{"id":63459,"date":"2021-12-14T17:49:00","date_gmt":"2021-12-14T20:49:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=63459"},"modified":"2022-01-14T04:09:11","modified_gmt":"2022-01-14T07:09:11","slug":"entrevista-lula-oliveira-fala-sobre-a-retomada-do-cinema-na-bahia-com-a-matriarca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/12\/14\/entrevista-lula-oliveira-fala-sobre-a-retomada-do-cinema-na-bahia-com-a-matriarca\/","title":{"rendered":"Entrevista: Lula Oliveira fala da retomada do cinema na Bahia com \u201cA Matriarca\u201d"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sensa\u00e7\u00e3o de retomada cinematogr\u00e1fica \u00e9 especial. Ap\u00f3s meses de uma necess\u00e1ria suspens\u00e3o das atividades em loca\u00e7\u00f5es como modo preventivo devido \u00e0 pandemia, a produ\u00e7\u00e3o de \u201cA Matriarca\u201d, filme de Lula Oliveira, teve suas filmagens realizadas durante o m\u00eas de outubro de 2021, nas cidades de Cairu e Valen\u00e7a, no baixo sul baiano. Todo processo era para ter acontecido em mar\u00e7o do ano passado, justamente o m\u00eas em que as medidas de isolamento social foram colocadas em pr\u00e1tica. Somente um ano e meio depois foi poss\u00edvel a realiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o nos munic\u00edpios, contando com uma equipe reduzida de aproximadamente 80 pessoas entre atores e t\u00e9cnicos, todos seguindo os ainda necess\u00e1rios protocolos sanit\u00e1rios de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O que aconteceu durante as filmagens foi incr\u00edvel. Uma sinergia total envolvendo a equipe t\u00e9cnica e os atores. Sa\u00ed desse set dizendo que n\u00e3o fizemos um filme, mas, sim, nos envolvemos numa viv\u00eancia cinematogr\u00e1fica. Um processo criativo aberto, amplo e democr\u00e1tico. Todos que tiveram o desejo de colaborar com ideias tiveram abertura para construir criativamente o processo. Cabia a mim a decis\u00e3o final, mas todos participaram muito de todo o processo criativo,&#8221; relembra o diretor Lula Oliveira em entrevista ao Scream &amp; Yell.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme, que agora segue para o processo chave de montagem, come\u00e7ou a sua estrada ainda em 2012, quando a primeira vers\u00e3o do argumento foi escrita por Lula ao lado de Manuela Dias, tamb\u00e9m roteirista do \u00f3timo \u201cDeserto Feliz\u201d (2007). &#8220;A g\u00eanese do projeto nasce com o processo de escrita do argumento ao lado de Manuela Dias. Jo\u00e3o Rodrigo Mattos (roteirista e s\u00f3cio de Lula na produtora DocDoma) desenvolveu o primeiro tratamento do roteiro a partir de uma escaleta constru\u00edda do argumento escrito. \u00c9 bom frisar que foi a vers\u00e3o escrita por Jo\u00e3o Rodrigo Mattos que foi contemplada no edital da Ancine, em 2017, permitindo desencadear todo o processo de produ\u00e7\u00e3o do filme. Desde ent\u00e3o, o roteiro passou por muitas transforma\u00e7\u00f5es e tivemos outros importantes colaboradores, como a tamb\u00e9m jornalista, In\u00eas Figueir\u00f3. No total, foram dez vers\u00f5es e muitas transforma\u00e7\u00f5es de estrutura narrativa e personagens para chegar no roteiro que foi filmado&#8221;, explica Lula.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na hist\u00f3ria de \u201cA Matriarca\u201d, o reencontro de uma fam\u00edlia cuja dist\u00e2ncia impera entre seus membros. A ocasi\u00e3o especial \u00e9 o anivers\u00e1rio de 90 anos de dona Matita, a matriarca do t\u00edtulo. Mas o inesperado falecimento dela no dia da festa dar\u00e1 outro significado \u00e0quele momento. O peso familiar inerente \u00e0 perda da sua pr\u00f3pria av\u00f3, em 1993, surgiu como uma fagulha na imagina\u00e7\u00e3o de Lula, que decidiu, ap\u00f3s alguns anos, transformar em um projeto de cinema aquele estopim. &#8220;Foi algo que ficou anos em minha cabe\u00e7a sendo processado no imagin\u00e1rio. Anos depois, j\u00e1 atuando no cinema, quando assisti o \u2018Festa em Fam\u00edlia\u2019, filme do Dogma 95, dirigido por Thomas Vinterberg, tive a ideia de transformar todo esse imagin\u00e1rio num projeto cinematogr\u00e1fico&#8221;, pontua Lula. A ocasi\u00e3o de passagem de sua av\u00f3, no entanto, n\u00e3o \u00e9 considerada como um peso familiar para o diretor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Foi leve e transcendental&#8221;, explica Lula. &#8220;A morte de minha av\u00f3 Matilde, na cidade de Valen\u00e7a, de fato, foi muito marcante para um jovem de 19 anos que ainda n\u00e3o sonhava em fazer cinema. Foi a primeira vez que eu tive contato f\u00edsico com uma pele morta, sem vida. Foi ali que entendi o que era a vida, no contato f\u00edsico com a morte. Al\u00e9m disso, todo o contexto s\u00f3cio cultural que envolvia o vel\u00f3rio. O vel\u00f3rio dentro da casa. Cercado de pescadores, marisqueiras, uma grande fam\u00edlia envolvida, com todos os seus conflitos. A presen\u00e7a de Karine, uma francesa, namorada de meu primo Os\u00f3rio, trazendo um olhar antropol\u00f3gico para aquela situa\u00e7\u00e3o e demarcando um contraste de culturas. No final, um cortejo, ao p\u00f4r do sol, sendo seguido por muita gente da cidade. Os alto-falantes de Valen\u00e7a homenageando Dona Matilde. Uma mulher muito forte, moderna para sua \u00e9poca, que marcou muito a cidade e as pessoas&#8221; relembra, com orgulho, o cineasta de todo o per\u00edodo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos grandes apoiadores de \u201cA Matriarca\u201d, ainda em sua fase inicial em 2012, foi o saudoso jornalista e cr\u00edtico de cinema Jo\u00e3o Carlos Sampaio. Presente em diversos sets de produ\u00e7\u00f5es baianas, Jo\u00e3o j\u00e1 acompanhava a carreira de Lula em 2005. &#8220;Nessa ocasi\u00e3o, realizei o curta-metragem \u2018Na Terra do Sol\u2019, sobre a peleja da guerra de Canudos, baseado no livro \u2018Os Sert\u00f5es\u2019, de Euclides da Cunha. Todo filmado no munic\u00edpio de Canudos. E l\u00e1 estava Jo\u00e3o Sampaio, com sua c\u00e2mera fotogr\u00e1fica, participando de todo processo. Ele viajou por conta pr\u00f3pria e se juntou \u00e0 trupe do filme. Esse era Jo\u00e3o, um jornalista que se jogava nos processos produtivos do cinema. Alimentava-se de cinema em todas as suas dimens\u00f5es,&#8221; relembra Lula.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre a rela\u00e7\u00e3o de Janj\u00e3o de Aratu\u00edpe, como era carinhosamente chamado, com aquela embrion\u00e1ria fase do filme que agora tem sua produ\u00e7\u00e3o avan\u00e7ada, Lula recorda-se da presen\u00e7a crucial do cr\u00edtico na ocasi\u00e3o. &#8220;Jo\u00e3o foi um dos jurados que selecionou o longa metragem, ainda na fase de desenvolvimento de roteiro, num edital promovido pela Secult Bahia. Ele acreditava muito nesse projeto. Dizia-me sempre sorrindo, como era do seu perfil. Um amigo querido que se tivesse aqui entre n\u00f3s, com certeza, estaria conosco no set de filmagem&#8221;, pontua Lula.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentro de um per\u00edodo sombrio para a produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica no Brasil, poder observar \u201cA Matriarca\u201d entrar em suar fase de p\u00f3s \u00e9 algo bem revigorante quando pensamos na for\u00e7a do cinema baiano. Lula traz um aspecto po\u00e9tico e outro pragm\u00e1tico para esse per\u00edodo. &#8220;H\u00e1 esperan\u00e7a. Sendo po\u00e9tico: uma planta nasce at\u00e9 nas fendas do cimento. A vida e a arte sempre florescer\u00e3o, mesmo nos piores cen\u00e1rios. Pragmaticamente, te respondo: o Brasil \u00e9 um manancial de talentos no cinema. O melhor caminho para retomada \u00e9 acreditar num projeto que concilie dois vetores estrat\u00e9gicos para o desenvolvimento do audiovisual: educa\u00e7\u00e3o audiovisual e fomento. A educa\u00e7\u00e3o forma novos profissionais e permite a consolida\u00e7\u00e3o de uma cultura, do saborear, do aprender a gostar das nossas est\u00f3rias e da nossa Hist\u00f3ria. O fomento gera emprego e produz conte\u00fados que elevam a auto-estima e faz com que o Brasil viaje em muitas dimens\u00f5es para todo o mundo&#8221;, complementa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre a fase final da produ\u00e7\u00e3o, Lula pontua: &#8220;\u2019A Matriarca\u2019 est\u00e1 sendo montado. Vou passar o ver\u00e3o investindo nessa etapa do processo com a montadora Juliana Guanais. Temos um projeto potente com um elenco extraordin\u00e1rio de atores baianos (Jackyson Costa, A\u00edcha Marques, Evelin Buchegger, Caco Monteiro, dentre outros) e a participa\u00e7\u00e3o muito especial de Vinicius Oliveira, o garoto de \u2018Central do Brasil\u2019, hoje, j\u00e1 um homem e talentoso ator. Tamb\u00e9m temos a participa\u00e7\u00e3o muito especial de Lucile Petrement, atriz francesa&#8221;, encerra Lula e relembra: &#8220;sempre bom frisar que estamos em busca de parceiros e patrocinadores para investir nessa etapa de finaliza\u00e7\u00e3o do projeto&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta entrevista ao Scream &amp; Yell, o cineasta aprofunda mais o processo de produ\u00e7\u00e3o de \u201cA Matriarca\u201d. Confira!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-63462\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/amatriarca3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/amatriarca3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/amatriarca3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A ideia surgiu em 2012 e, desde ent\u00e3o, a partir de capta\u00e7\u00f5es de recursos, voc\u00ea come\u00e7ou a viabilizar o roteiro de \u201cA Matriarca\u201d ao lado de Manuela Dias e Jo\u00e3o Rodrigo Matos. Como se deu essa divis\u00e3o na escrita?<\/strong><br \/>\nA g\u00eanese do projeto nasce com o processo de escrita do argumento ao lado de Manuela Dias. Jo\u00e3o Rodrigo Mattos desenvolveu o primeiro tratamento do roteiro a partir de uma escaleta constru\u00edda a partir do argumento escrito. \u00c9 bom frisar que foi a vers\u00e3o escrita por Jo\u00e3o Rodrigo Mattos que foi contemplada no edital da Ancine, em 2017, permitindo desencadear todo o processo de produ\u00e7\u00e3o do filme. Desde ent\u00e3o, o roteiro passou por muitas transforma\u00e7\u00f5es e tivemos outros importantes colaboradores, como a tamb\u00e9m jornalista, In\u00eas Figueir\u00f3. No total, foram dez vers\u00f5es e muitas transforma\u00e7\u00f5es de estrutura narrativa e personagens para chegar no roteiro que foi filmado. Preciso ressaltar a colabora\u00e7\u00e3o gigante do cineasta Fabio Rocha em todo o processo. E, no \u00faltimo tratamento, uma colabora\u00e7\u00e3o fundamental do cineasta Hermano Penna. Tamb\u00e9m a cineasta Ana Luiza Penna que colaborou com reflex\u00f5es fundamentais e na escrita de cenas que tornaram o roteiro mais enxuto e coeso. Muitos amigos tamb\u00e9m colaboraram fazendo an\u00e1lises do roteiro ao longo desses anos que precederam a sua filmagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No decorrer desse per\u00edodo, a DocDoma Filmes produziu, tamb\u00e9m, \u201cCaf\u00e9, Pepi e Lim\u00e3o\u201d. Gostaria de lhe perguntar acerca das dificuldades encontradas para levar \u00e0 frente esse outro projeto, que teve suas filmagens antes da pandemia, mas que foi impactado tanto por ela quanto pelo desmonte cultural trazido pelo atual (des)governo brasileiro.<\/strong><br \/>\n\u201cCaf\u00e9, Pepi e Lim\u00e3o\u201d, dos diretores Pedro L\u00e9o Martins e Adler Paz, foi filmado antes da pandemia. N\u00e3o tivemos maiores problemas na condu\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o. O filme se encontra em fase de p\u00f3s produ\u00e7\u00e3o e ficar\u00e1 pronto em 2022. O desmonte cultural do governo federal, particularmente, no setor audiovisual, teve impacto em toda cadeia produtiva do audiovisual brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea me falou sobre ter apresentado ao saudoso Jo\u00e3o Carlos Sampaio a ideia para \u201cA Matriarca\u201d ainda em 2012. Janj\u00e3o de Aratu\u00edpe era um cara que, na posi\u00e7\u00e3o de jornalista, sempre tinha a louv\u00e1vel iniciativa de se fazer presente acompanhando diversas produ\u00e7\u00f5es baianas, fazendo mat\u00e9rias que destacavam n\u00e3o somente o produto pronto, mas, tamb\u00e9m, toda sua labuta gradativa de constru\u00e7\u00e3o. E posso afirmar isso com seguran\u00e7a, pois acabo de fazer a curadoria, ao lado de Rafael Carvalho, <a href=\"https:\/\/atarde.com.br\/cultura\/culturaliteratura\/coletanea-de-criticas-de-joao-carlos-sampaio-e-lancada-nesta-sexta-feira-1152561\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">de um livro que re\u00fane uma colet\u00e2nea de escritos de Jo\u00e3o<\/a> e, nessa pesquisa, foram muitos os textos lidos nesse vi\u00e9s. Poderia falar um pouco como foi essa conversa com ele?<\/strong><br \/>\nEm 2005, realizei o curta-metragem \u201cNa Terra do Sol\u201d, sobre a peleja da guerra de Canudos, baseado no livro \u201cOs Sert\u00f5es\u201d, de Euclides da Cunha. Todo filmado no munic\u00edpio de Canudos. E l\u00e1 estava Jo\u00e3o Sampaio, com sua c\u00e2mera fotogr\u00e1fica, participando de todo processo. Jo\u00e3o viajou por conta pr\u00f3pria e se juntou \u00e0 trupe do filme. Esse era Jo\u00e3o, um jornalista que se jogava nos processos produtivos do cinema. Alimentava-se de cinema em todas as suas dimens\u00f5es. Jo\u00e3o foi um dos jurados que selecionou o longa metragem \u201cA Matriarca\u201d, ainda na fase de desenvolvimento de roteiro, num edital promovido pela Secult Bahia. Ele acreditava muito nesse projeto. Dizia-me, sempre sorrindo, como era do seu perfil. Um amigo querido que se tivesse aqui entre n\u00f3s, com certeza, estaria conosco no set de filmagem. Saudade do suplemento cultural do Jornal A Tarde (de Salvador). O livro que voc\u00eas sobre os pensamentos de Janj\u00e3o Sampaio \u00e9 imprescind\u00edvel para quem ama o cinema. Evo\u00e9, Jo\u00e3o Carlos Sampaio!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cA Matriarca\u201d traz uma hist\u00f3ria fict\u00edcia, mas carregada de emo\u00e7\u00f5es pessoais suas, como aquelas relacionadas \u00e0 perda de sua pr\u00f3pria av\u00f3 em 1993. Como esse peso familiar ecoou na sua escrita e na ideia original?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o considero um peso. Foi leve e transcendental. A morte de minha av\u00f3 Matilde, na cidade de Valen\u00e7a, de fato, foi muito marcante para um jovem de 19 anos que ainda n\u00e3o sonhava em fazer cinema. Foi a primeira vez que eu tive contato f\u00edsico com uma pele morta, sem vida. Foi ali que entendi o que era a vida, no contato f\u00edsico com a morte. Al\u00e9m disso, todo o contexto s\u00f3cio cultural que envolvia o vel\u00f3rio. O vel\u00f3rio dentro da casa. Cercado de pescadores, marisqueiras, uma grande fam\u00edlia envolvida, com todos os seus conflitos. A presen\u00e7a de Karine, uma francesa, namorada de meu primo Os\u00f3rio, trazendo um olhar antropol\u00f3gico para aquela situa\u00e7\u00e3o e demarcando um contraste de culturas. No final, um cortejo, ao p\u00f4r do sol, sendo seguido por muita gente da cidade. Os alto falantes de Valen\u00e7a homenageando Dona Matilde. Uma mulher muito forte, moderna para sua \u00e9poca, que marcou muito a cidade e as pessoas. Enfim, tudo isso ficou anos em minha cabe\u00e7a sendo processado no imagin\u00e1rio. Anos depois, j\u00e1 atuando no cinema, quando assisti o \u201cFesta em Fam\u00edlia\u201d, filme do Dogma 95, dirigido por Thomas Vinterberg, tive a ideia de transformar todo esse imagin\u00e1rio num projeto cinematogr\u00e1fico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O filme teve sua produ\u00e7\u00e3o paralisada e adiada por conta da pandemia. Voltar a grav\u00e1-lo, e seguindo todos os protocolos, deve ter tido um simbolismo imenso para voc\u00ea e para a equipe. Como isso reverberou no dia-a-dia do set? Ajudou a construir uma energia melhor perceber essa volta ao trabalho como um s\u00edmbolo de dias melhores?<\/strong><br \/>\nO que aconteceu durante as filmagens foi incr\u00edvel. Uma sinergia total envolvendo a equipe t\u00e9cnica e os atores. Sai desse set dizendo que n\u00e3o fizemos um filme, mas, sim, nos envolvemos numa viv\u00eancia cinematogr\u00e1fica. Um processo criativo aberto, amplo e democr\u00e1tico. Todos que tiveram o desejo de colaborar com ideias tiveram abertura para construir criativamente o processo. Cabia a mim a decis\u00e3o final, mas todos participaram muito de todo o processo criativo. Foi um b\u00e1lsamo de esperan\u00e7a viver aquele presente das filmagens e pensar no futuro com otimismo. Algo que, particularmente, nunca tinha vivido antes nos meus vinte anos de cinema. Eu s\u00f3 agrade\u00e7o aos Deuses por me presentear com tanta energia boa durante as filmagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lembro-me que em 2018, um per\u00edodo que parece ter sido em outra vida, a APC publicou uma carta aberta ao Governo do Estado questionando a aus\u00eancia de editais. Com o que aconteceu no \u00e2mbito federal a partir de 01 de janeiro de 2019 e, ainda pior, com a pandemia e o lockdown de mar\u00e7o de 2020 em diante, as produ\u00e7\u00f5es baianas (e nacionais, tamb\u00e9m) passaram por um per\u00edodo complicado no que se refere \u00e0 capta\u00e7\u00e3o de recursos para o audiovisual. Houve a lei Aldir Blanc; h\u00e1 o FSA que ainda mant\u00e9m um direcionamento financeiro para a cultura, mas a fase foi e ainda est\u00e1 sendo dif\u00edcil. Gostaria de lhe perguntar sobre sua sensa\u00e7\u00e3o de otimismo sobre os pr\u00f3ximos anos. H\u00e1 esperan\u00e7a? E sendo pragm\u00e1tico e menos po\u00e9tico nessa minha abordagem: como voc\u00ea avalia esse melhor caminho para uma retomada do nosso audiovisual?<\/strong><br \/>\nSim, h\u00e1 esperan\u00e7a. Sendo po\u00e9tico: uma planta nasce at\u00e9 nas fendas do cimento. A vida, e a arte, sempre florescer\u00e3o mesmo nos piores cen\u00e1rios. Pragmaticamente, te respondo: o Brasil \u00e9 um manancial de talentos no cinema. As pol\u00edticas cinematogr\u00e1ficas implementadas nos governos de Lula e, depois, de Dilma, deram vozes \u00e0s produ\u00e7\u00f5es de norte a sul do pa\u00eds. Passamos viver outra realidade no audiovisual brasileiro. Nossa pot\u00eancia criativa e t\u00e9cnica s\u00e3o maiores que qualquer pol\u00edtica. Transpareceu e cresceu. O cinema brasileiro ganhou outra dimens\u00e3o simb\u00f3lica para o mundo. Filmes do Cear\u00e1, Pernambuco, Paraense, Bahia, do Mato Grosso, entre outros estados do Brasil, ganharam as telas do mundo com reconhecimento internacional, provando que a pot\u00eancia criativa e a capacidade t\u00e9cnica de realiza\u00e7\u00e3o do audiovisual estavam espalhadas por todo o pa\u00eds. O melhor caminho para retomada \u00e9 acreditar num projeto que concilie dois vetores estrat\u00e9gicos para o desenvolvimento do audiovisual: educa\u00e7\u00e3o audiovisual e fomento. A educa\u00e7\u00e3o forma novos profissionais e permite a consolida\u00e7\u00e3o de uma cultura, do saborear, do aprender a gostar das nossas est\u00f3rias e da nossa Hist\u00f3ria. O fomento gera emprego e produz conte\u00fados que elevam a auto-estima e faz com que o Brasil viaje em muitas dimens\u00f5es para todo o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como anda o processo depois das filmagens? Quais os planos para o futuro do filme?<\/strong><br \/>\nO filme est\u00e1 sendo montado. Vou passar o ver\u00e3o investindo nessa etapa do processo com a montadora Juliana Guanais. \u00c9 bom destacar que temos um projeto potente com um elenco extraordin\u00e1rio de atores baianos e a participa\u00e7\u00e3o muito especial de Vinicius Oliveira, o garoto de Central do Brasil. Hoje, j\u00e1 um homem e talentoso ator. Tamb\u00e9m a participa\u00e7\u00e3o muito especial de Lucile Pretrement, atriz francesa. Sempre bom frisar que estamos em busca de parceiros e patrocinadores para investir nessa etapa de finaliza\u00e7\u00e3o do projeto.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-63461\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/amatriarca2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/amatriarca2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/amatriarca2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A sensa\u00e7\u00e3o de retomada cinematogr\u00e1fica \u00e9 especial. Ap\u00f3s meses de uma necess\u00e1ria suspens\u00e3o das atividades em loca\u00e7\u00f5es como modo preventivo devido \u00e0 pandemia, a produ\u00e7\u00e3o de \u201cA Matriarca\u201d teve suas filmagens realizadas&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/12\/14\/entrevista-lula-oliveira-fala-sobre-a-retomada-do-cinema-na-bahia-com-a-matriarca\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":63460,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[4249],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63459"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=63459"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63459\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":63465,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63459\/revisions\/63465"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/63460"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=63459"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=63459"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=63459"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}