{"id":63770,"date":"2022-01-07T04:14:36","date_gmt":"2022-01-07T07:14:36","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=63770"},"modified":"2022-02-11T02:44:53","modified_gmt":"2022-02-11T05:44:53","slug":"entrevista-sergio-franco-filho-fala-sobre-senderos-pancada-punk-rock-de-estreia-solo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/01\/07\/entrevista-sergio-franco-filho-fala-sobre-senderos-pancada-punk-rock-de-estreia-solo\/","title":{"rendered":"Entrevista: Sergio Franco Filho fala sobre &#8220;Senderos&#8221;, pancada punk-rock de estreia solo"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A caneta come\u00e7a a querer seguir por uma linha de romantiza\u00e7\u00e3o de uma labuta dif\u00edcil: a da supostamente ing\u00eanua ideia de se lutar por fazer m\u00fasica na Bahia sem abrir concess\u00f5es a um mercado local que privilegia poucos com o sucesso comercial e alimenta massas de ignorantes copr\u00f3fagos que aceitam passivamente o que se aprendeu a chamar de m\u00fasica na Bahia condenada \u00e0 felicidade. Mas nesta an\u00e1lise \u00e9 melhor se manter pragm\u00e1tico e n\u00e3o se render a uma falsa ret\u00f3rica que se apoia em termos de um lugar comum tais quais &#8220;resist\u00eancia&#8221;, &#8220;resili\u00eancia&#8221; ou &#8220;fazer art\u00edstico&#8221;. A parada aqui \u00e9 outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A parada aqui tem a ver com sobreviver, mesmo! Tem a ver com se ter uma voz, um talento para a composi\u00e7\u00e3o e um apurado olhar cr\u00edtico da sociedade. Tem a ver com buscar meios de se expressar e de pensar comercialmente e, ao mesmo tempo, se sentir fiel aos seus pr\u00f3prios princ\u00edpios. A n\u00e3o trair seus ideais. E, friso, n\u00e3o romantizar labutas, suor e corres di\u00e1rios em busca de tornar palp\u00e1veis pe\u00e7as art\u00edsticas. No seu trabalho como m\u00fasico, <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/sfrancofilho\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sergio Franco Filho<\/a> conhece bem essa decis\u00e3o. Ao trabalhar na cria\u00e7\u00e3o e lan\u00e7ar \u201c<a href=\"http:\/\/spoti.fi\/3Fcek0K\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Senderos<\/a>\u201d, sua primeira pancada solo de punk rock, o cantor e compositor conhecido no meio musical de Salvador n\u00e3o somente por sua ex-banda, o <a href=\"http:\/\/tortofonogramas.com\/automata\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Automata<\/a>, mas como produtor do selo Torto Fono Gramas, fiel ao punk rock h\u00e1 25 anos, sabia desde o principio quais seriam os desafios no sentido de materializar este projeto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 o lance de precisar realizar. Sem fazer m\u00fasica, a minha vida \u00e9 muito pior. Muito mesmo. E eu fa\u00e7o isso por e para mim. Se conecta a outras pessoas, lindo! E \u00e9 \u00f3bvio que fico feliz quando isso acontece. Tem muita gente na cultura que est\u00e1 na mesma situa\u00e7\u00e3o. Povo na m\u00fasica, artes pl\u00e1sticas, cinema, dan\u00e7a, etc. E, tamb\u00e9m, tem muita gente que desiste, ainda que tenha um trabalho paralelo que d\u00ea para sustentar a atividade art\u00edstica. Eu acho isso triste, mas \u00e9 s\u00f3 como as coisas s\u00e3o&#8221;, explica Sergio de forma direta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre o que foi citado acima, acerca do que significa viver em Salvador e lutar para conseguir se impor em um mercado restrito, Sergio \u00e9 ainda mais centrado. &#8220;O que acontece com a arte na Bahia \u00e9, como quase todo o resto, s\u00f3 capitalismo mesmo: \u00e9 o dono da emissora de TV que tamb\u00e9m tem uma emissora de r\u00e1dio, produtora de shows e um bloco de carnaval e n\u00e3o vai abrir m\u00e3o da fatia dele no mercado. Na cabe\u00e7a de algu\u00e9m assim, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas que n\u00e3o sejam as ultra manjadas e f\u00e1ceis de vender. Eles podem ficar com o grande p\u00fablico, a cena independente sempre encontra um caminho para existir.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No disco, letras ainda mais diretas e que traduzem sem firulas, mas com um imprescind\u00edvel peso, reflex\u00f5es precisas sobre nosso tempo. \u201cVasto Mar de Morte\u201d, minha favorita junto a \u201cNada ao Nada\u201d, traz nos seus versos duas perguntas cujas respostas pensamos saber, mas em seu final, a letra nos faz caminhar (ou nadar) em desesperan\u00e7a. \u00c9, meu velho, se voc\u00ea veio aqui em busca de colo e cafun\u00e9, desculpe. &#8220;De quanto \u00f3dio a gente precisa para beijar a justi\u00e7a? De quanto amor a gente precisa para matar a tirania?&#8221; s\u00e3o perguntas feitas enquanto cremos otimista em um horizonte justo e alcan\u00e7\u00e1vel. Mas tal horizonte \u00e9 o mesmo do vasto mar de seu t\u00edtulo, aquele feito de morte no qual estamos todos parceiros. &#8220;O d\u00e9spota arranja, desde o come\u00e7o de tudo, para que haja t\u00e3o pouca similitude entre n\u00f3s&#8221;, afirma. \u00c9 nessa desigualdade planejada que os canalhas prevalecem.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-63774\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Sergio-Franco-Filho-Senderos-Capa.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Sergio-Franco-Filho-Senderos-Capa.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Sergio-Franco-Filho-Senderos-Capa-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Sergio-Franco-Filho-Senderos-Capa-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda citada, \u201cNada ao Nada\u201d, com sua letra crepuscular a descrever o final inevit\u00e1vel, sem sonhos, sem consumo, sem dividas, traz uma fala de \u201cO Bandido da Luz Vermelha\u201d (1968), cl\u00e1ssico de Rog\u00e9rio Sganzerla, onde ouvimos exatamente essa ideia de aceita\u00e7\u00e3o, de conformismo, de &#8220;nada&#8221;, mas n\u00e3o um nada pesaroso, mas, sim, redentor. \u00c9 isso. Tentamos e aqui estamos, exaustos, do nada ao nada, do c\u00e9u ao ch\u00e3o. Tudo passa. &#8220;A sensa\u00e7\u00e3o que sempre me passou foi mais fim do mundo mesmo. A letra \u00e9 niilista, mas tem l\u00e1 seu momento de esperan\u00e7a (\u00e9 poss\u00edvel?). A m\u00e9trica da voz na segunda estrofe \u00e9 bem Maria Beth\u00e2nia e isso foi totalmente sem querer&#8221;, descreve Sergio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sua trajet\u00f3ria como m\u00fasico e produtor, Sergio Franco comenta sobre essa labuta. \u00c9 percept\u00edvel um cuidado t\u00e9cnico em sua obra oriundo de algu\u00e9m que conhece os percal\u00e7os e a pedras pontiagudas desses senderos a seguir. A capa, com seu aspecto quixotesco (trabalho do ilustrador <a href=\"https:\/\/instagram.com\/andre_ducci\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Andr\u00e9 Ducci<\/a>), remete a tais caminhos. &#8220;Quem faz rock no mundo e, principalmente, no Brasil sabe o que \u00e9 remar contra a mar\u00e9. No final das contas, quase sempre \u00e9 uma empreitada que vira hobby, infelizmente. \u00c9 bacana voc\u00ea relacionar o conceito da arte de \u2018Senderos\u2019 \u00e0s composi\u00e7\u00f5es porque tem tudo a ver: n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 fazer rock que \u00e9 nadar contra a corrente. \u00c9 fazer um som que te satisfa\u00e7a e letras que v\u00e3o al\u00e9m de relacionamentos amorosos ou curti\u00e7\u00e3o de festas acaba alienando mais gente, tamb\u00e9m&#8221;, explica o m\u00fasico e aconselha: &#8220;se voc\u00ea faz arte se preocupando com o que v\u00e3o achar ou se vai vender, \u00e9 melhor desistir. Ou, em se tratando de m\u00fasica, \u00e9 s\u00f3 copiar o que r\u00e1dios populares e a TV aberta sempre tocaram&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao lado de Dill Pereira (ex-Rosa Idiota) na guitarra, baixo e viol\u00f5es, al\u00e9m da mixagem e da grava\u00e7\u00e3o do disco; Gabriel Gomes, da Buster, na bateria, e a masteriza\u00e7\u00e3o de Fernando Sanches, do Againe e O Inimigo, \u201cSenderos\u201d passa longe da descri\u00e7\u00e3o acima em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00fasica feita com base em c\u00f3pias. A originalidade, mesmo que dentro de uma pancada niilista e real, nos leva a algo potente na arte: a capacidade de nos fazer refletir. E sem romantiza\u00e7\u00e3o, friso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O disco est\u00e1 dispon\u00edvel nas plataformas de streaming e para compra atrav\u00e9s de contato direto com o artista no e-mail sergiofrancofilho@yahoo.com, no site do selo <a href=\"http:\/\/tortofonogramas.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Torto Fono Gramas<\/a> atrav\u00e9s de mensagem direta <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/sfrancofilho\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">no perfil do Facebook\u00a0<\/a> e\/ou <a href=\"https:\/\/instagram.com\/sfrancofilho\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">do Instagram<\/a>. Neste papo com o Scream &amp;Yell, o m\u00fasico aprofunda o processo de cria\u00e7\u00e3o de \u201cSenderos\u201d e traz um faixa-a-faixa com as can\u00e7\u00f5es do disco. Confira!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Sergio Franco Filho - Migalhas (2021)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/eTCJxyv-NHY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As letras de &#8220;Senderos&#8221; refletem n\u00e3o somente um modo cr\u00edtico de se enxergar nosso per\u00edodo atual, como, tamb\u00e9m, trazem uma an\u00e1lise de sa\u00eddas dessa fase terr\u00edvel. &#8220;Homem&#8221;, \u201cGuerra Declarada&#8221;, &#8220;Vasto Mar de Morte&#8221; batem pesado na reflex\u00e3o de ouvintes atentos. Como se deu o processo de composi\u00e7\u00e3o destas e de outras faixas servindo como um expurgo pessoal seu diante de tanta barb\u00e1rie?<\/strong><br \/>\nNa verdade, os temas das letras do disco e a forma como eu escrevo n\u00e3o mudaram muito desde que eu comecei a compor; pelo menos eu acho que n\u00e3o. \u00d3bvio que tem muito de mim e das coisas que eu li, ouvi e assisti desde crian\u00e7a, das pessoas com quem convivi, mas eu devo essa condi\u00e7\u00e3o de conseguir transformar o que a gente enxerga no mundo em letras minimamente cr\u00edticas ao punk rock mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea vem de uma hist\u00f3ria longa com o Automata. Partir para um projeto solo foi um passo \u00e0 frente que gerou algum tipo de inseguran\u00e7a ou apreens\u00e3o? Como se deu esse processo de cria\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nCom certeza gerou apreens\u00e3o. Eu nunca pensei mais seriamente em lan\u00e7ar um disco solo, mesmo tamb\u00e9m compondo sozinho enquanto eu estava em bandas. Fazia m\u00fasicas sozinho e em parceria, quase sempre com os guitarristas com quem toquei. O processo do disco foi puramente necessidade. Foram alguns anos tentando montar uma banda nova sem sucesso depois que o Automata acabou. Cansei de esperar encontrar as pessoas e decidi fazer por conta pr\u00f3pria, chamando m\u00fasicos para gravar e arredondar os arranjos. Outro aspecto importante foi poder fazer o som que eu desejava sem a din\u00e2mica de banda, onde todo mundo acaba cedendo e criando uma entidade coletiva. Eu, finalmente, pude fazer meu disco punk e exatamente como eu queria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi a escolha das pessoas que trabalhariam no disco com voc\u00ea? O que te aproximou delas?<\/strong><br \/>\nQuando eu resolvi que seria um disco solo e pronto, e decidi que resgataria a ideia de um disco de punk rock, que foi de onde vim, l\u00e1 em 1996, mas nunca andou de verdade. Sabia que eu precisava achar um guitarrista que conhecesse o g\u00eanero. Tinha que ser algu\u00e9m que pudesse pegar as m\u00fasicas que eu tinha composto no celular e computador e trazer para o \u201cmundo real\u201d. Eu conhecia Dill Pereira do trabalho dele na Rosa Idiota, banda de post hardcore daqui que acabou ano passado. \u00c9 um cara que, al\u00e9m de tocar muito, j\u00e1 tem uma jornada bem legal como engenheiro de som e trabalha no <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/estudioruidorosa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ru\u00eddo Rosa<\/a>, est\u00fadio j\u00e1 com hist\u00f3ria no hardcore baiano. Dill gravou guitarras, baixos e viol\u00f5es, e gravou e mixou o disco. Ele indicou Gabriel Gomes, da Buster, para tocar bateria, e eu j\u00e1 conhecia o som deles. Gabriel tamb\u00e9m tem tudo a ver com punk rock e hardcore. O CD foi masterizado em S\u00e3o Paulo por Fernando Sanches, que toca no Againe e O Inimigo, e j\u00e1 gravou, mixou e masterizou todo mundo da cena punk nacional. Tirando a pandemia e uma alergia horr\u00edvel que eu tive logo antes de come\u00e7ar a gravar voz (os dois problemas que adiaram o lan\u00e7amento), esse foi o disco mais r\u00e1pido que j\u00e1 fiz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na descri\u00e7\u00e3o da bela arte de capa, trabalho do artista Andr\u00e9 Ducci, voc\u00ea falou a premissa de algo que remetesse, de forma quixotesca, &#8220;a jornada de muitos de n\u00f3s na busca por uma vida perfeita e livre de problemas e sofrimento&#8221;. Algo, realmente, inating\u00edvel. Em como essa descri\u00e7\u00e3o se encaixa na sua pr\u00f3pria vida e no modo como seu processo de composi\u00e7\u00e3o se d\u00e1?<\/strong><br \/>\nQuem faz rock no mundo e, principalmente, no Brasil sabe o que \u00e9 remar contra a mar\u00e9. No final das contas, quase sempre \u00e9 uma empreitada que vira hobby, infelizmente. \u00c9 bacana voc\u00ea relacionar o conceito da arte de \u201cSenderos\u201d \u00e0s composi\u00e7\u00f5es porque tem tudo a ver: n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 fazer rock que \u00e9 nadar contra a corrente. \u00c9 fazer um som que te satisfa\u00e7a e letras que v\u00e3o al\u00e9m de relacionamentos amorosos ou curti\u00e7\u00e3o de festas acaba alienando mais gente, tamb\u00e9m. Se voc\u00ea faz arte se preocupando com o que v\u00e3o achar ou se vai vender, \u00e9 melhor desistir; ou, em se tratando de m\u00fasica, \u00e9 s\u00f3 copiar o que r\u00e1dios populares e a TV aberta sempre tocaram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A faixa t\u00edtulo do disco, declamada em espanhol e com cita\u00e7\u00e3o direta a Emiliano Zapata, me remeteu exatamente \u00e0s quest\u00f5es que n\u00f3s, nativos da Am\u00e9rica Latina, enfrentamos diante de pol\u00edticas imperialistas, ascens\u00f5es fascistas e de extrema direita, al\u00e9m de d\u00e9cadas de subservi\u00eancia a um vi\u00e9s pol\u00edtico econ\u00f4mico que privilegia poucos. Voc\u00ea poderia abordar o modo como essa reflex\u00e3o j\u00e1 em sua faixa de abertura delineia o caminho pelo qual o disco levar\u00e1 (sendo esperan\u00e7oso) o ouvinte a notar os seus arredores?<\/strong><br \/>\n\u00c9 um poema do Subcomandante Marcos, que liderou o Ex\u00e9rcito Zapatista no M\u00e9xico por d\u00e9cadas. Os problemas dos pa\u00edses subdesenvolvidos s\u00e3o muito parecidos. A Am\u00e9rica Latina \u00e9 bem parecida; nossas dores e alegrias. Enfim, o poema fala de uma necessidade de enxergarmos nossas emo\u00e7\u00f5es e darmos import\u00e2ncia aos processos, n\u00e3o s\u00f3 nossas a\u00e7\u00f5es. S\u00e3o as a\u00e7\u00f5es que ir\u00e3o definir os \u201csenderos\u201d, caminhos, que vamos seguir individual e coletivamente, mas sem olharmos para dentro esse caminhar \u00e9 sempre mais lento e dif\u00edcil. A gente muda internamente primeiro, depois muda o nosso entorno imediato e, com muita sorte, muda o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Apesar de aspectos niilistas, suas letras v\u00e3o al\u00e9m disso, trazendo mais do que apenas aceita\u00e7\u00e3o de uma realidade na qual estamos condenados \u00e0 infelicidade. Suas reflex\u00f5es em m\u00fasicas como \u201cMigalhas\u201d, mesmo com a porrada forte de sua letra, nos d\u00e1 um caminho diferente pelo qual \u00e9 preciso lutar. Quero lhe perguntar sobre isso. Para al\u00e9m de toda cr\u00edtica contundente que sua escrita nos traz, voc\u00ea tem esperan\u00e7a?<\/strong><br \/>\nEu sou um realista pessimista, mas a gente vive em ciclos; tanto o mundo natural quanto nossa insana constru\u00e7\u00e3o de sociedade. Por mais que a gente tente, n\u00e3o acho que vamos conseguir destruir o mundo t\u00e3o cedo. \u00c9 com muita dor, muita morte, muita injusti\u00e7a social, mas talvez haja, num futuro bem distante, uma possibilidade de planeta menos desigual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Somos baianos, vivemos em Salvador, sabemos como funciona a quest\u00e3o do mercado cultural e musical aqui. Compondo, cantando, fazendo m\u00fasica desde o final dos anos 1990 e adentrando os anos 2000, buscando se expressar e sobreviver em uma terra condenada \u00e0 alegria (e que vende esse sentimento como um meio de se existir), como voc\u00ea, sem qualquer falsa ret\u00f3rica que minha pergunta possa soar, segue essa estrada de resist\u00eancia e fidelidade ao punk rock?<\/strong><br \/>\n\u00c9 o lance de precisar realizar. Sem fazer m\u00fasica a minha vida \u00e9 muito pior, muito mesmo. E eu fa\u00e7o isso por e para mim. Se conecta a outras pessoas, lindo! E \u00e9 \u00f3bvio que fico feliz quando isso acontece. Tem muita gente na cultura que est\u00e1 na mesma situa\u00e7\u00e3o. Povo na m\u00fasica, artes pl\u00e1sticas, cinema, dan\u00e7a, etc. E, tamb\u00e9m, tem muita gente que desiste, ainda que tenha um trabalho paralelo que d\u00ea para sustentar a atividade art\u00edstica. Eu acho isso triste, mas \u00e9 s\u00f3 como as coisas s\u00e3o. O que acontece com a arte na Bahia \u00e9, como quase todo o resto, s\u00f3 capitalismo mesmo: \u00e9 o dono da emissora de TV que tamb\u00e9m tem uma emissora de r\u00e1dio, produtora de shows e um bloco de carnaval e n\u00e3o vai abrir m\u00e3o da fatia dele no mercado. Na cabe\u00e7a de algu\u00e9m assim n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas que n\u00e3o sejam as ultra manjadas e f\u00e1ceis de vender. Eles podem ficar com o grande p\u00fablico, a cena independente sempre encontra um caminho para existir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como produtor no seu pr\u00f3prio selo, o Torto Fono Gramas, n\u00e3o foram poucas as bandas que voc\u00ea ajudou a trazer \u00e0 vida. Para al\u00e9m da ideia rom\u00e2ntica que essa fun\u00e7\u00e3o possua, quero lhe perguntar sobre o modo como seu olhar apurado dentro da m\u00fasica, seu conhecimento desse mercado citado anteriormente, lhe guiam dentro de suas escolhas no aspecto da viabilidade comercial que os trabalhos que chegam a voc\u00ea possuem.<\/strong><br \/>\nTer um selo \u00e9 uma loucura. Eu tive dois antes da Torto e, assim como com a Torto, s\u00f3 deram preju\u00edzo. Por mais prec\u00e1ria que a estrutura de shows independentes seja no Brasil, tem gente que vive disso. Vive vendendo o almo\u00e7o para pagar o jantar, mas vive. Rar\u00edssimos vivem OK, mas vivem porque trabalham muito. E estou falando dos cinco representantes da cadeia: artistas, selos, produtores de shows, produtores de discos e donos de casas de show. Em se tratando de selo, o lance \u00e9 trabalhar com bandas que toquem bastante, que \u00e9 onde voc\u00ea consegue vender material e estabelecer contatos para novos shows e turn\u00eas, fazer a coisa girar. Infelizmente, eu n\u00e3o me preocupei com isso quando devia e podia. S\u00f3 lancei o que eu quis e porque amava o som; n\u00e3o d\u00e1 para n\u00e3o levar em considera\u00e7\u00e3o outras quest\u00f5es se voc\u00ea quer que o selo ao menos se pague. Se quiser come\u00e7ar um selo, s\u00f3 lance artistas que v\u00e3o trabalhar os materiais que produzem caindo na estrada e que sejam incans\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cSenderos\u201d \u00e9 um disco com letras que refletem muito de nossa atual realidade, mas que, em sua maioria, foram escritas h\u00e1 muitos anos. Como esse ciclo de estagna\u00e7\u00e3o constante social chega a voc\u00ea e reflete em seu processo de composi\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\n\u00c9 o lance dos ciclos que falei. Eu estou nisso h\u00e1 25 anos e esse tempo \u00e9 nada quando comparados a referenciais hist\u00f3ricos como independ\u00eancia de um pa\u00eds, lutas por direitos sociais, etc. Pior ainda se a gente considerar a exist\u00eancia humana versus o resto da vida nesse planeta. \u00c9 meio desanimador perceber que uma letra de 20 anos parece ter sido escrita ontem, mas tem o lado bom que \u00e9 fazer algo que n\u00e3o soa datado. \u201cConstru\u00e7\u00e3o\u201d, de Chico Buarque, \u00e9 um \u00e1lbum de 2021, s\u00f3 que lan\u00e7ado h\u00e1 50 anos. Sobre como isso afeta minha composi\u00e7\u00e3o, \u00e9 s\u00f3 tentar escrever da forma mais honesta poss\u00edvel sobre as quest\u00f5es que me tocam; algu\u00e9m vai acabar se relacionando com aquilo de um modo muito pessoal, quando a conex\u00e3o \u00e9 feita, e \u00e9 a\u00ed que voc\u00ea conversa com os outros.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Album - Senderos\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_lQObA0UNvpw9REnk0kXs9Rtbln8jT4ypY\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>FAIXA A FAIXA POR SERGIO FRANCO FILHO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>01. Senderos \u2013<\/strong> Foi uma m\u00fasica n\u00e3o terminada que acabou virando intro. N\u00e3o terminei porque achei que talvez estivesse meio pesada para o restante do disco. Depois, demorei a encontrar o texto que queria incluir, mas buscando um discurso do Subcomandante Marcos, do Ex\u00e9rcito Zapatista de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional, que tivesse a ver com minhas letras para samplear eu acabei esbarrando nesse poema dele e fez muito sentido usar. A\u00ed, foi encontrar uma voz feminina fluente em espanhol para fazer o dueto com a minha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>02. Homem \u2013<\/strong> Letra que escrevi para o Automata em 2003 e chegamos a trabalhar em uma m\u00fasica, mas nunca usamos. Foi a primeira m\u00fasica que compus para o disco. Tem vibe de abertura mesmo, com o in\u00edcio s\u00f3 com a bateria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>03. Desfavorecer \u2013<\/strong> Uma das poucas letras que escrevi exclusivamente para Senderos. \u00c9 toda a nossa inabilidade de nos colocarmos no lugar de gente oprimida e desfavorecida. A m\u00fasica \u00e9 um hardcore r\u00e1pido e a ideia era ser t\u00e3o r\u00e1pida quanto algo do NOFX.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>04. Guerra Declarada \u2013<\/strong> Acho que \u00e9 a letra menos pol\u00edtica, ou \u00fanica totalmente n\u00e3o pol\u00edtica do disco. Foi escrita para algu\u00e9m que n\u00e3o faz parte de minha vida h\u00e1 muitos anos e o som \u00e9 mais cadenciado. Tem um synth que Dill tocou depois de uma ideia minha que eu gosto muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>05. Marzipan \u2013<\/strong> Talvez seja a minha m\u00fasica favorita. J\u00e1 que voc\u00ea falou de niilismo, acho que essa \u00e9 a letra mais niilista, ou segunda mais niilista, de Senderos. Acho que o som \u00e9 mais pr\u00f3ximo ao que eu faria com Automata ou <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/artist\/3iyVLeM6J1NE1K9vOHTuEN\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Odd Humans<\/a>, projeto que tive com <a href=\"https:\/\/linktr.ee\/eniooficial\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Enio<\/a> (ex-Enio e A Maloca), mas eu adoro o instrumental mesmo assim, mesmo menos punk.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>06. Sedi\u00e7\u00e3o \u2013<\/strong> Letra punk, m\u00fasica punk mel\u00f3dica cl\u00e1ssica, Bad Religion at\u00e9 o talo. Vai funcionar ao vivo, com certeza. Foi o refr\u00e3o que mais deu trabalho para gravar voz porque o arranjo original \u00e9 muito agudo, ficou melhor do jeito final.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>07. Vasto Mar de Morte \u2013<\/strong> Outra de minhas favoritas, tamb\u00e9m \u00e9 uma letra que foi escrita para o disco. Substituiu uma letra antiga, escrita para uma pessoa que n\u00e3o merecia essa energia gasta. \u00c9 um convite \u00e0 luta em cima de um instrumental cadenciado e pegajoso. O final \u00e9 algo que nunca fiz, mas me deixou bem feliz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>08. Migalhas \u2013<\/strong> Mais uma letra bem antiga, uma ode ao carlismo e ao coronelismo t\u00e3o brasileiro; meu presente aos Magalh\u00e3es. E outro punk rock mel\u00f3dico na linha das bandas antigas da Epitaph que as pessoas dever\u00e3o curtir ao vivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>09. Feudal \u2013<\/strong> Se chamava &#8220;Sua Pol\u00edtica (Comensalismo)&#8221; at\u00e9 a mixagem acabar, a\u00ed eu lembrei que comensalismo \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica em que um ganha e o outro n\u00e3o perde, n\u00e3o \u00e9 prejudicado, mas a letra fala \u00e9 de explora\u00e7\u00e3o mesmo e dessa pol\u00edtica partid\u00e1ria escrota que o mundo nos oferece. Dill destruiu nas guitarras quando a bateria entra; os arranjos ficaram muito melhores que minhas demos. Enfim, \u00e9 mais um punk rock menos \u00f3bvio e que poderia ser uma m\u00fasica do Automata.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>10. Nada Ao Nada \u2013<\/strong> A balada de \u201cSenderos\u201d? Sim, tem o come\u00e7o e fim com viol\u00e3o, mas a sensa\u00e7\u00e3o que sempre me passou foi mais fim do mundo mesmo. A letra \u00e9 niilista, mas tem l\u00e1 seu momento de esperan\u00e7a (\u00e9 poss\u00edvel?). A m\u00e9trica da voz na segunda estrofe \u00e9 bem Maria Beth\u00e2nia e isso foi totalmente sem querer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>11. O S\u00e9culo XX Foi Meu \u2013<\/strong> Um punk rock mel\u00f3dico com come\u00e7o instrumental bem sentimental. Uma letra curta com uma pergunta universal e uma resposta pessoal. Bem simples e encaixa com as mais r\u00e1pidas, ainda mais em um show.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>12. Daqui do Quinto Mundo \u2013<\/strong> Em todos os discos que fa\u00e7o eu penso em uma \u00faltima m\u00fasica que seja mais \u00e9pica e tenha uma letra que possa resumir tudo o que foi dito antes. \u00c9 um punk rock mais lento e uma letra anti-capitalista que nos descreve local e globalmente.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"&quot;Senderos&quot; lan\u00e7ado! (21\/12\/2021)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jCFFutfMTPU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ex-Automata, S\u00e9rgio estreia solo com &#8220;Senderos&#8221;, pancada punk rock que nos leva a algo potente na arte: a capacidade de nos fazer refletir. Neste papo, ele aprofunda o processo de cria\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum e traz um faixa-a-faixa com as can\u00e7\u00f5es do disco.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/01\/07\/entrevista-sergio-franco-filho-fala-sobre-senderos-pancada-punk-rock-de-estreia-solo\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":63775,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[4249,5398],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63770"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=63770"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63770\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":63790,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63770\/revisions\/63790"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/63775"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=63770"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=63770"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=63770"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}