{"id":62790,"date":"2021-10-26T17:52:43","date_gmt":"2021-10-26T20:52:43","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=62790"},"modified":"2022-01-05T00:26:03","modified_gmt":"2022-01-05T03:26:03","slug":"entrevista-made-in-bh-a-mistura-de-punk-reggae-e-ska-do-leopardo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/10\/26\/entrevista-made-in-bh-a-mistura-de-punk-reggae-e-ska-do-leopardo\/","title":{"rendered":"Entrevista: Made in BH, a mistura de punk, reggae e ska d&#8217;O Leopardo"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fruto da efervescente e diversificada cena cultural belo-horizontina, <a href=\"https:\/\/linktr.ee\/OLeopardo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Leopardo<\/a> \u00e9 um dos bons exemplos do que de melhor acontece na cena underground local. O som \u00e9 uma mistura de punk, reggae, ska e m\u00fasica latina envelopada num formato pop e dan\u00e7ante. Liricamente a banda aposta tanto no clima festeiro quanto aborda temas pol\u00edticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nascida em 2015, a banda \u00e9 formada pelo trio Bruno Moreno (guitarra e voz), Daniel Mello (baixo e voz) e o rec\u00e9m-chegado baterista Makai. Ap\u00f3s um EP de cinco faixas (\u201c<a href=\"https:\/\/oleopardo.bandcamp.com\/album\/st-ep\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">St<\/a>\u201d, 2015) e dois singles, o trio volta \u00e0 baila com \u201c<a href=\"https:\/\/oleopardo.bandcamp.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mundo Selvagem<\/a>\u201d, que, apesar de tamb\u00e9m ser apresentado como um EP, conta com 12 faixas (contando com faixas b\u00f4nus em espanhol e ingl\u00eas).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na conversa abaixo, Bruno e Daniel falam sobre suas forma\u00e7\u00f5es musicais, afinidades, o processo de grava\u00e7\u00e3o de \u201cMundo Selvagem\u201d, mercado musical internacional, arte e milit\u00e2ncia pol\u00edtica, as agruras da pandemia, a influ\u00eancia da cidade de Belo Horizonte no fazer art\u00edstico, planos futuros e muito mais. Confira!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"O LEOPARDO - Coronaradio (2021)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_q2R8wbZKak?list=PLoZR9sFnw6wGrx_URIxm7QZp7b6aWavdk\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Primeiramente eu gostaria de saber como se deu a forma\u00e7\u00e3o musical de voc\u00eas e como o punk, ska e adjac\u00eancias entraram na jogada?<\/strong><br \/>\nBruno: Acredito que todos n\u00f3s d&#8217;O Leopardo temos o punk rock e a m\u00fasica alternativa como a base musical pra estar nessa banda. Somos f\u00e3s de Clash, de Specials, Inocentes, Police e de todo mundo que se meteu nessa fus\u00e3o de misturar rock com reggae, com ska. Sou da gera\u00e7\u00e3o dos anos 1990, do rock gravado na fita K7, do skate de rua, do boom do punk rock e do ska na m\u00fasica pop daquela \u00e9poca, do Green Day e do No Doubt fritando na MTV Brasil \u2013 esse \u00e9 meu marco zero no rock. Tentava fazer m\u00fasica desde 1998 l\u00e1 nos meus 18 anos, seja punk rock, seja reggae. Ainda que precariamente, curtia isso com meus amigos. Comecei com um viol\u00e3o velho. Com tr\u00eas meses de aula, dei um bolo num recital de m\u00fasica pra ir andar de skate e perdi o professor. Da\u00ed tive que aprender a tocar guitarra sozinho. Mas sempre fui rueiro, da noite e de olho na diversidade. Nunca sa\u00ed de BH, ent\u00e3o sempre chupei cada novidade cultural que surgia nessa cidade at\u00e9 o caro\u00e7o. Acompanhei quase tudo que rolou por aqui nos \u00faltimos 20 anos. Fui na festa hip hop no fim dos anos 90, no baile da black music, no som punk suburbano, vi o hardcore mel\u00f3dico bombando nos anos 2000, as noitadas na balada indie rock, na m\u00fasica latina, no p\u00f3s-punk, no hard rock, no rol\u00ea LGBTQI+, no bar do povo do teatro. Em 2008, ajudei a fundar um soundsystem de m\u00fasica jamaicana em BH, o Rood Boss. E tamb\u00e9m vi o novo Carnaval de Rua de BH nascer. Um carnaval de movimentos sociais, livre, de luta, de gra\u00e7a, que surgiu a 10 anos atr\u00e1s e se tornou um dos principais eventos de rua do Brasil. E isso amarra tudo, porque ajuda a trazer o aspecto de m\u00fasica tropical para o som da banda. Pra completar, tamb\u00e9m sou DJ de m\u00fasica latina \u2013 fa\u00e7o isso por prazer, pra ver gente louca de dan\u00e7ar e beber. Acho que, no fim das contas, sempre tive um p\u00e9 na m\u00fasica alternativa e outro na m\u00fasica pop. N\u00e3o sou bem visto por isso. Mas BH \u00e9 fus\u00e3o, \u00e9 mistura, eu sou assim. Sou um produto do meu meio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daniel \u2013 Realmente as influ\u00eancias em comum eram muitas. O punk 77 e essa mistura com a m\u00fasica jamaicana trazida pelos imigrantes nos bairros da classe oper\u00e1ria de Londres eram sempre uma coisa que me encantava e intrigava, essa integra\u00e7\u00e3o t\u00e3o improv\u00e1vel e que deu t\u00e3o certo. O Clash representa isso muito bem, arrisco dizer que \u00e9 uma das principais influ\u00eancias d&#8217; O Leopardo. Mas tamb\u00e9m o interesse pela m\u00fasica latina, brasileira e tudo que acontece ao nosso redor. A consci\u00eancia do seu lugar no mundo e essa verve cosmopolita de diversidade de refer\u00eancias. Misturar tudo isso, fazer ao mesmo tempo um som onde s\u00e3o percept\u00edveis as v\u00e1rias influ\u00eancias, mas tamb\u00e9m fazer algo \u00fanico, diferente. No mais, acredito que pude trazer influ\u00eancias diferentes para O Lepardo. Al\u00e9m das refer\u00eancias citadas anteriormente, tenho no post punk um elemento fundamental na minha forma\u00e7\u00e3o musical, tanto o ingl\u00eas quanto o brasileiro. Cresci ouvindo isso nos anos 80\/90 e tem uma mem\u00f3ria afetiva, \u00e9 uma marca. E assim como no ska, o baixo tem um protagonismo, umas linhas mel\u00f3dicas muito marcantes, mas mais soturnas, sombrias. Nestes tempos de trevas caiu como uma luva n\u2019O Leopardo. Como eu brinquei com o Bruno outro dia: antes de eu entrar pra banda, O Leopardo era Calif\u00f3rnia. Quando eu entrei, ficou Manchester UK (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E a banda \u00e9 capitaneada por voc\u00eas, Bruno e Daniel, h\u00e1 basicamente 6 anos. Como se deu a aproxima\u00e7\u00e3o de voc\u00eas e quais as afinidades foram determinantes para a forma\u00e7\u00e3o do grupo?<\/strong><br \/>\nBruno \u2013 O Leopardo nasceu em 2015 no meio desse turbillh\u00e3o de rock e m\u00fasica tropical que falei antes e seguiu com v\u00e1rias forma\u00e7\u00f5es. Sou o membro fundador da banda junto com Poodle e Ravi, que sa\u00edram um tempo depois. O conceito de misturar punk rock e ska n\u00e3o \u00e9 novo, mas \u00e9 algo pouco usual por aqui e \u00e9 a marca da banda. Acho que esse \u00e9 o diferencial que fez o Daniel colar n&#8217; O Leopardo em 2019. A afinidade vem do desafio de fazer algo diferente em BH. Uma cidade com um cen\u00e1rio musical t\u00e3o viciado. Se \u00e9 rock, tem que ser metal. Se \u00e9 punk, tem que ser anti-m\u00fasica. Se \u00e9 pop, tem que soar Clube da Esquina. Se voc\u00ea n\u00e3o segue a regra, voc\u00ea est\u00e1 no gueto, est\u00e1 na margem, vai ser ignorado. Tanto eu, como o Daniel, como o Makai, nosso novo baterista que chegou agora, somos fritados com essas regras n\u00e3o escritas no rock daqui. Esse pragmatismo extremo tamb\u00e9m nos uniu. Se o rock est\u00e1 preso nestes tabus, acho que podemos ser o ponto fora da curva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daniel \u2013 Conheci o Bruno e O Leopardo nos idos de 2019 atrav\u00e9s de um an\u00fancio no Facebook: &#8220;Baixista pra banda de Ska Punk&#8221;. Opa, interessante isso aqui \u2013 pensei. Nunca vi nada parecido pra esses lados. Fui no streaming dos caras e escutei \u201cRude Boy Blitzkrieg\u201d. Cara, isso \u00e9 The Specials demais, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que essa banda t\u00e1 sem baixista. Oportunidade de fazer um som diferente, sair dessa cartilha do punk Brasil que &#8220;n\u00e3o pode tocar assim, n\u00e3o pode escutar isso, n\u00e3o pode falar daquilo&#8221; e bl\u00e1 bl\u00e1 bl\u00e1. Trocamos uma ideia, fizemos um som e deu bom. Afinidade pol\u00edtica e ideol\u00f3gica tamb\u00e9m \u00e9 um fator importante, nesses tempos de obscurantismo e revisionismo hist\u00f3rico canalha. As pessoas simplesmente se esqueceram que o rock\u2019n\u2019roll nasceu negro, gay, latino, mulher. Que o punk falava de v\u00edcio em drogas, transexualismo, prostitui\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma manifesta\u00e7\u00e3o cultural de atores marginalizados pela sociedade, de car\u00e1ter questionador dos dogmas e do status quo. \u00c9 subversivo. Digo isso porque aqui em BH o rock virou lugar comum de homem de meia idade rea\u00e7a. O arqu\u00e9tipo que s\u00f3 vai em show cover e fica postando memes nas redes sociais falando como era boa a m\u00fasica das antigas e como a de hoje \u00e9 um lixo. \u00c9 por causa desses babacas que as gera\u00e7\u00f5es mais jovens nos v\u00eam com desconfian\u00e7a. Por isso a import\u00e2ncia d&#8217;O Leopardo em se posicionar, de ironizar o isent\u00e3o, o cara da moralidade &#8220;superior&#8221;. Aquele que n\u00e3o suja as m\u00e3os no jogo pol\u00edtico, de n\u00e3o fazer oposi\u00e7\u00e3o ao governo fascista que chancelou a intoler\u00e2ncia \u00e0s popula\u00e7\u00f5es historicamente marginalizadas, de trazer o rock\u2019n\u2019roll de volta ao seu papel subversivo e questionador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O lan\u00e7amento mais recente do Leopardo \u00e9 o EP &#8220;Mundo Selvagem&#8221;, disco em que voc\u00eas evidenciam suas influ\u00eancias musicais, junto a letras que oscilam entre um tom mais pol\u00edtico (&#8220;Coronaradio&#8221;) e faixas mais festivas (&#8220;Festa na Piscina&#8221;). Como se deu o processo de composi\u00e7\u00e3o e grava\u00e7\u00e3o do disco? Quais foram os desafios de gravar neste per\u00edodo pand\u00eamico?<\/strong><br \/>\nBruno \u2013 Acho que esse disco, na verdade, come\u00e7ou com o single de quarentena &#8220;Dislexia&#8221;, que soltamos em 2020, ele foi decisivo para nos mostrar que era poss\u00edvel gravar um disco dentro de casa. Sobre o lance das m\u00fasicas pol\u00edticas, estamos sendo testemunhas da hist\u00f3ria atrav\u00e9s destas m\u00fasicas. E assim escrevemos sobre um momento \u00fanico no qual estamos vendo: o desastre de um governo militar com um presidente negacionista e o genoc\u00eddio brasileiro da pandemia de Covid-19 e da fome, isso seria inevit\u00e1vel n\u00e3o mencionar. Sobre as composi\u00e7\u00f5es, havia algumas coisas j\u00e1 escritas. Parte das m\u00fasicas j\u00e1 existiam antes do esfor\u00e7o de grava\u00e7\u00e3o do novo \u00e1lbum e foram recicladas. Outras letras surgiram de maneira coletiva, como foi com &#8220;Dia do Caos em Belo Horizonte&#8221;. H\u00e1 parcerias minhas com Daniel, tem m\u00fasica s\u00f3 minha, m\u00fasica s\u00f3 do Daniel. E \u00e9 um \u00e1lbum diverso. Tem rock e tem reggae, tem som festivo para o jovem e rock\u00e3o para o rockeiro j\u00e1 calejado. E tem m\u00fasica pra dan\u00e7ar como tem m\u00fasica pra sentir raiva. O principal gargalo da grava\u00e7\u00e3o foi a bateria, a pandemia e o dinheiro. Depois de meses de estudos, noites em claro e testes, superamos a falta de um baterista construindo as baterias virtuais (este \u00e9 um disco feito quase todo no Do It Yourself, com baterias MIDI e home est\u00fadio). A maior parte deste disco foi gravado em casa basicamente com um baixo, uma guitarra e um microfone condensador. Alguns takes de grava\u00e7\u00e3o foram feitos em est\u00fadio. E no fim, a masteriza\u00e7\u00e3o anal\u00f3gica na fita Ampex 456 &#8211; o toque m\u00e1gico dado pelos nossos amigos do White Room Studio. E economizamos uma nota na medida do poss\u00edvel. Por fim, a correria de tentar se virar numa pandemia que matava 3000 pessoas por dia no Brasil no m\u00eas de mar\u00e7o, quando come\u00e7amos as grava\u00e7\u00f5es deste \u00e1lbum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ainda falando sobre o EP: voc\u00eas alternam faixas em portugu\u00eas e criaram vers\u00f5es em espanhol e em ingl\u00eas para algumas delas. Como tem sido a receptividade deste material l\u00e1 fora? E em se tratando de punk e ska voc\u00eas consideram estes g\u00eaneros linguagens universais?<\/strong><br \/>\nBruno \u2013 O lance das vers\u00f5es em outros idiomas, como \u00e9 o caso dos singles triplos &#8220;Festa na Piscina&#8221; e &#8220;Dia do Caos em Belo Horizonte&#8221;, foi inspirado no rol\u00ea internacional da Anitta. Como acompanho essa leva de artistas do latin pop e do reggaeton, sei da sacada dos singles duplos ou triplos pra alcan\u00e7ar outros territ\u00f3rios. Isso tamb\u00e9m \u00e9 por n\u00e3o ter tido apoio do mercado musical de BH, at\u00e9 ent\u00e3o. Desde 2018 estamos vivendo um novo boom do ska punk, \u00e9 algo global. \u00c9 um novo revival no rock, a chamada 4\u00aa onda do ska. Como somos desta gera\u00e7\u00e3o, lan\u00e7amos as vers\u00f5es espanhol\/ingl\u00eas para surfar nesta onda. Afinal, temos interagido muito com a Am\u00e9rica Latina, onde o ska punk lota est\u00e1dios, e com os EUA onde o ska est\u00e1 sendo falado novamente na Billboard e no Washington Post. A m\u00fasica punk como ska s\u00e3o g\u00eaneros que j\u00e1 se consolidaram como algo global, \u00e9 m\u00fasica do s\u00e9culo passado que ainda reverbera por todos os cantos do planeta de formas diferentes. J\u00e1 a repercuss\u00e3o do \u201cMundo Selvagem EP\u201d fora do Brasil est\u00e1 melhor do que o esperado. Para um experimento de baterias MIDI feito em casa, superamos todas as expectativas. V\u00e1rios programas de r\u00e1dio, web r\u00e1dios, FM&#8217;s, paradas musicais, fanzines e podcasts est\u00e3o tocando nossos lan\u00e7amentos: Los Angeles e costa oeste dos EUA, Nova Iorque, Londres, It\u00e1lia, Canad\u00e1. M\u00e9xico, Costa Rica e toda a Am\u00e9rica Latina. Fomos destaque no m\u00eas de julho pela r\u00e1dio inglesa Button Down Radio e no Beefy Ska Show da Austr\u00e1lia &#8211; o principal show de ska do mundo Oriental. E, por fim, estamos no cast do selo Ska Punk International (EUA), uma das principais m\u00eddias ska do planeta, que t\u00e1 querendo prensar algumas poucas c\u00f3pias f\u00edsicas do nosso EP por l\u00e1, ainda em 2021. Acho que teve trabalho e teve sorte tamb\u00e9m. O timing de lan\u00e7amento dos singles na pandemia foi perfeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando ainda da esfera pol\u00edtica, a banda tem se posicionado contra Bolsonaro e toda a corja reacion\u00e1ria, adotando um discurso que transcende a pr\u00f3pria manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica em si j\u00e1 que voc\u00eas t\u00eam usado as redes sociais para divulgar atos contra o governo atual e os tem frequentado. Nesse sentido, qual a opini\u00e3o de voc\u00eas quanto ao papel que a arte e o artista devem adotar em tempos dif\u00edceis como os nossos?<\/strong><br \/>\nBruno \u2013 Arte \u00e9 contempla\u00e7\u00e3o, \u00e9 performance e tamb\u00e9m pode ser v\u00e1lvula de escape. O artista \u00e9 uma testemunha da hist\u00f3ria e um catalizador do seu tempo. Rock \u00e9 arte, \u00e9 express\u00e3o. M\u00fasica \u00e9 cultura e o punk rock brasileiro faz parte da m\u00fasica brasileira. Cresci vendo o rock brasileiro mainstream, do pop ao metal, ser branco, classe m\u00e9dia, idiota, isent\u00e3o, rea\u00e7a \u2013 de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o. Vi o DFC fazendo m\u00fasica mis\u00f3gina. Vi a pol\u00eamica do cara do Olho Seco e a censura ao Porta dos Fundos. Tem o cara do Capital Inicial que se orgulha de tirar foto com um juiz que perseguia opositores e destruiu o que restava de estado de direito no Brasil. Tem o Lob\u00e3o e o apoio ao golpe pol\u00edtico contra a Dilma. Tem o ex-Raimundos que virou pastor e foi passar pano pro Bolsonaro. Agora tem o esc\u00e2ndalo da banda dos donos da Prevent Senior. \u00c0s vezes acho que essa velha guarda do rock nacional dos anos 80 e 90 morreu, e miseravelmente. Mas sei que sempre houve exce\u00e7\u00f5es. Eu vim de um meio em que fazer rock \u00e9 p\u00f4r o dedo na ferida, \u00e9 confus\u00e3o, \u00e9 rompimento, \u00e9 pol\u00eamica, \u00e9 tirar as pessoas do lugar. E isso \u00e9 importante (ou deveria ser) num Brasil que acabou: da chacina do Jacar\u00e9zinho, do feminic\u00eddio, da juventude sem futuro, do universit\u00e1rio sem emprego, do trabalhador sem aposentadoria, da fome, da elite racista, do pastor negacionista, do pol\u00edtico nazista e do militar golpista. E o artista com bom senso, o rockeiro que sobrevive a essa aliena\u00e7\u00e3o, pode falar por aqueles que n\u00e3o tem voz, por aqueles que est\u00e3o enfraquecidos. A den\u00fancia de genoc\u00eddio ind\u00edgena acusando Bolsonaro foi aceita no Tribunal Penal Internacional e est\u00e1 sob an\u00e1lise. A Uni\u00e3o Europeia acaba de acusar Bolsonaro de &#8220;crime contra a humanidade&#8221;. E os 600 mil mortos de Covid-19 no Brasil? Tudo isso est\u00e1 acontecendo e boa parte das pessoas est\u00e3o indiferentes, perdidas. O rockeiro brasileiro sempre foi isent\u00e3o, ele acha que todos os pol\u00edticos s\u00e3o iguais e assim influencia as pessoas. E isso \u00e9 uma trag\u00e9dia, uma ilus\u00e3o, nossa vida est\u00e1 rodeada de pol\u00edtica. Ele se acha esperto em estar em cima do muro, mas \u00e9 burro, acha que vai perder p\u00fablico caso se posicione contra o genoc\u00eddio. Ele esquece que est\u00e1 sendo observado por ver tudo calado, por ser conivente com o genoc\u00eddio e vai ser cobrado por isso. A hist\u00f3ria \u00e9 implac\u00e1vel. Em momentos como esse, o artista \u00e9 uma for\u00e7a e deve se posicionar. O momento \u00e9 crucial. \u00c9 rock de protesto, \u00e9 puxar o #forabolsonaro com os movimentos sociais ou morrer calado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daniel \u2013 \u00c9 lament\u00e1vel que artistas n\u00e3o se posicionem, seja por achar que est\u00e1 fora do jogo pol\u00edtico ou por medo de perder mercador consumidor. \u00c9 um erro nas duas formas, ao meu ver. N\u00e3o que eu defenda uma arte estritamente de protesto. A arte \u00e9 muito mais que isso e sinceramente \u201cpra que serve a arte\u201d \u00e9 um debate no qual n\u00e3o me atrevo a me aprofundar. Mas estamos numa encruzilhada hist\u00f3rica onde diferentes formas de ser e estar no mundo e a pr\u00f3pria cultura est\u00e3o amea\u00e7ados. Por isso a import\u00e2ncia de posicionar. No EP \u201cMundo Selvagem\u201d fica muito claro esse posicionamento, da capa ao teor das m\u00fasicas. N\u00e3o vamos ficar assistindo a hist\u00f3ria acontecer debaixo do nosso nariz sem nos insurgir, sem nos mobilizar. Vamos denunciar, vamos agir, vamos participar. Mas tamb\u00e9m vamos falar de sexo e banalidades da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A primeira vez que tive contato com o trabalho de voc\u00eas foi numa abertura (hist\u00f3rica) para o GBH e o Total Chaos em BH, numa noite especial em que voc\u00eas realizaram uma apresenta\u00e7\u00e3o en\u00e9rgica e memor\u00e1vel, dando a impress\u00e3o de que \u00e9 no palco em que a banda se sente mais \u00e0 vontade. Agora como voc\u00eas tem passado, como tem sido este per\u00edodo em que, apesar de voc\u00eas se mantiveram produtivos, as apresenta\u00e7\u00f5es minguaram a zero?<\/strong><br \/>\nBruno \u2013 Aquele show em 2017 foi um bom show pra galera ver O Leopardo ao vivo. Foi foda, tocamos com bandas que a gente j\u00e1 ouvia a anos. GBH \u00e9 classic\u00e3o, \u00e9 de casa. O Total Chaos tamb\u00e9m. Eu ouvia jogando videogame (risos). O Leopardo est\u00e1 trabalhando nos bastidores. Estamos terminando o p\u00f3s-lan\u00e7amento do nosso EP, organizando nosso pequeno merch, as camisas, as parcerias com selos e o EP f\u00edsico. Agora, a pandemia n\u00e3o acabou, tem novas cepas que apareceram, os negacionistas, a vacina\u00e7\u00e3o incompleta no Brasil. Ainda estou um pouco c\u00e9tico em rela\u00e7\u00e3o aos shows. Mas a grande not\u00edcia \u00e9 a nova forma\u00e7\u00e3o d&#8217;O Leopardo, agora somos um power trio. Estamos tirando a banda da internet e temos um novo baterista. \u00c9 o Makai, ele vem do punk rock e do crossover de BH, um baterista excepcional e um cara jovem que chega pra somar sangue novo na banda. Neste momento, estamos ensaiando e estamos pensando sobre a possibilidade de um retorno aos palcos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Belo Horizonte, cidade de origem de voc\u00eas, surge como tema em diversas can\u00e7\u00f5es do grupo. Nesse sentido qual o papel que a capital mineira exerceu (e ainda exerce) na forma\u00e7\u00e3o de voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nBruno \u2013 Bom, somos daqui, nunca sa\u00edmos daqui. Fazer shows fora de BH (e de Minas) \u00e9 sempre muito dif\u00edcil, ainda mais agora com infla\u00e7\u00e3o fora do controle. Qualquer viagem gera um custo insustent\u00e1vel pra bancar. Ent\u00e3o BH \u00e9 nosso universo, \u00e9 nossa sala de estar. Procuramos fazer m\u00fasicas que, de alguma maneira, falassem de BH. \u00c9 bacana ver nossa m\u00fasica sendo tocada em outros pa\u00edses, mas tamb\u00e9m \u00e9 importante se conectar com o p\u00fablico daqui. \u00c9 bacana ver as pessoas locais se reconhecer com a cidade em cada videoclipe. E tamb\u00e9m mostrar as coisas de BH para o mundo. Rodamos os videoclipes com paisagens not\u00e1veis da cidade: Baixo Centro, Rua Sapuca\u00ed, Pra\u00e7a Sete, carnaval de rua, Pronto Socorro Jo\u00e3o XXXIII, Edif\u00edcio Maletta, os bares, as avenidas, etc. Belo Horizonte \u00e9 o nosso lar. Se por um lado, fazer rock autoral em BH \u00e9 uma tarefa ingrata, por outro, levantar essas m\u00fasicas e videoclipes na cidade nos permitiu redescobrir olhares universais. \u00c9 algo m\u00e1gico que acaba nos conectando com outros lugares, outros continentes. Mas nascemos aqui, ent\u00e3o BH \u00e9 meu pa\u00eds! E voc\u00ea que \u00e9 de BH, vem com a gente!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para al\u00e9m do EP, recentemente voc\u00ea tem lan\u00e7ado diversos videoclipes para as novas faixas e tem investido no merchandising com a confec\u00e7\u00e3o de camisetas e cds. Para al\u00e9m destas iniciativas quais s\u00e3o os planos futuros?<\/strong><br \/>\nBruno \u2013 Acho que a principal quest\u00e3o \u00e9 discutir o retorno aos palcos, o que d\u00e1 pra fazer e o que n\u00e3o d\u00e1 sobre apresenta\u00e7\u00f5es ao vivo. Depois de um ano e meio parado e quase seis meses lan\u00e7ando este novo disco com toda essa coisa de cronograma, social media e internet, a gente quer mesmo \u00e9 retornar a banda pra vida real. E esta nova forma\u00e7\u00e3o pode ajudar nisto. O Makai chegou agora e j\u00e1 deu um g\u00e1s nas expectativas, estamos animados. Mas ainda precisamos completar a banda com, pelo menos, um segundo guitarrista. Queremos interagir com outros artistas e buscar os festivais, outros lugares, outros p\u00fablicos, na medida do poss\u00edvel. E quando a poeira baixar, quando essa correria de lan\u00e7amento passar, vamos partir para um novo single com a nova forma\u00e7\u00e3o. \u00c9 tudo muito recente e intenso, vamos precisar digerir tudo que aconteceu nestes \u00faltimos meses. Acho que por hora \u00e9 isto. Bora pro show! Bora pro rock! Fiquem ligados no nosso som nos principais apps de m\u00fasica, nossos clipes est\u00e3o no YouTube. No mais, muito obrigado a todo mundo que curtiu, ouviu, criticou, repercutiu e fez parte desta aventura que \u00e9 gravar um disco de rock na pandemia. Abra\u00e7\u00e3o pra todos e todas! RRRoooaaarrr!!!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"O LEOPARDO - Dia do Caos em Belo Horizonte (2021)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/1HNNT16tyMs?list=PLoZR9sFnw6wEG5MGl6u97KOkoW0XCsDzm\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a>\u00a0\u00a0\u00e9 redator\/colunista\u00a0do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.opoderosoresumao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O Poder do Resum\u00e3o<\/a>. Escreve no Scream &amp; Yell desde 2014.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Fruto da efervescente e diversificada cena cultural belo-horizontina, O Leopardo \u00e9 um dos bons exemplos do que de melhor acontece na cena underground local. 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