{"id":62484,"date":"2021-10-01T00:20:43","date_gmt":"2021-10-01T03:20:43","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=62484"},"modified":"2021-10-25T21:40:09","modified_gmt":"2021-10-26T00:40:09","slug":"entrevista-de-lisboa-pedro-mafama-fala-sobre-sua-estreia-solo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/10\/01\/entrevista-de-lisboa-pedro-mafama-fala-sobre-sua-estreia-solo\/","title":{"rendered":"Entrevista: de Lisboa, Pedro Mafama fala sobre sua estreia solo"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/pedro.m.salgado.5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pedro Salgado<\/a>, especial de Lisboa<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pedro Mafama \u00e9 um dos mais originais artistas da atualidade, capaz de misturar as suas ra\u00edzes portuguesas com a m\u00fasica africana ou \u00e1rabe, gerando um corpo sonoro envolvente, que favorece a livre interpreta\u00e7\u00e3o do p\u00fablico. Enquanto conversamos animadamente num restaurante do centro de Lisboa, abordando a sua vis\u00e3o musical, recordamos igualmente momentos do passado, tal como a sua liga\u00e7\u00e3o com o hip-hop, durante cinco anos, atrav\u00e9s do projeto Pedro Simmons, influenciado, entre outros, por nomes como Kanye West e Kid Cudi. Algum tempo depois, empreendeu uma reformula\u00e7\u00e3o criativa, aproximando-se do fado e de outras sonoridades. Durante o processo, adotou o apelido art\u00edstico Mafama (o seu nome \u00e9 Pedro Sim\u00f5es), que reflete um olhar pessoal sobre a cultura portuguesa, mas tamb\u00e9m um lado fadista e malandro, e abra\u00e7ou as novas correntes musicais de Lisboa: o trap, kuduro, kizomba e reggaeton. Seguidamente, lan\u00e7ou os seminais EP\u2019s \u201cM\u00e1 Fama\u201d (2017) e \u201cTanto Sal\u201d (2018).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a faixa \u201cJazigo\u201d (2018), o cantor e compositor lisboeta reuniu com sucesso os universos sonoros ib\u00e9ricos, africanos e \u00e1rabes e obteve uma consider\u00e1vel ades\u00e3o nas redes sociais, que dinamizou a sua carreira. \u201c\u00c9 uma can\u00e7\u00e3o bastante sincera. Fala da perda de algu\u00e9m que foi muito importante para mim. Sinto que consegui transmitir uma experi\u00eancia \u00edntima com honestidade e contei-a de forma po\u00e9tica e simples. Acho que \u00e9 um cart\u00e3o de visita perfeito para a minha m\u00fasica\u201d, conta Mafama. O \u00e1lbum de estreia, \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/2TnpaWN8SNw1eGvGATPhck\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Por Este Rio Abaixo<\/a>\u201d (2021), editado h\u00e1 poucos meses, mant\u00e9m o realismo l\u00edrico dos discos anteriores, mas denota maior ambi\u00e7\u00e3o musical, apresentando tamb\u00e9m um car\u00e1ter sedutor mais vincado. \u201cEste trabalho mostrou que o \u2018Jazigo\u2019 n\u00e3o chegava. Fiz o disco para dar a conhecer a vida que eu levo, agora, revelando as minhas viv\u00eancias nos \u00faltimos tr\u00eas anos. Por isso, quis contar as hist\u00f3rias, dramas, tempestades e os adamastores (risos). Foi uma esp\u00e9cie de lembrete\u201d, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos novos temas, \u201cEstaleiro\u201d, engloba a dor e a beleza, dois aspectos que definem perfeitamente a m\u00fasica de Pedro Mafama. \u201cEu procuro conscientemente esses conceitos, porque uma coisa \u00e9 dizer que estou a sofrer e a vida \u00e9 m\u00e1 e outra ideia \u00e9 afirmar que vou passar pela tempestade, que tem contornos bonitos e feios. Normalmente, as pessoas s\u00e3o atra\u00eddas por algo que tenha perigo e brilho\u201d, afirma. O destaque que tem tido na midia portuguesa resulta, em grande parte, do seu trabalho e da criatividade e autenticidade que evidencia. \u201cJulgo que estou mais pr\u00f3ximo de mostrar a minha vis\u00e3o e de influenciar as pessoas da minha idade para que apreciem a sua m\u00fasica de outra forma. Assim \u00e9 mais f\u00e1cil mudar mentalidades, criar liga\u00e7\u00f5es, fazer-nos olhar de maneira diferente para o passado e moldar o futuro\u201d, conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando lhe solicito uma mensagem para os internautas do Scream &amp; Yell, Mafama aceita de pronto o desafio e discorre brevemente sobre os tra\u00e7os comuns entre Portugal e o Brasil: \u201cAs pontes, os rendilhados, as palavras, o cabelo e os sotaques que nos unem est\u00e3o presentes desde sempre. S\u00f3 falta que consigamos visualizar esses aspectos outra vez ou cada vez mais\u201d, conclui. De Lisboa para o Brasil, Pedro Mafama conversou com o Scream &amp; Yell.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Pedro Mafama - Contra a Mar\u00e9 (V\u00eddeo Oficial)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/7UCKbVw-ZQg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para come\u00e7ar, gostaria que me falasse um pouco do seu trajeto musical e, em particular, que me explicasse qual foi o momento ou momentos que o levaram a seguir a carreira musical e como deu o salto do hip-hop para a sua sonoridade atual.<\/strong><br \/>\nEu sou da gera\u00e7\u00e3o dos m\u00fasicos autodidatas que trabalharam com o fruity loops studio (um dos softwares mais utilizados no mundo em produ\u00e7\u00f5es musicais). Antes disso, peguei numa caneta e escrevi umas rimas e a certa altura usei o computador. Demorei muito tempo a sentir-me confiante de que o meu trajeto era mesmo a m\u00fasica, porque achava que s\u00f3 os outros \u00e9 que conseguiam esse objetivo. Perten\u00e7o a uma fam\u00edlia de artistas pl\u00e1sticos, mas n\u00e3o tenho m\u00fasicos no c\u00edrculo familiar. Sempre desenhei bem e fui um prod\u00edgio nessa \u00e1rea. Por isso, senti que o meu destino era ser artista pl\u00e1stico. A m\u00fasica sempre me acompanhou e at\u00e9 lancei alguns trabalhos mas, rapidamente, comecei a pensar como iria fazer algo t\u00e3o original como as coisas que escutava. Na altura, eu admirava o trap americano, do sul dos Estados Unidos, de Atlanta, porque representava uma faceta t\u00e3o diferente e local, em que aqueles artistas usavam \u00f3culos ray-ban, tinham dentes de ouro e uma hist\u00f3ria por tr\u00e1s deles, que tamb\u00e9m se ligava aos blues. Procurei olhar para dentro e entender o que havia em Portugal de in\u00e9dito, tal como as coisas que eu admiro nos Estados Unidos, mas tamb\u00e9m do funk brasileiro, porque adorei a virada do funk carioca para o paulista, o funk ostenta\u00e7\u00e3o e o MC Guim\u00ea. Descobri que tamb\u00e9m gostava de outras sonoridades como o kuduro de Angola ou o dancehall jamaicano e verifiquei que todas as coisas que me interessavam, e acabavam por contagiar o mundo e a cultura pop, derivavam de cenas espec\u00edficas, tinham raz\u00e3o de ser e uma realidade por tr\u00e1s delas. Em dado momento percebi que a cultura popular globalizada apresenta sempre essa caracter\u00edstica pr\u00f3pria. O lado local \u00e9 que cativa a imprensa internacional e o contexto \u00e0 volta desses nichos torna-os relevantes. Nesse sentido, procurei saber qual era a m\u00fasica da minha cidade e busquei uma sonoridade que fosse um reflexo dessa identidade. Para que voc\u00ea possa estar em Alfama (bairro de Lisboa) e escutar algo que combine com os azulejos e mesmo residindo em S\u00e3o Paulo as pessoas reconhe\u00e7am e digam: \u201cAh! Entendo essa m\u00fasica\u201d. Foi um longo caminho a desenvolver a ideia e durante o percurso desviei-me para as artes pl\u00e1sticas, porque entendia que era talhado para isso e a minha m\u00e3e sempre me orientou nessa dire\u00e7\u00e3o, mas cheguei aqui. Tamb\u00e9m estive na faculdade e fiz um breve trajeto pela arte contempor\u00e2nea e sinto que estou a juntar as duas coisas: uma m\u00fasica com uma forte componente visual, alicer\u00e7ada num imagin\u00e1rio que agrega as ruas de Alfama e as aldeias do Alentejo (regi\u00e3o do sul de Portugal), tal como a rela\u00e7\u00e3o do Algarve (a regi\u00e3o mais a sul de Portugal) com o Marrocos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea produziu o seu disco de estreia em parceria com Pedro Da Linha, o qual contou tamb\u00e9m com as participa\u00e7\u00f5es de Ana Moura, Profjam, Branko e Tristany, e samples de Michel Giacometti e dos Dead Combo, entre outras colabora\u00e7\u00f5es. A sensa\u00e7\u00e3o que o trabalho me transmite \u00e9 de que houve uma tentativa de edificar algo universal e duradouro. Concorda com esta leitura?<\/strong><br \/>\nConcordo totalmente. Tudo foi concebido dentro do poss\u00edvel. Eu n\u00e3o tive meios dispon\u00edveis para produzir um \u00e1lbum megal\u00f3mano que atingisse esse objetivo que voc\u00ea referiu. Ambiciono sempre fazer um disco com or\u00e7amentos gigantes, em que todos os clipes s\u00e3o grandiosos e tudo \u00e9 pensado, construindo um monumento que fica para a posteridade. Este \u00e1lbum foi gravado no est\u00fadio da garagem do Franklin Beats (que gravou, mixou e masterizou o trabalho), que literalmente tem esse espa\u00e7o em Alverca (uma cidade pr\u00f3xima de Lisboa), e os v\u00eddeos n\u00e3o tiveram or\u00e7amento ilimitado. Fizemos o disco com poucos meios, mas mesmo assim conseguimos dar um panorama relativamente completo do que est\u00e1 a acontecer, atualmente, em Portugal, atrav\u00e9s das pessoas que trabalharam comigo neste projeto. \u00c9 dif\u00edcil dizer que fechei um cap\u00edtulo com este \u00e1lbum ou que consegui dar a minha interpreta\u00e7\u00e3o da m\u00fasica tradicional portuguesa transposta para os nossos dias. No entanto, sinto que fiz uma obra representativa deste momento, na qual a hist\u00f3ria de Portugal foi pensada de forma completa e nova. Acredito que este trabalho vai se aguentar durante algum tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma das m\u00fasicas mais animadas do disco, \u201cBorboletas da Noite\u201d (em parceria com Tristany) exibe um pendor dan\u00e7ante apreci\u00e1vel. Podia-me falar um pouco da hist\u00f3ria deste tema?<\/strong><br \/>\nEm primeiro lugar, eu fiz a m\u00fasica mas, depois, senti que ela precisava da participa\u00e7\u00e3o do Tristany. Quando compus a can\u00e7\u00e3o, sem ter ningu\u00e9m em mente, agradou-me a ideia da sedu\u00e7\u00e3o e do perigo. \u00c9 um tema sobre a morte e acho que a imagem da borboleta da noite a vir ter com algu\u00e9m \u00e9 quase um sinal. \u00c9 algo m\u00f3rbido e quando tocamos na borboleta ela desfaz-se em p\u00f3, ou seja, trata-se de um chamamento e de uma atra\u00e7\u00e3o pela morte. Podemos associar esse conceito ao aspecto da tra\u00e7a ou de um bicho feio, mas tamb\u00e9m est\u00e1 ligado \u00e0 noite e podemos imaginar igualmente uma pessoa bem vestida durante um ser\u00e3o. Por isso, \u00e9 como se fosse algu\u00e9m super adornado durante o per\u00edodo noturno. No momento inicial da can\u00e7\u00e3o, eu tentava passar a ideia de sedu\u00e7\u00e3o e morte. Depois, chamei o Tristany porque ele tem essa dualidade e possui uma coisa muito bairrista e de rua, mas tamb\u00e9m sens\u00edvel e delicada. H\u00e1 uma m\u00fasica dele, \u201cO Meninu Ke Brinkava Com Bunekas\u201d (2020), que est\u00e1 ligada a estes aspectos. Depois de me ouvir falar na figura do Adamastor e de perceber que a faixa tinha algo a ver com o mar e a \u00e1gua, ele passou a ser o pirata ou o anti-her\u00f3i da m\u00fasica e eu o portugu\u00eas no barquinho. Isso completou o trabalho da melhor maneira. Na can\u00e7\u00e3o, o Tristany diz: \u201cEu \u00e9 que matei o D. Sebasti\u00e3o\u201d. Acredito que estamos finalmente a matar esse mito da nossa hist\u00f3ria e o fato do Tristany t\u00ea-lo feito numa m\u00fasica minha \u00e9 uma honra.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Borboletas da Noite\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/suDt54zzW7s?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nos shows, voc\u00ea diz que pretende alcan\u00e7ar a catarse entre o artista e o p\u00fablico. Esses momentos t\u00eam ocorrido na tour atual? E como perspectiva a sua atua\u00e7\u00e3o em Novembro no Teatro Tivoli BBVA?<\/strong><br \/>\nEssa catarse est\u00e1 a acontecer totalmente. Tem sido bonito, porque estou a descobrir o show \u00e0 medida que domino o trabalho e tem-me sabido bem esquecer o p\u00fablico durante algum tempo. Eu sei que isto parece cinismo, mas virar as costas \u00e0 assist\u00eancia em v\u00e1rios momentos revelou-se muito importante. Porque afastei-me das pessoas em diversas fases do show para fazer algo teatral. Durante a interpreta\u00e7\u00e3o de \u201cBorboletas da Noite\u201d, eu monto uma esp\u00e9cie de altar no palco e subo para o altar quase a rezar. \u00c9 bastante \u00fatil em termos emocionais e de liberta\u00e7\u00e3o, porque nesse per\u00edodo eu berro durante o som inteiro, ajoelho-me, bato com a testa no degrau e tudo se desenrola com intensidade. Seria desonesto dizer que eu me esque\u00e7o dos espetadores, porque isto \u00e9 representado. Apesar de ser encenado, n\u00e3o deixa de ter o seu valor cat\u00e1rtico. Existe uma teatralidade, tal como na missa, e consigo perder-me ali totalmente. A for\u00e7a de soltar os meus dem\u00f3nios acontece nessa etapa e gera uma rea\u00e7\u00e3o do p\u00fablico. Por isso, a miss\u00e3o est\u00e1 cumprida. Quando interpreto temas como \u201cJazigo\u201d, desligo-me do p\u00fablico, deambulo, vagueio pela cidade e canto para a minha amada que partiu. O fato de eu conseguir fazer isso e p\u00f4r-me nesse lugar, apesar de estar no palco, com muitas pessoas a olhar para mim, e os projetores estarem apontados na minha dire\u00e7\u00e3o, leva a que eu esque\u00e7a o local onde estou e me perca em mim mesmo. Isso \u00e9 importante. \u00c9 um teatro que cura. A m\u00fasica popular e urbana tem a pretens\u00e3o de ser real e verdadeira. Sinto alguma beleza em assumir que isto \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o teatral e aut\u00eantica ao mesmo tempo. A m\u00fasica gravada e tocada ao vivo tem algo de fingimento, que depois se torna verdade. Mas, n\u00e3o me interessa criar uma ilus\u00e3o perfeita, \u00e9 preciso que haja transpar\u00eancia. No show de Novembro, no Teatro Tivoli BBVA, pretendo desenvolver mais o meu lado c\u00e9nico. Eu nunca me vou esquecer do que \u00e9 perder a namorada. No entanto, seria doloroso e masoquista lembrar-me disso quando canto uma can\u00e7\u00e3o sobre esse assunto. Acho que \u00e9 mais honesto e justo para mim, como para as pessoas que v\u00eam o meu show, elaborar uma narrativa de concerto em que eu represento um personagem. Penso que assim acede-se melhor a essa emo\u00e7\u00e3o. Nesse espet\u00e1culo vou querer transportar-me ainda mais (e ao p\u00fablico) para um universo que eu criei, com \u00eanfase na palavra \u201ccriado\u201d. Sinto que isso vai levar-nos a momentos mais po\u00e9ticos, cat\u00e1rticos e interessantes em palco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Est\u00e1 nos seus planos a internacionaliza\u00e7\u00e3o? Em caso afirmativo, existem possibilidades de fazer shows no Brasil?<\/strong><br \/>\nA internacionaliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 absolutamente nos meus planos e nas minhas ambi\u00e7\u00f5es de vida. Sinto que fa\u00e7o parte de uma cultura musical que teve muito poucas fases de destaque internacional. No pop portugu\u00eas o caso que mais se aproximou foi os Buraka Som Sistema. Todos os pa\u00edses europeus t\u00eam a sua estrela, em Espanha est\u00e3o a fazer coisas que tocam em todo o planeta, tal como os nossos irm\u00e3os brasileiros, mas n\u00f3s ainda n\u00e3o tivemos esse momento de estrelato. Passo a minha vida a pensar na forma como Portugal vai tocar o mundo e acredito que podemos figurar no panorama pop mundial. \u00c9 uma ideia muito dolorosa e d\u00e1 muita vontade de trabalhar para atingir esse objetivo. H\u00e1 quem diga: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o passa daqui porque o seu mercado n\u00e3o \u00e9 apelativo e os portugueses e os brasileiros n\u00e3o se entendem nem se ir\u00e3o compreender\u201d. Discordo desse tipo de narrativa, porque afirmarem que n\u00e3o passo do meu pa\u00eds \u00e9 a pior coisa que podem dizer a algu\u00e9m. Tamb\u00e9m rejeito que Portugal e Brasil, a partir de agora, n\u00e3o se entendam ou haja menos comunica\u00e7\u00e3o entre as duas partes. \u00c9 mais importante fazer arte que uma pessoa natural de S\u00e3o Paulo n\u00e3o conhe\u00e7a, ou seja, produzir algo do s\u00edtio de onde vim, para despertar o interesse de um paulista. Devemos pensar tamb\u00e9m nas pontes musicais que unem os nossos dois pa\u00edses e perceber que o fado tem uma origem entre Portugal, Brasil e \u00c1frica. Sabe-se hoje em dia que o fado veio do lundu. Essa m\u00fasica \u00e9 origin\u00e1ria de \u00c1frica, veio com a escravatura, foi para Portugal e depois para o Brasil. J\u00e1 existiam nessa altura dan\u00e7as afro-brasileiras que contagiavam Portugal (que tinha uma grande comunidade afro-portuguesa). No Brasil havia a dan\u00e7a do fado, por isso a nossa m\u00fasica est\u00e1 ligada h\u00e1 muito tempo e vai al\u00e9m do \u00f3bvio e da presen\u00e7a da corte portuguesa no Rio de Janeiro no s\u00e9culo XIX. \u00c9 no passado que encontramos as v\u00e1rias liga\u00e7\u00f5es e h\u00e1 que reinterpretar essas conex\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 agora que Portugal recebe uma enorme influ\u00eancia cultural do Brasil, porque sempre houve uma troca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual \u00e9 a sua ambi\u00e7\u00e3o futura?<\/strong><br \/>\nMoldar o futuro. Isso come\u00e7a pela minha cidade, passa pelo meu pa\u00eds, pela Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica e a regi\u00e3o Mediterr\u00e2nica, que inclui Marrocos, sul de Espanha e sul de It\u00e1lia. S\u00e3o tudo pa\u00edses e zonas \u00e0s quais eu sinto que tenho algo a dizer. Depois disso, a regi\u00e3o Atl\u00e2ntica para a qual, como referi, existe muito para falar sobre esta conex\u00e3o, e a seguir o mundo. Digo isto n\u00e3o numa perspetiva de dominar mercados ou impingir a minha m\u00fasica, mas sim tentando promover di\u00e1logos, criar uma vis\u00e3o e estabelecer pontes.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Pedro Mafama - Leva (V\u00eddeo Oficial)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/bkVYaf1wYDA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Pedro Mafama - Estaleiro (V\u00eddeo Oficial)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Jn_Xws2qt1k?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"PEDRO MAFAMA  - JAZIGO (V\u00eddeo Oficial)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/eVo2kzO6cXQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Pedro Salgado (siga\u00a0<a href=\"http:\/\/twitter.com\/woorman\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@woorman<\/a>) \u00e9 jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream &amp; Yell desde 2010 contando novidades da m\u00fasica de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/author\/pedro-salgado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Pedro Mafama \u00e9 um dos mais originais artistas da atualidade, capaz de misturar as suas ra\u00edzes portuguesas com a m\u00fasica africana ou \u00e1rabe, gerando um corpo sonoro envolvente, que favorece a livre interpreta\u00e7\u00e3o do p\u00fablico.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/10\/01\/entrevista-de-lisboa-pedro-mafama-fala-sobre-sua-estreia-solo\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":7,"featured_media":62488,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[5334,47],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62484"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=62484"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62484\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":62489,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62484\/revisions\/62489"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/62488"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=62484"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=62484"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=62484"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}