{"id":65190,"date":"2022-03-29T01:22:29","date_gmt":"2022-03-29T04:22:29","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=65190"},"modified":"2022-05-02T02:09:10","modified_gmt":"2022-05-02T05:09:10","slug":"entrevista-eric-assmar-fala-sobre-home-seu-album-mais-comprometido-com-o-blues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/03\/29\/entrevista-eric-assmar-fala-sobre-home-seu-album-mais-comprometido-com-o-blues\/","title":{"rendered":"Entrevista: Eric Assmar fala sobre &#8220;Home&#8221;, seu \u00e1lbum mais comprometido com o blues"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma das faixas de \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/65rkCJoW22HFcm58yUNNc2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Home<\/a>\u201d, seu terceiro disco, <a href=\"http:\/\/www.ericassmar.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Eric Assmar<\/a> canta &#8220;n\u00e3o posso cantar como um homem negro dos Estados Unidos. Este n\u00e3o \u00e9 o meu lugar. Tenho apenas a minha hist\u00f3ria para contar. \u00c9 somente o meu blues. Fa\u00e7o apenas o meu pr\u00f3prio caminho&#8221;. A m\u00fasica chama-se \u201cIt&#8217;s Only My Blues\u201d, e define com precis\u00e3o os passos trilhados pelo artista de 33 anos que anda por essa estrada musical desde a adolesc\u00eancia. O trecho descrito elabora uma reflex\u00e3o direta sobre as escolhas do ex\u00edmio guitarrista em sua pr\u00f3pria carreira. Distante de qualquer deslumbramento com a fama, o percept\u00edvel foco de Eric em rela\u00e7\u00e3o ao fazer musical, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma carreira, \u00e9 direto: a busca por algo que o permita viver de sua pr\u00f3pria arte, mas, tamb\u00e9m, focado em uma elabora\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e respeitosa diante de um estilo musical que possui ra\u00edzes culturais seculares e profundas. Acompanhar essa trajet\u00f3ria se torna um esmero diante da percep\u00e7\u00e3o de estarmos diante de algo especial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pouco mais de cinco anos separa a chegada de \u201cHome\u201d do seu predecessor, o solar \u201cMorning\u201d (2016). De l\u00e1 para c\u00e1 muitas curvas sinuosas, muitos percal\u00e7os e perdas. Imposs\u00edvel n\u00e3o citar o s\u00fabito falecimento de seu pai, o pioneiro mestre baiano do blues, o guitarrista \u00c1lvaro Assmar, que nos deixou em dezembro de 2017. Tamb\u00e9m n\u00e3o d\u00e1 para n\u00e3o citar o processo cir\u00fargico enfrentado por Eric em 2018, quando teve que se submeter a uma interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica para sanar um problema em suas cordas vocais. Precisou ficar sem cantar por tr\u00eas meses e sem falar qualquer palavra por quase um m\u00eas. Nessa fase, perdeu 13kg, e foi quando mergulhou profundamente na introspec\u00e7\u00e3o diante da perda recente do pai. Recuperado, trouxe o foco para a continuidade de seu legado, tanto como guitarrista quanto como radialista, apresentando o programa de r\u00e1dio Educadora Blues, que, em breve, completa 20 anos no ar. Um ano depois daquela fase, em 2019, lan\u00e7ou \u201cFamily &amp; Friends\u201d, disco que \u00c1lvaro havia deixado quase pronto. Da homenagem ao saudoso guitarrista, Eric arrega\u00e7ou as mangas e passou a trabalhar na cria\u00e7\u00e3o de \u201cHome\u201d, primeiro disco sem \u00c1lvaro como produtor, e, como o pr\u00f3prio Eric definiu, o mais comprometido com o blues entre seus trabalhos. Al\u00e9m disso, \u00e9 o disco com uma maior entrega pessoal e autobiogr\u00e1fica em suas letras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentre as letras que seguem por esse vi\u00e9s mais pessoal, \u201cI&#8217;m Still Working\u201d descreve essa fase de recupera\u00e7\u00e3o. &#8220;\u00c9 uma m\u00fasica bem autobiogr\u00e1fica. Eu passei por algumas reviravoltas na vida nesses \u00faltimos anos&#8221;, relembra Eric. &#8220;Nesse per\u00edodo, eu estive sempre envolvido com alguma coisa que me mantinha trabalhando, coisas nas quais acredito e que fazem sentido para minha alma. Essa m\u00fasica \u00e9 um desabafo, na verdade. Talvez seja a m\u00fasica mais confessional do \u00e1lbum todo. Ela \u00e9 um blues porque tinha que ser um blues. Uma coisa que, para dizer, eu precisava ser sincero com a forma de express\u00e3o mais natural que eu tenho fazendo m\u00fasica: tocando um blues&#8221;, pontua o guitarrista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra das faixas confessionais do disco \u00e9 \u201cCan You Hear Me\u201d, uma daquelas m\u00fasicas cuja percep\u00e7\u00e3o de se tratar de extravasar a dor cativa o ouvinte. &#8220;Foi uma m\u00fasica que surgiu em uma madrugada dessas. Uma can\u00e7\u00e3o ac\u00fastica, a primeira can\u00e7\u00e3o que escrevi na pandemia, j\u00e1 quando come\u00e7ou. E era uma can\u00e7\u00e3o diretamente confessional e de saudade de meu pai. Que escrevi para ele, mesmo. Ela foi escrita com viol\u00f5es que toquei e gravei aqui no meu home studio. Me imaginando conversar com ele. Pensando na saudade que tenho de conversar com meu pai. E, sobretudo, aqueles momentos que voc\u00ea quer compartilhar, tipo: eu queria que ele estivesse aqui agora para eu contar tudo o que aconteceu desde que ele n\u00e3o mais estava, entendeu? Saber como ele reagiria aos acontecimentos, vendo tudo o que aconteceu, vendo tudo que est\u00e1 rolando comigo, com a vida, com o mundo, enfim&#8230; Muita coisa para contar&#8221;, descreve Eric com pesar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cHome\u201d \u00e9, tamb\u00e9m, um disco no qual Eric Assmar vai al\u00e9m do power trio, cujo nome definia o conjunto musical composto com o baterista Thiago Brand\u00e3o e o baixista Rafael Zumaeta. &#8220;O primeiro disco, \u2018Eric Assmar Trio\u2019 (2012), e o \u2018Morning\u2019 (2016), s\u00e3o \u00e1lbuns que surgiram de um trio em um est\u00fadio tocando. Essas m\u00fasicas surgiram, eu ia compondo, gravando, mas a gente ia maturando os arranjos de maneira coletiva no est\u00fadio. Ent\u00e3o, o conceito Eric Assmar Trio fazia sentido para aquele contexto. Agora, o \u2018Home\u2019 n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 um disco que surgiu em um contexto mais solid\u00e1rio em termos de ideias e concep\u00e7\u00e3o de arranjos, como havia mais elementos. No \u2018Morning\u2019 j\u00e1 havia um pouco disso, com viol\u00f5es em algumas faixas. Mas no \u2018Home\u2019 tem essas camadas de viol\u00f5es em v\u00e1rias faixas. E \u00e9 um disco que incorporo mais o \u00f3rg\u00e3o Hammond, al\u00e9m de mais vozes,&#8221; explica o guitarrista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentre os nomes que Eric trouxe para o \u201cHome\u201d, os organistas Luciano Le\u00e3es, Jelber Oliveira (que tamb\u00e9m participa ao piano) e Andr\u00e9 T (tamb\u00e9m respons\u00e1vel pela mixagem e masteriza\u00e7\u00e3o) deixam suas marcas de qualidade em faixas como \u201cClose to Me\u201d, cuja pegada reggae junto ao Hammond tocado por Le\u00e3es cativa. Do mesmo modo, a entrada de Jelber Oliveira com o Hammond em \u201cI&#8217;m Still Working\u201d traz a lembran\u00e7a da inser\u00e7\u00e3o de Boom Gaspar ao Pearl Jam de modo t\u00e3o acachapante quanto. J\u00e1 Andr\u00e9 T traz tanto para a faixa t\u00edtulo, a singela \u201cHome\u201d, quanto para a clamante por socorro \u201cBad Dream\u201d, uma participa\u00e7\u00e3o mais discreta, mas bem percept\u00edvel em seu somar necess\u00e1rio \u00e0s guitarras de Eric. Dividindo com Thiago Brand\u00e3o, parceiro de baquetas que acompanha Eric h\u00e1 longa data, o baterista Victor Brasil deixa sua marca positiva nesse disco t\u00e3o agregador que, claro, traz Rafael &#8220;Zuma&#8221; Zumaeta no contrabaixo como aquele que o pr\u00f3prio Eric define como pilar de sustenta\u00e7\u00e3o para a banda. &#8220;Zuma \u00e9 meu fiel parceiro e que est\u00e1 sempre comigo. De fato, ele \u00e9 um &#8216;ch\u00e3o&#8217;. \u00c9 o m\u00fasico com quem eu h\u00e1 mais tempo toco. E \u00e9 um cara com quem eu tenho uma identifica\u00e7\u00e3o surreal por conta dessa solidez de conv\u00edvio que criamos&#8221;, salienta Eric.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre a letra que abre esse texto introdut\u00f3rio, na qual Eric aborda a ideia de seguir a pr\u00f3pria estrada n\u00e3o se considerando um bluesman, uma vez que esse status pertence aos guitarristas negros cujas trajet\u00f3rias de vida nos racistas Estados Unidos transparece de maneira pulsante em seus trabalhos, o guitarrista soteropolitano, cujas pesquisas de mestrado e de doutorado tiveram o blues como objeto de estudo, explica: &#8220;S\u00e3o reflex\u00f5es que sempre venho tendo e que, nesse per\u00edodo, se maximizaram. Qual o meu lugar como m\u00fasico de blues aqui no Brasil? Ser\u00e1 que \u00e9 a mesma coisa, ser\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 uma outra coisa, ou ser\u00e1 ainda que n\u00e3o \u00e9 muito mais legitimo eu assumir ser quem sou, escrever m\u00fasicas, contar a minha hist\u00f3ria, sendo do jeito que eu sou, vindo do lugar de onde venho, sem querer cal\u00e7ar sapatos que n\u00e3o s\u00e3o os meus? Sem viver aquele fetiche de querer ser um m\u00fasico nascido no Texas, na d\u00e9cada de 1950, ou o cara que veio de uma fam\u00edlia de pessoas que foram escravizadas, querendo vestir a capa de um hist\u00f3rico de dor e sofrimento racial sem ter vivido. Ou seja, superficializar um hist\u00f3rico de luta? N\u00e3o vou fazer isso. N\u00e3o \u00e9 humanamente decente na minha vis\u00e3o de vida eu querer vestir uma capa de bluesman. N\u00e3o sou bluesman. Bluesman \u00e9 o Robert Finley. Bluesman foi o Robert Johnson, Muddy Waters, BB King, Albert King. Esses caras s\u00e3o bluesman&#8221;, finaliza Eric.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Arrisco dizer que esses mesmos caras teriam orgulho de v\u00ea-lo levar \u00e0 frente, aqui na minha maltratada e amada Salvador, o legado da m\u00fasica deles, caro Eric. Vida longa ao blues! \u00c1lvaro sorri em algum lugar. Neste papo com o Scream &amp; Yell, Eric Assmar aprofunda o processo de cria\u00e7\u00e3o de \u201cHome\u201d, bem como fala do per\u00edodo posterior \u00e0 perda de \u00c1lvaro Assmar, identidade blues em Salvador e no Brasil, e de como os \u00faltimos seis anos desde \u201cMorning\u201d mudaram seu modo de encarar a vida. Confira!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Home\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/YDGR_WKa1wg?list=OLAK5uy_nRRPLvlMUBIefThCFcAtoit_ahJE7UrL8\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/09\/06\/entrevista-eric-assmar-trio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Conversamos h\u00e1 quase seis anos, em 2016<\/a>, sobre seu ent\u00e3o lan\u00e7amento, \u201cMorning\u201d.\u00a0 Como \u00e9 que aquele Eric Assmar de meia d\u00e9cada atr\u00e1s , com o ac\u00famulo de traumas, de perdas, de dores, mas tamb\u00e9m de realiza\u00e7\u00f5es, alegrias e planos concretizados, est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o ao Eric Assmar de 2022?<\/strong><br \/>\n\u00d3timo insight. Aquele Eric de 2016, como voc\u00ea bem colocou, naquela \u00e9poca tinha outras coisas em pauta. Eu tinha 28 anos. Estava em plena ebuli\u00e7\u00e3o de agenda, aquela coisa toda de correria. Aquele rush todo. Meu pai estava aqui ainda. Eu estava trabalhando muito com ele naquela \u00e9poca, tamb\u00e9m. N\u00f3s est\u00e1vamos fazendo shows regularmente. Era a \u00e9poca em que ele estava promovendo o \u00e1lbum \u201cThe Old Road\u201d, que tinha sido lan\u00e7ado em 2014. Ent\u00e3o, circulamos bastante. Lembro que viajamos muito nessa \u00e9poca de 2015 e 2016. Eu diria que, de l\u00e1 para c\u00e1, e eu at\u00e9 falo isso no teaser, muitas transforma\u00e7\u00f5es aconteceram. A coisa mais marcante nesse processo todo de transforma\u00e7\u00f5es, sem d\u00favida, foi o falecimento de meu pai. Principalmente da forma como foi, s\u00fabita e precoce, que pegou a todos n\u00f3s de surpresa. E isso deu uma chacoalhada na minha maneira de perceber o mundo e a minha exist\u00eancia. Perceber as coisas ao meu redor, de um modo geral. O que aconteceu foi que precisei assumir mais responsabilidades com essa quest\u00e3o da mem\u00f3ria dele, da continuidade de alguns planos que estavam em andamento. Como foi um falecimento s\u00fabito, coisas ficaram pelo caminho, como, por exemplo, o disco \u201cFamily &amp; Friends\u201d e o programa Educadora Blues. Al\u00e9m de alguns planos mais urgentes dele \u00e0quela \u00e9poca, como eram os shows de comemora\u00e7\u00e3o dos 60 anos, que ele faria em mar\u00e7o de 2018. Me coloquei na posi\u00e7\u00e3o de concretizar esses planos. Foi uma necessidade espiritual. Uma coisa que, para mim, ficou muito clara desde o in\u00edcio: preciso fazer isso! \u00c9 a maneira que tenho como me aproximar do meu pai, fazer alguma coisa em gratid\u00e3o a tudo que ele fez por mim ao longo da vida, da exist\u00eancia, sendo o pai que ele foi. E, claro, uma coisa que entendo que seja uma urg\u00eancia no sentido art\u00edstico. Um cara que tem o papel que ele tem no cen\u00e1rio do blues nacional com planos inacabados? N\u00e3o d\u00e1 para ficar assim. Precisa concretizar isso. Precisa vir a p\u00fablico. As pessoas precisam ter acesso a esse \u00faltimo material que ele vinha produzindo. \u00c9 uma coisa que tem uma relev\u00e2ncia art\u00edstica grande. Ent\u00e3o, minha cabe\u00e7a se voltou muito para essa coisa do concretizar os planos dele que foram interrompidos. O ano de 2018 foi um ano de mergulhar fundo nisso. Naquele per\u00edodo, perdi 13kg. Eu tinha uma les\u00e3o vocal que j\u00e1 vinha tratando desde antes. Ela piorou muito com essa quest\u00e3o emocional. Acabou que se tornou um caso de interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica. Precisei ir a S\u00e3o Paulo para fazer uma opera\u00e7\u00e3o em abril de 2018. Fiquei tr\u00eas meses sem poder cantar. Fiquei quase um m\u00eas sem poder falar uma palavra, mudo por quase um m\u00eas. Foi um per\u00edodo de muita introspec\u00e7\u00e3o. Um per\u00edodo de eu mudar completamente o meu estilo de vida, desde a minha alimenta\u00e7\u00e3o at\u00e9 os meus h\u00e1bitos. Me tornei um cara muito mais caseiro, mais reservado. Com essa quest\u00e3o toda, a gente fica um pouco mexido. No meu caso, quando tudo isso aconteceu eu fiquei um pouco&#8230; (pausa) n\u00e3o diria com uma fobia social, assim, mas uma necessidade de ficar mais quieto comigo mesmo. No meu canto, com as minhas pessoas. Estreitar minha rela\u00e7\u00e3o com a minha fam\u00edlia, com a minha companheira, com os meus amigos mais pr\u00f3ximos. Foi um per\u00edodo de me voltar muito para isso. E, naturalmente, a cabe\u00e7a da gente muda, n\u00e9, Jo\u00e3o?! Coisas que faziam sentido em 2016, 2017 j\u00e1 n\u00e3o fazem mais. Aquela coisa de farra. Eu era um cara muito festeiro. N\u00e3o s\u00f3 tamb\u00e9m de tocar, mas de estar sempre ali celebrando, aquela coisa toda. Fiquei um cara um pouco mais bicho do mato nesse sentido. Acho que isso mudou. Mas o que permaneceu foi a paix\u00e3o visceral que sempre tive pela m\u00fasica. Em 2016 j\u00e1 rolava e, em 2018, acho que amplificou pela saudade de meu pai. E por essa paix\u00e3o pela m\u00fasica ser o fio de aproxima\u00e7\u00e3o, o meu fio condutor para com a mem\u00f3ria dele. A minha forma de me conectar com a saudade de meu pai, de me lembrar dele, era estreitar essa rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica. Com isso veio o Educadora Blues, veio a produ\u00e7\u00e3o. O que falo no teaser, inclusive, \u00e9 que o \u00e1lbum \u201cHome\u201d tem uma caracter\u00edstica mais blueseira do que os anteriores e que isso foi uma consequ\u00eancia natural de todo esse processo. Estreitei a minha rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica e, sobretudo, com o blues. Nunca ouvi tanto blues na minha vida quanto de 2018 para c\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cI&#8217;m Still Working\u201d \u00e9 uma faixa que fala de sua vida pregressa \u00e0 pandemia, e a letra traz muito disso que voc\u00ea acaba de dizer sobre continuar seguindo em frente. Tendo essa faixa como um s\u00edmbolo do per\u00edodo, bem como o \u201cHome\u201d como um \u00e1lbum gravado durante o confinamento, como se deu esse processo de cria\u00e7\u00e3o do disco?<\/strong><br \/>\nNa verdade, a ideia de \u201cI&#8217;m Still Working\u201d surgiu antes da pandemia. Foi uma coisa que pintou na minha cabe\u00e7a nessa virada de 2019 para 2020. Eu olhando em retrospecto e pensando: &#8220;caramba, aconteceu isso tudo e eu continuo aqui, trabalhando&#8221;. A coisa que me manteve de p\u00e9 foi a possibilidade de ter o que eu fa\u00e7o como meu trabalho. Uma coisa que \u00e9 muito mais do que um trabalho, muito mais do que um meio de sobreviv\u00eancia. Para mim, \u00e9 uma raz\u00e3o de exist\u00eancia. Fazer m\u00fasica \u00e9 tudo que tenho. Sem isso, eu n\u00e3o veria sentido na minha exist\u00eancia. Sendo bem sincero. Mas, assim, claro que com a pandemia veio aquela coisa toda. Para todo mundo por raz\u00f5es individuais e tamb\u00e9m por raz\u00f5es coletivas. Deu uma chacoalhada assim geral na no\u00e7\u00e3o de que as pessoas tinham da vida em comunidade, da vida em sociedade, e, tamb\u00e9m, da fragilidade das coisas. O quanto somos impotentes perante os acontecimentos de \u00e2mbito global que afetam, mesmo. E n\u00e3o h\u00e1 o que voc\u00ea possa fazer. Em um instante, tudo passa a ser secund\u00e1rio. \u00c9 um neg\u00f3cio bem doido. Um neg\u00f3cio que bagun\u00e7ou com a cabe\u00e7a de todo mundo. E os danos est\u00e3o a\u00ed. Desde as mais de 600 mil vidas perdidas, at\u00e9 as pessoas que sobreviveram \u00e0 doen\u00e7a, mas est\u00e3o com sequelas f\u00edsicas, at\u00e9 pessoas que perderam seus empregos, pessoas que perderam suas possibilidades de sobreviver. Aqui no Brasil, a quest\u00e3o da fome, que \u00e9 um neg\u00f3cio bizarro. Estamos vendo como a fome aumentou aqui no Brasil, como que a mis\u00e9ria, o desemprego, tudo isso cresceu em um passo galopante e assustador. E fora a quest\u00e3o, tamb\u00e9m, falando desse \u00e2mbito mais pessoal, da sa\u00fade mental das pessoas. Isso foi algo que custou para muitas pessoas. Foi um neg\u00f3cio bem triste. Ent\u00e3o, s\u00f3 estamos falando de coisas ruins. Pandemia s\u00f3 trouxe desgra\u00e7a. S\u00f3 trouxe trag\u00e9dias. Muitas. Sucessivas. E olhar tamb\u00e9m para isso e perceber que eu fui e sou um cara de muita sorte por ter conseguido continuar trabalhando por outras vias. Tamb\u00e9m sou professor de guitarra, tamb\u00e9m trabalho com grava\u00e7\u00f5es em est\u00fadio. Trabalho com transmiss\u00f5es on line, shows on line, esse tipo de coisas. A minha maneira de me manter trabalhando foi poss\u00edvel gra\u00e7as a esse suporte on line. Gra\u00e7as, tamb\u00e9m, a pessoas que confiaram a mim essa responsabilidade, no caso de alunos, no caso de contratantes de shows on line, no caso de contratantes de grava\u00e7\u00f5es de voz, de guitarra, de viol\u00f5es, etc. Produ\u00e7\u00f5es dos programas para a r\u00e1dio Educadora FM. Olhar para tr\u00e1s e perceber que pude continuar trabalhando, &#8220;I&#8217;m Still Working&#8221;, continuo trabalhando, mesmo depois de tudo que aconteceu, continuo vivo, com sa\u00fade, n\u00e3o peguei Covid, n\u00e3o tive perrengues relacionados a isso com a minha sa\u00fade. Claro que perdemos entes queridos, pessoas pr\u00f3ximas, todo mundo perdeu alguma pessoa mais ou menos pr\u00f3xima. Uma coisa dessa de atingir tanta gente, acho que ningu\u00e9m saiu 100%. \u00c9 dif\u00edcil encontrar algu\u00e9m que n\u00e3o tenha conhecido uma pessoa que n\u00e3o tenha morrido de Covid. Mas, no meu caso, \u00e9 de se olhar para a pr\u00f3pria realidade e ter a consci\u00eancia de um pr\u00f3prio privil\u00e9gio. Sou um cara privilegiad\u00edssimo. Sobre o aspecto social, tenho uma condi\u00e7\u00e3o de ter uma vida muito digna fazendo o que fa\u00e7o. Ent\u00e3o, acho que olhando para isso que aconteceu depois da ideia inicial de \u201cI&#8217;m Still Working\u201d, ela s\u00f3 ganha novas camadas. E, claro, como toda obra art\u00edstica \u00e9 poliss\u00eamica, a gente joga no mundo. Claro que estou falando sobre a minha vis\u00e3o para fazer aquela cria\u00e7\u00e3o. Vou achar o maior barato se outras pessoas ouvirem e re-elaborarem aquilo de uma outra forma \u00e0 luz das suas pr\u00f3prias hist\u00f3rias de vida, das suas pr\u00f3prias percep\u00e7\u00f5es. Acho que isso s\u00f3 engrandece qualquer cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica. \u00c9 um barato voc\u00ea poder fazer com que a obra seja viva, seja din\u00e2mica. Fazer com que ao longo do tempo ela v\u00e1 ganhando novos significados de acordo com quem ouve. Cada tempo em que aquilo \u00e9 ouvido, cada contexto. Ela est\u00e1 no mundo. \u00c9 isso a\u00ed.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Eric Assmar - I&#039;m Still Working (Lyric Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/G0yCrkAOrp0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 a express\u00e3o \u201cI&#8217;m Still Working\u201d tamb\u00e9m no sentido de estar funcionando, que, no seu caso, reflete sua fase p\u00f3s cirurgia nas cordas vocais, al\u00e9m da ideia de seguir em frente fazendo blues no Brasil. O momento da letra que diz: &#8220;They told me I should Quit&#8221; me faz pensar naquela ideia j\u00e1 discutida na nossa outra entrevista sobre a luta por ainda conseguir se fazer blues no Brasil e, mais especificamente, na Bahia.<\/strong><br \/>\nSim, verdade. \u201cWorking\u201d vai bem al\u00e9m. \u201cWorking\u201d \u00e9 &#8220;eu continuo funcionando&#8221;. 13kg a menos, sem voz, bem magrinho, mas ainda consigo carregar uma guitarra e fazer minimamente ali, com toda mod\u00e9stia, o que consigo fazer. Ent\u00e3o, o p\u00e1ra-choque caiu, o pneu est\u00e1 furado, mas o carro continua andando. O motor est\u00e1 l\u00e1. Fora a quest\u00e3o afetiva, tamb\u00e9m. Da dor da perda de meu pai, aquela coisa toda. Ent\u00e3o, acho que vai muito nesse sentido e o &#8220;&#8230;they told me I should quit&#8221;, a terceira pessoa do plural a quem me refiro na letra, na verdade, \u00e9 uma coisa simb\u00f3lica. Esses &#8220;eles&#8221;, na verdade, s\u00e3o os acasos, s\u00e3o as pe\u00e7as que a vida vai pregando na gente ao longo do caminho. N\u00e3o \u00e9 nada dirigido a pessoa B ou C, nem nenhuma indireta, nem nenhuma atribui\u00e7\u00e3o de culpa ou rancor de pessoas B ou C. Nada disso. N\u00e3o tenho inimigos. Mas ficamos impotentes diante do que a vida vai desenhando para a gente. O que foi a pandemia sen\u00e3o uma grande cat\u00e1strofe que simplesmente caiu no nosso colo sem que a gente pudesse intervir? Essas coisas v\u00e3o aparecendo, elas v\u00e3o tentando, mas a gente precisa ter jogo de cintura e for\u00e7a de vontade para ir driblando e tra\u00e7ando nosso percurso. Ent\u00e3o, \u00e9 sobre isso que a letra fala. N\u00e3o me referi especificamente a essa coisa de fazer blues aqui na Bahia ou no Brasil, porque, assim, isso \u00e9 uma outra queixa muito comum. Estou sempre em contato com pessoas que fazem blues nas mais variadas partes do Brasil. Acho que posso falar talvez em um \u00e2mbito mais nacional, digamos assim, do que exclusivamente na cidade de Salvador. At\u00e9 porque a cena musical esteve parada por muito tempo. Mesmo com esse fluxo de retomada, ainda n\u00e3o est\u00e1 com a liberdade total que t\u00ednhamos antes da pandemia. Ent\u00e3o, em um \u00e2mbito nacional, vejo as pessoas reclamando que o blues n\u00e3o \u00e9 um g\u00eanero muito abra\u00e7ado no Brasil, n\u00e3o \u00e9 fomentado pelo poder p\u00fablico, pelas esferas que poderiam exercer esse fomento de uma maneira mais determinante para que chegue a mais pessoas, para que os artistas consigam subs\u00eddios de realizar suas iniciativas, sejam grava\u00e7\u00f5es, festivais, etc. Mas acho que se fizermos um retrospecto de uns 15, 10 anos para c\u00e1, o blues no Brasil cresceu muito, tanto em termos de adeptos e interpretes, artistas jovens, quanto em n\u00famero de festivais e n\u00famero lan\u00e7amentos. Isso acompanhou, tamb\u00e9m, o crescimento da facilidade de se produzir m\u00fasicas e de se difundir m\u00fasicas com as plataformas digitais, mas que, tamb\u00e9m, exercem uma a\u00e7\u00e3o completamente predat\u00f3ria e desigual com os artistas. \u00c9 uma falsa democracia, uma coisa muito mais ben\u00e9fica para o usu\u00e1rio do que para o artista, de uma maneira bem desproporcional. Mas por outro lado, \u00e9 mais f\u00e1cil para as pessoas de partes diversas ouvirem a sua m\u00fasica de uma maneira mais instant\u00e2nea. Isso sem entrar no m\u00e9rito da divulga\u00e7\u00e3o, da difus\u00e3o, dos algoritmos, que por outro lado invisibilizam uma parte monstruosa dessa produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea. Mas, se \u00e9 para falar de quantidade, acho que nunca houve tantas pessoas fazendo blues no Brasil como h\u00e1 hoje. E nunca esse panorama foi t\u00e3o diverso, sob o ponto de vista geogr\u00e1fico, com pessoas de estados variados do Brasil, como tamb\u00e9m do ponto de vista de g\u00eanero. Nunca vi tantas mulheres fazendo blues como tem agora. E acho que tamb\u00e9m talvez por conta do panorama racial, com pessoas negras fazendo blues. Embora seja uma m\u00fasica de origem negra, aqui no pa\u00eds acaba n\u00e3o tendo essa representa\u00e7\u00e3o por uma quest\u00e3o, eu diria, relacionada aos percursos pelos quais o blues chegou ao Brasil, muito articulado com essa cultura urbana do rock, uma coisa que talvez tenha tido uma ades\u00e3o mais intensa por parte de uma classe m\u00e9dia branca, aquelas quest\u00f5es problem\u00e1ticas que afastam o blues feito aqui do blues l\u00e1 da sua origem, na di\u00e1spora negra africana, a escraviza\u00e7\u00e3o no sul dos Estados Unidos, e aquela coisa toda. No fim das contas, acho que o blues no Brasil, apesar de tudo, vem crescendo. E n\u00e3o sou do time dos que t\u00eam uma queixa, aquela coisa de &#8220;ah, o poder p\u00fablico deveria isso, deveria aquilo&#8221;. Acho que essa batalha n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 do blues. Essa batalha \u00e9 da Cultura de um modo geral. Vivemos em um momento pol\u00edtico catastr\u00f3fico, no qual o Brasil est\u00e1 completamente \u00e0 deriva. Estamos em um momento em que se chegou ao absurdo de voc\u00ea ter que explicar \u00e0s pessoas porque a Cultura \u00e9 importante para a forma\u00e7\u00e3o de um povo. Esse discurso de &#8220;ah, ladr\u00f5es da lei Rouanet, etc e tal&#8221;, essa coisa abjeta que a gente v\u00ea na pol\u00edtica, sobretudo no governo federal. Isso \u00e9 terr\u00edvel! Mas vai chegar a hora em que vamos nos livrar disso. E s\u00f3 para n\u00e3o dizer que o problema \u00e9 s\u00f3 esse, acho que todas esfera p\u00fablicas, em \u00e2mbito municipal e estadual, t\u00eam d\u00edvidas com a diversidade cultural e com um maior fomento das produ\u00e7\u00f5es. E o blues \u00e9 apenas um dos que resistem apesar dessas lacunas, apesar dessa falta de fomento. Ent\u00e3o, se querem interpretar dessa forma, acho super pertinente. Os artistas continuam funcionando. \u201cThey&#8217;re still working\u201d, apesar disso tudo. Apesar deles. \u201cApesar de voc\u00ea\u201d, como diz a can\u00e7\u00e3o de Chico Buarque, \u201camanh\u00e3 h\u00e1 de ser outro dia\u201d. E que bom que a gente consegue fazer, e que, no meu caso, eu tenha meios para fazer isso a partir de pessoas que prestigiam o trabalho que fa\u00e7o. Sou sempre muito grato por isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Faz um eco na minha cabe\u00e7a ouvir a letra da m\u00fasica de \u00c1lvaro, \u201cPra Sempre Em Minha Vida\u201d, quando ele diz que &#8220;se houve pedras no caminho, nenhuma teve 12 compassos&#8221;, e pensar nisso que voc\u00ea falou agora sobre identifica\u00e7\u00e3o com o lugar que se vive e querer atrelar esse local ao seu trabalho, \u00e0 sua arte. Quando lhe perguntei em 2016 sobre isso, voc\u00ea falou sobre essa identifica\u00e7\u00e3o. Penso que a perda de \u00c1lvaro e tudo que aconteceu em sua vida de l\u00e1 para c\u00e1 tenha aprofundado ainda mais essa impress\u00e3o de estar no lugar certo.<\/strong><br \/>\n\u00c9 bem oportuno voc\u00ea ter lembrado desse t\u00f3pico sobre o qual n\u00f3s conversamos l\u00e1 atr\u00e1s, em 2016. Tudo isso acho que ganhou contornos novos ainda mais. Com tudo isso que aconteceu de l\u00e1 pra c\u00e1. Sou um apaixonado pela minha cidade. Gosto de viver em Salvador. Acho que temos coisas muito positivas, uma diversidade musical, um povo incr\u00edvel, um povo hospitaleiro, um povo pelo qual tenho um amor muito grande. Nasci e fui criado aqui. \u00c9 o lugar em que me identifico. Acho que at\u00e9 toda essa minha cria\u00e7\u00e3o, embora eu n\u00e3o fale diretamente, n\u00e3o fa\u00e7a uma ode direta a lugares, n\u00e3o tenha m\u00fasicas que fa\u00e7am essa express\u00e3o em um car\u00e1ter direto, mas tudo isso acho que \u00e9 fruto da minha a\u00e7\u00e3o como sujeito social e naturalmente, como sujeito social que convive com a cidade de Salvador no seu cotidiano. Ent\u00e3o, acho que tudo isso des\u00e1gua na cria\u00e7\u00e3o, des\u00e1gua na pessoa que sou, na maneira como enxergo o mundo. E continuo achando uma grande furada esse neg\u00f3cio de: &#8220;ah, cara, voc\u00ea toca blues. Para sua carreira acontecer, voc\u00ea tem que ir para Los Angeles, voc\u00ea tem que ir para Nova York. Ou, em um \u00e2mbito nacional, voc\u00ea tem que ir para S\u00e3o Paulo&#8221;. E a\u00ed vejo todos os colegas de S\u00e3o Paulo que tenho no blues, e n\u00e3o s\u00e3o poucos, e voc\u00ea conversa com essas pessoas e ouve queixas muito parecidas com as mazelas que a gente v\u00ea no cotidiano do mercado, da ind\u00fastria cultural aqui da cidade de Salvador. Ent\u00e3o, pare e pense: ser\u00e1 que esse problema n\u00e3o \u00e9 pelo fato do blues ser uma m\u00fasica de nicho? Pelo fato dela n\u00e3o ser mainstream e que as pessoas v\u00e3o passar esse perrengue em qualquer lugar do mundo? Pois \u00e9. E venho com outro ponto. Aqui em Salvador, em outros mercados, talvez l\u00e1, sobretudo, em S\u00e3o Paulo, vejo que tem muita gente fazendo. Tem muito artista de blues, blues-rock sobretudo, e, claro, \u00e9 uma cidade que tem uma popula\u00e7\u00e3o muito maior do que a daqui de Salvador. Geograficamente, ela tamb\u00e9m \u00e9 mais ampla. Ent\u00e3o, existe uma oferta de espa\u00e7os muito mais ampla para se ouvir blues. A iniciativa de festivais, por exemplo. S\u00e3o Paulo acaba sendo um polo aglutinador de muitas iniciativas culturais do Brasil, o principal polo da ind\u00fastria cultural brasileira. Isso vale tanto para a m\u00fasica quanto para cinema, para artes pl\u00e1sticas, para as artes de um modo geral. Por raz\u00f5es econ\u00f4micas, de converg\u00eancia, talvez de localiza\u00e7\u00e3o, por estar perto do Rio de Janeiro, Paran\u00e1, Bras\u00edlia, lugares que t\u00eam esse fluxo. e essa coisa tamb\u00e9m de destinos que s\u00e3o mais comuns para voos que v\u00eam do exterior. Ent\u00e3o, acabam sendo portas de entrada e de sa\u00edda para o exterior mais vi\u00e1veis, com mais ofertas, e, por sua vez, menos custosas para quem viaja com frequ\u00eancia. Mas isso, na era da internet, acho que voc\u00ea consegue estreitar essas rela\u00e7\u00f5es. E se o papo \u00e9 circular com sua m\u00fasica, voc\u00ea consegue plenamente ir e voltar. Fazer shows em SP, fazer turn\u00eas e se articular para poder fazer isso. Acho que vai muito da disposi\u00e7\u00e3o de cada pessoa. E no fim das contas, velho, voc\u00ea \u00e9 livre para escolher viver no lugar onde for bom para voc\u00ea. Se voc\u00ea me diz que o lugar onde voc\u00ea quer viver \u00e9 Igatu, na Chapada Diamantina, hipoteticamente, se faz bem para voc\u00ea estar l\u00e1, por que n\u00e3o estar l\u00e1? A vida \u00e9 uma s\u00f3. A vida passa muito r\u00e1pido. E quando falo que novas camadas entraram na minha cabe\u00e7a e na minha maneira de enxergar isso de 2016 para c\u00e1, me refiro ao fato de que a perda de meu pai me fez enxergar essa coisa de uma outra maneira. Eu queria ter envelhecido mais ao lado dele. Eu queria ter visto meu pai envelhecer. Eu queria ter podido acompanh\u00e1-lo por mais anos. Estar com ele at\u00e9 um momento da vida mais avan\u00e7ado. Ele era um cara com muita vontade de viver. Ele queria ter vivido mais. Eu sei que ele queria ter vivido mais. \u201cHe was not ready to die\u201d, como a pr\u00f3pria m\u00fasica que ele comp\u00f4s diz. Aquela premoni\u00e7\u00e3o macabra que est\u00e1 no disco \u201cFamily &amp; Friends\u201d. Ent\u00e3o, olho para isso tudo e vejo o quanto que quero estar perto da minha m\u00e3e, o quanto quero poder v\u00ea-la viver mais anos. Quanto que quero poder estar mais perto do meu irm\u00e3o, dos meus tios, dos meus sogros, das pessoas que est\u00e3o ali pr\u00f3ximas do meu ciclo social e afetivo. Ent\u00e3o, acho que n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel voc\u00ea trabalhar muito bem no lugar onde voc\u00ea vive, no meu caso em Salvador, sendo um lugar onde tenho uma inser\u00e7\u00e3o, uma respeitabilidade do p\u00fablico local fazendo o que fa\u00e7o. Sou, em uma propor\u00e7\u00e3o muito pequena, um cara reconhecido por fazer o que fa\u00e7o, refer\u00eancia para as pessoas daqui por fazer o que fa\u00e7o. Nesse mercado do blues e do rock aqui em Salvador, as pessoas me t\u00eam como uma refer\u00eancia de credibilidade. Isso \u00e9 uma coisa que vem como fruto, e acho que \u00e9 natural do fato de eu j\u00e1 trabalhar com isso h\u00e1 tantos anos. Apesar de eu ter 33 anos, j\u00e1 trabalho com m\u00fasica desde o in\u00edcio da minha adolesc\u00eancia. Sem parar, o tempo todo. E trabalhando s\u00f3 com isso. Nunca tive plano b. Nunca fui m\u00fasico nas horas vagas. Nunca existiu isso na minha vida. Eu sempre fui s\u00f3 m\u00fasico. Full time. Essa sempre foi a minha obsess\u00e3o de vida. Ent\u00e3o, consigo trabalhar muito bem daqui. E aqui eu estou ao lado das pessoas que amo. E a vida \u00e9 uma s\u00f3, cara, e passa muito r\u00e1pido. Essa coisa de: &#8220;ah, vou me mudar para ficar longe&#8230;&#8221; N\u00e3o vou ficar, tamb\u00e9m, for\u00e7ando as pessoas. For\u00e7ando a barra para que a minha r\u00e9gua, a minha maneira de perceber a realidade, seja um padr\u00e3o para todo mundo. Isso \u00e9 muito da busca pessoal, \u00e9 muito do que est\u00e1 na perspectiva, nos valores, e na experi\u00eancia de vida de cada um. As minhas viv\u00eancias me fazem querer estar aqui. Na minha percep\u00e7\u00e3o de mundo, Eric sendo quem Eric \u00e9, isso \u00e9 uma coisa estritamente pessoal, me faz querer estar aqui. Mas n\u00e3o julgo o m\u00fasico que quer ir para fora, o m\u00fasico que n\u00e3o consegue se inserir em uma cena de uma determinada cidade, e opta por se mudar e acaba encontrando melhores oportunidades, isso acontece. Sou, sim, um cara de sorte por poder trabalhar super bem aqui. Mas nem todo mundo que trabalha com arte consegue essa mesma sorte. Nem todo mundo consegue se sentir inserido em um lugar. O cara pode nascer em uma cidade e querer se mudar para viver em outra cidade. Acho super legitimo. E, cara, voc\u00ea \u00e9 livre para fazer o que voc\u00ea bem entender. A vida \u00e9 uma s\u00f3 e temos mais \u00e9 que ser feliz e buscar fazer aquilo em que a gente acredita.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-65197\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Eric-Assmar-Divulgacao-V-por-Uanderson-Brittes.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"647\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Eric-Assmar-Divulgacao-V-por-Uanderson-Brittes.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Eric-Assmar-Divulgacao-V-por-Uanderson-Brittes-300x259.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fazer aquilo no que acreditamos e colocarmos a humildade como algo sempre em mente nesses caminhos. Ouvir \u201cA Simple Man\u201d me fez pensar nisso. Lembrei, tamb\u00e9m, daquela can\u00e7\u00e3o do Lynyrd Skynyrd, \u201cSimple Man\u201d, quando eles cantam &#8220;mamma told me to be simple&#8221;.<\/strong><br \/>\nSeu link foi super oportuno com \u201cSimple Man\u201d. No caso, eu coloquei \u201cA Simple Man\u201d. O &#8220;A&#8221; \u00e9 um artigo indefinido. Um cara simples. Um homem simples. Isso foi mais uma forma de eu me colocar como: &#8220;sou gente que nem voc\u00ea&#8221;, sabe? Uma pessoa como qualquer outra. Uma pessoa simples. Mais do que um &#8220;The&#8221; Simple Man. o &#8220;The&#8221; d\u00e1 uma ideia muito de singularidade. Nesse caso, eu quis dar uma ideia de que poderia ser uma pessoa como qualquer outra. A m\u00fasica do Lynyrd \u00e9 \u201cSimple Man\u201d, sem artigo no in\u00edcio. Tem essa diferencia\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m. Uma forma de eu diferenciar, porque \u00e9 um super sucesso dentro do universo do blues, do rock e do southern rock pelo qual o Lynyrd e os Allman Brothers s\u00e3o reconhecidos. Mas tem a ver. Ela n\u00e3o foi uma inspira\u00e7\u00e3o direta, n\u00e3o, mas tem conex\u00f5es. E essa m\u00fasica escrevi pensando nessa quest\u00e3o pessoal. Sou um cara de um contexto social que vem de uma classe m\u00e9dia alta. Tocando nesses tipos de ambiente, voc\u00ea acaba convivendo com muitas pessoas desse nicho. E voc\u00ea sendo m\u00fasico atuante, come\u00e7a a perceber algumas nuances. Isso \u00e9 um olhar muito meu. Algo bem pessoal. N\u00e3o estou dizendo que \u00e9 uma verdade absoluta e indiscut\u00edvel. Tanto que isso n\u00e3o existe. Mas \u00e9 uma cr\u00edtica, uma insatisfa\u00e7\u00e3o minha com um mundo de ac\u00famulo de bens materiais, vamos dizer assim. Essa coisa que a gente v\u00ea muito propagada em redes sociais, essa coisa de influenciadores. Essa ideia de lifestyle, pessoas que cultuam essa coisa do estilo de vida de ter milh\u00f5es de patroc\u00ednios para usufruir de viagens, hot\u00e9is, coisas car\u00edssimas, luxuosas, carr\u00e3o, vinhos caros, um super apartamento, uma cobertura na praia, coisas desse tipo. Claro que estou falando de uma maneira bem gen\u00e9rica. Mas \u00e9 uma cr\u00edtica minha, um pensamento meu, decorrente de eu ver esse mundo, e do que vejo nesse nicho social em que vivo. Nesses ambientes, vejo que as pessoas se apegam muito nesse tipo de coisa, vivem uma vida para trabalhar pura e simplesmente para acumular dinheiro para comprar bens materiais X e Y, para poder minimamente chegar a uma coisa que eles entendem como um ideal de vida, e, no fim das contas, n\u00e3o \u00e9 isso. Como \u00e9 que voc\u00ea explica milion\u00e1rios como Paul McCartney, Eric Clapton, Sting, ainda hoje dia, fazerem turn\u00ea, fazerem shows, lan\u00e7arem discos, gravarem, compor? Voc\u00ea acha que esses caras precisam de dinheiro? Claro que e n\u00e3o precisam! Por que eles fazem isso? Na minha vis\u00e3o \u00e9 porque m\u00fasica \u00e9 simplesmente uma necessidade vital para eles. S\u00e3o caras que se tornaram refer\u00eancias porque amam profundamente o que fazem. E acho que s\u00e3o inspira\u00e7\u00f5es para n\u00f3s por causa disso. O &#8220;veinho&#8221; Macca \u00e9 inspirador. Um cara que nos ensina muito. Nos ensina que, no fim das contas, n\u00e3o precisam esbanjar. Volta e meia voc\u00ea v\u00ea nos tabloides not\u00edcias de Paul no metr\u00f4 de Londres, caminhando na rua. Um cara que tem um patrim\u00f4nio bilion\u00e1rio. Chega a um ponto que, acredito eu, nada disso deve fazer mais sentido. O que Paul McCartney pode querer de bem material que ele ainda n\u00e3o tem? Acredito que o que deve estar na cabe\u00e7a dele \u00e9 querer experi\u00eancias. Ele quer can\u00e7\u00f5es novas, ele quer viver, conhecer pessoas. Ent\u00e3o, no fim das contas, o dinheiro existe para lhe dar tranquilidade de voc\u00ea viver nesse sistema capitalista que a gente vive, pagando suas contas, tendo o m\u00ednimo de conforto para fazer suas escolhas e viver sob seus termos. Isso \u00e9 legal para caramba. N\u00e3o vou ser hip\u00f3crita e dizer que isso n\u00e3o tem import\u00e2ncia, porque tem, sim! Mas, como digo na letra da m\u00fasica, &#8220;money can fool you and drive you mad&#8221; Dinheiro pode te confundir e te enlouquecer. &#8220;Don\u00b4t forget what your old man said&#8221; Esse &#8220;old man&#8221; \u00e9 uma refer\u00eancia ao meu \u201cold man\u201d, ao \u00c1lvaro Assmar. Um cara com quem aprendi que voc\u00ea, no fim das contas, vive para buscar experi\u00eancias, para fazer sua m\u00fasica. Voc\u00ea n\u00e3o vive para acumular bens materiais. \u201cSimple Man\u201d \u00e9 uma grande cr\u00edtica minha a essa engrenagem. Sou eu meio que chacoalhando o ouvinte e dizendo: &#8220;voc\u00ea veio ao mundo a passeio? Pense realmente sobre o que vale a pena. Vale a pena voc\u00ea entregar sua vida a um emprego em que voc\u00ea odeia simplesmente estar trabalhando naquilo, pura e simplesmente porque voc\u00ea quer acumular riqueza? Voc\u00ea quer ter um carr\u00e3o, um apartamento luxuoso, voc\u00ea quer todo ano fazer cinco mil viagens?&#8221; Sei l\u00e1, cara. \u00c9 um neg\u00f3cio&#8230; (pausa) Nem todo mundo tem o direito, tem o privil\u00e9gio de poder escolher com o que vai trabalhar. A gente sabe disso. Mas, nesse nicho, sobretudo ao qual me refiro, aquela classe m\u00e9dia querendo ascender para serem ricos. Aquela coisa toda que a gente v\u00ea por a\u00ed, de pessoas com preconceito com as artes, nesse nicho \u00e9 super comum as pessoas com aquele estere\u00f3tipo do filho que a mam\u00e3e e o papai incentivaram para que ele fosse um estudante de Medicina, de Direito, porque s\u00e3o cursos que v\u00e3o conduzi-los a uma profiss\u00e3o que, com um diploma, ele vai conseguir ser algu\u00e9m na vida. E o cara \u00e9 um m\u00e9dico ou um advogado superfrustado. Porque, na verdade, ele era um puta escritor e poderia ter trabalhado com isso. Soterrou seu plano porque resolveu comprar essa promessa de outras pessoas. Ent\u00e3o, \u00e9 uma cr\u00edtica minha a isso tudo. Claro que (uma cr\u00edtica) do meu lugar. Falando dos meus valores. N\u00e3o quero dizer que isso \u00e9 absoluto, mas convido os ouvintes a pensarem sobre isso. Ser\u00e1 que voc\u00ea veio ao mundo a passeio? Pense a respeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cChildhood Days\u201d traz muito de uma entrega pessoal sua na letra, evidenciando a ideia do \u201cHome\u201d ser o seu disco mais autobiogr\u00e1fico. Nela voc\u00ea refer\u00eancia, inclusive, o m\u00eas de setembro como algo simb\u00f3lico. Qual significado?<\/strong><br \/>\n\u201cChildhood Days\u201d \u00e9 um nome que j\u00e1 diz o que a can\u00e7\u00e3o fala. \u00c9 muito autobiogr\u00e1fica. \u00c9 o \u00e1lbum mais autobiogr\u00e1fico que lancei. Aquele no qual mais divido experi\u00eancias minhas. Falo da minha inf\u00e2ncia, uma coisa que, at\u00e9 ent\u00e3o, acho que n\u00e3o tinha abordado em can\u00e7\u00e3o nenhuma. Falo dessa minha experi\u00eancia da inf\u00e2ncia e do meu ingresso na m\u00fasica. E para mim \u00e9 aquela coisa. O cara que tocava uma guitarra ele era um super-her\u00f3i. Ele era dotado de um superpoder que nenhuma outra pessoa tinha. Para mim era singular. Mais do que Homem-Aranha e Batman, o super-her\u00f3i era o \u00c1lvaro Assmar, era o Hendrix, era o Duane Allman, era o Mario Dannemann, eram tantos os inating\u00edveis, os \u00eddolos de fora, como os caras que eu via aqui em Salvador e que tocavam para caramba na cena do blues dos anos 1990. Foram eles minhas primeiras inspira\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas, al\u00e9m do meu pai. Eram os amigos do meu pai, caras que eu via em situa\u00e7\u00f5es que pensava: &#8220;puxa, isso existe! \u00c9 poss\u00edvel ver um cara fazendo isso na real. O cara aqui na minha frente fazendo&#8221;. Ent\u00e3o, os super-her\u00f3is s\u00e3o estes. E o setembro est\u00e1 l\u00e1 porque foi o m\u00eas em que ganhei a minha primeira guitarra. Dia 03 de setembro de 1998. Foi quando ganhei a minha primeira &#8220;squierzinha&#8221; que est\u00e1 aqui do lado do meu home est\u00fadio. Ela voltou para as m\u00e3os do papai recentemente (risos). Estou com ela aqui e a tenho usado bastante esses tempos. Nunca vou esquecer o fasc\u00ednio que tive naquele dia. A minha alegria. Lembro como se fosse ontem. Lembro super bem. Enfim, &#8220;september brought a reason to believe in dreams and simple heroes, with six strings, instead of wearing capes&#8221;. M\u00eas de setembro trouxe uma raz\u00e3o para acreditar em sonhos e em super-her\u00f3is. Acho que respondi sua pergunta. \u00c9 bem por a\u00ed, de onde vem o meu fasc\u00ednio por guitarras e como isso entrou na minha vida. Falo dos Beatles na can\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m. Eles foram minha primeira grande influ\u00eancia musical da vida. \u201cChildhood Days\u201d, na verdade, sou eu dividindo experi\u00eancias da minha inf\u00e2ncia com as pessoas. Aquelas que me conduziram a ser o m\u00fasico e a pessoa que eu sou hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cIt&#8217;s Only My Blues\u201d me fez pensar naquela quest\u00e3o que hav\u00edamos conversado na entrevista de 2016 acerca da identidade do blues, bem como na ideia de se fazer essa m\u00fasica em um local no qual ela n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o valorizada, isso pensando tanto na Bahia quanto no Brasil como um todo.<\/strong><br \/>\nEssa m\u00fasica, \u201cIt\u00b4s Only My Blues\u201d, surgiu em minha cabe\u00e7a e a\u00ed j\u00e1 \u00e9 um pouco da jun\u00e7\u00e3o do Eric m\u00fasico com o Eric pesquisador. Nesse meio tempo, em meio a essa turbul\u00eancia toda, terminei o curso de doutorado, em 2019. Defendi em 2019, conclui em 2020. Com a pandemia, o diploma, mesmo, s\u00f3 foi sair em 2021. As minhas pesquisas tanto de mestrado quanto de doutorado tratam sobre aspectos da pr\u00e1tica do blues no Brasil, seja um mais voltado para o cen\u00e1rio de Salvador, como \u00e9 o caso da pesquisa do mestrado, que teve um vi\u00e9s etnomusicol\u00f3gico. Ou no caso do doutorado, a pesquisa ligada ao ensino da guitarra blues. Uma coisa conectada diretamente com a Educa\u00e7\u00e3o Musical, mas em cima da guitarra blues no Brasil. Ent\u00e3o, s\u00e3o reflex\u00f5es que sempre venho tendo e que, nesse per\u00edodo, se maximizaram. Qual o meu lugar como m\u00fasico de blues aqui no Brasil? Ser\u00e1 que \u00e9 a mesma coisa, ser\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 uma outra coisa, ou ser\u00e1 ainda que n\u00e3o \u00e9 muito mais legitimo eu assumir ser quem eu sou, eu escrever m\u00fasicas, contar a minha hist\u00f3ria, sendo do jeito que eu sou, vindo do lugar de onde venho, sem querer cal\u00e7ar sapatos que n\u00e3o s\u00e3o os meus? Sem viver aquele fetiche de querer ser um m\u00fasico nascido no Texas, nas d\u00e9cadas de 1950, ou o cara que veio de uma fam\u00edlia de pessoas que foram escravizadas, ou seja, querer vestir a capa de um hist\u00f3rico de dor e sofrimento racial sem ter vivido. Ou seja, superficializar demais um hist\u00f3rico de luta? N\u00e3o vou fazer isso. N\u00e3o \u00e9 humanamente decente na minha vis\u00e3o de vida eu querer vestir uma capa de bluesman. Eu n\u00e3o sou bluesman. bluesman \u00e9 o Robert Finley, que ainda est\u00e1 vivo. Ele \u00e9 filho de meeiros. Foi um cara que viveu o preconceito racial, viveu o trabalho rural, viveu tudo isso. Isso \u00e9 um bluesman. Bluesman foi o Robert Johnson, o Muddy Waters, o BB King, o Albert King. Esses caras s\u00e3o bluesmans. Ent\u00e3o, tudo isso \u00e9 um hist\u00f3rico. Dentro dessa linha temporal do blues, voc\u00ea tem os outros caras que se tornaram grandes artistas de blues, grandes refer\u00eancias, sem terem sido bluesmas. Leia-se: os m\u00fasicos brancos que se interessavam pelo blues. Stevie Ray Vaughan, Joe Bonamassa, Eric Clapton. S\u00e3o caras que s\u00e3o estandartes do blues, grandes refer\u00eancias, nomes important\u00edssimos e fundamentais para a hist\u00f3ria do g\u00eanero. Agora, bluesman? Se entendermos bluesman como um cara que vive o hist\u00f3rico da luta racial, da segrega\u00e7\u00e3o, que viveu a aquele contexto bem excludente, violento e opressor dos Estados Unidos ao longo do s\u00e9culo XX, esses caras (brnacos) n\u00e3o s\u00e3o os verdadeiros bluesmans, s\u00e3o uma outra coisa. S\u00e3o caras que pegaram um momento mais confort\u00e1vel da Hist\u00f3ria, digamos assim. Em que o blues j\u00e1 estava na boca do povo, j\u00e1 estava com um grau de difus\u00e3o maior, em um \u00e2mbito mais global. Mas isso de forma nenhuma desmerece a import\u00e2ncia deles para o g\u00eanero como potenciais difusores. O que o Stevie Ray fez? Ele interpretou can\u00e7\u00f5es de mestres, ajudou a dar visibilidade \u00e0 m\u00fasica do blues em um \u00e2mbito mais de mainstream, com clipes na MTV na d\u00e9cada de 1980, aquela coisa toda, mas o Stevie Ray Vaughan n\u00e3o deixou de contar a hist\u00f3ria dele. Fazia suas m\u00fasicas, contava a sua hist\u00f3ria, um cara do Texas que cresceu em um contexto urbano l\u00e1 de Dallas, que chegou a viajar para Los Angeles. Tinha um irm\u00e3o mais velho que tocava na banda, o Fabulous Thunderbirds, o Jimmie Vaughan. Ent\u00e3o, ele cresceu j\u00e1 nesse contexto da cena urbana do blues do Texas, na segunda metade do s\u00e9culo XX, da d\u00e9cada de 1970 em diante. E, super legitimo, ele se tornou uma lenda. Uma refer\u00eancia. N\u00e3o existe falar do blues contempor\u00e2neo sem falar do impacto do Stevie Ray Vaughan, um cara que mudou a hist\u00f3ria do blues com toda certeza. Quer voc\u00ea goste dele ou n\u00e3o. Tal como Eric Clapton, tamb\u00e9m. Tal como, na minha avalia\u00e7\u00e3o, Joe Bonamassa tem um papel grande porque ele \u00e9 um nome muito conhecido. Um nome que ajuda a formar novos ouvintes de blues hoje em dia. Uma queixa muito comum dos representantes do blues, os artistas negros mais antigos, \u00e9 essa: de que jovens hoje em dia n\u00e3o se interessam. Ent\u00e3o, se voc\u00ea tem pessoas que fazem isso, mesmo que elas n\u00e3o tenham uma representatividade de serem artistas negros, mas isso serve para difundir a obra e \u00e9 feito com respeito a esses antepassados, com reconhecimento que houve uma trajet\u00f3ria e que os protagonistas s\u00e3o essas pessoas negras, de isso \u00e9 feito com esse patamar de respeitabilidade e de humanismo, entendo eu, por que n\u00e3o trabalhar com essa difus\u00e3o e por que n\u00e3o promover esse respeito a essas pessoas e trabalhar com a difus\u00e3o dessa m\u00fasica? \u201cIt&#8217;s Only My Blues\u201d sou eu falando disso. Me interessei por essa m\u00fasica, eu j\u00e1 trabalhava com blues e sequer tinha pisado nos EUA quando comecei a tocar blues. Meu pai tocou blues a vida inteira e nunca chegou a pisar nos Estados Unidos. Um cara branco. Eu sou um cara branco, um cara que vem de uma outra cidade, embora a maior capital negra fora da \u00c1frica seja aqui. Eu venho de um contexto de classe m\u00e9dia. Algu\u00e9m que se interessou por rock. Embora, aqui na Bahia, haja converg\u00eancias na hist\u00f3ria do blues com a hist\u00f3ria da m\u00fasica da di\u00e1spora e da tradi\u00e7\u00e3o do samba de roda, das m\u00fasicas de religiosidade africana, tudo isso s\u00e3o consequ\u00eancias da di\u00e1spora negra na nossa m\u00fasica, que \u00e9 muit\u00edssimo presente. Na nossa cultura como um todo, na nossa culin\u00e1ria, nos costumes, na vestimenta, na nossa religiosidade, tudo isso desemboca aqui na cidade de Salvador de uma maneira muito intensa. Mas o blues e o tock meio que vieram por uma outra via, como uma cultura urbana que veio por interm\u00e9dio de uma m\u00eddia com muitas refer\u00eancias estrangeiras. Crescemos em contato com tudo isso e nos interessamos por essa m\u00fasica. E por que n\u00e3o abra\u00e7ar esse tipo de som para a gente fazer e fazer do nosso jeito? Criar nossas m\u00fasicas, contar nosso pr\u00f3prio discurso, usar isso como uma refer\u00eancia. Claro que articulado com todas as outras refer\u00eancias que voc\u00ea tem na sua vida cotidiana. E \u201cIt&#8217;s Only my Blues\u201d \u00e9 isso. \u201cI&#8217;m just walking in my own shoes\u201d. S\u00f3 estou cal\u00e7ando os sapatos que Eric quer. N\u00e3o tenho nenhuma pretens\u00e3o de advogar um protagonismo que n\u00e3o tenho. N\u00e3o sou uma pessoa negra que passou por essa luta. Sou um cara privilegiado. Algu\u00e9m que est\u00e1 no topo dessa pir\u00e2mide de privil\u00e9gios e tenho consci\u00eancia disso. Mas acho que isso n\u00e3o me impede de contar coisas que acontecem na minha vida, percep\u00e7\u00f5es minhas e que divido essas percep\u00e7\u00f5es com essas pessoas. Acho que essa talvez seja a maneira mais justa que eu tenha de apresentar a minha m\u00fasica para as pessoas e dividir essa minha vis\u00e3o de mundo com elas. Eu acho que \u00e9 isso. \u201cIt&#8217;s Only my Blues\u201d fala disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ao ouvir \u201cCan You Hear Me\u201d, foi inevit\u00e1vel n\u00e3o pensar na faixa \u201cI Miss You Daddy\u201d, do \u201cSpecial Moment\u201d, disco de \u00c1lvaro. Lembro dele falando sobre o processo de composi\u00e7\u00e3o. Sobre como a saudade de seu pai o fez trabalhar nos acordes da faixa instrumental, e como foi dif\u00edcil grav\u00e1-la. Ele tamb\u00e9m disse que n\u00e3o a tocava ao vivo pois n\u00e3o sabia como iria se sentir emocionalmente. Voc\u00ea sentiu algo semelhante em rela\u00e7\u00e3o a \u201cCan You Hear Me\u201d?<\/strong><br \/>\nVoc\u00ea foi cir\u00fargico. Foi exatamente isso. Eu queria fazer uma can\u00e7\u00e3o que seja uma comunica\u00e7\u00e3o minha com ele, tal como ele fez \u201cI Miss You Daddy\u201d para o pai dele. Eu quis deixar o cora\u00e7\u00e3o falar o que ele queria. E a\u00ed eu, logo que come\u00e7ou essa maluquice de pandemia, a reclus\u00e3o e confinamento em mar\u00e7o de 2020, foi uma \u00e9poca em que, como todo mundo, fiquei apreensivo, preocupado, sem trabalho, aquela coisa toda. Preocupado e pensando muito nas coisas. Foi pr\u00f3ximo ao anivers\u00e1rio dele, o que seria o anivers\u00e1rio dele, dia 20 de mar\u00e7o. Naquela semana do anivers\u00e1rio dele, foi uma \u00e9poca na qual eu estava muito pensativo, muito \u00e0 flor da pele, muito emocionado com toda a situa\u00e7\u00e3o que acontecia. Sou um cara da madrugada, um not\u00edvago convicto. Passo muito tempo na madrugada pensando, muitas dessas can\u00e7\u00f5es surgiram nas madrugadas. A minha tese de doutorado e a minha disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, boa parte delas, foi escrita nas madrugadas. \u00c9 um per\u00edodo em que crio, gravo, escrevo, reviso. Assisto s\u00e9ries, leio livros. Fico contemplativo olhando pela janela, pensando na vida. A madrugada \u00e9 um momento que tenho para me desligar do mundo e me conectar comigo. N\u00e3o tem celular tocando, n\u00e3o tem mensagem chegando, n\u00e3o tem e-mail, e posso fazer isso. Me sinto bem para fazer isso. Ent\u00e3o, em uma madrugada dessas, comecei a ter essa conversa mental, espiritual, com meu pai. Peguei o viol\u00e3o e algo foi surgindo dessa inspira\u00e7\u00e3o. \u201cCan You Hear Me\u201d foi uma m\u00fasica que surgiu em uma madrugada dessas. Me imaginando conversar com ele. Pensando na saudade que tenho de conversar com meu pai. E, sobretudo, aqueles momentos que voc\u00ea quer compartilhar, tipo: eu queria que ele estivesse aqui agora para eu contar tudo o que aconteceu desde que ele n\u00e3o mais estava, entendeu? Saber como ele reagiria aos acontecimentos, vendo tudo o que aconteceu, vendo tudo que est\u00e1 rolando comigo, com a vida, com o mundo, enfim&#8230; Muita coisa para contar. Voc\u00ea imagina se ele estivesse aqui agora? N\u00e3o sei quando essa conversa acabaria, porque \u00e9 muito assunto, muita coisa que a gente quer conversar. Ent\u00e3o, \u201cCan You Hear Me\u201d foi eu pensando como seria essa conversa. Ser\u00e1 que ele est\u00e1 me ouvindo, ser\u00e1 que ele est\u00e1 aqui vendo, ser\u00e1 que ele est\u00e1&#8230;(pausa) o que ser\u00e1 que ele est\u00e1 pensando de tudo isso? Foi a minha indaga\u00e7\u00e3o de como que isso est\u00e1 acontecendo. E, ao mesmo tempo, afirmo na m\u00fasica que sinto essa presen\u00e7a dele. \u201cI feel your love, I&#8217;m not alone\u201d. Isso \u00e9 uma coisa que&#8230; (pausa) \u00c9 o meu anjo da guarda, n\u00e9, cara?! \u00c1lvaro Assmar virou o meu anjo da guarda. Virou o cara que est\u00e1 comigo aqui (pausa). Desculpa, fico, \u00e0s vezes, meio fora de tempo quando falo disso. Mas sobre tocar a m\u00fasica ou n\u00e3o, fiz com o mesmo prop\u00f3sito de \u201cI miss you Daddy\u201d, para que seja uma m\u00fasica para estar no lugar dela no disco. N\u00e3o que eu consiga ou que eu n\u00e3o consiga. Ela tem playbacks, gravei alguns viol\u00f5es, algumas vozes, sou eu ali tocando e cantando tudo. Fiz v\u00e1rias camadas minhas ali porque eu queria essa profundidade no arranjo. E \u00e9 uma m\u00fasica que fiz para que ela estivesse l\u00e1. Para que ela pudesse ser ouvida, para que eu pudesse visitar quando sentisse, para quem quiser visitar e sentir esse sentimento e pudesse ver isso. Al\u00e9m de \u201cI Miss You Daddy\u201d, tem outras can\u00e7\u00f5es que falam disso e que t\u00eam sentimentos muito fortes que falam com meu cora\u00e7\u00e3o. Entre elas, uma can\u00e7\u00e3o que meu pai gostava muito. E o meu padrinho, Andr\u00e9 Christovam, tamb\u00e9m ama. Ela se chama \u201cSong for Adam\u201d, can\u00e7\u00e3o de um grande compositor americano chamado Jackson Browne, um cara que fez muito sucesso nos Estado Unidos nos anos 1970. E essa vers\u00e3o que eu estou falando foi gravada por Gregg Allman, dos Allman Brothers, no \u00faltimo disco dele, o \u201cSouthern Blood\u201d, que ele lan\u00e7ou antes de morrer em 2017. Essa \u00e9 a \u00faltima m\u00fasica. Um dueto de Gregg Allman com Jackson Browne. E o Gregg, nessa m\u00fasica, se apropria da tem\u00e1tica da m\u00fasica contando a hist\u00f3ria da perda dele, que foi o irm\u00e3o Duane, que morreu aos 24 anos em 1971. Gregg Allman passou boa parte da sua vida carregando a banda, o legado dos Allman Brothers, por quase 50 anos, sem o seu Allman Brother, sendo o \u00fanico Allman vivo. Imagino o tamanho da dor que deva ter sido, um cara que viveu uma depend\u00eancia qu\u00edmica terr\u00edvel, com v\u00edcio em hero\u00edna, problemas com \u00e1lcool. Eu acho que muito disso se deve \u00e0 dor da aus\u00eancia do irm\u00e3o. Foi um cara que teve uma exist\u00eancia de muito reconhecimento, muita gl\u00f3ria pelo trabalho dele. Criou uma fam\u00edlia bonita. Os filhos dele, o Devon Allman, que \u00e9 um cara presente em redes sociais, sempre demonstra uma gratid\u00e3o pelo pai. Tocaram juntos. Imagino que devam ter vivido uma vida muito feliz juntos. Mas foi uma exist\u00eancia que teve uma cicatriz forte na perda do irm\u00e3o dele. Isso n\u00e3o sai, cara. Um irm\u00e3o que morreu em um acidente de moto aos 24 anos, sendo uma das maiores promessas da guitarra naquela \u00e9poca. Um cara que at\u00e9 hoje \u00e9 um pilar fundamental do blues e do rock. O que ele poderia ter proporcionado ao mundo se tivesse continuado vivo? Ent\u00e3o, s\u00e3o lacunas da exist\u00eancia, e o Gregg falando de um lugar de irm\u00e3o. Ele chora na m\u00fasica. No \u00faltimo verso, ele n\u00e3o consegue cantar, com a voz embargada. \u00c9 um neg\u00f3cio muito emocionante. Aquela m\u00fasica mexeu comigo pra caramba. Sempre que ou\u00e7o, me derruba. \u201cCan You Hear Me\u201d \u00e9 inspirada por isso tudo. Uma comunica\u00e7\u00e3o minha com meu pai e que traz essas inspira\u00e7\u00f5es todas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea citou o Duane Allman, que morreu t\u00e3o precocemente, e eu me lembrei da faixa \u201cAbra\u00e7o\u201d, uma homenagem ao Marcos Arcuri, cantor baiano que nos deixou subitamente em 2020, aos 38 anos. Como foi esse processo de composi\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\n\u201cAbra\u00e7o\u201d veio logo depois do falecimento do Marcos Arcuri, que \u00e9 um grande cantor do cen\u00e1rio do rock aqui de Salvador, um cara que tinha um talento e um&#8230; n\u00e3o gosto de usar essa palavra, mas ele tinha um dom, um presente divino, o cara teve de ter uma voz aben\u00e7oada, de ter uma tessitura vocal, um jeito de cantar que era impressionante. O pessoal que gosta de hard rock, nunca vi um cara cantando daquele jeito aqui em Salvador. Com tanta verdade no que estava fazendo, e ao mesmo tempo tanta t\u00e9cnica apurada. Voc\u00ea via que era uma jun\u00e7\u00e3o de um cara com muito talento; E era um talento trabalhado, atrav\u00e9s de estudo, de t\u00e9cnica. E um cara legal. Um cara super simples, um amigo que fiz nessa caminhada da m\u00fasica e que n\u00e3o tivemos essa oportunidade de estreitar tanto na rela\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era um cara que estava sempre ali comigo, mas sempre que nos encontr\u00e1vamos, era uma festa, uma admira\u00e7\u00e3o m\u00fatua e muito verdadeira. E a \u00faltima vez que o encontrei, foi entre shows. A gente se abra\u00e7ou, &#8220;bora fazer alguma coisa! Bora!&#8221; Aquela coisa de empolga\u00e7\u00e3o no encontro. De repente, o cara morreu em uma circunst\u00e2ncia s\u00fabita, como meu pai, de problemas card\u00edacos. E damos de cara com a imperman\u00eancia da coisa. Com a fugacidade da vida, como foi a do maestro Letieres Leite, tamb\u00e9m uma partida s\u00fabita, uma coisa que pegou a todos de surpresa. O cara vinha desenvolvendo um trabalho de uma contribui\u00e7\u00e3o inestim\u00e1vel. De repente, foi interrompido pelo ciclo da vida. A gente fica se perguntando: &#8220;como assim?&#8221; \u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o que nos deixa inconformado por isso ter acontecido dessa forma. Valeu por meu pai, valeu por Letieres, valeu por Marquinhos Arcuri, E \u201cAbra\u00e7o\u201d \u00e9 uma m\u00fasica que fala desse sentimento. As coisas s\u00e3o impermanentes, mesmo. As coisas v\u00e3o e, no fim das contas, o que fica conosco \u00e9 o que pudemos viver juntos. E o \u201cAbra\u00e7o\u201d simboliza esse afago, simboliza esse sentimento de solidariedade afetiva, vamos dizer assim. A maneira de voc\u00ea lembrar da pessoa, de voc\u00ea lembrar do momento. \u201cAbra\u00e7o\u201d \u00e9 aquele instante do espa\u00e7o e tempo em que voc\u00ea simboliza uma energia positiva com a pessoa, um contato. Lembro do quanto era bom abra\u00e7ar o meu pai. Eu lembro exatamente de como foi a minha despedida de meu pai, dois dias antes dele morrer, a \u00faltima vez que a gente se viu, se abra\u00e7ou, depois de jantar, quando eu estava indo para o aeroporto pegar um voo. Tudo isso fica meio que gravado na mem\u00f3ria da gente. E essa m\u00fasica eu fiz como uma can\u00e7\u00e3o instrumental, uma can\u00e7\u00e3o que tem muita inspira\u00e7\u00e3o de mestres que, com melodias, conseguem dizer coisas que falam com o \u00edntimo da gente. Dentre os quais, as minhas maiores inspira\u00e7\u00f5es tenham sido David Gilmour e George Harrison para essa m\u00fasica. E com o slide eu fui criando. O slide tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de eu me aproximar de meu pai. Ele usava muito essa t\u00e9cnica. Ent\u00e3o, \u00e9 uma forma de eu deixar que ele fizesse parte da can\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m, por essa via. E \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m, que eu fiz para que essa melodia soasse como um abra\u00e7o em quem estivesse ouvindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E \u201cAbra\u00e7o\u201d acaba ressoando na faixa \u201cAinda Existe Sol\u201d por tratar dessa ideia de esperan\u00e7a, algo que reflete nesse per\u00edodo de pandemia que afetou todo mundo. Como foi a escolha de ser uma composi\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas?<\/strong><br \/>\nLan\u00e7ar em portugu\u00eas foi uma consequ\u00eancia do acaso. A express\u00e3o &#8220;ainda existe sol&#8221; surgiu em minha cabe\u00e7a e eu decidi escrever em cima dela. Fiz uma sequ\u00eancia de acordes que achei interessante. Uma can\u00e7\u00e3o que j\u00e1 foi mais sobre esse tempo estabelecido de pandemia. Algo j\u00e1 concreto como uma realidade com a qual todo mundo estava sendo for\u00e7ado a se acostumar, digamos assim. Ent\u00e3o, \u201cAinda Existe Sol\u201d tem esse cunho autobiogr\u00e1fico, de ainda existir algo pelo qual vale a pena viver, tendo uma exist\u00eancia feliz, esperan\u00e7osa e proativa. No meu caso pessoal com a quest\u00e3o da lacuna, da saudade de meu pai, daquela coisa toda. E, tamb\u00e9m, com a quest\u00e3o da pandemia, como voc\u00ea bem falou. De esperan\u00e7as por dias melhores, esperan\u00e7a pelo mundo se reerguer, se reconstruir diante dessa cat\u00e1strofe. \u00c9 uma m\u00fasica que tem esse cunho otimista de que o tempo ir\u00e1 trazer o sentido, como a letra diz. Vamos vivendo o nosso tempo, fazendo bem para as pessoas, sendo bons homens, boas mulheres, boas pessoas uns com os outros, estendendo a m\u00e3o a quem precisa, nunca perdendo de vista essa solidariedade para com as pessoas. Acho que ela tem um pouco essa mensagem, tamb\u00e9m. Essa f\u00e9 de que as coisas podem melhorar. Pode e vai haver um sol. Dentro da m\u00fasica brasileira, a gente tem can\u00e7\u00f5es que falam sobre isso. A conhecida de Renato Russo fala sobre isso. Isso se tornou um grande clich\u00ea dento do cancioneiro popular brasileiro, mas \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o com uma mensagem lind\u00edssima e de um cara que, na minha percep\u00e7\u00e3o, era um g\u00eanio. Um divisor de \u00e1guas na cultura popular brasileira. N\u00e3o que eu tenha me inspirado na can\u00e7\u00e3o dele. Ela foi pura e simplesmente de olhar para minha vida e pensar: &#8220;n\u00e3o, espera. N\u00e3o acabou. Podemos acreditar em coisas melhores.&#8221; E, claro, criando essa conex\u00e3o com esse mundo da pandemia. Pensei muito nessa realidade e com uma esperan\u00e7a de que ela se torne algo melhor no futuro.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Eric Assmar - Close To Me (feat. Luciano Le\u00e3es) [Clipe Oficial]\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wSMcHeLr_o4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ou\u00e7o o disco e percebo um esp\u00edrito otimista no trabalho, que nos ajuda a refletir sobre os dias atuais. N\u00e3o \u00e9 o caso de ser um disco de auto-ajuda, nada disso. Mas as letras trazem essa ideia de reconstru\u00e7\u00e3o, mesmo. De otimismo.<\/strong><br \/>\nFoi um disco que eu diria que tem m\u00fasicas que me pegaram em um momento de eu meio que j\u00e1 tendo juntado alguns cacos, sabe? De eu ter conhecido experi\u00eancias que, para mim, foram muito dolorosas, e de eu ter transformado isso em uma maneira de tentar entender quem \u00e9 esse Eric agora. Para onde eu quero ir. Vamos colocar o p\u00e9 no ch\u00e3o, vamos andar e \u00e9 isso a\u00ed. Vida que segue. Vamos embora e fazer o melhor que puder dessa experi\u00eancia, pois a vida \u00e9 curta e a gente n\u00e3o precisa negar os nossos sofrimentos, mas transform\u00e1-los em ferramentas para que possamos amadurecer. Ent\u00e3o, \u00e9 um disco que trata desse momento. Mas isso, claro, como todo disco. O \u201cMorning\u201d foi um reflexo do que estava rolando naquela \u00e9poca. O primeiro j\u00e1 foi um reflexo daquele per\u00edodo de formar o trio, com a vontade de ir para o est\u00fadio, tocar junto. Ele tem tem\u00e1ticas talvez mais juvenis em suas letras, \u00e9 mais combativo do que os outros, eu diria, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s tem\u00e1ticas po\u00e9ticas. O \u201cMorning\u201d j\u00e1 \u00e9 um disco, talvez, um pouco mais de bem com a vida. Mais solar. E \u201cHome\u201d, talvez, seja um disco um pouco mais reflexivo do que os outros. Mas um reflexivo que, sim, tem perspectivas otimistas. Ele n\u00e3o \u00e9 nunca depr\u00ea demais ou pessimista. Ele apenas \u00e9 um disco que senta no sof\u00e1 e chama voc\u00ea para sentar do lado e contar hist\u00f3rias para refletir. E n\u00e3o somente isso: ele te chama para dan\u00e7ar, chama para curtir algo mais leve, como na faixa \u201cClose to Me\u201d, por exemplo. Eu tinha uma vontade de gravar um reggae. Foi uma divers\u00e3o. Com Luciano Le\u00e3es gravando com o \u00f3rg\u00e3o Hammond. Uma felicidade enorme que ele me deu de aceitar esse convite. Um grande organista ga\u00facho, um dos principais nomes do blues brasileiro em atividade. Uma participa\u00e7\u00e3o que engrandeceu muito o \u201cHome\u201d. Tanto \u201cClose to Me\u201d quanto \u201cChildhood Days\u201d, as duas m\u00fasicas que ele gravou. Claro que al\u00e9m dele tive o Jelber Oliveira, um grande parceiro, que est\u00e1 tocando comigo. Ele j\u00e1 est\u00e1 incorporado a essa banda que vai tocar as m\u00fasicas do \u201cHome\u201d ao vivo. Sempre que poss\u00edvel, n\u00e3o estarei mais tocando como trio, mas como quarteto. Esse disco tem muitos elementos, muito teclado. Senti essa necessidade de traz\u00ea-lo como novo integrante da banda. E, claro, o produtor musical super refer\u00eancia, meu conterr\u00e2neo querido, o Andr\u00e9 T, que tamb\u00e9m gravou o Hammond em \u201cHome\u201d e \u201cBad Dream\u201d. Ele mixou e remasterizou, sendo o respons\u00e1vel por esse som do disco que me deixou super satisfeito. Veio para somar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cHome\u201d \u00e9 um disco gravado de forma remota durante a pandemia e que agregou mais pessoas, trazendo, dentre elas, os pr\u00f3prios integrantes do Eric Assmar Trio, Zuma e Thiago Brand\u00e3o. N\u00e3o mais utilizar o nome trio no nome \u00e9 muito bem justificado, de fato.<\/strong><br \/>\nO primeiro disco, \u201cEric Assmar Trio\u201d, e o \u201cMorning\u201d, s\u00e3o \u00e1lbuns que surgiram de um trio em um est\u00fadio tocando. Essas m\u00fasicas surgiram, eu ia compondo, gravando, mas a gente ia maturando os arranjos de maneira coletiva no est\u00fadio. Ent\u00e3o, o conceito Eric Assmar Trio fazia sentido para aquele contexto. Agora, esse n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 um disco que surgiu em um contexto mais solid\u00e1rio em termos de ideias e concep\u00e7\u00e3o de arranjos, como havia mais elementos. No \u201cMorning\u201d j\u00e1 havia um pouco disso, com viol\u00f5es em algumas faixas. Mas no \u201cHome\u201d tem em v\u00e1rias faixas, camadas de viol\u00f5es. E \u00e9 um disco que eu incorporo mais o \u00f3rg\u00e3o Hammond, tem mais camadas de vozes, dois bateristas, o Thiago (Brand\u00e3o) e Victor (Brasl). Tem o Zuma (Rafael Zumaeta), meu fiel parceiro e que est\u00e1 sempre comigo e que, de fato, \u00e9 um ch\u00e3o, \u00e9 o m\u00fasico com quem eu h\u00e1 mais tempo toco. E \u00e9 um cara com quem tenho uma identifica\u00e7\u00e3o surreal por conta dessa solidez de conv\u00edvio que criamos. Mas, entendendo que era um momento diferente, eu olhei para a coisa e n\u00e3o vi um disco do Eric Assmar Trio. Acho que j\u00e1 seria uma coisa um pouco mais ampla. Ele tem uma coisa muito autobiogr\u00e1fica, algo que trata de quest\u00f5es muito mais pessoais, como falei. E \u00e9 o meu disco mais comprometido com o blues, al\u00e9m do disco que tenho mais colaboradores. Por isso, achei que fazer somente como Eric Assmar seria mais justo com o conte\u00fado do \u00e1lbum. Essa foi a raz\u00e3o da minha op\u00e7\u00e3o para ser mais coerente com o que o \u00e1lbum realmente \u00e9. E dessa forma ele surgiu. Curioso \u00e9 que as pessoas que fazem parte do trio tamb\u00e9m est\u00e3o presentes. Ent\u00e3o, na verdade, \u00e9 a ideia do conjunto A que se juntou ao conjunto B. Ele est\u00e1 contido no conjunto B, digamos assim. Apenas agregamos for\u00e7as criativas e afetivas. N\u00e3o exclu\u00edmos ningu\u00e9m. N\u00e3o exclu\u00edmos possibilidade alguma. E \u00e9 isso. Fico muito feliz que ele tenha tomado a forma que tomou. E o aspecto remoto tornou poss\u00edvel termos tantas participa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E a arte gr\u00e1fica? Como foi esse planejamento em parceria com Uanderson Brito e David Roth?<\/strong><br \/>\nA escolha partiu desse conceito do \u00e1lbum, que \u00e9 feito em uma \u00e9poca de quarentena. Um \u00e1lbum que tem essa tem\u00e1tica do lar como um ref\u00fagio emocional, algo que, sobretudo, a m\u00fasica \u201cHome\u201d traz. Diria que esse conceito foi a for\u00e7a motriz do \u00e1lbum. Eu queria que esse contexto fotogr\u00e1fico tivesse imagens feitas em casa. Mas, tamb\u00e9m, um contraste com o externo. As imagens foram feitas na minha casa. E as fotos todas que permeiam o projeto gr\u00e1fico do \u00e1lbum, bem como a capa, claro. Ent\u00e3o, o Uanderson trouxe as impress\u00f5es dele em cima desse conceito com fotografias bel\u00edssimas que v\u00e3o estar no \u00e1lbum f\u00edsico. E algumas que j\u00e1 foram usadas em redes sociais e imagens de divulga\u00e7\u00e3o para imprensa. O contraste dele com o \u201cMorning\u201d \u00e9 este. \u00c9 um \u00e1lbum com um car\u00e1ter mais indoor. Ele tem uma coisa mais intimista. A capa foi feita aqui no meu est\u00fadio, aqui no meu quarto. Sou eu no canto com uma guitarra na m\u00e3o. Poderia ser uma madrugada na qual eu estava compondo uma can\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, o disco convida para esse aconchego. Convida a pessoa a entrar nesse lar simb\u00f3lico. E n\u00e3o s\u00f3 pela via do \u00e1udio, mas, tamb\u00e9m por essa via audiovisual. Seja com o videoclipe de \u201cHome\u201d, seja com as fotos do \u00e1lbum. Ou at\u00e9 com o projeto de lettering do nome do disco, que foi feito pelo designer Scheckter Barreto. Uma coisa feita \u00e0 m\u00e3o por ele. Ent\u00e3o, novamente, um outro elemento que se encaixa com esse aspecto home made. Tudo isso foi pensado e discutido por n\u00f3s. Eu tenho a sorte de ter esses amigos super talentosos e com esses insights, dispostos a quebrar a cabe\u00e7a neste aspecto de desenvolver uma ideia para poder pensar em um conceito. E o \u201cHome\u201d eu acho que \u00e9 o trabalho que eu tenho mais maduro nesse sentido, que mais entrega elementos mais coesos, digamos assim, e coerentes com determinado conceito.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Eric Assmar - Home (Clipe Oficial)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/WQyLjlsZJ8g?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em 2016 voc\u00ea me falou de gravar um disco ao vivo com m\u00fasicas in\u00e9ditas. Ainda existe esse projeto?<\/strong><br \/>\nCom certeza. O plano de um disco ao vivo est\u00e1 em pauta. Quem sabe um quarto seja um ao vivo, mas um ao vivo que congregue m\u00fasicas desses tr\u00eas primeiros, que congregue homenagens ao \u00c1lvaro Assmar. Isso \u00e9 parte de mim. \u00c9 uma promessa de vida. N\u00e3o vai haver disco do Eric, show do Eric, sem que tenha alguma coisa do \u00c1lvaro, alguma men\u00e7\u00e3o, alguma homenagem. Isso \u00e9 uma coisa que carrego comigo com muito orgulho. E quem sabe um disco que tenha tanto essas can\u00e7\u00f5es minhas como alguma coisa de homenagem ao \u00c1lvaro e, tamb\u00e9m, claro, sobretudo can\u00e7\u00f5es novas tocadas ao vivo. Can\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas. Gosto da ideia de um ao vivo que n\u00e3o seja um requentar de marmita, entende? Claro que esse termo \u00e9 relativo, porque, ao vivo, as m\u00fasicas ganham outra vida. Sobretudo quando voc\u00ea toca blues ou jazz, as m\u00fasicas ao vivo ganham outra vida com o aspecto da improvisa\u00e7\u00e3o da jam. Mas gosto da ideia de ter m\u00fasicas novas, tamb\u00e9m. M\u00fasicas cujos primeiro contato discogr\u00e1fico vai ser atrav\u00e9s de uma grava\u00e7\u00e3o ao vivo in\u00e9dita. Ent\u00e3o, quem sabe, esse quarto disco n\u00e3o pode ser com essa tem\u00e1tica de ser um disco ao vivo? Por enquanto, n\u00e3o estou ainda pensando nisso de uma maneira muito priorit\u00e1ria, porque estou focado no Home. Mas n\u00e3o descarto a possibilidade de fazer um ao vivo nesses moldes. De repente em algum festival, ou algo assim. E tamb\u00e9m quero, ainda poder fazer discos em parceria com produtores. No caso, o Andr\u00e9 T, que foi esse amigo que mixou e masterizou o Home. Ele \u00e9 um produtor super renomado e j\u00e1 temos essa ideia m\u00fatua de querer fazer algo juntos. Ent\u00e3o, tamb\u00e9m existe essa possibilidade de fazer um trabalho com essa parceria e produ\u00e7\u00e3o no futuro. Dar vida nova a m\u00fasicas e novas sensa\u00e7\u00f5es. Mas o que eu n\u00e3o quero deixar de fazer \u00e9 me manter criando. \u00c9 manter uma comunica\u00e7\u00e3o com o meu tempo. Eu acho que o barato da cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, para mim, \u00e9 estar em contato com o tempo no qual estou vivendo. \u00c9 para isso que eu componho. Claro que eu quero ser ouvido. Voc\u00ea quer que sua m\u00fasica se divulgue. Investimos tanto nisso para chegar a mais pessoas. Mas, no fim das contas, fazemos porque queremos publicar uma mensagem. Essa \u00e9 a necessidade b\u00e1sica e \u00e9 que nos faz acordar todos os dias.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Eric Assmar - Home (Festival Jazz no Castelo 2022)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/LnNu0nGwUJo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Eric Assmar - Close To Me (Festival Jazz no Castelo 2022)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/1XsF-N_R5E8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Eric Assmar - I&#039;m Still Working (Festival Jazz no Castelo 2022)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/W-shvXrQbT0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>. As fotos de Eric Assmar s\u00e3o de <\/em><em>Uanderson Brittes \/ Divulga\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Eric Assmar aprofunda o processo de cria\u00e7\u00e3o de \u201cHome\u201d, bem como fala do per\u00edodo posterior \u00e0 perda de \u00c1lvaro Assmar, identidade blues em Salvador e no Brasil, e de como os \u00faltimos seis anos desde \u201cMorning\u201d mudaram seu modo de encarar a vida. \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/03\/29\/entrevista-eric-assmar-fala-sobre-home-seu-album-mais-comprometido-com-o-blues\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":65192,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1108],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65190"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=65190"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65190\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":65954,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65190\/revisions\/65954"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/65192"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=65190"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=65190"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=65190"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}