{"id":64720,"date":"2022-02-26T23:19:00","date_gmt":"2022-02-27T02:19:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=64720"},"modified":"2022-03-24T12:34:36","modified_gmt":"2022-03-24T15:34:36","slug":"homenagem-o-cineasta-geraldo-sarno-1938-2022-em-uma-entrevista-sobre-seu-ultimo-filme-sertania-2020","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/02\/26\/homenagem-o-cineasta-geraldo-sarno-1938-2022-em-uma-entrevista-sobre-seu-ultimo-filme-sertania-2020\/","title":{"rendered":"Homenagem: O cineasta Geraldo Sarno (1938\/2022) em uma entrevista sobre seu \u00faltimo filme, &#8220;Sert\u00e2nia&#8221; (2020)"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O diretor e roteirista baiano Geraldo Sarno nos deixou em 22 de fevereiro aos 83 anos. \u201cViramundo\u201d (1965) e \u201cAuto da Vit\u00f3ria\u201d (1966), seus primeiros filmes de uma filmografia com quase 20 longas-metragens entre 1963 e 2020, serviram de inspira\u00e7\u00e3o por abordar temas da cultura popular do sert\u00e3o nordestino, o que tamb\u00e9m esteve presente em trabalhos seguintes como \u201cOs Imagin\u00e1rios\u201d (1970), e \u201cO Engenho\u201d (1970).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois anos atr\u00e1s, lan\u00e7ando \u201cSert\u00e2nia\u201d (2020), seu \u00faltimo filme, na 23\u00aa Mostra de Cinema de Tiradentes, um Geraldo Sarno empolgado falava com satisfa\u00e7\u00e3o sobre sua obra derradeira, e revelava: \u201cNo fundo, \u2018Sert\u00e2nia\u2019 tem uma liga\u00e7\u00e3o com \u2018Viramundo\u2019. O her\u00f3i do \u2018Sert\u00e2nia\u2019 \u00e9 um viramundo\u201d. \u201cSert\u00e2nia\u201d \u00e9 um brutal estudo da identidade do povo brasileiro atrav\u00e9s do olhar de um imigrante que escapa, ainda crian\u00e7a, junto \u00e0 m\u00e3e, do massacre de Canudos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como forma de homenagear o grande cineasta Geraldo Sarno, o jornalista Jo\u00e3o Paulo Barreto resgata essa entrevista de 2020, publicada originalmente no jornal baiano A Tarde. Sarno foi dono de uma longa e brilhante carreira em que abordou atrav\u00e9s de document\u00e1rios essa peleja do imigrante do nordeste em terras sudestinas. Abaixo, falando sobre \u201cSert\u00e2nia\u201d, ele rememora \u201cViramundo\u201d, o tema do ex\u00edlio e da migra\u00e7\u00e3o, entre outras coisas. Leia a entrevista e mergulho na obra desse grande cineasta brasileiro.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"SERT\u00c2NIA | Teaser exclusivo Cineplayers\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/VyTdklEcV-Y?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Meio s\u00e9culo depois de \u201cViramundo\u201d, \u00e9 curioso encontrar uma rima entre seu primeiro filme e \u201cSert\u00e2nia\u201d.<\/strong><br \/>\nNo fundo, \u201cSert\u00e2nia\u201d tem uma liga\u00e7\u00e3o com \u201cViramundo\u201d. O her\u00f3i do \u201cSert\u00e2nia\u201d \u00e9 um viramundo. \u00c9 um migrante que sai da Canudos derrotada. Canudos de Antonio Conselheiro. Com a m\u00e3e, ele \u00e9 levado para S\u00e3o Paulo. E depois volta. Formado pelo padrasto na carreira militar, ele volta para o sert\u00e3o e se encontra em um grupo de jagun\u00e7os. Portanto, tem a ver com primeiro filme que eu fiz. Esse \u00e9 um dos temas, o tema do ex\u00edlio, da migra\u00e7\u00e3o. Que \u00e9 uma quest\u00e3o social central nesse pa\u00eds. Como a maior parte da popula\u00e7\u00e3o brasileira em grande parte do territ\u00f3rio nacional n\u00e3o tem uma viabilidade econ\u00f4mica e social, este acaba sendo um pa\u00eds de tangidos pela sorte. A migra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 em uma dire\u00e7\u00e3o \u00fanica. Uma migra\u00e7\u00e3o, na verdade, \u00e9 uma circula\u00e7\u00e3o. A popula\u00e7\u00e3o brasileira, em milhares e milh\u00f5es, circula ao Deus dar\u00e1 pelo territ\u00f3rio nacional. A depender da sorte. Choveu, tem como plantar no sert\u00e3o e milhares voltam para plantar. Tem uma seca de cinco anos, eles v\u00e3o para o sul ou v\u00e3o para a Amaz\u00f4nia, ou v\u00e3o para onde for, e para que? Para encontrar uma maneira de sobreviver. Essa \u00e9 a vida. E ficam nessa circula\u00e7\u00e3o. A\u00ed perde o emprego, a idade n\u00e3o permite mais. N\u00e3o encontram um emprego qualquer que seja em SP ou onde for. Pela idade ou pela doen\u00e7a ou pelo que seja, o cara volta. E volta pior do que quando saiu, \u00e0s vezes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na figura de Ant\u00e3o em sua volta ao sert\u00e3o e busca pelo pai, h\u00e1 muito dessa quest\u00e3o que voc\u00ea aborda de um povo sem ra\u00edzes, sem um passado, e que vive a migrar.<\/strong><br \/>\nAnt\u00e3o volta porque ele quer procurar pelo pai. Este \u00e9 outro tema presente no filme: o da paternidade. Ele tem v\u00e1rios pais no filme. O pr\u00f3prio chefe dele, o Jesu\u00edno, \u00e9 o mesmo ator que faz a figura do pai dele. \u00c9 o Julio Adri\u00e3o. E n\u00e3o \u00e9 por acaso que a gente botou o Julio Adri\u00e3o para fazer o papel do cangaceiro chefe e o papel do pai dele, real, da vida quando ele era menino. O outro, evidentemente, \u00e9 o major que o leva para S\u00e3o Paulo. A m\u00e3e vai trabalhar de empregada na casa do major, e o filho passa a ser criado por ele at\u00e9 a morte da mulher. Ap\u00f3s isso, ele vai em busca do pai no sert\u00e3o. A pergunta constante \u00e9 aquela: &#8220;Cad\u00ea o pai, m\u00e3e? Cad\u00ea o pai? O pai morreu?&#8221; Ele quer o pai, o pai que ele viu ser morto, mas que foi reprimido. Ele passou a vida sem saber o que aconteceu ao pai e a m\u00e3e n\u00e3o contou. Sua volta ao sert\u00e3o em busca do pai \u00e9 um segundo tema do filme. E \u00e9 um tema universal na cultura humana. A quest\u00e3o da paternidade no Brasil, por exemplo, \u00e9 uma quest\u00e3o grav\u00edssima. Quantos milh\u00f5es de brasileiros n\u00e3o conhecem o pai? N\u00e3o viveram em uma fam\u00edlia que tem pai? S\u00e3o milh\u00f5es. O pai \u00e9 a m\u00e3e. N\u00f3s temos historicamente uma quest\u00e3o de constru\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia junto ao povo brasileiro que \u00e9 muito s\u00e9ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tendo o olhar do protagonista como sendo o olhar da pr\u00f3pria c\u00e2mera, \u00e9 pertinente observar como a obra tem na imagem f\u00edlmica esse aprofundamento do seu personagem principal.<\/strong><br \/>\nSim. Este \u00e9 o tema do ver, do olhar. O cinema entra a\u00ed. O tema do olhar. Quando ele v\u00ea o pai, ele n\u00e3o v\u00ea apenas o pai ser morto. A partir da\u00ed, ele perde um v\u00e9u de rela\u00e7\u00e3o ao real, ao mundo. Ele come\u00e7a a ver as coisas como s\u00e3o. \u00c9 quando ele v\u00ea o que acontece com os retirantes. Ele os v\u00ea, e acaba vendo, tamb\u00e9m, a morte do pai, fato que ele tinha reprimido. Ele se v\u00ea crian\u00e7a junto \u00e0 m\u00e3e vendo o pai ser morto. Esse \u00e9 um tema central para mim. O tema do &#8220;Ver&#8221;. Isso em v\u00e1rias sequ\u00eancias. Por exemplo, as duas meninas, cegas e surdas, que nunca v\u00e3o ouvir ou ver nada na vida. Um c\u00e9rebro humano sem vis\u00e3o e sem audi\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 uma trag\u00e9dia terr\u00edvel. Chegamos a isso. A gente vai at\u00e9 esse ponto. N\u00f3s vemos essa quest\u00e3o do ver na luta de cangaceiros e policiais, em que a cegueira dos dois lados faz com que eles se matem em algo sem sentido. S\u00e3o as lutas e as repress\u00f5es que n\u00e3o t\u00eam sentido. Que s\u00e3o feitas do povo contra o povo, mesmo. Enfim, \u00e9 a cegueira. Cegueira pol\u00edtica, cegueira social. \u00c9 uma forma de cegueira porque o olhar \u00e9 mental. Voc\u00ea olha com a mente. Sua mente, seu c\u00e9rebro, sua forma\u00e7\u00e3o cultural, sua forma\u00e7\u00e3o humana, sua forma\u00e7\u00e3o \u00e9tica e social. \u00c9 o que te faz ver. Porque, ver, voc\u00ea v\u00ea a partir de uma perspectiva. Todo olhar tem uma perspectiva. Essa perspectiva \u00e9 cultural. O mesmo fato pode levar duas pessoas diferentes a conclus\u00f5es completamente opostas. \u00c9 a sua educa\u00e7\u00e3o, a sua forma\u00e7\u00e3o cultural que te permite ver. A humanidade no homem s\u00f3 surge dessa forma\u00e7\u00e3o cultural. Educacional. O homem \u00e9 um ser social. \u00c9 a\u00ed que se forma o ser humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Sert\u00e2nia&#8221; traz momentos de quebra da quarta parede do cinema, algo que nos faz adentrar naquele universo que, somado ao fato de que o longa \u00e9 uma subjetiva, gera essa reflex\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o f\u00edlmica. Foi essa a inten\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nA quebra de quarta parede, quebrar o ilusionismo da narra\u00e7\u00e3o que est\u00e1 se desenvolvendo, para mim, tem como objetivo trazer para dentro do filme uma reflex\u00e3o sobre o cinema. Sobre a arte do cinema. Sobre linguagem cinematogr\u00e1fica. O filme, nesse momento, indaga o cinema. Indaga o cinema que est\u00e1 sendo feito. O filme indaga o filme. Lembrando, sim, que a obra toda \u00e9 uma subjetiva. Toda ela se passa na cabe\u00e7a do Ant\u00e3o. \u00c9 ele ferido que pensa aquele filme, que pensa aqueles momentos. Que pensa aquele mundo que o filme tenta traduzir em imagens. E essa mente pensa como? Pensa como cinema. O cineasta \u00e9 a cabe\u00e7a dele, que faz o filme. Ent\u00e3o, para poder tirar a ilus\u00e3o cinematogr\u00e1fica, para que o cinema adquira uma personalidade mais forte, para que se perceba que aquilo \u00e9 um filme, \u00e9 um filme que est\u00e1 narrando, voc\u00ea tem que sair dessa bobajada desse cinema comercial, pura ilus\u00e3o. O filme tem quebras. Uma quebra \u00e9 essa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como se d\u00e1 esse planejamento de montagem?<\/strong><br \/>\nNo set, eu n\u00e3o vejo o que eu filmo. Depois que acabou a filmagem do dia, a equipe vai ver, o fot\u00f3grafo vai revisar, tudo vai ser visto. Mas eu s\u00f3 vejo depois, l\u00e1 na montagem. Eu n\u00e3o perco nenhum plano que est\u00e1 sendo filmado. Mas depois s\u00f3 vejo na montagem. Isso foi uma pr\u00e1tica minha que exercitei durante muitos anos desde o primeiro filme que eu fiz no sert\u00e3o. Porque eu tinha viajar 1500km, ida e volta, ficar uma semana, um m\u00eas, para fazer os filmes document\u00e1rios, e era tudo em pel\u00edcula. N\u00e3o tinha tempo de mandar revelar e voltar para ver. Ent\u00e3o, isso me fez exercitar a mente. Fui me habituando a filmar sem precisar ver a imagem.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Sert\u00e2nia (2020) - Capit\u00e3o Jesu\u00edno\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/FdTiUxnN2_A?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Sert\u00e2nia\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/h4nT_d_aNSE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"FILME BRASILEIRO Viramundo DE  Geraldo Sarno, 1965\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/C8aJEQpZ7lw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Sala de CInema: Geraldo Sarno\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/eBFTPA9lq8I?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O diretor e roteirista baiano Geraldo Sarno nos deixou em 22 de fevereiro aos 83 anos. 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