{"id":63814,"date":"2022-01-10T03:52:00","date_gmt":"2022-01-10T06:52:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=63814"},"modified":"2022-03-07T22:55:56","modified_gmt":"2022-03-08T01:55:56","slug":"entrevista-milena-martins-moura-fala-sobre-seu-livro-a-orquestra-dos-inocentes-condenados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/01\/10\/entrevista-milena-martins-moura-fala-sobre-seu-livro-a-orquestra-dos-inocentes-condenados\/","title":{"rendered":"Entrevista: Milena Martins Moura fala sobre seu livro &#8220;A Orquestra dos Inocentes Condenados&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/linktr.ee\/navionoespaco\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcela G\u00fcther<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escrito durante a pandemia, &#8220;<a href=\"https:\/\/www.editoraprimata.com\/produto\/551144\/a-orquestra-dos-inocentes-condenados-de-milena-martins-moura\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A Orquestra dos Inocentes Condenado<\/a>s&#8221; (Editora Primata, 2021, 102 p.), nova obra da poeta carioca <a href=\"https:\/\/linktr.ee\/milenamartinsmoura\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Milena Martins Moura<\/a>, nasceu da necessidade da palavra como forma de sobreviv\u00eancia. Permeado pelas tem\u00e1ticas da solid\u00e3o, da morte, do medo e dos abalos psicol\u00f3gicos que tudo isso provoca, a obra traz pensamentos sobre a finitude e a fragilidade da vida, mem\u00f3rias nost\u00e1lgicas fundantes e uma discuss\u00e3o necess\u00e1ria sobre a neurodiversidade entre mulheres. O livro conta pref\u00e1cio de Bruna Mitrano e arte de Macaio Poet\u00f4nio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Milena Martins Moura nasceu no sub\u00farbio do Rio de Janeiro em 1986. Al\u00e9m de poeta, \u00e9 editora, tradutora e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Publicou tamb\u00e9m os livros &#8220;Promessa Vazia&#8221; (2011, contos), &#8220;Os Or\u00e1culos dos meus \u00d3culos&#8221; (2014, poesia) e &#8220;Banquete dos S\u00e9culos&#8221; (edi\u00e7\u00e3o da autora, 2021, poesia). \u00c9 editora da revista feminista cassandra e integra as equipes de colunistas da revista Tamarina Liter\u00e1ria e de poetas do portal Fazia Poesia. Tem poemas e contos em portais e revistas como Subversa, Torquato, Mallarmargens, Ru\u00eddo Manifesto, Desvario, tor\u00f3, Arara, Kuruma\u2019t\u00e1, Aboio, Arriba\u00e7\u00e3o, Totem Pagu, Granuja (M\u00e9xico) e Kametsa (Peru).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na conversa abaixo, Milena aprofunda o olhar sobre a constru\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.editoraprimata.com\/produto\/551144\/a-orquestra-dos-inocentes-condenados-de-milena-martins-moura\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">do seu novo livro<\/a>, fala sobre influ\u00eancias literarias e musicais e conta sobre os temas que s\u00e3o recorrentes em sua obra: &#8220;O primeiro deles \u00e9 sem d\u00favida a religi\u00e3o. (&#8230;) Isso leva ao segundo tema recorrente: o corpo feminino, sua rela\u00e7\u00e3o demonizada com o sexo e o prazer, a carga de sujeira e culpa posta sobre menstrua\u00e7\u00e3o, lubrifica\u00e7\u00e3o, mamilos aparentes. Meter religi\u00e3o, sexo, prazer feminino no mesmo poema, numa sociedade que p\u00f5e deus no masculino e legisla sobre o meu \u00fatero, numa sociedade que diz que eu vim de uma costela quando \u00e9 o \u00fatero que d\u00e1 vida, numa sociedade que culpa h\u00e1 mil\u00eanios a mulher pelos erros que o homem comete com ela, \u00e9 uma quest\u00e3o pol\u00edtica&#8221;, explica, completando: &#8220;Outro tema recorrente sempre ser\u00e1 a neurodiversidade&#8221;. Leia a entrevista completa abaixo!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-63817 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/A-Orquestra-Cover.jpg\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"930\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/A-Orquestra-Cover.jpg 720w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/A-Orquestra-Cover-232x300.jpg 232w\" sizes=\"(max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que motivou a escrita dos poemas da \u201cOrquestra\u201d?<\/strong><br \/>\nA solid\u00e3o, o medo e o luto durante a pandemia da Covid-19, principalmente sob uma perspectiva de pessoa neurodiversa. Muitos dos poemas presentes na &#8220;Orquestra&#8221; foram escritos em momentos de crises de ansiedade ou sobrecarga sensorial, fosse para aplac\u00e1-las em seus sinais iniciais, fosse para sair delas. As men\u00e7\u00f5es \u00e0 cor roxa, aos dentes e paredes e \u00e0s mordidas na carne n\u00e3o s\u00e3o \u00e0 toa. Basicamente, esse livro foi como respondi ao meu pr\u00f3prio pedido de socorro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como o luto, um tema que infelizmente se fez presente nesse per\u00edodo pand\u00eamico, influenciou seu novo livro?<\/strong><br \/>\nO livro como um todo \u00e9 um grande luto, porque j\u00e1 nasceu como uma forma de lidar com diversas perdas: de pessoas, da normalidade, da vida como a conhecemos e, at\u00e9 certo ponto, do controle sobre mim mesma. E o que \u00e9 o luto sen\u00e3o o processo de se acostumar com a perda? Por isso, cada poema a seu modo, escrever a &#8220;Orquestra&#8221; foi uma tentativa de me manter firme. N\u00e3o como quem finge firmeza pra ver se acredita ou convence algu\u00e9m, mas como quem se deixa desabar e se refaz das ru\u00ednas, o que \u00e9 uma met\u00e1fora pobre, por\u00e9m bem mais pr\u00f3xima do que se imagina da verdade nesse caso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais s\u00e3o as suas principais influ\u00eancias liter\u00e1rias?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o consigo perceber muitas refer\u00eancias na minha escrita. Eu leio muito sobre muitas coisas e confesso que leio pouca poesia em compara\u00e7\u00e3o com outros g\u00eaneros (embora eu leia muita poesia). Por isso eu cito desde Viviane Mos\u00e9 at\u00e9 Carl Sagan e n\u00e3o sei se eles s\u00e3o influ\u00eancias diretamente. Mas cito autoras que eu gosto de ler: Ma\u00edra Ferreira, Beatriz Rocha, Thain\u00e1 Carvalho, Priscila Branco, Dia Nobre, Heleine Fernandes, Bruna Mitrano entre muitas outras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E quais as musicais, uma vez que a m\u00fasica se insinua em todo o livro, a come\u00e7ar pelo t\u00edtulo?<\/strong><br \/>\nEu escuto muita coisa. MUITA coisa. De \u00f3pera ao funk da feira de Acari, passando por metal e divas do pop. MUITA coisa. Minha playlist vai de Pearl Jam a Dem\u00f4nios da Garoa em dois segundos. Ent\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil antever uma influ\u00eancia clara de artistas espec\u00edficos na &#8220;Orquestra&#8221;. A m\u00fasica \u00e9 mais uma tem\u00e1tica geral. O fato \u00e9 que a m\u00fasica \u00e9 muito presente na minha vida: comecei a estudar canto e teoria musical aos sete anos, estudo canto l\u00edrico h\u00e1 mais de dez anos, toco ukulele e baixo, sou ex-vocalista de bandas de metal. Tenho um contato di\u00e1rio com m\u00fasica, ent\u00e3o \u00e9 normal que eu insira um pouco disso em tudo: na minha vida, na minha arte como um todo, na minha poesia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como a m\u00fasica influenciou estruturalmente os seus poemas?<\/strong><br \/>\nA m\u00fasica parece como instrumento tem\u00e1tico e estrutural, seja de maneira clara, seja no ritmo de leitura que a escolha vocabular de cada verso imprime. Penso sempre os meus poemas com um ritmo espec\u00edfico, que, \u00e9 claro, possivelmente n\u00e3o ser\u00e1 a forma como o leitor vai l\u00ea-los, mas a gente tenta rs. Sinto que, ao escrever um poema, trabalho com um processo semelhante ao que uso quando componho uma m\u00fasica, na escolha das palavras e na quebra dos versos e das estrofes, por exemplo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como mergulhar em artes pl\u00e1sticas influencia a sua escrita?<\/strong><br \/>\nA arte \u00e9 outro elemento sempre presente na minha vida e desde muito cedo. De um tio que foi artista quando jovem herdei uma s\u00e9rie de fasc\u00edculos muito antiga de grandes nomes da pintura e mergulhava neles por horas na inf\u00e2ncia. Tamb\u00e9m herdei dele uma s\u00e9rie de tr\u00eas livros com t\u00e9cnicas de desenho. Comecei a treinar desenho a s\u00e9rio ainda crian\u00e7a, buscando usar as t\u00e9cnicas que aprendia, mas s\u00f3 quase no fim da adolesc\u00eancia consegui uma grana pra fazer um curso de verdade. Hoje eu vacilo entre a completa abstra\u00e7\u00e3o e tentativas de hiper-realismo. Ainda estou aprendendo. A arte costuma acompanhar a escrita. Muitas vezes j\u00e1 retratei meus personagens. Outras, pintei telas com base nos meus contos e poemas; ou o contr\u00e1rio: usei as imagens de pinturas para estruturar a escrita, como cen\u00e1rio ou apenas plano de fundo. A Orquestra teve muitos dos seus poemas transformados em desenhos ou pinturas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea se considera multiartista? Quais s\u00e3o os maiores desafios?<\/strong><br \/>\nQuando uma pessoa se mostra multipotencial em uma sociedade que prega o especialismo, tudo \u00e9 bastante complicado. \u00c9 preciso escolher um dos seus potenciais como o principal e relegar todos os demais \u00e0 categoria hobby, o que significa basicamente anular uma parte enorme de si mesmo. A desculpa da sociedade \u00e9 que, se dedicando a muitas coisas, a pessoa n\u00e3o se torna completamente boa em nenhuma: como um pato, que n\u00e3o anda direito, n\u00e3o nada direito, n\u00e3o voa direito. O que a sociedade especialista esquece \u00e9 que um pato \u00e9 \u00f3timo em ser um pato, que \u00e9 exatamente o que ele \u00e9 (met\u00e1fora roubada da querida artista multipotencial Ninna Oli). Talvez a pessoa multipotencial n\u00e3o consiga mesmo atingir o n\u00edvel de excel\u00eancia de algu\u00e9m que se dedicou a vida inteira a apenas uma atividade, mas o simples fato de se colocar em diversas esferas com igual capacidade deveria ser celebrado, n\u00e3o recha\u00e7ado. \u00c9 claro, existem contas a pagar e voc\u00ea precisa ter uma profiss\u00e3o, mas n\u00e3o podemos fugir do fato de que a sociedade do capital trabalha para que o sujeito n\u00e3o seja potente em nada al\u00e9m do que gera lucro para os detentores do capital. Um c\u00edrculo vicioso de \u201cguarda esse sonho na gaveta e acorda pra vida, moleque\u201d, porque se dedicar ao que nos completa \u00e9 proibido quando \u00e9 preciso dedica\u00e7\u00e3o exclusiva a gerar capital. E \u00e9 assim que se dedicar a uma s\u00f3 arte j\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil, imagine um monte! Ent\u00e3o a resposta \u00e9 sim, considero. Acho que fa\u00e7o v\u00e1rias coisas e algumas at\u00e9 bem. E \u00e9 um saco ser assim sendo pobre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea escreve desde quando? Como come\u00e7ou a escrever?<\/strong><br \/>\nEscrevo desde 1996, quando eu tinha 9 para 10 anos de idade. Tive um av\u00f4 leitor e uma tia professora que me influenciaram a ler desde muito cedo. Aprendi a ler com tr\u00eas anos de idade e a leitura sempre foi uma forma de enfrentamento da realidade da vida. Escrever foi quase uma consequ\u00eancia \u00f3bvia. Comecei a escrever como forma de emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como \u00e9 a sua prepara\u00e7\u00e3o para a escrita, tem algum ritual ou per\u00edodo do dia que escrever flui melhor?<\/strong><br \/>\nSou tradutora de profiss\u00e3o. Por isso, trabalho de casa e tenho liberdade em fazer meus hor\u00e1rios. Posso escolher um pouco melhor em que momento fazer cada coisa, trabalhar, escrever, editar etc. Levanto bem cedo, pego um caf\u00e9 e vou editar ainda cedinho a cassandra, revista de artes e literatura voltada completamente para o trabalho de mulheres. Tamb\u00e9m costumo escrever pela manh\u00e3. Prefiro escrever, editar e outras atribui\u00e7\u00f5es n\u00e3o remuneradas pela manh\u00e3, que \u00e9 mais calma e silenciosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Com qual frequ\u00eancia voc\u00ea costuma escrever?<\/strong><br \/>\nEu rabisco todos os dias rs. A quest\u00e3o \u00e9 que nem sempre se tem o tempo ou o local apropriado para levar \u00e0 frente uma ideia e muitas vezes os prazos dos trabalhos n\u00e3o permitem tamb\u00e9m. Em especial a minha poesia (a prosa nem tanto) \u00e9 muito pensada e escrutinada, o que demanda tempo, sil\u00eancio e solid\u00e3o. Ent\u00e3o, eu vou rabiscando tudo que me aparece e guardo para o momento prop\u00edcio. Mas sempre existe aquele dia em que tudo funciona e eu posso sentar e escrever. Pego as ideias todas guardadas na gaveta e vou juntando, ligando, vendo aonde v\u00e3o dar. Nesses dias, algumas coisas bem legais podem nascer, que \u00e9 o que d\u00e1 o g\u00e1s pra insistir nessa doideira de ser artista num pa\u00eds que n\u00e3o ama muito seus artistas n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea poderia descrever um pouco sobre como \u00e9 o seu processo de escrita?<\/strong><br \/>\nUma vez encontrado o momento\/ambiente certo para a escrita, re\u00fano todas as anota\u00e7\u00f5es que podem vir a formar um poema e tento constru\u00ed-lo. Existem aqueles poemas que quase se constroem sozinhos, v\u00e3o do rabisco ao completo sem sobressaltos. S\u00e3o fruto de \u00e9pocas em que a minha cabe\u00e7a est\u00e1 muito focada em algo. Por outro lado, existem poemas que nascem de uma ideia rabiscada, mas se transformam no meio do caminho. Esse movimento, do anotar ao realmente escrever, \u00e9 sempre muito surpreendente para mim. Gosto de escrever poemas fechados, imag\u00e9ticos, que circulem um universo espec\u00edfico, mas tenham um ritmo de leitura e de fala, e isso faz com que, algumas vezes, a escrita seja dura de engolir. Conseguir a palavra certa nem sempre \u00e9 f\u00e1cil. E o final perfeito \u00e0s vezes precisa ficar no forno alguns dias pra crescer. Por isso, tem momentos em que a prosa me salva. Simplesmente saio escrevendo e vejo aonde vai dar, sem as mesmas amarras. Pode parecer conden\u00e1vel, mas, para algu\u00e9m que passa vinte minutos no mesmo verso e arruma os copos na estante da direita para a esquerda por ordem de tamanho, \u00e9 um bom exerc\u00edcio de soltura. \u00c0s vezes sai at\u00e9 coisa boa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea cultiva novas ideias, a criatividade?<\/strong><br \/>\nAlguns temas s\u00e3o bastante recorrentes na minha produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, mesmo na m\u00fasica ou nas artes pl\u00e1sticas. O primeiro deles \u00e9 sem d\u00favida a religi\u00e3o. Cresci em uma fam\u00edlia cat\u00f3lica muito tradicional. Isso definiu por muito tempo a minha rela\u00e7\u00e3o com meu pr\u00f3prio corpo: o prazer feminino era um tabu inquebrant\u00e1vel na minha inf\u00e2ncia\/adolesc\u00eancia. Isso leva ao segundo tema recorrente: o corpo feminino, sua rela\u00e7\u00e3o demonizada com o sexo e o prazer, a carga de sujeira e culpa posta sobre menstrua\u00e7\u00e3o, lubrifica\u00e7\u00e3o, mamilos aparentes. Meter religi\u00e3o, sexo, prazer feminino no mesmo poema, numa sociedade que p\u00f5e deus no masculino e legisla sobre o meu \u00fatero, numa sociedade que diz que eu vim de uma costela quando \u00e9 o \u00fatero que d\u00e1 vida, numa sociedade que culpa h\u00e1 mil\u00eanios a mulher pelos erros que o homem comete com ela, \u00e9 uma quest\u00e3o pol\u00edtica. Outro tema recorrente sempre ser\u00e1 a neurodiversidade, sobretudo o autismo e suas comorbidades. \u00c9 preciso falar sobre adultos autistas, principalmente mulheres. Suas dificuldades diagn\u00f3sticas, suas dificuldades na vida. Os padr\u00f5es diagn\u00f3sticos ainda s\u00e3o baseados em manifesta\u00e7\u00f5es do espectro no sexo masculino, pelo que muitas mulheres crescem sem o tratamento e as interven\u00e7\u00f5es precoces devidas. Mais do que isso, crescem acostumadas a ser recha\u00e7adas pelos seus pares, sem saber por que s\u00e3o como s\u00e3o. Naturalizando a rela\u00e7\u00e3o de gaslighting. E por isso s\u00e3o mais pass\u00edveis de entrar em relacionamentos (amorosos ou n\u00e3o) abusivos que suas contrapartes neurot\u00edpicas. Mulheres adultas autistas leves n\u00e3o s\u00e3o representadas a n\u00e3o ser como recurso humor\u00edstico (o que voc\u00ea acha que \u00e9 a loira burra do seu pastel\u00e3o preferido?). E se eu n\u00e3o sou representada, no imagin\u00e1rio da massa eu n\u00e3o existo. E se eu n\u00e3o existo eu n\u00e3o tenho lugar de fala.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais s\u00e3o os seus projetos de escrita em andamento? E os que ainda n\u00e3o sa\u00edram do papel?<\/strong><br \/>\nTenho um novo livro de poemas \u00e0 espera, guardadinho, que estou come\u00e7ando a mostrar por a\u00ed e tentar publica\u00e7\u00e3o. Reuni neles alguns poemas sacr\u00edlegos e er\u00f3ticos. Tamb\u00e9m, surpreendentemente mesmo pra mim, terminei um quase-romance, acho-que-romance, que nasceu do que viria a ser um projeto independente mas tomou propor\u00e7\u00f5es maiores. Era algo que eu tinha vontade de escrever h\u00e1 muitos anos e acho que enfim, meio sem querer, consegui.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-63818\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Milena-3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Milena-3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Milena-3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/linktr.ee\/navionoespaco\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcela G\u00fcther<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista, produtora de conte\u00fado, assessora de imprensa e mediadora do Leia Mulheres.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Escrito durante a pandemia, &#8220;A Orquestra dos Inocentes Condenados&#8221; (Editora Primata, 2021, 102 p.), nova obra da poeta carioca Milena Martins Moura, nasceu da necessidade da palavra como forma de sobreviv\u00eancia.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/01\/10\/entrevista-milena-martins-moura-fala-sobre-seu-livro-a-orquestra-dos-inocentes-condenados\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":107,"featured_media":63819,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[5400],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63814"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/107"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=63814"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63814\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":63822,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63814\/revisions\/63822"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/63819"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=63814"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=63814"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=63814"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}