{"id":62963,"date":"2021-11-04T02:19:33","date_gmt":"2021-11-04T05:19:33","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=62963"},"modified":"2022-01-08T16:21:02","modified_gmt":"2022-01-08T19:21:02","slug":"entrevista-wagner-moura-marighella-e-uma-missao-na-minha-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/11\/04\/entrevista-wagner-moura-marighella-e-uma-missao-na-minha-vida\/","title":{"rendered":"Entrevista &#8211; Wagner Moura: &#8220;&#8216;Marighella&#8217; \u00e9 uma miss\u00e3o na minha vida&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A nova visita a &#8220;Marighella&#8221; dentro de uma sala de cinema gerou um impacto ainda mais forte. A anterior foi h\u00e1 11 meses, em uma sess\u00e3o especial que aconteceu no ent\u00e3o Espa\u00e7o Ita\u00fa de Cinema \u2013 Glauber Rocha, em Salvador, a primeira do filme em um cinema do Brasil, na Semana da Consci\u00eancia Negra do ano passado. Em um final de ano como o do catastr\u00f3fico 2020, quando as mortes pela pandemia cresciam exponencialmente, verbas de vacina (como viemos a descobrir alguns meses depois) eram desviadas e a falta de perspectivas de um pa\u00eds perdido desesperava os mais atentos, a sess\u00e3o de &#8220;Marighella&#8221; na minha primeira visita ao Cine Glauber ap\u00f3s meses de confinamento bateu pesado neste escriba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Corta para esse final de 2021, e o sentimento em rela\u00e7\u00e3o ao que acontece ao nosso redor n\u00e3o mudou muito. Por\u00e9m, ap\u00f3s a segunda dose da vacina (mas ainda usando m\u00e1scara em locais p\u00fablicos, evitando aglomera\u00e7\u00f5es e podendo sair de casa com mais regularidade), a compara\u00e7\u00e3o com aqueles \u00faltimos meses do ano passado, quando a pancada dirigida por Wagner Moura me fez deixar combalido a Sala 1 do Glauber, \u00e9 inevit\u00e1vel. No entanto, a sess\u00e3o para imprensa do filme acabou por causar resultado semelhante \u00e0quele inicial do ano passado. Para quem sabe reconhecer a fragilidade de nossa democracia e percebe os riscos de um Brasil desgovernado por fan\u00e1ticos, as duas horas e meia de proje\u00e7\u00e3o de &#8220;Marighella&#8221; nos traz para essa realidade de maneira brutal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de embargos da Secretaria de Cultura do governo brasileiro e imbr\u00f3glios burocr\u00e1ticos gerados de modo proposital pela Ancine gerida pelo atual executivo, a obra dirigida por Wagner Moura alcan\u00e7a seu p\u00fablico ap\u00f3s quase tr\u00eas anos da data inicial prevista para sua estreia, que seria no come\u00e7o de 2019. &#8220;O fato de voc\u00ea ser atacado pelo governo de um pa\u00eds porque voc\u00ea fez um filme \u00e9 um neg\u00f3cio que temos que parar para pensar em como \u00e9 algo extraordinariamente louco. Quando voc\u00ea tem um presidente e membros de um governo que te atacam porque voc\u00ea fez um filme, diz muito mais sobre o tempo que a gente est\u00e1 vivendo do que sobre o filme em si. Porque \u00e9 um filme&#8221;, explica Wagner Moura em entrevista ao Scream &amp; Yell por ocasi\u00e3o da sua visita a Salvador para uma sess\u00e3o especial para convidados no Teatro Castro Alves. O diretor, dentro desse constatar estupefato da persegui\u00e7\u00e3o de um governo contra seu trabalho, n\u00e3o esmaece: &#8220;Claro que eu n\u00e3o facilito para ele. Porque eu sou combativo. E n\u00e3o faria nenhum sentido se eu n\u00e3o fosse. Porque eu sou assim. Porque eu acho que vivemos um momento muito s\u00e9rio no pa\u00eds de hoje. Ent\u00e3o, \u00e9 hora de todo mundo que puder, vir para o combate, mesmo. Tem que ir para o enfrentamento&#8221;, afirma Moura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Baseada no denso livro escrito por M\u00e1rio Magalh\u00e3es, \u201cMarighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo\u201d (2012), a cinebiografia levada \u00e0s telas por Wagner Moura \u00e9 um de um estampido que ecoa muito tempo depois de seus cr\u00e9ditos finais. \u00c9 um filme alerta para os riscos que nos amea\u00e7am como um pa\u00eds que deu voz e poder a projetos de ditadores e genocidas por convic\u00e7\u00e3o. Na sua abertura, um letreiro nos fala sobre as perdas de liberdades que os militares impuseram logo ap\u00f3s retirar Jo\u00e3o Goulart do poder em 1964 sob o pretexto de salvar o Brasil da &#8220;corrup\u00e7\u00e3o e da amea\u00e7a comunista&#8221;. A promessa de novas elei\u00e7\u00f5es ap\u00f3s um ano do golpe militar, claro, n\u00e3o foi cumprida. O Brasil amargou 21 anos sob a al\u00e7ada sanguin\u00e1ria da ditadura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O estampido citado acima \u00e9 daqueles de cenas explosivas, sim, mas a dureza de \u201cMarighella\u201d se faz presente ainda mais forte em seus momentos de ternura, como quando Clara e Carlos se despedem, e o deputado deixa uma fita gravada para seu filho, que n\u00e3o p\u00f4de reencontrar como lhe prometeu. Em outro ponto, engolimos em seco o momento em que vemos as l\u00e1grimas do homem dentro do carro voltando de Cachoeira, cidade do Rec\u00f4ncavo, onde teve que deixar o filho ap\u00f3s este perceber e alertar o pai da emboscada dos militares. Tais momentos dolorosos reverberam com mais for\u00e7a que os tiros e bombas que explodem no decorrer daquela trajet\u00f3ria do grupo de homens e mulheres que decidiu n\u00e3o aceitar os desmandos tir\u00e2nicos e assassinos de uma corja sanguin\u00e1ria de militares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Marighella&#8221; se torna um filme s\u00edmbolo de um momento em que o Brasil se v\u00ea quase perdido. Quase. A for\u00e7a de sua cena durante os cr\u00e9ditos finais, quando \u00e9 cantando com for\u00e7a o hino nacional, esse outro s\u00edmbolo que, de alguns anos para c\u00e1, foi cooptado por for\u00e7as mal-intencionadas e mesquinhas, traz esse sentimento de que merecemos mais do que esse pa\u00eds levado para tr\u00e1s por mentiras, not\u00edcias falsas, obscurantismo e negacionismo. Wagner Moura traz em sua fala uma for\u00e7a semelhante \u00e0quela dos personagens ao bradar o nosso hino. &#8220;Eu acho que o Brasil j\u00e1 vive um momento em que nos demos conta de que a elei\u00e7\u00e3o de 2018 foi pedag\u00f3gica. A nossa hist\u00f3ria, a Hist\u00f3ria do Brasil, \u00e9 tamb\u00e9m absolutamente violenta, autorit\u00e1ria, golpista, racista. Bolsonaro sintetiza esse Brasil elitista que, em determinado momento, os eleitores foram \u00e0s ruas dizer: &#8216;esse Brasil existe. Olhem para esse Brasil que ele existe.&#8217; E esse Brasil \u00e9 sintetizado na figura de Bolsonaro. Agora, eu acho que esse mesmo pa\u00eds \u00e9 muito mais do que isso. E esse mesmo pa\u00eds, hoje, olha para isso e diz: &#8216;N\u00e3o \u00e9 esse o Brasil que queremos.&#8217; N\u00f3s nos defrontamos com isso. Somos um pa\u00eds mestre em camuflar as coisas. \u00c9 o pa\u00eds da lei da anistia. \u00c9 o pa\u00eds do racismo disfar\u00e7ado. E Bolsonaro mostrou que o Brasil \u00e9 um pa\u00eds com um hist\u00f3rico terr\u00edvel. S\u00f3 que a gente est\u00e1 olhando para isso e todas as pesquisas dizem que n\u00e3o queremos mais&#8221;, pontua o cineasta e afirma: &#8220;Eu sou muito otimista com 2022\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cVamos ter que reconstruir um pa\u00eds. Vai ser um trabalho muito duro, porque andamos para tr\u00e1s. Foi algo devastador em todas as \u00e1reas. Mas \u00e9 assim. Vamos reconstruir e caminhar para voca\u00e7\u00e3o que eu vejo que \u00e9 a desse pa\u00eds: a de um lugar exemplo para o mundo&#8221;, completa Wagner. Depois daquele dia em novembro do ano passado, quando as incertezas e medos eram mais densos, sair de um cinema depois de uma sess\u00e3o de &#8220;Marighella&#8221; em outubro de 2021 traz uma nova perspectiva para um futuro menos sombrio em nosso pa\u00eds. Um ano ap\u00f3s sua primeira entrevista sobre \u201cMarighella\u201d com o Scream &amp; Yell, Wagner Moura traz novas impress\u00f5es sobre sua experi\u00eancia nesse trabalho que, finalmente, chega \u00e0s telas dos cinemas. Confira o papo!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Marighella | Trailer Oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/bo5ohsd4T08?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/11\/22\/entrevista-wagner-moura-fala-sobre-a-importancia-de-marighella-no-brasil-de-2020\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Wagner, conversamos h\u00e1 11 meses em uma entrevista<\/a> por ocasi\u00e3o da sess\u00f5es especiais que &#8220;Marighella&#8221; teve na Semana da Consci\u00eancia Negra, em novembro de 2020, no Cine Glauber Rocha, localizado na Pra\u00e7a Castro Alves, aqui em Salvador. Agora, finalmente o filme entra em circuito comercial. Ver esse trabalho chegando \u00e0s telas ap\u00f3s tr\u00eas anos desde sua finaliza\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s toda persegui\u00e7\u00e3o de um governo formado por insanos, a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 a de um expurgo, \u00e9 a de um al\u00edvio?<\/strong><br \/>\nEstou caminhando com esse filme desde 2013. Com muito orgulho, &#8220;Marighella&#8221; \u00e9 uma miss\u00e3o na minha vida. Passei por muita coisa com esse filme. Todo tipo de del\u00edcias e dores poss\u00edveis eu vivi e acho que vamos viver ainda. Porque esse lan\u00e7amento n\u00e3o vai ser f\u00e1cil. Eu j\u00e1 sei que tem uma mil\u00edcia digital dando nota baixa ao filme no IMDb, sendo que ele nem estreou. Todos os ataques sofridos. Os ataques do governo. O fato de voc\u00ea ser atacado pelo governo de um pa\u00eds porque voc\u00ea fez um filme \u00e9 um neg\u00f3cio que temos que parar para pensar em como \u00e9 algo extraordinariamente louco. Quando voc\u00ea tem um presidente e membros de um governo que te atacam porque voc\u00ea fez um filme, diz muito mais sobre o tempo que a gente est\u00e1 vivendo do que sobre o filme em si. Porque \u00e9 um filme. Claro que eu n\u00e3o facilito para ele. Porque eu sou combativo. E n\u00e3o faria nenhum sentido se eu n\u00e3o fosse. Porque eu sou assim. Porque eu acho que vivemos um momento muito s\u00e9rio no pa\u00eds de hoje. Ent\u00e3o, \u00e9 hora de todo mundo que puder vir para o combate, mesmo. Tem que ir para o enfrentamento. E tamb\u00e9m porque seria um desrespeito \u00e0 mem\u00f3ria de Marighella fazer um filme sobre sua mem\u00f3ria e sobre a mem\u00f3ria de toda aquela gente que tombou na luta contra a ditadura, e eu n\u00e3o fazer com que esse filme se tornasse algo com que as pessoas se identificassem. O filme terminou virando um produto que, pelos ataques que sofreu e pela import\u00e2ncia de Marighella e por tudo, se tornou uma coisa com a qual as pessoas, simbolicamente, se identificam. Acho importante que o filme seja visto, mesmo, como uma pe\u00e7a de clara oposi\u00e7\u00e3o ao estado das coisas no Brasil. Lan\u00e7\u00e1-lo agora, e sobretudo lan\u00e7\u00e1-lo aqui em Salvador, tem uma coisa para especial para mim. Hoje \u00e9 um dia muito especial para mim. Porque \u00e9 aquilo que voc\u00ea falou. S\u00e3o muitos anos carregando isso. E eu fiz um filme de amor. Para mim, o meu filme \u00e9 um filme sobre amor. E acho que essa sess\u00e3o especial no Teatro Castro Alves, por mais que tenha barulho aqui ou ali, l\u00e1 dentro daquela sala, vai ser uma troca de amor. Quando a gente estrear esse filme aqui na Bahia, na minha terra, na terra de Marighella, cercado pelas pessoas que sempre quiseram que esse filme acontecesse, que gostam de mim, que gostam de Marighella, que entendem a simbologia do filme para o momento do pa\u00eds, essa vai ser uma noite de troca de amor. Eu acho que \u00e9 uma coisa que estamos mesmo precisando.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-62967\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/MRG_dia31_arielabueno-48.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/MRG_dia31_arielabueno-48.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/MRG_dia31_arielabueno-48-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual foi o maior desafio nessa estreia como diretor em &#8220;Marighella&#8221;?<\/strong><br \/>\nO desafio para mim \u00e9 enfrentar o extracampo. Algo que n\u00e3o tem nada a ver com o filme. Quer dizer, tem a ver com o filme, mas tem a ver com enfrentar as paix\u00f5es que o filme desperta. Eu fico feliz que o filme incomode Bolsonaro. Eu acho bom, mesmo. Mas eu fico impressionado e chocado quando penso como \u00e9 que pode um governo declarar guerra a um produto cultural. E mais do que isso. Ele declarou guerra ao Brasil, \u00e0 Cultura de uma forma geral. Ent\u00e3o, receber isso contra o filme \u00e9 o mais dif\u00edcil. Porque \u00e9 triste &#8220;Marighella&#8221; n\u00e3o ter podido estrear. Mas a parte boa \u00e9 todo o resto. Porque eu tive muito prazer em fazer esse filme. Se por um lado os ataques foram duros, por outro aquilo nos deu um sentimento enquanto film\u00e1vamos. Faz\u00edamos tudo pela necessidade de estarmos juntos e de respondermos \u00e0quilo com o filme em si. Todos os dias, tinha uma energia muito poderosa, combativa, art\u00edstica, tesuda, no set. E eu acho que esse era o meu trabalho consciente mais importante como diretor. Primeiro que todos vissem o mesmo filme que eu estava vendo e desafiar a todos para que contribu\u00edssem com o melhor que tinham. Para que todos os dias acordassem com vontade de estar ali e entendendo a import\u00e2ncia do que estavam fazendo. Tendo tes\u00e3o por fazer aquilo. E assim foi. Quando vi que em Berlim havia 25 pessoas entre elenco e equipe do filme (no festival), isso \u00e9 uma coisa que eu nunca vi na minha vida em nenhum filme que eu fiz. Quando voc\u00ea viaja para um festival, tem um produtor, um ator, tr\u00eas ou quatro pessoas no m\u00e1ximo. N\u00f3s \u00e9ramos 25 pessoas no cinema de Berlim. Galera que sabia que n\u00e3o t\u00ednhamos grana para pagar passagem e eles queriam estar l\u00e1 naquele primeiro dia. Aqui, hoje, em Salvador, est\u00e1 cheio de gente da equipe. Est\u00e1 todo mundo aqui. Foi algo forte para todos n\u00f3s. E as circunst\u00e2ncias extra filme, ao inv\u00e9s de desestabilizar, foi o contr\u00e1rio. Nos deixou mais unidos, mais fortes, e mais a fim de contar a hist\u00f3ria de Marighella.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-62966\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/MRG_dia8_arielabueno-54.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/MRG_dia8_arielabueno-54.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/MRG_dia8_arielabueno-54-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O filme equilibra momentos de a\u00e7\u00e3o constante e frenesi, com momentos de calmaria e ternura. Como foi planejar esse equil\u00edbrio como diretor e junto ao montador Lucas Gonzaga?<\/strong><br \/>\nEu queria muito ver os personagens de forma complexa. Para mim, como ator, o meu trabalho \u00e9 esse. \u00c9 ver as pessoas de forma multidimensionais. Ningu\u00e9m \u00e9 uma coisa chapada. Marighella \u00e9 colocado em xeque o tempo todo no filme, com todo mundo. Ao mesmo tempo, esse \u00e9 um filme que vem da minha admira\u00e7\u00e3o por ele. O personagem do Bruno (Gagliasso, que vive o delegado L\u00facio, torturador a servi\u00e7o da ditadura) \u00e9 um personagem complexo que chega para o americano e fala: &#8220;v\u00e1 se foder. Aqui \u00e9 o meu pa\u00eds e eu estou fazendo isso porque acho que \u00e9 a coisa certa&#8221;. Coisas, por exemplo, como o humor. Eu n\u00e3o queria fazer um filme que os guerrilheiros fossem uma galera pesada. As pessoas viviam suas vidas. Eu conversei com ex-guerrilheiros. Lembrei de quando eu morava em Bogot\u00e1 e falava com as pessoas de l\u00e1 sobre a \u00e9poca em que Pablo Escobar estourava bombas. As pessoas diziam que viviam a vida. Eles diziam: &#8220;A gente ia para o bar beber, estouravam bombas e n\u00f3s volt\u00e1vamos para casa&#8221;. Eu queria mostrar aquelas pessoas assim. Tive que cortar muita coisa no filme, mas, para mim, esse momento que voc\u00ea fala, as cenas de Marighella com Clara ou com Carlinhos. As cenas em que personagens se sacrificam por outros nesse filme. Isso para mim n\u00e3o era uma coisa muito racional de pensar. Planejar um equil\u00edbrio no filme entra a a\u00e7\u00e3o e os momentos mais calmos. Isso n\u00e3o era tanto. Meu foco era mais em ter personagens vivos. Que n\u00e3o correspondessem a estere\u00f3tipos de guerrilheiros, que era o que Marighella menos era. Ele n\u00e3o era aquele guerrilheiro duro. Ele era um cara divertido, engra\u00e7ado. Amante da vida, poeta. Queria que todos os personagens tivessem essa riqueza. Todos eles.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-62965\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/MOLIJ2kQ.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/MOLIJ2kQ.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/MOLIJ2kQ-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No nosso \u00faltimo papo, perguntei se voc\u00ea estava otimista quanto ao Brasil ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de 2022. Ap\u00f3s quase um ano, como est\u00e1 esse sentimento?<\/strong><br \/>\nEu estou totalmente otimista. Eu acho que o Brasil j\u00e1 vive um momento em que a gente se deu conta de que a elei\u00e7\u00e3o de 2018 foi pedag\u00f3gica. Falei isso em uma entrevista recente que dei \u00e0 Folha. Foi uma elei\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica. Estamos no meio de um projeto de destrui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Tudo o que o Brasil tem de bom est\u00e1 sendo destru\u00eddo. No entanto, ela \u00e9 pedag\u00f3gica porque nos fez enxergar um Brasil que estava camuflado pelo p\u00f3s-ditadura, pelo ciclo de progressismo que veio logo depois da ditadura militar. A Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, o governo FHC, o governo Lula, o governo Dilma. Isso nos levou a ver e a projetar um Brasil que, embora ainda desigual e que embora tenha evolu\u00eddo e tinha tanto ainda para ir, camuflou um Brasil personificado na figura de Bolsonaro. Uma figura que sempre existiu. A nossa hist\u00f3ria, a Hist\u00f3ria do Brasil, \u00e9 tamb\u00e9m absolutamente violenta, autorit\u00e1ria, golpista, racista. Bolsonaro sintetiza esse Brasil elitista que, em determinado momento, os eleitores foram \u00e0s ruas dizer: &#8220;esse Brasil existe. Olhem para esse Brasil que ele existe.&#8221; E esse Brasil \u00e9 sintetizado na figura de Bolsonaro. Agora, eu acho que esse mesmo pa\u00eds \u00e9 muito mais do que isso. E esse mesmo pa\u00eds, hoje, olha para isso e diz: &#8220;N\u00e3o \u00e9 esse o Brasil que queremos.&#8221; N\u00f3s nos defrontamos com isso. Somos um pa\u00eds mestre em camuflar as coisas. \u00c9 o pa\u00eds da lei da anistia. \u00c9 o pa\u00eds do racismo disfar\u00e7ado. E Bolsonaro mostrou que o Brasil \u00e9 um pa\u00eds com um hist\u00f3rico terr\u00edvel. S\u00f3 que a gente est\u00e1 olhando para isso e todas as pesquisas dizem que n\u00e3o queremos mais. Eu sou muito otimista com 2022. Vamos ter que reconstruir um pa\u00eds. Vai ser um trabalho muito duro, porque a gente andou para tr\u00e1s. Foi algo devastador em todas as \u00e1reas. Mas \u00e9 assim. Vamos reconstruir e caminhar para voca\u00e7\u00e3o que eu vejo que \u00e9 a desse pa\u00eds: a de um lugar exemplo para o mundo. Um pa\u00eds que, sobretudo, se amparar\u00e1 em dois pilares que s\u00f3 o Brasil tem: a Cultura e o Meio Ambiente. A rela\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas com o meio ambiente. Que eles nos ensinem isso. Que a gente tenha a sabedoria de aprender. E com esses dois pilares, possamos nos apoiar para mostrar ao mundo uma nova forma de desenvolvimento que ningu\u00e9m viu ainda. Eu acredito muito nesse Brasil.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Marighella | Quem foi Marighella?\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/aHY9J7YXnwg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto&nbsp;<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do&nbsp;<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Fico feliz que o filme incomode Bolsonaro. Acho bom, mesmo. Mas fico impressionado e chocado quando penso como \u00e9 que pode um governo declarar guerra a um produto cultural. E mais do que isso. Ele declarou guerra ao Brasil, \u00e0 Cultura de uma forma geral&#8221;, diz Wagner Moura\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/11\/04\/entrevista-wagner-moura-marighella-e-uma-missao-na-minha-vida\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":62973,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[4958],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62963"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=62963"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62963\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":62970,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62963\/revisions\/62970"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/62973"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=62963"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=62963"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=62963"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}