{"id":62585,"date":"2021-10-12T00:01:00","date_gmt":"2021-10-12T03:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=62585"},"modified":"2021-10-29T15:50:59","modified_gmt":"2021-10-29T18:50:59","slug":"olhar-de-cinema-o-bom-cinema-e-esqui","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/10\/12\/olhar-de-cinema-o-bom-cinema-e-esqui\/","title":{"rendered":"Olhar de Cinema: &#8220;O Bom Cinema&#8221; e &#8220;Esqui&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/06\/14\/entrevista-a-critica-de-cinema-por-adolfo-gomes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Adolfo Gomes<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cinema de arquivo \u00e9, por princ\u00edpio e elei\u00e7\u00e3o, bom, logo de cara? Nossa rela\u00e7\u00e3o com as imagens pr\u00e9-existentes tem algo de quase religioso, h\u00e1 ali uma promessa de descoberta e ilumina\u00e7\u00e3o que parece legitimar, de antem\u00e3o, qualquer gesto de resgate e preserva\u00e7\u00e3o. No entanto, a resposta para essa indaga\u00e7\u00e3o inicial est\u00e1 longe de refor\u00e7ar o \u00e1libi puro e simples da prospec\u00e7\u00e3o f\u00edlmica como iniciativa &#8220;edificante&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por ironia &#8211; e dial\u00e9tica inerente &#8211; o document\u00e1rio de Eugenio Puppo, uma das premieres da d\u00e9cima edi\u00e7\u00e3o do Festival Olhar de Cinema, faz emergir tais quest\u00f5es com a devida dose de contradi\u00e7\u00f5es. O ponto de partida de &#8220;O Bom Cinema&#8221;, dispon\u00edvel online dia 13\/10 no site <a href=\"https:\/\/www.olhardecinema.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.olhardecinema.com.br<\/a>, \u00e9 uma esp\u00e9cie de &#8220;enc\u00edclica&#8221; para a arte cinematogr\u00e1fica do s\u00e9culo passado, que, no decorrer do percurso, flagra sua subvers\u00e3o dionis\u00edaca, nas pr\u00f3prias entranhas da &#8220;Institui\u00e7\u00e3o&#8221; cat\u00f3lica &#8211; a c\u00e9lebre primeira escola de cinema paulista, S\u00e3o Jo\u00e3o, de forma\u00e7\u00e3o jesu\u00edta e que foi ponto de aglutina\u00e7\u00e3o de uma gera\u00e7\u00e3o de cineastas iconoclastas (Carlos Reichenbach na proa).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A consistente pesquisa de Gabriel Carneiro, que ampara o roteiro, e a trajet\u00f3ria de Puppo como curador e art\u00edfice de v\u00e1rios projetos de restaura\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o da filmografia brasileira &#8211; de Jos\u00e9 Mojica Marins a Ozualdo Candeias, passando por outros autores e g\u00eaneros malditos &#8211; consolidam uma certa autenticidade na realiza\u00e7\u00e3o. Mas tudo (ou o mais importante) transcorre na montagem, na maneira como \u00e9 (des)organizado o material, afim de ser fiel, minimamente, a uma express\u00e3o livre e, portanto, transgressora do objeto de sua abordagem: o cinema marginal das d\u00e9cadas de 1960 e 1970.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A imposi\u00e7\u00e3o dessa &#8220;inven\u00e7\u00e3o&#8221; desgarrada parece levar Puppo a assumir uma linguagem h\u00edbrida. Para n\u00e3o se restringir ao modelo cl\u00e1ssico dos &#8220;talkings heads&#8221;, o realizador insere voz e imagens dissonantes e o fora do quadro num arroubo mais experimentalista. Neste sentido, \u00e9 natural e compreens\u00edvel a preocupa\u00e7\u00e3o formal do realizador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, os trechos dos filmes que Puppo elege mostrar, pela sua criatividade esfolada e organicidade &#8211; pode-se at\u00e9 falar n&#8217;alguma placidez primitiva &#8211; acabam, involuntariamente, sabotando a f\u00f3rmula transversalista adotada. No interdito &#8220;Aud\u00e1cia!&#8221; (Reichenbach e Ant\u00f4nio Lima) ou no seminal &#8220;Bandido da Luz Vermelha&#8221; (Rog\u00e9rio Sganzerla), por exemplo, h\u00e1 um prazer de filmar que se assemelha ao del\u00edrio antropof\u00e1gico, um fogo dif\u00edcil de se exaurir sob qualquer tentativa de apropria\u00e7\u00e3o. S\u00e3o inc\u00eandios permanentes que, generosamente, fazem o cinema ressurgir e se (re)inventar de maneira visceral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O &#8220;Bom Cinema&#8221;, em \u00faltima an\u00e1lise, \u00e9 tamb\u00e9m filme proibido (ou seria mais apropriado considerar proibitivo), eclipsado pela sombra do seu cerne indom\u00e1vel. \u00c9 um projeto t\u00e3o ut\u00f3pico e falhado quanto a ideia &#8220;crist\u00e3&#8221; de orientar a arte de acordo com uma doutrina. Resta, no entanto, nos dois casos, a beleza da tentativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro document\u00e1rio herzoguiano, pela maneira po\u00e9tica como incorpora o fracasso inevit\u00e1vel, \u00e9 &#8220;Esqui&#8221;, do argentino Manque La Banca (em cartaz online, dia 14\/10, na plataforma de streaming do evento). Constru\u00eddo com textura de filme tur\u00edstico dos anos 1900, faz a travessia entre o fant\u00e1stico e a reportagem etnogr\u00e1fica com desenvoltura e inquietude.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A esta\u00e7\u00e3o de esqui de Barilhoche, em particular, e a Patag\u00f4nia argentina, num plano mais geral, evocam hist\u00f3rias de mist\u00e9rio, colonialismo, desigualdade social e resist\u00eancia. \u00c9 mais um esfor\u00e7o brechtiano de pensar e criticar as imagens no tecido mais \u00edntimo da narrativa. Imperfeito, belamente desigual e instigante, &#8220;Esqui&#8221; est\u00e1 bem acomodado na se\u00e7\u00e3o &#8220;Novos Olhares&#8221; do Festival. Manque La Banca tem, de fato, uma mirada pr\u00f3pria, o vi\u00e7o do (des)cobrir as paisagens com curiosidade informal, e, sobretudo, a inconsequ\u00eancia de assumir o risco de ficar pelo caminho, perdido, atordoado, nesse territ\u00f3rio ainda selvagem que \u00e9 a realidade.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Ski | Official Trailer | Berlinale 2021\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Zs6oDDDKTXE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>O\u00a0<a href=\"https:\/\/olhardecinema.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">10\u00ba Olhar de Cinema \u2013 Festival Internacional de Curitiba<\/a>\u00a0acontece de 06 a 14\/10 com programa\u00e7\u00e3o online.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/06\/14\/entrevista-a-critica-de-cinema-por-adolfo-gomes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Adolfo Gomes<\/a>\u00a0\u00e9 cineclubista e cr\u00edtico filiado \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Cr\u00edticos de Cinema (<a href=\"https:\/\/abraccine.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Abraccine<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O &#8220;Bom Cinema&#8221; \u00e9 filme proibido (ou seria mais apropriado considerar proibitivo), eclipsado pela sombra do seu cerne indom\u00e1vel; O argentino &#8220;Esqui&#8221; faz a travessia entre o fant\u00e1stico e a reportagem etnogr\u00e1fica com desenvoltura e inquietude.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/10\/12\/olhar-de-cinema-o-bom-cinema-e-esqui\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":71,"featured_media":62588,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[3818],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62585"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/71"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=62585"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62585\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":62589,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62585\/revisions\/62589"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/62588"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=62585"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=62585"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=62585"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}