{"id":61973,"date":"2021-08-17T00:39:31","date_gmt":"2021-08-17T03:39:31","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=61973"},"modified":"2021-11-19T23:12:47","modified_gmt":"2021-11-20T02:12:47","slug":"faixa-a-faixa-bonifrate-comenta-todas-as-musicas-de-corisco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/08\/17\/faixa-a-faixa-bonifrate-comenta-todas-as-musicas-de-corisco\/","title":{"rendered":"Faixa a faixa: Bonifrate comenta todas as m\u00fasicas de &#8220;Corisco&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>introdu\u00e7\u00e3o por Marcelo Costa<\/strong><br \/>\nfaixa a faixa por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/bonifrate\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bonifrate<\/a><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesses dias cinzas, de futuro incerto, em que aqui mesmo no Scream &amp; Yell temos falado bastante do quanto <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/08\/09\/selo_screamyell_senhorf_beto_so_pra_toda_superquadra\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">a riqu\u00edssima gera\u00e7\u00e3o dos anos 00 \u00e9 mal documentada<\/a>, o Supercordas talvez seja um dos melhores exemplos, afinal um cl\u00e1ssico absoluto como \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/06\/27\/entrevista-supercordas-fala-de-seres-verdes-ao-redor\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Seres Verdes ao Redor<\/a>\u201d (2006) n\u00e3o estar dispon\u00edvel nos portais de streaming \u00e9 algo como se \u201cStarry Night\u201d fosse tirada do MoMA e guardada em algum lugar de acesso restrito \u2013 no caso dos Cordas, o blog <a href=\"http:\/\/shroomrecords.blogspot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">(mu)shroom records<\/a>, com tudo que voc\u00ea precisa deles, e um pouco mais. Por\u00e9m, Supercordas \u00e9 passado (ou melhor, Hist\u00f3ria!) \u2013 a banda encerrou as atividades em 2016. E para colorir de azul os dias intensos que estamos vivendo, Pedro Bonifrate apresenta \u201c<a href=\"https:\/\/bonifrate.bandcamp.com\/album\/corisco\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Corisco<\/a>\u201d, seu terceiro disco solo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lan\u00e7ado digitalmente e em vinil pelo selo estadunidense OAR, casa dos Boogarins e do duo Guaxe, formado por Bonifrate e Dinho Almeida, \u201c<a href=\"https:\/\/bonifrate.bandcamp.com\/album\/corisco\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Corisco<\/a>\u201d re\u00fane 10 novas can\u00e7\u00f5es, algumas delas gestadas ainda no tempo em que Bonifrate estava no Supercordas, outras finalizadas j\u00e1 no meio da pandemia. O m\u00fasico carioca, radicado no bairro do Corisco, em Paraty (mas n\u00e3o nascido na cidade, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/06\/27\/entrevista-supercordas-fala-de-seres-verdes-ao-redor\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">como contou ao Scream &amp; Yell em 2007<\/a>), reuniu as can\u00e7\u00f5es de seu novo \u00e1lbum, segundo ele mesmo, \u201ctentando interpretar o mundo ao redor, e nele se sentindo perdido ou encontrado, mas sobretudo perdido\u201d. Para isso, o artista muniu-se de um teclado Casio MT400v (\u201cQue eu n\u00e3o troco por nada\u201d, avisa), viol\u00e3o, guitarra, bateria, piano, baixo, samples de uma velha sinfonia (\u201ctalvez algo de Beethoven ou Schubert\u201d) e gravou tudo sozinho, tendo a companhia do amigo e companheiro de Supercordas, Diogo Valentino, e da voz de Betina Rodrigues (duetando em \u201cGrande N\u00f3\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No aprofundado faixa a faixa abaixo, Bonifrate cita de livros e escritores, bandas e faixas que encerram grandes discos. Fala do inc\u00eandio do Museu Nacional da UFRJ em 2018 e de seus filhos, da transforma\u00e7\u00e3o do tempo no meio de um mergulho e sobre m\u00e1scaras de pano e lavar as compras do supermercado assim que chegar em casa. Como escreveu Robert Ham no release distribu\u00eddo para a imprensa, \u201c\u2019<a href=\"https:\/\/bonifrate.bandcamp.com\/album\/corisco\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Corisco<\/a>\u2019 pode ser uma representa\u00e7\u00e3o imperfeita de nosso estado mental pand\u00eamico, enquanto deslizamos nossos dedos pelos feeds das redes, soterrados de m\u00e1s not\u00edcias, tentando enxergar o que h\u00e1 al\u00e9m do \u2018t\u00fanel ausente de sonhos\u2019 do presente, como define um verso da can\u00e7\u00e3o \u2018Lun\u00e1rio\u2019. Para um \u00e1lbum constru\u00eddo sobre bases musicais de d\u00e9cadas passadas, \u2018Corisco\u2019 soa como algo inteiramente moderno\u201d. Abaixo, um mergulho em um dos grandes discos da m\u00fasica brasileira em 2021. Deixe-se levar por Bonifrate!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-61977\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/corisco.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/corisco.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/corisco-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/corisco-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>FAIXA A FAIXA, por BONIFRATE<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>01. REI LAGARTO \u2013<\/strong> No final de 2018 eu vinha armando uma apresenta\u00e7\u00e3o solo com meu teclado Casio, guitarra e voz ligados num pedal de loop, algo que funcionava muito bem com algumas das minhas can\u00e7\u00f5es e n\u00e3o tanto com outras que acabavam soando melhores s\u00f3 com voz e viol\u00e3o. Eu tinha uma vaga vontade de construir can\u00e7\u00f5es dessa forma pra um pr\u00f3ximo \u00e1lbum, como j\u00e1 tinha feito com \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ODKQUzw-3YU\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alfa Crucis<\/a>\u201d \u2013 um single que lancei tamb\u00e9m em 2018 \u2013, e foi ensaiando pra uma apresenta\u00e7\u00e3o com isso em mente que eu constru\u00ed a base de \u201cRei Lagarto\u201d, o baixo e a batida do Casio e o riff pesado de guitarra que cai em cima. Praticamente todos os sons de teclado e de ritmos seq\u00fcenciados desse disco s\u00e3o desse mesmo teclado, de meados dos anos 80, que \u00e9 um MT400v e que eu n\u00e3o troco por nada. Os versos deslizaram por cima da base com bastante fluidez, eu pensava em alguns animais, como s\u00e3o estranhos e incr\u00edveis, resultados de um processo de bilh\u00f5es de anos de transforma\u00e7\u00f5es nisso que chamamos de universo, em que uns morrem e outros nascem atrav\u00e9s do tempo e do espa\u00e7o, e esse processo integra a trajet\u00f3ria humana, a pol\u00edtica, os imp\u00e9rios. Por que nos encontramos t\u00e3o perdidos nesse estado de coisas? S\u00e3o quest\u00f5es fundamentais, talvez at\u00e9 triviais, que guiaram a escrita e o conceito dessa can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Bonifrate - Rei Lagarto (Official Music Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Tip0CCFKCZk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>02. CASIOPEIA \u2013<\/strong> Alguns desses versos vinham fermentando na minha cabe\u00e7a desde 2016, quando a minha banda Supercordas ainda estava na ativa, e cheguei a gravar uma demo pra banda com um refr\u00e3o diferente. S\u00f3 uns tr\u00eas anos depois fui terminar, mas acho que ela ficou com esse esp\u00edrito supercordiano, ou ao menos acho que soa assim pra mim. Talvez o som chame um eco das mesmas influ\u00eancias can\u00f4nicas da \u00e9poca da banda, coisas como Spiritualized e Flaming Lips, que est\u00e3o sempre pairando sobre a minha cabe\u00e7a musicalmente, porque curto demais. A segunda estrofe foi inspirada numa fala do Eduardo Galeano sobre haver um outro mundo em gesta\u00e7\u00e3o dentro deste mundo, e que n\u00e3o \u00e9 um parto f\u00e1cil. Enfim, que \u201cesse \u00e9 um mundo de merda, mas n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico mundo poss\u00edvel\u201d, nas palavras dele. Acho que os versos partiram da\u00ed e rumaram pra uma esp\u00e9cie de odisseia espacial do esp\u00edrito. Talvez sejam os mesmos temas de \u201cRei Lagarto\u201d, buscando ou deixando de buscar uma resposta \u00e0quelas perguntas que tinham sido feitas, celebrando a longevidade fantasmag\u00f3rica dos pequenos ou grandes atos de resist\u00eancia e de ousadia revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Bonifrate - Casiopeia (Lyric Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/mbQwzRvaJag?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>03. V\u00caNUS \u2013<\/strong> Essa letra \u00e9 como que um haicai, um fragmento que me pegou quando eu dirigia pra casa num clima t\u00edpico de Paraty: a imin\u00eancia da chuva no fim do dia, a eletricidade no ar, a Estrela D\u2019alva brilhando fosca no poente. Musicalmente ficou bastante marcada pelo som de orquestra. Ele foi editado a partir de fragmentos picotados de alguma velha sinfonia, n\u00e3o me lembro agora qual, talvez algo de Beethoven ou Schubert. Eu tinha lan\u00e7ado m\u00e3o desse tipo de sample antes, em \u201c<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2011\/08\/04\/tres-videos-bonifrate-ao-vivo-em-sao-paulo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Farsa do Futuro Enquanto Agora<\/a>\u201d (do \u00e1lbum \u201c<a href=\"https:\/\/bonifrate.bandcamp.com\/album\/um-futuro-inteiro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Um Futuro Inteiro<\/a>\u201d, 2011) e em \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=6a2nkyFpQMM\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00cdndico de Estrelas<\/a>\u201d, dos Supercordas. \u00c9 uma forma de ter um som bonito e org\u00e2nico de orquestra quando, obviamente, n\u00e3o se pode ter uma pra gravar. Basta voc\u00ea ter alguma abertura em rela\u00e7\u00e3o ao arranjo e ir buscando os sons que caem bem, deixando o acaso meio que guiar a edi\u00e7\u00e3o. \u201cV\u00eanus\u201d \u00e9 o come\u00e7o de uma su\u00edte em tr\u00eas movimentos, compostos como sequ\u00eancia um do outro desde o in\u00edcio.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Bonifrate \u2014\u00a0Venus (Official Music Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/SkoV7_BTvHE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>04. CORISCO (Parte 1) \u2013<\/strong> Essa \u00e9 uma das minhas favoritas. Eu gosto de ver a rea\u00e7\u00e3o das pessoas quando chega a parte em que vira tipo um thrash metal ou algo assim. Foi assim que a can\u00e7\u00e3o chegou pra mim, como um rock pesado e cl\u00e1ssico, quando eu estava frente \u00e0 janela do quarto me impressionando com uma tempestade de raios que lampejavam por tr\u00e1s da montanha do Corisco. Esse \u00e9 o nome do bairro onde eu moro, e tamb\u00e9m uma palavra que quer dizer fa\u00edsca, raio, trov\u00e3o. Assim como \u201cRei Lagarto\u201d, as tr\u00eas faixas dessa su\u00edte foram gravadas na fita cassete, num velho gravador de quatro canais, e depois transferidas para o computador, cada pista individualmente. Em algum ponto inicial eu pensava em fazer todo o \u00e1lbum assim, mas era muito trabalhoso sincronizar as pistas, j\u00e1 que a fita tem um tempo oscilante, e acabou ficando s\u00f3 nessas quatro faixas mesmo. A base de \u201cCorisco (Parte 1)\u201d foi constru\u00edda basicamente com duas baterias, dois baixos e duas guitarras, cada par num quase un\u00edssono, o que deixou a sonoridade bastante pesada, densa e incomum. Acho que \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o sobre o mist\u00e9rio. O mist\u00e9rio da escurid\u00e3o, que muitos de n\u00f3s deixamos de sentir de perto. Ela acaba redundando num di\u00e1logo, uma voz canta os versos finais como que num par\u00eantese meta-hist\u00f3rico e arranca do mist\u00e9rio uma resposta relacionada \u00e0 mem\u00f3ria.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Corisco, Pt. 1\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2_rjoDnV27U?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>05. TELA AZUL \u2013<\/strong> Eu escrevi \u201cTela Azul\u201d nos dias seguintes ao inc\u00eandio do Museu Nacional da UFRJ em 2018. Eu e minha companheira somos da \u00e1rea de Hist\u00f3ria, e pra n\u00f3s foi uma tristeza muito grande pensar que nossa filha, ent\u00e3o com 3 anos, e tantas outras crian\u00e7as n\u00e3o veriam mais aqueles tronos africanos, aqueles ossos de dinossauros e aqueles cr\u00e2nios humanos de dez mil anos atr\u00e1s. Foi como encarar a morte. Era o tipo de museu que podia transformar a percep\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a sobre o mundo, como transformou a minha, e recebia muitas e muitas crian\u00e7as de escolas p\u00fablicas do Rio e de outros lugares. Enfim, essa \u00e9 a met\u00e1fora sobre a qual a can\u00e7\u00e3o se desenrola. \u00c9 o que acontece com o nosso passado no Brasil, ele queima. Queima convenientemente para os ratos que lucram e crescem com os inc\u00eandios \u2013 os servos do imperialismo. A sequ\u00eancia que termina com essa faixa \u00e9 uma das grava\u00e7\u00f5es que eu fiz de que mais gosto. Curto a crueza dos sons na mix do Diogo (Valentino, parceiro de Supercordas, que mixou o disco), e a forma como ela se desloca por diferentes tempos e ambientes. Gostava tanto que cogitava abrir o disco com ela, mas acho que acabou ficando melhor fechando o lado A.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Tel Azul\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wh51_O9DpRc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>06. CARA DE PANO \u2013<\/strong> \u201cCara de Pano\u201d foi a \u00faltima a ser terminada. Fiquei muito tempo com a primeira parte doo-wop na cabe\u00e7a e sentia que aquilo cair num refr\u00e3o n\u00e3o seria algo legal a se fazer, ent\u00e3o acabei desintegrando tudo num interl\u00fadio guiado pelo piano e fazendo a mesma melodia voltar com outro ritmo, outra atmosfera. Tamb\u00e9m fiquei esperando a chegada do piano que herdamos do meu sogro aqui em casa pra gravar e continuar fugindo dos instrumentos MIDI, foi demais ter o instrumento de verdade nessa a\u00ed. Eu j\u00e1 tinha h\u00e1 anos a primeira estrofe, mas a segunda foi a \u00faltima que escrevi pro disco, j\u00e1 depois de mar\u00e7o de 2020. Meu filho tinha nascido h\u00e1 poucos meses e eu via o sol nascer quase todos os dias, porque ele gostava de acordar essa hora. Mas fazia frio e sa\u00edamos com m\u00e1scaras de pano pra fazer compras que agora t\u00ednhamos que lavar antes de guardar, ler as not\u00edcias o tempo todo e toda essa loucura que j\u00e1 \u00e9 nossa de cada dia.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Bonifrate - Cara de Pano (Lyric Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/feY488I1nak?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>07. LUN\u00c1RIO \u2013<\/strong> Essa foi uma das \u00faltimas can\u00e7\u00f5es que escrevi para o disco, l\u00e1 pro in\u00edcio de 2020. Eu tinha esse riff de viol\u00e3o meio The Kinks na cabe\u00e7a h\u00e1 um tempo e as palavras chegaram num turbilh\u00e3o quando comecei a ler \u201cO or\u00e1culo da noite\u201d, do Sidarta Ribeiro. \u00c9 uma can\u00e7\u00e3o sobre buscar nossos f\u00e1rmacos interiores, escutar nossos sonhos, flertando com imagens de gesta\u00e7\u00e3o e parto, como outras can\u00e7\u00f5es nesse disco. O Sidarta diz que a humanidade est\u00e1 deixando o sonho como fator evolutivo para tr\u00e1s, e por isso as pessoas s\u00f3 conseguem enxergar um \u00fanico futuro poss\u00edvel \u2013 uma aberra\u00e7\u00e3o evolutiva, j\u00e1 que os sonhos sempre ajudaram v\u00e1rias esp\u00e9cies a simular situa\u00e7\u00f5es e rea\u00e7\u00f5es futuras para agir melhor no presente. Acho uma perspectiva interessante sobre como o capitalismo est\u00e1 nos levando ao fim do mundo, e a can\u00e7\u00e3o gira poeticamente em torno dessas ideias. Foi s\u00f3 bem depois de escrever os versos que percebi que \u201cna boca da baleia, espera a mar\u00e9 cheia, amor\u201d eram refer\u00eancias a brincadeiras de pular corda, eu estava pensando na imin\u00eancia do parto e na influ\u00eancia da lua e das mar\u00e9s nas gesta\u00e7\u00f5es. O v\u00eddeo foi o que escolhi pra botar em imagens esse processo de banda-de-um-cara-s\u00f3, eu mesmo tocando todos os instrumentos, sem grandes efeitos e psicodelias como no v\u00eddeo de \u201cRei Lagarto\u201d, s\u00f3 aproveitando os cen\u00e1rios improv\u00e1veis e aqu\u00e1ticos das redondezas de onde eu moro.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Bonifrate - Lun\u00e1rio (Official Music Video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/iJ-epfqTNkI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>08. 2054 \u2013<\/strong> \u201cSob um c\u00e9u de sat\u00e9lites mortos\u201d foi o verso raiz dessa can\u00e7\u00e3o. Escrevi como um poema que imagina um futuro estranho em que poder\u00edamos enxergar da Terra an\u00e9is de sucatas de sat\u00e9lites em \u00f3rbita. Eu pensava na minha filha e em como vai ser o mundo quando ela atingir a idade que eu tenho hoje, dificilmente um lugar melhor. Me fez pensar nesse outro verso chave que \u00e9 \u201cnum gueto de pr\u00e1ticas f\u00f3sseis, o sol brilha em voc\u00ea\u201d. Na minha cabe\u00e7a ela deveria soar como uma daquelas can\u00e7\u00f5es psicod\u00e9licas pesadas do Olivia Tremor Control ou do Cirtulatory System, com uma base de \u00f3rg\u00e3os distorcidos e baterias saturadas, mas eu acabei gravando os instrumentos bem limpos, e um viol\u00e3o que eu pretendia deixar s\u00f3 na parte do meio acabei gravando nela toda em todo caso. No fim, o Diogo subiu na m\u00fasica inteira esse canal e o da guia que eu tinha feito com voz e viol\u00e3o, e acabou ficando esse balad\u00e3o \u00e9pico definido e brilhante e quando ouvi a mix pensei \u201cbom, assim fica mais maneiro ainda\u201d. Eu costumo ter muito claro na minha cabe\u00e7a como uma can\u00e7\u00e3o deve soar logo que ela aparece, mas um dos aspectos mais legais desse processo todo de compor, arranjar, gravar can\u00e7\u00f5es \u00e9 justamente o desvio entre isso que voc\u00ea imaginou e aonde acabou chegando. Exatamente como acontecem os processos hist\u00f3ricos. O desvio \u00e9 o caminho. Ou pelo menos acaba sendo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"2054\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/pCI7miLl-RY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>09. GRANDE N\u00d3 \u2013<\/strong> \u201cGrande N\u00f3\u201d foi uma das primeiras can\u00e7\u00f5es que fiz e comecei a gravar pra esse disco, l\u00e1 pra 2016. Acredito que tamb\u00e9m tenha sido pensada com Supercordas em mente, a princ\u00edpio. Eu imaginava uma realidade estranha, mas palp\u00e1vel, em que as vibra\u00e7\u00f5es densas que eu emitia estavam interferindo nas m\u00e1quinas ao redor, que come\u00e7am a engasgar e acabam pifando \u2013 \u00e9 tamb\u00e9m uma ideia que aparece em \u201cCara de Pano\u201d. \u00c9 um \u00e9pico da paranoia e da aliena\u00e7\u00e3o, constru\u00eddo sobre acordes simples mas estranhos que toquei no Casio com som de piano el\u00e9trico, e soava sempre como quem pede essa estrutura longa de entradas e sa\u00eddas e suspens\u00f5es. \u00c9 a faixa mais longa do disco, acho que uns nove minutos, com essa parte \u2018outro\u2019 que parece n\u00e3o ter fim. Eu gosto de longas dura\u00e7\u00f5es e repeti\u00e7\u00f5es, sempre foram elementos fundamentais do meu amor pela m\u00fasica. A transforma\u00e7\u00e3o da percep\u00e7\u00e3o de tempo que sentimos sobre um ritmo ou uma textura que se repete e se alonga. A minha amiga cancionista-cantora Betina sempre curtiu essa can\u00e7\u00e3o, acho que tinha uma afinidade pela letra, como eu tenho por muitas das letras dela, ent\u00e3o ela acabou gravando esses vocais l\u00e1 de S\u00e3o Paulo e ficou esse dueto incr\u00edvel nosso. Parece inflar o fluxo do \u00e1lbum antes de come\u00e7ar a terminar.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Grande N\u00f3 (feat. Betina)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/UZ-DhLye7V0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>10. CORISCO (Parte 2) \u2013<\/strong> Eu sa\u00ed sozinho pra um mergulho r\u00e1pido no rio, estava um dia ensolarado e quente com algumas nuvens sobre as montanhas. Eu mergulhei a cabe\u00e7a na \u00e1gua e fiquei ali embaixo por alguns longos segundos e quando eu emergi o tempo tinha se transformado completamente, um vendo frio soprava e as folhas ca\u00edam das \u00e1rvores. Eu senti como se estivesse cercado de divindades, que animavam os elementos ao meu redor. Mas pra mim n\u00e3o eram as divindades conhecidas pela espiritualidade tradicional, ou eram, mas apareciam de outras formas, novas. A primeira estrofe da can\u00e7\u00e3o surgiu na minha cabe\u00e7a exatamente nesse momento. Talvez seja das can\u00e7\u00f5es mais importantes do disco, sendo a \u00faltima, e eu tenho muito apre\u00e7o por \u00faltimas faixas de discos, acho uma arte, uma atmosfera que \u00e9 toda delas, em toda sua diversidade. Desde \u201cQue Bom Amigo\u201d, do \u201cClube da Esquina 2\u201d at\u00e9 \u201cSlow Life\u201d dos Super Furry Animals, passando pelas muitas su\u00edtes de lado B do Paul Mccartney, tenho uma tara por finais de discos. J\u00e1 que \u00e9 um \u00e1lbum cheio de altos e baixos, mas talvez com uma atmosfera predominantemente sombria, ao menos liricamente, essa \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o que aponta para outro lugar, onde h\u00e1 brilho e prop\u00f3sito. Tenho a impress\u00e3o, e talvez n\u00e3o passe de uma impress\u00e3o, que nunca flertei t\u00e3o abertamente com o indie rock guitarrado dos anos 90 como na \u00faltima sec\u00e7\u00e3o de \u201cCorisco (Parte 2)\u201d. \u00c9 a \u00fanica faixa do disco em que gravei a viola brasileira de 10 cordas, um instrumento que tenho tocado e gravado desde 2006, mas com o qual eu tenho me envolvido bastante ultimamente depois de terminar \u201cCorisco\u201d, ent\u00e3o talvez esse seja mais um lugar pra onde a can\u00e7\u00e3o pode estar apontando.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Corisco, Pt. 2\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0sr2tO7li-Y?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>&#8211; Marcelo Costa (<a href=\"http:\/\/twitter.com\/#%21\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@screamyell<\/a>) edita o Scream &amp; Yell desde 2000 e assina a\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Calmantes com Champagne.<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Lan\u00e7ado digitalmente e em vinil pelo selo estadunidense OAR, casa dos Boogarins e do duo Guaxe, formado por Bonifrate e Dinho Almeida, \u201cCorisco\u201d re\u00fane 10 novas can\u00e7\u00f5es, algumas delas gestadas ainda no tempo em que Bonifrate estava Supercordas, outras finalizadas na pandemia.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/08\/17\/faixa-a-faixa-bonifrate-comenta-todas-as-musicas-de-corisco\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":61978,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[255],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61973"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=61973"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61973\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":63245,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61973\/revisions\/63245"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/61978"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=61973"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=61973"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=61973"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}