{"id":65037,"date":"2022-03-22T14:58:44","date_gmt":"2022-03-22T17:58:44","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=65037"},"modified":"2022-05-02T23:58:07","modified_gmt":"2022-05-03T02:58:07","slug":"entrevista-o-musico-e-ilustrador-ron-selistre-fala-sobre-a-hq-guitar-city-underground","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/03\/22\/entrevista-o-musico-e-ilustrador-ron-selistre-fala-sobre-a-hq-guitar-city-underground\/","title":{"rendered":"Entrevista: O m\u00fasico e ilustrador Ron Selistre fala sobre a HQ \u201cGuitar City, Underground\u201d"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100001755294131\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Homero Pivotto Jr.<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certa feita, por volta do fim dos anos 1950, o crooner Frank Sinatra observou: \u201cRock and Roll \u00e9 a mais brutal, feia, desesperada e viciada forma de express\u00e3o que eu j\u00e1 tive o desprazer de ouvir. Ele \u00e9 escrito e cantado na maior parte por est\u00fapidos cretinos e por meio de suas reitera\u00e7\u00f5es imbecis e letras hip\u00f3critas \u2014 obscenas \u2014 na verdade sujas&#8230; rock and roll consegue ser a m\u00fasica marcial para todo delinquente de costeletas na face da Terra.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos anos que sucederam tal declara\u00e7\u00e3o, o rock deveras virou trilha de uma legi\u00e3o consider\u00e1vel de supostos desajustados ao redor do globo. Hoje, veja voc\u00ea que ironia, o g\u00eanero \u00e9 abra\u00e7ado pelo contingente dos cidad\u00e3os de bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltemos \u00e0 nossa programa\u00e7\u00e3o\u2026 Bom, fazia-se aqui a reflex\u00e3o sobre as palavras do senhor Sinatra, que relegou aos de costeleta \u2014 alfinetada, possivelmente direcionada a Elvis Presley \u2014 o ato de se ouvir rock. Nessa parte est\u00e1 um dos equ\u00edvocos da fala do cantor, pois o estilo conquistou tamb\u00e9m gente de barba, de bigode, sem pelos na cara, de cabelos compridos, de juba espetada, sem melena\u2026 Enfim, o rock arrebanhou uma multid\u00e3o que acompanhou as muta\u00e7\u00f5es est\u00e9tico-comportamentais promovidas por ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pelos pagos do Rio Grande do Sul, mais precisamente em Porto Alegre, um ent\u00e3o jovem Ron Selistre ouviu a f\u00faria daquele som e atendeu ao chamado. Isso um bom par de anos ap\u00f3s o velhote mencionar sobre a tal quest\u00e3o dos delinquentes de costeleta. \u201cIsso aqui \u00e9 no m\u00e1ximo um res\u00edduo fantasmag\u00f3rico\u201d, diverte-se nosso entrevistado, ao ser questionado se faz uso de tal adere\u00e7o masculino natural para as laterais da face.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Brincadeiras \u00e0 parte, Ron percebeu na manifesta\u00e7\u00e3o ruidosa sobre a qual versamos uma maneira de externalizar, dar forma, a alguns anseios. \u201cO rock \u00e9 uma das ferramentas que a nossa civiliza\u00e7\u00e3o encontrou pra exercitar o expurgo diante desse caos, a expectora\u00e7\u00e3o, a necessidade de direcionar a nossa viol\u00eancia, os instintos primitivos. Isso torna o rock um dispositivo medicinal, e a ideia de que ele vem da percep\u00e7\u00e3o desse caos imanente me faz pensar no rock como algo sublime, iluminador\u201d, analisa Ron no papo que est\u00e1s a ler.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os efeitos da comunh\u00e3o com a m\u00fasica dita como do coisa ruim se refletem nos fazeres art\u00edsticos do ga\u00facho. Como m\u00fasico, foi guitarrista e vocalista dos assombrosamente cativantes <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/user\/DamnLaserVampires\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Damn Laser Vampires<\/a>, al\u00e9m de encarnar como <a href=\"https:\/\/soundcloud.com\/solomondeath\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Solomon Death<\/a> em voo solo. J\u00e1 os escritos vorazes encontram vaz\u00e3o como <a href=\"https:\/\/lebatphomet.medium.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Le Batphomet<\/a>. Mas \u00e9 nos desenhos que o homem consagra-se como entidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma prova disso est\u00e1 na \u00faltima empreitada do artista com os tra\u00e7os, que junta ainda literatura e m\u00fasica. Trata-se de \u201cGuitar City, Underground\u201d, uma hist\u00f3ria em quadrinhos inspirada no rock, que devolve ao estilo o perigo e a selvageria que lhes s\u00e3o de direito \u2014 ao menos no papel. O projeto foi todo escrito por Ron e desenhado pelo pr\u00f3prio, com apoio de Flavio A. Barboza. O enredo traz o protagonista Vlaksa Versato retornado dos mortos com seu violoncelo el\u00e9trico (\u00e9 isso mesmo!) para salvar um mundo devastado pelo pr\u00f3prio rock. \u201cO que foi destru\u00eddo pelo rock, precisa do rock para ser salvo!\u201d, pontua material de divulga\u00e7\u00e3o da obra, que sai pela <a href=\"https:\/\/editoradraco.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Editora Draco<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAcompanhamos como a entidade Jason Christian vai guiar o m\u00fasico (Vlaksa) por gravadoras picaretas, shows em casas decadentes, lojas de disco falidas e, por fim, pela trilha para o sucesso. Para uma revolu\u00e7\u00e3o acontecer, tudo o que Vlaksa precisa \u00e9 montar uma banda e tocar suas m\u00fasicas\u201d, complementa o release. Com 216 p\u00e1ginas, o trabalho deve agradar f\u00e3s de \u201cLove &amp; Rockets\u201d, \u201cRocky Horror Picture Show\u201d e \u201cO Corvo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas para a ideia materializar-se, precisa passar pelo ritual do financiamento coletivo. Ent\u00e3o, na calada da noite \u2014 zoeira, pode ser a qualquer momento \u2014 acesse <span style=\"color: #ff0000;\"><a style=\"color: #ff0000;\" href=\"https:\/\/www.catarse.me\/guitarcity\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.catarse.me\/guitarcity<\/a><\/span> e colabore. Do contr\u00e1rio, lide com a maldi\u00e7\u00e3o n\u00e3o fomentar as produ\u00e7\u00f5es independentes de qualidade. Por ora, confere o papo com um cort\u00eas e sagaz Ron respondendo perguntas sobre sua primeira HQ, a arte feita no submundo do Brasil, inspira\u00e7\u00f5es, refer\u00eancias e o drama de ser um trabalhador aut\u00f4nomo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"[CATARSE] Guitar City Underground\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/SER4QMa1IyM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em primeiro lugar, saudemos os Kennedys, certo (leia a revista para entender a brincadeira)? E, nessa pegada, eu diria: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=aCiYmCVikjo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">let\u2019s lynch the landlord<\/a>!<\/strong><br \/>\nYes please!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bueno, pra come\u00e7ar, gostaria de saber, por favor: o quanto da tua viv\u00eancia como artista (m\u00fasico, escritor, desenhista) underground tem na HQ \u201cGuitar City, Underground\u201d? H\u00e1 passagens autobiogr\u00e1ficas? Caso sim, pode contar alguma?<\/strong><br \/>\nAutobiogr\u00e1ficas mesmo, n\u00e3o. Mas os cen\u00e1rios, os ambientes, essa parte visual, o pano de fundo de v\u00e1rias passagens da hist\u00f3ria&#8230; A\u00ed sim, d\u00e1 pra dizer que muito \u00e9 diretamente inspirado em lugares que eu conheci na estrada, tocando com a banda. Casas, bares, at\u00e9 algumas pessoas. Essa representa\u00e7\u00e3o de ambiente \u00e9 a de algu\u00e9m que \u201cesteve l\u00e1\u201d, por assim dizer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Costumo pensar que o cen\u00e1rio underground da arte \u00e9 onde a criatividade realmente flui. Onde a m\u00fasica \u2014 n\u00e3o s\u00f3 ela, mas outras express\u00f5es art\u00edsticas tamb\u00e9m \u2014 pode ser ousada, feita sem amarras e sem a inten\u00e7\u00e3o de buscar sucesso massivo ou o dinheiro. E algumas falas dos personagens em \u201cGuitar City, Underground\u201d, quero crer, corroboram com essa impress\u00e3o. \u00c9 o caso do trecho \u201cos artistas da terra pensam que s\u00e3o criadores. Eles pensam que inventam as coisas, mas n\u00e3o sabem que tudo sempre vem de outro lugar&#8221;, que soa, ao menos para mim, como uma cutucada no mainstream. Procede?<\/strong><br \/>\nEssa \u00e9 uma perspectiva muito boa. A inten\u00e7\u00e3o desse trecho, originalmente, foi representar a ideia de que a m\u00fasica seria uma entidade superior, autoexistente, e t\u00e3o sofisticada que seria capaz de se apoderar dos seus meios de manifesta\u00e7\u00e3o \u2014 no caso os m\u00fasicos \u2014 e us\u00e1-los como ve\u00edculos, ou, se quiser, hospedeiros tempor\u00e1rios. A ideia ali \u00e9 traduzida no conceito de um mundo m\u00edtico paralelo \u2014 o Underground \u2014 onde teria nascido a m\u00fasica que n\u00f3s conhecemos como rock, e de onde ela seria transmitida e em seguida sintonizada e repetida, inconscientemente, pelos m\u00fasicos da Terra. Assim a ideia de m\u00fasica como algo \u201ccanalizado\u201d em vez de criado acaba sendo uma alegoria pra essa rela\u00e7\u00e3o underground\/mainstream que tu mencionas, especialmente quando a gente pensa nas defini\u00e7\u00f5es de pl\u00e1gio, no conceito da originalidade, do \u201cartista igual ladr\u00e3o\u201d. Em \u201cGuitar City, Underground\u201d esse processo de \u201ccanaliza\u00e7\u00e3o\u201d se d\u00e1 numa escala c\u00f3smica, a coisa \u00e9 natural e din\u00e2mica. Os artistas da Terra estariam inconscientes e inocentes nisso.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-65043\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/guitar5.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1062\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/guitar5.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/guitar5-212x300.jpg 212w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Outra analogia que enxergo nesse teu belo trabalho \u00e9 o famigerado lance de que o rock morreu. Penso que, no submundo, ele segue pulsando \u2014 ao contr\u00e1rio do que rolaria na superf\u00edcie. Quais tuas considera\u00e7\u00f5es sobre essa quest\u00e3o? E o quanto essa inquieta\u00e7\u00e3o realmente pode ter sido inspira\u00e7\u00e3o para tua hist\u00f3ria de alguma maneira?<\/strong><br \/>\nQuando a gente olha pra qualquer \u00e9poca na hist\u00f3ria, sempre vai localizar algu\u00e9m escrevendo ou falando ou cantando sobre como o mundo est\u00e1 pior do que nunca, sobre a sensa\u00e7\u00e3o de fim dos tempos e tal. Eu penso que isso tem muito mais de percep\u00e7\u00e3o da normalidade, por contradit\u00f3rio que soe, do que de qualquer outra coisa. Aquela sensa\u00e7\u00e3o de apocalipse \u00e9 na real um despertar dos sentidos pra uma verdade antiga, a de que o mundo \u00e9 um caos desde sempre. Esse caos \u00e9 a norma, o estado normal do mundo. O rock \u00e9 uma das ferramentas que a nossa civiliza\u00e7\u00e3o encontrou pra exercitar o expurgo diante desse caos, a expectora\u00e7\u00e3o, a necessidade de direcionar a nossa viol\u00eancia, os instintos primitivos. Isso torna o rock um dispositivo medicinal, e a ideia de que ele vem da percep\u00e7\u00e3o desse caos imanente me faz pensar no rock como algo sublime, iluminador. Quando algu\u00e9m vem com a hist\u00f3ria de que o rock morreu, essa afirma\u00e7\u00e3o fala exclusivamente da ideia que aquele indiv\u00edduo tem do rock, e n\u00e3o do rock enquanto express\u00e3o universal, porque como express\u00e3o o rock \u00e9 indissoci\u00e1vel da condi\u00e7\u00e3o humana. A\u00ed algu\u00e9m pode dizer \u201ct\u00e1, mas ent\u00e3o isso me autoriza a chamar de rock qualquer m\u00fasica que expresse os tais instintos primitivos. N\u00e3o teria mais samba, nem funk, nem, sei l\u00e1, jongo; \u00e9 tudo rock.\u201d Na verdade eu estou convidando a dar um passo al\u00e9m disso: n\u00e3o teria mais sequer a necessidade de se rotular o que quer que fosse, incluindo o rock. Estar\u00edamos entrando numa esfera de verdadeira liberdade sensorial e criativa. Esse \u00e9 o estado que nos permitiria explorar qualquer m\u00fasica, qualquer som, em estado de comunh\u00e3o com ele. \u00c9 o estado em que a nossa mente reconhece ali dentro (daquele som, daquele conjunto de sons) algo sem identidade racional, mas que existe num plano profundo, no plano da ess\u00eancia, e que, sob condi\u00e7\u00f5es mais familiares (como ritmo, timbre e harmonia) saber\u00edamos como chamar \u2014 e que hoje, no formato que nos \u00e9 familiar, a gente chama de rock. Penso que isso seria uma no\u00e7\u00e3o muito \u00fatil pra se compreender melhor quanta energia \u00e9 perdida com a cultura do preconceito musical. Mas reconhe\u00e7o que \u00e9 uma concep\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel de se experimentar numa escala social, coletiva. Da\u00ed a necessidade dos r\u00f3tulos. Eu entendo a express\u00e3o \u201co rock morreu\u201d, mas entendo tamb\u00e9m que ela s\u00f3 pode vir de uma aus\u00eancia de compreens\u00e3o do que seja o rock em ess\u00eancia. Pra campanha de divulga\u00e7\u00e3o desse livro a Draco est\u00e1 usando um slogan \u00f3timo: \u201cO rock morreu&#8230; e o vel\u00f3rio vai ser demais!\u201d rs<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Adentrando a produ\u00e7\u00e3o do material em si: a ideia de uma HQ versando sobre rock \u2014 e carregada de refer\u00eancias da cultura pop (afinal, \u00e9 nesse escopo que o bom &amp; velho, como alguns fazem refer\u00eancia, situa-se) \u2014 \u00e9 um projeto antigo teu? Por favor, como e quando surgiu o \u00edmpeto de fazer esse trampo? E como ele foi se desenrolando ao longo dos anos?<\/strong><br \/>\nO projeto tem 20 anos. Em 2002 a editora Escala lan\u00e7ou um t\u00edtulo experimental, chamava Graphic Talents, aberto a autores novos. Eles aceitavam projetos que tivessem 30 p\u00e1ginas mensais. \u201cGuitar City Underground\u201d foi criada pra essa revista. Reuni o primeiro cap\u00edtulo (acho que o segundo tamb\u00e9m, n\u00e3o me lembro de agora) num CD (as editoras aceitavam o preview do material em CD na \u00e9poca) e enviamos pra eles. E os eventos seguintes s\u00e3o um borr\u00e3o na minha mem\u00f3ria, porque n\u00e3o sei dizer sequer se tivemos resposta. Aquele foi um ano bastante ca\u00f3tico, rs. \u201cGuitar City\u201d nunca foi publicada, a revista foi cancelada depois de alguns n\u00fameros e a produ\u00e7\u00e3o da HQ parou tamb\u00e9m. Mas ficamos, o Flavio e eu, com a responsa de levar o projeto adiante, porque agora est\u00e1vamos curtindo muito aquilo. O mercado de quadrinhos no Brasil era muito fraco, tinha tipo tr\u00eas editoras e milh\u00f5es de artistas disputando espa\u00e7o, ent\u00e3o as nossas expectativas eram modestas: decidi que a HQ seria em preto e branco, pra facilitar os custos de produ\u00e7\u00e3o. Retomamos o trabalho e fomos at\u00e9 o cap\u00edtulo seis, quando em 2005 montei o Damn Laser Vampires com a Francis K e o Marcos Lemos (o primeiro baterista, antes da entrada do Michel). A partir dali a banda virou a minha ocupa\u00e7\u00e3o integral. A HQ voltou pra gaveta e durante os 7 anos seguintes ficamos tocando e viajando sem parar (e produzindo todo o material gr\u00e1fico do Damn Laser Vampires). Quando a banda encerrou as atividades, eu voltei a trabalhar como desenhista freelancer e passei um bom tempo desenhando e tendo epis\u00f3dios depressivos limitantes (as duas coisas se completam lindamente, o pessoal do ramo sabe como \u00e9). Em 2016, o Rapha (Fernandes, da Draco), que conheci nos shows que fizemos em S\u00e3o Paulo, me convidou pra fazer a trilha sonora de \u201cApag\u00e3o: Cidade Sem Luz\/Lei\u201d. Falei de \u201cGuitar City\u201d pra ele, e ele pediu pra ver a HQ conclu\u00edda. S\u00f3 em 2017 voltei ao projeto, desta vez pra terminar. Redesenhei p\u00e1ginas, redefini cen\u00e1rios e reescrevi alguns di\u00e1logos. Comecei a postar algumas imagens coloridas, como experimento, e vendo os posts o Rapha me escreveu sugerindo que eu colorisse tudo porque ele tava adorando aquilo. Aceitei, conclu\u00ed a hist\u00f3ria e colori. A Francisca, minha esposa, que \u00e9 uma artista espetacular, coloriu o cap\u00edtulo 7 e a maior parte dos cap\u00edtulos 6 e 8. O livro que est\u00e1 saindo agora \u00e9 o resultado lapidado e melhorado em todos os n\u00edveis, e a m\u00e3o do pessoal da Draco foi fundamental no processo, de modo que eu tenho certeza de que esse \u00e9 o melhor momento pra que as pessoas finalmente o leiam. \u00c9 um fechamento de ciclo perfeito.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-65044\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/guitar4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1057\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/guitar4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/guitar4-213x300.jpg 213w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Somente no primeiro cap\u00edtulo, ao qual tive acesso, existe uma quantidade razo\u00e1vel de refer\u00eancias a produ\u00e7\u00f5es pop (do cinema, da m\u00fasica, da literatura\u2026). Mas duas, em especial, me ati\u00e7aram a curiosidade: tendo em mente que vossa excel\u00eancia \u00e9 admirador de Batman, pode-se dizer que o nome \u201cGuitar City\u201d \u00e9 uma homenagem \u00e0 Gotham City (as primeiras letras das alcunhas coincidem)? Al\u00e9m disso, vejo tra\u00e7os de Lux Interior no protagonista Vlaksa Versato, e presumo n\u00e3o ser por acaso, j\u00e1 que estou ciente tamb\u00e9m que \u00e9s chegado num The Cramps. H\u00e1 essas influ\u00eancias?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, a refer\u00eancia principal (da hist\u00f3ria) foi Porto Alegre mesmo, rs. Mais exatamente a Cidade Baixa (bairro), numa semana de carnaval, com racionamento de \u00e1gua e os lixeiros em greve. O Versato sim, o visual dele foi originalmente inspirado no Lux do clipe de \u201cBikini Girls With Machine Guns\u201d. Cal\u00e7a sint\u00e9tica, sem camisa, at\u00e9 aquela ilumina\u00e7\u00e3o colorida meio Dario Argento foi refer\u00eancia.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"The Cramps - Bikini Girls With Machine Guns\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/8fyr0zbaFyE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ali\u00e1s, como tu trabalhas toda a gama de influ\u00eancias que adquiriu ao longo da caminhada pela terra no momento de criar, e escolher quais usar, num trabalho como \u201cGuitar City\u201d?<\/strong><br \/>\nTem uma recomenda\u00e7\u00e3o que aqueles coaches e conselheiros profissionais costumam fazer pra quem pretende trilhar uma carreira nas artes, e que n\u00e3o t\u00e1 errada, mas que eu definitivamente n\u00e3o sigo, que \u00e9: escolha UMA coisa e se especialize nela. Nunca consegui fazer isso, rs. Eu costumo me descrever como escritor, desenhista e m\u00fasico, esse \u00e9 o meu \u201ccrach\u00e1 permanente\u201d. N\u00e3o \u00e9 uma escolha, \u00e9 justamente a minha falta de habilidade em escolher. O resultado \u00e9 que sempre acabo cruzando essas tr\u00eas coisas em qualquer projeto que eu crie, porque se faltar uma delas me d\u00e1 impress\u00e3o que aquilo \u00e9 um trip\u00e9 com uma perna faltando. Com \u201cGuitar City\u201d n\u00e3o foi diferente, j\u00e1 que o universo da hist\u00f3ria me permitia desenhar e escrever sobre m\u00fasica. Uma coisa encaixou na outra sem esfor\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Outra quest\u00e3o interessante, por falar em \u2018guitar\u2019, instrumento de refer\u00eancia para o rock, \u00e9 que o personagem Versato \u00e9 um violoncelista. Seria essa escolha uma forma de questionar a tradicional cartilha roqueira de bem, que muitas vezes estabeleceu padr\u00f5es est\u00e9ticos comportamentais que renegaram as novidades e inusitudes do que estivesse fora de um padr\u00e3o pr\u00e9-estabelecido para aceita\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nA primeira vez que a gente foi a um programa de r\u00e1dio divulgar o show de estreia do Damn Laser Vampires, isso foi l\u00e1 em 2006, o apresentador (membro de uma banda conhecida no Rio Grande do Sul) perguntou qual era o nosso line up. Diante da informa\u00e7\u00e3o de que a banda era um trio com duas guitarras e bateria (e sem baixo), ele mandou essa: \u201cAh, entendi. Isso \u00e9 moda agora, n\u00e9? Uma mulher na banda e um instrumento faltando.\u201d Apesar dessa frase imbecil morar hoje na minha mem\u00f3ria como um dos mais l\u00edmpidos e espont\u00e2neos vislumbres da mis\u00e9ria masculina t\u00edpica, rs, a ilustra\u00e7\u00e3o que ela faz \u00e9 muito boa: o formato \u00e9 bom se ele bater com o meu registro de \u201cformato bom\u201d. A novidade \u00e9 boa se ela satisfizer a MINHA expectativa de \u201cnovidade boa\u201d, que frequentemente n\u00e3o tem nada de novidade e n\u00e3o passa de rumina\u00e7\u00e3o neof\u00f3bica. O Vlaksa Versato \u00e9 um outsider no rock, mas \u00e9 mais que isso. Ele \u00e9 um outsider para o pr\u00f3prio conceito de outsider, e por um motivo que chega a ser quase esquizofr\u00eanico mas que, na real, \u00e9 muito bonito: o rock que ele faz \u00e9 t\u00e3o puro, t\u00e3o selvagem e despretensioso, uma express\u00e3o t\u00e3o dele, que ele faz com um violoncelo. Ele \u00e9 o pr\u00f3prio \u201cinstrumento faltando\u201d da parada. Ningu\u00e9m, nem no rock nem fora dele, conseguiu entender isso. Quando ele \u00e9 convocado pra justamente trazer de volta o rock que teria sido perdido, \u00e9 disso que estamos falando: a ess\u00eancia permanece ali. O que se perde \u00e9 a capacidade de ouvi-la.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-65045\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/guitar2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1055\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/guitar2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/guitar2-213x300.jpg 213w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nunca foi f\u00e1cil e, nos \u00faltimos anos, tem sido ainda mais complicado viver de arte no Brasil. Ainda mais a independente, sem apelo com a massa. Tens conseguido sobreviver com o m\u00ednimo de dignidade atuando como m\u00fasico, ilustrador e escritor?<\/strong><br \/>\nAh, sim. Acontecem coisas fant\u00e1sticas quando se elimina a obsess\u00e3o por dinheiro. rs Falando s\u00e9rio, eu nunca precisei de muito. Nossa vida \u00e9 muito simples e muito boa, sem excessos e sem necessidades. Tenho os problemas que viver no Brasil trazem, como todo mundo, e isso est\u00e1 longe de ser aceit\u00e1vel como normal; a gente sabe que poderia e deveria ser muito melhor, e que s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 melhor porque temos no poder ladr\u00f5es e assassinos. Eu n\u00e3o esque\u00e7o que, mesmo nesse cen\u00e1rio, eu consigo viver como artista desde sempre, e que poder viver assim \u00e9 um privil\u00e9gio impens\u00e1vel pra muita gente. Mas de jeito nenhum \u00e9 um caminho seguro. \u00c9 importante lembrar \u00e0s pessoas que viver como artista n\u00e3o \u00e9 \u201cescolher uma vida dif\u00edcil\u201d; \u00e9 justamente tentar evitar a escolha ainda mais dif\u00edcil, que \u00e9 sufocar a sua arte e ir viver como algu\u00e9m que voc\u00ea n\u00e3o \u00e9. \u00c9 um caminho de coragem que merece apoio e respeito, porque \u00e9 realmente desafiador. Por isso procuro ajudar sempre que posso, repartindo o que tenho, tentando diminuir um pouco esse desnivelamento fodido entre n\u00f3s artistas aqui embaixo. E por experi\u00eancia posso dizer que isso retorna pra mim na forma de oportunidades de trabalho, colabora\u00e7\u00f5es que se multiplicam espontaneamente, projetos que florescem. Durante essa pandemia eu vi coisas que fazem o meu cora\u00e7\u00e3o doer s\u00f3 de lembrar. Por isso nunca me deixo esquecer de que a exist\u00eancia solit\u00e1ria \u00e9 imposs\u00edvel; se eu estou vivo, e o outro precisa de mim e est\u00e1 ao meu alcance de alguma forma, eu vou ajudar como puder, ponto. Isso te coloca num fluxo muito interessante em que a vida n\u00e3o te abandona. Ela te mant\u00e9m no jogo, como num mecanismo de colabora\u00e7\u00e3o em que n\u00e3o h\u00e1 favores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que bandas fizeram a trilha sonora durante a cria\u00e7\u00e3o de \u201cGuitar City, Underground\u201d? E quais tu indicarias para o pessoal ouvir enquanto l\u00ea?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei se ouvir m\u00fasica durante a leitura funciona pra todo mundo (pra mim n\u00e3o, rs), mas acho que eu tenho uma boa sugest\u00e3o pra entrar no clima. Esta semana a Draco colocou no Spotify uma playlist que montei a pedido deles. Algumas das faixas que sugeri n\u00e3o tem ali na plataforma, ent\u00e3o com a tua permiss\u00e3o vou listar a sugest\u00e3o original aqui:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Detrito Federal \u2013 \u201cAntraz\u201d<br \/>\nMercen\u00e1rias \u2013 \u201cAl\u00e9m Acima\u201d<br \/>\nFausto Fawcett e os Rob\u00f4s Ef\u00eameros \u2013 \u201cDrops de Istambul\u201d<br \/>\nOs Replicantes \u2013 \u201cAstronauta\u201d<br \/>\nJoelho de Porco \u2013 \u201cMeus Vinte e Seis Anos\u201d<br \/>\nInocentes \u2013 \u201cGarotos do Sub\u00farbio\u201d<br \/>\nNew York Dolls \u2013 \u201cBad Girl\u201d<br \/>\nIggy and The Stooges \u2013 \u201cSearch and Destroy\u201d<br \/>\nThe Cramps \u2013 \u201cWet Nightmare\u201d<br \/>\nBlack Flag \u2013 \u201cRise Above\u201d<br \/>\nDevo \u2013 \u201cUncontrollable Urge\u201d<br \/>\nThe Toy Dolls \u2013 \u201cDeirdre\u2019s a Slag\u201d<br \/>\nT. Rex \u2013 \u201cMetal Guru\u201d<br \/>\nJudas Priest \u2013 \u201cThe Hell Patrol\u201d<br \/>\nBad Brains \u2013 \u201cSailin\u2019 On\u201d<br \/>\nAlien Sex Fiend \u2013 \u201cDead and Buried\u201d<br \/>\nRamones \u2013 \u201cI Wanna be Sedated\u201d<br \/>\nSuzy Quatro \u2013 \u201cRock Hard\u201d<br \/>\nJames Brown \u2013 \u201cPapa\u2019s Got a Brand New Bag\u201d<br \/>\nThe Velvet Underground \u2013 \u201cHeroin\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Saindo um pouco da pauta sobre a HQ: \u00e9 not\u00f3rio que vampiros n\u00e3o morrem. Logo, h\u00e1 esperan\u00e7a de que a Damn Laser Vampires volte \u00e0 vida? Quem sabe para animar o baile de lan\u00e7amento de \u201cGuitar City, Underground\u201d em algum inferninho?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o d\u00e1, isso seria uma viola\u00e7\u00e3o de contrato. A cl\u00e1usula era muito clara: encerrar a miss\u00e3o em dezembro de 2012, conforme previsto no calend\u00e1rio Maia. \u00c9 extremamente n\u00e3o recomend\u00e1vel sacanear um contrato desses.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-65046\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/guitar3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1061\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/guitar3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/guitar3-212x300.jpg 212w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em>\u2013&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100001755294131\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Homero Pivotto Jr.<\/a>&nbsp;\u00e9 jornalista, vocalista da&nbsp;<a href=\"https:\/\/diokane.bandcamp.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Diokane<\/a>&nbsp;e respons\u00e1vel pelo videocast&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/channel\/UCY71eKJzuBUXpyDV2IFeP8Q\/videos?view_as=subscriber\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O Ben Para Todo Mal<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cGuitar City, Underground\u201d \u00e9 uma hist\u00f3ria em quadrinhos inspirada no rock, que devolve ao estilo o perigo e a selvageria que lhes s\u00e3o de direito! Um lan\u00e7amento Editora Draco em financiamento coletivo\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/03\/22\/entrevista-o-musico-e-ilustrador-ron-selistre-fala-sobre-a-hq-guitar-city-underground\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":52,"featured_media":65042,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9,3],"tags":[3816,5448],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65037"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/52"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=65037"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65037\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":65049,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65037\/revisions\/65049"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/65042"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=65037"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=65037"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=65037"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}