{"id":62477,"date":"2021-09-30T23:33:46","date_gmt":"2021-10-01T02:33:46","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=62477"},"modified":"2021-11-18T01:44:58","modified_gmt":"2021-11-18T04:44:58","slug":"especial-30-anos-sem-miles-davis-trompetista-joatan-nascimento-fala-sobre-trajetoria-e-legado-de-miles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/09\/30\/especial-30-anos-sem-miles-davis-trompetista-joatan-nascimento-fala-sobre-trajetoria-e-legado-de-miles\/","title":{"rendered":"Especial: 30 anos sem Miles. Trompetista Joatan Nascimento fala sobre a trajet\u00f3ria e o legado de Miles Davis"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 28 de setembro de 1991, Miles Davis morreu devido a um acidente vascular cerebral. Dois meses antes, em 08 de julho, fazia sua \u00faltima apari\u00e7\u00e3o tocando antigos cl\u00e1ssicos no famoso Montreux Jazz Festival, show que calhou de ser justamente capitaneado pela lenda viva Quincy Jones, e que viria a se tornar o cl\u00e1ssico disco \u201cMiles &amp; Quincy Live at Montreaux\u201d, lan\u00e7ado postumamente, em 1993. No palco, por\u00e9m, o que se via era um Miles combalido, distante, com certa dificuldade em concentrar-se nas partituras e no dom\u00ednio do trompete, instrumento que sempre foi sua ferramenta revolucion\u00e1ria. Ao seu lado, tamb\u00e9m no trompete, mas servindo de guia para as notas do seu mestre, Wallace Roney, pupilo de Miles, acompanhava o mentor, tocando alguns dos arranjos naquele que seria o \u00faltimo show de Davis tocando can\u00e7\u00f5es dos \u00e1lbuns &#8220;Miles Ahead&#8221; (1957), &#8220;Porgy and Bess&#8221; (1959) e &#8220;Sketches of Spain&#8221; (1960) &#8211; Miles faria ainda mais 14 shows ap\u00f3s Montreux, concentrando-se em material mais novo, e deixando os palcos para sempre em 25 de agosto, ap\u00f3s um show no Hollywood Bowl, na Calif\u00f3rnia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, havia algo de muito simb\u00f3lico naquele momento h\u00e1 30 anos do festival su\u00ed\u00e7o. Miles n\u00e3o gostava de revisitar o passado. Seguia em frente a cada trabalho lan\u00e7ado. Foi assim desde o come\u00e7o, quando trabalhou com seus \u00eddolos Charlie &#8220;Bird&#8221; Parker e Dizzy Gillespie em meados da d\u00e9cada de 1940, per\u00edodo no qual ainda frequentava o prestigiado conservat\u00f3rio de m\u00fasica Juilliard, em Nova York. Por\u00e9m, se dedicava com mais paix\u00e3o n\u00e3o \u00e0s aulas, que perdia com frequ\u00eancia, mas \u00e0s noites nos clubes de jazz tocando bebop, uma da varia\u00e7\u00f5es do ritmo. Foi com essa mesma vontade de experimenta\u00e7\u00e3o (e sentindo n\u00e3o mais conseguir acompanhar a velocidade de Parker e Gillespie no bebop) que, nos anos posteriores, Davis focou na cria\u00e7\u00e3o de um novo grupo. Com essa forma\u00e7\u00e3o, e sob a batuta do arranjador Gil Evans, o trompetista trouxe ao mundo o seu primeiro cl\u00e1ssico, n\u00e3o por acaso, batizado de \u201cBirth of the Cool\u201d. Gravado entre 1949 e 1950, as faixas chegaram a ser lan\u00e7adas individualmente, mas compiladas sob o marcante nome e reunidas como colet\u00e2nea em 1957.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse per\u00edodo da segunda metade da d\u00e9cada de 1940, Miles tocou no Paris International Jazz Festival, na Fran\u00e7a, fase na qual se maravilhou com a cidade-luz e sua vida cultural, tendo uma percep\u00e7\u00e3o de mundo muito diferente daquela que tinha em seu pr\u00f3prio pa\u00eds, onde o racismo era evidente. Na Europa, viveu um romance com a cantora e musa Juliette Gr\u00e9co, e conviveu com figuras como Sartre e Picasso. Ao voltar para a Am\u00e9rica, foi atingindo como um golpe pela depress\u00e3o que o levaria a afundar-se na hero\u00edna, que iria superar com a ajuda de seu pai. Mas seria algo tempor\u00e1rio, infelizmente. No decorrer dos anos, gravou diversos trabalhos com o selo Prestige (de 1951 a 1961) e, em seguida, com a Columbia (de 1955 a 1976), atrav\u00e9s da qual traria \u00e0 vida seus registros musicais mais conhecidos e ic\u00f4nicos, como \u201cKind of Blue\u201d (1959); \u201cSomeday My Prince Will Come\u201d (1961); \u201cIn a Silent Way\u201d (1969) e, claro, o per\u00edodo no qual trouxe a fus\u00e3o com o rock e os shows para multid\u00f5es (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/01\/09\/a-fase-eletrica-de-miles-davis\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">dissecada no Scream &amp; Yell<\/a>). Dessa fase, seu trabalho lan\u00e7ado em 1970, o emblem\u00e1tico do Jazz Fusion, \u201cBitches Brew\u201d, \u00e9 o que mais se destaca.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Miles Davis Live in Montreux 1991\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/3LkZX-Oweuw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, voltando ao simb\u00f3lico momento daquele show de julho, que aconteceu a partir da insist\u00eancia do amigo de longa data, Quincy Jones. Ap\u00f3s uma d\u00e9cada na qual as concess\u00f5es surgiram em alguns dos seus trabalhos mais ligados ao pop rock (o disco de 1985, \u201cYou&#8217;re Under Arrest\u201d, trazia vers\u00f5es de m\u00fasicas de Cyndi Lauper e Michael Jackson, que seriam a base dos \u00faltimos shows da turn\u00ea de 1991), e com seu disco &#8220;Doo-Bop&#8221;, lan\u00e7ado em 1992, trazia Miles em um encontro com o hip-hop, t\u00e3o popular naquele per\u00edodo, n\u00e3o seria de se surpreender que Davis pudesse revisitar alguns de seus cl\u00e1ssicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trompetista alagoano, mas radicado na Bahia desde 1987, Joatan Nascimento, lembra do dia que viu aquele momento marcante h\u00e1 30 anos. &#8220;Ali foi uma coisa incr\u00edvel porque ele quis fazer algo a que se negou a vida inteira. E o Quincy Jones fala uma coisa interessante. Que de alguma forma, Miles sentiu que tinha que fazer aquilo. Talvez porque era uma das poucas coisas que ele n\u00e3o tinha feito na vida e que n\u00e3o seria exatamente negativo, mas, sim, algo a mostrar que Miles \u00e9 t\u00e3o maior do que at\u00e9 mesmo alguns conceitos que defendeu a vida toda. Quem esperava que Miles fizesse isso? Quando a vida toda ele dizia que n\u00e3o poderia olhar para o passado?&#8221;, afirma Joatan, que tamb\u00e9m atua como professor-doutor de Trompete, Improvisa\u00e7\u00e3o e Percep\u00e7\u00e3o Musical na Escola de M\u00fasica da UFBA e como m\u00fasico da Orquestra Sinf\u00f4nica da Bahia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Joatan \u00e9 ainda mais incisivo ao falar da import\u00e2ncia daquele momento e em como aquilo foi um s\u00edmbolo marcante para a despedida de Miles desse mundo. &#8220;Ele n\u00e3o podia mais fazer a m\u00fasica que tinha feito. Mas, de repente, Miles vai e faz. Surpreende nesse quesito. E, de fato, ele j\u00e1 n\u00e3o tocava como tocava nos anos 1950. Aquele tipo de m\u00fasica que fez com (o produtor e arranjador) Gil Evans. Como instrumentista, \u00e9 incr\u00edvel isso. Voc\u00ea, com uma determinada idade, visitar uma coisa que fez l\u00e1 atr\u00e1s, quando era mais jovem. Com um outro tempo, um outro ritmo, outra sa\u00fade, outra disposi\u00e7\u00e3o, outro corpo. Eu fiquei muito surpreso quando vi aquilo. Quando o vi tocando e relembrando aquelas coisas. Pouco tempo depois, ele morre. Eu guardei essas palavras do Quincy Jones: &#8216;Miles sabia que tinha que fazer aquilo&#8217;, desabafa Joatan.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Miles Davis era um m\u00fasico fiel \u00e0 sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria e legado. Sua agressividade e frieza tinha muito a ver com o modo como precisou se impor em um pa\u00eds racista e violento como os Estados Unidos. Soube explorar ao m\u00e1ximo seu poder de cria\u00e7\u00e3o dentro do jazz e passou a fundi-lo a outros estilos. A sua identifica\u00e7\u00e3o era voltada para o seu som e somente para ele. Tal identifica\u00e7\u00e3o dentro de uma fus\u00e3o com outros estilos musicais tamb\u00e9m guia a carreira de Joatan, tendo consci\u00eancia de Brasil e de ser brasileiro destacada sempre como norte. &#8220;Miles me passou uma coisa muito importante que foi ser eu mesmo. Esse \u00e9 um conceito que eu acho muito valioso. Quando eu penso, vejo e ou\u00e7o Miles, e comparo com o que acontecia naquela \u00e9poca, Miles era Miles&#8221;, finaliza Joatan, cuja raiz musical dentro do manancial dos ritmos populares brasileiros ajudou a moldar essa mesma fidelidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa entrevista ao Scream &amp; Yell, Joatan Nascimento aprofunda sua vis\u00e3o sobre o legado e hist\u00f3ria de Miles Davis, al\u00e9m de trazer um pouco de sua pr\u00f3pria (e riqu\u00edssima) trajet\u00f3ria como m\u00fasico e professor.<\/p>\n<figure id=\"attachment_62479\" aria-describedby=\"caption-attachment-62479\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-62479 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/02-05-2019-Culbe-do-Jazz-AC92.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/02-05-2019-Culbe-do-Jazz-AC92.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/02-05-2019-Culbe-do-Jazz-AC92-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-62479\" class=\"wp-caption-text\"><em>Joatan Nascimento<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 um desafio grande falar de Miles Davis, tentar abarcar as fases de sua vida, analisar os primeiros anos do bebop em compara\u00e7\u00e3o ao que ele construiu no decorrer das d\u00e9cadas seguintes. Como profundo conhecedor da carreira dele, como voc\u00ea avalia sua trajet\u00f3ria dentro das propostas precursoras que ele trouxe?<\/strong><br \/>\nMiles Davis \u00e9 um caso \u00fanico na hist\u00f3ria da m\u00fasica dos Estados Unidos. N\u00e3o consigo enxergar outra pessoa que tenha tido essa postura diante da m\u00fasica, diante do mercado, diante da vida. Uma pessoa de personalidade muito forte. Algu\u00e9m muito perspicaz. Ele percebeu o ambiente onde estava. A qualidade de tudo que era feito ali. Ele surgiu em uma fase onde t\u00ednhamos Charlie Parker, Dizzie Gillespie, sem falar daqueles da gera\u00e7\u00e3o anterior, como (Thelonious) Monk, Art Blakey, (Kenny) Clarke, o baterista Bud Powel. Pessoas geniais tocando uma m\u00fasica complexa. E foi algo apaixonante para ele. Ele disse que a sensa\u00e7\u00e3o mais incr\u00edvel que ele sentiu foi ter ouvido o show de Parker e Gillespie. Ele se apaixonou por aquilo e entendeu que era um caminho que deveria trilhar. Vai para Nova York atr\u00e1s do Parker. Chega a estudar na Juilliard. Miles era uma pessoa que tinha uma condi\u00e7\u00e3o social bem melhor, pois o pai era dentista, de classe m\u00e9dia. Ele entra na Juilliard para estudar e isso gera uma reflex\u00e3o. Por mais que ele quisesse tocar aquela m\u00fasica, e ele tenta, ele chega a tocar bebop daquela forma como se tocava nos anos 1940. Mas ele percebia que, talvez&#8230; e a minha viagem \u00e9 essa&#8230; ele tinha uma outra voz, um outro caminho, um desejo de experimentar outras coisas. E \u00e9 uma ruptura muito grande quando ele lan\u00e7a &#8220;The Birth of the Cool&#8221; (colet\u00e2nea de 1957, mas com as faixas lan\u00e7adas no final da d\u00e9cada de 1940). \u00c9 uma coisa incr\u00edvel. Muito diferente do que estava acontecendo. Naquele momento, ele come\u00e7a, por si s\u00f3, a levar um outro tronco de desenvolvimento daquela m\u00fasica. Com ela, o bebop vai se desenvolver um pouco mais lento. Uma fase do bebop e do hard bop. Essa fase dura um bocado. Depois vem o experimento do free jazz e Miles consegue criar um outro veio, levando isso para frente at\u00e9 quando morre. Ele sozinho. E ele foi trazendo pessoas atr\u00e1s. Outros foram seguindo, mas ele consegue fazer sozinho esse outro veio. Tra\u00e7ar esse outro caminho. E a\u00ed que entra uma coisa fant\u00e1stica que \u00e9 a personalidade dele. Era um cara que conseguia impor a personalidade. A vis\u00e3o dele das coisas. Arriscou muito, mas tinha algo dentro dele que dizia: esse \u00e9 o caminho. Ele n\u00e3o errou. Praticamente, n\u00e3o errou em momento nenhum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Essa fase de inova\u00e7\u00f5es ele levou continuamente at\u00e9 que resolveu parar tudo em 1975, s\u00f3 voltando \u00e0 atividade em 1980. Qual a sua opini\u00e3o sobre as raz\u00f5es para esse hiato, bem como sua carreira ap\u00f3s isso?<\/strong><br \/>\nEsse per\u00edodo de cinco anos no qual ele passa isolado, quando parou de tocar entre 1975 e 1980, eu acho incr\u00edvel. Mas j\u00e1 \u00e9 uma especula\u00e7\u00e3o minha. J\u00e1 li algumas coisas, mas nada fica muito claro para mim. Ent\u00e3o, eu me dou ao luxo de improvisar, tamb\u00e9m. De fazer um pouco de jazz disso. De fazer uma reflex\u00e3o na cabe\u00e7a do cara. Eu acho que Miles chega a um ponto em que diz: &#8220;o que mais pode ser feito? Eu cheguei ao topo de um processo de cria\u00e7\u00e3o.&#8221; E quando ele come\u00e7a a tocar aquela fase eletr\u00f4nica, vem um dado curioso. Ele tamb\u00e9m foi muito ligado a essa quest\u00e3o do dinheiro. Do dinheiro que ele podia fazer com a m\u00fasica dele. Ent\u00e3o, ele negociava os contratos de uma forma muito impositiva. Defendia bem seus interesses. Estava sempre atento. Queria as coisas bem claras para n\u00e3o deixar margens. Ele sabia o valor. Sabia dar-se o valor de um grande artista. Eu lembro de uma passagem naquele livro autobiogr\u00e1fico. Ele fala que quando viu aqueles shows do Jimi Hendrix, aquele povo todo, aquele p\u00fablico enorme, ele falou: &#8220;por que eu n\u00e3o posso tocar para cinco mil pessoas ao inv\u00e9s de ficar tocando para cinquenta em um clube?&#8221; \u00c9 quando ele come\u00e7a a pegar o jazz e trazer para o que estava ali em um processo dos anos 1960. Como falei antes, voc\u00ea v\u00ea uma coisa que aconteceu em 1958, 1959, que foi o surgimento do free jazz. Isso mexeu e fez um abalo grande nas estruturas do Jazz, no conceito. Mas Miles n\u00e3o conseguiu enxergar ali um caminho para si. Ele n\u00e3o aderiu. Por mais novidade que aquilo tenha sido, por mais que chamasse a aten\u00e7\u00e3o, por mais desafiador que fosse, ele n\u00e3o percebeu naquilo um caminho. Ele opta por trilhar outra coisa. Pega aquele material de jazz que vai desenvolvendo e consegue mais uma capacidade incr\u00edvel de juntar m\u00fasicos. Ele tinha essa capacidade incr\u00edvel de formar uma banda boa e juntar m\u00fasicos que o ajudassem nesse processo. Ele tinha (John) Coltrane no saxofone. E foi uma fase dif\u00edcil quando Coltrane saiu. Ele queria o Wayne Shorter de qualquer jeito tocando na banda. Mas o Wayne Shorter tinha compromissos com Art Blakey no Jazz Messengers. Miles teve que esperar um pouquinho. Alguns saxofonistas passaram pela banda dele. Voc\u00ea percebe como soam diferente da ideia dele. Quando Wayne Shorter chega, eles tocam durante os anos 1960 e gravam muito material. E quando juntam o rock ao jazz, eles expandem a coisa de um jeito t\u00e3o espetacular que eu penso que a pausa dele ali em 1975 foi uma coisa assim: &#8220;vou parar porque cheguei a esse ponto&#8221;. N\u00e3o havia mais nada para ele fazer. Ele parou e percebeu que n\u00e3o tinha mais para onde ir no aspecto da cria\u00e7\u00e3o. Ele s\u00f3 retorna nos anos 1980. Acho que Miles, quando retornou, talvez tenha pensado em fazer com que a coisa seguisse em um rumo mais pop. Mais de m\u00fasica pop. E a\u00ed \u00e9 dif\u00edcil fechar a coisa. Eu n\u00e3o consegui fechar. O material que Miles produz dos anos 1980, at\u00e9 quando morre, \u00e9 algo que j\u00e1 n\u00e3o tem mais aquele esp\u00edrito do material que ele fez at\u00e9 1975. Entrou uma coisa mais pop. Os anos 1980 eram muito pop. Michael Jackson era bem pop. Marcus Miller produzia pop. Ent\u00e3o, Miles entrou em um veio que talvez n\u00e3o tenha sido a fase mais criativa das propostas, mas talvez tenha sido quando ele atingiu a um p\u00fablico que n\u00e3o era exatamente o de jazz. Muitos f\u00e3s foram se desligando porque queriam ouvir o Miles dos anos 1950. Mas ele caminhou para outra coisa. De toda forma, essa jun\u00e7\u00e3o do jazz atrai um outro p\u00fablico. O p\u00fablico do Miles que curtia rock, era especializado demais. Muitos se tornaram m\u00fasicos. Mostrou como a percep\u00e7\u00e3o daquela m\u00fasica era forte em suas vidas. Mas dos anos 1980 para cima, eu acho que ele entra em uma coisa da m\u00fasica pop. Ele torna a coisa mais simples de assimilar, mas ainda sendo ele mesmo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"You&#039;re Under Arrest\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_n_soffsFtDAbg2otI6GLT8UsTPJqM3oVQ\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Foi um per\u00edodo que ele alcan\u00e7ou uma outra audi\u00eancia, realmente.<\/strong><br \/>\nSim. Nesse momento ele atinge um p\u00fablico diferente. Um p\u00fablico que n\u00e3o era aquele pessoal que vinha de um nicho mais jazzistico. Mais do rock. Ele consegue atingir um p\u00fablico maior, sim. Voc\u00ea v\u00ea que ele lan\u00e7a o &#8220;You&#8217;re Under Arrest&#8221; (1985) com duas m\u00fasicas bem pop, &#8220;Time after Time&#8221;, da Cindy Lauper, e &#8220;Human Nature&#8221;, do Michael Jackson. Eram m\u00fasicas bem pop da \u00e9poca. E tem uma outra quest\u00e3o. Miles se torna mais popular, vamos dizer assim. Acho que o jazz nunca foi uma m\u00fasica popular, mas ele entra em uma outra pegada. E quando chega os anos 1990, com aquele \u00faltimo disco (\u201cDoo-Bop\u201d, lan\u00e7ado postumamente em 1992), quando ele j\u00e1 faz uma frente com o hip-hop. Ali era um outro veio que ele estava abrindo. Ele estava se comunicando com essa coisa. Era algo frequente naquele momento. E ele adentrou nisso de alguma forma, tamb\u00e9m. Acho incr\u00edvel essa capacidade dele de moldar a coisa em si e se moldar a um contexto ainda sendo o Miles Davis Miles n\u00e3o deixou de ser Miles em momento nenhum. Mas \u00e9 um camale\u00e3o. Tinha uma facilidade para se reinventar incr\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na sua carreira como trompetista, voc\u00ea traz muito da busca por experimenta\u00e7\u00f5es dentro de diversas express\u00f5es musicais que o Brasil tem. Essa mesma busca por experimenta\u00e7\u00f5es na carreira de Miles espelhou a sua pr\u00f3pria?<\/strong><br \/>\nFico muito feliz que de alguma forma eu pudesse ter uma resposta positiva para essa sua pergunta. Miles me passou uma coisa muito importante que foi ser eu mesmo. Esse \u00e9 um conceito que acho muito valioso. Quando penso, vejo e ou\u00e7o Miles, e comparo com o que acontecia naquela \u00e9poca, Miles era Miles. Ele n\u00e3o fazia concess\u00f5es. Fez essa \u00faltima. Lembra do disco \u201cLive in Montreaux\u201d (1993), que ele gravou com o Quincy Jones? Ali foi uma coisa incr\u00edvel porque ele quis fazer algo a que se negou a vida inteira. E o Quincy Jones fala uma coisa interessante. Que de alguma forma, Miles sentiu que tinha que fazer aquilo. Talvez porque era uma das poucas coisas que ele n\u00e3o tinha feito na vida e que n\u00e3o seria exatamente negativo, mas, sim, algo a mostrar que Miles \u00e9 t\u00e3o maior do que at\u00e9 mesmo alguns conceitos que defendeu a vida toda. Ent\u00e3o, quem esperava que Miles fizesse isso? Quando a vida toda ele dizia que n\u00e3o poderia olhar para o passado? N\u00e3o podia mais fazer a m\u00fasica que tinha feito. Mas, de repente, Miles vai e faz. Surpreende nesse quesito. E, de fato. Miles j\u00e1 n\u00e3o tocava como tocava nos anos 1950. Aquele tipo de m\u00fasica que fez com (o produtor e arranjador) Gil Evans. J\u00e1 n\u00e3o tinha aquela conex\u00e3o mais. Vou te falar, viu. Como instrumentista, \u00e9 incr\u00edvel isso. \u00c9 muito complicado voc\u00ea, com uma determinada idade, visitar uma coisa que fez l\u00e1 atr\u00e1s, quando era mais jovem. Com um outro tempo, um outro ritmo, outra sa\u00fade, outra disposi\u00e7\u00e3o, outro corpo. \u00c9 dif\u00edcil se lan\u00e7ar a um desafio como aquele. Naquele show, tem um trompetista ao lado dele, o Wallace Roney, que tocou algumas das partes dos arranjos. Ia ser muito dif\u00edcil para o Miles lidar com a partitura, os arranjos, as voltas, os lugares, aquela coisa toda. Ele j\u00e1 tinha se desconectado daquilo. Mas, enfim, fiquei muito surpreso quando assisti. Fiquei muito emocionado, tamb\u00e9m, quando o vi tocando e relembrando aquelas coisas. Fico muito emocionado com aquele v\u00eddeo. E pouco tempo depois, ele morre. E a\u00ed, guardei essas palavras do Quincy Jones. Miles sabia que tinha que fazer aquilo. E a\u00ed vamos especular. Mais uma vez, acho que cada um faz um tipo de especula\u00e7\u00e3o pessoal sobre Miles. Porque \u00e9 algo t\u00e3o \u00fanico. N\u00e3o tem uma refer\u00eancia de algu\u00e9m que tenha feito um processo semelhante e que isso gere um precedente. Era uma coisa muito dele. Quem vai saber? Talvez algu\u00e9m saiba, algu\u00e9m de perto, quais as raz\u00f5es que ele defendeu para aquele projeto &#8220;Live at Montreaux Festival&#8221;. Mas, voltando \u00e0 sua pergunta, ficou essa coisa do Miles em mim. Primeiro a coisa do som. Como Miles soava. Isso \u00e9 uma coisa que sempre persegui na vida. A voz. O som do seu instrumento. Ent\u00e3o, Miles tinha esse cuidado. Ele soava muito bonito. A coisa de voc\u00ea mesmo. Voc\u00ea s\u00f3 consegue fazer com que as pessoas te ou\u00e7am quando voc\u00ea se mostra. \u00c0 medida que voc\u00ea tenta mostrar uma outra coisa de uma outra pessoa, que voc\u00ea est\u00e1 copiando algu\u00e9m, ou entrando em uma onda onde todos s\u00e3o lindos, voc\u00ea vai ser mais um. Ningu\u00e9m vai prestar aten\u00e7\u00e3o. Mas, \u00f3bvio, voc\u00ea precisa ter muito talento para aquilo. E talento \u00e9 uma coisa subjetiva demais, tamb\u00e9m. Mas quando voc\u00ea diz a verdade, algu\u00e9m vai te ouvir, nem que seja uma \u00fanica pessoa. \u00c9 um p\u00fablico valoroso, de uma \u00fanica pessoa. Mas uma pessoa que tem interesse de te ouvir como voc\u00ea \u00e9. Ent\u00e3o, isso ficou muito forte para mim.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Miles Davis - Full Concert - 08\/18\/70 - Tanglewood (OFFICIAL)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/3_JZRhffYxE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vindo de Alagoas para Salvador h\u00e1 34 anos, como foi esse processo dentro da m\u00fasica atuando como trompetista?<\/strong><br \/>\nEu, claro, n\u00e3o tinha e ainda n\u00e3o tenho as condi\u00e7\u00f5es que Miles tinha de sobreviver com o que ele produzia. Era coisa demais. Eu n\u00e3o podia nunca almejar que, aqui no Brasil, eu pudesse ser um m\u00fasico que seguisse a minha carreira como solista no contexto que vivemos. Eu n\u00e3o conseguiria. Ent\u00e3o, de alguma forma, me sustentei com os meus v\u00ednculos de emprego como servidor p\u00fablico. Passei a fazer as outras coisas na medida do que valia para mim, do que eu gostasse, o que eu quisesse fazer. Vou te dar um exemplo. Aqui em Salvador, toquei com artistas da ax\u00e9 music&#8230; por 14 anos. Toquei com Ger\u00f4nimo, toquei com Gente Brasileira, que era uma dissid\u00eancia da Banda Mel, uma ruptura que eles tiveram no final dos anos 1980, com o Bucky Jones, as duas meninas que cantavam, Janete e Jaciara, e alguns m\u00fasicos da banda. Mas acabou n\u00e3o indo muito longe. Mas foi o primeiro trabalho regular que fiz. Havia feito o carnaval de 1988 e 1989, com Jorge Zara, do Bloco Crocodilo, mas com uma banda mesmo, esse foi o grupo que eu toquei primeiro. Depois toquei com Ger\u00f4nimo, Dionorina, que \u00e9 um cantor de reggae de l\u00e1 de Feira de Santana. E a\u00ed veio a Timbalada, Carlinhos Brown e os lan\u00e7amentos do primeiros dois discos dele. Depois veio Daniela Mercury, com quem eu fiquei um tempo muito grande. Depois fiz uma turn\u00ea com Caetano. Fiquei tocando com ele por dois anos e meio. Ap\u00f3s isso, voltei para a banda da Daniela, onde eu fiquei por quase seis meses. E a\u00ed bateu uma coisa em mim que eu pensei: &#8220;estou cansado dessa m\u00fasica\u201d. Estava come\u00e7ando a doer. Sempre digo aos meus alunos. A m\u00fasica precisa te dar algum prazer, alguma realiza\u00e7\u00e3o. No dia que a m\u00fasica come\u00e7ar a doer, tem alguma coisa errada. \u00c9 preciso olhar para isso com muita aten\u00e7\u00e3o antes que ela comece a te causar raiva. Quando come\u00e7ou a doer subir no palco para tocar ax\u00e9, e digo isso sem fazer ju\u00edzo de valor, mas para mim n\u00e3o fazia o menor sentido mais. Parei em junho\/julho de 2002. Sa\u00ed da banda da Daniela Mercury. Pouco tempo depois, fui chamado para tocar com a Ivete. N\u00e3o estava trabalhando com ningu\u00e9m. Pedi s\u00f3 um dia para pensar. S\u00f3 para falar com a minha esposa na \u00e9poca. Eu falei assim: &#8220;se eu for, vou ganhar muito dinheiro. Mas se eu for, tamb\u00e9m, a gente vai se separar&#8221;. Se eu fosse, tamb\u00e9m, iria interromper um processo que eu havia come\u00e7ado, que foi entrar no doutorado da UFBA, para seguir um outro caminho. Decidi que n\u00e3o queria. Mas precisava comunicar a ela e foi esse dia que pedi para pensar. No outro dia, liguei para o Alexandre Lins, que era o produtor dela, uma coisa assim. Agradeci pela lembran\u00e7a. Era um excelente gig, todo mundo estava querendo, mas eu n\u00e3o tinha mais condi\u00e7\u00f5es. Eu estava em outro caminho e n\u00e3o ia abrir m\u00e3o dele. Eu n\u00e3o sabia nem onde isso podia dar. Mas, enfim, surgiu um concurso na universidade e eu fiz. Concurso para Trompete no Curso de M\u00fasica Popular. Depois eu pensei: &#8220;Meu Deus, como tudo fez sentido.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Olhando em retrospecto, a escolha fez todo sentido.<\/strong><br \/>\nSim. Para mim, est\u00e1 sendo muito valioso colaborar com esse processo da educa\u00e7\u00e3o com m\u00fasica popular, dentro dessa escola, do que se eu estivesse na banda da Ivete. Estou produzindo uma coisa que, para mim, \u00e9 mais valorosa. \u00c9 mais provocador. \u00c9 mais instigante. Produzo alguma coisa que talvez n\u00e3o seja exatamente o som, a m\u00fasica que eu tenho feito em outras vertentes, mas, para mim, foi a coisa que fez sentido. \u00c9 como se eu dissesse assim: &#8220;estou sendo mais \u00fatil, estou sendo mais valoroso para a m\u00fasica do que se eu estivesse tocando com artista pra l\u00e1 e pra c\u00e1&#8221;. Ent\u00e3o, essa postura de independ\u00eancia, alguns m\u00fasicos disseram para mim: &#8220;olha, Joatan, eu n\u00e3o tenho como me agarrar, como voc\u00ea tem, mas as atitudes que voc\u00ea teve com essa turma, com esse mercado, me provocaram a buscar uma outra coisa para mim que pudesse me sustentar e n\u00e3o ser t\u00e3o subserviente&#8221;. Porque, Jo\u00e3o, eu acho que as pessoas n\u00e3o t\u00eam ideia do que os m\u00fasicos passam nesse contexto. Eu n\u00e3o gostaria ainda de fazer um coment\u00e1rio p\u00fablico, porque eu ainda quero dar um pouquinho de dist\u00e2ncia do tempo para poder falar, mas \u00e9 uma coisa muito ruim. \u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o muito ruim. \u00c9 uma cultura diferente, porque eu vejo outros lugares que t\u00eam bandas pop, como o Rio de Janeiro, por exemplo, que tem um mercado muito grande com isso, e eu n\u00e3o consigo ver as mesmas coisas que se praticam aqui. Ent\u00e3o, bom, eu ainda n\u00e3o quero falar sobre isso porque quero um pouquinho mais de dist\u00e2ncia do tempo. Espero que eu n\u00e3o morra antes disso. Mas \u00e9 uma cultura ruim demais. Mas, enfim, Miles, de uma certa forma, foi quem me falou isso. Assim que eu comecei a ouvi-lo. Eu gosto muito de ler. E quando eu come\u00e7ava a ler nos encartes quando eu era bem novo, sempre tinha um encarte que falava algumas coisas. Logo cedo, eu comecei a comprar livros para entender e acompanhar muito as coisas que Miles dizia e que chegavam a mim. Aquilo foi criando uma esp\u00e9cie de conceito de vida, de inspira\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s daquilo. Fico muito impressionado pela maneira como Miles se imp\u00f4s. A maneira como ele reagia no palco, como ele se comunicava com as pessoas. Ele era frio, tamb\u00e9m, claro. Se voc\u00ea comparar o Dizzy Gillespie com ele, \u00e9 uma outra coisa. Ele era muito distante do p\u00fablico, mas as pessoas o amavam desse jeito. Quando ele come\u00e7ava a tocar, tinha sempre uma&#8230; (pausa) \u00c9 porque muitas vezes, a m\u00fasica&#8230; A m\u00fasica tem v\u00e1rias fun\u00e7\u00f5es sociais. Isso \u00e9 muito claro para mim. Para essa m\u00fasica, que era uma fun\u00e7\u00e3o de aprecia\u00e7\u00e3o, tem uma lado que precisa de um certo&#8230; de um retorno de divers\u00e3o. Por exemplo, nos anos 1950, houve um revival daquela m\u00fasica tradicional de New Orleans, aquela coisa do dixieland. Houve um revival daquilo com muita for\u00e7a. Era como se as pessoas, depois do bep bop, daquelas experimenta\u00e7\u00f5es todas, era como se uma parte do p\u00fablico cansasse tanto, que eles disseram: &#8220;eu quero ouvir aquela m\u00fasica, que \u00e9 t\u00e3o mais f\u00e1cil de ouvir. Diverte tanto. \u00c9 t\u00e3o bom. Preciso da m\u00fasica nessa fun\u00e7\u00e3o para me divertir. Eu preciso daquilo. Ainda que eu possa consumir as duas coisas, eu estou aqui com o ouvido ligado, do que est\u00e1 acontecendo nos anos 1940, nos anos 1950. Mas eu preciso daquela m\u00fasica para dar um relax tamb\u00e9m para mim&#8221;. Mas tem aquele outro nicho, aquele outro p\u00fablico que pega aquela m\u00fasica e diz assim: &#8220;o que isso quer dizer?&#8221; Porque a\u00ed vem uma liberdade que o apreciador tem, o p\u00fablico, que o jazz provoca, que \u00e9 dizer assim: &#8220;Agora \u00e9 a sua vez de improvisar. Voc\u00ea vai ouvir agora essa m\u00fasica, vai digeri-la, perceb\u00ea-la e entend\u00ea-la a partir de voc\u00ea&#8221;. \u00c9 uma viagem, tamb\u00e9m, solit\u00e1ria, a do apreciador. A do apreciador mais atento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim. E Miles conseguiu criar esse tipo de ponte com esse apreciador atento.<\/strong><br \/>\nSim. O cara consome essa m\u00fasica e ele mesmo participa daquele processo. E n\u00e3o \u00e9 um processo de comunica\u00e7\u00e3o. Lembro de conversar com um professor e ele me dizer que, para ser uma linguagem, precisa ter fonemas, precisa ter uma s\u00e9rie de coisas. Porque a gente, \u00e0s vezes usa as palavras como meio\/fantasia, e, \u00e0s vezes, n\u00e3o funciona direito quando voc\u00ea vai para um outro ambiente. Ent\u00e3o, a m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 linguagem porque n\u00e3o se conversa. N\u00e3o tem fonemas, n\u00e3o tem estrutura de linguagem. Mas pode comunicar. Ela vai comunicar uma coisa e voc\u00ea, na qualidade de ouvinte, de p\u00fablico, voc\u00ea se torna um int\u00e9rprete, tamb\u00e9m. Porque aquilo vai chegar a voc\u00ea e voc\u00ea vai digerir aquilo a partir do que voc\u00ea tem. Ent\u00e3o, nesse conceito, o p\u00fablico, um certo p\u00fablico, continuou fiel a essa ideia do Miles de acatar, de receber as contribui\u00e7\u00f5es dele e, a partir da\u00ed, desenvolver a sua aprecia\u00e7\u00e3o, o seu gosto por ele. Para mim, isso \u00e9 uma coisa que sempre me toca porque \u00e9 \u00fanico. Eu n\u00e3o consigo enxergar outro artista que tenha tido a proje\u00e7\u00e3o que ele teve e tenha sido capaz de provocar tantas rupturas e ter levado aquilo no bra\u00e7o, sozinho. Ter levado essa m\u00fasica para caminhos t\u00e3o inimagin\u00e1veis. Desde os anos 1970 at\u00e9 o final, no comecinho dos anos 1990, ele conseguiu dialogar com um p\u00fablico que \u00e9 fora do p\u00fablico do jazz tradicional. Ele consegue dialogar com um outro p\u00fablico e, nos anos 1980, conseguiu dialogar com o momento. Quando come\u00e7a a fazer produ\u00e7\u00f5es com o Marcus Miller, ele come\u00e7a a entrar em outro fil\u00e3o. A perceber e a se perguntar: &#8220;o que est\u00e1 acontecendo atualmente e de que forma vou me inserir nessa m\u00fasica de hoje?&#8221; A\u00ed ele j\u00e1 faz uma primeira concess\u00e3o, talvez. Ele se coloca nos anos 1980 dessa forma. E a\u00ed, \u00e9 outro pano pra manga. Tentar entender esses anos 1980 e essa \u00faltima viagem de Miles. \u00c9 assim que eu percebo um pouco dele. Acho que nos anos 1980 ele faz uma primeira concess\u00e3o, que foi olhar para o entorno. O que o jovem est\u00e1 ouvindo, hoje, para eu me inserir. Porque quando ele faz essa jun\u00e7\u00e3o com o rock, talvez ele tenha pensado nisso. Como ele declarou: &#8220;por que eu n\u00e3o posso tocar para cinco mil pessoas enquanto eu s\u00f3 toco para 50 em um clube?&#8221; Ele estava a fim de cativar o jovem. Ele queria que as pessoas mais jovens ouvissem a m\u00fasica dele. Mas ele ainda vinha no conceito jazzistico bem forte. Nos anos 1980, voc\u00ea j\u00e1 n\u00e3o v\u00ea esse Miles t\u00e3o jazzista como antes. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o jazz que a gente percebe tal qual. Mas \u00e9 uma outra coisa. Acho que a\u00ed ele faz um di\u00e1logo com outro universo que n\u00e3o era aquele veio. Embora ele rejeitasse o conceito do jazz. Muitos rejeitaram ser taxados de jazzistas ou qualquer outra coisa. E o jazz \u00e9 uma coisa dif\u00edcil de definir em palavras claramente. Qualquer tentativa termina sendo sempre insuficiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea definiria?<\/strong><br \/>\nEu li uma entrevista do Woody Shaw, de 1974. Ele \u00e9 um cara muito pessoal. Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, \u00e9 um dos poucos m\u00fasicos trompetistas que causaram uma impress\u00e3o no Miles Davis entre os anos 1970 e 1980. Miles falou assim: &#8220;Esse cara tem uma coisa nova na maneira de tocar. E \u00e9 \u00fanica, tamb\u00e9m. Bem particular&#8221;. Mas o Woddy Shaw, quando perguntaram a ele nessa entrevista o que era jazz, ele respondeu: &#8220;O jazz \u00e9 uma maneira de viver. Um olhar sobre a vida. Um conceito. N\u00e3o \u00e9 uma m\u00fasica, n\u00e3o \u00e9 um ritmo, n\u00e3o \u00e9 um g\u00eanero. \u00c9 uma forma de viver. Um estilo de vida&#8221;. Ent\u00e3o, muitos tentam responder isso dizendo que o jazz se vale da m\u00fasica, mas ele \u00e9 um conceito em que voc\u00ea, instrumentista, voc\u00ea, o m\u00fasico, tem a palavra para falar de si e para falar de como voc\u00ea v\u00ea as coisas em torno de si. Porque, vamos l\u00e1, se a gente for buscar na Hist\u00f3ria da M\u00fasica, nos ambientes todos que a gente conhece, que m\u00fasica se prestou a isso? A dar essa voz ao m\u00fasico? Porque, l\u00e1 no passado. o compositor sempre teve mais proemin\u00eancia. Compunham aquelas pe\u00e7as maravilhosas, e o m\u00fasico ia l\u00e1 e tocava. Executava aquela partitura. O solista, por mais destacado que fosse, ele ia tocar uma partitura de algu\u00e9m. E aquela partitura estava escrita dentro de um esquema, de uma forma. Raramente voc\u00ea pode sair daquilo, daquele scritpt. A\u00ed voc\u00ea sai um pouquinho da m\u00fasica ocidental, que domina esse p\u00fablico nosso aqui, se voc\u00ea for para a africana, j\u00e1 \u00e9 um outro conceito. Mas um conceito, tamb\u00e9m, que se aproxima com o jazz, \u00e9 o maior v\u00ednculo com a \u00c1frica. Quando dizem assim: &#8220;Ah, o jazz tamb\u00e9m tem uma coisa que vem da \u00c1frica&#8221;. Como? De que forma? Onde \u00e9 que est\u00e1 isso na m\u00fasica? Quando voc\u00ea ouve Duke Ellington ou Dizzy Gillepse, onde \u00e9 que est\u00e1 a \u00c1frica ali? \u00c9 na percuss\u00e3o? N\u00e3o. Tem alguma coisa que lembra a \u00c1frica ali naquelas batidas? N\u00e3o. Mas \u00e9 um conceito. Eu trabalhei muito tempo em Angola, e um amigo de l\u00e1 dizia que a \u00c1frica s\u00e3o muitas. A \u00c1frica n\u00e3o \u00e9 uma coisa s\u00f3. A \u00c1frica e todo mundo \u00e9 igual? N\u00e3o. S\u00e3o v\u00e1rias \u00c1fricas. Todas muito diferentes. Mas o africano n\u00e3o tem esse conceito de m\u00fasica para aprecia\u00e7\u00e3o, essa cultura ocidental de voc\u00ea ir para o lugar apreciar a m\u00fasica como arte. Hoje em dia, voc\u00ea vai encontrar, claro, porque j\u00e1 tem uma presen\u00e7a ocidental muito grande ali. Mas para ele, para o cara ali da tribo, mais dentro da coisa, esse conceito de arte n\u00e3o existia. Porque, para eles, dan\u00e7ar, cozinhar, tocar, cantar, essas coisas eram a\u00e7\u00f5es do dia. Eram coisas normais do dia-a-dia. N\u00e3o eram um conceito do tipo: &#8220;vou tocar aqui para algu\u00e9m me ouvir&#8221;. Era uma coisa que era feita por todos e n\u00e3o com essa ideia de ser um objeto para ser apreciado, consumido. Eram a\u00e7\u00f5es do dia a dia. Como comer, andar. A necessidade de dan\u00e7ar, de tocar, de cantar, ou de esculpir ou de pintar, n\u00e3o era para que aquilo fosse vendido. Isso \u00e9 um conceito posterior. Mas, para eles, era uma manifesta\u00e7\u00e3o da vida. Veja como isso se liga, tamb\u00e9m, na mitologia africana, que gerou nossa cultura do candombl\u00e9. S\u00e3o coisas da vida. S\u00e3o express\u00f5es naturais da vida e que, sem elas, aquilo n\u00e3o faz sentido, tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, nesse ponto, o jazz carrega esse conceito que, para mim, \u00e9 muito caro. Eu s\u00f3 vim perceber isso muito tempo depois porque poucas pessoas falam sobre isso. O que mais me impressiona no jazz \u00e9 essa capacidade de criar a cada momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como isso se espelha no seu trabalho como professor e, tamb\u00e9m, como compositor?<\/strong><br \/>\nSou professor de Improvisa\u00e7\u00e3o na Escola de M\u00fasica da UFBA. Talvez eu frustre alguns alunos quando chego para eles e digo: &#8220;olha, n\u00e3o tenho o material para te passar pronto, como muita gente faz, dizendo que voc\u00ea vai ter que estudar isso aqui e ter\u00e1 todas as respostas para as harmonias e para as m\u00fasicas que voc\u00ea venha a tocar&#8221;. N\u00e3o fa\u00e7o isso, Jo\u00e3o, porque n\u00e3o posso fazer. Primeiro porque n\u00e3o posso dizer a ningu\u00e9m como interpretar, j\u00e1 que uma interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 uma liberdade individual de cada um. Se n\u00e3o vai ser outra coisa. Mas vou tentar te ensinar mecanismos para voc\u00ea criar melhor. Para voc\u00ea n\u00e3o errar a harmonia, n\u00e3o errar o acorde. Essas ferramentas que vou te dar. A partir da\u00ed, entra o artista. A partir da\u00ed, entra o int\u00e9rprete, com a sua liberdade, para dizer o que ele quiser dizer. Etou tentando terminar dois discos que produzi agora. Est\u00e1 faltando dinheiro para terminar. Quando eu estava fazendo esse disco, tinha muita gente que faz assim: &#8220;Vou preparar os solos, os improvisos, para ficar uma coisa redonda, uma obra de arte acabada&#8221;. Eu n\u00e3o consigo fazer assim. Eu entrava no est\u00fadio sem a menor ideia de como ia come\u00e7ar os solos daquela m\u00fasica. De como ele ia se desenvolver e como ele ia terminar. Esse para mim \u00e9 o conceito. Todos os solos que aparecem naquele disco podem n\u00e3o ser maravilhosos, podem ser bem medianos, ou podem at\u00e9 ser ruins. Mas uma coisa ningu\u00e9m vai tirar de mim: ali \u00e9 o meu discurso. Aquela hora foi o que eu pude dizer, e o que eu quis dizer. Essa \u00e9 uma coisa que Miles fazia. Aprendi dele. De impor essa liberdade da qual n\u00e3o posso abrir. S\u00f3 posso fazer assim. Para mim, pego esse conceito dos africanos que eu li e guardei. \u00c9 como se eu sa\u00edsse de casa para ir ao Teatro Castro Alves para ensaiar. Nesse caminho de ida, que \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o que fa\u00e7o, n\u00e3o sei o que posso encontrar. Podem acontecer v\u00e1rias coisas. Um imprevisto. N\u00e3o tenho controle sobre isso. A vida \u00e9 assim. N\u00e3o temos controle do que vai acontecer. Mas a gente espera que aconte\u00e7a bem. Ent\u00e3o, na m\u00fasica, para mim, quando estou improvisando, quando penso, quando toco essa m\u00fasica, guardo esse conceito e \u00e9 dif\u00edcil abrir m\u00e3o dele. Vou fazer o que na hora vier \u00e0 cabe\u00e7a. O que posso criar na hora. \u00c9 isso. Acho que s\u00e3o essas coisas que Miles deixou muito forte comigo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Jeanne Moreau - Miles Davis - Louis Malle - Paris - 1958\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/icJw9HXXoXA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 not\u00f3rio o modo como o per\u00edodo na Fran\u00e7a deu a Miles uma vis\u00e3o de mundo diferente da que ele tinha nos Estados Unidos, pa\u00eds notoriamente racista. L\u00e1, ele conheceu intelectuais, engatou um relacionamento amoroso com a cantora Juliette Gr\u00e9co, e foi valorizado como artista. Ao voltar, sua depress\u00e3o foi pesada e o afundar na hero\u00edna quase inevit\u00e1vel. Voc\u00ea concorda que o fator principal para Miles demonstrar ter uma personalidade t\u00e3o introspectiva e sua frieza, juntamente com os acessos de f\u00faria, al\u00e9m de seu v\u00edcio em drogas, t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com o modo como ele lidou com esse racismo e como isso o afetou?<\/strong><br \/>\nEm parte, sim. H\u00e1 sempre a quest\u00e3o do indiv\u00edduo. A maneira como cada um reage. A maneira como cada um filtra aquilo. As pessoas s\u00e3o diferentes. Quando vejo Miles nesse sentido, vejo que foi um cara que sentiu muito. N\u00e3o acho imposs\u00edvel, nem absurdo, ele ter tomado essa pancada no modo como ele viu os Estados Unidos ao voltar. Porque o que Paris deu a ele naquele momento&#8230; Ele estava ali ao lado de Picasso e de outros. Isso foi muito chocante para Miles. Ele j\u00e1 vinha sentido isso. Ele contava que nos quartetos e quintetos de jazz, quando ele come\u00e7ou, ali nos anos 1940 e 1950, ele falava que o grupo tinha que ter o cara menos preto. Ele era muito preto, o Art Blakey era muito preto. Mas sempre tinha que ter um cara na banda com um tom de pele mais clara. Era esse cara que ia descer nos lugares para comprar comida quando eles estavam em turn\u00ea. E se todo mundo fosse de pele muito escura, eles teriam problemas s\u00e9rios. Ele fala isso no livro. Isso \u00e9 doloroso demais. Sou o tipo de pessoa que sinto muito esses golpes. Isso me deprime demais. Essa condi\u00e7\u00e3o do ser humano. Logo quando ele volta de Paris, tem aquele incidente na porta do clube (Birdland), quando o policial o aborda e o agride. Isso n\u00e3o \u00e9 uma coisa f\u00e1cil. N\u00e3o temos uma dimens\u00e3o muito precisa. Aqui no Brasil temos um problema muito s\u00e9rio para lidar com a verdade. Um problema ser\u00edssimo. J\u00e1 pensei sobre isso absurdamente. Quando um cara te pergunta uma coisa, voc\u00ea conta uma hist\u00f3ria para dar a resposta a ele. Tipo: &#8220;Temos ensaio na sexta. Voc\u00ea pode?&#8221; O cara responde: &#8220;Rapaz, sexta, minha mulher vai precisar do meu carro. Vai pegar para levar a crian\u00e7a na escola, depois vai&#8230;&#8221; O cara conta uma hist\u00f3ria! Eu preciso apenas de uma resposta para a pergunta: &#8220;Voc\u00ea pode ensaiar na sexta-feira?&#8221; \u00c9 sim ou n\u00e3o. Quando voc\u00ea me der essa resposta verdadeira, n\u00e3o me interessa o que est\u00e1 acontecendo por tr\u00e1s disso. N\u00f3s lidamos muito mal com essa quest\u00e3o da verdade. Ent\u00e3o, por isso, aqui no Brasil essa coisa do racismo \u00e9 embolada no meio de um monte de enroladas e nunca fica muito claro. Todo mundo sabe que tem, mas ningu\u00e9m reflete porque est\u00e1 nesse bolo todo. Desde quando aquela primeira hist\u00f3ria do Brasil, logo quando criaram o IBGE, houve um concurso para se criar a Hist\u00f3ria do Brasil. No caso, UMA hist\u00f3ria do Brasil. E a\u00ed, <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-46995817\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">quem ganha esse concurso \u00e9 um alem\u00e3o<\/a>.\u00a0 Esse cara consegue contar uma hist\u00f3ria fazendo exemplo com os rios. O grande rio representa Portugal, cujos afluentes v\u00e3o se juntando a ele formando o encontro de tr\u00eas ra\u00e7as. Aquele romance. Essa balela de encontro de tr\u00eas ra\u00e7as. Que encontro de tr\u00eas ra\u00e7as?? Foi uma ra\u00e7a matando e dizimando as outras. E at\u00e9 hoje o processo continua. Criou-se uma ideia de romantismo, como aquela do brasileiro cordial, de que no Brasil n\u00e3o tem racismo e que muita gente defende at\u00e9 hoje. O livro daquele cara, o Ali Kamel, chamado &#8220;N\u00e3o Somos Racistas&#8221;, esse cara fala tantos absurdos nesse livro. E tudo baseado em teses sociol\u00f3gicas etc. E muita gente n\u00e3o lembra ou talvez nem saibam, \u00e9 que houve um pensamento intelectual aqui no Brasil que vingou de 1860 a 1930 que foi basicamente esse conceito de eugenia, de ra\u00e7a pura. Porque, naquele momento, se acreditava que t\u00ednhamos ra\u00e7as diferentes, e que havia um ranking dessas ra\u00e7as. Ent\u00e3o, naquele conceito, os humanos mais evolu\u00eddos, mais civilizados, faziam parte daquele norte da Europa. Depois viriam os europeus ali do centro, depois os europeus mais mediterr\u00e2neos, que tiveram influ\u00eancia dos mouros. E eles iam catalogando isso. Naquela \u00e9poca, os africanos tinham at\u00e9 mais valor que os chineses, de t\u00e3o fechados que os chineses eram. Eles detestavam a China, pois ningu\u00e9m conseguia passar por aquilo ali. Ent\u00e3o, o Brasil acreditou, com nomes como o de Nina Rodrigues, a lista \u00e9 grande, <a href=\"https:\/\/super.abril.com.br\/especiais\/racismo-disfarcado-de-ciencia-como-foi-a-eugenia-no-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">muita gente validou essa teoria.<\/a> De que n\u00f3s s\u00f3 ser\u00edamos uma na\u00e7\u00e3o se f\u00f4ssemos uma na\u00e7\u00e3o de brancos. E a\u00ed. quando vem a alforria, a lei \u00c1urea assinada pela Princesa Isabel, o que os caras fizeram? Eu n\u00e3o sei se isso foi pensado e registrado como uma a\u00e7\u00e3o, mas nos deixa a ver que \u00e9 isso. Acabou a escravid\u00e3o, libertaram aquele povo todo. &#8220;Se vira. A partir da\u00ed \u00e9 com voc\u00eas&#8221;. Talvez tivessem esperan\u00e7a de que esse povo acabasse, morresse. Porque n\u00e3o tinha mais o chicote, mas, tamb\u00e9m, n\u00e3o tinham comida, n\u00e3o tinham onde morar, n\u00e3o tinham mais nada. E a\u00ed come\u00e7aram a trazer europeus para o Brasil. A\u00ed, sim. \u00c9 uma campanha documentada. At\u00e9 Brasil e Argentina competiam para quem trazia mais gente da Europa para c\u00e1. Havia feiras internacionais e no Brasil se fazia esse tipo de divulga\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, atra\u00edram esses europeus para c\u00e1, instalaram naquelas terras f\u00e9rteis do Sul do pa\u00eds, com a esperan\u00e7a de que eles se misturassem e fossem branqueando a popula\u00e7\u00e3o, para, a\u00ed sim, de fato, n\u00f3s chegarmos \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o. Esse foi um conceito que durou at\u00e9 a d\u00e9cada de 1930. Ent\u00e3o, \u00e9 uma quest\u00e3o que est\u00e1 muito clara. N\u00e3o d\u00e1 para ficar numa enrola\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o tem racismo no Brasil. Isso \u00e9 incr\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No caso de Miles, esse racismo foi golpe pesado que o levou ao v\u00edcio de maneira violenta.<\/strong><br \/>\nSim. Para algumas pessoas, vai gerar uma rea\u00e7\u00e3o muito forte. Miles se ressentiu muito disso. E a\u00ed essa coisa da droga nos leva a pensar o seguinte: geralmente \u00e9 uma maneira de voc\u00ea sair da realidade. O cara usa aquilo para tir\u00e1-lo daquele momento. Lev\u00e1-lo para uma outra coisa. \u00c9 como se voc\u00ea buscasse um recurso para fugir daquele momento onde, no dia-a-dia, voc\u00ea teria que se defrontar, reagir e sobreviver. Muitas das raz\u00f5es para o uso \u00e9 meio que essa busca por um descanso, por uma outra realidade. E a\u00ed \u00e9 t\u00e3o ruim quanto, pois gera uma coisa muito pior. Entendo perfeitamente o que acontecia com Miles Davis nesse momento. Existia, tamb\u00e9m, um romantismo, como vemos hoje aquelas propagandas nas quais as pessoas apareciam com o cigarro na m\u00e3o. Aquilo era t\u00e3o charmoso, t\u00e3o bacana, que todo mundo fazia. Se voc\u00ea bebe, voc\u00ea toca melhor. Se voc\u00ea fuma, voc\u00ea toca melhor. Se voc\u00ea se droga, voc\u00ea toca melhor. Se voc\u00ea aplica hero\u00edna no bra\u00e7o, cheira coca\u00edna, faz qualquer outra coisa, voc\u00ea vai fazer aquilo melhor porque muitos que fizeram coisas bacanas faziam isso. Existe esse romantismo e \u00e9 onde a porca torce o rabo. A coisa complica. Mas, enfim, eu n\u00e3o tenho a menor d\u00favida de que havia uma grande press\u00e3o sobre ele. A maneira como ele reagia era o resultado de uma press\u00e3o grande. Era um m\u00fasico negro que estava tendo uma proje\u00e7\u00e3o muito forte. E a coisa nos Estados Unidos n\u00e3o \u00e9 minimamente camuflada. As coisas l\u00e1 s\u00e3o bem escancaradas. Nesse sentido, ele se recente dessa falta de respeito, dessa falta de acolhimento. E eu acho que nesse momento, a partir desse embate, ele desmorona. \u00c9 doloroso.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Orquestra Reggae  &amp; Joatan Nascimento \/Take Five\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0iwSJ_OhBI8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando olhamos a trajet\u00f3ria do Miles Davis no decorrer das d\u00e9cadas, vemos essa constru\u00e7\u00e3o gradativa. Essa caracter\u00edstica marcante dele de nunca olhar para tr\u00e1s em sua carreira, sempre seguir buscando por algo novo \u00e9 algo percept\u00edvel, como algo que o moldou e o levou para frente. E a caracter\u00edstica principal era a experimenta\u00e7\u00e3o. Lembro de ter visto um v\u00eddeo seu, Joatan, l\u00e1 em Cachoeira, tocando junto com a Orquestra Reggae e, ao rever aquele v\u00eddeo recentemente, senti vontade de te perguntar sobre essa mesma capacidade de experimenta\u00e7\u00e3o presente em seu trabalho e em sua trajet\u00f3ria como artista brasileiro.<\/strong><br \/>\nNo meu caso, se deu mais ou menos assim. Quando me percebi brasileiro&#8230; Isso \u00e9 um exerc\u00edcio importante. N\u00e3o sei se todo brasileiro se percebe brasileiro. E quando digo isso, me refiro ao ser cultural. Antes de qualquer coisa, para mim, o aspecto mais importante \u00e9 o fator cultural. Sempre defendo que, qualquer governante aqui, deveria tra\u00e7ar o seu governo, as suas quest\u00f5es, o seu programa, a partir do homem cultural. N\u00e3o h\u00e1 formas de voc\u00ea desenvolver pol\u00edticas para aquele cidad\u00e3o sem que voc\u00ea o conhe\u00e7a culturalmente. Porque a cultura vai dizer quem ele \u00e9. A cultura vai falar das suas car\u00eancias, de uma s\u00e9rie de coisas. \u00c9 riqu\u00edssimo. Acho que a gente acertaria muito se esse entendimento fosse o primeiro. N\u00e3o d\u00e1 para trazer uma pol\u00edtica econ\u00f4mica se voc\u00ea n\u00e3o sabe quem \u00e9 aquela pessoa. N\u00e3o v\u00e3o funcionar as f\u00f3rmulas l\u00e1 de Chicago. Ent\u00e3o, para mim, \u00e9 o ponto principal. Para mim, come\u00e7a com a cultura. Da\u00ed para frente, voc\u00ea pode colocar como segundo ponto qualquer um que voc\u00ea queira. Mas, para mim, o primeiro ponto \u00e9 o cultural. Quando me percebi brasileiro, quando olhei para tr\u00e1s de onde eu vinha, de uma av\u00f3 que era uma \u00edndia que morava em uma tribo. Meu pai a conheceu por pouco tempo, pois ela morreu muito cedo. Ele era o ca\u00e7ula. E outros antepassados que encontrei, como um espanhol de onde vem meu sobrenome Mendon\u00e7a. \u00c9 um monte de coisa. \u00c9 uma jun\u00e7\u00e3o de muita coisa. E a\u00ed tem uma disciplina na Escola de M\u00fasica da UFBA que eu ministro que se chama Oficina de Estilos. Sempre come\u00e7o falando do Choro, que foi a nossa primeira m\u00fasica popular urbana. Fa\u00e7o isso para que voc\u00eas se reconhe\u00e7am, para que voc\u00eas se vejam como parte disso. E como foi importante essa maneira de misturar as coisas. Sempre digo que o maior trunfo nosso est\u00e1 no fato de sermos misturados. Porque quando voc\u00ea mistura duas coisas estanques, duas coisas diferentes, mas estanques, ali, voc\u00ea vai gerar uma terceira. O caf\u00e9 \u00e9 uma coisa, o leite \u00e9 outra, mas quando voc\u00ea mistura, vai sair o caf\u00e9-com-leite, que \u00e9 uma outra coisa diferente daquelas duas coisas estanques ali. E esse \u00e9 um processo de riqueza, esse \u00e9 um processo de cria\u00e7\u00e3o. N\u00f3s temos essa qualidade que vem naturalmente desse fato da gente j\u00e1 ser misturado. Tem uma outra coisa tamb\u00e9m. Tem uma tese do Darcy Ribeiro que ele diz que essa baixa autoestima nossa vem do momento em que o primeiro brasileiro surgiu. Aquele brasileiro que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 nem somente o \u00edndio, nem somente o africano, nem somente o portugu\u00eas. E aquele cara nasce sem um hist\u00f3rico. Ele surge sem uma cultura dele. Para dizer dele. Ele j\u00e1 n\u00e3o podia ir para a Casa Grande, j\u00e1 que n\u00e3o era o lugar dele. Ele nem podia ir para a tribo, porque tamb\u00e9m n\u00e3o era o lugar dele. E ele tamb\u00e9m n\u00e3o podia ir para a senzala porque tamb\u00e9m n\u00e3o era o lugar dele. Ele nasceu sem uma identidade. E isso precisa ser feito. Creio que isso foi o que faltou para que a grande elite brasileira desde sempre manipulasse. Uma coisa incr\u00edvel que se faz no processo de escravid\u00e3o \u00e9 quando voc\u00ea destr\u00f3i a cultura do cara. Os soldados, geralmente, estupram as mulheres para que nas\u00e7am filhos misturados e, assim, gera uma coisa sem hist\u00f3ria, sem passado. Come\u00e7am a destruir a cultura daquele povo. Ocupam, destroem museus, incendeiam os livros, e eliminam os registros do passado. Voc\u00ea come\u00e7a a se enxergar sem lastro. Ent\u00e3o, fizeram isso com os africanos que vieram para c\u00e1, mas eles sobreviveram. Porque a inven\u00e7\u00e3o do Candombl\u00e9 foi uma coisa maravilhosa. Inventaram uma coisa que fez com que eles sobrevivessem. Eram africanos de v\u00e1rios lugares, de v\u00e1rios conceitos religiosos. Mas, enfim, foi a maneira como eles encontraram de sobreviver. Pelo menos no aspecto cultural sacro, essa foi uma coisa que fez com que eles sobrevivessem. E de certa maneira, como estavam todos confinados, come\u00e7aram a desenvolver coisas ali. Mas eles n\u00e3o eram os brasileiros. Estes s\u00e3o aqueles caras que j\u00e1 v\u00eam de uma mistura disso. E a\u00ed a gente n\u00e3o se deu conta ainda de que povo somos, Jo\u00e3o. A gente n\u00e3o consegue perceber quais s\u00e3o as nossas ra\u00edzes, e qual \u00e9 a nossa hist\u00f3ria. Temos esse medo de visitar a hist\u00f3ria, o passado, porque n\u00e3o queremos ligar com a verdade. A verdade que eu falo que a gente tenta escapar dela o tempo todo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Essa quest\u00e3o da identidade cultural ao falar de jazz se destaca como junto aos seus alunos?<\/strong><br \/>\nSempre digo aos meus alunos: &#8220;Se voc\u00ea quiser tocar jazz como aquele que toca nos Estados Unidos, porque \u00e9 bonito, porque \u00e9 bacana, voc\u00ea pode conseguir. Voc\u00ea vai l\u00e1, adentrar na cultura, vai aprender, vai para a escola, que vai te dizer como \u00e9 que se improvisa, como \u00e9 que se deve fazer para tocar aquela escala, aquele harpejo, aquele acorde. Mas n\u00e3o sei se voc\u00ea vai conseguir ser voc\u00ea mesmo. N\u00e3o sei se voc\u00ea vai conseguir ter um discurso seu. N\u00e3o sei se voc\u00ea vai conseguir entrar naquela cultura como voc\u00ea espera entrar. Talvez seja um caminho voc\u00ea se servir daquela cultura, mas sendo voc\u00ea. Voc\u00ea n\u00e3o vai fazer aquilo do jeito que eles fazem, porque foi um processo muito longo para que eles chegassem at\u00e9 ali. Voc\u00ea n\u00e3o pertence. Voc\u00ea pode absorver como um viajante que vai para um lugar novo e absorve tudo que ele pode, o m\u00e1ximo que d\u00e1. E aquilo n\u00e3o \u00e9 suficiente para mudar quem voc\u00ea \u00e9&#8221;. Ent\u00e3o, Jo\u00e3o, n\u00e3o tem jeito. Qualquer coisa que eu fizer, da cultura do outro, por gostar, por apreciar, por respeitar, tudo que eu fizer vai ter sempre um DNA de um brasileiro. Porque fiz quest\u00e3o de assumir essas posses dessa cultura. E isso reflete um pouco nesses meus encontros com tantas coisas diferentes. \u00c9 uma necessidade. No momento em que me percebi brasileiro, que tinha todas essas quest\u00f5es que falei antes por detr\u00e1s, pensei comigo, conscientemente, pensei que eu queria tomar p\u00e9 disso. Eu queria ter contato com isso, eu queria assumir como meu tudo o que havia chegado para mim. Seja o que chegou da educa\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica, a escola, o que eu ouvia no r\u00e1dio, qual era a rela\u00e7\u00e3o na rua, as brincadeiras. Pensei: &#8220;Isso aqui \u00e9 o meu universo. Preciso me apropriar disso para poder me colocar, para poder ser quem eu sou&#8221;. E me perguntei: &#8220;O que temos aqui no aspecto cultural relacionado \u00e0 m\u00fasica que eu preciso me apoderar?&#8221; E a\u00ed foi chegando. A minha necessidade de estar nesses lugares todos, \u00e9 uma maneira de dizer: &#8220;Estou me apropriando da minha cultura, do meu povo e eu s\u00f3 serei eu se tiver a posse dessas coisas. Elas v\u00e3o me definir&#8221;. N\u00e3o vejo outra maneira de me colocar. J\u00e1 tive alguns embates com colegas por causa disso. Mas parei de querer discutir essas ideias porque, tamb\u00e9m, tinha que respeitar o que o outro pensa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como \u00e9 estar em v\u00e1rias frentes distintas dentro do campo musical? Vasta experi\u00eancia com artistas baianos de diversos estilos, presen\u00e7a na OSBA, carreira acad\u00eamica, todo esse contato com a cultura musical brasileira, e, claro, com as experimenta\u00e7\u00f5es do jazz.<\/strong><br \/>\nVou te falar. Algumas pessoas dizem: &#8220;Ah, voc\u00ea entrou porque ganha mais dinheiro, porque ganha mais proje\u00e7\u00e3o&#8221;. Cara, \u00e9 porque eu preciso disso (que entrei). Se fosse m\u00fasico somente de orquestra sinf\u00f4nica, tocando repert\u00f3rio de m\u00fasica de concerto, europeia ou brasileira, qualquer que seja, pode ter certeza que eu seria uma pessoa infeliz. Se fosse somente um chor\u00e3o, que tocava somente Choro, eu ia ser muito infeliz. Se fosse obrigado a tocar jazz somente e improvisar, eu ia ficar infeliz demais. Porque n\u00e3o d\u00e1. N\u00e3o posso ser uma coisa s\u00f3. N\u00e3o posso me vestir com um \u00fanico tipo de roupa, n\u00e3o posso comer somente uma comida. N\u00e3o posso falar e escrever somente o portugu\u00eas mais formal porque preciso disso na universidade. E com isso n\u00e3o poder falar g\u00edrias, n\u00e3o poder falar o baian\u00eas. Eu preciso disso tudo porque tudo isso sou eu. Como \u00e9 que eu vou negar agora? Estou h\u00e1 34 anos em Salvador, na Bahia, como vou negar que isso vai se expressar em mim de alguma forma? N\u00e3o d\u00e1! Como \u00e9 que ou\u00e7o um trio p\u00e9 de serra tocando bai\u00e3o? Eu vou reger aquilo? Uma orquestra de frevo tocando maracatu? Um carimb\u00f3. Um Pinduca, l\u00e1 do Par\u00e1, cantando: &#8220;O pinto quando nasce, ele dorme debaixo da m\u00e3e&#8221;. Voc\u00ea quer que eu n\u00e3o reaja a isso? Voc\u00ea est\u00e1 louco? Se eu ou\u00e7o uma toada do centro-oeste, voc\u00ea acha que eu n\u00e3o vou reagir \u00e0quilo? Est\u00e1 louco? Como assim? Ent\u00e3o, Jo\u00e3o, isso tudo \u00e9 meu. S\u00e3o posses minhas. Inalien\u00e1veis. N\u00e3o abro m\u00e3o. Porque n\u00e3o serei, n\u00e3o consigo me fazer existir, representar, se eu n\u00e3o estiver de posse desse material. A\u00ed voc\u00ea me quebra totalmente se disser que daqui para frente s\u00f3 vou poder tocar um estilo. Ah, ent\u00e3o terei que fazer outra coisa. Vai doer. Ent\u00e3o, para mim, tem funcionado assim. E hoje, j\u00e1 estou desacelerando um pouquinho, por v\u00e1rios motivos. Hoje, digo para voc\u00ea, ainda acho que tenho pouco para realizar, mas j\u00e1 posso dizer que me realizei com a m\u00fasica. Ela j\u00e1 me deu um sentido na minha vida. Posso ter outras representa\u00e7\u00f5es, como o Joatan professor, Joatan filho, Joatan pai, Joatan cidad\u00e3o. S\u00e3o v\u00e1rias representa\u00e7\u00f5es sociais. Mas posso ter outros sentidos na vida. Um religioso, v\u00e1rios outros. Mas esse \u00e9 um sentido na minha vida. Eu n\u00e3o sou um m\u00fasico. Eu sou um servo da m\u00fasica. Quando o terapeuta perguntou para mim: &#8220;Qual Joatan voc\u00ea define primeiro? Qual o primeiro que salta?&#8221; Eu falei: &#8220;O m\u00fasico&#8221;. Ele vem, Jo\u00e3o, antes de qualquer coisa. Mas \u00e9 a m\u00fasica, sabe? Eu n\u00e3o sou somente o trompetista, o executante do instrumento. Eu sou essa coisa toda. Tenho uma sacola de percuss\u00e3o, um viol\u00e3o, vou comprar um teclado. Tudo isso sou eu. \u00c9 um monte de coisa. Um monte de m\u00fasicas. Um monte de instrumentos. Um monte de express\u00f5es. Ent\u00e3o, \u00e9 mais ou menos assim como eu me defino. Nesse aspecto das coisas que eu fiz, elas eram necessidades. Elas eram um material que eu precisava tomar posse para me definir e completar esse processo. Do momento em que eu recebi essas informa\u00e7\u00f5es, e que ainda estou recebendo at\u00e9 hoje, da maneira como eu enxergo cada uma delas, e me vejo nelas. Esse aqui \u00e9 um material que eu preciso assumir para mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como a Bahia se apresentou a voc\u00ea musicalmente, quando voc\u00ea decidiu viver aqui?<\/strong><br \/>\nLembro quando eu vi, pela primeira vez, o Samba Reggae, ainda em Macei\u00f3, no Globo de Ouro, Ger\u00f4nimo cantando &#8220;Eu Sou Neg\u00e3o&#8221;. Muito bem. Aquilo foi impactante. Mas eu era muito novo. E na minha cabe\u00e7a, naquela \u00e9poca, foi aquele impacto que ficou. Quando eu j\u00e1 morava em Salvador, eu estava indo na rodovi\u00e1ria comprar passagem para ir a Macei\u00f3. A\u00ed toca no r\u00e1dio do \u00f4nibus &#8220;Fara\u00f3&#8221;. Meu amigo, quando ouvi aquela percuss\u00e3o do samba-reggae, fiquei enlouquecido, encantado. Me senti em um caldeir\u00e3o, que estava em uma panela gigante de coisas acontecendo. Entrei de cabe\u00e7a para absorver o que a cidade de Salvador me colocou. E na medida que eu tinha oportunidade para trabalhar nas cidades do interior, a\u00ed que a coisa pega. Voc\u00ea vai enxergando tanta coisa. Foi uma necessidade de me entender, e de me definir. Essa defini\u00e7\u00e3o do que \u00e9 ser brasileiro. Utilizo isso na vida para, tamb\u00e9m, me manifestar nesses bra\u00e7os todos onde posso atuar. E dando aulas hoje, me nego a ser um professor que apenas d\u00e1 o conte\u00fado aos alunos. E parece que tem funcionado \u00e0 medida que quase todos, quando chegam no recital de gradua\u00e7\u00e3o, na hora de formar, mencionam esse fato. De que nas nossas aulas falamos sobre vida. Sobre aspectos gerais da vida e de como n\u00f3s, como instrumentistas e m\u00fasicos, nos encaixamos nisso. Qual o papel da gente? O que se espera de a\u00e7\u00f5es ou de posi\u00e7\u00f5es de um artista. Algu\u00e9m que teve o privil\u00e9gio de cursar uma universidade. De que forma queremos ser vistos? Me lembro de quando a gente viajava em grupos de muita gente, eu chamava os meninos e perguntava: &#8220;Que imagem voc\u00eas querem passar do Brasil l\u00e1 fora?&#8221; Posso garantir a voc\u00eas que a nossa imagem n\u00e3o \u00e9 boa, j\u00e1 viajei bastante, j\u00e1 vi. Tenho N exemplos de pessoas que ficaram chocadas pela forma como se construiu a imagem do brasileiro l\u00e1 fora. Ent\u00e3o, sempre perguntava, seja com a Rumpilezz, ou com a Timbalada, de que forma quer\u00edamos ser vistos l\u00e1 fora. Porque a alegria \u00e9 uma coisa boa. Mas ela tem um ponto. Depois daquele ponto da alegria, ela vira baderna. Vira algo que \u00e9 demais. Um conceito que eu gosto de carregar: Voc\u00ea pode usar aquilo, se servir daquilo, mas n\u00e3o pode virar servo daquilo. Ent\u00e3o, voc\u00ea se serve da alegria, mas ela n\u00e3o pode passar de um ponto que come\u00e7a a doer, trazer dor. Acho que foi uma necessidade de assumir quem eu era, de assumir esse material. E, a partir da\u00ed, me expressar. Acho que mais ou menos foi isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tem uma fase preferida de Miles Davis?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o tenho n\u00e3o. Fiz uma playlist de Miles aqui, e tem tudo dele. Gosto de tudo. Agora, vou ser sincero a voc\u00ea. Ainda estou estudando essa fase do final do anos 1960 e come\u00e7o dos anos 1970, essa fase mais misturada com o rock. Ainda estou absorvendo. Acho que ele tem material demais, conceito demais. N\u00e3o \u00e9 apenas a est\u00e9tica da m\u00fasica. Ali tem coisas muito profundas que precisam ser ouvidas com muita calma. Com muita paci\u00eancia. Porque o conforto da harmonia, o conforto da forma musical, o conforto da melodia, \u00e9 uma coisa que a gente j\u00e1 domina. Mas quando voc\u00ea come\u00e7a a romper com essas coisas, \u00e9 preciso que voc\u00ea compreenda aquilo antes de voc\u00ea rejeitar. Ent\u00e3o, muita gente rejeita Miles nessa fase porque n\u00e3o consegue enxergar aquele conforto que elas sentiam nas outras fases. \u00c9 complicado. \u00c9 como se voc\u00ea precisasse de um processo de forma\u00e7\u00e3o de plateia. Fico sempre dizendo. Imagine um cara que nunca entrou no Teatro Castro Alves. Sempre teve vontade. Todo dia, ele para ali no ponto de \u00f4nibus e se pergunta quando vai entrar nesse lugar. Um dia ele consegue ir assistir a um concerto a Orquestra Sinf\u00f4nica da Bahia. Se estiver tocando uma pe\u00e7a contempor\u00e2nea dessas de hoje, que tem n\u00e3o s\u00f3 notas, mas ru\u00eddos e pancadas, etc, se ele tiver essa experi\u00eancia de cara e n\u00e3o for um cara especial para dizer: &#8220;Poxa, tem valor isso a\u00ed&#8221;, ele n\u00e3o volta nunca mais. Ele n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem refer\u00eancias daquilo. O que ele ouve no r\u00e1dio, o que ele consome no dia a dia, \u00e9 muito diferente daquilo. Ali rompe demais o entendimento dele. Ent\u00e3o, esses compositores mais modernos, de (Arnold) Schoenberg pra c\u00e1, esses compositores europeus dilu\u00edram a m\u00fasica. Para voc\u00ea desconstruir uma coisa, \u00e9 preciso que voc\u00ea saiba muito dela, porque voc\u00ea pode estar destruindo ao inv\u00e9s de desconstruir. S\u00e3o duas coisas diferentes. Ent\u00e3o, esses caras fizeram isso com uma m\u00fasica. Fizemos uma an\u00e1lise em uma mat\u00e9ria aqui no doutorado de uma pe\u00e7a chamada &#8220;Pierrot Lunaire&#8221;, de Schoenberg. Quando voc\u00ea ouve, \u00e9 uma estranheza. Mas quando eu peguei a partitura com o professor na turma e come\u00e7amos a analisar, tudo estava ali muito bem colocado. Tudo se explicava. Depois disso, eu fui ouvir \u201cPierrot Luaire\u201d e a coisa fez um sentido incr\u00edvel. \u00c9 aquela coisa do cara dizer que n\u00e3o vai consumir isso. Bom, gosto n\u00e3o se discute. Mas se refina. A gente pode refinar o gosto. Ent\u00e3o, um processo de cria\u00e7\u00e3o de plateia seria bom. Voltando para o Miles, \u00e9 isso. Estou estudando essa m\u00fasica de Miles desses anos a\u00ed. N\u00e3o porque quando a ou\u00e7o, eu a rejeito ou coisa do tipo. Eu quero assimilar mais. Quero ouvir e entender mais. Quando voc\u00ea fala dessa coisa da influ\u00eancia da m\u00fasica espanhola e indiana em algumas faixas de Miles, e por mais que a gente traga essas outras coisas, elas est\u00e3o ali mas, talvez, n\u00e3o estejam t\u00e3o \u00f3bvias. Ali, h\u00e1 mensagens que talvez estejam t\u00e3o \u00f3bvias. Ent\u00e3o, \u00e9 preciso parar e entender aquilo. Tem uma apresenta\u00e7\u00e3o dele na Ilha de Wight, na Inglaterra, em que ele toca apenas uma m\u00fasica. Um festival onde Gil e Caetano estavam, tamb\u00e9m. Nos anos 1970. Ele entra e faz uma m\u00fasica com 28 minutos. Acaba a m\u00fasica e ele sai do palco. O show dele foi aquilo ali. \u00c9 algo t\u00e3o bonito de se assistir. E voc\u00ea observar o processo criativo, da forma como eles se comunicavam, se olhavam. Da maneira como cada um contribu\u00eda e contribuiu. Quando eu assisti \u00e0quilo, eu fiquei aqui em casa assim absorto. Uma coisa incr\u00edvel. Ao final, aparece ele saindo do palco, meio que olhando para o p\u00fablico, dando tchau. Eu s\u00f3 pude pensar: &#8220;Esse cara \u00e9 um g\u00eanio. \u00c9 uma coisa para al\u00e9m do trivial&#8221;. Muuuuito al\u00e9m do trivial.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Complete performance: Schoenberg&#039;s Pierrot lunaire\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/bd2cBUJmDr8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Miles Davis Live At The Isle Of Wight Festival 1970-08-29\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/YEI8O_wnA6c?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Live Instrumento da OSBA | Joatan Nascimento | Trompete | #ArquivoDasLives\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/vdbPSRwqog4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em 28 de setembro de 1991, Miles Davis morreu devido a um acidente vascular cerebral. Dois meses antes, em 08 de julho, fazia sua \u00faltima apari\u00e7\u00e3o tocando antigos cl\u00e1ssicos no famoso Montreux Jazz Festival. \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/09\/30\/especial-30-anos-sem-miles-davis-trompetista-joatan-nascimento-fala-sobre-trajetoria-e-legado-de-miles\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":62478,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[5333,786],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62477"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=62477"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62477\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":62676,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62477\/revisions\/62676"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/62478"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=62477"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=62477"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=62477"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}