{"id":65290,"date":"2022-04-01T15:41:22","date_gmt":"2022-04-01T18:41:22","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=65290"},"modified":"2022-05-12T18:06:01","modified_gmt":"2022-05-12T21:06:01","slug":"literatura-os-anos-de-annie-ernaux-e-um-livro-brilhante-que-beira-o-inclassificavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/04\/01\/literatura-os-anos-de-annie-ernaux-e-um-livro-brilhante-que-beira-o-inclassificavel\/","title":{"rendered":"Literatura: \u201cOs anos\u201d, de Annie Ernaux, \u00e9 um livro brilhante que beira o inclassific\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tgpgabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Gabriel Pinheiro<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Annie Ernaux prop\u00f5e algo novo em \u201c<a href=\"https:\/\/www.fosforoeditora.com.br\/catalogo\/os-anos-annie-ernaux\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Os anos<\/a>\u201d (\u201cLes Ann\u00e9es\u201d, 2008). Para escrever esta sua \u201cautobiografia impessoal\u201d, ela aposta numa criativa e surpreendente voz narrativa que mergulha a sua hist\u00f3ria pessoal no fluxo cont\u00ednuo e veloz da Hist\u00f3ria, aquela com \u201cH\u201d mai\u00fasculo. Com tradu\u00e7\u00e3o de Mar\u00edlia Garcia, o livro, talvez a obra m\u00e1xima da autora francesa, foi lan\u00e7ado por aqui em 2021 pela <a href=\"https:\/\/www.fosforoeditora.com.br\/catalogo\/os-anos-annie-ernaux\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">F\u00f3sforo Editora<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTodas as imagens v\u00e3o desaparecer\u201d diz Annie Ernaux logo na primeira frase do livro. Seguimos, a partir da\u00ed, uma sucess\u00e3o de imagens tanto de um mundo quanto de um indiv\u00edduo em transforma\u00e7\u00e3o ao longo dos anos. De sua inf\u00e2ncia, no p\u00f3s-Guerra, at\u00e9 a velhice, Annie cobre seis d\u00e9cadas de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, de seu pa\u00eds e do mundo. Neste roteiro, ela cria retratos de f\u00f4lego das diferentes gera\u00e7\u00f5es que foram se substituindo ao longo do tempo: onde estava e como agia cada gera\u00e7\u00e3o frente \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es locais e globais que testemunharam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na inf\u00e2ncia, na Fran\u00e7a ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, os encontros familiares eram pautados pelo passado. A fome, o medo, a doen\u00e7a e a morte eram trazidos \u00e0 mesa pelo discurso dos mais velhos. \u201cEles nunca se cansavam de contar daquele inverno de 1942, glacial, a fome e o nabo (&#8230;) as v\u00edtimas vasculhando os escombros \u00e0 procura de suas fotografias e de seu dinheiro\u201d. Se n\u00e3o viveu aquele per\u00edodo sombrio da Europa, \u201ca mem\u00f3ria dos outros fazia com que tamb\u00e9m fiz\u00e9ssemos parte do mundo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos s\u00e3o os conflitos que se seguem, ent\u00e3o, na narrativa de \u201cOs anos\u201d. A guerra da Arg\u00e9lia, \u201cuma terra queimada de sol e sangue\u201d; maio de 1968 na Fran\u00e7a, \u201celes se vingavam por n\u00f3s de toda a conten\u00e7\u00e3o da nossa adolesc\u00eancia\u201d; ou a guerra norte-americana ao terror p\u00f3s-11\/09, \u201cn\u00e3o pod\u00edamos mais dormir, era preciso ficar alerta at\u00e9 o fim dos tempos\u201d. A hist\u00f3ria da humanidade no s\u00e9culo XX e in\u00edcio do s\u00e9culo XXI parece alternar entre ciclos de revolta e conflitos, seguidos por per\u00edodos de euforia e liberdade, aos quais se segue uma sensa\u00e7\u00e3o de apatia e descontentamento. Um ciclo que se repete.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fio narrativo de Ernaux tem como pontos que norteiam sua mem\u00f3ria uma s\u00e9rie de fotografias que a autora observa e descreve para os leitores. A primeira delas \u00e9 uma foto s\u00e9pia de um beb\u00ea gorducho fazendo beicinho. Datada, provavelmente, de 1941, \u201c\u00e9 imposs\u00edvel ler outra coisa al\u00e9m do ritual pequeno burgu\u00eas de encenar a chegada ao mundo\u201d. Na \u00faltima, uma mulher de certa idade est\u00e1 em uma grande poltrona abra\u00e7ando uma menina sentada sobre seus joelhos. A data: 25 de dezembro de 2006. Annie Ernaux mergulha em seu arquivo de registros \u00edntimos, familiares, de afeto e seleciona uma s\u00e9rie de imagens seguindo o tempo cronol\u00f3gico. Se n\u00e3o vemos estas fotografias, que n\u00e3o s\u00e3o impressas no livro, as constru\u00edmos de maneira v\u00edvida, atrav\u00e9s da descri\u00e7\u00e3o detalhada da autora. Al\u00e9m disso, reconhecemos nossos pr\u00f3prios costumes e de nossos antepassados naqueles registros familiares &#8211; gestos e poses compartilhados na mem\u00f3ria coletiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Grande parte do livro \u00e9 narrado na primeira pessoa do plural. Annie Ernaux constr\u00f3i um narrador que \u00e9 coletivo, que \u00e9 \u201cn\u00f3s\u201d. Sob seu olhar, que se insere na a\u00e7\u00e3o, observamos transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, sociais, culturais, religiosas, sexuais, tecnol\u00f3gicas e de costumes na Fran\u00e7a e no mundo ao longo de d\u00e9cadas. Mas, ao dizer de suas fotografias pessoais, a voz narrativa muda para a terceira pessoa do singular. At\u00e9 os \u00faltimos momentos do livro, a crian\u00e7a, a adolescente e a mulher que Annie Ernaux descreve nas fotografias que observa nunca \u00e9 \u201ceu\u201d, mas sempre \u201cela\u201d: \u201cO uso do \u2018ela\u2019 na escrita vai corresponder, em espelho, ao car\u00e1ter fugidio das fotos, nas quais ela \u00e9 \u2018constantemente outra\u2019\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cOs anos\u201d \u00e9 um livro que beira o inclassific\u00e1vel. Caminha entre o ensaio, a autobiografia, a sociologia e o di\u00e1rio, para inventar uma nova maneira de contar. Daqueles trabalhos que, com poucas p\u00e1ginas (224), sabemos ter em m\u00e3os algo especial e singular. Uma ode \u00e0 mem\u00f3ria e ao tempo: este que atravessamos e, sobretudo, nos atravessa de maneira irremedi\u00e1vel. Cabe \u00e0 Annie Ernaux \u201csalvar alguma coisa deste tempo no qual nunca mais estaremos\u201d. Brilhante.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Annie Ernaux on The Years\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/rnqAgmhxHBs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Gabriel Pinheiro \u00e9 jornalista. Escreve sobre suas leituras tamb\u00e9m no Instagram:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tgpgabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@tgpgabriel<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Annie Ernaux prop\u00f5e algo novo em \u201cOs anos\u201d (\u201cLes Ann\u00e9es\u201d, 2008). 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