{"id":62082,"date":"2021-08-26T01:13:28","date_gmt":"2021-08-26T04:13:28","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=62082"},"modified":"2022-04-30T10:16:16","modified_gmt":"2022-04-30T13:16:16","slug":"cinema-40-anos-sem-glauber-rocha-vitima-de-uma-doenca-chamada-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/08\/26\/cinema-40-anos-sem-glauber-rocha-vitima-de-uma-doenca-chamada-brasil\/","title":{"rendered":"Cinema: 40 anos sem Glauber Rocha, v\u00edtima de uma doen\u00e7a chamada Brasil"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Glauber Rocha, o mais importante dos cineastas brasileiros, morreu cedo. Partiu com apenas 42 anos de idade, h\u00e1 40 anos, em 22 de agosto de 1981. Clinicamente, foi v\u00edtima de complica\u00e7\u00f5es decorrentes de s\u00e9rios problemas pulmonares que se agravaram durante sua estadia em Portugal naquele mesmo per\u00edodo. Sua m\u00e3e, Dona L\u00facia Rocha, por\u00e9m, tinha uma opini\u00e3o diferente sobre a causa da morte do rebento. \u201cMeu filho n\u00e3o morreu de doen\u00e7a. Ningu\u00e9m me convence. Ele n\u00e3o estava doente. Ele morreu de tristeza. N\u00e3o tenho medo de publicar isso em jornal: meu filho morreu de Brasil&#8221;, disse a matriarca em entrevista publicada na Folha de S\u00e3o Paulo h\u00e1 25 anos, em 1996.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dona L\u00facia faleceu em 2014, aos 94 anos, lutando para manter preservado o legado do filho atrav\u00e9s do \u201cTempo Glauber\u201d, espa\u00e7o que ficava localizado no Rio de Janeiro e onde manteve o acervo do cineasta durante anos. Por falta de suporte financeiro, infelizmente foi fechado em 2017. Os riqu\u00edssimos objetos, como cartazes originais e croquis desenhados por Glauber e Rog\u00e9rio Duarte (que assina a arte do p\u00f4ster de \u201cDeus e o Diabo na Terra do Sol\u201d, de 1964), al\u00e9m de xilografias de Caryb\u00e9 e desenhos de Calazans Neto, bem como a biblioteca do cineasta baiano e documentos hist\u00f3ricos, foram transferidos para um galp\u00e3o da Cinemateca Nacional, em S\u00e3o Paulo. O local, como bem sabemos, pegou fogo recentemente. Dona L\u00facia n\u00e3o teve o desgosto de ver incendiado parte do acervo que custou a preservar por anos. N\u00f3s, no entanto, tivemos. Em resumo: a doen\u00e7a Brasil ainda se alastra, queimando Hist\u00f3ria e futuro, mesmo tantos anos ap\u00f3s levar embora o cineasta que dirigiu \u201cTerra em Transe\u201d (1967).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"P\u00e1tio, de Glauber Rocha (1959)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/k9iigOPzShk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">G\u00eanio precoce, Glauber teve uma hist\u00f3ria intensa e breve. Nascido em Vit\u00f3ria da Conquista em 1939, migrou para Salvador nos anos 1950. Logo no come\u00e7o de sua vida acad\u00eamica na capital baiana, abandonou o curso de Direito para se dedicar ao Cinema. Ap\u00f3s isso, atuou como cr\u00edtico e jornalista, iniciando sua carreira como diretor aos 20 anos de idade com o curta \u201cO P\u00e1tio\u201d (1959), filme com influ\u00eancias do movimento concretista brasileiro, bem como do cinema sovi\u00e9tico e do expressionismo alem\u00e3o. Aos 21 anos, lan\u00e7ou outro marco, \u201cCruz na Pra\u00e7a\u201d (1960), tamb\u00e9m um curta-metragem. Em 1962, aos 23 anos, finaliza seu primeiro longa, \u201cBarravento\u201d, filme exibido na Europa e no Festival de Cinema de Nova York. Em 1963, dirige sua primeira obra-prima, \u201cDeus e o Diabo na Terra do Sol\u201d, que, quando lan\u00e7ado em 1964, o levou a concorrer \u00e0 Palma de Ouro em Cannes. N\u00e3o que todas essas nomea\u00e7\u00f5es e l\u00e1ureas lhe importassem algo. Glauber estava interessado em um cinema n\u00e3o de premia\u00e7\u00f5es e glamour, mas como for\u00e7a de uma express\u00e3o pol\u00edtica, de reflex\u00e3o, e que viesse a traduzir um Brasil a fugir de inger\u00eancias imperialistas e das for\u00e7as manipuladoras diante da f\u00e9 de seu povo. Foi com essa for\u00e7a que \u201cDeus e o Diabo na Terra do Sol\u201d pavimentou a estrada do Cinema Novo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Glauber Rocha- Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964)- [Multi Subs]\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/RyTnX_yl1bw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conquistense n\u00e3o teve em vida, no entanto, todo o reconhecimento que merecia. No come\u00e7o da d\u00e9cada de 1970, durante os anos de chumbo do autoritarismo da podre ditadura militar, deixou o Brasil, se exilando no Chile e, em seguida, em Cuba. Filma neste per\u00edodo \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=4fVfSysNKoM\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Le\u00e3o de Sete Cabe\u00e7as<\/a>\u201d (1970), rodado no Congo, al\u00e9m de \u201cCabe\u00e7as Cortadas\u201d (1970), filmado em Barcelona, trabalho que ele mesmo chamou de \u201ccontinua\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica de \u2018Terra em Transe\u2019\u201d. Retornou ao pa\u00eds em 1976, quando filmou um document\u00e1rio sobre Di Cavalcanti utilizando o vel\u00f3rio do artista pl\u00e1stico como pano de fundo. Nesse per\u00edodo tamb\u00e9m iniciou a produ\u00e7\u00e3o daquele que viria a ser seu \u00faltimo filme, \u201cIdade da Terra\u201d, de 1980. J\u00e1 com sua sa\u00fade fr\u00e1gil, Glauber seguiu para Portugal em 1981 afirmando que aquele seria seu segundo e final ex\u00edlio, o que confirmava algo que dissera na adolesc\u00eancia, quando chegou a escrever que morreria aos 24 anos, mesma idade da morte de Castro Alves. Viveu mais tempo, alcan\u00e7ando o n\u00famero inverso, 42, quando foi vitima da causa mortis que dona L\u00facia pontuou no seu desabafo pela perda do filho.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Glauber Rocha- Terra em Transe (1967)- [Multi Subs]\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/OqgnXHvy9L0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sua filmografia, os momentos ic\u00f4nicos e simbolismos s\u00e3o diversos. Um deles est\u00e1 na intensidade da tempestade e das mar\u00e9s de \u201cBarravento\u201d, em uma representa\u00e7\u00e3o da for\u00e7a da natureza a levar aquelas pessoas litor\u00e2neas adiante, desafiando os maus tratos da vida, tal qual faz Firmino, personagem de Antonio Pitanga no longa. Na rima certeira com um pa\u00eds que parece fadado a repetir os mesmo erros, um momento de \u201cTerra em Transe\u201d ecoa forte em uma revisita ao filme. \u00c9 quando Paulo, jornalista e poeta interpretado por Jardel Filho, profere aquela que seria uma das mais marcantes linhas do cl\u00e1ssico de Glauber, e que define plenamente o elo entre a fict\u00edcia Eldorado de 1967, e o triste e, infelizmente, real Brasil de 2021. Em uma mescla de f\u00faria e desesperan\u00e7a, Paulo brada que \u201cn\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel esta festa de medalhas, este feliz aparato de gl\u00f3rias, esta esperan\u00e7a dourada nos planaltos, n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel essa marcha de bandeiras com guerra e Cristo na mesma posi\u00e7\u00e3o. Ah, assim n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel a ingenuidade da f\u00e9, a impot\u00eancia da f\u00e9\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fala \u00e9 proferida pelo homem no momento em que, mesmo quase abatido por policiais, Paulo segue em sua fuga ap\u00f3s perceber a fraqueza moral daquele que apoiara como representante, e a entender que seria apenas indo \u00e0s armas que poderia mudar algo da injusti\u00e7a social e mis\u00e9ria que assolavam Eldorado. \u201cN\u00e3o se muda a hist\u00f3ria com l\u00e1grimas\u201d, afirma ao ser lembrado pela companheira e ativista Sara, vivida por Glauce Rocha, do sangue consequente de uma guerra. Cristo e guerra na mesma posi\u00e7\u00e3o de influ\u00eancia pol\u00edtica da Eldorado fict\u00edcia se confundem com a perda da raz\u00e3o em nome de dogmas religiosos quando, em tempos atuais, se misturam Estado e cren\u00e7as pentecostais de forma a manipular opini\u00f5es e massacrar minorias. Os resultados parecem se repetir mesmo com mais de meio s\u00e9culo do lan\u00e7amento de \u201cTerra em Transe\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Drag\u00e3o da Maldade Contra o Santo Guerreiro (Filme completo\/full movie)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/xx_QFips7Ow?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme, que chegou a ser censurado no Brasil por ter sido considerado subversivo e desrespeitoso perante a igreja cat\u00f3lica como institui\u00e7\u00e3o, teve trajet\u00f3ria marcante em festivais como o de Cannes, no qual Glauber foi agraciado com o trof\u00e9u Luis Bu\u00f1uel e com o pr\u00eamio da cr\u00edtica, al\u00e9m de ter sido exibido em Locarno e no festival de Havana. Obra pilar da filmografia mundial, chegou a ser citado por cineastas como Martin Scorsese, que o definiu como algo que nunca tinha visto igual em sua combina\u00e7\u00e3o de estilos. O \u00edtalo-americano, al\u00e9m de diretor, \u00e9 preservacionista e criou a The Film-Foundation, organiza\u00e7\u00e3o dedicada \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o de diversas obras f\u00edlmicas oriundas de v\u00e1rias partes do mundo. \u201cA humanidade e a paix\u00e3o do filme eram muito poderosas. Eu fui dominado pela interpreta\u00e7\u00e3o visual e paix\u00e3o pol\u00edtica, especialmente no fim de \u2018Terra em Transe\u2019. Junto com \u2018Barravento\u2019 e \u2018Antonio das Mortes\u2019, s\u00e3o filmes que n\u00e3o saem da minha cabe\u00e7a e eu gosto de v\u00ea-los todo ano ou a cada dois anos\u201d, afirmou Scorsese em entrevista acerca da experi\u00eancia de se aprofundar na obra glauberiana, na qual se iniciou em uma mostra especial dedicada ao Cinema Novo no Museu de Arte Moderna de Nova York, ainda no final dos anos 1960.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto isso, no Brasil, tal poder cultural em sua forma f\u00edsica, mesmo com alertas constantes da necessidade de preserva\u00e7\u00e3o, incendeia-se. Mas trata-se de um poder intenso. Seu detentor e criador foi v\u00edtima desse mesmo pa\u00eds que n\u00e3o busca preserv\u00e1-lo, que deixa as chamas transformar em cinzas sua preciosidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a mesma tristeza que vitimou seu autor, a obra de Glauber persiste em um Brasil atual e dolorosamente terra em transe.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"MARTIN SCORSESE FALA SOBRE GLAUBER ROCHA\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/qHoqvvdQqkg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"FILME | Glauber \u2013 O Filme, Labirinto do Brasil, 2003\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/O1m0YQFrt5g?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"CHOQUE DE CULTURA #61: Glauber Rocha \u00e9 Bom?\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/yvaIrl2ncQg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Texto publicado originalmente no jornal\u00a0<a href=\"https:\/\/atarde.uol.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A Tarde<\/a>, de Salvador (BA)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>. A foto que abre o texto \u00e9 de <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/paula.gaitan1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Paula Gait\u00e1n<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Glauber Rocha morreu cedo. Partiu com apenas 42 anos de idade, h\u00e1 40 anos, em 22 de agosto de 1981. Clinicamente, foi v\u00edtima de complica\u00e7\u00f5es decorrentes de s\u00e9rios problemas pulmonares. 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