{"id":62054,"date":"2021-08-23T16:36:38","date_gmt":"2021-08-23T19:36:38","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=62054"},"modified":"2021-11-09T17:05:12","modified_gmt":"2021-11-09T20:05:12","slug":"entrevista-leilah-e-letrux-falam-do-podcast-taradas-por-letras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/08\/23\/entrevista-leilah-e-letrux-falam-do-podcast-taradas-por-letras\/","title":{"rendered":"Entrevista: Le\u00eflah e Letrux falam do podcast Taradas por Letras"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mercado dos podcasts musicais tem crescido de maneira exponencial no Brasil. Iniciativas como \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/show\/1TycD4CePdMhOIfG1JAzJ3\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Discoteca B\u00e1sica<\/a>\u201d (vencedor na categoria <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/01\/26\/scream-yell-melhores-podcasts-de-2020\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Melhor Podcast dos Melhores do Ano Scream &amp; Yell 2020<\/a>), \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/show\/5zhQspMKfip2ZdhWJ4bJoa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Papo \u00e9 Pop<\/a>\u201d e o \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/04\/07\/entrevista-rodrigo-correa-fala-do-podcast-balanco-e-furia-e-da-editora-sobinfluencia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Balan\u00e7o e F\u00faria<\/a>\u201d s\u00e3o bons exemplos de projetos que guardam em comum \u00f3timas curadorias e boas hist\u00f3rias. Mas entre formatos consolidados e o malfadado mais do mesmo, volta e meia, surgem iniciativas que rompem com o tradicionalismo, apostando no inovador e no inusitado. \u00c9 o caso do \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/show\/2T75w1GFdvq1UPJMC7ELFd\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tarada por Letras<\/a>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Protagonizado por Let\u00edcia Novaes, a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/04\/14\/musica-letrux-aos-prantos-e-leticia-novaes-ainda-mais-letrux\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Letrux<\/a> (cantora, escritora e atriz), e Le\u00eflah (escritora, jornalista e designer), no podcast a dupla conversa sobre letras de m\u00fasica, entrecortando o papo com hist\u00f3rias pessoais comoventes \/ divertidas e muita informa\u00e7\u00e3o sobre os artistas homenageados. Can\u00e7\u00f5es como \u201cUns Dias\u201d (Paralamas do Sucesso), \u201cMiracle\u201d (Jon Bon Jovi) e \u201cBlack\u201d (Pearl Jam) servem como fio condutor para o epis\u00f3dio de estreia, lan\u00e7ado em agosto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Letrux afirma que as letras \u201cparecem feitas sob medida para expressar o que as pessoas querem dizer pra elas mesmas, nas suas rela\u00e7\u00f5es, pra se entenderem\u201d. E conta: \u201cFico impressionada com como tantos versos de letras minhas viraram tatuagem em f\u00e3s. Sempre tive muita curiosidade pelo universo l\u00edrico de artistas que acompanho, a letra sempre foi um componente fundamental pra eu me sintonizar com a m\u00fasica e fico muito grata por perceber que minhas pr\u00f3prias letras movem tanto as pessoas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Le\u00eflah, por sua vez, enxerga no \u201cTaradas por Letras\u201d a oportunidade de atingir e unir diferentes gera\u00e7\u00f5es em torno de mensagens de letras nas mais diversas \u00e9pocas e em diferentes g\u00eaneros e estilos, al\u00e9m de contribuir para a preserva\u00e7\u00e3o dessa mem\u00f3ria cultural. \u201cFico me perguntando se daqui a algumas d\u00e9cadas citaremos memes como citamos letras\u201d. E ainda: \u201cAssim como os memes, as letras se infiltram nos nossos di\u00e1logos todos os dias, ou mais que isso, ajudam a gente a criar e identificar a narrativa das nossas vidas, ou at\u00e9 mesmo a vivermos uma hist\u00f3ria, s\u00e3o realmente parte do imagin\u00e1rio coletivo ao mesmo tempo em que s\u00e3o t\u00e3o pessoais\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista abaixo, Le\u00eflah e Letrux falam sobre forma\u00e7\u00e3o musical, o processo de cria\u00e7\u00e3o do podcast, as composi\u00e7\u00f5es de ontem e de hoje, o papel da m\u00fasica na atualidade, compositores favoritos, planos futuros e mais. Confira!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Spotify Embed: Taradas Por Letras\" width=\"100%\" height=\"232\" allowtransparency=\"true\" frameborder=\"0\" allow=\"encrypted-media\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/show\/2T75w1GFdvq1UPJMC7ELFd\"><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Primeiramente queria dar o meu depoimento: ao ouvir o primeiro epis\u00f3dio, fui diretamente transportado para a minha adolesc\u00eancia, per\u00edodo crucial em que o rol\u00ea do fim de semana era ir para a casa de algum amigo ouvir, discutir e analisar m\u00fasica. E em seus mais variados g\u00eaneros e formatos (k7, cd, vinil&#8230;). Nesse sentido como se deu a forma\u00e7\u00e3o musical de voc\u00eas? Em que momento a rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica se tornou essencial?<\/strong><br \/>\nLe\u00eflah: Obrigada por compartilhar sua hist\u00f3ria, isso est\u00e1 rolando muito nos feedbacks que estamos recebendo sobre o primeiro epis\u00f3dio, tem muita gente comentando que ficou conversando com a gente enquanto ouvia o programa e \u00e9 exatamente esse o efeito que a gente quer causar, que as pessoas se sintam nossas amigas e dividam suas experi\u00eancias <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/taradasporletras\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">pelo nosso canal no Instagram<\/a>, porque mais que an\u00e1lise de letra, estamos fazendo uma esp\u00e9cie de an\u00e1lise coletiva, an\u00e1lise no sentido de terapia, mesmo. Minha forma\u00e7\u00e3o musical come\u00e7a com meu pai, que era alucinado por rock progressivo, p\u00f3s-punk, especialmente o mais dark, e new wave, l\u00e1 nos anos 80. Ent\u00e3o, posso dizer que a m\u00fasica \u00e9 essencial na minha vida desde o ber\u00e7o, quando eu era ninada com discos do Genesis, Renaissance, ELP, Yes, Pink Floyd e Le Orme, que formavam o pante\u00e3o sagrado do meu pai. Mas em 1986 \u00e9 dado um grande e definitivo passo quando ele compra o primeiro videocassete e come\u00e7amos a gravar videoclipes. Eu era uma menininha de sete anos e j\u00e1 fascinada pelas interpreta\u00e7\u00f5es visuais das m\u00fasicas, mas poder t\u00ea-las registradas me marcou muito e ampliou minha rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica, especialmente, quando vi uma certa artista chamada Madonna, que provou pra mim que uma mulher podia estar no comando. Era incr\u00edvel ter um pai que varava madrugadas gravando clipe comigo, afinal, um dos programas mais interessantes e longos tamb\u00e9m, daquela \u00e9poca, era o Skretch, no ar da meia-noite \u00e0s 4 da manh\u00e3, e que, curiosamente, passava no canal 9, que veio a se tornar poucos anos depois, a MTV Brasil na sua primeira encarna\u00e7\u00e3o em VHF. Ali, comecei a estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima com a cena BRock, ao ver clipes de Lob\u00e3o, Legi\u00e3o Urbana, Marina, Capital Inicial, Camisa de V\u00eanus, Biqu\u00edni Cavad\u00e3o etc. Profundamente impactada pelo clipe de &#8220;Tempo Perdido&#8221;, da Legi\u00e3o, que \u00e9 uma colagem reverente a grandes \u00edcones mortos do rock. Pedi de anivers\u00e1rio de oito anos, o \u00e1lbum que tem essa can\u00e7\u00e3o, o \u201cDois\u201d, e, em uma semana, devorei o encarte e sabia todas as letras. Agora, imagina uma crian\u00e7a cantando toda sentida, \u201caquele gosto amargo do teu corpo ficou na minha boca por mais tempo\u201d! Em 1993, com a MTV j\u00e1 consolidada no Brasil, e eu, uma adolescente com gosto j\u00e1 formado, passo a tomar a dianteira e mostrar o que est\u00e1 acontecendo pro meu pai e n\u00e3o o contr\u00e1rio. \u00c9 nessa altura que nossa cole\u00e7\u00e3o de discos se expande em novas dire\u00e7\u00f5es com bandas como R.E.M., Bon Jovi, Smashing Pumpkins, Suede, Hole, Cranberries, entre tantas e tantas outras, e um programa chamado Lado B, do grande jornalista, radialista e escritor, F\u00e1bio Massari, come\u00e7a a mudar minha vida, ao me fazer entrar em contato com a dita cena alternativa. Pra completar, uma m\u00edtica loja de discos que ficava no Posto 6, no Rio, onde fui criada, chamada Satisfaction, entra na minha rota, tamb\u00e9m via meu pai, e ali pod\u00edamos encomendar discos internacionais dos medalh\u00f5es aos mais obscuros (\u00e0s vezes, levava seis meses pra um CD chegar). Aprendi muito sobre m\u00fasica com os donos da Satisfaction e pude ouvir muita coisa por l\u00e1, numa \u00e9poca em que n\u00e3o havia internet. Ent\u00e3o, eu sou uma cria cl\u00e1ssica do final do s\u00e9culo 20, resultado desse cruzamento do gosto do pai com televis\u00e3o e loja de discos do bairro.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Legi\u00e3o Urbana - Tempo Perdido (Video Clipe Official)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/SAlOfCg1F_E?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Letrux: Desde crian\u00e7a, meu pai e minha m\u00e3e me apresentaram muitas m\u00fasicas que ainda fazem parte da minha vida hoje em dia. Claro que tamb\u00e9m tive uma busca mais roqueira, que eles n\u00e3o transitavam muito. Tamb\u00e9m criei meus mundos, mas muita coisa vem desde sempre. Mas na adolesc\u00eancia acho que comecei a pesquisar mais, comprar revista de m\u00fasica, trocar ideia em blogs, e sem d\u00favida alguma, comecei a prestar mais aten\u00e7\u00e3o nas letras das m\u00fasicas. Virou um div\u00e3 quando ainda n\u00e3o tinha onde deitar (risos). M\u00fasica sempre foi essencial, eu s\u00f3 n\u00e3o tinha consci\u00eancia, porque nunca me faltou m\u00fasica, mas na adolesc\u00eancia percebi a catarse, a cura, a transforma\u00e7\u00e3o, o gozo, que uma m\u00fasica podia me causar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No primeiro epis\u00f3dio voc\u00eas trazem \u00e0 tona diversas impress\u00f5es a respeito de can\u00e7\u00f5es amorosas, num olhar intimista, confessional e, por que n\u00e3o, divertido de can\u00e7\u00f5es como &#8220;Uns Dias&#8221; (Paralamas do Sucesso), &#8220;Miracle&#8221; (Jon Bon Jovi) e &#8220;Black&#8221; (Pearl Jam). Ent\u00e3o a pergunta \u00e9: como se deu o processo de cria\u00e7\u00e3o do podcast e escolha por esse formato?<\/strong><br \/>\nLe\u00eflah: Um dia, no final de 2020, a Let\u00edcia chegou com essa ideia pra mim, \u201camiga, a gente fala tanto de letra e voc\u00ea tinha que ter um podcast (eu mando longos \u00e1udios pra amigues) porque manda bem nisso, vamos fazer algo nessa dire\u00e7\u00e3o?\u201d. Da\u00ed, gravamos o primeiro piloto no final de fevereiro, apresentamos para um novo player no mercado, que gostou muito, mas s\u00f3 viu espa\u00e7o pra nos colocar na grade no ano que vem. Algum tempo depois, entramos em contato com o Spotify e tamb\u00e9m n\u00e3o rolou de imediato, at\u00e9 que a Anchor, plataforma de cria\u00e7\u00e3o de programas com m\u00fasica, que foi adquirida em abril pelo Spotify, sacou que o Taradas seria perfeito para uma nova feature a ser lan\u00e7ada em agosto pela plataforma de streaming, chamada M\u00fasica &amp; Papo. Essa feature aposta num formato inovador que entremeia can\u00e7\u00f5es na \u00edntegra com coment\u00e1rios de experts e caiu como uma luva na nossa proposta que, sem essa possibilidade da m\u00fasica tocar inteira, estava mais na veia de um sarau, com a gente lendo estrofe a estrofe das letras e comentando em cima. Estamos felizes pela oportunidade de atuar como ponta-de-lan\u00e7as num formato vanguardista de consumo de \u00e1udio. A quest\u00e3o do bate-papo tamb\u00e9m \u00e9 central e foi algo que fomos elaborando com o tempo, testando, porque Let\u00edcia e eu temos muita sinergia e complementamos bem os estilos uma da outra. Isso chamou a aten\u00e7\u00e3o da Anchor, que viu nessa descontra\u00e7\u00e3o e espontaneidade nossa, mas com muito conte\u00fado, um grande trunfo do programa, que n\u00e3o \u00e9 somente anal\u00edtico, pelo contr\u00e1rio, conta com muito storytelling, o que aproxima a audi\u00eancia e torna toda a experi\u00eancia muito intimista como voc\u00ea disse, ainda mais com as faixas tocando durante nosso di\u00e1logo. J\u00e1 teve gente dizendo \u201cque bom constatar, ao ouvir voc\u00eas, que ainda existe conversa no mundo\u201d. Adorei essa percep\u00e7\u00e3o porque a arte da conversa anda realmente e infelizmente, muito em baixa.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Black (Live) - MTV Unplugged - Pearl Jam\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/5ZH2it92ZmA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pensar na exist\u00eancia de um podcast sobre letras de m\u00fasicas me remeteu ao \u00e1lbum &#8220;Dan\u00e7-\u00eah-s\u00e1&#8221; do Tom Z\u00e9 que, em 2006, j\u00e1 falava num mundo &#8220;p\u00f3s-can\u00e7\u00e3o&#8221; e no &#8220;fim das letras&#8221;. De fato, n\u00e3o \u00e9 de hoje que se discute a qualidade l\u00edrica das can\u00e7\u00f5es. Neste embate, de um lado tem aquela galera purista que acha que a m\u00fasica contempor\u00e2nea \u00e9 ruim, malfeita, pregui\u00e7osa. Por outro lado, h\u00e1 aqueles que acham que n\u00e3o, que a qualidade das letras de outrora permanece viva. E a\u00ed: qual \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o de voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nLe\u00eflah: Eu mesma tenho refletido mais do que nunca sobre isso porque, apesar do primeiro tema \u2014 Amores Adolescentes \u2014 ter esse esp\u00edrito saudosista, o programa como um todo n\u00e3o ser\u00e1 assim, e quero muito que as minhas escolhas nele reflitam minha pr\u00f3pria experi\u00eancia com a m\u00fasica, que n\u00e3o \u00e9 a de algu\u00e9m que ficou parada no tempo, sabe? Sigo acompanhando tudo que sai, ou\u00e7o lan\u00e7amentos toda semana, adoro ouvir o que a m\u00fasica pop est\u00e1 dizendo, estou sempre em contato com as paradas, buscando entender as din\u00e2micas do sucesso, apesar do topo do meu gosto ser mais baseado em m\u00fasica esquisita, experimental, inovadora. Recha\u00e7o completamente essa tese de que a m\u00fasica contempor\u00e2nea \u00e9 ruim e essas balelas, a m\u00fasica nunca teve tanta complexidade e h\u00e1 discos bons e fant\u00e1sticos saindo a toda hora, mas a hiper-segmenta\u00e7\u00e3o e a facilidade de produ\u00e7\u00e3o complicaram e incharam um pouco o cen\u00e1rio, al\u00e9m de o rock n\u00e3o ser mais a principal fonte de ideias interessantes h\u00e1 um bom tempo. Acho que as pessoas sentem mais falta de hubs de curadoria de m\u00fasica, da coisa de ter programas mainstream que apontem quem merece ser ouvido e do reinado do rock, do que de boa m\u00fasica em si. Hoje, temos mais trabalho pra chegar no que mais nos interessa ouvir, \u00e9 fato. Nesse sentido, um programa como o pr\u00f3prio Taradas tem muito a contribuir porque atuamos como apresentadoras, e n\u00e3o, apenas podcasters, e sinaliza que h\u00e1 um movimento de retorno \u00e0 curadoria de m\u00fasica. Sobre letra, vejo muita gente fazendo boas letras no cen\u00e1rio internacional, hoje, especialmente no hip hop e posso citar de cara, Childish Gambino, Tyler The Creator e Kanye West. Temos no pop a Lana Del Rey, por exemplo, que \u00e9 tamb\u00e9m poeta, deitando a caneta com muita sensibilidade e muito plena no casamento de som e dic\u00e7\u00e3o. Na live que fizemos de lan\u00e7amento do projeto, Letrux recitou a letra inteira de \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ZlvfYmfefSI\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Not My Responsibility<\/a>\u201d do nov\u00edssimo disco da Billie Eilish, letra excelente, por sinal. No cen\u00e1rio portugu\u00eas contempor\u00e2neo (estou morando em Lisboa desde 2019), h\u00e1 letras formid\u00e1veis a cargo de bandas como <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/04\/11\/ao-vivo-capitao-fausto-no-cineteatro-capitolio-uma-comunhao-geracional\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Capit\u00e3o Fausto<\/a> e artistas como Vaiapraia, capaz de criar versos como \u201c100% Carisma, adrenalina em p\u00f3\/ O caramelo-de-macho derrete sempre no p\u00e3o-de-l\u00f3\/ Aquece outra vez a malga de m\u00e1goa\/ Atira-te outra vez pra po\u00e7os sem \u00e1gua (\u2026)\/ S\u00f3 me restam <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=DwACZxURook\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">as comidas do infinito<\/a>\u201d. Ou\u00e7o as r\u00e1dios de Lisboa e dou verdadeiros saltos com as letras que brotam do cen\u00e1rio pop e rock underground, \u00e9 um jorro de criatividade vibrante, sem medo, sem pudor. Mas no Brasil, que tem uma tradi\u00e7\u00e3o fenomenal em letra de m\u00fasica, percebo com muita dor no cora\u00e7\u00e3o uma decad\u00eancia da letra, sim. H\u00e1 um contexto de crise cultural e criativa, mais preocupa\u00e7\u00e3o com selfies e likes em rede social que com estofo po\u00e9tico e valores da mensagem, ado\u00e7\u00e3o de f\u00f3rmulas prontas e seguras e o pior, uma mis\u00e9ria material que desencoraja a experimenta\u00e7\u00e3o com a l\u00edngua, e um certo pavor ou vergonha da intelig\u00eancia que, infelizmente, n\u00e3o diz respeito s\u00f3 ao projeto contra-iluminista oficialmente em curso. Nesse cen\u00e1rio, uma letrista como a Letrux \u00e9 um diamante rar\u00edssimo. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que tantos versos dela s\u00e3o tatuados por f\u00e3s e que ela fazia um show chamado \u201cL\u00ednguas &amp; Poesias\u201d, focado no aspecto verbal da m\u00fasica. Dois talentos que ela tem, dos quais sinto muita falta na cena brasileira, s\u00e3o a capacidade de ser profunda com muita leveza, e de inserir nas suas letras com total naturalidade elementos do cotidiano aparentemente anti-l\u00edricos, o que provoca uma surpresa e traz conforto ao mesmo tempo. Eu queria ver mais gente se arriscando assim, sendo cronista de seu tempo \u2014 temos a Salma J\u00f4 do Carne Doce fazendo isso tamb\u00e9m \u2014 e hipnotizando multid\u00f5es e sendo festejada pela cr\u00edtica, como Renato e Cazuza foram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Let\u00edcia: Acho que minha posi\u00e7\u00e3o \u00e9 de que em toda \u00e9poca h\u00e1 coisas toscas e coisas boas sendo feitas. Claro que vivemos numa \u00e9poca mais assustadora do excesso da harmoniza\u00e7\u00e3o (facial e n\u00e3o musical, risos) e as preocupa\u00e7\u00f5es das pessoas anda mais no raso, ningu\u00e9m quer nadar onde n\u00e3o d\u00e1 p\u00e9. Eu me interesso. E eu gosto de coisa pop, eu me interesso, mas se a letra n\u00e3o me gera curiosidade e percebo que foi feita em cima do que est\u00e1 em voga, eu j\u00e1 sinto muita pregui\u00e7a. E eu prefiro ficar constrangida do que bocejar, sabe assim? Prefiro que uma m\u00fasica chegue ao ponto de me constranger, porque a\u00ed acho que significa alguma coisa, do que ela simplesmente me causar sono. H\u00e1 muitas pessoas fazendo m\u00fasica boa hoje em dia. H\u00e1 muitas pessoas fazendo m\u00fasicas p\u00e9ssimas hoje em dia. Acho que n\u00e3o tem fim.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Paralamas do Sucesso - Uns Dias (clipe original)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/AMVgbHhzb1E?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ao entrar na &#8220;dan\u00e7a&#8221; promovida pelo podcast me fez pensar nesta entrevista me remeteu ao hino &#8220;m\u00fasica para ouvir&#8221; do Arnaldo Antunes que aborda a multiplicidade de fun\u00e7\u00f5es e lugares que a m\u00fasica tem em si ou ocupa. Afinal, tem m\u00fasica para tudo mesmo? E ainda: qual o papel que a mesma desempenha na atualidade?<\/strong><br \/>\nLe\u00eflah: Tem m\u00fasica pra tudo, sem d\u00favida, e eu sou muito partid\u00e1ria da linha \u201clisten without prejudice\u201d como cunhou George Michael, que deu esse t\u00edtulo ao seu \u00e1lbum mais bem-sucedido. O quadro UmaLetraQ \u2014 que sempre far\u00e1 parte do 2\u00ba EP de cada tema do nosso programa, levando uma pessoa convidada a citar trechos de letras perfeitas para as mais variadas situa\u00e7\u00f5es que voc\u00ea possa imaginar \u2014 vai provar que, de fato, existe n\u00e3o s\u00f3 m\u00fasica como letra pra tudo nesta vida. Mas, numa an\u00e1lise mais intuitiva que racional, me parece que a m\u00fasica perdeu o peso sociocultural que teve at\u00e9 os anos 2010, o que talvez ajude a explicar a crise da letra no Brasil, por exemplo. Se ningu\u00e9m est\u00e1 prestando aten\u00e7\u00e3o, pra que(m) escrever, afinal? A crise da curadoria e da cr\u00edtica musical, a dispers\u00e3o e acelera\u00e7\u00e3o da mensagem promovidas pelas redes sociais tamb\u00e9m contribuem pra enfraquecer o rol\u00ea. Existia um circo est\u00e9tico erguido em torno da m\u00fasica, que envolvia revistas especializadas e cadernos culturais dos jornais, clipes na MTV, cenografia em shows, capas e encartes de disco, a pr\u00f3pria cultura do \u00e1lbum, que est\u00e1 em baixa, e esse circo favorecia que a m\u00fasica desempenhasse esse papel t\u00e3o proeminente na identidade cultural, que hoje, sem brincadeira, me parece estar sendo deslocado para o meme. A m\u00fasica invadiu a ind\u00fastria do entretenimento de tal forma que se tornou mais um acess\u00f3rio trendy a ser usado que a alma do neg\u00f3cio. Hoje, a m\u00fasica parece estar mais no fundo que na frente, e \u00e9 s\u00f3 pensar no quanto o TikTok tem sido fundamental pra dissemina\u00e7\u00e3o de m\u00fasica nova que isso pode ser graficamente comprovado. O ou a influencer que est\u00e1 ali dan\u00e7ando importa mais que a m\u00fasica que est\u00e1 servindo de base para aquela coreografia. Al\u00e9m desse culto \u00e0 individualidade, personificado por influencers, tem tamb\u00e9m a quest\u00e3o dessa individualiza\u00e7\u00e3o no consumo da m\u00fasica, o que est\u00e1 sendo piorado pela pandemia e o consequente isolamento, que est\u00e1 muito voltado para as plataformas de streaming e a sua l\u00f3gica de intelig\u00eancia artificial, que funciona muito bem, mas que, assim como se d\u00e1 com a rede social, restringe as pessoas aos mesmos percursos e paisagens e deixa-as presas num circuito viciado. Mas ao mesmo tempo em que penso nisso, penso tamb\u00e9m que talvez nunca tenhamos ouvido tanta m\u00fasica quanto hoje, gra\u00e7as a essa mesma l\u00f3gica. Nossas playlists eram muito mais repetitivas quando o consumo de m\u00fasica era limitado financeira e espacialmente pelas m\u00eddias f\u00edsicas. Ent\u00e3o, novamente, tendo a elaborar que a m\u00fasica n\u00e3o est\u00e1 menos presente, muito pelo contr\u00e1rio, ela est\u00e1 t\u00e3o presente, t\u00e3o constante que se tornou at\u00e9 um pouco banal, aquela coisa do efeito de trilha de fundo das nossas atividades mais que um statement, um mergulho, um gerador de conex\u00f5es emocionais e intelectuais profundas. A satura\u00e7\u00e3o da oferta tamb\u00e9m pode estar causando essa esp\u00e9cie de apatia dos ouvintes porque com um n\u00famero mais limitado de artistas onipresentes nos canais mais centralizadores de antes, ficava muito mais f\u00e1cil de se vincular emocionalmente e conhecer profundamente discos, can\u00e7\u00f5es e artistas. Agora, m\u00fasica \u00e9 rito coletivo, precisa ser celebrada em grupo, ganha corpo conforme se dialoga dentro de uma sociedade, ent\u00e3o, como ela vai sobreviver ao extremo individualismo da era das bolhas? Essa \u00e9 a provoca\u00e7\u00e3o que eu deixo aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Let\u00edcia: Sinto que h\u00e1 m\u00fasica para tudo. Enquanto compositora, nem penso na categoria que minha m\u00fasica vai se encaixar, mas fico feliz com o passeio que elas fazem na vida das pessoas. Recebo muitas mensagens dizendo que tal m\u00fasica ajudou num luto, outra m\u00fasica \u00e9 A m\u00fasica de um casal. E eu mesma tenho meus momentos mais emburacada e s\u00f3 quero ouvir Al Green estrondar \u201cHow Can You Mend a Broken heart\u201d doze mil vezes. Tem m\u00fasica que s\u00f3 gosto do instrumental, h\u00e1 outras que ou\u00e7o mais pela letra, h\u00e1 ainda aquelas que amo apenas a voz de quem est\u00e1 cantando, mas n\u00e3o amo muito o arranjo, mas o bom \u00e9 que \u00e9 tanta m\u00fasica, \u00e9 t\u00e3o infinito que d\u00e1 pra fazer trilha de qualquer momento. Eu tamb\u00e9m amo o sil\u00eancio, amo tanto m\u00fasica que prezo muito pelo sil\u00eancio, quando conv\u00e9m. Minha vida \u00e9 melhor porque existe m\u00fasica, porque eu fa\u00e7o e me transformo, e porque eu ou\u00e7o e me curo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Numa inevit\u00e1vel pergunta gostaria que voc\u00eas listassem seus letristas favoritos. Aqueles(as) que se voc\u00eas fossem fazer an\u00e1lises das letras renderiam horas e horas de grava\u00e7\u00e3o ou at\u00e9 mesmo uma temporada!<\/strong><br \/>\nLe\u00eflah: Pra render uma temporada inteira: Renato Russo, Cazuza, Caetano Veloso, Chico Buarque, Nelson Motta, Ant\u00f4nio C\u00edcero, Cad\u00e3o Volpato (Fellini), Fernando Brant, Bob Dylan, Lou Reed, David Bowie, Leonard Cohen, Patti Smith, Morrissey, Robert Smith, Joni Mitchell, Siouxsie Sioux, Kate Bush, Kanye West, Michael Stipe, Billy Corgan, Simon Le Bon (Duran Duran) e Madonna (subestimad\u00edssimos!), Peter Gabriel, Moody Blues (todos os cinco integrantes eram letristas) e meu favorito de todos os tempos, Steve Kilbey (The Church), que renderia cinco temporadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Let\u00edcia: Com certeza esquecerei algu\u00e9m, mas acho que Lhasa de Sela, PJ Harvey, Michelle Gurevich, Nina Simone, Renato Russo, Cazuza, Robert Smith, Itamar Assump\u00e7\u00e3o, Leonard Cohen, Lulu Santos, Nelson Motta, Marina Lima, Antonio C\u00edcero s\u00e3o figuras que eu deliro com as letras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por fim, ap\u00f3s uma promissora estreia, o que podemos esperar para a sequ\u00eancia do &#8220;Taradas por Letras&#8221;?<\/strong><br \/>\nLe\u00eflah: Obrigada pelo \u201cpromissora estreia\u201d! Voc\u00eas podem esperar muita entrega nossa, uma preocupa\u00e7\u00e3o muito grande com a relev\u00e2ncia do que estamos dizendo, temas inteligentes e instigantes, entretenimento de qualidade e um pout-pourri delicioso de letras no UmaLetraQ com artistas, jornalistas, escritores e escritoras que vamos convidar, tr\u00edvias e curiosidades do universo musical, nossas hist\u00f3rias curiosas e o principal, um espa\u00e7o pra escutar atentamente m\u00fasica &amp; letra, e se escutar a partir disso, porque letras contam a hist\u00f3ria de vida de todes n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Let\u00edcia: Vamos mergulhar cada vez mais em letras ic\u00f4nicas, em letras zeitgeists, letras mais lado B. Como uma letra nos abra\u00e7a, como uma letra resume bem um sentimento coletivo, como uma letra resume gera\u00e7\u00f5es. Vamos dar esse mergulho e continuaremos taradas em letras, sempre.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Jon Bon Jovi - Miracle (Official Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wnM9WEha5E0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a>\u00a0\u00a0\u00e9 redator\/colunista\u00a0do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.opoderosoresumao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O Poder do Resum\u00e3o<\/a>. Escreve no Scream &amp; Yell desde 2014.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Protagonizado por Let\u00edcia Novaes, a Letrux (cantora, escritora e atriz), e Le\u00eflah (escritora, jornalista e designer), no podcast a dupla conversa sobre letras de m\u00fasica, entrecortando o papo com hist\u00f3rias pessoais comoventes \/ divertidas e muita informa\u00e7\u00e3o sobre os artistas homenageados\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/08\/23\/entrevista-leilah-e-letrux-falam-do-podcast-taradas-por-letras\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":4,"featured_media":62057,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[2907],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62054"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=62054"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62054\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":62060,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62054\/revisions\/62060"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/62057"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=62054"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=62054"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=62054"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}