{"id":6309,"date":"2010-11-09T19:30:08","date_gmt":"2010-11-09T21:30:08","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=6309"},"modified":"2021-10-13T21:32:43","modified_gmt":"2021-10-14T00:32:43","slug":"discografia-comentada-bob-dylan-parte-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/11\/09\/discografia-comentada-bob-dylan-parte-1\/","title":{"rendered":"Discografia Comentada: Bob Dylan (parte 1)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-6366\" title=\"bobdylan_paramount_divulgacao\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/bobdylan_paramount_divulgacao.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/eduardomarciano\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Gabriel Innocentini<\/a> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cBob Dylan \u00e9 um artista de relev\u00e2ncia quase inigual\u00e1vel na m\u00fasica popular moderna\u201d, diz o biografo Howard Sounes na primeira frase de seu livro lan\u00e7ado em 2001 (no Brasil, no ano seguinte pela Conrad) sobre Robert Allen Zimmerman. O document\u00e1rio \u201cNo Direction Home\u201d (2005), de Martin Scorsese, jogou mais luz sobre um dos artistas menos compreendidos daquilo que se convencionou chamar de m\u00fasica pop, e se serviu para apresent\u00e1-lo a novas gera\u00e7\u00f5es, n\u00e3o explicou o mito (se pudesse, Dylan diria aqui que n\u00e3o h\u00e1 nada para explicar).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato \u00e9 que Dylan representa um fen\u00f4meno cultural e social que permite vislumbres maiores sobre a m\u00fasica como part\u00edcula de uma sociedade. Um cara que come\u00e7ou escrevendo can\u00e7\u00f5es simples inspiradas em Woody Guthrie e folk singers do come\u00e7o do s\u00e9culo (muitos apresentados a ele pela colet\u00e2nea \u201cAnthology of American Folk Music\u201d) at\u00e9 criar sua pr\u00f3pria persona est\u00e9tica escrevendo can\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e arranjar, em 1965\/1966, uma briga com os puristas ao amplificar suas can\u00e7\u00f5es, o que o aproximou da ala rock and roll conquistando tanto admira\u00e7\u00e3o quanto repulsa dos artistas folk.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1965, no auge da pol\u00eamica convers\u00e3o \u00e0 eletricidade, Bob Dylan respondeu quando perguntado sobre o seu papel: \u201cSou um cara que canta e dan\u00e7a\u201d. Nada mais certo. Existem v\u00e1rios Dylan: o pai de fam\u00edlia, o pregador cat\u00f3lico, o guardi\u00e3o da m\u00fasica tradicional americana, mas nenhum supera o Bob Dylan dos anos 60. A imagem de iconoclasta, hipster, descolado, todo de preto, com \u00f3culos Ray Ban, chapado de maconha e anfetaminas, ainda persiste. E olha que ele se acidentou quase que mortalmente, converteu-se ao cristianismo, retornou ao juda\u00edsmo, casou-se, separou-se, pariu filhos e viu amigos partirem, mas continua \u201candando em ruas que est\u00e3o mortas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em quase 50 anos de carreira, Dylan tem mais de 450 composi\u00e7\u00f5es originais, sendo que uma delas \u00e9 o hino dos direitos civis (\u201cBlowin The Wind\u201d) e a outra \u00e9 praticamente a Cidad\u00e3o Kane do rock (\u201cLike a Rolling Stone\u201d). Com quatro discos de in\u00e9ditas lan\u00e7ados nos anos 2000, um livro escrito (\u201cCr\u00f4nicas\u201d), al\u00e9m do document\u00e1rio feito por Martin Scorsese, o melhor documentarista de rock da hist\u00f3ria, e de um pretensioso longa feito por Todd Haynes, Bob Dylan continua na ativa, sempre em movimento, como uma pedra que rola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o que \u00e9 melhor: sem viver do passado, sem turn\u00eas de despedida, sem sujar seu nome. Raros s\u00e3o os artistas que seguem a sua vis\u00e3o interior de forma t\u00e3o radical na ind\u00fastria da m\u00fasica. De todos, Robert Allen Zimmerman \u00e9 o maior. Respire fundo. E divirta-se. Com voc\u00ea, Bob Dylan.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6314 aligncenter\" title=\"bobdylan\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/bobdylan.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #000000;\">Bob Dylan (1962)<\/span><\/strong><br \/>\nO lend\u00e1rio ca\u00e7a talentos John Hammond, descobridor de Billie Holliday e Count Basie, contratou Bob quando ele ainda tocava em espeluncas no Greenwich Village, a zona bo\u00eamia de Nova York que reunia todos os cantores folk que significavam alguma coisa, al\u00e9m de escritores da beat generation. O contrato com a Columbia Records marcou tamb\u00e9m o in\u00edcio da parceria com o pol\u00eamico empres\u00e1rio Albert Grossman, considerado por muitos o respons\u00e1vel pelo sucesso de Dylan. Este \u00e1lbum de estr\u00e9ia custou meros 402 d\u00f3lares para ser feito, e fracassou nas vendas. Quase a totalidade das can\u00e7\u00f5es s\u00e3o covers de country blues em vers\u00f5es mais din\u00e2micas que as originais. Destaque para \u201cMan of Constant Sorrow\u201d, em que Dylan abusa da gaita para demonstrar a tristeza desse homem que deseja voltar ao Colorado, e para \u201cHouse of Rising Sun\u201d, cujo arranjo foi roubado de seu amigo Dave Van Ronk. Dylan assina apenas duas can\u00e7\u00f5es no disco: \u201cTalkin &#8216;New York&#8221; e \u201cSong to Woody\u201d, uma homenagem a Woody Guthrie, que usava um viol\u00e3o com a inscri\u00e7\u00e3o \u201cEsta m\u00e1quina mata fascistas\u201d. A autobiografia de Guthrie, \u201cBound for Glory\u201d, foi uma das b\u00edblias do jovem Dylan, ao lado de \u201cOn the Road\u201d, de Jack Kerouac. Um disco de interesse apenas hist\u00f3rico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: 6<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6315 aligncenter\" title=\"freewheelinbobdylan\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/freewheelinbobdylan.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>The Freewheelin&#8217; Bob Dylan (1963)<\/strong><br \/>\nCl\u00e1ssico definitivo desde a capa: Bob Dylan de jaqueta e jeans, sorrindo e abra\u00e7ado a uma linda garota, Suze Rotolo, nas geladas ruas de Nova York. A foto \u00e9 uma montagem: Bob e Suze passavam por um per\u00edodo conturbado na rela\u00e7\u00e3o \u2013 ela o abandonara para tentar a sorte como artista na It\u00e1lia. N\u00e3o \u00e0 toa, \u201cGirl of The North Country\u201d \u00e9 um dos mais belos lamentos pela perda do ser amado. Melhor ainda \u00e9 \u201cDon\u2019t Think Twice, It\u2019s All Right\u201d, com Dylan cantando com sobriedade numa das interpreta\u00e7\u00f5es mais elegantes sobre uma can\u00e7\u00e3o de perda n\u00e3o acusat\u00f3ria e que n\u00e3o cheira a \u00f3dio. \u00c9 apenas o reconhecimento de que ele deu seu cora\u00e7\u00e3o, mas ela queria sua alma. &#8220;Talkin&#8217; World War III Blues&#8221; \u00e9 uma releitura animada de Hank Williams, cujo disco \u201cLuke The Drifter\u201d (1963) Bob ouviu at\u00e9 furar. \u201cI Shall Be Free\u201d tem versos deliciosos, de fazer inveja aos indies de hoje, com Bob cantando\/contando que recebeu um telefonema do presidente Kennedy perguntando o que faria o pa\u00eds crescer. Ele responde: \u201cBrigitte Bardot, Anita Ekberg, Sophia Loren&#8221;. A m\u00e1goa proporcionou um salto evolutivo nas letras, como defende o bi\u00f3grafo Howard Sounes, mas foram mesmo as can\u00e7\u00f5es de protesto que fizeram a fama do \u00e1lbum. Composta num bar em apenas 10 minutos, \u201cBlowin\u2019 The Wind\u201d, o hino dos direitos civis, foi cantada por todos que lutavam pelas transforma\u00e7\u00f5es sociais nos anos 60. \u201cMasters of War\u201d \u00e9 uma das condena\u00e7\u00f5es mais pesadas e raivosas aos pol\u00edticos que se escondem atr\u00e1s das mesas e enviam jovens para as guerras. Dylan canta que nem Jesus poder\u00e1 perdo\u00e1-los e que s\u00f3 ficar\u00e1 satisfeito quando estiver de p\u00e9 sobre seus t\u00famulos, para se certificar de que est\u00e3o mortos. Em \u201cA Hard Rain\u2019s A-Gonna Fall\u201d, Dylan reuniu, segundo Clinton Heylin, seu melhor bi\u00f3grafo, \u201ca magia e o mist\u00e9rio de uma balada de cinco s\u00e9culos de idade, as verdades profundas de Dante, e o simbolismo apocal\u00edptico dos poetas franceses e beats em seis minutos e meio de puro terror, pertinentemente \u2018capturando o sentimento de vazio\u2019 suportado por aqueles que viviam \u00e0 beira do abismo\u201d. E ele tinha apenas 21 anos quando fez tudo isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: 10<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-6316 aligncenter\" title=\"timestheyareachanging\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/timestheyareachanging.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/timestheyareachanging.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/timestheyareachanging-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>The Times They Are A-Changing (1964)<\/strong><br \/>\n\u201cO que aflora na minha m\u00fasica \u00e9 um chamado para a a\u00e7\u00e3o\u201d. Se algu\u00e9m captou o esp\u00edrito de sua \u00e9poca, esse algu\u00e9m foi Bob Dylan. A can\u00e7\u00e3o t\u00edtulo \u00e9 uma convoca\u00e7\u00e3o e foi rapidamente adotada pelos ativistas dos direitos civis. Composta em cima de chav\u00f5es (\u201cthe first one now will later be last\u201d, \u201cfor the loser now will be later to win\u201d), ela tem o famoso verso \u201cdon\u2019t criticize what you can\u2019t understand\u201d, tematizando o conflito entre a nova e a velha gera\u00e7\u00e3o. \u201cThe Lonesome Death of Hattie Carrol\u201d \u00e9 a narra\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica com toques po\u00e9ticos de um branco que matou a empregada negra. Imposs\u00edvel n\u00e3o se emocionar quando ele muda o refr\u00e3o ao final, liberando o ouvinte para chorar a trag\u00e9dia dessa hist\u00f3ria. \u201cBallad of Hollis Brown\u201d, \u201cOnly a Pawn in their Game\u201d e \u201cWhen the Ships Comes In\u201d comp\u00f5em a espinha dorsal do \u00e1lbum. Os sete minutos de \u201cWith God On Our Side\u201d s\u00e3o uma reflex\u00e3o tanto sobre a sombra da Guerra Fria quanto sobre os Estados Unidos. Mas a melhor estrofe \u00e9 mesmo esta: \u201cIn a many dark hour I&#8217;ve been thinkin&#8217; about this \/ That Jesus Christ was betrayed by a kiss \/ But I can&#8217;t think for you, you&#8217;ll have to decide \/ Whether Judas Iscariot had God on his side\u201d. Num disco dominado pelo comprometimento pol\u00edtico e social, duas can\u00e7\u00f5es quebram o clima. \u201cOne Too Many Mornings\u201d \u00e9 uma das mais tristes e s\u00e1bias letras j\u00e1 compostas por Dylan, podendo figurar em \u201cBlood On The Tracks\u201d (1974) com muita dignidade: \u201cYou&#8217;re right from your side \/ I&#8217;m right from mine \/ We&#8217;re both just too many mornings \/ And a thousand miles behind\u201d, canta Dylan aos sussurros. \u201cRestless Farewell\u201d encerra o disco, fazendo um balan\u00e7o do dinheiro, das bebidas, das garotas, das amizades, pontuada por uma gaita melanc\u00f3lica: \u201cAnd remain as I am\/And bid farewell and not give a damn\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: 8,5<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-6317 aligncenter\" style=\"border: 1px solid black;\" title=\"anothersideofbobdylan_0\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/anothersideofbobdylan_0.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Another Side of Bob Dylan (1964)<\/strong><br \/>\n\u201cO cabelo de Dylan cresce \u00e0 medida que sua consci\u00eancia se expande\u201d, afirma o poeta e music\u00f3logo ingl\u00eas Brian Hinton. O segundo \u00e1lbum de Dylan em 1964 foi gravado em uma \u00fanica sess\u00e3o de 6 horas, e o cantor deixou claro a um jornalista da New Yorker suas inten\u00e7\u00f5es: \u201cescrever a partir de dentro de mim\u201d. O tema dominante do \u00e1lbum eram os relacionamentos, como em \u201cTo Ramona\u201d, \u201cBallad In Plain D\u201d, \u201cAll I Really Wanna Do\u201d e \u201cI Don\u2019t Believe You\u201d, al\u00e9m de conter a primeira refer\u00eancia ao uso de drogas em uma can\u00e7\u00e3o de sua autoria: \u201cSometimes I\u2019m thinkin\u2019 I\u2019m too high to fall\u201d, em \u201cBlack Crow Blues\u201d. O nome do disco tamb\u00e9m indicava uma oposi\u00e7\u00e3o ao que vinha sendo feito por Dylan e marcava um tipo de ruptura \u2013 no caso, a colet\u00e2nea de faixas indicava que ele n\u00e3o se restringia a ser um mero cantor de protesto. \u201cBallad In Plain D\u201d \u00e9 uma das poucas can\u00e7\u00f5es que Bob se arrepende de ter gravado, por citar de forma negativa a irm\u00e3 de sua ex-namorada Suze. \u00c9 desta can\u00e7\u00e3o um dos versos mais pungentes j\u00e1 escritos por Dylan: \u201cThe could-be dream-lover of my lifetime\u201d, refer\u00eancia a Suze. Ele ainda tentava ajustar as \u201ccorrentes de imagens brilhantes\u201d que espocavam em sua mente a uma m\u00fasica vibrante, o que torna este um disco de transi\u00e7\u00e3o. \u201cChimes of Freedom\u201d ainda \u00e9 um resqu\u00edcio dos temas sociais, enquanto \u201cMy Back Pages\u201d (regravada com sucesso por The Byrds) assombrava o j\u00e1 perturbado John Lennon, que via recados ocultos de Dylan para ele em muitas can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: 7<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-6318 aligncenter\" style=\"border: 1px solid black;\" title=\"bringingitallbackhome\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/bringingitallbackhome.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bringing It All Back Home (1965)<\/strong><br \/>\nAp\u00f3s tr\u00eas anos ao viol\u00e3o, Dylan queria mudar, tendo feito uma tentativa na Inglaterra com Eric Clapton, mas as coisas n\u00e3o deram certo. A invas\u00e3o brit\u00e2nica, capitaneada por Beatles e Rolling Stones, aliada ao som dos Byrds e \u00e0 vers\u00e3o original\u00edssima do Animals para \u201cThe House of Rising Sun\u201d fez com que Bob se convencesse de que era a hora de partir para a eletricidade. O pr\u00f3prio nome do disco \u00e9 uma declara\u00e7\u00e3o de inten\u00e7\u00f5es: \u201ctrazendo tudo de volta para casa\u201d, ou seja, retomar a matriz do rhythm and blues e do rock and roll dos anos 40 e 50. Questionado por europeus sobre a convers\u00e3o \u00e0 eletricidade, Dylan afirmou: \u201cEu fa\u00e7o m\u00fasica americana\u201d. Metade do disco foi gravada de forma el\u00e9trica com m\u00fasicos de est\u00fadio, come\u00e7ando com \u201cSubterranean Homesick Blues\u201d, uma m\u00fasica nervosa, que deu origem a um dos primeiros clipes da hist\u00f3ria. A guitarra solo guincha de indigna\u00e7\u00e3o em \u201cMaggie\u2019s Farm\u201d. \u201cOutlaw Blues\u201d e \u201cOn The Road Again\u201d mant\u00eam a pegada roqueira, que termina em \u201cBob Dylan\u2019s 115th Dream\u201d, uma releitura da hist\u00f3ria dos Estados Unidos. \u201cLove Minus Zero\/No Limit\u201d \u00e9 a transposi\u00e7\u00e3o do dolce stil nuovo de Dante Alighieri para a m\u00fasica pop. O lado B do vinil era a contrapartida ac\u00fastica. Dylan decidiu manter \u201cMr. Tambourine Man\u201d, que j\u00e1 era um folk-rock nas m\u00e3os dos Byrds, apenas com viol\u00f5es, fechando o disco com \u201cGates of Eden\u201d, can\u00e7\u00e3o com refer\u00eancia ao poeta William Blake sobre a salva\u00e7\u00e3o espiritual, \u201cIt\u2019s All Right Ma (I\u2019m Only Bleeding)\u201d e a excepcional balada \u201cIt\u2019s All Over Now, Baby Blue\u201d, uma rara combina\u00e7\u00e3o em que a gaita soprada com for\u00e7a e a voz anasalada se casam \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o para relatar o fim do amor em imagens incomuns. A letra toda \u00e9 um primor, mas conv\u00e9m destacar a abertura, uma pedrada no peito: \u201cYou must leave now, take what you need, you think will last \/ But whatever you wish to keep, you better grab it fast\u201d. Curiosamente, os \u00faltimos versos podem ser lidos como um recado para os tradicionalistas do folk: \u201cStrike another match, go start anew \/ and it\u2019s all over now, baby blue\u201d. Os puristas que ficaram chocados com o lado A do disco mal poderiam imaginar o que surgiria menos de seis meses depois. Ah, a garota de vestido vermelho da capa \u00e9 Sally, esposa de Grossman.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: 9,5<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-6319 aligncenter\" style=\"border: 1px solid black;\" title=\"highwai61\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/highwai61.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/highwai61.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/highwai61-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Highway 61 Revisited (1965)<\/strong><br \/>\nAquele jovenzinho rechonchudo, simp\u00e1tico e caipira da capa da estreia n\u00e3o existe mais. Agora, Bob Dylan assume um ar cool vestindo camisas de marca. A can\u00e7\u00e3o de abertura \u00e9, para muitos, a melhor composi\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria do rock: \u201cLike a Rolling Stone\u201d. O cr\u00edtico Greil Marcus escreveu um livro sobre ela, cuja letra nasceu de um conto de 20 p\u00e1ginas, que Bob retrabalhou na forma de can\u00e7\u00e3o. \u201cDepois de escrev\u00ea-la, eu n\u00e3o estava mais interessado em escrever uma novela ou uma pe\u00e7a\u201d, afirmou. Al\u00e9m de come\u00e7ar com uma batida seca, como um tiro, algo incomum na m\u00fasica pop, \u201cLike a Rolling Stone\u201d se beneficiou do teclado fora do tempo de Al Kooper, que viera tocar guitarra na grava\u00e7\u00e3o e desistira quando viu Mike Bloomfiel com o instrumento. Como n\u00e3o sabe as notas, Al Kooper entra sempre um segundo atrasado, o que s\u00f3 torna a can\u00e7\u00e3o ainda mais charmosa. O lado A ainda cont\u00e9m \u201cTombstone Blues\u201d, apoiada numa batida nervosa da bateria e na guitarra estridente de Bloomfield, e \u201cIt Takes A Lot To Laugh, It Takes a Train To Cry\u201d, bela balada dos versos \u201cWell, I wanna be your lover, baby \/ I don\u2019t wanna be your boss\u201d. \u201cBallad of a Thin Man\u201d tira sarro dos que leram a obra completa de Scott Fitzgerald, sem saber o que estava acontecendo. \u201cAnd you don\u2019t know what it \/ Do you, Mr. Jones?\u201d. Mas n\u00f3s sabemos: Dylan estava recriando o rock com uma densidade nas letras jamais vista anteriormente. O lado B se inicia com \u201cQueen Jane Approximately\u201d, quase uma continua\u00e7\u00e3o de \u201cLike a Rolling Stone\u201d. A can\u00e7\u00e3o que d\u00e1 nome ao \u00e1lbum amarra v\u00e1rias hist\u00f3rias, com direito \u00e0 cita\u00e7\u00e3o b\u00edblica envolvendo uma conversa entre Deus e Abra\u00e3o. \u201cJust Like Tom Thumb\u2019s Blues\u201d segue o rastro de \u201cIt Takes a Lot To Laugh\u201d para contar a hist\u00f3ria de um vagabundo. \u201cDesolation Row\u201d \u00e9 a \u00faltima can\u00e7\u00e3o de um dos maiores \u00e1lbuns da hist\u00f3ria, registrada de forma quase minimalista: gaita, viol\u00e3o e guitarra. Dif\u00edcil resumir uma can\u00e7\u00e3o de 11 minutos que re\u00fane poetas modernistas como Pound e Eliot, figuras como Of\u00e9lia e Robin Hood, al\u00e9m da Cinderela e do Corcunda de Notre-Dame. Se considerarmos que \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o sobre relacionamentos, a estrofe final \u00e9 puro Dylan, no que ele tem de melhor: sarcasmo e crueldade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: 10<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6320 aligncenter\" title=\"blondeonblonde\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/blondeonblonde.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Blonde on Blonde (1966)<\/strong><br \/>\nO encontro do surrealismo com as drogas do dia. Al Kooper vai al\u00e9m: trata-se do disco ideal para ser ouvido \u00e0s tr\u00eas horas da madrugada. E ainda \u00e9 dan\u00e7ante. Entre junho de 65 e maio de 66, segundo Greil Marcus, \u201cBob Dylan n\u00e3o parecia ocupar um ponto de virada no espa\u00e7o\/tempo cultural, mas ser \u2018o\u2019 ponto de virada\u201d. A sequ\u00eancia que come\u00e7a em \u201cBringing It All Back Home\u201d e termina aqui \u00e9 somente a transi\u00e7\u00e3o do pop para o rock. \u201cBlonde on Blonde\u201d, gravado em Nashville, \u00e9 o primeiro registro em disco de Dylan com The Hawks, depois The Band, que ag\u00fcentaria a pauleira dos shows no per\u00edodo de 65-66, verdadeiros conflitos entre m\u00fasicos e plat\u00e9ia. \u201cTodo mundo deve ficar chapado\u201d, canta um alegre Dylan em meio a risadas e m\u00fasica de fanfarra logo na abertura do disco, com \u201cRainy Day Women #12 &amp; 35\u201d. Era um dos per\u00edodos mais criativos do compositor, que usava anfetaminas para suportar a atribulada agenda de compromissos. Ele ficou muito satisfeito com o resultado final: \u201cO mais pr\u00f3ximo que cheguei do som que ou\u00e7o na minha cabe\u00e7a foi em \u2018Blonde On Blonde\u2019. Aquele som fluido, visceral, met\u00e1lico e brilhante como ouro\u201d. \u201cVisions of Johanna\u201d \u00e9 de tal complexidade que se tornou argumento recorrente para os defensores do Nobel de Literatura para Bob Dylan. Aqui n\u00e3o est\u00e1 em discuss\u00e3o se ele merece ou n\u00e3o, mas que outro compositor de m\u00fasica popular j\u00e1 foi cogitado a tal honraria? \u201cI Want You\u201d \u00e9 t\u00e3o bonita que faz sentido at\u00e9 cantada em portugu\u00eas, na competente vers\u00e3o do Skank (\u201cTanto\u201d). Repare na bateria de \u201cStuck Inside Of Mobile With The Memphis Blues Again\u201d. Imagine um blues sobre um chap\u00e9u com pele de leopardo, um lamento sobre dinheiro e amor frustrado e temos \u201cLeopard-Skin Pill-Box Hat\u201d. Woody Allen d\u00e1 uma zoada em \u201cJust Like a Woman\u201d no filme \u201cAnnie Hall\u201d, mas quem nunca viu uma mulher se comportar como uma garotinha? \u00c9 o tipo de can\u00e7\u00e3o que apenas Dylan poderia compor. John Lennon encanou que \u201c4th Time Around\u201d era a resposta de Dylan a \u201cNorwegian Wood\u201d. N\u00e3o d\u00e1 para ouvir o blues nervoso e el\u00e9trico de \u201cObviusly 5 Believers\u201d e ficar parado. \u201cSad Eyed Lady of Lowlands\u201d encerra o disco com seus (para a \u00e9poca) inacredit\u00e1veis onze minutos. Os m\u00fasicos sempre chegam ao cl\u00edmax no fim da estrofe, pois pensam que a m\u00fasica vai terminar, mas ela segue. \u201c\u00c9 como sexo bem feito, na verdade\u201d, afirmou o baterista Kenneth Buttrey. Dylan comp\u00f4s para sua mulher, a modelo Sara Lownds. Um dos melhores \u00e1lbuns duplos da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: 10<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-6321 aligncenter\" title=\"johnwesleyharding\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/johnwesleyharding.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/johnwesleyharding.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/johnwesleyharding-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>John Wesley Harding (1967)<\/strong><br \/>\nEis o primeiro renascimento de Bob Dylan. Nas palavras de Clinton Heylin: \u201ca primeira manh\u00e3 depois da noite escura da alma\u201d. Ap\u00f3s o acidente de moto que quase o matou em 1966, Dylan passou um tempo tocando com The Band num por\u00e3o em Woodstook. \u201cThe Basement Tapes\u201d, contudo, s\u00f3 viria a p\u00fablico na d\u00e9cada seguinte. Enquanto os Beatles exploravam todas as possibilidades de tocar em est\u00fadio, o Velvet Underground adicionava ru\u00eddo e degrada\u00e7\u00e3o urbana ao rock e o Pink Floyd come\u00e7ava a sua viagem musical entorpecido de \u00e1cido, Bob Dylan lia a B\u00edblia na sua mans\u00e3o. \u201cEu n\u00e3o sabia como gravar do jeito que os outros estavam gravando e nem queria fazer isso\u201d. Impactado pela morte de seu \u00eddolo Woody Guthrie (em outubro de 1967), ele escreve tr\u00eas baladas. \u201cI Dreamed I Saw St. Augustine\u201d \u00e9 uma comovente can\u00e7\u00e3o sobre o santo que se arrependeu de seus pecados. \u201cDrifter\u2019s Escape\u201d pode ser tamb\u00e9m uma homenagem a Hank Williams. \u201cThe Ballad of Frankie Lee and Judas Priest\u201d faz lembrar as composi\u00e7\u00f5es do in\u00edcio da carreira: doze estrofes para contar uma hist\u00f3ria cuja moral \u00e9 n\u00e3o se meter onde n\u00e3o deve. Elas foram gravadas em apenas tr\u00eas horas, numa \u00fanica sess\u00e3o com Kenny Buttrey na bateria e Charlie McCoy no baixo. O surrealismo de \u201cBlonde On Blonde\u201d cede lugar para a influ\u00eancia b\u00edblica: estudiosos contaram 61 refer\u00eancias ao Antigo e ao Novo Testamento no \u00e1lbum. N\u00e3o h\u00e1 desperd\u00edcio de palavras nem de f\u00f4lego: \u201ccada linha deve significar algo\u201d. Pela primeira vez, Dylan escreveu primeiro as letras e depois as musicou. O resultado \u00e9 um disco econ\u00f4mico, tanto nas letras, agora mais simples, quanto no som, com presen\u00e7a marcante da gaita. Segundo Bob, \u201cJohn Wesley Harding lida com o dem\u00f4nio do ponto de vista do temor\u201d. \u201cThe Wicked Messenger\u201d traz o aviso: \u201cIf ye cannot bring good news, then don\u2019t bring any\u201d. Todo o peso e agita\u00e7\u00e3o do per\u00edodo 65-66 est\u00e3o ausentes aqui, por isso o choque de ouvir \u201cAll Along The Watchtower\u201d no original: ac\u00fastica e nua, nem lembra a tempestade el\u00e9trica de Jimmy Hendrix (o melhor cover j\u00e1 feito de uma can\u00e7\u00e3o sua, segundo o pr\u00f3prio Dylan). \u201cI\u2019ll Be Your Baby Tonight\u201d j\u00e1 aponta para o pr\u00f3ximo disco: uma can\u00e7\u00e3o doce sobre ficar em casa com o seu amor. \u201cPoderia ter sido escrita sob o ponto de vista de uma mulher\u201d, defendeu Bob, o que significa que Cat Power est\u00e1 marcando bobeira. Grava logo, Chan Marshall!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: 8,5<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-6322 aligncenter\" title=\"nashvilleskyline\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/nashvilleskyline.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/nashvilleskyline.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/nashvilleskyline-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nashville Skyline (1969)<\/strong><br \/>\nNa capa um Dylan sorridente, tirando o chap\u00e9u. Gravando com m\u00fasicos de Nashville, a terra do country, Bob se volta para as ra\u00edzes desse estilo, num processo que vinha desde quando tocava no por\u00e3o com The Band. \u00c9 deste disco que saiu \u201cLay Lady Lay\u201d, escrita para o filme \u201cPerdidos na Noite\u201d e um dos maiores hits de Dylan nas paradas de sucesso. Contudo, ela n\u00e3o entrou na trilha sonora e Dylan tamb\u00e9m n\u00e3o gostava muito da can\u00e7\u00e3o (mais um de seus estranhos julgamentos, pois n\u00e3o somente o p\u00fablico adora, como \u00e9 de fato uma bela m\u00fasica), que se tornou seu primeiro single a atingir o Top 10 desde \u201cRainy Day Women\u201d. Sua voz soa diferente, soturna. Basta comparar a regrava\u00e7\u00e3o de \u201cGirl From The North Country\u201d (com participa\u00e7\u00e3o de Johnny Cash) com a original registrada seis anos antes. \u201cI Trew It All Away\u201d, que foi regravada por Yo La Tengo em 1989 e Elvis Costello em 1995, pode ser vista como uma continua\u00e7\u00e3o de \u201cI Walk The Line\u201d, de Cash. A can\u00e7\u00e3o do Man In Black trata de como manter o amor. J\u00e1 a de Bob \u00e9 o lamento de um sujeito que n\u00e3o manteve o cora\u00e7\u00e3o sob vigil\u00e2ncia e que refor\u00e7a a import\u00e2ncia do sentimento: \u201cLove and only Love it can\u2019t be denied \/ No matter what you think about it \/ You won\u2019t be able to live without it\u201d. O jeito com que Dylan canta \u201cTake a tip from one who\u2019s tried\u201d \u00e9 de cortar o cora\u00e7\u00e3o. \u201cTo Be Alone With You\u201d e \u201cPeggy Day\u201d s\u00e3o as mais animadas, a primeira apoiada no piano de Bob Wilson e a segunda na guitarra solo durante quase toda a can\u00e7\u00e3o. \u201cTonight I\u2019ll Be Staying Here With You\u201d \u00e9 prima da \u00faltima m\u00fasica de \u201cJohn Wesley Harding\u201d, uma can\u00e7\u00e3o agrad\u00e1vel sobre aproveitar os prazeres da vida com a esposa. \u201cNashville Skyline\u201d soa despretensioso e leve, para ouvir numa tarde tranq\u00fcila, nada mais do que isso. Os filmes de Woody Allen, mesmo os ruins, t\u00eam sempre uma piada genial. No caso de \u201cNashville Skyline\u201d, todo o destaque vai mesmo para \u201cI Trew It All Away\u201d. Nick Cave concorda: \u201c\u00c9 Mozart se levantando contra Beethoven em ru\u00ednas do seu trabalho anterior. Posso ouvir esta m\u00fasica antes de qualquer coisa pela manh\u00e3, ou no meio de uma noite escura, e ela faz o que uma can\u00e7\u00e3o deve fazer, me anima, me faz sentir-me melhor, me faz ter vontade de seguir em frente\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: 6<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-6323 aligncenter\" title=\"selfportrait\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/selfportrait.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/selfportrait.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/selfportrait-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Self-Portrait (1970)<\/strong><br \/>\nSegundo \u00e1lbum duplo da carreira de Dylan. Fuja! Devidamente achincalhado na \u00e9poca (Greil Marcus debulhou o disco logo no t\u00edtulo de sua resenha: \u201cQue merda \u00e9 essa?\u201d), \u201cSelf Portrait\u201d \u00e9 visto hoje com mais simpatia. Injustificada, no caso: 24 can\u00e7\u00f5es reunidas de sete sess\u00f5es de grava\u00e7\u00f5es ao longo de pouco mais de um ano. Dylan declarou que quis gravar seu pr\u00f3prio disco pirata, \u201cpara que as pessoas deixassem de comprar meus bootlegs. E elas deixaram\u201d. \u201cThe Mighty Quinn (Quinn The Eskimo)\u201d, gravada direto do festival da ilha de Wight, em 1970, \u00e9 a primeira can\u00e7\u00e3o das \u201cBasement Tapes\u201d a ser apresentada ao p\u00fablico. Outra tr\u00eas can\u00e7\u00f5es foram resgatadas do festival brit\u00e2nico e se voc\u00ea quer saber como estragar um hino basta ouvir a vers\u00e3o de \u201cLike A Rolling Stone\u201d. Dylan agora parece satisfeito em estar na contram\u00e3o da hist\u00f3ria: ele se apresenta de terno branco e barba, como um tio acolhedor. Apenas quatro anos depois da guinada para a eletricidade, Bob s\u00f3 queria ser um cara pacato. Em \u201cWigwam\u201d, Dylan canta \u201cla-la-la\u201d em meio a um arranjo de metais. Se voc\u00ea ag\u00fcentar at\u00e9 o fim sem dormir nem pular as faixas no meio, parab\u00e9ns. Ele queria fazer um disco ruim e conseguiu. Mas se quiser encarar, n\u00e3o deixe de prestar aten\u00e7\u00e3o nas interpreta\u00e7\u00f5es de Dylan em \u201cThe Boxer\u201d (primeira vez em que ouvimos um overdub em seu vocal) e principalmente em \u201cTake Me As I Am (Or Let Me Go)\u201d. Ele banca at\u00e9 um crooner em \u201cBlue Moon\u201d, utilizada ironicamente por Abel Ferrara no fim de \u201cDangerous Game\/Sneaky Eyes\u201d (1993), o improv\u00e1vel filme em que Harvey Keitel contracena com Madonna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: 3<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-6324 aligncenter\" title=\"newmorning\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/newmorning.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"305\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/newmorning.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/newmorning-295x300.jpg 295w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>New Morning (1970)<\/strong><br \/>\nA auto-sabotagem segue a todo vapor. Quatro meses ap\u00f3s o fiasco de \u201cSelf Portrait\u201d, Dylan retorna com um novo \u00e1lbum. Perseguido pelos f\u00e3s e pela imprensa, Dylan pagava o pre\u00e7o da fama e do sucesso: cantor de protesto, voz da gera\u00e7\u00e3o, etc. Para se livrar desse peso, a sa\u00edda encontrada foi sujar o pr\u00f3prio nome. \u201cEu estava decidido a me posicionar al\u00e9m de tudo aquilo. Agora eu era um homem de fam\u00edlia\u201d. Apesar disso, \u201cNew Morning\u201d \u00e9 melhor do que o pr\u00f3prio autor quer nos fazer crer: n\u00e3o \u00e9 o melhor Dylan, mas o Dylan poss\u00edvel. \u201cIf Not For You\u201d, gravada por George Harrison, \u00e9 um hino ao amor dom\u00e9stico. Sim, Bob j\u00e1 teve dias mais inspirados. Em \u201cTime Pass Slowy\u201d temos um Dylan reflexivo, quase um ermit\u00e3o, numa melodia bem casada entre piano e guitarra. No lado B, Dylan canta na faixa-t\u00edtulo que est\u00e1 \u201cso happy just to be alive\u201d. \u201cSign On The Window\u201d \u00e9 o sonho acabou de Bob Dylan, obcecado com a ideia de ficar em casa curtindo a esposa Sara e seus filhos Jesse, Anna e Marie. Por falar em John Lennon, \u201cOne More Weekend\u201d poderia estar num disco do ex-beatle. Esta m\u00fasica \u00e9 a \u00fanica em que Dylan sugere deixar a fam\u00edlia de lado para satisfazer seu desejo sexual. Em \u201cDay of the Locusts\u201d, Dylan mostra sua ambival\u00eancia em aceitar reconhecimento institucional (o equivalente fotogr\u00e1fico dessa can\u00e7\u00e3o \u00e9 a foto em que ele est\u00e1 de beca recebendo medalha de Barack Obama), e \u00e9 tamb\u00e9m o mais pr\u00f3ximo que ele j\u00e1 chegou daquele som mercurial do per\u00edodo \u00e1ureo em 65-66. \u201cThe Man In Me\u201d, regravada pelo Clash, \u00e9 o melhor que ele poderia fazer nesse per\u00edodo \u2013 uma bela can\u00e7\u00e3o sobre o comportamento masculino numa rela\u00e7\u00e3o: \u201cThe man in me will hide sometimes to keep from bein\u2019 seen\u201d. Um pouco mais de esfor\u00e7o e dedica\u00e7\u00e3o e seria uma obra-prima. Jeff Dude Bridges cantou uma vers\u00e3o de \u201cThe Man In Me\u201d na Lebowskifest de 2005. Tem no Youtube.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: 7<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-6325 aligncenter\" style=\"border: 1px solid black;\" title=\"patgarrett_and_billythekid\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/patgarrett_and_billythekid.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/patgarrett_and_billythekid.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/patgarrett_and_billythekid-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pat Garret And Billy The Kid: Original Soundtrack Recording (1973)<\/strong><br \/>\nTrilha sonora do filme de Sam Peckinpah. Bob Dylan fez uma ponta como Alias, amigo de Kid, interpretado por Kris Kristofferson. As filmagens foram problem\u00e1ticas, com Peckinpah causando terror nos bastidores. Sara perguntou a Bob o que eles estavam fazendo l\u00e1 e ele n\u00e3o soube responder. O papel de Dylan foi t\u00e3o pequeno que sua participa\u00e7\u00e3o no filme se tornou quase irrelevante. Tem de ser muito fan\u00e1tico para ouvir este disco. Mas tem \u201cKnockin\u2019 On Heaven\u2019s Door\u201d, precisa mais? N\u00e3o, n\u00e3o foi Axl Rose quem escreveu essa can\u00e7\u00e3o. Z\u00e9 Ramalho fez uma vers\u00e3o: bate, bate, bate na porta do c\u00e9u. Que ela jamais se abra para ele. De qualquer forma, esque\u00e7a o disco e pegue alguma colet\u00e2nea com a can\u00e7\u00e3o. Vale mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: 5<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6326 aligncenter\" title=\"dylan\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/dylan.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Dylan (1973)<\/strong><br \/>\nPreste aten\u00e7\u00e3o: ningu\u00e9m merece passar pela experi\u00eancia de ouvir esse disco. Dylan tem apenas uma composi\u00e7\u00e3o original no \u00e1lbum, apesar do t\u00edtulo ser ironica e apenasmente \u201cDylan\u201d. Para Brian Hinton, deveria se chamar \u201cA Vingan\u00e7a de Bob Johnston\u201d, produtor que reuniu sobras de \u201cNew Morning\u201d e \u201cSelf Portrait\u201d para lan\u00e7ar esta colet\u00e2nea de can\u00e7\u00f5es que serviam para aquecer a banda nos ensaios. A coisa toda \u00e9 t\u00e3o ruim que o pr\u00f3prio Dylan fez quest\u00e3o de retirar este disco do cat\u00e1logo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: 0<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-6327 aligncenter\" title=\"beforetheflood\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/beforetheflood.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/beforetheflood.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/beforetheflood-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Before The Flood (1974)<\/strong><br \/>\nComo obriga\u00e7\u00e3o por ter retornado \u00e0 Columbia, Bob Dylan precisava de um disco ao vivo. \u201cDepois do dil\u00favio\u201d marca tamb\u00e9m o retorno de Dylan \u00e0s grandes turn\u00eas: quarenta shows em est\u00e1dios e um saldo de doze milh\u00f5es de pessoas. Sabe essa hist\u00f3ria de erguer o celular durante os shows? Antigamente, o p\u00fablico acendia os isqueiros. Se a plat\u00e9ia de Dylan n\u00e3o foi a primeira a fazer isso na hist\u00f3ria, foi certamente a primeira a ser registrada, como atesta a bela capa do disco. David Cavanagh apontou que a \u201cpr\u00f3xima vez que se ouviu m\u00fasica t\u00e3o biliosa foi com o The Clash\u201d: Dylan grita, urra, e The Band segue no seu encal\u00e7o. Marlon Brando: \u201cAs duas coisas mais barulhentas que eu ouvi na vida foram um trem e Bob Dylan e The Band\u201d. Fora os bootlegs oficiais, n\u00e3o existe \u00e1lbum ao vivo na discografia de Bob Dylan melhor do que este, empatado com o proto-punk \u201cHard Rain\u201d (1976). Para ouvir sempre. A nota curiosa \u00e9 a relev\u00e2ncia do verso \u201c\u00c0s vezes at\u00e9 mesmo o presidente dos Estados Unidos deve ficar nu\u201d em \u201cIt\u2019s Alrigh Ma (I\u2019m Only Bleeding)\u201d. O p\u00fablico delira, pensando em Richard Nixon e no caso Watergate.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: 10<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-6328 aligncenter\" style=\"border: 1px solid black;\" title=\"planetwaves\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/planetwaves.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/planetwaves.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/planetwaves-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Planet Waves (1974)<\/strong><br \/>\nFinalmente a d\u00e9cada de 70 come\u00e7a para Dylan. Depois de tr\u00eas anos incertos, Bob reencontrou a inspira\u00e7\u00e3o ap\u00f3s compor \u201cForever Young\u201d em junho de 73. \u201cPlanet Waves\u201d foi gravado com The Band, sinal de que n\u00e3o tem erro. As letras refletem os problemas de relacionamento no casamento com Sara. Embora Dylan esteja treinando para fazer sua obra m\u00e1xima no ano seguinte, \u201cBlood On The Tracks\u201d, a qualidade das letras aqui j\u00e1 \u00e9 espantosa. \u201cOn A Night Like This\u201d \u00e9 o in\u00edcio perfeito, alegre, animado e um tanto quanto desprotegido. A faixa seguinte, \u201cGoing, Going, Gone\u201d, \u00e9 das letras mais depressivas j\u00e1 escritas por Bob. Tim Riley descreveu a guitarra de Robbie Robertson, que na pr\u00e1tica foi o produtor do disco, \u201ccomo um som engasgado, como se um la\u00e7o tivesse sido amarrado em seu pesco\u00e7o\u201d. Para Brian Hilton, \u201cHazel\u201d \u00e9 \u201cJust Like Woman\u201d renascida. Ainda temos duas vers\u00f5es de \u201cForever Young\u201d, escrita para o filho Jakob. A primeira ficou mais famosa, num tom de ora\u00e7\u00e3o, enquanto a segunda \u00e9 mais acelerada e tem metade da dura\u00e7\u00e3o. \u201cDirge\u201d conta apenas com o viol\u00e3o de Robbie e o piano de Bob e j\u00e1 come\u00e7a com \u201cI hate myself for lovin\u2019 you\u201d. No meio, ainda h\u00e1 tempo para cantar que \u201cNo use to apologize, what difference would it make?\u201d e terminar com a afirma\u00e7\u00e3o de que ele ainda se odeia por am\u00e1-la, mas que deveria receber mais por isso. A \u00faltima can\u00e7\u00e3o, \u201cWedding Song\u201d, \u00e9 redimida de sua letra sentimental pela interpreta\u00e7\u00e3o contida de Bob Dylan. \u00c9 poss\u00edvel ouvir os bot\u00f5es de sua camisa batendo no viol\u00e3o, o que s\u00f3 torna a m\u00fasica mais intimista. Um disco belo, atraente e com uma pitada de mist\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: 9<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6329 aligncenter\" title=\"bloodonthetracks_0\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/bloodonthetracks_0.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Blood On The Tracks (1975)<\/strong><br \/>\nTudo o que um ser humano pode aprender sobre o amor est\u00e1 em \u201cBlood On The Tracks\u201d. Um dos problemas que este disco causou na carreira de Bob foi a autonomia que ele teve na produ\u00e7\u00e3o. Insatisfeito com algumas can\u00e7\u00f5es, ele voltou ao est\u00fadio e regravou-as, dando car\u00e1ter definitivo a elas. Procure os outtakes e confira. Ora, mas qual o problema? O fato de Bob, nos anos seguintes, principalmente na d\u00e9cada de 80, muitas vezes negligenciar verdadeiras obras-primas, descartando-as ao confiar demais em seu ju\u00edzo est\u00e9tico. Se existe um compositor popular que n\u00e3o tem a menor ideia do que tem nas m\u00e3os, ele se chama Bob Dylan. Mas isto \u00e9 assunto para depois. Agora temos um sujeito destro\u00e7ado (\u201cTangled Up In Blue\u201d) pelo fim da rela\u00e7\u00e3o com a esposa (\u201cshe still lives inside of me, we&#8217;ve never been apart\u201d), observando o fragmento de tempo em que tudo se esvai (\u201cSimple Twist Of Fate\u201d), chorando pelo fim do amor (\u201cwith a pain that stops and starts, like a corkscrew to the heart, ever since we&#8217;ve been apart\u201d), feliz por ela ter sido um porto seguro (\u201cShelther On The Storm\u201d), suando \u00f3dio por todos os poros (\u201cIdiot Wind\u201d), fazendo gra\u00e7a com as idas e vindas de seus relacionamentos amorosos (\u201cmine have been like Verlaine\u2019s and Rimbaud\u201d), para terminar o disco com \u201cBuckets Of Rain\u201d e o reconhecimento de que \u201cevery thing about you is bring me misery\u201d. Terminar? Que nada. \u201cBlood On The Tracks\u201d est\u00e1 fora do tempo. Voc\u00ea pode e deve criar sua pr\u00f3pria maneira de se relacionar com cada can\u00e7\u00e3o. \u201cWe always did feel the same, we just saw it from a different point of view\u201d, por exemplo, est\u00e1 na m\u00fasica de abertura. \u00c9 para ouvir at\u00e9 o fim dos tempos. Se voc\u00ea est\u00e1 curtindo uma dor de cotovelo, ent\u00e3o, \u00e9 o melhor rem\u00e9dio. Jakob Dylan confessou: \u201c\u00c9 como meus pais conversando\u201d. N\u00e3o tenha pudor em intrometer-se na intimidade desse casal. Yoko Ono e John Lennon queriam mudar o mundo. Bob e Sara parecem mais como eu e voc\u00ea: s\u00f3 queriam dar certo juntos. O resultado \u00e9 o \u00e1lbum de Bob Dylan que deve ser colocado na arca de No\u00e9 quando o dil\u00favio chegar novamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: 11<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-6330 aligncenter\" title=\"basementtapes\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/basementtapes.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/basementtapes.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/basementtapes-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>The Basement Tapes (1975)<\/strong><br \/>\nAs fitas do por\u00e3o tiveram de esperar cerca de oito anos para vir a p\u00fablico, for\u00e7adas mais pelo fato de terem sido pirateadas em larga escala do que pela disposi\u00e7\u00e3o dos m\u00fasicos em lan\u00e7\u00e1-las oficialmente. Depois do acidente de moto que quase o matou em 1966, Bob se recuperou tocando com The Band num por\u00e3o em Woodstook, na famosa casa Big Pink. O respons\u00e1vel por ter gravado essas rel\u00edquias foi Garth Hudson (piano e \u00f3rg\u00e3o) em um equipamento est\u00e9reo remanescente da turn\u00ea de 66, ajudado pelos microfones Neumann e pelas mesas de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o da \u00e9poca, as valvuladas Altech. Aqui estamos no terreno da Antologia da M\u00fasica Folk Americana. O curioso \u00e9 que \u201cBasement Tapes\u201d eclipsou \u201cBlood On The Tracks\u201d nas vendas, j\u00e1 que foram lan\u00e7ados com apenas seis meses de dist\u00e2ncia. Mais curioso ainda \u00e9 que havia cinco horas de grava\u00e7\u00f5es e conseguiram deixar espa\u00e7o num dos lados do disco duplo. Os cr\u00edticos e f\u00e3s debatem qual seria a melhor sele\u00e7\u00e3o para organizar todo esse material. Quem quiser se aprofundar na discuss\u00e3o deve ler o essencial \u201cInvisible Republic\u201d, de Greil Marcus. Em todo o caso, podemos nos divertir com as 24 faixas selecionadas. Em algumas delas, temos apenas The Band sozinha. As melhores de Robbie Robertson e cia. s\u00e3o \u201cKatie\u2019s Been Gone\u201d e \u201cBessie Smith\u201d. Os m\u00fasicos que acompanharam Bob Dylan disseram n\u00e3o saber muito bem a que ele se referia em algumas letras. Ap\u00f3s o acidente de moto, ele passou por um surto e chegou a escrever 10 can\u00e7\u00f5es em uma semana. Se n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel penetrar no significado de algumas composi\u00e7\u00f5es, podemos vibrar com muitas delas, como \u201cGoing To Acapulco\u201d, \u201cTears of Rage\u201d, cujo contraponto vocal de Richard Manuel \u00e9 de fazer chorar, \u201cYou Ain\u2019t Goin\u2019 Nowhere\u201d e \u201cThis Wheel\u2019s On Fire\u201d, que se refere ao acidente que quase tirou a vida de Bob Dylan. Para os que gostaram, vale procurar por algumas obras-primas que ficaram de fora do \u00e1lbum oficial: \u201cSign On The Cross\u201d, \u201cI\u2019m a Teenage Prayer\u201d e \u201cI\u2019m Alright\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: 10<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-6331 aligncenter\" title=\"desire\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/desire.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/desire.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/desire-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Desire (1976)<\/strong><br \/>\nAp\u00f3s \u201cBlood On The Tracks\u201d, Bob Dylan precisava mudar, pois aquele tipo de composi\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava esgotado. Em parceria \u2013 algo in\u00e9dito em sua carreira \u2013 com o letrista e diretor de teatro Jaques Levy, as letras de Bob ganharam um ar teatral, uma qualidade cinematogr\u00e1fica. Como sempre, as grava\u00e7\u00f5es duraram apenas quatro dias (Bob afirma que n\u00e3o dormiu nesse per\u00edodo), e contaram com Scarlet Rivera no violino, Rob Stoner no baixo e vocais de fundo de Emmylou Harris, que tinha de se basear no movimento da boca de Dylan, uma vez que n\u00e3o tinha as letras para acompanhar. O violino confere um som meio cigano ao disco, o que faz dele \u00fanico na discografia de Dylan. Para Jeff Tweedy (Wilco), \u201cHurricane\u201d \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o que \u201cs\u00f3 acontece uma vez a cada dez anos\u201d. \u00c9 uma excelente abertura para \u201cDesire\u201d e mostra que Bob ainda podia compor can\u00e7\u00f5es de protesto. \u201cIsis\u201d \u00e9 praticamente um conto sobre casamento. \u201cMozambique\u201d parece um exerc\u00edcio de Levy e Bob para encontrar rimas em \u201cique\u201d. A faixa seguinte, \u201cOne More Cup Of Coffee\u201d traz um belo vocal de Dylan, comparado a um segundo violino (e j\u00e1 ganhou uma vers\u00e3o rascante do White Stripes). O lado dois conta com letras longas (\u201cJoey\u201d, \u201cRomance In Durango\u201d, \u201cBlack Diamond Bay\u201d), mas o diamante \u00e9 \u201cSara\u201d. A can\u00e7\u00e3o menciona a alegria das crian\u00e7as pequenas, o feriado em Portugal e apela no fim: \u201cdon\u2019t ever leave me, don\u2019t ever go\u201d. Sara passou pelo est\u00fadio durante as grava\u00e7\u00f5es e Bob cantou a can\u00e7\u00e3o para ela: \u201cDaria para ouvir um alfinete caindo no ch\u00e3o\u201d, afirmou Levy. Resultado: uma bela can\u00e7\u00e3o e Sara de volta aos bra\u00e7os de Bob. Quem disse que hist\u00f3rias de amor n\u00e3o t\u00eam um final feliz?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: 9<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6332 aligncenter\" title=\"hardrain\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/hardrain.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Hard Rain (1976)<\/strong><br \/>\nN\u00e3o tem The Band, mas Mick Ronson (guitarra, o g\u00eanio por tr\u00e1s das Aranhas de Marte de David Bowie), Gary Burke (bateria), Rob Stoner (baixo) e T-Bone Burnette (piano e guitarra) d\u00e3o conta do recado. Gravado nas v\u00e9speras do trig\u00e9simo quinto anivers\u00e1rio de Bob Dylan, o disco ao vivo soa violent\u00edssimo. \u201cMaggie\u2019s Farm\u201d ganhou um novo riff de Ronson, numa interpreta\u00e7\u00e3o que nada deve aos anos 60. \u201cOne Too Many Mornings\u201d conta com um violino lamentoso de Scarlet Rivera, al\u00e9m da mudan\u00e7a da letra, cujo fim agora \u00e9 \u201cI\u2019ve no right to be here and you\u2019re no right to stay\u201d. Paul Williams deu a melhor defini\u00e7\u00e3o de \u201cMemphis Blues Again\u201d: \u201cum beb\u00ea rec\u00e9m-nascido berrando sem amarras\u201d. Esta vers\u00e3o de \u201cI Trew It All Away\u201d consegue ser melhor do que a original de \u201cNashville Skyline\u201d: a slide guitar \u00e9 de cortar o cora\u00e7\u00e3o e Bob soa mais arruinado do que nunca ao acrescentar que \u201cone thing for sure, there ain\u2019t no cure\u201d. N\u00e3o bastasse tudo isso, ainda temos tr\u00eas releituras de \u2018Blood On The Tracks\u201d. A primeira, que abre o lado dois, \u00e9 \u201cShelther From The Storm\u201d, que faz pensar em The Clash. \u201cYou\u2019re A Big Girl Now\u201d tem quase o dobro da dura\u00e7\u00e3o original, com andamento mais lento e uma interpreta\u00e7\u00e3o para fazer qualquer ser humano chorar. \u201cIdiot Wind\u201d passa a r\u00e9gua, afogando o ouvinte em bile e \u00f3dio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: 10<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-6333 aligncenter\" title=\"streetlegal_0\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/streetlegal_0.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/streetlegal_0.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/streetlegal_0-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Street Legal (1978)<\/strong><br \/>\nHist\u00f3rias de amor s\u00f3 t\u00eam final feliz no cinema. Eis um disco confuso. Na \u00e9poca, os cr\u00edticos n\u00e3o gostaram: o som \u00e9 abafado, parece que Dylan ganhou um dicion\u00e1rio de rimas e resolveu brincar com ele, fazendo refer\u00eancias m\u00edsticas ao tar\u00f4, \u00e0 astrologia, al\u00e9m de ter bebido em excesso na B\u00edblia e em Robert Johnson. Gravado no est\u00fadio de Bob em Santa M\u00f4nica sem nenhum produtor renomado, o disco contou com procedimentos inusitados, como usar um p\u00e1raquedas para abafar o som da bateria. Insatisfeito com o resultado, Dylan demitiu a banda inteira e a recontratou pouco tempo depois para terminar a turn\u00ea. Paul Williams acredita que este disco \u00e9 \u201cum pedido de ajuda\u201d. Pode ser, e tamb\u00e9m \u00e9 um disco de transi\u00e7\u00e3o. Rec\u00e9m-separado, apesar da alian\u00e7a na foto da capa, e a caminho da convers\u00e3o ao cristianismo, Bob Dylan parece perdido e as letras afetam ressentimento, amargor e trai\u00e7\u00e3o. Hoje em dia, existe uma tend\u00eancia para ser mais benevolente com \u201cStreet Legal\u201d, baseado num sentimento de que o disco \u00e9 mais misterioso e profundo do que parece. De relevante, \u201cSe\u00f1or (Tales Of Yankee Power)\u201d: uma can\u00e7\u00e3o que j\u00e1 aponta para a convers\u00e3o religiosa, entremeada pelo fracasso do casamento com Sara. N\u00e3o bastasse a confus\u00e3o do disco, Bob ainda conseguiu enfiar um verso (\u201ccan you cook and see, make flowers grow, do you understand my pain\u201d?) que causou f\u00faria nas feministas, com toda raz\u00e3o. Para apreciar este disco \u00e9 preciso embarcar na viagem. Fique na esta\u00e7\u00e3o esperando o pr\u00f3ximo trem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: 5<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-6334 aligncenter\" title=\"budokan\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/budokan.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/budokan.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/budokan-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>At Budokan (1978)<\/strong><br \/>\nEste ainda n\u00e3o \u00e9 o trem aguardado, mas tamb\u00e9m exige do ouvinte que se disponha a tolerar o lado A do vinil, com vers\u00f5es reggae (!) para \u201cShelther From The Storm\u201d e \u201cDon\u2019t Think Twice, It\u2019s All Right\u201d. O lado B vale s\u00f3 pela reescrita de \u201cGoing, Going, Gone\u201d. Preste aten\u00e7\u00e3o na transforma\u00e7\u00e3o de \u201cI Want You\u201d, uma can\u00e7\u00e3o animada e alegre, em uma can\u00e7\u00e3o triste. Apesar da curta dura\u00e7\u00e3o, ela se torna um grande lamento. \u00c9 um \u00e1lbum bastante popular, ouvido por muita gente que n\u00e3o conhece Dylan muito bem. N\u00e3o \u00e9 a melhor maneira de conhec\u00ea-lo. As interpreta\u00e7\u00f5es s\u00e3o desinteressadas e algumas tentativas de atualizar as can\u00e7\u00f5es para o som da \u00e9poca (disco, Las Vegas) acabam destruindo toda a for\u00e7a que elas poderiam ter. \u201cAt Budokan\u201d foi gravado em mar\u00e7o de 78, no Jap\u00e3o. Alguns cr\u00edticos reclamaram que a grava\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum se deu antes da banda atingir o \u00e1pice. Quem quiser tentar, pode baixar os shows dessa turn\u00ea na internet. Eu passo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: 4<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-6335 aligncenter\" title=\"slowtraincoming\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/slowtraincoming.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/slowtraincoming.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/slowtraincoming-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Slow Train Coming (1979)<\/strong><br \/>\nN\u00e3o deixe passar esse trem. O mesmo homem que uma d\u00e9cada atr\u00e1s havia cantado n\u00e3o precisar de um metereologista para saber aonde o vento soprava, agora dizia que voc\u00ea deve servir Algu\u00e9m. Depois de experimentar um contato com Deus em novembro de 1978, num hotel em Tucson, Dylan tirou os primeiros meses de 79 para estudar a B\u00edblia. O que come\u00e7ara a aparecer em \u201cJohn Wesley Harding\u201d se mostra agora em toda a Sua gl\u00f3ria. Inicialmente, Bob escreveu as can\u00e7\u00f5es pensando em d\u00e1-las para Carolyn Dennis, sua futura esposa e cantora de apoio na \u00e9poca, gravar \u2013 \u201celas nem levariam o meu nome\u201d. Com o baterista Pick Withers e o guitarrista Mark Knopfler, do Dire Straits, Dylan gravou todas as can\u00e7\u00f5es com o objetivo de converter os ouvintes e salv\u00e1-los da dana\u00e7\u00e3o eterna. Para isso, ele usou at\u00e9 mesmo o nome de batismo (\u201cpode me chamar de Zimmy\u201d) na faixa de abertura, \u201cGotta Serve Somebody\u201d \u2013 e recebeu seu primeiro Grammy por esta can\u00e7\u00e3o. A parte instrumental \u00e9 realmente muito digna e a guitarra de Knopfler chega perto de cantar em alguns momentos, como em \u201cPrecious Angel\u201d. Jann Wenner escreveu: \u201cF\u00e9 \u00e9 a mensagem, a chave para se compreender este \u00e1lbum\u201d. Em \u201cI Believe You\u201d, Dylan deturpa o significado dos versos \u201cAnd I walk out on my own a thousand miles from home\u201d, geralmente associados \u00e0 natureza errante dos trovadores, para afirmar sua f\u00e9 em Deus: \u201cBut I feel alone, \u2018cause I believe in You\u201d. \u201cSlow Train\u201d parece perfeita para ser usada como justificativa para as guerras empreendidas pela fam\u00edlia Bush no Oriente M\u00e9dio. O lado B segue no mesmo ritmo, com grande energia, vocais inspirados e um casamento perfeito entre banda e vocalista. \u00c9 engra\u00e7ado que Dylan alerte sobre \u201cspiritual advisors and gurus to guide you every move\u201d, justamente quando ele est\u00e1 nesta situa\u00e7\u00e3o, seguindo os preceitos da Igreja Cat\u00f3lica. Pode parecer incr\u00edvel, mas \u201cSlow Train Coming\u201d \u00e9 um dos discos de mais sucesso da carreira de Bob Dylan: alcan\u00e7ou o terceiro lugar nas paradas, recebeu o disco de ouro em 79 e o de platina em 80. S\u00f3 para n\u00e3o deixar passar mais uma das distor\u00e7\u00f5es operadas por Bob Dylan neste disco: o trem, lugar m\u00edtico por excel\u00eancia do blues, ve\u00edculo m\u00e1gico de viagem, de uni\u00e3o, de separa\u00e7\u00e3o, se torna agora um s\u00edmbolo religioso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: 8<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6336 aligncenter\" title=\"saved\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/saved.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Saved (1980)<\/strong><br \/>\nOs shows ficaram tensos novamente. \u201cA eletricidade havia deixado os puristas do folk aborrecidos, mas a religi\u00e3o deixava todo mundo aborrecido\u201d, resumiu Howard Sounes. Bob manteve a mesma atitude do per\u00edodo 65-66: simplesmente ignorou e fez o que achou que tinha de fazer. No caso, m\u00fasica crist\u00e3 e longos, arrastados, chat\u00edssimos serm\u00f5es sobre pecado e reden\u00e7\u00e3o. \u00c9 inacredit\u00e1vel, mas o mito do folk, o \u00eddolo do rock havia se transformado em um tio carola, capaz de reclamar do \u201cpalavreado sujo\u201d (logo quem!) dos jovens e de mand\u00e1-los a um show do Kiss \u201cdan\u00e7ar rock at\u00e9 o quinto dos infernos!\u201d (ops). Criticar este \u00e1lbum \u00e9 f\u00e1cil. A bateria \u00e9 uma coisa tenebrosa de t\u00e3o horr\u00edvel (um engenheiro de som botou fita adesiva no instrumento), a capa parece desenhada por uma crian\u00e7a e as letras s\u00e3o apenas para convertidos. Foi o \u00fanico \u00e1lbum a ser testado primeiro em turn\u00ea e depois gravado. A pauleira dos confrontos com o p\u00fablico fez com que a banda chegasse desgastada aos est\u00fadios. Um m\u00fasico confirma: tudo o que eles queriam era ir pra casa e ainda tiveram de enfrentar quatro dias de grava\u00e7\u00e3o. Mas vale bancar o advogado de defesa: encontre um solo de gaita de Bob Dylan melhor do que o de \u201cWhat Can I Do For You?\u201d. Se voc\u00ea ouve \u201cPressing On\u201d e n\u00e3o tem vontade de se encontrar com Deus, v\u00e1 ouvir Van Morrison e depois volte a ouvir esta can\u00e7\u00e3o. Uma Torre de Pisa de clich\u00eas, meu amigo, mas que interpreta\u00e7\u00e3o! \u201cDon\u2019t look back\u201d, aconselha o bardo. Muita gente desconfiava de que o sentimento religioso de Dylan fosse sincero. Keith Richards disse que Bob era um \u201cprofeta do lucro\u201d. Podemos at\u00e9 discutir a qualidade dos trabalhos da fase crist\u00e3 de Bob Dylan, mas parece ineg\u00e1vel que ele de fato acreditava em tudo o que estava dizendo. \u201cSaved\u201d e \u201cShot of Love\u201d talvez n\u00e3o sejam seus melhores trabalhos justamente pelo fervor religioso, mas \u00e9 melhor colocar sua alma no que voc\u00ea faz, mesmo que ela esteja um pouco confusa no momento, do que criar uma obra de arte fria e perfeita. No entanto, n\u00e3o deixa de ser ir\u00f4nico que Dylan tenha escolhido o rock, a m\u00fasica do diabo, para salvar as pessoas do Armagedon.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: 7<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6338 aligncenter\" title=\"shotatlove\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/shotatlove.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Shot of Love (1981)<\/strong><br \/>\n\u00c9 uma escadinha, mas para baixo: come\u00e7amos bem em \u201cSlow Train Coming\u201d, ca\u00edmos um pouco em \u201cSaved\u201d e agora estamos l\u00e1 embaixo em \u201cShot Of Love\u201d. Tudo nele parece um equ\u00edvoco. Dylan passou muito tempo trabalhando nas can\u00e7\u00f5es e, como de h\u00e1bito, deixou as melhores de fora, pois se cansou delas. A produ\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m foi acidentada, passando pelas m\u00e3os de Jimmy Iovine, Robert \u201cBumps\u201d Blackwell e finalmente Chuck Plotkin. Para variar, Dylan n\u00e3o estava com vontade de fazer performances inesquec\u00edveis, mas apenas de registrar o material dispon\u00edvel. Isso significou tocar apenas duas ou tr\u00eas vezes cada can\u00e7\u00e3o, sendo que uma p\u00e9rola do calibre de \u201cEvery Grain of Sand\u201d s\u00f3 foi captada porque o produtor Chuck Plotkin correu com um microfone para captar o que Bob dizia, j\u00e1 que ele simplesmente sentou ao piano e come\u00e7ou a cantar. N\u00e3o bastasse tudo isso, o baterista Jim Keltner, que colaborou em muitos discos, contou que Dylan \u201ctentava criar uma tens\u00e3o\u201d com a sess\u00e3o r\u00edtmica, tocando a guitarra como se brigasse com a bateria. Para encerrar o festival de equ\u00edvocos, Bob se op\u00f4s \u00e0s tentativas de Plotkin de melhorar tecnologicamente o som do \u00e1lbum, pois queria algo mais r\u00fastico, mais sujo. A curiosidade \u00e9 que Ringo Starr empunhou as baquetas na constrangedora \u201cHeart of Mine\u201d. \u201cLenny Bruce\u201d \u00e9 uma homenagem ao comediante, mas n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 altura nem de Bruce nem de Bob. \u201cIn The Summertime\u201d come\u00e7a bem, mas falta vigor na performance, p\u00e1lida demais para o que est\u00e1 sendo cantado. \u201cTrouble\u201d resume o disco: \u201ctrouble, trouble, trouble, nothing but trouble\u201d. Tudo \u00e9 problema, mas h\u00e1 uma obra-prima: \u201cEvery Grain Of Sand\u201d, em uma execu\u00e7\u00e3o perfeita e arrebatadora em toda sua vis\u00e3o sagrada de Deus, como o Para\u00edso em cada gr\u00e3o de areia do poeta William Blake. O dedilhado no piano de Carl Pickhardt confere uma atmosfera de ora\u00e7\u00e3o, calma e perfei\u00e7\u00e3o, \u201ccomo se tudo estivesse no lugar\u201d. E os solos de gaita de Bob nesta can\u00e7\u00e3o est\u00e3o entre os melhores de sua carreira. Sheryl Crow cantou \u201cEvery Grain Of Sand\u201d no funeral de Johnny Cash.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nota: 6<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/11\/09\/discografia-comentada-bob-dylan-parte-2\/\"><strong>Continua\u00e7\u00e3o: Discografia Comentada: Bob Dylan (parte 2)<\/strong><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-6368\" title=\"bobdylan_paramount_divulgacao2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/bobdylan_paramount_divulgacao2.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"628\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/bobdylan_paramount_divulgacao2.jpg 500w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/11\/bobdylan_paramount_divulgacao2-238x300.jpg 238w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*******<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Gabriel Innocentini cursa jornalismo na Unesp de Bauru e assina o blog <a href=\"http:\/\/blogeurogol.blogspot.com\/\">Eurogol<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Gabriel Innocentini\nTudo o que voc\u00ea queria saber sobre Robert Allen Zimmerman, mais conhecido como Bob Dylan, e n\u00e3o sabia a quem perguntar&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/11\/09\/discografia-comentada-bob-dylan-parte-1\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":32,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1320],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6309"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/32"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6309"}],"version-history":[{"count":39,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6309\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":62605,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6309\/revisions\/62605"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6309"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6309"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6309"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}