{"id":62952,"date":"2021-11-03T02:04:57","date_gmt":"2021-11-03T05:04:57","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=62952"},"modified":"2021-12-06T00:19:32","modified_gmt":"2021-12-06T03:19:32","slug":"entrevista-constantina-festeja-10-anos-do-album-haveno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/11\/03\/entrevista-constantina-festeja-10-anos-do-album-haveno\/","title":{"rendered":"Entrevista: Constantina festeja 10 anos do \u00e1lbum &#8220;Haveno&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\">entrevista por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/Victoranpires\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Victor de Almeida<\/a><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2011, os mineiros da banda Constantina lan\u00e7aram \u201cHaveno\u201d, seu quarto \u00e1lbum de est\u00fadio. Um disco que, sem d\u00favida, \u00e9 divisor de \u00e1guas na trajet\u00f3ria da banda. Esse marco n\u00e3o se deve apenas pela proje\u00e7\u00e3o que a banda teve dentro e fora do cen\u00e1rio independente do Brasil na d\u00e9cada de 2010, das excurs\u00f5es com shows pelos Estados Unidos e pela Europa, mas, sobretudo, por uma mudan\u00e7a est\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cHaveno\u201d, a Constantina mesclou \u00e0s melodias das guitarras \u2013 que, desde 2004, guiavam as estruturas das composi\u00e7\u00f5es dos tr\u00eas primeiros \u00e1lbuns \u2013 elementos percussivos, instrumentos de sopro, camadas e beats eletr\u00f4nicos em uma sonoridade que destoava do que se ouvia no rock instrumental ou no que se convencionou a chamar de post-rock no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Longe das camadas de distor\u00e7\u00e3o, delay e reverb que deram cara ao g\u00eanero, a crueza e a simplicidade dos arranjos da banda, agora enriquecidos de vibrafone, trompete e de interven\u00e7\u00f5es eletr\u00f4nicas marcaram a paisagem sonora de \u201cHaveno\u201d. Um disco que dialoga com a calmaria e sofistica\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o musical de Minas Gerais, ao mesmo tempo que traz elementos de um experimentalismo sonoro atrav\u00e9s dos glitches musicais e texturas que comp\u00f5e as faixas do disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para voltar a esse disco em seu anivers\u00e1rio de 10 anos, com direito <a href=\"https:\/\/constantina.bandcamp.com\/album\/haveno-10th-anniversary-edition\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">a uma vers\u00e3o digital do \u00e1lbum remasterizada<\/a> juntamente com uma s\u00e9rie de vers\u00f5es in\u00e9ditas, ao vivo e ac\u00fasticas, capturadas entre 2012 e 2013 <a href=\"https:\/\/constantina.bandcamp.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">e dispon\u00edvel no Bandcamp da banda<\/a> (e nos principais portais de streaming), o Scream &amp; Yell conversou com Daniel Nunes, baterista da banda refletindo sobre m\u00fasica e mem\u00f3ria. Aqui, mem\u00f3ria n\u00e3o diz respeito apenas a uma quest\u00e3o meramente nost\u00e1lgica, mas tamb\u00e9m da recorda\u00e7\u00e3o como revis\u00e3o da obra e, at\u00e9, de fazer art\u00edstico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, falamos sobre os rumos que o grupo tem seguido ap\u00f3s o lan\u00e7amento de \u201cAtr\u00f3pico\u201d (2019), o processo de repensar sua atua\u00e7\u00e3o, mercado da m\u00fasica e como o show deixou de ser um elemento central na produ\u00e7\u00e3o do Constantina, que agora assume compromissos semanais <a href=\"https:\/\/apoia.se\/constantina\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">em um programa de assinatura mensal<\/a> junto a f\u00e3s por meio da plataforma Apoia.se.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Imobilidade T\u00f4nica\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/SB3ShmaItEI?list=OLAK5uy_m9IxYvU8taBHhLe8BW7BvJmQro-naNcDU\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Estamos em 2021. Acho que tem um qu\u00ea de simb\u00f3lico celebrar 10 anos de \u201cHaveno\u201d, mas para quem n\u00e3o conhece ou n\u00e3o acompanhou a banda durante esse tempo, esse \u00e9 o quarto disco de voc\u00eas. Seis anos depois do \u201cConstantina\u201d, primeiro \u00e1lbum. O que levou a banda a pensar uma reedi\u00e7\u00e3o e uma comemora\u00e7\u00e3o para esse disco? O que o ciclo de \u201cHaveno\u201d significa?<\/strong><br \/>\nAcho que a primeira coisa que poderia dizer \u00e9 que essa comemora\u00e7\u00e3o n\u00e3o se restringe apenas ao anivers\u00e1rio do \u00e1lbum, mas tamb\u00e9m \u00e0 exist\u00eancia desse grupo de pessoas. \u201cHaveno\u201d remete a isso, a um momento de descobertas. Da vida&#8230; Como foi um \u00e1lbum que nos provocou muitos deslocamentos, acabou sendo natural chegar em 2021 e o Bruno (Nunes, guitarra) nos recordar que em setembro o \u00e1lbum faria 10 anos. Nesse sentido, o sentimento de \u201cdescobertas\u201d e \u201cdeslocamentos\u201d nos fez olhar para a \u00e9poca e efetivamente (re)descobrir materiais que n\u00e3o t\u00ednhamos dado muita aten\u00e7\u00e3o. Rever isso significa nos escutar ontem para entender o porqu\u00ea estamos fazendo a m\u00fasica de hoje, que \u00e9 completamente distinta da m\u00fasica feita h\u00e1 10 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Revisitar \u201cHaveno\u201d dez anos depois me leva a pensar o caminho da banda at\u00e9 esse disco. Se a gente pega o primeiro (2005), o \u201cJaburu\u201d (2006) e o \u201cHola, Amigos\u201d (2008) \u00e9 poss\u00edvel notar um certo caminho sendo trilhado. Sem d\u00favida, em termos de sonoridade, \u201cHaveno\u201d \u00e9 um momento de mudan\u00e7a de rumos e de uma certa ruptura para o Constantina, n\u00e9? Olhando para tr\u00e1s, o que esse momento de concep\u00e7\u00e3o e composi\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum significou para a trajet\u00f3ria da banda? Como foi sair do quarteto de \u201cHola, Amigos\u201d e chegar num septeto para esse disco?<\/strong><br \/>\nRealmente tivemos uma ruptura em \u201cHaveno\u201d. A entrada de Tulio, Lucas, Thiago e Gustavo trouxe novas perspectivas e refer\u00eancias que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o faziam parte do coletivo. Lembro que Tulio escutava muito Hermeto Pascoal&#8230; Sempre! Isso de alguma maneira nos influenciou ao longo dos nossos encontros. Al\u00e9m de refer\u00eancias, todos eles trouxeram novas sonoridades. Tulio levou adiante a hist\u00f3ria do vibrafone e percuss\u00e3o, Lucas efetivou um desejo antigo do trompete. Gustavo com suas melodias e r\u00edtmicas muito peculiares na guitarra. Thiago no contrabaixo construindo harmonias e r\u00edtmicas muito desafiadoras para mim, pois meio que est\u00e1vamos ali juntos, baixo e bateria. E com essa entrada deles as energias acabaram se renovando tamb\u00e9m. Est\u00e1vamos ali h\u00e1 alguns anos, eu, Bruno e Andr\u00e9 e ter novos sentidos e vontades fez com que esse processo fosse t\u00e3o proveitoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cHaveno\u201d \u00e9 um disco que teve muitos desdobramentos, n\u00e9? As faixas instrumentais ganharam muito com a colabora\u00e7\u00e3o de outros compositores em \u201cPac\u00edfico\u201d (2012). Colabora\u00e7\u00f5es que nasceram para o palco viraram um segundo disco ou, melhor, uma continua\u00e7\u00e3o, se d\u00e1 para dizer assim. Compositores como Franny Glass (Uruguai), Mat\u00e9ria Prima (MG), Wado (AL) compuseram letras e deram um outro colorido para \u201cHaveno\u201d. Essa ideia de algo meio \u201cem processo\u201d j\u00e1 era uma quest\u00e3o para voc\u00eas? O que esses interc\u00e2mbios trouxeram para a banda?<\/strong><br \/>\nNa verdade, eu nuca me debrucei sobre isso. Mas olhando hoje acho que \u201cPac\u00edfico\u201d foi mais uma resson\u00e2ncia de tudo que foi vivido no per\u00edodo do \u201cHaveno\u201d. Est\u00e1vamos abertos aos encontros com pessoas que traziam novas perspectivas. O \u201cPac\u00edfico\u201d acabou sendo uma esp\u00e9cie de eco das propostas que realizamos no festival que organizo em Belo Horizonte, \u201cPequenas Sess\u00f5es\u201d. Como promov\u00edamos interc\u00e2mbios sempre abertos a experimenta\u00e7\u00f5es, a voz tamb\u00e9m foi um dos elementos que decidimos experimentar em 2011. Os interc\u00e2mbios nos fizeram sair do lugar comum, n\u00e9!? Amplificaram sonoridades. Nos fizeram entender que pod\u00edamos visitar outros territ\u00f3rios sonoros. Navegar outros mares e chegar a lugares que anos antes nos pareciam ser imposs\u00edveis. Isso foi muito legal, pois abriu possibilidades de tocarmos para p\u00fablicos que jamais chegar\u00edamos. Mas sobretudo, fez com que tiv\u00e9ssemos amigos para a vida! Este para mim \u00e9 o principal aspecto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu sempre achei que o Constantina sempre teve um modo muito particular de trabalhar mem\u00f3ria. N\u00e3o que isso tenha a ver com nostalgia, mas, talvez, um modo interessante de olhar para o passado com outra perspectiva, anos depois. Isso me veio a cabe\u00e7a quando comprei \u201cJaburu\u201d, na \u00e9poca lan\u00e7ado pela Peligro. De como voc\u00eas retrabalharam m\u00fasicas e passagens que ficaram de fora do primeiro disco para transformar em algo \u201cnovo\u201d. Coisa que tamb\u00e9m aconteceu em \u201cPelicano\u201d (2014) e \u201cCodorna\u201d (2017). Faz sentido? O que voc\u00ea pensa sobre? Qual o lugar da mem\u00f3ria na m\u00fasica e nos processos de composi\u00e7\u00e3o de voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nAcho que concordo. Esta \u00e9 uma excelente pergunta. Dif\u00edcil de ser respondida. Ao citar a mem\u00f3ria e todos esses \u00e1lbuns me recordei de uma passagem de Walter Benjamin que diz: \u201ca maneira como a percep\u00e7\u00e3o humana se organiza, o meio no qual ela \u00e9 alcan\u00e7ada, \u00e9 determinada n\u00e3o s\u00f3 pela natureza humana, mas tamb\u00e9m por circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas\u201d. Todos os \u00e1lbuns citados partem de momentos que foram registrados muito antes de serem lan\u00e7ados. Registro e lan\u00e7amento n\u00e3o s\u00e3o contempor\u00e2neos. Acontece que muitos desses registros s\u00f3 foram absorvidos e aceitos ap\u00f3s anos de escuta. Nesse sentido, a mem\u00f3ria enquanto arquivo conduziu parte do nosso processo, guardando os fonogramas em arquivos digitais. Por outro nos deparamos com a ideia de mem\u00f3ria enquanto recordar&#8230; \u201cVoltar a viver\u201d, ruptura de uma temporalidade que era linear, mas que em determinados momentos p\u00f4de ser ressignificada. Esses momentos ganharam outros contornos, renovaram nossas percep\u00e7\u00f5es aproximando, de alguma maneira, o passado ao presente e nos apontando sentidos que antes n\u00e3o eram percebidos. Esses discos de alguma maneira nos ressoam dessa maneira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Al\u00e9m de um material ao vivo, a edi\u00e7\u00e3o nova de \u201cHaveno\u201d vem com uma faixa b\u00f4nus. Essa nova m\u00fasica \u00e9 da \u00e9poca ou composi\u00e7\u00e3o nova? Teve algum epis\u00f3dio que voc\u00ea queira compartilhar sobre esse exerc\u00edcio de revisitar esse material para ser lan\u00e7ado? Como se deu esses processos de escolha?<\/strong><br \/>\nEssa faixa b\u00f4nus foi feita logo em seguida ao lan\u00e7amento do \u00e1lbum. Para mim, o processo de selecionar o material foi um movimento bem legal. Revisitar as coisas que se fez h\u00e1 muito tempo denuncia muito como pens\u00e1vamos. Nos mostra que hoje j\u00e1 n\u00e3o estamos no mesmo lugar, apesar de sermos a \u201cmesma\u201d banda. E isso \u00e9 muito legal porque esse exerc\u00edcio me perceber a pot\u00eancia do que estamos fazendo hoje. As m\u00fasicas que foram lan\u00e7adas (ao vivo e ac\u00fasticas) foram escolhidas por tratarem de registros que temos carinho e consideramos ter uma boa qualidade para compartilharmos com o p\u00fablico. Temos muitas grava\u00e7\u00f5es dessa \u00e9poca de \u201cHaveno&#8221;, mas com qualidade que n\u00e3o considero ser legal para compartilhamento. Talvez existam notas e esbo\u00e7os que tenham de ficar apenas com a gente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Dez anos atr\u00e1s, o mercado de shows e festivais independentes estava em um momento de expans\u00e3o, embora se mostrasse desde aquela \u00e9poca profundamente desigual. Acho tamb\u00e9m que deve ter sido a \u00e9poca que voc\u00eas mais tocaram em Minas Gerais e fora. Como algu\u00e9m que se manteve tocando e trabalhando como produtor em v\u00e1rias edi\u00e7\u00f5es do festival Pequenas Sess\u00f5es, que diferen\u00e7as voc\u00ea enxerga em rela\u00e7\u00e3o a hoje em dia? Os desafios mudaram? O que ter significa \u201cter uma banda\u201d e \u201cproduzir um festival\u201d mais de 10 anos depois?<\/strong><br \/>\nPara mim a maior transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre saber escutar o cora\u00e7\u00e3o. Porque muitas vezes ele \u00e9 agitado, pulsa, faz a gente sair demasiado do lugar. Nesse sentido nossas cabe\u00e7as foram transformando, assim como nossas sonoridades. O festival foi transformado e ganhou novas dire\u00e7\u00f5es, curadorias, apesar de achar que o sentido permanece o mesmo, claro, um pouco mais cansado. Mas ainda feito com cuidado. Acho que para mim este \u00e9 o ponto. Continuar fazer com cuidado o que nos propusemos e sermos surpreendidos a cada material criado. A cada edi\u00e7\u00e3o, \u00e1lbum&#8230; Bom, n\u00e3o sei se logramos, mas \u00e9 o que nos conduz. Olhando os desafios, sinto que o maior deles \u00e9 continuar fazendo e sentindo-se bem com isso.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-62955\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/haveno10.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/haveno10.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/haveno10-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/haveno10-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Se n\u00e3o me engano, a banda teve duas experi\u00eancias excursionando pelos Estados Unidos e uma pela Europa, correto? O que essas experi\u00eancias agregaram para a banda? Mesmo tendo circulado fora, acredito que o Constantina n\u00e3o chegou a circular tanto no Brasil. \u00c9 um desejo ainda para o p\u00f3s-pandemia? O show ao vivo ainda \u00e9 uma quest\u00e3o central para voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nDuas excurs\u00f5es nos Estados Unidos e uma na Europa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/05\/06\/diario-de-viagem-constantina-na-europa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o di\u00e1rio da \u00faltima foi publicado no Scream &amp; Yell<\/a>). Confesso que n\u00e3o temos planos para um retorno aos palcos. Acho que o show deixou de ser um ponto central que conduz a banda faz um bom tempo. Talvez pensar em cria\u00e7\u00f5es como as que estamos elaborando hoje seja algo mais pulsante para n\u00f3s no momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Interessante voc\u00ea mencionar que os shows n\u00e3o s\u00e3o mais um ponto central para o Constantina. Durante muito tempo, ficamos muito centrados na import\u00e2ncia do show na carreira do artista. Se at\u00e9 os anos 90, faz\u00edamos shows para divulgar discos, nos anos 2000 \u2013 com o desenvolvimento do mercado musical digital \u2013 fazemos discos para vender novos shows, novas turn\u00eas. O que esse foco em outras coisas que n\u00e3o a performance musical ao vivo diz para voc\u00eas sobre o momento do Constantina?<\/strong><br \/>\nDiz que j\u00e1 estamos velhos. (risos) \u00c0 parte disso, sinto que o desejo \u00e9 fazer m\u00fasicas e compartilhar da maneira como for. Pode ser show, streaming, programa de assinatura mensal etc. Sinto que deixa de ser show porque acho que j\u00e1 n\u00e3o nos ajustamos a algumas condi\u00e7\u00f5es que acredito serem mais presentes para grupos como o nosso. Para mim j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de realizar show sem termos um m\u00ednimo suporte. nesse sentido, ao vislumbrar o territ\u00f3rio que estamos, compreendo que nossas circunst\u00e2ncias para shows ser\u00e1 bem menos efetiva em nosso dia a dia do que estar em um pequeno quarto ou sala compondo um novo material. Mas, claro, que ainda acredito que o show ainda seja o principal meio de difus\u00e3o da m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Apesar de serem uma banda com uma certa estrada, me parece muito interessante os caminhos que o Constantina tem trilhado nos \u00faltimos anos. Apesar de terem um p\u00fablico consider\u00e1vel nas redes sociais, de uns tempos para c\u00e1 voc\u00eas t\u00eam investido bastante em conte\u00fado gerado para assinantes por meio da plataforma Apoia.se. Em tempos que falamos tanto sobre problemas de remunera\u00e7\u00e3o das plataformas digitais de streaming e das filtragens de conte\u00fados feito pelos algoritmos das redes sociais, qual o lugar de iniciativas como essas? Como tem sido a experi\u00eancia? Essa troca com um p\u00fablico reduzido que paga pelo conte\u00fado que voc\u00eas t\u00eam produzido com exclusividades tem transformado o modo a banda funciona? Isso foi algum reflexo da pandemia para a banda?<\/strong><br \/>\nOutro dia conversava com meu irm\u00e3o Bruno sobre isso. Como demoramos para tanto tempo para fazer isso? A experi\u00eancia \u00e9 bem interessante. Ainda estamos aprendendo e entendendo constantemente como dar seguimento a esse programa de assinatura mensal. \u00c9 um aprendizado cotidiano e tamb\u00e9m um desafio, por nos colocar em uma rela\u00e7\u00e3o efetiva de trabalho coletivo. \u00c9 realmente uma mixagem de v\u00e1rias coisas. A pandemia de alguma maneira potencializou essa ideia, mas acho que de alguma maneira ela j\u00e1 estava, s\u00f3 que n\u00e3o t\u00ednhamos levado adiante. O estado de sil\u00eancio vivido em 2020 nos fez movimentar em dire\u00e7\u00e3o a ela de maneira a coloc\u00e1-la no ar. Para mim, a mudan\u00e7a surgiu quando tive que voltar a pensar quase cotidianamente na coisa toda, pois a maneira como estabelecemos o programa nos solicita um trabalho constante. Isso mudou. Sinto que antes disso est\u00e1vamos menos presentes cotidianamente no Constantina. Eu entendo que \u00e9 um trabalho entre os outros trabalhos que tenho em meu dia a dia. Nesse sentido ele precisa ser exercido em algum momento do meu dia. Assim como estou fazendo agora ao redigir estas linhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Essa sua resposta me fez pensar em algumas coisas. A primeira delas de certa maneira tem a ver com as redes sociais e plataformas de streaming, mas principalmente a centralidade que o algoritmo tem na filtragem dos conte\u00fados que produzimos, n\u00e9? \u00c0s vezes, vemos que temos algumas centenas ou alguns milhares de seguidores, mas muito dificilmente conseguimos falar com todo mundo. Pelo menos n\u00e3o de forma direta. Voc\u00eas acreditam que em tempos de tanta valoriza\u00e7\u00e3o dos n\u00fameros de seguidores, o trabalho com audi\u00eancias menores e fidelizadas pode ser um caminho para bandas independentes?<\/strong><br \/>\nFaz tempo que acredito nos microterrit\u00f3rios como uma das possibilidades de um presente e futuro para a m\u00fasica de pequeno mercado. Nessas pequenas cartografias, encontramos aspectos positivos e negativos e o importante \u00e9 ter a sensibilidade para navegar em distintos contextos. Vislumbrar as possibilidades de um macroterrit\u00f3rio mas jamais deixar de lado os microterrit\u00f3rios, pois estes s\u00e3o parte do cotidiano de um pequeno\/m\u00e9dio grupo. E \u00e9 a\u00ed que habita o programa de assinatura mensal. Ele \u00e9 parte desse nosso cotidiano que acaba atravessando um p\u00fablico bastante reduzido, mas que em contraponto tem gerado parte significativa do sustento cotidiano do grupo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por falar em pandemia, como voc\u00eas tem lidado com esse per\u00edodo? Apesar da edi\u00e7\u00e3o virtual do Pequenas Sess\u00f5es de 2021, voc\u00eas n\u00e3o participaram como banda, n\u00e9? Como tem sido esses \u00faltimos dois anos para o Constantina?<\/strong><br \/>\nDurante esse per\u00edodo nos dedicamos ao programa de assinatura mensal e a exercitar alguns registros remotos que est\u00e3o gerando um novo, inspirador e lindo material. Nos debru\u00e7amos tamb\u00e9m sobre essa comemora\u00e7\u00e3o de 10 anos do \u201cHaveno\u201d. Mas estamos lentos, mas ainda em caminhada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em 2019, no final do ano, j\u00e1 ouv\u00edamos falar de COVID-19 quando saiu a edi\u00e7\u00e3o em vinil de \u201cAtr\u00f3pico\u201d (2019). Sei que est\u00e1 tudo muito em suspenso agora, mesmo que as coisas tenham algum indicativo de melhora. Mas existe algum plano ou alguma perspectiva para a banda de agora em diante? Existe algo que continua motivando voc\u00eas a produzir e pensar para frente?<\/strong><br \/>\nO que consigo elaborar hoje \u00e9 realizar a manuten\u00e7\u00e3o do programa de assinatura mensal. Isso \u00e9 o que consigo elaborar hoje aqui, mas as coisas est\u00e3o em constante movimento. Por vezes \u00e9 necess\u00e1rio aprender a escutar o sil\u00eancio, por mais que seja angustiante.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Constantina - Pequenas Embarca\u00e7\u00f5es ao vivo | Haveno (10th Anniversary Edition)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/3UpVxhoAmb0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Victor de Almeida (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/Victoranpires\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@Victoranpires<\/a>) \u00e9 jornalista, Doutor em Comunica\u00e7\u00e3o pela UFPE e professor da Universidade Federal de Alagoas. Autor dos livros \u201cAl\u00e9m do P\u00f3s-Rock\u201d (2015) e \u201cCircuitos Urbanos e Palcos Midi\u00e1ticos\u201d (2017).\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Para voltar a esse disco em seu anivers\u00e1rio de 10 anos, com direito a uma vers\u00e3o digital do \u00e1lbum remasterizada e repleta de faixas b\u00f4nus, o Scream &#038; Yell conversou com Daniel Nunes, baterista da banda refletindo sobre m\u00fasica e mem\u00f3ria.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/11\/03\/entrevista-constantina-festeja-10-anos-do-album-haveno\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":57,"featured_media":62954,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[4163],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62952"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/57"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=62952"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62952\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":62957,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62952\/revisions\/62957"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/62954"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=62952"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=62952"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=62952"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}