{"id":65000,"date":"2022-03-19T01:33:31","date_gmt":"2022-03-19T04:33:31","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=65000"},"modified":"2024-03-19T15:29:00","modified_gmt":"2024-03-19T18:29:00","slug":"entrevista-rodrigo-lima-e-o-dead-fish-de-volta-a-estrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/03\/19\/entrevista-rodrigo-lima-e-o-dead-fish-de-volta-a-estrada\/","title":{"rendered":"Entrevista: Rodrigo Lima e o Dead Fish de volta \u00e0 estrada"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100001755294131\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Homero Pivotto Jr.<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Dead Fish n\u00e3o s\u00f3 mant\u00e9m at\u00e9 hoje a urg\u00eancia em estar vivo como tamb\u00e9m sabe gerenciar a pr\u00f3pria autonomia para continuar existindo como banda por mais de tr\u00eas d\u00e9cadas. Com uma trajet\u00f3ria que come\u00e7ou em 1991, em Vit\u00f3ria, no Esp\u00edrito Santo, o grupo conquistou respeito no cen\u00e1rio independente e ainda conseguiu romper as barreiras do underground para se tornar refer\u00eancia de hardcore em todo o territ\u00f3rio nacional. Pelo caminho, rolaram inevit\u00e1veis mudan\u00e7as \u2014 de cidade, de integrantes e at\u00e9 de formas como assimilar o mundo \u2014, e, mesmo assim, o grupo segue t\u00e3o explosivo quanto um molotov ao vivo e em seus posicionamentos pol\u00edticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acostumados com o asfalto, a banda sentiu na pele, na mente e no bolso os efeitos do isolamento imposto pela pandemia de coronav\u00edrus: \u201cEu acho que t\u00e1 todo mundo da banda doente. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o muito complicada porque n\u00f3s somos os primeiros a ser afetados e provavelmente os \u00faltimos a serem assimilados de volta na vida cotidiana (&#8230;). Para mim foi dur\u00edssimo, e acho que para minha fam\u00edlia tamb\u00e9m. Primeiro porque eu fiquei desempregado por dois anos. E isso foi absolutamente inesperado para quem tinha lan\u00e7ado um \u00e1lbum em 2018, \u2018<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/06\/05\/entrevista-dead-fish-fala-sobre-ponto-cego-nazis-e-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ponto Cego<\/a>\u2019, com o qual fizemos muito pouco show\u201d observa o vocalista Rodrigo Lima nesta entrevista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Animado com a possibilidade de voltar \u00e0 rotina na estrada para destruir tudo de novo nos palcos, Rodrigo concedeu entrevista \u00e0 Abstratti Produtora, parceira do Scream &amp; Yell, por videochamada. O papo d\u00e1 uma ideia de o que esperar nesse momento delicado, por\u00e9m necess\u00e1rio, de retomada das atividades presenciais em eventos de cultura. Al\u00e9m disso, falamos sobre a trajet\u00f3ria do pr\u00f3prio Dead Fish, arte versus pol\u00edtica e nostalgia e muito mais. Leia o papo abaixo!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Entrevista Rodrigo Lima (Dead Fish) para Abstratti Produtora\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Z0H_1PgChQE?start=644&#038;feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na faixa-t\u00edtulo do \u00e1lbum lan\u00e7ado em 2004 pelo Dead Fish, \u201cZero e Um\u201d, tu cantaste: \u201cum bom computador e um carro veloz para me manter distante de mim\u201d. E como foi o caminho contr\u00e1rio, que precisamos trilhar nesses quase dois anos de pandemia, em que mesmo com ajuda da tecnologia, tivemos de nos isolar, nos voltar para n\u00f3s mesmos?<\/strong><br \/>\nPara mim foi dur\u00edssimo e acho que para minha fam\u00edlia tamb\u00e9m. Primeiro porque eu fiquei desempregado por dois anos, e isso foi absolutamente inesperado para quem tinha lan\u00e7ado um \u00e1lbum em 2018, \u201cPonto Cego\u201d, com o qual fizemos muito pouco show. Eu n\u00e3o sou uma pessoa do bom computador (risos), do bom telefone nem das redes sociais, mas tive de me adaptar a algumas coisas para continuar me comunicando com as pessoas. E isso, ao mesmo tempo em que me dava um respiro, por conseguir falar em uma live com um amigo meu na Argentina ou em Bras\u00edlia, por exemplo, me fazia sentir cada dia mais afastado fisicamente. Acho que dois anos depois, mesmo para quem teve a oportunidade de ficar dentro de casa trancado, tem implica\u00e7\u00f5es mentais e f\u00edsicas brutais. Eu sinto isso aqui em casa em mim e nas minhas meninas. Minha mina t\u00e1 l\u00e1 h\u00e1 dois anos sentada na mesma cadeira, inexplic\u00e1vel. Acordo de manh\u00e3, ela t\u00e1 sentada ali na cadeira. Eu chego em casa e fa\u00e7o o rango \u2014 porque aqui quem faz as coisas de cozinha sou eu \u2014 e ela t\u00e1 no mesmo lugar. Tudo bem que existia antes os tr\u00e2mites de S\u00e3o Paulo, uma cidade grande, em que voc\u00ea gasta muito tempo para voltar do trabalho, ent\u00e3o rolou essa economia. Mas \u00e9 um c\u00e1rcere, mental e f\u00edsico. E eu senti que minha filha, uma menina muito coletiva, agitada, explosiva e corporal como eu, deu ind\u00edcios de depress\u00e3o de verdade. Chegamos a levar ela ao m\u00e9dico no meio da pandemia. Mas acredito que a tecnologia nos salvou de um tanto de coisa. Trocando em mi\u00fados, sabendo que a gente t\u00e1 meio amassado, talvez se n\u00e3o fosse esse telefoninho pelo qual falo com voc\u00ea agora, as coisas fossem piores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Dead Fish \u00e9 uma banda da correria, da estrada e do palco. Como foi ficar afastado das apresenta\u00e7\u00f5es? E n\u00e3o falo nem como trampo, de ter ficado sem renda, mas como algo que tenho certeza que todos na banda prezam muito.<\/strong><br \/>\nEu acho que t\u00e1 todo mundo da banda doente. Falando s\u00e9rio, geral t\u00e1 doente mental. A gente voltou ano passado, com baita medo. Depois teve os quatro shows do Hangar e a \u00f4micron comeu solta. Mas a gente exigiu passaporte de vacina e, at\u00e9 onde sei, todos est\u00e3o bem. Eu peguei covid em algum momento. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o muito complicada porque n\u00f3s somos os primeiros a ser afetados e provavelmente os \u00faltimos a serem assimilados de volta na vida cotidiana. <a href=\"https:\/\/www.uol.com.br\/ecoa\/colunas\/opiniao\/2022\/01\/23\/a-conveniente-criminalizacao-da-musica-e-da-arte-independente.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fiz at\u00e9 um texto para o UOL<\/a>, a pedido de uma amiga l\u00e1. Falei: \u201cn\u00e3o vou parar, cara\u201d. T\u00f4 vacinado, preciso achar outro caminho. Existe um projeto de aniquila\u00e7\u00e3o do meu meio. Outros setores como futebol ou m\u00fasica sertaneja seguiram. N\u00e3o que eu seja contra, de boa, adoro futebol, s\u00f3 n\u00e3o sei se sou muito f\u00e3 de sertanejo. Enfim, eles t\u00eam direito de continuar trabalhando. S\u00f3 que eu pagar por isso, depois de dois anos, n\u00e3o d\u00e1. Acho que eu e o batera (Marc\u00e3o, tamb\u00e9m integrante do <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/acaodiretaoficial\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A\u00e7\u00e3o Direta<\/a>) fomos os que mais sofremos. Como voc\u00ea disse, o Dead Fish \u00e9 uma banda estradeira. Desses 30 anos de banda, creio que uns vinte e tantos foram dentro de transportes para ir a shows. E isso \u00e9 minha casa, sempre me senti confort\u00e1vel num banco de van, de avi\u00e3o ou de \u00f4nibus, correndo atr\u00e1s, fazendo as coisas acontecerem. Sou muito feliz de ter amigos em muitos lugares do Brasil e de poder visit\u00e1-los uma ou duas vezes por ano. A\u00ed, quando isso tudo acabou, mentalmente todo mundo ficou maluco. Acho que o Marco Ant\u00f4nio, se n\u00e3o se tornou um alco\u00f3latra, foi na trave.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>(risos) T\u00f4 rindo, mas \u00e9 de nervoso.<\/strong><br \/>\nT\u00f4 feliz de estar assumindo esse risco, de estar puxando essa corda \u2014 mesmo sendo acusado de um tanto de coisas. Vejo que muitas pessoas ficam felizes. Elas v\u00e3o continuar l\u00e1 com seus procedimentos de seguran\u00e7a, porque hoje o mundo \u00e9 outro. A vida mudou, n\u00e3o vai ser mais a mesma coisa. N\u00e3o foi a mesma coisa depois da gripe espanhola, n\u00e3o foi a mesma coisa depois da Segunda Guerra Mundial e n\u00e3o vai ser a mesma coisa depois da covid-19. Fico feliz de estar puxando isso, de rever os meus amigos e as pessoas que gostam da minha banda em outras circunst\u00e2ncias. Mas com positividade, com vontade do encontro de novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esse lance que tu comentaste \u00e9 bem pertinente, de a cultura, principalmente o setor de evento \u2014 porque \u00e9 uma atividade que envolve pessoas e, inevitavelmente, aglomera\u00e7\u00e3o \u2014, parar primeiro e voltar por \u00faltimo. Vejo com certa frequ\u00eancia a galera questionando por que o futebol pode (nada contra, ressalte-se) e os shows n\u00e3o.<\/strong><br \/>\nPor que o metr\u00f4 n\u00e3o tem vag\u00f5es com distanciamento? Por que o \u00f4nibus n\u00e3o tem? N\u00e3o estou querendo justificar uma coisa com outra, mas a gente precisa ir tateando, achando nossos processos. Encontrar nossa sobreviv\u00eancia, da lida da arte e da m\u00fasica, que s\u00e3o essenciais para cora\u00e7\u00f5es e mentes de qualquer pessoa no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Creio que o per\u00edodo pand\u00eamico mostrou isso. N\u00e3o sei se as pessoas assimilaram tal quest\u00e3o, mas quem passou por essa crise sanit\u00e1ria sem ouvir m\u00fasica, sem ver filme, sem ler? Foram essas atividades que nos deram um pouco de alento nessa desgra\u00e7a que j\u00e1 dura dois anos e deixou todo mundo perturbado. Seria bacana se a galera refletisse mais, tentasse colaborar com esses setores. Por exemplo: a quest\u00e3o do passaporte vacinal que tu mencionaste. A Abstratti apoia que o p\u00fablico apresente, mas a legisla\u00e7\u00e3o estadual no Rio Grande do Sul, que \u00e9 seguida pelo executivo municipal de Porto Alegre, diz que em cidades com mais de 90% da popula\u00e7\u00e3o adulta com esquema vacinal completo, a exig\u00eancia do documento n\u00e3o \u00e9 obrigat\u00f3ria. Mas, sim, recomendada.<\/strong><br \/>\nTamos c\u00e9ticos bastante para entender que a indica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 mais um fator de seguran\u00e7a. N\u00e3o que ningu\u00e9m vai pegar, n\u00e3o \u00e9 garantia. A gente n\u00e3o sabe nem onde vai pegar, mas eu acho que \u00e9 mais um fator de seguran\u00e7a. Considero essencial que as pessoas tenham essa sensibilidade conosco no dia do show do Opini\u00e3o. Vou ficar bastante feliz e at\u00e9 mais relaxado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Dead Fish \u00e9 uma banda que tem bastante hist\u00f3ria: veio de underground, de uma cena fora do eixo tradicional onde as coisas costumam acontecer, passou por mudan\u00e7as de integrantes\u2026 Ent\u00e3o, parafraseando novamente uma das tuas letras: o que faz o Dead Fish ter essa urg\u00eancia em estar vivo, essa gana de existir no cen\u00e1rio art\u00edstico, de seguir fazendo som?<\/strong><br \/>\nPrimeiro, uma grande safadeza vagabunda de amar a arte acima de tudo. Tem gente que fala \u201cBrasil acima de tudo\u201d, mas nem Deus est\u00e1 acima da arte. At\u00e9 porque n\u00e3o acredito em Deus. Ent\u00e3o \u00e9 essa safadeza de amar o que se faz, independentemente de se existe uma recompensa financeira. Penso que agora, aos 49 anos, estou pagando muito caro o pre\u00e7o de ter amado tanto a arte e ter seguido a ponta do meu nariz, minha educa\u00e7\u00e3o do punk e do hardcore. Mas eu ainda sou muito feliz, considero que perseverar nisso \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 ainda ter muito prazer, sentir muito tes\u00e3o pela coisa. Como tamb\u00e9m dar vis\u00f5es para as gera\u00e7\u00f5es vindouras. Existe uma gera\u00e7\u00e3o que t\u00e1 muito formatadinha, muito dentro dos padr\u00f5es. O capitalismo conseguiu tomar tudo, at\u00e9 nossas mentes. Arte e cultura t\u00eam de ser ultrarrent\u00e1veis, popular. N\u00e3o! Eu vivo dentro do meu nicho, e n\u00e3o \u00e9 que eu n\u00e3o queira falar para outras pessoas. Eu quero falar para todo mundo, por mim seria extremamente pop. S\u00f3 que eu vivo muito feliz dentro do meu nicho. E quero que as pessoas entendam, da m\u00fasica e da arte, que elas podem ser muito realizadas dentro daquilo que elas escolherem como caminho de vida dentro da arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pergunta dois em um dentro dessa tem\u00e1tica: o Dead Fish \u00e9 uma banda que se sustenta, que paga os integrantes? Tipo: voc\u00eas conseguem viver s\u00f3 da banda ou t\u00eam outros empregos? E, se o Dead Fish n\u00e3o tivesse acontecido, rompido a barreira do underground possibilitando que tivessem acesso a certas facilidades de grava\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o, acha que a banda teria seguido?<\/strong><br \/>\nA banda acabou em 1996 com a morte do meu pai, e a gente voltou ali sem nenhuma perspectiva no meio de 1997. Eu acredito que sim. A gente teria outros modos de entender o que a gente faz na m\u00fasica. Talvez n\u00e3o tiv\u00e9ssemos sa\u00eddo do Esp\u00edrito Santo, quem sabe cada um estivesse ali no seu trabalho, de repente eu seria um advogado desses que meus amigos se tornaram depois da faculdade. N\u00e3o sei. Boa pergunta, \u00e9 legal tentar imaginar. Sobre viver da banda, n\u00e3o sei quais seus par\u00e2metros de vida, o que voc\u00ea considera essencial para viver. Porque tem gente que, vivendo da forma que eu vivo, seria extremamente infeliz. N\u00e3o me importo em trocar de carro a cada cinco anos, nem em ter uma previd\u00eancia rica \u2014 n\u00e3o que eu n\u00e3o me importe com a previd\u00eancia. E eu n\u00e3o quero viver num palacete. Ent\u00e3o, o Dead Fish me pagou at\u00e9 certo ponto para eu ter uma vida muito simples, e sou muito feliz por isso. Mas n\u00e3o quer dizer que eu n\u00e3o tenha feito outros trampos de cozinha, como advogado. Todos da banda, acredito, fizeram coisas em paralelo nos momentos de baixa. Sempre fomos o lado da moeda a ser deletado primeiro, vide a pandemia. N\u00e3o tivemos ajuda oficial de nada. Eu n\u00e3o consegui dar entrada em ajuda do governo. Ent\u00e3o, foi preciso correr atr\u00e1s de alguma forma. Meio que sempre foi assim. O Dead Fish \u00e9 uma banda privilegiada porque conseguiu estar no mainstream, surfamos essa onda. Ent\u00e3o conhecemos gente de outros nichos, at\u00e9 dialogamos muito com artistas de outras searas, at\u00e9 fora da m\u00fasica. Mas, para uma vida simples, acho que o Dead Fish \u00e9 um privil\u00e9gio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim! \u00c9 isso, n\u00e3o me refiro a estilo de vida padr\u00e3o rockstar.<\/strong><br \/>\nSempre me vi como classe trabalhadora. Acho que todo artista tinha de ter uma vida simples como a minha, em todos os nichos. As pessoas me veem e tipo: \u201colha, ele conseguiu fazer sucesso\u201d. Eu s\u00f3 consegui chegar numa estrutura de vida que me agrada profundamente e que eu queria olhar para o lado e ver todos que estiveram comigo tendo essa oportunidade. E isso n\u00e3o \u00e9 talento ou ser especial. Todo artista tinha que ter essa vida, conseguir minimamente recursos para uma vida simples e continuar vivendo daquilo que ama.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma das situa\u00e7\u00f5es mais castradoras da humanidade \u00e9 a pessoa n\u00e3o poder fazer o que gosta ou ser tolhida de ser quem ela realmente \u00e9, ter receio de se mostrar verdadeiramente. Estamos a\u00ed rodeados de preconceitos contra g\u00eanero, ra\u00e7a, religi\u00e3o, idade e at\u00e9 o que a criatura vai exercer profissionalmente. E pegando o ditado de que tempo \u00e9 dinheiro, como fazer para desenvolver uma atividade pela qual se \u00e9 apaixonado \u2014 seja cantar, dan\u00e7ar, escrever \u2014, se a pessoa trabalha em outros servi\u00e7os para se sustentar, tem de perder horas em transporte coletivo?<\/strong><br \/>\nA arte \u00e9 sempre a primeira v\u00edtima desse capitalismo atrasado, o late capitalism, desse capitalismo de desastre. \u00c9 bem oportuno que todos os artistas estejam deprimidos, sem tempo, sem dinheiro e com o emprego que odeiam. H\u00e1 de se pensar muito nisso. \u00c9 um plano, n\u00e3o consequ\u00eancia de algo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lembrei daquele som \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=mUU1Qb0nZbU\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Capitalism Stole my Virginity<\/a>\u201d, do International Noise Conspiracy.<\/strong><br \/>\nAdoro! \u00c9 hit essa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como tu descreverias, resumidamente, essa trajet\u00f3ria de mais de tr\u00eas d\u00e9cadas do Dead Fish em tr\u00eas momentos, pegando cada d\u00e9cada de exist\u00eancia da banda: os 1990, os 2000 e os 2010?<\/strong><br \/>\nA primeira d\u00e9cada acho que \u00e9 a gang. A segunda \u00e9 a estrada, a doideira, a loucura, o aprendizado de jovens caipiras do leste e do sudeste brasileiro entendendo o mundo e o Brasil dentro de uma van. E a terceira \u00e9, eu odeio a palavra maturidade, mas seria quase isso. Talvez estabilidade<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tu \u00e9s uma criatura extremamente pol\u00edtica, j\u00e1 deixou isso muito claro. Os f\u00e3s da banda, e at\u00e9 quem n\u00e3o curte mas acompanha de alguma maneira, j\u00e1 devem ter percebido. O que tu pensas de quem diz que arte e pol\u00edtica n\u00e3o se misturam? E, dada a polariza\u00e7\u00e3o, que rendeu algumas incomoda\u00e7\u00f5es online para o Dead Fish \u2014 tipo gente dizendo que n\u00e3o sabia que a banda tinha um posicionamento \u2014, tu percebes na pr\u00e1tica uma perda de p\u00fablico? Ou essa galera que praguejou voc\u00eas na web parecia s\u00f3 gritar alto para assustar. Tipo cachorro que muito late n\u00e3o morde\u2026 Pobres cachorros (usando, mais uma vez, t\u00edtulo de m\u00fasicas da banda)?<\/strong><br \/>\nNa estrada, pessoalmente, n\u00e3o senti n\u00e3o. Acho que a banda perdeu um pouco de prest\u00edgio para mainstream, r\u00e1dios maiores, marcas e grandes festivais. Mas desde 1991 eu meio que cago para isso, sabe? Acho que nosso p\u00fablico ganhou uma maturidade de 2015 para frente, mais ou menos. Vejo hoje garotada de 17\/18 anos nos shows para se divertir, moshar, extravasar, ter a catarse f\u00edsica e aer\u00f3bica que \u00e9 o show do Dead Fish. Mas que chegam j\u00e1 com uma orienta\u00e7\u00e3o clara de o que \u00e9 a banda. At\u00e9 por isso digo que da terceira d\u00e9cada para frente \u00e9 a estabilidade, pois desde ent\u00e3o parece que a gente finalmente foi entendido. N\u00f3s tamb\u00e9m, internamente, percebemos uma quantidade gigante de coisas. Na segunda d\u00e9cada, que \u00e9 o trabalho, n\u00f3s erramos muito. Fizemos muita tentativa e erro, e creio que erramos mais do que acertamos. E isso nos colocou na terceira d\u00e9cada com a ideia de saber onde \u00e9 a estabilidade, por onde seguir. \u00c9 at\u00e9 um pouco mortificante, parece que n\u00e3o vamos nos arriscar. O que n\u00e3o \u00e9 verdade, porque seguiremos arriscando, mas sabendo melhor como fazer isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais s\u00e3o tuas lembran\u00e7as de Porto Alegre? O Dead Fish tem uma hist\u00f3ria longa com a cidade, desde os anos 1990, tocando no circuito under pelos inferninhos, at\u00e9 show com milhares de gente ao ar livre no <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=1ESWW8zKnFs\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">3\u00ba F\u00f3rum Social Mundial<\/a>, em 2003, quando rolou uma treta hom\u00e9rica na plateia e a pol\u00edcia interveio com cavalaria e tal. Teve ainda abertura para o Bad Religion no Gigantinho, em 2004, quando o Jay Bentley (baixista do Bad Religion) estava mais louco que o Batman sem capa. Enfim, o que tu te recordas destes pagos?<\/strong><br \/>\nNos tr\u00eas shows que fizemos com o Bad Religion o Jay tava doid\u00e3o. Um amigo at\u00e9 comentou recentemente: \u201caquele show que voc\u00eas fizeram com o Bad Religion em S\u00e3o Paulo, o Jay Bentley estragou\u201d. E eu falei: \u201cvish, voc\u00ea n\u00e3o viu os outros\u201d. (risos) Eu tenho um carinho gigante por Porto Alegre, j\u00e1 pensei um milh\u00e3o de vezes, quando tinha mais contato com o Z\u00e9 e a Aline, da <a href=\"https:\/\/norest.noblogs.org\/audio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">No Rest<\/a>, de ir viver a\u00ed. Sempre tive uma admira\u00e7\u00e3o gigante pela cena punk e art\u00edstica de Porto Alegre. Eu viajei para Porto Alegre antes, com a minha m\u00e3e, quando era crian\u00e7a, depois como estudante de Direito, fiz um encontro de estudantes em S\u00e3o Leopoldo (munic\u00edpio da regi\u00e3o metropolitana). Tenho amigos de vida em Porto Alegre. Eu curto a cidade, me vejo um pouco nela, depois de F\u00f3runs Sociais Mundiais, depois de tocar com Bad Religion no Gigantinho e tamb\u00e9m depois de me tornar um habitu\u00e9 no Opini\u00e3o, que sempre foi uma casa pela qual tive enorme admira\u00e7\u00e3o. Assim como tenho pelo Circo Voador (RJ) e pelo Hangar 110 (S\u00e3o Paulo). Talvez se n\u00e3o tivesse feito uma fam\u00edlia no in\u00edcio dos 2000, quem sabe tivesse ido para Porto Alegre viver as doideiras, ficar perto do Wander Wildner, do Z\u00e9 e da Aline, do <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/auroraantiespecista\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">chef Alan Chaves<\/a> e seu veganismo, do <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/bike_age\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Knela<\/a> maluc\u00e3o pedalando e sendo o punk Wallride mais maluco que eu conhe\u00e7o. Parando na rodovi\u00e1ria para pegar \u00f4nibus at\u00e9 o Uruguai como j\u00e1 fiz. Sinto-me bastante em casa em Porto Alegre e em todo o Rio Grande do Sul. Tem gente que fala que ga\u00facho \u00e9 isso ou aquilo, mas eu me sinto acolhido, me divirto, fico feliz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E tuas lembran\u00e7as, como integrante de banda, de Floripa e de Curitiba?<\/strong><br \/>\nCuritiba tamb\u00e9m \u00e9 uma cidade com a qual tenho longa hist\u00f3ria. O N\u00f4 (baterista de 1991 at\u00e9 2009) \u00e9 de l\u00e1. Os dois fundadores do Dead Fish s\u00e3o de Curitiba, conhe\u00e7o pessoas. Comecei indo l\u00e1 no tempo do Pinheads (cl\u00e1ssica banda punk rock paranaense), fizemos show no Aeroanta. Vimos show do Ramones (com Raimundos e Sepultura) na Pedreira Paulo Leminski e apanhamos da pol\u00edcia um dia depois. Tem uma trajet\u00f3ria longa de conhecer pessoas, de amores, de paix\u00f5es. Floripa um pouco menos, come\u00e7amos a tocar l\u00e1 um pouco tarde. Tarde naquelas, faz uns 12 ou 13 anos. Tinha um amigo, o Roberto, que se foi durante a pandemia, e ele morava l\u00e1. Ent\u00e3o, passei alguns ver\u00f5es em Florian\u00f3polis antes. Conhe\u00e7o bastante a cidade, mas tenho menos intimidade do que com POA e CWB. \u00c9 uma cidade linda e maravilhosa, se eu continuar indo logo vou me sentir t\u00e3o \u00e0 vontade quanto as outras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para fechar: se lembra quando \u00e9ramos mais jovens e tudo parecia ser mais f\u00e1cil (trecho da m\u00fasica \u2018Can\u00e7\u00e3o para Amigos\u2019, do disco &#8220;Sonho M\u00e9dio&#8221; (1999))?<\/strong><br \/>\nLembro! Puts, t\u00f4 nost\u00e1lgico. Depois que eu descobri que o <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Mark_Fisher\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mark Fisher<\/a>, que tem aquela m\u00e1xima de que \u00e9 mais f\u00e1cil o mundo acabar do que o capitalismo acabar. Ele foi um cara do punk ingl\u00eas anos 1980 e 1990, depois teve blog de m\u00fasica eletr\u00f4nica. \u00c9 um cara que falava de nostalgia. Eu reprimi a minha por quase duas d\u00e9cadas e, agora, com 49 anos, estou numa nostalgia gigante de lembrar como era o punk nos anos 1990 no Esp\u00edrito Santo, de recordar as pequenas casas, os amigos zineiros que desapareceram ou que hoje s\u00e3o jornalistas. Acho ultranecess\u00e1rio a gente contar essa hist\u00f3ria. Porque, quando a gente \u00e9 jovem, \u00e9 tudo mais simples. Vida adulta \u00e9 mais complicada, mais complexa, voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 mais t\u00e3o sozinho no mundo, n\u00e3o d\u00e1 mais para ser t\u00e3o atirado. O que n\u00e3o pode te tirar a vontade de poder, a alegria. \u00c9 um trabalho estar em uma vida adulta e manter aquele amor que se tinha quando moleque.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Dead Fish - Can\u00e7\u00e3o para Amigos (DVD Ao Vivo Circo Voador)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/y1h-7U-FF_E?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Dead Fish ao vivo na Central do Rock Brasil (24\/04\/2021)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jVN_Eh9pWVI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Dead Fish - Afasia (XXV Ao Vivo Em SP)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/z5YNj_Lvyn8?list=PLxktlgWwbTyv2pztIUZztDHJtQk6Zm8tg\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100001755294131\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Homero Pivotto Jr.<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista, vocalista da\u00a0<a href=\"https:\/\/diokane.bandcamp.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Diokane<\/a>\u00a0e respons\u00e1vel pelo videocast\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/channel\/UCY71eKJzuBUXpyDV2IFeP8Q\/videos?view_as=subscriber\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O Ben Para Todo Mal<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Animado com a possibilidade de voltar \u00e0 rotina na estrada para destruir tudo de novo nos palcos, Rodrigo concedeu entrevista \u00e0 Abstratti Produtora, parceira do Scream &#038; Yell, por videochamada. O papo d\u00e1 uma ideia de o que esperar nesse momento delicado, por\u00e9m necess\u00e1rio\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/03\/19\/entrevista-rodrigo-lima-e-o-dead-fish-de-volta-a-estrada\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":52,"featured_media":65005,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[3810],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65000"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/52"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=65000"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65000\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":80510,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65000\/revisions\/80510"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/65005"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=65000"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=65000"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=65000"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}