{"id":64734,"date":"2022-02-28T12:05:00","date_gmt":"2022-02-28T15:05:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=64734"},"modified":"2022-04-08T11:04:25","modified_gmt":"2022-04-08T14:04:25","slug":"entrevista-o-roteirista-pedro-candido-fala-sobre-fortaleza-hotel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/02\/28\/entrevista-o-roteirista-pedro-candido-fala-sobre-fortaleza-hotel\/","title":{"rendered":"Entrevista: o roteirista Pedro C\u00e2ndido fala sobre &#8220;Fortaleza Hotel&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/daniel.tavares.96343\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Daniel Tavares<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ir embora. Largar tudo. Largar os locais que foram palco da inf\u00e2ncia, da juventude, do primeiro beijo, do primeiro namorado, do milagre de tornar-se m\u00e3e, do milagre de continuar vivendo, mesmo em meio \u00e0 pobreza, \u00e0 viol\u00eancia, \u00e0 falta de oportunidades&#8230; largar a m\u00fasica que embalou tudo isso. Fortaleza. Fortitudine. Nome de cidade. Nome de uma qualidade. Nem sempre quem nasce em Fortaleza \u00e9 forte, mas para viver em Fortaleza \u00e9 preciso ser forte. E \u00e9 assim no fict\u00edcio Fortaleza Hotel, onde acontece importante parte da trama do primeiro filme dos roteiristas <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/pedrocandidoh\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pedro C\u00e2ndido<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/isadora_m_rodrigues\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Isadora Rodrigues<\/a>, segundo longa-metragem do cineasta <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/armandopraca\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Armando Pra\u00e7a<\/a>. O hotel \u00e9 fict\u00edcio, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, mas, quem sabe, \u00e9 tamb\u00e9m imagem crua, real e simples de muitos que poderiam se chamar Manaus Hotel, Teresina Hotel, S\u00e3o Paulo Hotel&#8230; Se o nome do filme \u00e9 \u201cFortaleza Hotel\u201d (2022) &#8211; em cartaz nos cinemas e j\u00e1 nos principais streamings &#8211; isto \u00e9 mera arbitrariedade do destino o fato de seus principais criadores serem cearenses. Nada mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ir embora. Talvez voltar um dia. Talvez, &#8220;nas Oropa&#8221;, tal qual uma cangaceira abrindo veredas na caatinga com um fac\u00e3o, abrir caminho para um futuro melhor, talvez, para a filha, encontrar onde faz muito pouco sol o seu lugar ao sol. Ir embora. Ir embora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos primeiros segundos de filme, numa cena que, de certa forma, busca em nossa mem\u00f3ria os momentos iniciais de &#8220;O Poderoso Chef\u00e3o&#8221;, a atriz Cl\u00e9bia Souza (em atua\u00e7\u00e3o impressionante), de &#8220;O Som ao Redor&#8221; e &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/09\/02\/cinema-bacurau-de-kleber-mendonca-filho-e-juliano-dornelles\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bacurau<\/a>&#8220;, responde em um ingl\u00eas quase perfeito as perguntas que, acreditamos, s\u00e3o da consulesa, do oficial de imigra\u00e7\u00e3o, de algu\u00e9m em Dublin que aprovaria a sua estada por tr\u00eas meses na capital de S\u00e3o Patr\u00edcio, de f\u00e9rias, em visita \u00e0 sua amiga Dalva. \u00c9 mentira. \u00c9 tudo mentira. Pilar mente. Pilar mente para n\u00f3s e mentir\u00e1 a qualquer irland\u00eas com quem conversar. Isso se puder conversar, j\u00e1 que at\u00e9 o ingl\u00eas que demonstra neste in\u00edcio de filme tamb\u00e9m \u00e9 mentira. Pilar n\u00e3o \u00e9 uma personagem perfeita. N\u00e3o \u00e9 hero\u00edna, n\u00e3o \u00e9 vil\u00e3. \u00c9 um nada. \u00c9 como todos aqueles milh\u00f5es de nadas que est\u00e3o em cada canto do Brasil, sem ter onde cair mortos, sem querer cair mortos t\u00e3o cedo, lutando para sobreviver. \u00c9 camareira de um hotel sem glamour e sem estrelas na capital alencarina, m\u00e3e aos treze, moradora de periferia onde a viol\u00eancia e os churrasquinhos &#8220;de gato&#8221; disputam palmo a palmo, batalhadora, mas que, diante das dificuldades da vida, seja este o seu atenuante, n\u00e3o vai se esquivar de mentir se necess\u00e1rio. Nem de fazer coisa pior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua &#8220;antagonista&#8221;, n\u00e3o no sentido de quem seria a &#8220;bad guy&#8221; contra a mocinha que Pilar jamais ser\u00e1, mas no sentido de quem rivaliza com ela pela aten\u00e7\u00e3o durante o (mais curto que deveria ser) tempo de proje\u00e7\u00e3o, \u00e9 Shin. Shin \u00e9 verdade, at\u00e9 no nome. Coreana, rec\u00e9m-vi\u00fava e vivida por Lee Young-lan, ou Yeong-ran Lee (segura, contida, mas trai\u00e7oeiramente pronta para nos levar \u00e0s l\u00e1grimas se nos encontrar de guarda baixada), conhecida em sua terra natal, premiada no Festival de Berlim e no Asia-Pacific Film Festival, dubladora da s\u00e9rie Sonic (inspirada no famoso jogo) e ainda desconhecida por aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um turbilh\u00e3o de acontecimentos coloca as duas mulheres frente a frente, e frente a si mesmas, dentro e fora do Fortaleza Hotel. E \u00e9 a partir delas, de seus conflitos internos e suas atitudes perante uma a outra que a principal personagem do filme se v\u00ea dada \u00e0 luz: a solidariedade. E foi principalmente sobre solidariedade e como ela aparece no Fortaleza Hotel, ou talvez sobre o Brasil Hotel, que conversamos com Pedro C\u00e2ndido, que via os filmes do Freddie Krueger escondido da m\u00e3e, mas tamb\u00e9m sobre projetos futuros, sobre o sucateamento da cultura no Brasil hoje e outros assuntos na entrevista que voc\u00ea confere agora.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Fortaleza Hotel | Trailer EXCLUSIVO Oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/JKJ1UL4YVtE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como nasceu a hist\u00f3ria de Fortaleza Hotel?<\/strong><br \/>\nO projeto nasceu em 2015, quando eu e a Isadora entramos no Laborat\u00f3rio de Roteiro do Porto Iracema das Artes, uma institui\u00e7\u00e3o financiada pelo estado, ligada \u00e0 produ\u00e7\u00e3o cultural e audiovisual. Eu e Isadora j\u00e1 \u00e9ramos amigos h\u00e1 alguns anos e decidimos fazer algo juntos. Foi quando a gente resolveu tentar a sele\u00e7\u00e3o pro laborat\u00f3rio e entramos nessa jornada de quase 8 meses. L\u00e1, com a tutoria do Karim A\u00efnouz, Marcelo Gomes e do S\u00e9rgio Machado a gente foi desenvolvendo pouco a pouco o roteiro. Desde o in\u00edcio j\u00e1 existia a Pilar, uma mulher jovem e trabalhadora, que estava em constante movimento, tentando sobreviver em maio as adversidades. Era uma mulher que se parecia com a gente, com mulheres que a gente conhece, que cruzamos nas ruas de Fortaleza. Al\u00e9m disso, quer\u00edamos contar a hist\u00f3ria de um encontro e de que forma esses encontros, por mais inusitados que possam ser, podem mudar a trajet\u00f3ria das nossas vidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fale um pouco mais do envolvimento de voc\u00eas com o cinema. Quais s\u00e3o seus \u00eddolos, filmes mais marcantes, assunto que mais gostam de ver nas telas?<\/strong><br \/>\nEu sempre gostei de filmes. Fui crian\u00e7a nos anos 90, no interior do Cear\u00e1, numa \u00e9poca e num contexto socioecon\u00f4mico em que o \u00fanico acesso ao cinema era atrav\u00e9s dos filmes que passavam na TV aberta. A vida toda eu tive vontade de fazer parte do que eu via ali na tela da TV, mas tinha a menor ideia do que era de fato cinema ou de como era feito. Era tudo muito distante. Os filmes que eu mais gostava era aqueles que passavam ali, quase todos americanos. Minhas refer\u00eancias eram \u201cJurassic Park\u201d, \u201cTitanic\u201d, os filmes de terror do Freddy Krueger que passavam a tarde e que eu via escondido da minha m\u00e3e. Mas eram tamb\u00e9m as novelas, aquele olhar melodram\u00e1tico sobre a vida que at\u00e9 hoje acho que ainda me influencia. Mas a\u00ed veio a internet, os anos, a minha entrada na Universidade Federal do Cear\u00e1 e tudo que eu descobri naquele espa\u00e7o. Foi l\u00e1 que eu e Isadora nos conhecemos, partilhamos uma vida e desejos em comum. Foi na gradua\u00e7\u00e3o que comecei a ver mais cinema europeu, asi\u00e1tico, nacional, cinema de realizadores que eu n\u00e3o conhecia e que vez ou outra eram apresentados em sala de aula ou nos cineclubes da Casa Amarela Euz\u00e9bio Oliveira. Ter refer\u00eancias \u00e9 muito importante. Embora eu acredite que a mat\u00e9ria-prima de uma boa hist\u00f3ria seja a vida e as pessoas comuns, conhecer essas refer\u00eancias, ter sentado quase do lado da <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/05\/23\/cinema-varda-por-agnes-de-agnes-varda\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Agn\u00e8s Varda<\/a>, numa sess\u00e3o especial da Casa Amarela em que um filme dela estava sendo exibido (nessa \u00e9poca, 2009, eu n\u00e3o fazia ideia de quem era a Varda, s\u00f3 que era uma diretora francesa importante que estava visitando a UFC), as conversas em mesa de bar sobre filmes e sobre a cidade, tudo isso eu acredito que comp\u00f5e o que se tornou o \u201cFortaleza Hotel\u201d. E sobre o que eu gosto de ver na tela\u2026 N\u00e3o sei se conseguiria apontar um assunto, ou um g\u00eanero espec\u00edfico que eu goste mais. Eu penso que a sala de cinema tem uma energia especial, tudo se transforma em outra coisa, maior, mais m\u00e1gica, mais desconcertante. E acho que esse espa\u00e7o meio m\u00e1gico precisa ter gente, tanto na tela quando fazendo cinema. Tem muita gente boa a\u00ed fora, nas ruas aqui de Fortaleza, das ruazinhas das cidades do interior. Gente que tem hist\u00f3ria pra contar, gente que pode contar hist\u00f3rias que emocionem e fa\u00e7am a gente ser outra coisa durante uma hora e meia de dura\u00e7\u00e3o de um filme. \u00c9 isso o que eu gostaria de ver na tela de cinema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi o processo de &#8220;composi\u00e7\u00e3o&#8221; desta hist\u00f3ria?<\/strong><br \/>\nAcho que j\u00e1 falei um pouco disso. Mas o \u201cFortaleza Hotel\u201d surgiu em torno da Pilar e da vontade de falar de encontros e despedidas. A Pilar queria ir embora, tentar uma vida melhor longe daqui, escapar das dificuldades, fugir. Esse era um desejo comum a muitos de n\u00f3s. Todo mundo conhece um primo ou uma amiga que foi embora em busca de oportunidades. Na tentativa de falar desse encontro e dessa amizade improv\u00e1vel, pensamos nessa outra personagem, que a primeira vista \u00e9 algu\u00e9m muito distante, muito diferente, algu\u00e9m que vem de outro universo. Foi assim que surgiu a Shin, essa mulher sul-coreana mais velha e de um outro contexto cultural e econ\u00f4mico. Essa personagem nasceu quando vimos uma reportagem sobre os imigrantes sul-coreanos em Fortaleza. Muitos deles eram engenheiros que vieram trabalhar na Usina Sider\u00fargica do Pec\u00e9m, e dos quais sab\u00edamos muito pouco. Imagin\u00e1vamos como seria voc\u00ea sair da sua cidade e viajar para o outro lado do mundo. O que h\u00e1 de diferente entre eles e a gente? O que h\u00e1 de parecido? Quais as dores e quais os desejos em comum? A partir da\u00ed a hist\u00f3ria foi se delineando, pouco a pouco, sempre em torno de Pilar, dos seus sonhos e desejos, e do encontro com essa dist\u00e2ncia, com a Shin.<\/p>\n<figure id=\"attachment_64741\" aria-describedby=\"caption-attachment-64741\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-64741 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Pedro-Candido.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"542\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Pedro-Candido.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Pedro-Candido-300x217.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-64741\" class=\"wp-caption-text\"><em>Pedro C\u00e2ndido assina o roteiro de &#8220;Fortaleza Hotel&#8221; ao lado de Isadora Rodrigues (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o Instagram)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual a principal mensagem que voc\u00eas querem transmitir com \u201cFortaleza Hotel\u201d?<\/strong><br \/>\nAcho que o \u201cFortaleza Hotel\u201d fala sobre empatia, no sentido mais simples do termo, dessa capacidade humana de se colocar no lugar do outro, de tentar compreender suas dores e seus desejos. E isso n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, basta olhar pro que a gente t\u00e1 vivendo no mundo. S\u00e3o duas pessoas muito diferentes, que n\u00e3o falam a mesma l\u00edngua e n\u00e3o partilham os mesmos c\u00f3digos. Mas s\u00e3o duas mulheres, cada uma vivendo o seu pr\u00f3prio pesadelo particular, mas que nesse momento espec\u00edfico, s\u00f3 conseguem contar uma com a outra. Uma das nossas preocupa\u00e7\u00f5es era de que o p\u00fablico se conectasse com a Pilar desde o in\u00edcio e assim pudesse compreender seus desejos, suas a\u00e7\u00f5es e as decis\u00f5es que vai tomando ao longo do caminho. Que escolha ela tinha? Que escolha essas duas mulheres tinham diante disso tudo? O que voc\u00ea faria no lugar delas? De alguma forma essa dita empatia de que tanto o filme fala atrav\u00e9s da vida dessas duas personagens \u00e9 um sentimento que esperamos que o p\u00fablico tamb\u00e9m possa acessar ao ver \u201cFortaleza Hotel\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Embora a hist\u00f3ria n\u00e3o pare\u00e7a nada com a hist\u00f3ria de voc\u00eas dois, h\u00e1 algum tra\u00e7o autobiogr\u00e1fico? Algum momento da vida de voc\u00eas que voc\u00eas tenham passado por algum perrengue para o qual n\u00e3o viam solu\u00e7\u00e3o alguma e a ajuda veio de onde menos esperavam?<\/strong><br \/>\nPerrengue a gente passa sempre (risos). Mas de fato n\u00e3o h\u00e1 um car\u00e1ter autobiogr\u00e1fico na cria\u00e7\u00e3o dessas personagens e da hist\u00f3ria delas. Acho que o roteiro do \u201cFortaleza Hotel\u201d \u00e9 fruto dos filmes que vimos, das mulheres que conhecemos, das nossas m\u00e3es e amigas, dos encontros e conversas que tivemos ao longo do processo de escrita, os livros que lemos, do que a gente v\u00ea nos notici\u00e1rios, no transporte coletivo, ao passear pela cidade, dos nossos sonhos e pesadelos. Nesse sentido h\u00e1 muito de n\u00f3s ali sim. Assim como muito do Armando, diretor do filme. Depois do laborat\u00f3rio, durante os dois anos seguintes que ficamos pensando o roteiro para ser gravado, conversamos muito n\u00f3s tr\u00eas. Ele tamb\u00e9m trouxe quest\u00f5es, ideias, percep\u00e7\u00f5es. Sinto que a gente conseguiu afinar nosso olhar sobre a hist\u00f3ria e sobre as personagens, isso foi muito importante pra que ele pudesse fazer o filme, colocar sua vis\u00e3o como realizador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00eas entraram em contato com a atriz que faz o papel de Shin? H\u00e1 algum significado por tr\u00e1s do nome que escolheram para a personagem?<\/strong><br \/>\nEu e a Isadora ainda est\u00e1vamos trabalhando na vers\u00e3o final do roteiro, a que vai ser finalmente filmada, quando o Maur\u00edcio (produtor) e o Armando come\u00e7aram a tentar esse contato com a Cor\u00e9ia do Sul. Uma produtora de l\u00e1 ajudou no processo, fazendo uma primeira sele\u00e7\u00e3o de poss\u00edveis atrizes pro papel da Shin. Depois disso os dois viajaram pra Seul e ficaram uns dias conhecendo umas atrizes, fazendo testes. A gente ia conversando com eles a dist\u00e2ncia, acompanhando. Foi quando chegaram na Lee Young Lan. A gente n\u00e3o conhecia o trabalho dela, mas ela era a Shin. Foi interessante porque esses \u00faltimos ajustes no roteiro foram feitos com a gente j\u00e1 conhecendo a cara dessa mulher, o fato de ela dan\u00e7ar tango e tantas coisas que a atriz trazia dela pro personagem. Eu e a Isadora fomos no set de filmagem em um dos dias de grava\u00e7\u00e3o era muito impactante pra gente, roteiristas estreantes, ver as personagens que a gente imaginou s\u00f3 na nossa cabe\u00e7a durante tanto tempo, ali, existindo no corpo da Cl\u00e9bia Souza e da Lee Yong Lee. Nunca vou esquecer a sensa\u00e7\u00e3o. Sobre o nome, foi meio natural. Ainda na \u00e9poca do laborat\u00f3rio a gente fez uma pesquisa r\u00e1pida sobre nomes femininos populares na Cor\u00e9ia do Sul. Entre v\u00e1rios, Shin parecia bonito, sonoro, a gente imaginava a Pilar falando esse nome, assim como imagin\u00e1vamos a Shin falando Pilar. Depois descobrimos que Shin significava algo como &#8220;verdade&#8221;, mas a\u00ed j\u00e1 n\u00e3o importava tanto, a Shin j\u00e1 era Shin.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-64736 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/fortalezahotel2.jpg\" alt=\"\" width=\"704\" height=\"1038\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/fortalezahotel2.jpg 704w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/fortalezahotel2-203x300.jpg 203w\" sizes=\"(max-width: 704px) 100vw, 704px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como \u00e9 fazer filmes em um pa\u00eds com o governo que n\u00f3s temos atualmente? Voc\u00ea acha que se tivesse escrito este roteiro h\u00e1, digamos, 10 anos atr\u00e1s, ele teria chance de chegar \u00e0s telas em menos tempo?<\/strong><br \/>\nNossa, isso que a gente t\u00e1 vivendo \u00e9 um pesadelo. Acho que n\u00e3o teria outra palavra pra descrever. Pra voc\u00ea ter uma ideia, a gente come\u00e7ou a escrever esse roteiro em 2015, quase sete anos atr\u00e1s. Ganhamos um edital de financiamento da Ancine em 2016, o PRODECINE. Foi uma festa. Imagina voc\u00ea conseguir financiar a produ\u00e7\u00e3o do seu primeiro roteiro. J\u00e1 em 2016 a gente sabia que as coisas eram dif\u00edceis e que t\u00ednhamos muito o que comemorar com uma conquista como essa. E uma conquista que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 nossa, dos roteiristas, do diretor, do produtor, mas do cinema cearense. Fazendo filmes a gente fortalece um mercado, uma categoria, o investimento que \u00e9 feito na cultura. Eu gosto sempre de frisar a import\u00e2ncia do investimento p\u00fablico em arte e cultura. N\u00e3o existiria \u201cFortaleza Hotel\u201d se n\u00e3o existisse o Porto Iracema das Artes, uma institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica de forma\u00e7\u00e3o em cinema a audiovisual na cidade de Fortaleza. Se n\u00e3o existisse a Ancine e os editais de desenvolvimento e produ\u00e7\u00e3o financiados por ela. Investimento de fato. O cinema \u00e9 uma arte coletiva e \u00e9 preciso muita gente pra se fazer um filme, Muita gente que recebe sal\u00e1rio, que tem a oportunidade de trabalhar, de produzir, de pagar suas contas, de fazer a economia girar. Isso \u00e9 importante. E o p\u00fablico existe. As pessoas querem consumir arte, cinema, m\u00fasica, teatro. Bem\u2026 Tudo tem sido destru\u00eddo nos \u00faltimos anos. H\u00e1 um projeto em curso no pa\u00eds, um projeto de destrui\u00e7\u00e3o da cultura, destrui\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. Terra arrasada \u00e9 mais f\u00e1cil de ocupar e dominar. O roteiro n\u00e3o foi escrito h\u00e1 10 anos, mas h\u00e1 seis anos atr\u00e1s. A verdade \u00e9 que quando se trata de cinema independente as coisas s\u00e3o mais lentas, os processos mais vagarosos mesmo. Al\u00e9m disso a gente deu de cara com a pandemia. Isso tudo atrasou ainda mais o lan\u00e7amento do filme. E se produzir \u00e9 dif\u00edcil, distribuir \u00e9 ainda pior. N\u00e3o parece ser interesse das salas de cinema comercial passarem esse tipo de produ\u00e7\u00e3o. H\u00e1 muito dinheiro envolvido para que o super-her\u00f3is, garotos propaganda dos EUA, estejam abarrotando as salas de cinema do pa\u00eds n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que est\u00e3o fazendo atualmente? Quais os planos para o futuro?<\/strong><br \/>\nA gente segue tentando fazer cinema, mesmo na dificuldade. Eu e Isadora estamos no doutorado em Comunica\u00e7\u00e3o na Universidade Federal de Pernambuco, desenvolvendo pesquisas ligadas a cinema. Ela terminando de escrever a tese, eu come\u00e7ando. Cheio de medos e apreens\u00f5es, j\u00e1 que assim como a cultura, a pesquisa no Brasil tamb\u00e9m tem sido alvo de ataques ferozes do atual governo. A Isadora escreveu outro roteiro que vai ser dirigido pelo Marcelo Gomes, realizador pernambucano e que deve sair em breve. Eu tamb\u00e9m escrevi outro roteiro, junto com a Ta\u00eds Monteiro, roteirista e fot\u00f3grafa cearense. Conseguimos financiamento atrav\u00e9s de um edital da SECULT &#8211; CE e da Lei Audir Blanc. O longa \u00e9 dirigido pela Jana\u00edna Marques, diretora cearense, j\u00e1 foi todo gravado e tem previs\u00e3o pra ser lan\u00e7ado no final desse ano ou come\u00e7o do ano que vem. Seguimos trabalhando e tentando contar hist\u00f3rias em meio a esse caos e incerteza que vivemos, mas mantenho o otimismo e o orgulho de conseguir fazer cinema cearense apesar de tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como voc\u00eas enxergam o futuro do Brasil? Situa\u00e7\u00f5es como a de Pilar s\u00e3o comuns. Voc\u00eas acreditam que h\u00e1 chances de evoluirmos e n\u00e3o haver mais lugar para &#8220;Fortaleza Hoteis&#8221; em algum tempo no futuro?<\/strong><br \/>\n\u00c9 o que eu espero. N\u00e3o t\u00e1 f\u00e1cil manter qualquer otimismo diante do cen\u00e1rio atual, mas acho que precisamos acreditar que as coisas podem ser melhores. Ali\u00e1s, com certeza elas podem ser melhores, a gente precisa fazer algo a respeito. O filme, embora explore cen\u00e1rios de injusti\u00e7a e desigualdade, tenta mostrar que de perto todos temos medos e desejos em comum. \u00c9 a hist\u00f3ria de uma mulher comum, trabalhadora, que sonha em ter uma vida melhor, que a filha tenha uma vida mais digna, que quer ganhar um sal\u00e1rio mais justo e que o estado ofere\u00e7a alguma seguran\u00e7a para a sua exist\u00eancia. Espero que as pessoas n\u00e3o precisem deixar sua casa pra tr\u00e1s porque n\u00e3o conseguem mais viver, mas que possam escolher se aventurar pelo mundo por desejo de conhecer outras coisas, outras pessoas, ver outros lugares. O desejo de voar pra longe eu acho que \u00e9 muito potente, a necessidade de deixar tudo pra tr\u00e1s em busca de sobreviver, n\u00e3o parece t\u00e3o certo. A gente v\u00ea as not\u00edcias e pesquisas sobre o clima e sobre as mudan\u00e7as no planeta. Muitas falam de uma quantidade assustadora de refugiados clim\u00e1ticos. Isso assusta, principalmente porque sabemos que quem mais vai sofrer com esse tipo de viol\u00eancias s\u00e3o aqueles mais pobres, mais desassistidos. De alguma forma eu vejo a hist\u00f3ria da Pilar com outros olhos hoje. Talvez porque tenha um afastamento do roteiro, escrito j\u00e1 h\u00e1 algum tempo. Penso que o que est\u00e1 ali, constru\u00eddo pela nossa hist\u00f3ria, uma tentativa de apontar que precisamos olhar uns pros outros com mais humanidade e empatia, pra que assim a gente possa atravessar tudo isso juntos. Parece meio ut\u00f3pico, mas a gente precisa acreditar em alguma coisa, n\u00e9?<\/p>\n<figure id=\"attachment_64744\" aria-describedby=\"caption-attachment-64744\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-64744 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/fotalezahotel2l.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/fotalezahotel2l.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/fotalezahotel2l-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-64744\" class=\"wp-caption-text\"><em>Cena de &#8220;Fortaleza Hotel&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Caso surja a oportunidade, voc\u00eas se veem escrevendo roteiros de novelas\/seriados?<\/strong><br \/>\nClaro. Vi uma entrevista do L\u00e1zaro Ramos dia desses e perguntaram se ele gostava mais de fazer novela, cinema ou teatro. Ele respondia que queria pagar as contas (risos). Pode parecer estranho, mas diante do cen\u00e1rio atual, conseguir trabalhar e realizar projetos j\u00e1 \u00e9 muita coisa. Conhe\u00e7o muita gente talentosa que t\u00e1 sem conseguir trabalhar. Como eu falei no come\u00e7o, cresci vendo novelas, filmes e seriados que passavam na TV aberta. De alguma forma eles tamb\u00e9m comp\u00f5em as minhas refer\u00eancias e os elementos que alimentam as hist\u00f3rias que eu crio. Meu desejo maior \u00e9 contar boas hist\u00f3rias, seja onde for, de que forma for. Tenho acompanhado as produ\u00e7\u00f5es nacionais recentes, feitas pros canais de televis\u00e3o e de streaming. Tem muita coisa boa surgindo. Gente nova, novo(a)s roteiristas, diretoras, atrizes, atores. Acho que \u00e9 um mercado em ascens\u00e3o e queremos fazer parte dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que conselho voc\u00eas dariam para quem gostaria de come\u00e7ar a escrever roteiros?<\/strong><br \/>\nAcho que qualquer pessoa pode escrever uma boa hist\u00f3ria, mas pensar numa hist\u00f3ria e transform\u00e1-la num roteiro \u00e9 um processo mais dif\u00edcil, principalmente sozinho. Ent\u00e3o vale buscar companhia, algu\u00e9m que queira escrever junto, pesquisar se tem algum laborat\u00f3rio, curso, oficina na cidade. Tem muita coisa na internet tamb\u00e9m, de gra\u00e7a. Pra escrever um roteiro \u00e9 importante saber o que \u00e9 um roteiro, qual a estrutura desse tipo de escrita. Ent\u00e3o \u00e9 importante ver filmes e s\u00e9ries, mas tamb\u00e9m ler roteiros. Tem muito roteiro dispon\u00edvel online. Acho que o principal trabalho de um roteirista \u00e9 pesquisar, mergulhar na hist\u00f3ria que se est\u00e1 querendo criar, no cora\u00e7\u00e3o dos personagens que est\u00e1 escrevendo. Pesquisar tamb\u00e9m quais os canais de acesso, pequenas produtoras, gente que tem interesse em novas hist\u00f3rias, em novos talentos. E paci\u00eancia (risos), infelizmente as coisas ainda acontecem de forma lenta por aqui, mas acontecem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que falta para um filme brasileiro ganhar um Oscar?<\/strong><br \/>\nNossa, n\u00e3o sei se saberia responder essa pergunta (risos). Acho que s\u00e3o muitos fatores. Mas pra mim o principal deles \u00e9 investimento. Pra que tenhamos bons filmes, capazes de penetrar na grande ind\u00fastria do cinema americano, os filmes precisam ser feitos. E pra que os filmes sejam feitos, o pa\u00eds precisa investir na produ\u00e7\u00e3o de boas hist\u00f3rias. Elas est\u00e3o por a\u00ed, acredite. Mas minha esperan\u00e7a \u00e9 que a gente construa um cinema nacional forte o suficiente para que tenhamos nossos pr\u00f3prios festivais e premia\u00e7\u00f5es importantes. J\u00e1 temos, claro, mas isso precisa ser fortalecido inv\u00e9s de ser atacado. Claro, o Oscar \u00e9 um objeto de desejo pra qualquer pessoa que trabalhe com cinema, mas se existirem boas hist\u00f3rias, bons filmes e boas campanhas em torno deles, a gente pode ganhar qualquer coisa.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"DIRETOR COMENTA O FILME &#039;FORTALEZA HOTEL&#039;\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wjVLG65T7bs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Daniel Tavares (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/daniel.tavares.96343\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Facebook<\/a>) \u00e9 jornalista e mora em Fortaleza. Colabora com o Scream &amp; Yell desde 2014.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Segundo longa-metragem do cineasta Armando Pra\u00e7a, &#8220;Fortaleza Hotel&#8221; conta a hist\u00f3ria de duas mulheres que acabam se aproximando e estabelecendo uma intensa rela\u00e7\u00e3o de solidariedade, buscando encontrar, uma na outra, a solu\u00e7\u00e3o para seus problemas.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/02\/28\/entrevista-o-roteirista-pedro-candido-fala-sobre-fortaleza-hotel\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":10,"featured_media":64735,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64734"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/10"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=64734"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64734\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":64746,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/64734\/revisions\/64746"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/64735"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=64734"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=64734"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=64734"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}