{"id":64987,"date":"2022-03-18T02:30:54","date_gmt":"2022-03-18T05:30:54","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=64987"},"modified":"2022-04-14T01:27:11","modified_gmt":"2022-04-14T04:27:11","slug":"entrevista-congadar-as-vesperas-do-segundo-disco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/03\/18\/entrevista-congadar-as-vesperas-do-segundo-disco\/","title":{"rendered":"Entrevista: Congadar as v\u00e9speras do segundo disco"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O v\u00ednculo com a ancestralidade \u00e9 uma das principais for\u00e7as de resist\u00eancia da cultura afro, atravessando e conectando gera\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s das hist\u00f3rias e cren\u00e7as do povo negro. Com o desejo de manter viva esta tradi\u00e7\u00e3o, em 2013 foi formada a Congadar, banda cuja for\u00e7a motriz \u00e9 prestar justa homenagem a grandes Mestres da Cultura Popular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Formada por Carlos Sa\u00fava (vocais) Filipe Elt\u00e3o (voz, caixa e percuss\u00e3o), Wesley Pel\u00e9 (voz e caixa), Igor F\u00e9lix (guitarra), Giuliano Fernandes (guitarra), Marc\u00e3o Avellar (baixo) e S\u00e9rgio DT (bateria), o sexteto aposta numa sonoridade que promove o encontro do congado com o rock, unindo o som das caixas de congado (os tambores mineiros) e os cantos dos congadeiros com guitarra, baixo e bateria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recentemente a banda lan\u00e7ou o single \u201cGrande Anganga Muquixe\u201d no qual prestam homenagem a antepassados transmissores de conhecimento. A m\u00fasica abre uma s\u00e9rie de materiais que preparam o lan\u00e7amento do segundo disco do Congadar \u2013 o sucessor de \u201cRetirante\u201d (2019) est\u00e1 previsto para abril de 2022 pela Under Discos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevista por e-mail, Marcos Avellar fala sobre as origens do grupo e a sua rela\u00e7\u00e3o com a cultura negra, a formata\u00e7\u00e3o da sonoridade da banda, o retorno aos palcos, a cultura (e sua relev\u00e2ncia) em tempos de retrocesso e muito mais. Confira!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"CONGADAR - Grande Anganga Muquixe (Single)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2aR5QNzgzP0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Antes de falar sobre o novo single queria comentar sobre a uma quest\u00e3o que vejo com a for\u00e7a motriz da Congadar: a cultura negra, em suas mais variadas express\u00f5es (religiosas, m\u00fasicais&#8230;). Nesse sentido, como se dera a rela\u00e7\u00e3o do grupo com esse universo? E ainda: qual a import\u00e2ncia de fazer do seu fazer art\u00edstico um instrumento de propaga\u00e7\u00e3o voltado a essas quest\u00f5es?<\/strong><br \/>\nO envolvimento da banda com a cultura negra \u00e9 bem estreita desde antes de seu in\u00edcio. Carlos Sa\u00fava, Filipe Elt\u00e3o e Wesley Pel\u00e9, que cantam e tocam as caixas (nome dado aos tambores do Congado e Folia de Reis) nasceram, cresceram e vivem nesse meio. Eles cresceram e participam das festas de Congado e Folia desde crian\u00e7as. E foram eles que trouxeram esses elementos para a banda. Ainda hoje o Sa\u00fava \u00e9 Vice-Presidente da guarda de Mo\u00e7ambique Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o, com uma tradi\u00e7\u00e3o de mais de 50 anos de hist\u00f3ria, al\u00e9m dos tr\u00eas serem integrantes de grupo de Folia de Reis. Assim, eles s\u00e3o nosso elo direto com essas manifesta\u00e7\u00f5es culturais. Tudo que fazemos, todas as m\u00fasicas que propomos releituras e tocamos nos shows, tem a orienta\u00e7\u00e3o e permiss\u00e3o dos nossos Mestres da Cultura Popular, nossos Capit\u00e3es das Guarda de Congado. N\u00e3o fazemos nada sem passar por eles. Tanto que, em nossos shows em Sete Lagoas, se eles est\u00e3o presentes (e sempre est\u00e3o), eles sobem ao palco para fazer uma grande festa com a gente. Inclusive, o repert\u00f3rio deste segundo disco, que dever\u00e1 sair em abril, foi todo escolhido por alguns dos Capit\u00e3es de Guarda de Congado da nossa cidade. Eles foram uma esp\u00e9cie de curadores do novo \u00e1lbum. E desde o in\u00edcio temos essa consci\u00eancia de levar a cultura deles para o p\u00fablico com o maior respeito. Eles apoiam e aprovam, j\u00e1 que para eles \u00e9 uma forma de mostrar a cultura deles e de seus antepassados para pessoas al\u00e9m daquelas que frequentam as festas. \u00c9 uma cultura de resist\u00eancia e que, a cada dia que passa, est\u00e1 restrita \u00e0 pequenas comunidade e grupos. Sabemos que sofreram e ainda sofrem preconceito por parte da sociedade. \u00c9 uma cultura que recebe pouco incentivo, inclusive financeiro, por parte dos governantes. Ent\u00e3o, temos a oportunidade de levar e tentar desmistificar, ampliar o acesso \u00e0 essa manifesta\u00e7\u00e3o cultural t\u00e3o rica, que faz parte da constru\u00e7\u00e3o da identidade da cultura n\u00e3o s\u00f3 mineira, mas tamb\u00e9m brasileira, a um p\u00fablico maior, atrav\u00e9s das suas m\u00fasicas e hist\u00f3rias. \u00c9 importante chamar aten\u00e7\u00e3o das pessoas para que toda essa riqueza cultural n\u00e3o se acabe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Outro ponto interessante referente a m\u00fasica criada pelo grupo \u00e9 que ela acaba promovendo uma miscel\u00e2nia interessante que cruza ritmos africanos com o peso das guitarras. Como se deu a cria\u00e7\u00e3o desta sonoridade e quais s\u00e3o as refer\u00eancias substanciais que ajudaram a formatar o trabalho de voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nA forma\u00e7\u00e3o da banda se deu justamente da jun\u00e7\u00e3o de dois outros trabalhos anteriores. Existia o Congadar, que at\u00e9 ent\u00e3o era um grupo parafolcl\u00f3rico, que se apresentava em eventos na cidade. Este grupo era formado por Sa\u00fava, Elt\u00e3o, Pel\u00e9 e um outro grande amigo nosso, o Paulinho do Boi. Do outro lado, a gente tinha o Ganga Bruta, uma banda tradicional de rock, de guitarra, baixo e bateria. Chegamos a lan\u00e7ar dois discos nesse formato. At\u00e9 que um dia, conversando com Sa\u00fava, eu joguei essa ideia meio que como um desafio. De juntar o que era o Congadar com o Ganga Bruta. E logo nos primeiros ensaios vimos que daria uma boa liga. E n\u00e3o tinha como ser diferente. O rock veio do blues, que veio dos negros escravizados nos Estados Unidos. O Congado tem a mesma hist\u00f3ria, veio com o povo escravizado principalmente nessa regi\u00e3o de Minas Gerais. As duas manifesta\u00e7\u00f5es s\u00e3o intimamente ligadas aos povos africanos trazidos como escravos para as Am\u00e9ricas. Ent\u00e3o fomos moldando essa sonoridade. Aos poucos fomos descobrindo as similaridades, as caracter\u00edsticas, aprendendo melhor o que pode se encaixar, as diferen\u00e7as. E foi atrav\u00e9s dessas experimenta\u00e7\u00f5es que fomos criando essa nossa sonoridade. E muitos dos artistas que sempre experimentaram o cruzamento destes mundos s\u00e3o nossas influ\u00eancias. Talvez o mais direto seria o Na\u00e7\u00e3o Zumbi, j\u00e1 que eles tamb\u00e9m usam tambores como elementos de destaque. Mas podemos citar a\u00ed Gilberto Gil e a Tropic\u00e1lia, todo o Manguebeat, bandas como Cordel do Fogo Encantado, Mestre Ambr\u00f3sio, at\u00e9 mesmo o Movimento Armorial, passando por nomes de Minas Gerais, como Maur\u00edcio Tizumba, nosso Mestre e que sempre nos acolheu com o maior carinho. Um pouco da sonoridade das guitarras vem do pr\u00f3prio Clube da Esquina. Isso se d\u00e1 porque o nosso guitarrista e produtor, Giuliano Fernandes, tocou por 10 anos (2000-2010) com L\u00f4 Borges, tendo gravado discos dele, como \u201cUm Dia e Meio\u201d, \u201cBhanda\u201d e o ao vivo \u201cIntimidade\u201d. Nessa \u00e9poca ele aprendeu de dentro todos aqueles arranjos, acordes e harmonias dos cl\u00e1ssicos do Clube. Ent\u00e3o eu acho que o caminho est\u00e1 um pouco por a\u00ed: grupos e artistas que trazem muito da cultura popular brasileira com uma boa pitada de Clube da Esquina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Al\u00e9m de lan\u00e7ar um novo single recentemente a banda anunciou o retorno aos palcos. Quais s\u00e3o as expectativas para esse retorno, apesar das incertezas inerentes a pandemia?<\/strong><br \/>\nEstamos com shows agendados a partir de maio, quando os infectologistas est\u00e3o dizendo que a pandemia estar\u00e1 mais controlada e amena. E assim esperamos. Estamos nos preparando para esse retorno. Al\u00e9m de todos estarmos com as vacinas em dia, todo o cronograma de lan\u00e7amento do novo disco est\u00e1 girando em torno dessa expectativa da retomada do setor. Estamos h\u00e1 dois anos sem nos encontrar com o p\u00fablico. Como a maioria, fizemos lives, shows gravados, mas nada se compara. Tivemos um gostinho no ultimo dia 20 de novembro, Dia da Consci\u00eancia Negra, quando a pandemia tinha dado uma desacelerada e fizemos dois shows. J\u00e1 foi um aperitivo. E estamos ansiosos para retornar aos shows. A nossa banda tem muito de palco, de show, do ao vivo. Entendemos que a pegada no est\u00fadio e nos discos \u00e9 diferente. E no palco a gente consegue passar mais da nossa arte. Mas sabemos de toda a responsabilidade neste momento. E os shows que est\u00e3o fechados s\u00e3o com parceiros que tem a mesma consci\u00eancia. Ent\u00e3o, caso a coisa d\u00ea outra reviravolta, sabemos que os planos podem mudar. Mas esperamos que n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por fim, qual \u00e9 o sentimento do grupo quanto ao momento atual da cultura no Brasil? Apesar de tantos retrocessos, quais s\u00e3o as motiva\u00e7\u00f5es alimentadas para poder seguir em frente?<\/strong><br \/>\nOs artistas n\u00e3o param. A cultura e a arte vivem apesar dessa merda toda que estamos vivendo. E neste quadro de desmonte das pol\u00edticas p\u00fablicas para a cultura, os artistas se tornam resist\u00eancia \u00e0 todo esse retrocesso. Claro que em meio \u00e0 um esmagamento da classe, principalmente financeira, que se junta \u00e0 uma pandemia terr\u00edvel onde toda a cadeia produtiva da cultura sofreu na carne, vivenciamos a pior fase nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas. \u00c9 desanimador e at\u00e9 mesmo desesperador. Mas ano passado a gente focou na cria\u00e7\u00e3o do disco novo. Fizemos muitos ensaios, fomos para est\u00fadio, gravamos. E isso se junta \u00e0 expectativa de lan\u00e7ar um disco novo. Ent\u00e3o a gente conseguiu se manter na atividade, criando. E conhecemos muita gente na mesma situa\u00e7\u00e3o. \u00c9 desanimador? N\u00e3o vamos mentir e dizer que n\u00e3o \u00e9. Mas ao mesmo tempo \u00e9 desafiador. E usamos a criatividade para transpor isso. E temos a esperan\u00e7a que tudo comece a mudar a partir de novembro (ou outubro).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"CONGADAR - Retirante I \u00c1lbum completo (Full Album)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/xgiyudiDyXQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a>\u00a0 escreve no Scream &amp; Yell desde 2014. A foto que abre o texto \u00e9 de Camila Cornelsen.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O v\u00ednculo com a ancestralidade \u00e9 uma das principais for\u00e7as de resist\u00eancia da cultura afro, atravessando e conectando gera\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s das hist\u00f3rias e cren\u00e7as do povo negro. 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