{"id":64856,"date":"2022-03-11T02:02:16","date_gmt":"2022-03-11T05:02:16","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=64856"},"modified":"2022-04-16T05:23:37","modified_gmt":"2022-04-16T08:23:37","slug":"literatura-meu-nome-era-eileen-o-thriller-de-ottessa-moshfegh","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/03\/11\/literatura-meu-nome-era-eileen-o-thriller-de-ottessa-moshfegh\/","title":{"rendered":"Literatura: \u201cMeu nome era Eileen\u201d, o thriller de Ottessa Moshfegh"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-64860 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/eillen2.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"759\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/eillen2.jpg 500w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/eillen2-198x300.jpg 198w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto por <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tgpgabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Gabriel Pinheiro<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cEu n\u00e3o tinha nada de especial. \u00c9 f\u00e1cil para mim imaginar essa garota, uma vers\u00e3o estranha, jovem e acanhada de mim.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cap\u00edtulo inicial de \u201cMeu nome era Eileen\u201d (\u201cEileen\u201d, 2015), primeiro romance de Ottessa Moshfegh (lan\u00e7ado no Brasil pela Todavia em 2021), termina com uma promessa: \u201cDali a uma semana, eu fugiria de casa para nunca mais voltar. Esta \u00e9 a hist\u00f3ria de como desapareci\u201d. Quem nos conta essa hist\u00f3ria \u00e9 a pr\u00f3pria Eileen hoje, d\u00e9cadas ap\u00f3s seu desaparecimento nos anos 60. Ou, melhor dizendo, uma outra que n\u00e3o \u00e9 mais Eileen. H\u00e1 uma clara divis\u00e3o entre o passado narrado e o presente de quem narra. S\u00e3o duas pessoas diferentes. Tanto o nome quanto a vida pregressa foram deixados para tr\u00e1s com a fuga. \u201cEu n\u00e3o era eu mesma naquela \u00e9poca. Eu era uma outra pessoa. Eu era Eileen.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos 24 anos, em 1964, Eileen vive numa cidadezinha n\u00e3o nomeada no estado de Nova Inglaterra, nos EUA, com seu inverno intenso e fustigante, caracter\u00edstico da regi\u00e3o nordeste do pa\u00eds. De rotina mon\u00f3tona, seus dias se dividem entre o lar compartilhado com o pai alco\u00f3latra e um trabalho ma\u00e7ante. A faculdade foi abandonada por conta da doen\u00e7a da m\u00e3e, hoje morta. Agora, Eileen cuida do pai. Na verdade, \u201ccuidar\u201d talvez n\u00e3o seja o verbo que melhor defina a rela\u00e7\u00e3o. O pai \u00e9 um ex-policial aposentado de comportamento abusivo e alco\u00f3latra. Cabe \u00e0 filha a renova\u00e7\u00e3o do estoque de gim e a tentativa de que o risco que ele representa dentro de casa n\u00e3o extrapole para a vizinhan\u00e7a \u2013 paranoico, para ele h\u00e1 sempre um inimigo, um invasor \u00e0 espreita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eileen trabalha em uma institui\u00e7\u00e3o correcional para menores. Ou, melhor dizendo, uma pris\u00e3o para garotos. Ela se identifica mais com os detentos, privados da liberdade, do que com os colegas de trabalho. Seu relacionamento com eles \u00e9 distante, apesar de desenvolver certa obsess\u00e3o por um dos guardas do lugar: ela passa os domingos com seu velho Dodge estacionado em frente \u00e0 casa de Randy, observando sua rotina enquanto fantasia uma poss\u00edvel rela\u00e7\u00e3o com ele. \u201cRandy \u00e9 o protagonista rom\u00e2ntico da minha hist\u00f3ria, se \u00e9 que existe algum.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 que entra em cena Rebecca, uma nova colega. De roupas finas e comportamento sedutor, ela se torna um imediato objeto de desejo, de uma atra\u00e7\u00e3o intensa. Mais do que o desejo por Rebecca, o que Eileen passa a nutrir \u00e9 um desejo pelo que ela \u00e9, pelo que representa como mulher. \u00c9 no encontro com ela que a fuga, at\u00e9 ent\u00e3o apenas fantasiada, adiada pela in\u00e9rcia ou por um resqu\u00edcio de senso de responsabilidade pelo pai, acontece. \u201cComo era mesmo aquele velho ditado? Um amigo \u00e9 algu\u00e9m que ajuda voc\u00ea a esconder o cad\u00e1ver &#8211; esse era o resumo dessa nova rela\u00e7\u00e3o. Tive essa sensa\u00e7\u00e3o imediatamente. Minha vida ia mudar.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ottessa Moshfegh cria uma narradora n\u00e3o-confi\u00e1vel, afinal os acontecimentos s\u00e3o descritos apenas sob o seu ponto de vista, e verborr\u00e1gica, que conversa diretamente com o leitor, expondo segredos e traumas guardados por d\u00e9cadas, enterrados junto com aquela persona deixada para tr\u00e1s. Somos seus confidentes. Os \u00faltimos \u201cdias de vida\u201d de Eileen s\u00e3o descritos de forma minuciosa. Ela nos diz sobretudo sobre o passado, o foco n\u00e3o \u00e9 conhecer quem ela se tornou, n\u00e3o \u00e9 o presente. Mas desvendamos um pouco sobre a vida p\u00f3s-Eileen a partir de breves lampejos revelados por ela. Por exemplo, quando comenta sobre os homens alco\u00f3latras com quem se relacionou ao longo da vida \u2013 numa repeti\u00e7\u00e3o de um padr\u00e3o de relacionamento paterno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na narra\u00e7\u00e3o do seu passado, vemos que o frio (que a autora conhece muito bem, pois nasceu e cresceu em Massachusetts) n\u00e3o est\u00e1 apenas na neve que cobria as ruas da Cidadezinha X, mas tamb\u00e9m dentro da casa compartilhada com o pai e no ambiente controlado do trabalho. Ambos eram pris\u00f5es. Falta afeto e identifica\u00e7\u00e3o em todos os espa\u00e7os. Rebecca surge como uma fagulha, uma possibilidade de calor. Mas sua chama bruxuleante parece prestes a se apagar a qualquer instante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seu texto, Ottessa Moshfegh cria uma progress\u00e3o do suspense. H\u00e1 uma tens\u00e3o crescente acerca da fuga que parece nunca chegar: os dias passam mon\u00f3tonos, parece n\u00e3o haver sa\u00edda para Eileen. At\u00e9 mesmo a rela\u00e7\u00e3o com Rebecca cai num tom morno, perdendo a excita\u00e7\u00e3o. Essa monotonia est\u00e1 na tamb\u00e9m no texto. Tenho a impress\u00e3o de que ele poderia ser mais enxuto em alguns momentos. Mas \u00e9 curioso como, ainda assim, Ottessa engaja o leitor. Seguimos na expectativa da promessa anunciada no in\u00edcio da narrativa. Num plot-twist hitchcockiano, \u201cMeu nome era Eileen\u201d se transforma num thriller de virar as p\u00e1ginas em seus momentos finais, numa guinada inesperada e surpreendente.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em> &#8220;Meu nome era Eileen&#8221; recebeu o pr\u00eamio Hemingway Foundation\/ PEN e foi finalista do Booker Prize.<\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"An Evening with Ottessa Moshfegh\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ER678_Dy0M4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Ottessa Moshfegh: 2016 PEN\/Hemingway Winner\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/l0ygaE1TKg0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Ottessa Moshfegh Interview - Man Booker Prize 2016\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/tBEGOyNBNF4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Gabriel Pinheiro \u00e9 jornalista. Escreve sobre suas leituras tamb\u00e9m no Instagram:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tgpgabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@tgpgabriel<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Meu nome era Eileen&#8221; venceu o pr\u00eamio Hemingway Foundation\/ PEN e foi finalista do Booker Prize. 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