervosismo, mas depois acabou sendo legal. Esse EP era bem maluco, tinha de tudo: britpop, funk, p\u00f3s-punk, indie, at\u00e9 uns lances mais brasileiros. Foi gravado em placa soundblaster, dessas que voc\u00ea comprava para jogar Quake e os sons de guitarra s\u00e3o terr\u00edveis, bem digitais, fake total . Mas tinha &#8220;Eu Quero Envelhecer&#8221;, que foi nossa primeira m\u00fasica a chamar aten\u00e7\u00e3o. O Fernando Rosa curtiu e chegou a imaginar um disco nosso em 2004. Fomos ao est\u00fadio do Phillipe Seabra da Plebe Rude para discutirmos isso, mas acabaram percebendo que ainda n\u00e3o t\u00ednhamos uma cara definida para um disco, o que era verdade. Em contrapartida, t\u00ednhamos a manha de fazer umas merdas pr\u00e9-show. Hoje em dia nem tanto (risos). A mais evidente foi a hist\u00f3ria da pamonha, no Bananada, em 2007. Chegamos uma meia-hora antes e algu\u00e9m teve a brilhante id\u00e9ia de mandar uma pamonha antes do show. Fomos atr\u00e1s da pamonharia, e sei l\u00e1, acho que chegamos a andar 1 km. Come\u00e7amos a comer e algu\u00e9m teve a segunda brilhante id\u00e9ia: pedir um empad\u00e3o goiano, que atrasou ainda mais. Pagando a conta, me liga algu\u00e9m da organiza\u00e7\u00e3o perguntando: \u201cCad\u00ea voc\u00eas? A passagem de som j\u00e1 come\u00e7ou&#8221;. E no Bananada voc\u00ea passa o som e j\u00e1 come\u00e7a a tocar, ent\u00e3o imagine a cena: quatro moleques correndo em Goi\u00e2nia desesperadamente. Chegamos com atraso, mas ainda deu pra tocar. O epis\u00f3dio \u00e9 t\u00e3o emblem\u00e1tico que toda vez que algu\u00e9m na banda faz alguma besteira \u00e9 porque &#8220;pamonhou&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 que tu comentou sobre a experi\u00eancia no Bananada, como \u00e9 circular por festivais?<\/strong><br \/>\nFestival ajuda a abrir a cabe\u00e7a de uma banda. O Bananada foi muito legal pelo bom p\u00fablico, pela diversidade de bandas novas com quem a gente tocou. O Grito Rock S\u00e3o Paulo, em 2008, foi um dos melhores, fizemos amizade com a galera dos Visitantes, do Los Porongas e o show foi muito importante para ganharmos confian\u00e7a. Fizemos dois shows no Por\u00e3o do Rock, que j\u00e1 \u00e9 um festival de grande porte, com bandas gringas, mas tocamos em hor\u00e1rios complicados. Gostamos muito do PMW esse ano, bem organizado, pessoal gente boa. Festival para uma banda nova \u00e9 fundamental mesmo. N\u00e3o s\u00f3 pela exposi\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m pelo aprendizado de ver outros shows e pensar &#8220;p\u00f4, isso que ele t\u00e1 fazendo \u00e9 massa, eu podia fazer tamb\u00e9m&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea citou v\u00e1rias influ\u00eancias. Oasis, Blur e Supergrass. Mas no geral o disco de voc\u00eas me soou bem brasileiro.<\/strong><br \/>\n\u00c9 um disco brasileiro, total. \u00c9 at\u00e9 estranho pensar nisso, que temos tend\u00eancia a colocar algumas bandas gringas, como refer\u00eancias, a frente das coisas brasileiras. S\u00e3o basicamente nossas influ\u00eancias adolescentes. Mas n\u00e3o saberia dizer onde come\u00e7a o Blur e o Clube da Esquina no nosso som. N\u00e3o entramos no est\u00fadio preocupados com isso. \u00c9 engra\u00e7ado. Lembro de outro dia me dar conta de como Oasis \u00e9 uma bandinha divertida, mas bem sem gra\u00e7a (risos). J\u00e1 o Blur \u00e9 mais importante para gente, principalmente por achar que um disco pode conter diferentes tipos de humor, que criatividade \u00e9 algo positivo sempre. Tentar mudar e procurar algo novo e assim criar algum sentido com uma certa confus\u00e3o. Discos como o \u201cBlur\u201d (1997) e o \u201c13\u201d (1999) tem essa sacada. Mas cara, a can\u00e7\u00e3o brasileira come\u00e7a pela l\u00edngua. Como vai ser tocada, pouco importa. Voc\u00ea pode cantarolar em ingl\u00eas para chegar a uma melodia, mas quando mudar para o portugu\u00eas vai ser obrigado a fazer concess\u00f5es. E isso me deixa at\u00e9 meio puto, ver que o Stephen Malkmus pode falar aquele quilo de palavras e ainda assim ficar interessante. Mas as concess\u00f5es, \u00e0s vezes, te levam a coisas mais densas, que tocam mais. O portugu\u00eas \u00e9 muito honesto, \u00e9 dif\u00edcil fingir com ele. E na confus\u00e3o de muita influ\u00eancia estrangeira e brasileira, acho que decidimos n\u00e3o conversar sobre influ\u00eancias antes de tocar. Entramos no est\u00fadio despreocupados. Se algu\u00e9m acha que \u00e9 indie, a gente d\u00e1 um sorriso amarelo. Se acharem que parece Los Hermanos, tamb\u00e9m. Nossa inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 misturar m\u00fasica brasileira e gringa. \u00c9 atravessar um pouco essa divis\u00e3o, ou desistir dela. Ultimamente temos ouvido Otto, L\u00f4 Borges, Novos Baianos, Jards Macal\u00e9 e muito Caetano. Sempre. A tend\u00eancia \u00e9 que isso reflita cada vez mais na m\u00fasica tamb\u00e9m, como tem acontecido com as m\u00fasicas novas. Mas jamais com aquela vis\u00e3o: &#8220;temos que ficar mais brasileiros&#8221;. J\u00e1 somos bastante, mesmo ouvindo Blur, Magnetic Fields, Faust ou Fela Kuti.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6564 aligncenter\" title=\"watson2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/watson2.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O lance da ang\u00fastia, sofrimento e claustrofobia presente em toda essa atmosfera urbana que t\u00eam o disco de voc\u00eas, me lembrou Otto em alguns momentos.<\/strong><br \/>\nO disco novo dele \u00e9 incr\u00edvel, uma porrada mesmo. Acho que tem em comum at\u00e9 um certo lance kafkiano, n\u00e9? Brincando aqui, se a inspira\u00e7\u00e3o dele foi \u201cA Metamorfose\u201d, a nossa foi \u201cO Processo\u201d. O Otto consegue fazer voc\u00ea chorar com peso, te jogando a coisa na cara, ele alterna o visceral e o suave sem voc\u00ea nem perceber. O nosso \u00e9 um pouco mais distante, \u00e9 uma claustrofobia com mais palavras, com afirma\u00e7\u00f5es mais longas. \u00c9 uma claustrofobia bem Bras\u00edlia, porque vem muito da vida burocr\u00e1tica, desse dia a dia repetitivo e tedioso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bras\u00edlia \u00e9 presen\u00e7a constante nas m\u00fasicas, certo?<\/strong><br \/>\nBras\u00edlia \u00e9 um laborat\u00f3rio social e nosso disco tem muito de querer entender esse laborat\u00f3rio. Voc\u00ea olha ao redor e tudo parece mecanicamente ajustado. Claro, isso no plano piloto. Sobra a rodovi\u00e1ria e o setor comercial como lugares mais din\u00e2micos, mais reais. Mas na ess\u00eancia, \u00e9 a cidade mais ajustada para a rotina que h\u00e1. Lembro que eu li o livro do Ricardo Alexandre, &#8220;Dias de Luta&#8221;, onde algum entrevistado falava da diferen\u00e7a entre a cena paulista e brasiliense dos anos 80, que o pessoal daqui n\u00e3o era muito punk na pr\u00e1tica, porque sabia se comunicar tanto com o porteiro do pr\u00e9dio como com o ministro da justi\u00e7a, ou algo assim. \u00c9 uma cidade onde voc\u00ea \u00e9 amigo do cara que assinou a pris\u00e3o do Arruda no STJ e ele te conta isso bebendo horrores contigo numa festinha de casa. Aqui o poder cria uma rotina muito est\u00e1vel, onde o escapismo \u00e9 a marca. O disco tem muita Bras\u00edlia mesmo, mas menos preocupado em falar dela como &#8220;capital do pa\u00eds&#8221;. Os anos 80 assumiram essa miss\u00e3o e tiveram sua import\u00e2ncia. Os anos 90 mandaram essa miss\u00e3o \u00e0 merda e, claro, tamb\u00e9m foram importantes. O que a gente queria era lembrar que existem pessoas e sentimentos reais dentro dessa roda de hamster que \u00e9 Bras\u00edlia, que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma cidade inventada, mas uma cidade ocupada, amada e odiada. Uma cidade como pano de fundo para as nossas vidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E a cena da cidade hoje? O que vale a pena ouvir por a\u00ed?<\/strong><br \/>\nTem muita coisa boa. Lembro de ter tido vontade de formar uma banda, aos 16 anos, quando vi um show do Prot(o), que para mim foi um marco. Eu achava que em Bras\u00edlia, ou voc\u00ea era sens\u00edvel e gostava de Legi\u00e3o, ou voc\u00ea era p\u00e9 na porta e ouvia Raimundos e Little Quail. E o Prot(o) n\u00e3o era nem sens\u00edvel, nem p\u00e9 na porta, era algo no meio, era novo. Aquilo mexeu comigo. Hoje curtimos muito Pedrinho Grana &amp; os Trocados, que \u00e9 um country rock inusitado e inteligente. O Club Sil\u00eancio \u00e9 outra banda maneira, mais eletr\u00f4nica e sombria, com origens de Jesus and Mary Chain e My Bloddy Valentine, que torna o som deles muito autoral. Tem a Nancy, que \u00e9 j\u00e1 mais Portishead, Post-Rock. E a Camila, vocalista, \u00e9 brilhante. Tem o Pierrot Lunar, que \u00e9 uma banda que quase nunca toca, mas tem um disquinho chamado &#8220;Disco Perdido&#8221; que \u00e9 o Fellini com cara de Bras\u00edlia e eles est\u00e3o para lan\u00e7ar um novo. Tem o Beto S\u00f3, que \u00e9 um poeta certeiro. O Tiro Williams \u00e9 uma \u00f3tima banda, faz um rock de guitarra bem ensolarado e pra cima, \u00e9 algo que faltava desde o fim do Bois de Geri\u00e3o, que mesmo tendo origens na cena ska da virada da d\u00e9cada, era acima de tudo uma banda de rock com um astral gigantesco. Os shows eram divertidos demais&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No que essa gera\u00e7\u00e3o se difere da gera\u00e7\u00e3o dos anos 80?<\/strong><br \/>\nA diferen\u00e7a \u00e9 absurda. \u00c9 louco, \u00e9 muito diferente dar uma forma para a sua banda quando o cen\u00e1rio n\u00e3o aponta uma possibilidade t\u00e3o clara de viver de m\u00fasica como antes. Ningu\u00e9m espera nada de uma banda hoje em dia, ent\u00e3o as bandas fazem o caminho delas. Eu nunca vi tanta banda diferente como nessa cidade. E acho isso a nossa cara, a nossa confus\u00e3o criativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi ter \u201cEu quero Envelhecer\u201d escolhida como uma das dez melhores can\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria do rock brasiliense?<\/strong><br \/>\nFoi maneira essa lembran\u00e7a, as pessoas escolhidas tinham que citar tr\u00eas m\u00fasicas em ordem de import\u00e2ncia e acabamos entrando na lista. Eu tinha 16 anos quando compus, tinha acabado de assistir &#8220;Hist\u00f3ria Real&#8221; (The Straight Story) do David Lynch, aquele do velhinho que atravessa dois estados com um cortador de grama para ver o irm\u00e3o com c\u00e2ncer. E eu estava naquelas de paix\u00e3o adolescente, sofrendo horrores. A letra saiu sem muito l\u00e1pis, muitos versos eu cantei antes de escrever, como &#8220;merda nenhuma salva&#8221;. At\u00e9 hoje \u00e9 a preferida de muita gente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #888888;\">E a experi\u00eancia de compor a trilha do filme \u201cRua dos Bobos\u201d?<\/span><\/strong><br \/>\nDemais. O filme &#8220;Rua dos Bobos&#8221; \u00e9 da minha irm\u00e3, Julia. \u00c9 sobre uma mo\u00e7a que procura um apartamento dos sonhos, cansada de morar num lugar sinistro e escuro. Ela encontra aquilo que sempre quis na tal \u201crua dos bobos\u201d, mas descobre que para chegar l\u00e1 precisa primeiro se perder pela cidade. E quanto mais ela conhece os caminhos, mais dif\u00edcil vai ficando achar a rua. A Julia queria m\u00fasicas de v\u00e1rios tipos, rock\u00e3o de abertura, pianinho para uma sequ\u00eancia, um funk meio Isaac Hayes para outra, uma balada no final. E acabou sendo muito divertido. Escrever as letras foi bem dif\u00edcil, voc\u00ea fica com medo de dar sentido demais ao filme. Mas deu certo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No CD, voc\u00eas trabalharam com o Thomas e com o Gustavo Dreher&#8230;<\/strong><br \/>\nFoi nossa melhor decis\u00e3o. O Gustavo j\u00e1 era nosso amigo, tinha masterizado nosso EP de 2007, &#8220;Lei da Seca&#8221;. Eu e o Filipe est\u00e1vamos em Sampa gravando umas m\u00fasicas e ele apareceu no nosso estudiozinho (que, na verdade, era um apartamento de 20 m2), ent\u00e3o come\u00e7amos a conversar. Comentamos do v\u00eddeo do Thomas explicando as grava\u00e7\u00f5es do J\u00fapiter Ma\u00e7\u00e3 e o Gustavo sugeriu de eles produzirem nosso disco no mesmo est\u00fadio. O J\u00fapiter, o Plato Divorak, o primeiro disco da Cachorro Grande s\u00e3o refer\u00eancias pra gente e tudo \u00e9 produ\u00e7\u00e3o deles. Quer\u00edamos poder fazer um disco com liberdade criativa e sons mais antigos e tinha tudo a ver com o est\u00fadio Dreher. Ficamos em Porto Alegre uns 15 dias, dormindo na casa do pai do Fernando Rosa, num frio da porra. Mas \u00e9 muito legal voc\u00ea juntar a banda toda pra gravar de uma vez. A conviv\u00eancia di\u00e1ria ajuda demais na hora de criar climas para gravar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Me pareceu um disco com uma narrativa linear, mesmo assim est\u00e1 longe de ser algo preso a apenas um conceito. Era essa a id\u00e9ia central?<\/strong><\/span><br \/>\nNo in\u00edcio chega a ser uma certa cr\u00f4nica. Come\u00e7a com o fim do expediente em &#8220;Asa Belhas&#8221;, a festinha porrada em &#8220;Quitinete&#8221; e a desilus\u00e3o da ressaca em &#8220;Not\u00edcia do Dia Tr\u00eas&#8221;. &#8220;Agora que Sem Ela&#8221; \u00e9 a desilus\u00e3o amorosa, a letra \u00e9 arrogante, quase metida, mas a melodia e harmonia s\u00e3o depressivas. J\u00e1 \u201cDarwinismo\u201d \u00e9 o exato contr\u00e1rio: \u00e9 uma letra de perdedor, de derrotado, mas com um lado mais pop na melodia e no arranjo. E ela abre caminho para &#8220;Todo Mundinho Tem Seu Fim&#8221;, que \u00e9 uma esp\u00e9cie de retorno da esperan\u00e7a, o fim das desilus\u00f5es, ou das ilus\u00f5es de uma rotina que vem sendo narrada desde o in\u00edcio. Depois brincamos que come\u00e7a o \u201cLado B\u201d, onde cansamos da linearidade da narrativa e alternamos baladas com rock\u00f5es de uma forma quase despretensiosa, para lembrar tamb\u00e9m que um disco n\u00e3o precisa ser t\u00e3o linear, ele pode se revoltar com ele mesmo e cansar do conceito. Conceito demais \u00e9 um saco . Se um dia lan\u00e7armos em vinil, acho que isso vai ficar mais claro, esse lance do Lado A \/ Lado B que tem no disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual \u00e9 a de \u201cTodo Mundinho Tem Seu Fim\u201d? Rola at\u00e9 o trocadilho infame com \u201cTodo Carnaval Tem Seu Fim\u201d.<\/strong><br \/>\n(Risos) Pois \u00e9. Algu\u00e9m veio com essa outro dia, perguntando se tinha algo a ver e eu nem tinha me dado conta quando dei o nome. Depois de um show nosso em Palmas esse ano, um fot\u00f3grafo confundiu ela com uma outra m\u00fasica nova que ainda n\u00e3o tinha nome e sugeriu cham\u00e1-la de &#8220;Vitrine do Botic\u00e1rio&#8221;, o que fazia todo sentido. No fundo, \u00e9 uma m\u00fasica sobre o excesso das lojas de cadeia, sobre televis\u00e3o, sobre a exig\u00eancia do politicamente correto. \u00c9 uma constata\u00e7\u00e3o de que as ruas principais de v\u00e1rias cidades do mundo seguem certa l\u00f3gica, com uma cont\u00ednua repeti\u00e7\u00e3o de marcas que escurecem aquilo que uma cidade tem de verdadeiro, de pulsante. Acho que o mundo ainda paga um pre\u00e7o cultural com esse culto materialista. A id\u00e9ia \u00e9 de que o &#8220;mundinho&#8221; \u00e9 tudo aquilo que pode ser comprado e trocado, tudo aquilo que tem mais &#8220;pre\u00e7o&#8221; e menos &#8220;valor&#8221;. O dif\u00edcil na vida maluca do s\u00e9culo XXI n\u00e3o \u00e9 o lado econ\u00f4mico das nossas rela\u00e7\u00f5es, mas justamente como o nosso excesso de consumo n\u00e3o ensina a gente viver melhor. Acho que uma inspira\u00e7\u00e3o muito forte pra mim foi a Barra da Tijuca, principalmente a mini Est\u00e1tua da Liberdade que rola na frente de um Shopping. Monumentos do dinheiro e a futilidade deles&#8230; E a esperan\u00e7a, mesmo sutil, que resta por tr\u00e1s de tudo isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cBolero\u201d \u00e9 a can\u00e7\u00e3o que mais me pareceu fora do lugar.<\/strong><br \/>\nEu a escrevi com 18 anos, para minha namorada na \u00e9poca. A gente era muito novo, mas vivia intensamente juntos&#8230; A tia dela tinha um apartamento e uma casa mais afastada e sempre nos fins de semana fic\u00e1vamos com o apartamento s\u00f3 para n\u00f3s. Nasceu uma rela\u00e7\u00e3o muito pura daquilo, a gente n\u00e3o se desgrudava, n\u00e3o tinha vontade. \u00c9 uma m\u00fasica sobre duas pessoas que se amam e, por isso mesmo, se sentem satisfeitas em se desligarem do mundo l\u00e1 fora. O nome &#8220;Bolero&#8221; foi dado de uma forma bem boba, est\u00e1vamos fazendo um set list e algu\u00e9m falou &#8220;e a\u00ed, qual vai ser o nome do boler\u00e3o?&#8221;. Depois fui descobrir uma m\u00fasica do Picassos Falsos que tamb\u00e9m se chamava &#8220;Bolero&#8221; e que tamb\u00e9m n\u00e3o tinha nada a ver com o estilo. Depois descobrimos que bolero tamb\u00e9m \u00e9 um casaquinho feminino e a figura do &#8220;agasalho&#8221; fez todo o sentido para a letra, mas foi pura coincid\u00eancia. Acho que at\u00e9 hoje, \u00e9 uma das m\u00fasicas mais fortes que eu fiz, porque ela n\u00e3o tem nenhuma finalidade, ela s\u00f3 quer descrever um sentimento real entre duas pessoas. N\u00e3o fiz para conquistar mulher, e tampouco para reclamar de algu\u00e9m que partiu. \u00c9 s\u00f3 a descri\u00e7\u00e3o de uma tarde maravilhosa de sexo, cigarros e reciprocidade, um daqueles momentos que voc\u00ea fala: &#8220;beleza, n\u00e3o quero mais nada&#8221;. E eu j\u00e1 ouvi de dois melhores amigos que essa m\u00fasica \u00e9 trilha da amizade deles, ent\u00e3o vai al\u00e9m do sexo, \u00e9 s\u00f3 o estado de esp\u00edrito de estar do lado de quem te entende.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E \u201cEmitivi Apresenta\u201d? \u00c9 um recado para algu\u00e9m?<\/strong><br \/>\n\u201cEmitivi Apresenta\u201d tem de ser vista dentro do contexto. A gente arrepia quando algu\u00e9m fala da banda e da m\u00fasica, como se fossemos banda de protesto. Eu a compus ardendo em febre, sozinho num apartamento. E na verdade eu estava frustrado com uma garota que tinha me largado pra morar em S\u00e3o Paulo, para tentar trabalhar com m\u00fasica. S\u00e3o Paulo, no imagin\u00e1rio do rock brasileiro, \u00e0s vezes funciona como uma Mecca, um lugar onde voc\u00ea vai para se &#8220;converter&#8221; definitivamente a esse tipo de vida. Ent\u00e3o, a frustra\u00e7\u00e3o era pessoal, mas eu amarrei ela com as frustra\u00e7\u00f5es de muitas pessoas com a ind\u00fastria musical no Brasil. Eu tamb\u00e9m estava ouvindo muito rock dos anos 80 e fiquei pensando &#8220;porra, porque ningu\u00e9m mais manda tudo isso \u00e0 merda numa m\u00fasica, como a Plebe Rude fez em &#8216;Minha Renda&#8217;?&#8221;. E pronto, mandei tudo \u00e0 merda naquele momento. Enquanto eu fui escrevendo, comecei a perceber que as minhas figuras giravam mais ao redor do Projac, da cultura global, do Faust\u00e3o. N\u00e3o chegavam a ter rela\u00e7\u00e3o com a MTV. A\u00ed vem a piada do nome, que \u00e9 tratar a sigla MTV como se fosse um nome ind\u00edgena (risos). \u00c9 a id\u00e9ia de que algumas bandas e artistas acabam deixando a m\u00fasica em segundo plano e passam mais tempo articulando contatos, procurando se aproximar de gente consagrada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que \u00e9 \u201clutar pelo rock\u201d? Hoje, quem luta por ele?<\/strong><br \/>\n&#8220;Lutar pelo rock&#8221; pode ser visto como uma certa bandeira do independente. E de fato na \u00e9poca eu tava muito envolvido com esse tipo de id\u00e9ia. Mas hoje, olhando pra tr\u00e1s, &#8220;lutar pelo rock&#8221; \u00e9 lutar por algum tipo de honestidade art\u00edstica que o rock, tanto gringo quanto brasileiro, tem nas suas origens. Foi a minha forma revoltada e infantil de dizer: &#8220;olha, se for pra ficar fazendo m\u00fasica para dar certo a qualquer custo, prefiro ser funcion\u00e1rio p\u00fablico&#8221;. E espero que isso nunca mude na nossa postura enquanto banda. Queremos fazer mais e melhores m\u00fasicas, pelo simples fato de que somos apaixonados pela coisa. O resto, &#8220;poder, sorriso, fama&#8221;, \u00e9 s\u00f3 o resto. \u00c9 secund\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-6565 aligncenter\" title=\"watson3\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/watson3.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/watson3.jpg 600w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/watson3-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.bandawatson.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>http:\/\/www.bandawatson.com.br\/<\/strong><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">*****<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">&#8211; Murilo Basso (<a href=\"http:\/\/twitter.com\/murilo_basso\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@murilo_basso<\/a>) \u00e9 colaborador do Scream &amp; Yell, Urbanaque e Rolling Stone<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Murilo Basso\nO vocalista Miguel Martins fala de Bras\u00edlia, influ\u00eancias e todo o processo de concep\u00e7\u00e3o do mais novo trabalho do grupo&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/11\/29\/watson\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":121,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1156],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6562"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/121"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6562"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6562\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73651,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6562\/revisions\/73651"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6562"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6562"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6562"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}