{"id":61924,"date":"2021-08-12T02:01:49","date_gmt":"2021-08-12T05:01:49","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=61924"},"modified":"2021-10-14T22:52:05","modified_gmt":"2021-10-15T01:52:05","slug":"entrevista-guilherme-arantes-fala-sobre-vida-universo-carreira-e-seu-novo-disco-a-desordem-dos-templarios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/08\/12\/entrevista-guilherme-arantes-fala-sobre-vida-universo-carreira-e-seu-novo-disco-a-desordem-dos-templarios\/","title":{"rendered":"Entrevista: Guilherme Arantes fala sobre vida, universo, carreira e seu novo disco, \u201cA Desordem dos Templ\u00e1rios\u201d"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPlaneta \u00c1gua\u201d, \u201cRa\u00e7a de Her\u00f3is\u201d, \u201cMeu Mundo e Nada Mais\u201d, \u201cAmanh\u00e3\u201d, \u201cUm Dia Um Adeus\u201d, \u201cCoisas do Brasil\u201d, \u201cBrincar de Viver\u201d, \u201cCheia de Charme\u201d, \u201cDeixa Chover\u201d, \u201cPerdidos na Selva\u201d e v\u00e1rias outras. A lista de can\u00e7\u00f5es pilares na estrada percorrida por Guilherme Arantes \u00e9 grande. Aut\u00eantico hitmaker, o cantor, compositor e multi-instrumentista, cujo destaque principal da trajet\u00f3ria est\u00e1 no piano, acaba de completar 68 anos de idade e 45 de carreira. Como marco, lan\u00e7ou \u201c<a href=\"https:\/\/links.altafonte.com\/desordemdostemplarios\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A Desordem dos Templ\u00e1rios<\/a>\u201d (2021), disco com influ\u00eancias do rock progressivo e letras que criam pontes entre o passado e o presente ao abordar, como em sua faixa t\u00edtulo, a hist\u00f3ria da humanidade atrav\u00e9s de suas guerras reais e mentais. Mas antes de adentrar no material liter\u00e1rio escrito por Guilherme Arantes neste mais recente trabalho, \u00e9 necess\u00e1rio voltar um pouco no tempo e abordar a introspec\u00e7\u00e3o do seu autor em um per\u00edodo anterior ao do ca\u00f3tico 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A virada de 2019 para 2020 foi marcada por uma ang\u00fastia estranha&#8221;, relembra Guilherme. &#8220;Queria dar um rumo para a minha carreira. Porque eu vinha me sentindo progressivamente irrelevante. A gente conquista um lugar na m\u00fasica, no respeito das pessoas, fica famoso, faz os shows, mas n\u00e3o \u00e9 bem isso. Existe um algo mais que \u00e9 a mente pensante. A mente fabricando coisas e tendo repercuss\u00e3o&#8221;, reflete o cantor. Tal ang\u00fastia acabou por nortear os passos seguintes do artista em suas leituras e pesquisas, dentre essas, um aprofundamento em diversas biografias de nomes pilares da m\u00fasica brasileira. Morando desde 2019 na pequena cidade de \u00c1vila, na Espanha, a ideia era passar apenas alguns meses por l\u00e1 e retornar ao Brasil. Quando a pandemia teve in\u00edcio, em mar\u00e7o do ano passado, esse plano mudou. Sua perman\u00eancia no pa\u00eds europeu tornou-se indefinida. Junto apenas a sua esposa, M\u00e1rcia Gonzalez (baiana, mas de fam\u00edlia oriunda da Espanha), Guilherme acabou por mergulhar na literatura e nessa contempla\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria milenar oriunda do velho mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa procura teve in\u00edcio, entretanto, um pouco antes. Mais precisamente no disco de 2017, \u201cFlores &amp; Cores\u201d, cuja faixa \u201cSemente da Mar\u00e9\u201d j\u00e1 abordava um pouco dessa busca por outro lugar para viver. &#8220;Um outro lugar que era uma coisa que fazia com que eu me sentisse meio como um refugiado no mundo, nessas viagens ao longo desses anos. E foi se aprofundando um v\u00ednculo, um interesse, um fasc\u00ednio por essa hist\u00f3ria secular. E isso \u00e9 uma coisa que nos falta. N\u00f3s, brasileiros, temos um pa\u00eds bem mais jovem. Bem mais, digamos, superficial em termos hist\u00f3ricos. E aqui foi o lugar que despertou coisas rec\u00f4nditas na minha m\u00fasica, no meu modo de olhar o mundo. A Espanha virou, ent\u00e3o, esse fasc\u00ednio&#8221;, contextualiza o m\u00fasico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sua faixa t\u00edtulo, o novo disco tem percept\u00edvel essa proposta de visitar a Hist\u00f3ria secular a partir de uma balan\u00e7a entre passado e presente. Ou, como a pr\u00f3pria letra diz, um &#8220;p\u00eandulo imerso em escurid\u00e3o que balan\u00e7a entre paredes da mem\u00f3ria&#8221;. \u201c<a href=\"https:\/\/links.altafonte.com\/desordemdostemplarios\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A Desordem dos Templ\u00e1rios<\/a>\u201d caminha pelo territ\u00f3rio de uma \u00f3pera rock, unindo de modo contagiante estilos musicais que crescem, passando, inclusive, por uma veia nordestina. Junto com a letra, esse levante visita diversas reflex\u00f5es do mundo, sua evolu\u00e7\u00e3o e involu\u00e7\u00e3o. &#8220;\u00c9 uma alegoria que, ao mesmo tempo, \u00e9 uma utopia. A figura do templ\u00e1rio \u00e9 uma figura ut\u00f3pica, quixotesca. \u00c9 uma figura nobre nos seus prop\u00f3sitos iniciais, mas \u00e9 uma figura anacr\u00f4nica da busca atrav\u00e9s da guerra, de um corretivo para algo que est\u00e1 fora do normal&#8221;, explica Guilherme ao descrever o personagem de sua escrita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal alegoria, no aspecto hist\u00f3rico de sua presen\u00e7a, tem na letra de Arantes uma forte reflex\u00e3o sobre essa nossa distopia atual. &#8220;O que me interessa (\u00e9) a ang\u00fastia que essa m\u00fasica traz. Por exemplo. &#8216;As crian\u00e7as com receio de crescer&#8217;; &#8216;contaminar o c\u00e9u da c\u00e1psula de um tempo sem rancor&#8217;; &#8216;cada dia \u00e9 uma batalha desigual em nome de uma paz e tudo que se entende por normal&#8217;. \u00c9 a busca atrav\u00e9s da guerra para se conquistar o amor e a paz. O que eu tentei levantar, e que \u00e9 mais importante, \u00e9 a g\u00eanese da distopia. Quer dizer, por causa desse colapso da linguagem, voc\u00ea partir para a guerra em nome da ordem, da paz e do amor. \u00c9 estranho um poder militar tentando impor uma f\u00e9, uma f\u00e9 crist\u00e3 \u00e0 \u00e9poca&#8221;, pontua o m\u00fasico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sendo um disco gravado durante um per\u00edodo de confinamento, al\u00e9m de coincidir com uma fase de convalescen\u00e7a do m\u00fasico, que enfrentou uma braquialgia que o deixou de cama por um tempo, \u00e9 natural que uma vertente mais intima reverbere por suas composi\u00e7\u00f5es. Uma das faixas, inclusive, bate pesado por refletir a perda de sua pr\u00f3pria m\u00e3e, dona Hebe, que faleceu em 2020, e de quem o m\u00fasico n\u00e3o p\u00f4de se despedir pessoalmente. Ao falar sobre o fato, Guilherme Arantes pede desculpas por se deixar levar pela emo\u00e7\u00e3o ao n\u00e3o impedir as l\u00e1grimas que surgem quando explica o processo de composi\u00e7\u00e3o de \u201cEstrela-M\u00e3e\u201d: \u201cEu tive poucas oportunidades de zerar o placar, de zerar a minha rela\u00e7\u00e3o com a minha m\u00e3e&#8221;, explica o compositor. &#8220;Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, fiz muita for\u00e7a para estar junto a ela. Meu pai faleceu em 2003. De l\u00e1 pra c\u00e1, eu ia direto \u00e0 S\u00e3o Paulo. Convidava-a para almo\u00e7ar, para jantar. E ela batia papo comigo. A gente zerou muito a nossa rela\u00e7\u00e3o&#8221;, relembra Guilherme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEstrela-M\u00e3e\u201d, para o ouvinte, remete \u00e0 reflex\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o mal resolvida com os pr\u00f3prios pais. \u00c9 o meu caso. Pensar no aspecto de entrega pessoal do m\u00fasico dentro desse processo de composi\u00e7\u00e3o \u00e9 algo admir\u00e1vel, principalmente por ouvi-lo dizer que sua m\u00e3e escutou aquela carta de despedida j\u00e1 em seu leito de morte. &#8220;A letra \u00e9 um arrependimento no \u00faltimo minuto do segundo tempo da prorroga\u00e7\u00e3o. Mas, ali, a hora j\u00e1 tarda e a noite j\u00e1 veio. J\u00e1 estou no anoitecer. J\u00e1 sou um cara de idade. E a\u00ed eu venho pedir perd\u00e3o. Foi uma coisa lancinante que a minha m\u00e3e ouviu no leito de morte. Desceu uma l\u00e1grima dos olhos dela. Mas ela sorriu, tamb\u00e9m&#8221;, sorri Guilherme ao contar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um das faixas, a instrumental \u201cKyrie\u201d, o Guilherme Arantes de sessenta e poucos remete ao rapaz de vinte e poucos, ainda nos anos 1970, influenciado pelo rock progressivo de nomes como Yes, Vangelis e Emerson, Lake &amp; Palmer. &#8220;O ProgRock foi muito importante na minha mocidade. Foi quando se convergiram conceitos n\u00e3o s\u00f3 da psicodelia, do uso de subst\u00e2ncias de conex\u00e3o, de subst\u00e2ncias transformadoras de percep\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9poca na minha vida, que foram os anos 1970, o progressivo era uma coisa que era inacreditavelmente bela&#8221;, reflete Guilherme, e crava, ao pensar em toda a sua trajet\u00f3ria de quase meio s\u00e9culo: &#8220;N\u00e3o sei se eu vou longe demais com minhas pretens\u00f5es. Eu sou apenas um bardo. Sou apenas um menestrel, um trovador do afeto. \u00c9 assim que eu me defino&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse papo profundo com Scream &amp; Yell, Guilherme traz mais dessas suas impress\u00f5es do mundo e como isso reflete em sua vida e trabalhos. Confira!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Guilherme Arantes - A Desordem dos Templ\u00e1rios (\u00e1lbum completo)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Ip_5KzyczJ0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A<strong>o ler o release de \u201cA Desordem dos Templ\u00e1rios\u201d, me chamou a aten\u00e7\u00e3o o fato de ser um texto denso, \u00edntimo e pessoal assinado por voc\u00ea. No texto, quest\u00f5es pessoais relacionadas \u00e0 sua vida nos \u00faltimos anos s\u00e3o colocadas em destaque, como sua ida \u00e0 Espanha em um per\u00edodo anterior \u00e0 pandemia e a perman\u00eancia a\u00ed, bem como seu estado de introspec\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o, al\u00e9m de um destaque aos problemas de sa\u00fade que lhe atingiram durante o ano passado. Foi uma surpresa ler um texto t\u00e3o particular e que adentra no disco de forma aprofundada. Como foi esse processo todo de introspec\u00e7\u00e3o em sua pr\u00f3pria vida e carreira, e que culminou nesse novo trabalho?<\/strong><br \/>\nA virada de 2019 para 2020 foi marcada por uma ang\u00fastia. Tinha uma ang\u00fastia estranha no ar. Eu queria dar um rumo para a minha carreira. Porque eu vinha me sentindo&#8230; (pausa) progressivamente irrelevante. A gente conquista um lugar na m\u00fasica, no respeito das pessoas, fica famoso, faz os shows, mas n\u00e3o \u00e9 bem isso. Existe um algo mais, assim, que \u00e9 a mente pensante. A mente fabricando coisas e tendo repercuss\u00e3o. Eu senti que o \u00faltimo disco que fizemos em 2017&#8230; esse disco tinha uma m\u00fasica, \u201cSemente da Mar\u00e9\u201d, que falava justamente sobre procurar um outro lugar para viver. Um outro lugar que era uma coisa que fazia com que eu me sentisse meio como um refugiado no mundo, nessas viagens ao longo desses anos, desde 2014. E foi se aprofundando um v\u00ednculo, um interesse, um fasc\u00ednio por essa hist\u00f3ria secular. E isso \u00e9 uma coisa que nos falta. N\u00f3s, brasileiros, temos um pa\u00eds bem mais jovem. Bem mais, digamos, superficial em termos hist\u00f3ricos. E aqui foi o lugar que despertou coisas rec\u00f4nditas na minha m\u00fasica, no meu modo de olhar o mundo. A Espanha virou, ent\u00e3o, esse fasc\u00ednio. A gente acabou comprando um apartamentozinho aqui. \u00c1vila \u00e9 uma cidade pequena e barata. N\u00e3o \u00e9 uma metr\u00f3pole tur\u00edstica. \u00c9 uma cidadezinha de interior. Eu acabei gostando muito dessa vida, aqui. Quando a pandemia chegou, por volta de fevereiro, mar\u00e7o de 2020, foi um momento em que eu estava estudando o meu cravo. Eu tenho um cravozinho el\u00e9trico e estava estudando as m\u00fasicas. Tentando dichavar o barroco. Como \u00e9 que os caras constru\u00edam aquelas estruturas que dialogam. E olhar por dentro da m\u00fasica o fazer da composi\u00e7\u00e3o desses caras. Do Haendel, do Scarlatti. Era uma viagem muito pessoal minha. Para dar um tempo. Para ler mais, tamb\u00e9m. Lembro que a M\u00e1rcia come\u00e7ou a ler Honor\u00e9 de Balzac. J\u00e1 est\u00e1 no terceiro livr\u00e3o de Balzac. Ela gosta das hist\u00f3rias. E mergulhei muito em livros sobre o Brasil. Eu tentava entender a nossa gera\u00e7\u00e3o e o que ela pegou pela frente. A m\u00fasica popular. E comecei, ent\u00e3o, pelos livros sobre o Simonal, a hist\u00f3ria do Garrincha, a hist\u00f3ria do Samuel Weiner, que era (do jornal) a \u00daltima Hora. E eu nunca tinha parado para prestar aten\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria do Jornalismo brasileiro. Porque o m\u00fasico vive aquele mundo da m\u00fasica, e quando ele se defronta com o Jornalismo, \u00e9 sempre conflitante. Porque ele se v\u00ea como um injusti\u00e7ado. Que n\u00e3o tem reconhecimento da opini\u00e3o das pessoas. Ent\u00e3o, eu fui atr\u00e1s de fundamentos para explicar como \u00e9 que o Chico Buarque virou o Chico Buarque. Como o Caetano Veloso virou o Caetano Veloso. Isso para eu tentar entender como \u00e9 que o Guilherme Arantes pode tentar virar um deles. Como o Guilherme Arantes poderia vir a significar o que essa outra gera\u00e7\u00e3o significa. Porque \u00e9 muito mais! Por que a nossa gera\u00e7\u00e3o posterior conseguiu um n\u00edvel de reconhecimento menor? Porque a Hist\u00f3ria teve momentos e circunst\u00e2ncias para essas gera\u00e7\u00f5es. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o Chico e o Caetano. \u00c9 o Samuel Wainer, \u00e9 o Nelson Motta, \u00e9 o S\u00e9rgio Cabral, \u00e9 o Tom Jobim. Eu fui atr\u00e1s das biografias da Nara, do Simonal. Todas as biografias. Eu queria entender, por exemplo, como \u00e9 que destru\u00edram o Simonal. Como ele deu tanta bobeira? O que ele fez de t\u00e3o errado? E fui descobrir que o Simonal era um cara muito atrevido. E esse atrevimento o levou a ir ao Pasquim, pessoalmente, para enfrentar Henfil, Jaguar, Paulo Francis, Tarso de Castro. T\u00e1 de brincadeira? Como \u00e9 que esse cara vai l\u00e1? \u00c9 uma coisa que eu nunca pensaria em fazer. Um enfrentamento desses. Mas, ele, n\u00e3o! Ele foi um cara que foi de peito aberto, tentando galgar a mesma grandeza que o Chico, que o Caetano, que o Gil tinham conquistado com obras gigantescas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tratou-se, ent\u00e3o, n\u00e3o somente de um revisitar da sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria, bem como um mergulho na hist\u00f3ria da m\u00fasica brasileira como um todo.<\/strong><br \/>\nSim. Eu fui tentar entender como se constr\u00f3i e como se destr\u00f3i os mitos, os grandes nomes. Como se constr\u00f3i um mito do tamanho do Tom Jobim? Como era o Rio naquela \u00e9poca? Eu me fascino muito pela era do samba-can\u00e7\u00e3o. Na era da Maysa, do Tito Madi, daquele Rio de Janeiro dos bares, do Bom Gourmet. Como que surge a Bossa Nova? Eu queria entender a g\u00eanese de nossos mitos da m\u00fasica popular, da nossa cultura, mesmo. Nesse per\u00edodo, eu li mais de 40 livros. Quando se instalou essa braquialgia e eu fiquei de cama, isso foi ruim e, ao mesmo tempo, bom para mim. Porque deu uma panor\u00e2mica diferente. S\u00f3 o livro do Samuel Wainer, por exemplo, foi fundamental para eu entender como que se cria a opini\u00e3o no Brasil. Como que se gera o consenso sobre certas coisas.&#8221;Por que fulano \u00e9 grande?&#8221; Como que se cria um Vin\u00edcius de Moraes? L\u00f3gico que existe a genialidade deles, mas a nossa gera\u00e7\u00e3o, essa na qual estou eu, Djavan, F\u00e1bio Jr., Roupa Nova e tantos outros, a gente \u00e9 relativizado em import\u00e2ncia porque n\u00e3o teve um contexto hist\u00f3rico que nos galgasse. Eu fui descobrir, por exemplo, que para a carreira do Chico Buarque foi fundamental o Brasil perder a Copa do Mundo de 1966. Olha que coisa incr\u00edvel! Porque, ali, o foco nacional era a chegada da televis\u00e3o. E ali est\u00e1 aquela primeira gera\u00e7\u00e3o, que \u00e9 uma gera\u00e7\u00e3o de ouro. Nomes como Elis, Chico, Caetano, Gil, eles s\u00e3o uma gera\u00e7\u00e3o brilhante de g\u00eanios da m\u00fasica. Mas eles tiveram uma circunst\u00e2ncia que, at\u00e9 mesmo o Brasil perder com Pel\u00e9 e Garrincha l\u00e1 na Copa da Inglaterra, abriu espa\u00e7o para que o grande mito daqueles meses se consagrasse. O mito vindo das rodas de bar, de onde se fabrica a opini\u00e3o. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds &#8220;botequeiro&#8221;. \u00c9 um pa\u00eds onde a opini\u00e3o gira na roda do botequim, do coment\u00e1rio popular. E a m\u00fasica popular ocupou, ent\u00e3o, o espa\u00e7o do futebol, com os festivais. E a\u00ed, sai Pel\u00e9, sai Garrincha, e quem entra \u00e9 o Chico Buarque, o Gil, o Caetano. Entender isso \u00e9 muito importante para que a gente&#8230; (pausa). Porque eu tenho que a minha obra, as minhas m\u00fasicas&#8230; eu tenho muitas m\u00fasicas boas, como \u201cPlaneta \u00c1gua\u201d, \u201cRa\u00e7a de Her\u00f3is\u201d, \u201cMeu Mundo e Nada Mais\u201d, \u201cUm Dia Um Adeus\u201d, \u201cCoisas do Brasil\u201d, \u201cBrincar de Viver\u201d. S\u00e3o coisas que atingiram o imagin\u00e1rio popular e que eu considero de certa grandeza. Elas atingiram o afeto do brasileiro. Quando toca Maria Beth\u00e2nia cantando \u201cBrincar de Viver\u201d, \u00e9 uma coisa que aflora. Assim como aflora a Elis cantando \u201cAtr\u00e1s da Porta\u201d, do Chico, ou \u201cCan\u00e7\u00e3o da Terra\u201d, ou cantando Milton Nascimento. A grandeza do Milton. Ent\u00e3o, como que a gente faz para resgatar junto ao p\u00fablico um&#8230; n\u00e3o \u00e9 bem um reconhecimento. N\u00e3o \u00e9 isso. \u00c9 uma&#8230; (pausa) N\u00e3o basta voc\u00ea ser. Voc\u00ea precisa ser considerado como tal. Ent\u00e3o, voc\u00ea pode ser um grande compositor, mas n\u00e3o basta ser. No Brasil, voc\u00ea tem que ser considerado como um grande compositor. E isso \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o misteriosa. Uma constru\u00e7\u00e3o dif\u00edcil. N\u00f3s temos que ter respeito pelos grandes nomes. Ningu\u00e9m est\u00e1 aqui questionando o tamanho deles, desses grandes nomes. Mas eu queria entender mais disso. E a\u00ed as minhas leituras acabaram indo para livros como o da Elaine Brum, \u201cBrasil: Construtor de Ru\u00ednas\u201d. \u00c9 um livro revelador sobre o Brasil. \u00c9 um livro muito bom. Os livros do Helio Gaspari, por exemplo, sobre a ditadura. Al\u00e9m do de Zuenir Ventura sobre o que aconteceu. Esses livros me deram uma compreens\u00e3o bastante&#8230; digamos, em Panavision, assim. Voc\u00ea entende melhor. E quando a gente chega em uma idade, eu j\u00e1 estou com quase 70 anos, voc\u00ea tem que dizer: &#8220;N\u00e3o, agora eu consigo entender um pouco mais o mundo, o Brasil.&#8221; Est\u00e1 na idade de destrinchar os conceitos. E isso a\u00ed foi me ilustrando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Dentro desse processo de leitura e aprofundamento na m\u00fasica e na hist\u00f3ria dos movimentos culturais e musicais brasileiros, como foi o processo de se encontrar inserido neste contexto?<\/strong><br \/>\nEu vinha de uma viagem meramente musical. Eu estava no barroco, estudando os livros do Scarlatti, mas achava que faltava um algo mais. Fui ler, por exemplo, a hist\u00f3ria do Renato Russo. Algumas hist\u00f3rias do rock brasileiro me interessam entender, sabe? Vou citar um exemplo. Nos livros sobre os anos 1980, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/06\/23\/guilherme-arantes-relembra-como-produziu-perdidos-na-selva-da-gang-90\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o grande momento do Guilherme Arantes \u00e9 quando ele faz, junto com Julio Barroso, \u201cPerdidos na Selva\u201d<\/a>. Isso nos livros. Mas ser\u00e1 que, de tudo o que eu fiz, de tudo o que eu escrevi, s\u00f3 esse momento \u00e9 pin\u00e7ado como sendo importante na d\u00e9cada de 1980? Por qu\u00ea? Porque eu estava parceiro de um jornalista, que era amigo deles, amigo de reda\u00e7\u00e3o, e que era maluco, que era o Julio Barroso. Fizemos uma m\u00fasica bacana, seminal, transformadora, que abriu as portas. &#8220;Mas, espera, n\u00e3o aparece nada da carreira do Guilherme Arantes?&#8221; Nada! N\u00e3o aparece nada da minha carreira nos livros dos anos 1980, por exemplo. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/03\/10\/guilheme-arantes-e-a-amnesia-do-pop\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Eu sou totalmente ignorado<\/a>. \u00c9 como se eu fosse um artista comercial. Mas era mais do que isso. \u201cDeixa Chover\u201d, por exemplo, \u00e9 uma m\u00fasica transformadora. Ela \u00e9 mais transformadora do que o \u201cPerdidos na Selva\u201d, porque aponta para uma fus\u00e3o da Bossa com o Pop. Ent\u00e3o, era a Bossa que a Marina procurava com \u201cFullgaz\u201d, por exemplo. Era um momento importante do Cazuza, por exemplo, quando ele faz m\u00fasicas como \u201cFaz Parte do Meu Show\u201d, \u201cEu Preciso Dizer que Te Amo\u201d, as coisas que o Cazuza fez. Ent\u00e3o, eu era um cara diminu\u00eddo, assim, no computo dos anos 1980. E reduzido a parceiro do Julio Barroso. Os anos 1980 parecem que s\u00e3o anos que fascinam os cr\u00edticos, os jornalistas e o p\u00fablico. E a gente conseguiu uma coisa muito importante. Nos anos 1980, fizemos um crossover social. Ent\u00e3o, relativizar o Guilherme Arantes \u00e9 muita sacanagem. Por que eu consegui ser um cara t\u00e3o indigesto? Eu sei o porqu\u00ea. \u00c9 porque eu n\u00e3o lia os trabalhos dos jornalistas. Eu n\u00e3o me interessava pela vida dos jornalistas. Eu n\u00e3o me interessava pela hist\u00f3ria do Jornalismo no Brasil. Hoje, \u00e9 diferente. Hoje, eu fui ler tudo do Ruy Castro, por exemplo. Fui ler a biografia que o S\u00e9rgio Cabral fez do Tom Jobim. As hist\u00f3rias do Nelson Mota. Voc\u00ea tem que ler mais. O m\u00fasico que n\u00e3o l\u00ea, fica relegado a um patamar secund\u00e1rio. Tanto \u00e9 que, por exemplo, Renato Russo lia muito. Cazuza, tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, eu fico intrigado em entender como os dois maiores nomes do BRRock que restaram mais destacados, que s\u00e3o Cazuza e Renato Russo, tocavam mal instrumento. Ou n\u00e3o tocavam instrumento. N\u00e3o eram m\u00fasicos. Interessante isso. Eles eram mais das letras, da literatura, da vis\u00e3o cr\u00edtica e de um ser poeta que tem muita afinidade com o jornalista. E o m\u00fasico fica sempre visto como um esquisito, assim como \u00e9 o Jo\u00e3o Gilberto, como \u00e9 o Johnny Alf, como \u00e9 o Jo\u00e3o Donato. Ele n\u00e3o \u00e9 considerado um intelectual. O intelectual, no Brasil, \u00e9 quem domina as letras. Quem domina o mundo da linguagem escrita. Isso era importante eu entender. Sabe por qu\u00ea? Porque eu sou o letrista das minhas m\u00fasicas. Eu n\u00e3o dependo de parceiro. Tudo foi escrito por mim. \u201cMeu Mundo e Nada Mais\u201d, \u201cUm Dia Um Adeus\u201d, \u2018\u00caxtase\u201d, \u201cPlaneta \u00c1gua\u201d, \u201cAmanh\u00e3\u201d. Ent\u00e3o, por que eu sou considerado segundo time? S\u00f3 porque eu toco instrumento? No Brasil, tocar um instrumento \u00e9 defeito. N\u00e3o \u00e9 qualidade. Voc\u00ea pegar um viol\u00e3o e tocar bem, esse n\u00e3o \u00e9 um intelectual. Com isso, eu fui procurar as raz\u00f5es disso ser assim. E com respeito. Com respeito pela vis\u00e3o jornal\u00edstica, tamb\u00e9m. Isso me deu uma condi\u00e7\u00e3o de escrever um trabalho melhor. Eu acho que venho melhorando. Dos anos 2000 para c\u00e1, h\u00e1 uma guinada qualitativa. Das letras irem melhorando. Tanto \u00e9 que o disco \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/09\/22\/entrevista-guilherme-arantes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Condi\u00e7\u00e3o Humana<\/a>\u201d, que foi de 2013, foi eleito o melhor disco da d\u00e9cada (em concurso online da Red Bull Brasil). Isso \u00e9 uma coisa assustadora. Melhor disco da d\u00e9cada. Concorriam Chico Buarque e Caetano Veloso, com os discos \u201cCaravanas\u201d e \u201cAbra\u00e7a\u00e7o\u201d. Ent\u00e3o, a coisa come\u00e7a a tomar um novo rumo para mim. N\u00f3s temos que melhorar sempre. O m\u00fasico acha que basta ele tocar um instrumento e j\u00e1 se considera um intelectual. Mas o mundo \u00e9 mais complexo. Voc\u00ea tem que entender o valor da palavra. Por exemplo, o valor do Ant\u00f4nio Maria. Ele n\u00e3o tocava instrumento, mas ele \u00e9 fundamental na m\u00fasica popular do Brasil. O Renato Russo n\u00e3o era um virtuoso de instrumento. Tocava, mas o forte dele era a linguagem po\u00e9tica, a linguagem oral das entrevistas. Ent\u00e3o, a gente tem que melhorar. Eu acho que esse per\u00edodo serviu muito para eu dar uma qualificada em mim, mesmo, sabe? Olhar os defeitos da gente. Vou contar uma coisa: quando eu estava com o Julio Barroso, eu n\u00e3o dava muito valor para aquilo. Eu achava que o foda era eu! Eu era o foda! Eu constru\u00ed aquilo tudo para ele, que era um louco! S\u00f3 que depois a Hist\u00f3ria vai mostrar que ele era um cara transformador. Era um vetor de mudan\u00e7a que ia ser o grande reconhecimento de uma \u00e9poca. \u00c9 o poeta. A gente tem que dar valor mais para o poeta, entendeu? E eu como sou meio auto-suficiente&#8230; &#8220;Ah, voc\u00ea fica fechado no seu convencimento. No seu auto-conceito&#8221;. A gente tem que enxergar a realidade das coisas, sabe? Ent\u00e3o, acho que eu melhorei bastante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Todas essas reflex\u00f5es oriundas de anos anteriores e que culminam em um per\u00edodo de perdas, de convalescen\u00e7a, de auto-an\u00e1lise, batem forte. \u00c9, tamb\u00e9m, uma \u00e9poca dif\u00edcil da humanidade, que vem perdendo a capacidade de se comunicar. Como isso influenciou suas reflex\u00f5es e reverberou para o processo de composi\u00e7\u00e3o do disco?<\/strong><br \/>\nEsse per\u00edodo, esse sofrimento, serviu para arrancar mais da alma. Arrancar mais sentimento para as m\u00fasicas. Dessa ang\u00fastia de uma \u00e9poca. Um per\u00edodo angustiante. Uma \u00e9poca de distopia. Vemos que h\u00e1 uma distopia. O mundo viveu tantas utopias bonitas, por exemplo, o Iluminismo, a Paris de 1900, o Marxismo, que s\u00e3o caminhos que a humanidade vai para uma dire\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea teve movimentos como os descobrimentos aqui na Espanha. Voc\u00ea v\u00ea a import\u00e2ncia do descobrimento da Am\u00e9rica. Aquele ouro todo entrando e o rei mecenas, aqui, o Carlos, de Alcal\u00e1, que era o maior mecenas das artes. Ent\u00e3o, h\u00e1 um florescimento das artes. S\u00e3o momentos da humanidade. Nos anos 1960, houve a utopia dos hippies, de 1968. \u201c\u00c9 Proibido Proibir\u201d, a contracultura, e tudo. Hoje, parece que a humanidade deu uma murchada. Ficou cambalacho, sabe? As pessoas est\u00e3o se estranhando. As redes sociais vieram para amplificar o rancor, a m\u00e1goa. Algo generalizado, entendeu? Ent\u00e3o, come\u00e7a a aflorar isso. Tem uma pessoa que \u00e9 mais coletivista. A outra \u00e9 mais individualista. A\u00ed, as pessoas come\u00e7am a se estranhar total. As redes funcionando como uma \u00e1gora, um espa\u00e7o de participa\u00e7\u00e3o social prejudicado pelo rancor generalizado. Esta \u00e9 uma coisa que me d\u00e1 ang\u00fastia, preocupa\u00e7\u00e3o. Para essas novas gera\u00e7\u00f5es, meus netos, qual mundo vai ser? Ser\u00e1 que n\u00e3o vai ser uma barb\u00e1rie digital? N\u00f3s estamos entrando em uma idade m\u00e9dia. E a\u00ed eu comecei a construir esse disco com essa ideia que nasceu da m\u00fasica, mesmo. \u201cA Desordem dos Templ\u00e1rios\u201d \u00e9 uma alegoria sobre essa busca de uma reordena\u00e7\u00e3o da humanidade. Na marra. Algo como (voz imposta): &#8220;N\u00e3o, o mundo j\u00e1 teve liberdade demais! As pessoas precisam ser contidas em um c\u00f3digo mais eficiente social.&#8221; Ah, isso tudo \u00e9 irrevers\u00edvel. Ningu\u00e9m vai conseguir mandar as pessoas negras de volta para a senzala. Ningu\u00e9m vai conseguir mandar as pessoas LGBTQIA+ de volta para o arm\u00e1rio. Ningu\u00e9m vai conseguir. A sociedade est\u00e1 se tornando mais complexa e \u00e9 preciso mais sentimento. \u00c9 preciso mais humanidade. \u00c9 preciso mais compreens\u00e3o. E eu tentei fazer um disco bastante afetivo. Um disco de afeto, de amor. Can\u00e7\u00f5es de amor, mesmo. Eu acho que as pessoas est\u00e3o \u00e1vidas por isso. E era o que eu tinha para fazer porque eu estava \u00e0 flor da pele. N\u00f3s est\u00e1vamos isolados aqui e sem voltar para casa. Na incerteza de que mundo \u00e9 esse. Bateu uma ang\u00fastia. E isso \u00e9 um prato cheio para as minhas m\u00fasicas. Eu tentei despejar isso na m\u00fasica. Mas o fundamento \u00e9 o sentimento, mesmo. Eu acho que, mesmo quando falo espiritualmente, no campo espiritual, eu falo sobre o sentir espiritual. N\u00e3o \u00e9 o saber. N\u00e3o interessa o crer. N\u00e3o interessa o &#8220;eu sei&#8221;, &#8220;eu creio&#8221;. As pessoas falam: &#8220;Ah, porque eu creio.&#8221; N\u00e3o! Voc\u00ea tem que sentir. Se voc\u00ea n\u00e3o sentir, n\u00e3o adianta nada. E eu sei que at\u00e9 Jesus, nessa hora, est\u00e1 sorrindo para mim. Porque a li\u00e7\u00e3o, a mensagem dele, era o sentir. Eu quero esse sentimento de eleva\u00e7\u00e3o. Sentimento de liga\u00e7\u00e3o. Sentimento de afinidade. E isso \u00e9 delicado em uma \u00e9poca na qual as pessoas est\u00e3o crispadas, entendeu? Tento com esse disco levantar essa chama do sentimento. Acho que \u00e9 essa a minha mensagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nas letras, o disco traz um equil\u00edbrio entre temas mais pessoais, reflex\u00f5es sobre a natureza do mundo e das pessoas, bem como um toque rom\u00e2ntico. Falando sobre esse lado mais pessoal, queria pedir licen\u00e7a para abordar contigo o processo de composi\u00e7\u00e3o de \u201cEstrela-M\u00e3e\u201d, e o modo como tal letra impactou na sua rela\u00e7\u00e3o com sua m\u00e3e, que faleceu em 2020.<\/strong><br \/>\nO caso da minha m\u00e3e foi uma coisa que&#8230; Falar disso at\u00e9 me embarga, aqui. Desculpe. (pausa) Eu tive poucas oportunidades de zerar o placar, de zerar a minha rela\u00e7\u00e3o com a minha m\u00e3e. Ela era uma mulher muito forte de sua gera\u00e7\u00e3o. Ela queria ter trabalhado e meu pai n\u00e3o deixou. Meu pai era de uma gera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o queria que a esposa trabalhasse. A grande luta da minha m\u00e3e era ir para o mercado de trabalho. Ela havia feito curso de Biblioteconomia e, tamb\u00e9m, o de Com\u00e9rcio, na (FAAP &#8211; Funda\u00e7\u00e3o Armando) \u00c1lvares Penteado. Era uma mulher de mercado de trabalho. Era uma mulher que saia de casa. Era de uma gera\u00e7\u00e3o que queria ir para o mercado de trabalho. Queria trabalhar para ter o seu sustento, para ter a sua liberdade de mulher. Isso era uma coisa geracional. Dessa gera\u00e7\u00e3o dos anos 1950, quando, depois da guerra, as mulheres americanas entraram no mercado de trabalho com tudo e deram um exemplo para o mundo todo. As mulheres queriam ter seu carro. Queriam fumar. Queriam trabalhar, ser do mundo. Queriam estar no ambiente do trabalho, tomar caf\u00e9 com os amigos, voltar para o trabalho, ter aquela rotina. Era uma nova ordem da fam\u00edlia brasileira em que a minha m\u00e3e foi impedida pela trucul\u00eancia do meu pai. Ele, assim como os irm\u00e3os, gostava de armas. Gostavam de rev\u00f3lver. E isso ficou impregnado na minha juventude, na minha mocidade. O meu tio, por exemplo, foi assassinado com os seus pr\u00f3prios rev\u00f3lveres l\u00e1 em Ara\u00e7atuba. Ent\u00e3o, tudo isso acaba se ligando em uma coisa do afeto e das lembran\u00e7as dessa trucul\u00eancia, inclusive sobre a mulher. A minha m\u00e3e se tornou uma mulher muito amarga, muito triste. E acabou descontando em mim, que era um filho rebelde. E eu apanhei muito, tive muito conflito dentro de casa. O meu pai tentava exercer a autoridade \u00e0 for\u00e7a, na tora, entendeu? Voc\u00ea v\u00ea que as coisas acabam se ligando. Eu, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, fiz muita for\u00e7a para estar junto \u00e0 minha m\u00e3e. Meu pai faleceu em 2003. De l\u00e1 pra c\u00e1, eu ia direto \u00e0 S\u00e3o Paulo. Convidava minha m\u00e3e para almo\u00e7ar, para jantar. E ela batia papo comigo. A gente zerou muito a nossa rela\u00e7\u00e3o. Eu dizia que a amava, que entendia o seu drama. Que ela foi uma mulher muito bonita, \u00e0 \u00e9poca, e que queria ter trabalhado. Eu compreendia profundamente o drama da mocidade da minha m\u00e3e. E a luta da vida dela e tudo. Eu tive essas \u00faltimas oportunidades com ela. E agora, no final, eu queria colocar isso tudo em uma m\u00fasica, que era uma homenagem para ela. Eu queria dizer a ela que entedia. Que eu queria ter feito os sonhos dela para mim. De eu me formar na faculdade. Eu podia ter feito tudo isso e n\u00e3o fiz. Porque os jovens, como eu falo na letra, v\u00e3o procurar os seus caminhos e acabam n\u00e3o atendendo um pedido de uma m\u00e3e para se formar. Era isso. A letra \u00e9 um arrependimento no \u00faltimo minuto do segundo tempo da prorroga\u00e7\u00e3o. Mas, ali, a hora j\u00e1 tarda e a noite j\u00e1 veio. J\u00e1 estou no anoitecer. J\u00e1 sou um cara de idade. E a\u00ed eu venho pedir perd\u00e3o. Foi uma coisa lancinante que a minha m\u00e3e ouviu no leito de morte. Desceu uma l\u00e1grima dos olhos dela. Mas ela sorriu, tamb\u00e9m. Seu nome era Hebe. Hebe era a deusa que trazia o n\u00e9ctar para os deuses. Ent\u00e3o, na letra, eu falo: &#8220;voc\u00ea doou seu melhor n\u00e9ctar na vida.&#8221; Puxa, isso a\u00ed para mim, olha&#8230; Nossa! A minha m\u00e3e entendeu direitinho. E quando ela partiu, levou essa mensagem com ela. Isso \u00e9 uma coisa que n\u00e3o tem&#8230; (pausa) \u00c9 algo muito meu, sabe? Foi feito s\u00f3 para a Hebe. Do Guilherme para a Hebe. Mas eu acho que todo mundo que tem esse sentimento com a m\u00e3e vai gostar porque \u00e9 uma m\u00fasica muito intensa. Tem a orquestra\u00e7\u00e3o do (Arthur) Verocai. Ele ficou muito emocionado quando apresentei a m\u00fasica a ele. Chorou ao telefone comigo. Foi muito bonita a constru\u00e7\u00e3o disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Outra letra que me chamou a aten\u00e7\u00e3o foi a de \u201cToda Afli\u00e7\u00e3o do Mundo\u201d. Os trechos &#8220;\u00c9 a arma na m\u00e3o de um fraco, mandando obedecer&#8230;\/A amea\u00e7a \u00e9 o seu instrumento, o que sabe tocar&#8221; s\u00e3o pontos de reflex\u00e3o bem densos quando pensamos nos que det\u00eam o poder atualmente.<\/strong><br \/>\nEssa da arma \u00e9 sobre a inst\u00e2ncia do poder que ela possui. A inst\u00e2ncia da amea\u00e7a. A amea\u00e7a \u00e9 um instrumento do perdedor. \u00c9 aquele perdedor que est\u00e1 portando uma arma. E essa arma n\u00e3o \u00e9 somente&#8230; (pausa). Eu n\u00e3o estou me referindo ao militar. Estou me referindo ao assaltante no meio da rua. Porque ele \u00e9 um perdedor que puxa a arma e coloca uma fam\u00edlia de joelhos. Humilha uma fam\u00edlia porque essa \u00e9 a linguagem que ele tem para se relacionar com o mundo. Trata-se de uma pessoa que est\u00e1 assinando o atestado de perdedor. Quando a pessoa pega uma arma e amea\u00e7a o outro de morte, ela est\u00e1 exercendo um poder de merda. Porque aquele poder \u00e9 uma inst\u00e2ncia caracter\u00edstica do fracassado. Se voc\u00ea tirar aquele instrumento da amea\u00e7a, ele se transforma abaixo do nada. Ele n\u00e3o vale nada, entendeu? E a arma \u00e9 um s\u00edmbolo muito forte para mim porque o meu tio morreu assassinado. O meu pai e o irm\u00e3os tinham essa mania com neg\u00f3cio de arma. Hoje, isso aparece no Brasil como uma linguagem de defesa para as pessoas achando que \u00e9 v\u00e1lido. Mas s\u00f3 que, ao mesmo tempo, tem essa legitimidade, que as pessoas querem defender perante uma realidade que se apresenta. Porque tem que entender o seguinte: no meio rural, os caras est\u00e3o assaltando fazendas. E o cara quer defender a propriedade dele porque o Estado n\u00e3o d\u00e1 garantias. Mas s\u00f3 que isso vai levando a uma beliger\u00e2ncia. Onde \u00e9 que vai parar isso? Para mim, a arma continua sendo a \u00faltima inst\u00e2ncia de perdedor. Por isso que eu falo: &#8220;a arma na m\u00e3o de um fraco, mandando obedecer.&#8221; \u00c9 uma inst\u00e2ncia cuja afli\u00e7\u00e3o do mundo tem a ver com o poder militar. Com as amea\u00e7as das grandes na\u00e7\u00f5es, a amea\u00e7a at\u00f4mica. Quer coisa mais absurda que bomba at\u00f4mica? \u00c9 uma inst\u00e2ncia do absurdo. Aquilo \u00e9 o fracasso da humanidade. O fracasso chama-se armamentismo. E parece que a humanidade vai seguindo essa barb\u00e1rie em uma dire\u00e7\u00e3o na qual o conflito n\u00e3o \u00e9 uma linguagem construtora de um futuro. E existe essa concep\u00e7\u00e3o absurda: &#8220;Quer a paz? Ent\u00e3o, prepare-se para a guerra.&#8221; \u00c9 assim? A humanidade funciona assim? \u00c9 uma coisa que vai ter que ser vencida. Essa inst\u00e2ncia do conflito, essa inst\u00e2ncia da trucul\u00eancia, isso vai ter que ser vencido. Porque o poder, de fato, o poder dos grandes l\u00edderes, do Buda, do Jesus Cristo, \u00e9 uma mensagem inacreditavelmente transformadora. Uma mensagem que destruiu Roma. Uma pessoa de chinelo, andrajoso, um cara que andava no meio de um arrabalde no fim do mundo l\u00e1 do Imp\u00e9rio Romano. Um cara s\u00f3 com a palavra dele. S\u00f3 com o que ele gerou em rela\u00e7\u00e3o ao seu discurso, que tinha um poder que acabou transformando o mundo e derrubou Roma. Ent\u00e3o, me interessa muito esse poder. Esse poder verdadeiro, que \u00e9 o do afeto, o poder da empatia. O poder da compaix\u00e3o. A compaix\u00e3o \u00e9 poderos\u00edssima e as pessoas n\u00e3o podem, em uma \u00e9poca como a atual, menosprezar a compaix\u00e3o e a compreens\u00e3o. \u00c9 que estamos vivendo um per\u00edodo, realmente, complicado com a humanidade. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 no Brasil. Aqui est\u00e1 crispado, tamb\u00e9m. A Europa est\u00e1 ressentida. E h\u00e1 uma amea\u00e7a constante, aqui. Uma amea\u00e7a aos direitos, h\u00e1 uma amea\u00e7a \u00e0s conquistas, ao progresso. Mas esse \u00e9 o tempo que n\u00f3s temos. E como \u00e9 que a gente reage? Reagimos com afeto, com compaix\u00e3o, que ela \u00e9 desarmadora. Ela \u00e9 o \u00fanico jeito de voc\u00ea, por exemplo, fazer o camarada abaixar a arma contra uma fam\u00edlia. \u00c9 na palavra. Se voc\u00ea tiver a palavra precisa, ali, \u00e9 f\u00e1cil de desarmar. E o cara abaixa a arma e desaparece a amea\u00e7a. Agora, \u00e9 um processo muito complexo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No come\u00e7o da nossa conversa, voc\u00ea falou sobre a gera\u00e7\u00e3o anterior \u00e0 sua, citando nomes como os de Chico, Caetano e Gil, que surgiram na segunda metade da d\u00e9cada de 1960 em um contexto pol\u00edtico no qual suas vozes reverberaram como cr\u00edticos de um per\u00edodo tenebroso no Brasil. Qual sua opini\u00e3o sobre essa fun\u00e7\u00e3o social do artista, principalmente agora, como algu\u00e9m cujas opini\u00f5es precisam ecoar, tamb\u00e9m, sociologicamente?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei se eu vou longe demais com minhas pretens\u00f5es. Eu sou apenas um bardo. Sou apenas um menestrel, um trovador do afeto. \u00c9 assim que eu me defino. Eu n\u00e3o sou bom da oralidade, n\u00e3o sou bom de palestra, da sociologia. Isso a\u00ed \u00e9 para um (M\u00e1rio Sergio) Cortella, um (Luiz Felipe) Pond\u00e9, um (Leandro) Karnal. Esses caras que dominam a oralidade. E eu acho que, inclusive, \u00e9 uma coisa que eu buscava entender era por que na d\u00e9cada de 1960, os compositores acabaram sendo os grandes oralizadores sociol\u00f3gicos e pol\u00edticos? \u00c9 aquilo que eu falei. O protagonismo, por exemplo, do Chico Buarque, que, em 1966, entra em cena. Um cara super inteligente, bonito, com uma poesia maravilhosa, com can\u00e7\u00f5es incr\u00edveis, Uma genialidade bel\u00edssima. At\u00e9 como m\u00fasico, como composi\u00e7\u00f5es de can\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 como letrista. M\u00fasicas como \u201cOl\u00ea Ol\u00e1\u201d, \u201cA Rita\u201d, \u201cPedro Pedreiro\u201d, \u2018Tem Mais Samba\u201d, \u201cCarolina\u201d, \u201cJanu\u00e1ria\u201d, \u201cCom A\u00e7\u00facar Com Afeto\u201d. \u00c9 uma coisa de uma beleza. Quando sai Garrincha e Pel\u00e9 de cena do papo nacional, entra um cara com esse preparo. Um craque de bola das letras. E o momento pol\u00edtico o leva a ser um ente transformador nas entrevistas. E cria-se um padr\u00e3o. Que o artista tem que ter um lado soci\u00f3logo. \u00c9 um padr\u00e3o que ainda se cobra da gente. \u00c9 cobrado que voc\u00ea se posicione. Mas isso \u00e9 uma moda. Eu acho que \u00e9 uma moda. Se voc\u00ea olhar, dos anos 1950 para tr\u00e1s, Cartola, Pixinguinha, Braguinha, Tito Madi, Johnny Alf, n\u00e3o s\u00e3o bons de sociologia. Ningu\u00e9m ficava dando pitacos de pol\u00edtica. Isso a\u00ed come\u00e7ou em uma \u00e9poca determinada, na qual isso era a linguagem daqueles anos, do final dos anos 1960. Cria-se esse tipo de personagem que \u00e9 o compositor. Isso \u00e9 uma grande tenta\u00e7\u00e3o para n\u00f3s. Para fazermos isso. Eu tenho colegas que s\u00e3o muito bons em pilotar a carreira. Para n\u00e3o cair nessa armadilha da sociologia. N\u00f3s somos m\u00fasicos. Eu sou trovador, sou um menestrel, um bardo. Agora, o bardo, na idade m\u00e9dia, n\u00e3o ficava falando os caminhos da pol\u00edtica. Isso \u00e9 uma coisa recente. E eu acho que o meu trabalho fala por si. Tem algumas coisas que as pessoas v\u00e3o identificar. Por exemplo, quem pega em arma, \u00e9 uma inst\u00e2ncia perigosa. Voc\u00ea pode estar em um papel de perdedor. Porque voc\u00ea depende daquilo para ser algo, para significar alguma coisa. Em alguns pontos, eu coloco isso. N\u00e3o gosto da trucul\u00eancia da sociedade. Nem de um lado nem de outro. Eu acho que o Brasil vai melhorar quando sair dessa discuss\u00e3o. Quando reaprender o seu afeto. O Brasil precisa do afeto. Precisa de um tratamento afetivo. A \u00e9poca est\u00e1 muito dif\u00edcil, realmente.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Guilherme Arantes - Across the Abyss (lyric video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Xaw9jFiKKn8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Faixa t\u00edtulo do disco: \u201cA Desordem dos Templ\u00e1rios\u201d<\/strong><br \/>\n\u00c9 uma alegoria que, ao mesmo tempo, \u00e9 uma utopia. A figura do templ\u00e1rio \u00e9 uma figura ut\u00f3pica, quixotesca. \u00c9 uma figura nobre nos seus prop\u00f3sitos iniciais, mas ela \u00e9 uma figura anacr\u00f4nica da busca atrav\u00e9s da guerra, de um corretivo para algo que est\u00e1 fora do normal. Na \u00e9poca, seria a invas\u00e3o mu\u00e7ulmana, que ocorria na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica. Ent\u00e3o, os templ\u00e1rios eram uma arma da igreja para expulsar os mouros. Seria a Reconquista que ocorreu aqui na Espanha. Na cidade de \u00c1vila, que \u00e9 onde moro no momento, o pau quebrou. Aqui, teve uma domina\u00e7\u00e3o mu\u00e7ulmana de muitos s\u00e9culos. De montar um califado. Tinha um califado sediado em \u00c1vila. Ent\u00e3o, a figura do templ\u00e1rio \u00e9 uma figura ao mesmo tempo da utopia e da anacronicidade. Da luta em nome de uma cren\u00e7a. Em nome de uma f\u00e9. No fundo, era um esfor\u00e7o militar de reconquista. Agora, o que me interessa, a ang\u00fastia que essa m\u00fasica traz&#8230; Por exemplo: &#8220;as crian\u00e7as com receio de crescer&#8221;; &#8220;contaminar o c\u00e9u da capsula de um tempo sem rancor&#8221;; &#8220;cada dia \u00e9 uma batalha desigual em nome de uma paz e tudo que se entende por normal&#8221;. \u00c9 a busca atrav\u00e9s da guerra para se conquista o amor e a paz. Isso \u00e9 uma coisa j\u00e1 contradit\u00f3ria. Uma contradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e que se engendra. Que est\u00e1 por tr\u00e1s das guerras, dos conflitos, da Humanidade. \u00c9 uma raiz conflitante que existe dentro de n\u00f3s. O que eu tentei levantar, e que \u00e9 mais importante, \u00e9 a g\u00eanese da distopia. Quer dizer, por causa desse colapso da linguagem, e voc\u00ea partir para a guerra em nome da ordem, da paz e do amor. \u00c9 estranho um poder militar tentando impor uma f\u00e9, uma f\u00e9 crist\u00e3 \u00e0 \u00e9poca. Isso \u00e9 uma inst\u00e2ncia exagerada. \u00c9 uma alegoria que eu fa\u00e7o. Esses estados teocr\u00e1ticos que come\u00e7am a emaranhar pol\u00edtica e religi\u00e3o, s\u00e3o momentos que aconteceram, por exemplo, com o Trump, que \u00e9 m\u00f3rmon. Ent\u00e3o, voc\u00ea v\u00ea se levantar uma massa eleitoral que enxerga nele uma voz para um movimento de ordena\u00e7\u00e3o das coisas que fugiram de controle. Mas eu n\u00e3o estou me referindo em particular \u00e0 Hungria, ou ao que est\u00e1 acontecendo na Pol\u00f4nia. Esse levante que h\u00e1 de direita e que o Brasil acompanha. H\u00e1 outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, tamb\u00e9m, que t\u00eam esses espasmos. Vamos dizer que a hist\u00f3ria \u00e9 feita de espasmos. Voc\u00ea tem espasmos em uma dire\u00e7\u00e3o, espasmos em outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A letra fala dessa ideia do tempo, com um p\u00eandulo ligado \u00e0 mem\u00f3ria. Esse trecho \u00e9 um dos mais fortes e reflexivos.<\/strong><br \/>\nQuando eu falo do p\u00eandulo, que o esp\u00edrito de luz que poder\u00e1 mover o p\u00eandulo imerso em escurid\u00e3o, esse p\u00eandulo \u00e9 o hist\u00f3rico. O p\u00eandulo que vem para c\u00e1, que vai para l\u00e1. A paz onde o p\u00eandulo est\u00e1 mais equilibrado, o movimento \u00e9 de menos amplitude. O caso do Brasil, eu n\u00e3o estou entrando nesse m\u00e9rito porque para n\u00f3s \u00e9 muito importante a gente entender a g\u00eanese dessa distopia. Como chegamos a esse estado de beliger\u00e2ncia. Porque, para sair dessa pendula\u00e7\u00e3o, vai ter que haver um esfor\u00e7o mais alto de compreens\u00e3o. N\u00e3o adianta voc\u00ea gerar uma energia em dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. Eu acho a pol\u00edtica uma linguagem j\u00e1 rasteira. Eu estou querendo um ambiente para a minha m\u00fasica que n\u00e3o \u00e9 esse. \u00c9 um ambiente de uma guerra interior dentro do esp\u00edrito humano que acaba gerando os conflitos no campo externo. Ent\u00e3o, essa coisa da f\u00e9, por exemplo. Em nome da f\u00e9, voc\u00ea gera a guerra. O sentimento espiritual \u00e9 mais importante do que a f\u00e9. Voc\u00ea dizer que cr\u00ea em um deus \u00e9 diferente de quando voc\u00ea sente que h\u00e1 algo. Esse sentir me interessa. Esse sentir \u00e9 profundo. E \u00e9 nele que \u00e9 fundamentado o \u201creligare\u201d do esp\u00edrito. \u00c9 uma coisa que eu n\u00e3o sei descrever. Uma coisa que pertence ao mist\u00e9rio do universo, que \u00e9 essa entidade. Mas o que eu vejo \u00e9 que tudo vai levando para o conflito. As cren\u00e7as, as ideologias. Ent\u00e3o, como que se gera esse estado de beliger\u00e2ncia? Para mim \u00e9 mais importante ir l\u00e1 na raiz disso. N\u00f3s precisamos, de novo, de afeto. De compaix\u00e3o e de humanidade. Eu acho que tudo aquilo que n\u00e3o tem humanidade vai ser riscado da hist\u00f3ria, como traste, como lixo da Hist\u00f3ria. Aquilo que n\u00e3o contiver compaix\u00e3o e humanidade, \u00e9 a esc\u00f3ria que ser\u00e1 esquecida da Hist\u00f3ria. N\u00e3o precisamos dar nome a isso. Porque vai ser virada a p\u00e1gina. A humanidade caminha rumo ao entendimento, rumo \u00e0 pluralidade, rumo ao respeito, \u00e0 compaix\u00e3o e \u00e0 compreens\u00e3o. \u00c9 uma \u00e9poca que nos cobra muito. E o meu ambiente \u00e9 o afetivo. \u00c9 o ambiente do amor. \u00c9 nele que eu pretendo transformar. \u00c9 como Jesus. Voltando ao exemplo de Jesus, quando o coletor de impostos chega para coletar, ele \u00e9 incitado a ser da oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 Roma. \u00c9 chamado, ent\u00e3o, para proferir o que ele acha daquilo. Ele, ent\u00e3o, se refere \u00e0 figura do Augusto Cesar na moeda. Ele fala: &#8220;a quem pertence isso?&#8221; Ele fala isso que \u00e9 a chave do que foi cortante e transformador no cristianismo. Ele fala: &#8220;o meu reino n\u00e3o \u00e9 desse mundo. A minha linguagem n\u00e3o \u00e9 essa. \u00c9 isso que ele quer? Ele quer o dinheiro? D\u00e1 o dinheiro a ele.&#8221; Ent\u00e3o, ele se recusou a fazer o jogo que j\u00e1 era o jogo polarizador que existe hoje. Que est\u00e1 muito exacerbado em v\u00e1rios pa\u00edses. Aqui, tamb\u00e9m. Aqui (na Espanha), o pau quebrou recentemente. Continuam todas essas feridas. S\u00f3 que aqui \u00e9 um pa\u00eds onde a inst\u00e2ncia da guerra chegou a um n\u00edvel e que eles n\u00e3o querem nunca mais esse conflito que houve, que foi a Guerra Civil Espanhola. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds que precisa tomar cuidado com o seu afeto, entendeu? Precisa cuidar do seu afetivo. E ter serenidade para transformar. Ter profundidade e serenidade para transformar. Sabe por qu\u00ea? A trucul\u00eancia quer o \u00f3dio. Ela quer o rancor. Eu lembro agora da figura do Imperador, em \u201cStar Wars\u201d, e quando o Luke Skywalker cede ao rancor, ao ressentimento e ao \u00f3dio. O Imperador s\u00f3 falta ter um orgasmo. \u00c9 isso que ele quer. \u00c9 essa energia que alimenta aquela estrela da morte. Aquela s\u00e9rie de filmes \u00e9 muito interessante porque ela vai a fundo nessa natureza belicista. Como que se gera o ovo da serpente. \u00c9 por a\u00ed. Eu tento me ater a isso. Porque eu sou s\u00f3 um bardo. Eu n\u00e3o tenho esse talento de verbalizar racionalmente. Eu s\u00f3 consigo falar do lado afetivo, mesmo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Guilherme Arantes - Kyrie (making of)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/CuZuKthhvTY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea lan\u00e7ou um v\u00eddeo com a faixa instrumental \u201cKyrie\u201d, no qual imagens de catedrais que remetiam a um aspecto que muitos poderiam julgar como religioso, e isso foi apontado como um problema por um coment\u00e1rio feito por um f\u00e3 em uma rede social. E voc\u00ea respondeu de forma bastante equilibrada, explicando sobre a ideia de buscar n\u00e3o um foco religioso, mas de harmonia. Eu me identifiquei com o que voc\u00ea falou, uma vez que, mesmo ateu, consigo sentir esse efeito ao visitar locais de profundo sil\u00eancio, como catedrais ou templos antigos.<\/strong><br \/>\nIsso mostra que a espiritualidade \u00e9 uma coisa totalmente diversa da religiosidade. A religi\u00e3o \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o humana, com todos os defeitos das constru\u00e7\u00f5es humanas, com todos os colapsos e todas as contradi\u00e7\u00f5es que h\u00e1 dentro. Mas a quest\u00e3o do sentimento espiritual \u00e9 algo que at\u00e9 mesmo o ateu \u00e9 capaz de se antenar e receber essa mensagem. De elaborar esse mist\u00e9rio que h\u00e1 no cosmos, no universo. Eu li profundamente o livro \u201cDeus, Um Del\u00edrio\u201d, do Richard Dawkins, que \u00e9 um dos mestres. \u00c9 um cientista-bi\u00f3logo e escreveu esse livro sobre a constru\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o. Esse tema me fascina. Eu sou um apreciador das hist\u00f3rias nas quais a humanidade construiu a estrutura chamada religi\u00e3o. \u00c9 uma coisa que me fascina e que acho bel\u00edssimo. Todas as religi\u00f5es possuem uma beleza extrema nessa constru\u00e7\u00e3o. O Budismo, por exemplo. O Nichiren Daishonin, o Sidarta Gautama e os demais mestres do budismo, t\u00eam uma profundidade maravilhosa. Para mim, eu consigo, ali, ter uma reverbera\u00e7\u00e3o profunda do meu sentimento em rela\u00e7\u00e3o ao universo. Sou fascinado pela hist\u00f3ria do juda\u00edsmo, do islamismo. As religi\u00f5es de descend\u00eancia africana, que t\u00eam outra linguagem. N\u00e3o \u00e9 uma linguagem, por exemplo, das escritas. N\u00e3o eram escritas. Essas religi\u00f5es todas do oriente m\u00e9dio s\u00e3o escritas por causa de uma planta, que \u00e9 o papiro. Ela nasce no Rio Nilo e com aquilo se produzia o papel. Os caras se manifestaram atrav\u00e9s de escrituras. Ent\u00e3o, as religi\u00f5es africanas t\u00eam o ritmo e a dan\u00e7a como elementos de comunica\u00e7\u00e3o com essa inst\u00e2ncia espiritual. Isso \u00e9 igualmente fascinante para mim. Eu trabalhei em terreiros. Tanto na umbanda quanto no candombl\u00e9, eu recebi orix\u00e1s. Tenho mediunidade, se eu viesse a desenvolver essa linguagem. Ent\u00e3o, para mim, a beleza desse fen\u00f4meno \u00e9 ineg\u00e1vel. \u00c9 uma coisa de uma beleza inacredit\u00e1vel. Falando desse misticismo, de religi\u00f5es, dessa raiz religiosa do oriente m\u00e9dio, o que eu quero dizer \u00e9 que essas religi\u00f5es muito antigas, muito ancestrais, todas do ramo abra\u00e2mico, que \u00e9 do profeta Abra\u00e3o, possuem ali uma divis\u00e3o entre o juda\u00edsmo, o catolicismo e o islamismo. Essas religi\u00f5es s\u00e3o muito de escribas. E, como disse, s\u00e3o coisas muito ligadas \u00e0 geografia, ligadas ao papiro, que existe ali no Rio Nilo e que \u00e9 uma heran\u00e7a da civiliza\u00e7\u00e3o eg\u00edpcia. Aquilo faz parte tudo do mesmo bloco. Um bloco do levante, como \u00e9 chamada essa regi\u00e3o do globo. E a hist\u00f3ria do Egito \u00e9 pontuada de interven\u00e7\u00f5es misteriosas. H\u00e1 elucubra\u00e7\u00f5es sobre interven\u00e7\u00f5es de extra-terrenos. S\u00e3o os mist\u00e9rios das pir\u00e2mides, o alinhamento com Orion, essas coisas todas que permeiam a hist\u00f3ria antiga do Egito. E o fara\u00f3 Akhenaton, que era quase que um alien\u00edgena. H\u00e1 uma s\u00e9rie de elucubra\u00e7\u00f5es sobre essa figura, que tinha aquela cabe\u00e7a comprida, e as figura\u00e7\u00f5es que h\u00e1 em desenhos hier\u00f3glifos, por exemplo. Com desenhos de pessoas que usam capacetes, t\u00eam carro\u00e7as voadoras. Ent\u00e3o, sobre a hist\u00f3ria da humanidade, eu sou muito curioso. Li muitos livros a respeito. Inclusive, n\u00f3s estamos saindo com um v\u00eddeo muito bacana para a faixa \u201cA Cordilheira\u201d. Esse v\u00eddeo fala que n\u00f3s somos insetos, micr\u00f3bios com radiotelesc\u00f3pios, naves e radares para atravessar gal\u00e1xias e confirmar que existe um Deus. N\u00e3o \u00e9 descobrir que existe um deus. \u00c9 confirmar que talvez o homem, atrav\u00e9s da ci\u00eancia, tenha a grande busca da ci\u00eancia como a raz\u00e3o de tudo. \u00c9 tudo t\u00e3o insond\u00e1vel. E agora se aproxima um momento de converg\u00eancia da f\u00e9 e das cren\u00e7as sobrenaturais com um universo que, de t\u00e3o fant\u00e1stico que ele \u00e9 e de t\u00e3o quanticamente imponder\u00e1vel, a ci\u00eancia vai chegar a um ponto de cruzamento com a religi\u00e3o. Ent\u00e3o, isso \u00e9 uma maneira elevada que eu vejo. O povo hebraico \u00e9 um povo que tem uma hist\u00f3ria que me fascina. A minha fam\u00edlia, os Arantes, vem de uma ascend\u00eancia judaica. Ent\u00e3o, o meu fasc\u00ednio \u00e9 muito grande pelos livros, por essa cultura de escrever as coisas. E pelas profecias. E longe da gente questionar a B\u00edblia, por exemplo. A B\u00edblia \u00e9 uma biblioteca de um tamanho descomunal, cuja interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 a cada dia mais desafiadora \u00e0 medida que a gente avan\u00e7a para o tamanho do universo, para o tamanho da cria\u00e7\u00e3o. Agora, as vis\u00f5es das pessoas t\u00eam que ser respeitadas. E as religi\u00f5es est\u00e3o em outro territ\u00f3rio, que n\u00e3o \u00e9 apenas a espiritualidade, mas uma constru\u00e7\u00e3o cultural. Ent\u00e3o, quero dizer isso. N\u00e3o \u00e9 exclusividade daqueles povos daquela regi\u00e3o. Inclusive, na Am\u00e9rica Latina, as incurs\u00f5es e as refer\u00eancias estelares s\u00e3o mais presentes ainda. Para mim n\u00e3o resta d\u00favida, por exemplo, sobre a queda de um meteoro na Pen\u00ednsula de Yucat\u00e1n, que teria proporcionado a mudan\u00e7a da vida na Terra, quando extinguiu os grandes r\u00e9pteis e, ali, os mam\u00edferos tiveram um \u201cupgrade\u201d na evolu\u00e7\u00e3o. H\u00e1 gente que atribui at\u00e9 uma m\u00e3o divina para empurrar esse meteoro para cima da Terra. Agora, que a Terra \u00e9 um lugar peculiar, incrivelmente peculiar no universo, isso \u00e9. N\u00f3s estamos aqui para provar que somos seres muito misteriosos. Somos parte de um processo muito grande, muito louco. Eu sou assim, bicho. Muito delirante. Desde o come\u00e7o l\u00e1 da minha carreira.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Guilherme Arantes - A Cordilheira (lyric video)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QI1ojW90ZV4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em \u201cKyrie\u201d, como foi esse aspecto de atrelar um foco espiritual ao v\u00eddeo e, tamb\u00e9m, \u00e0 m\u00fasica, que possui um aspecto evidentemente oriundo do rock progressivo?<\/strong><br \/>\nNesse v\u00eddeo, tentei invocar a grandiosidade desses temas em cima de uma can\u00e7\u00e3o que remete a um canto gregoriano, uma coisa que lembra o progressivo. Lembra o Vangelis com o \u201cHeaven and Hell\u201d. Lembra um pouco os vocais do Yes, que acho uma coisa divina. Tem momentos em que a m\u00fasica alcan\u00e7a altitudes, tamb\u00e9m, grandiloquentes. Assim como a religi\u00e3o tem. E tantas outras linguagens humanas que conseguem elevar ao alto a alma. Ent\u00e3o, eu acho que aquelas representa\u00e7\u00f5es t\u00eam um aspecto cr\u00edtico. Quando fa\u00e7o aquelas imagens com \u201cKyrie\u201d, eu coloquei l\u00e1 uma catedral isl\u00e2mica porque ela \u00e9 bonita, simplesmente. Mas tento resgatar esse sentimento de grandiosidade do progressivo. O ProgRock foi muito importante na minha mocidade. Foi quando se convergiram conceitos n\u00e3o s\u00f3 da psicodelia, do uso de subst\u00e2ncias de conex\u00e3o, de subst\u00e2ncias transformadoras de percep\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9poca na minha vida, que foram os anos 1970, e eu estava na faculdade, o progressivo era uma coisa que era inacreditavelmente bela. Me lembro do Emerson, Lake &amp; Palmer, na m\u00fasica \u201cJerusalem\u201d, que \u00e9 um cl\u00e1ssico da Inglaterra. Aquilo \u00e9 uma refer\u00eancia da vida. N\u00e3o consigo ouvir aquilo e n\u00e3o sentir uma emo\u00e7\u00e3o. E acho que essa emo\u00e7\u00e3o \u00e9 mais importante do que a cren\u00e7a, do que a f\u00e9, do que a religi\u00e3o, do que a constru\u00e7\u00e3o religiosa. Esse tro\u00e7o que sai de dentro da gente, \u00e9 ele que faz esse Deus sorrir. Seja l\u00e1 que Deus \u00e9 esse. Que estrutura monstro que tem no universo. E essa refer\u00eancia a \u201cJerusal\u00e9m\u201d, me faz pensar no fato de que o povo hebreu \u00e9 um povo considerado estranho naquela \u00e1rea palestina. Tanto que h\u00e1 uma disputa por aquelas terras e aquela regi\u00e3o ali. Uma regi\u00e3o que \u00e9 de uma cultura fascinante. Houve a presen\u00e7a dos filisteus, houve a guerra de Israel, e esse constante conflito \u00e9tnico. Esse povo \u00e9 tratado at\u00e9 hoje como um povo estranho, de origem desconhecida, que veio de alhures. S\u00e3o dali, tamb\u00e9m, mas h\u00e1 controv\u00e9rsias. E h\u00e1 v\u00e1rios povos na humanidade que carregam essa mesma interven\u00e7\u00e3o, essa possibilidade, como os astecas, os incas, aquelas regi\u00f5es l\u00e1 do Peru, que t\u00eam aquelas inscri\u00e7\u00f5es, por exemplo. O Erich von D\u00e4niken foi algu\u00e9m muito forte para a nossa gera\u00e7\u00e3o nesse assunto. A influ\u00eancia do \u201cEram os Deuses Astronautas?\u201d, que era um livro recorrente dos anos 1980, \u00e9 grande. E isso n\u00e3o fica nunca muito esclarecido, o livro ficou reduzido a mero \u201cfolclore\u201d de uma era de papo-cabe\u00e7a&#8230; No Camboja, tamb\u00e9m, h\u00e1 interven\u00e7\u00f5es na Ilha de P\u00e1scoa. S\u00e3o muitas as perguntas sobre esse mundo ancestral da humanidade. N\u00e3o \u00e9 exclusivamente do povo hebraico essa liga\u00e7\u00e3o com os c\u00e9us. A humanidade inteira possui essas refer\u00eancias. E se as pessoas forem mais a fundo, \u00e9 fant\u00e1stica essa hist\u00f3ria. Eu n\u00e3o tenho d\u00favida, na minha opini\u00e3o, que houve na humanidade interven\u00e7\u00f5es alien\u00edgenas. A quest\u00e3o da vida no universo, para mim, n\u00e3o \u00e9: &#8220;ser\u00e1 que existe vida no universo.&#8221; A quest\u00e3o, para mim, \u00e9: &#8220;ser\u00e1 que existe algum lugar do universo onde n\u00e3o existe vida?&#8221; Essa \u00e9 uma boa pergunta. Porque eu acho que a vida \u00e9 uma esp\u00e9cie de praga do universo. Ela \u00e9 uma coisa altamente contagiosa, altamente eficiente no seu processo de espalhar-se pelo universo. Essa observa\u00e7\u00e3o do universo vai se ampliar com esses novos telesc\u00f3pios, como o James Webb, que vai abrir uma perspectiva maior, pois eles s\u00e3o milh\u00f5es de vezes mais potentes. Ele vai ficar, inclusive, em um ponto do sistema solar, o \u201cSecond Lagrange\u201d ao redor do Sol, que \u00e9 o ponto caracter\u00edstico ali perfeito para observa\u00e7\u00e3o. Eu acho que a humanidade est\u00e1 se aproximando do momento de uma constata\u00e7\u00e3o \u00f3bvia que deve haver artefatos de grande engenharia, de grande porte, em v\u00e1rias partes do universo. E isso vai colocar as quest\u00f5es religiosas em outro patamar. N\u00e3o \u00e9 que v\u00e3o negar ou contradizer as cren\u00e7as de uma entidade criadora. Isso tudo \u00e9 um mist\u00e9rio gigantesco que me fascina. E longe da ci\u00eancia fazer desabar os pilares das religi\u00f5es. Mas a ci\u00eancia tamb\u00e9m \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o divina. A Sublime Cria\u00e7\u00e3o nos fez e nos quer s\u00e1bios. A raz\u00e3o e a curiosidade humana s\u00e3o fant\u00e1sticas. Essas s\u00e3o todas cria\u00e7\u00f5es maravilhosas do universo, e v\u00e3o permitir que o mundo, que a humanidade, descortine essa grandeza. A cada dia eu acho que esse Deus fica maior. Longe dele ficar menor, a cada dia ele fica de um tamanho mais descomunal. Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de desafiar a teologia, nem de questionar etnias A, B ou C. A humanidade tem uma liga\u00e7\u00e3o c\u00f3smica muito importante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cKyrie\u201d, na jun\u00e7\u00e3o daquelas imagens, bem como nesse mergulho proposto pelo disco como um todo, gera, realmente, essa conex\u00e3o de refletir sobre a humanidade e sobre suas origens.<\/strong><br \/>\nOlha, n\u00e3o estou aqui dando uma de arauto desse lado exot\u00e9rico, mas \u00e9 evidente que a Terra \u00e9 t\u00e3o velha, e a hist\u00f3ria da humanidade \u00e9 t\u00e3o misteriosa, que essa constru\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa de ser bela. A constru\u00e7\u00e3o da B\u00edblia, desses livros sagrados, do Tor\u00e1, da Cabala, a constru\u00e7\u00e3o dessa sabedoria toda, interessa muito. E \u201cKyrie\u201d \u00e9 uma m\u00fasica para trazer eleva\u00e7\u00e3o. Independente da cren\u00e7a de cada um, mas o que eu quero ali \u00e9 colocar emo\u00e7\u00e3o que provoca uma coisa espiritual. Mas n\u00e3o \u00e9 uma elegia ao catolicismo. \u00c9 que o catolicismo construiu de forma grandiloquente as obras arquitet\u00f4nicas. A beleza \u00e9 ineg\u00e1vel. A Capela Sistina, essa constru\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea estar diante do Davi, de Michelangelo, \u00e9 uma coisa que beira a uma experi\u00eancia divinat\u00f3ria. Estive ali diante daquela representa\u00e7\u00e3o e \u00e9 uma coisa inacredit\u00e1vel. O p\u00e9 do Davi, do Michelangelo, \u00e9 algo que \u00e9 muito mais que um p\u00e9. Aquilo \u00e9 uma express\u00e3o da arte que chegou a um ponto que nos leva a uma satisfa\u00e7\u00e3o misteriosa. D\u00e1 um tro\u00e7o na gente. Esse tro\u00e7o na gente, \u00e9 nele que eu estou interessado. Porque trabalhar pela cren\u00e7a, pela f\u00e9 ou pela ideologia \u00e9 muito pouco. Acho que a gente quer trabalhar o espa\u00e7o rec\u00f4ndito da pessoa. O que voc\u00ea pode brotar \u00e9 muito mais do que uma constru\u00e7\u00e3o geom\u00e9trica de acordes. Eu tentei dar nesse v\u00eddeo um crescente, crescente que, a\u00ed, quando aparece a luz em cima do santo sepulcro, aquilo \u00e9 porque eu, humildemente, ajoelho diante de Jesus, ajoelho diante de Buda, ajoelho diante desses grandes que trouxeram uma outra dimens\u00e3o para a humanidade. Agora, do que isso \u00e9 feito, no que isso se transformou, escravatura, isso \u00e9 a mis\u00e9ria humana que transformou, por exemplo, o imp\u00e9rio do Vaticano em uma coisa sanguin\u00e1ria, das igrejas terem aquele ouro todo dos incas. Porque, aqui na Espanha, est\u00e1 tudo \u00e0 mostra. Voc\u00ea v\u00ea o ouro dos astecas e dos incas ali resistindo nos altares. Eu n\u00e3o deixo de ter senso cr\u00edtico quando chego diante de uma igreja. Quando eu chego, por exemplo, diante de um cemit\u00e9rio ou de uma igreja, e \u00e9 importante o que eu vou falar. Eu pergunto: &#8220;o que est\u00e1 ali? \u00c9 ali que mora Deus? N\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 ali que mora. \u00c9 ali que mora o criador do universo? Ele mora ali? Para que essa casa? Para que? Por que o ser humano faz isso?&#8221; Por que o ser humano levanta pir\u00e2mides?&#8221; E tem outras pir\u00e2mides que a humanidade levanta que n\u00e3o s\u00e3o f\u00edsicas, que s\u00e3o no campo da linguagem, no campo espiritual. E que s\u00e3o pir\u00e2mides, tamb\u00e9m. Por que a humanidade precisa dessas representa\u00e7\u00f5es? Eu j\u00e1 me julgo bem pr\u00f3ximo de uma s\u00edntese, de uma liga\u00e7\u00e3o com uma coisa bem maior que existe por tr\u00e1s de tudo. Acho que as pessoas deveriam procurar, tamb\u00e9m. Procurar por algo mais grandioso. Um Deus caipira, por exemplo, que tenha criado o mundo outro dia, a semana passada. Um Deus caipira porque as religi\u00f5es tentam codificar para aquela pessoa humilde que tem pouca compreens\u00e3o. Mas quem tiver mais compreens\u00e3o, pode enxergar o tamanho desse tro\u00e7o como sendo um tamanho que imp\u00f5e respeito maior. N\u00e3o \u00e9 simplesmente sair acreditando. Eu sou um cara que olha o universo como uma coisa magn\u00edfica. Um neg\u00f3cio de um tamanho descomunal. E eu acho a ci\u00eancia uma das coisas privilegiadas. Para quem tem a f\u00e9 nesse Deus, a ci\u00eancia tamb\u00e9m \u00e9 uma obra desse Deus. O conhecimento e a raz\u00e3o humana tamb\u00e9m s\u00e3o cria\u00e7\u00f5es divinas. E o poder de duvidar tamb\u00e9m \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o divina. O poder de questionar tamb\u00e9m faz parte. Ent\u00e3o, as pessoas devem saber que esse universo estar\u00e1 sorrindo sempre que voc\u00ea estiver grande de alma, para enxergar grande as coisas. E n\u00e3o tentar reduzir em um c\u00f3digo pequeno de conduta, um c\u00f3digo de comportamento. Isso n\u00e3o tem nada a ver. O que eu quero \u00e9 o sentimento l\u00e1 dentro das pessoas. \u00c9 isso que eu acho uma busca bacana.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Guilherme Arantes - Nossa Imensid\u00e3o a Dois\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/19o_DLxnqZQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Foi curioso ouvir a faixa \u201cNossa Imensid\u00e3o a Dois\u201d e pensar no aspecto nost\u00e1lgico que me acalenta \u00e0s vezes. No modo como muitas lembran\u00e7as de alguns per\u00edodos antigos de minha vida agem comigo de modo quase terap\u00eautico, nessa mesma ideia de cristalizar o passado ao observ\u00e1-lo por um caleidosc\u00f3pio que voc\u00ea cita na letra.<\/strong><br \/>\nEssa m\u00fasica foi uma que eu insisti em terminar a produ\u00e7\u00e3o para lan\u00e7\u00e1-la direito, com um arranjo bacana. Ela \u00e9 um pouco antiga, de 2018. Agora, o que eu acho que \u00e9 a chave da can\u00e7\u00e3o \u00e9: &#8220;l\u00e1 no fundo, as mem\u00f3rias, nada foi t\u00e3o perfeito. E essas mem\u00f3rias se cristalizaram em um caleidosc\u00f3pio de ilus\u00e3o.&#8221; Esse poema, eu agradeci muito. Agradeci por ter vindo essa mensagem de que a gente cristaliza o passado e o joga em um caleidosc\u00f3pio de que tudo foi perfeito. Essa coisa dos cristais dentro do caleidosc\u00f3pio, as imagens que ficaram do passado, que se cristalizaram, ficam purificadas. Mas o passado era dif\u00edcil, era sofrido demais, nada foi t\u00e3o perfeito. A vida \u00e9 sempre \u00edngreme. Essas dificuldades, essas \u00e9pocas que a gente passa como prova\u00e7\u00e3o, l\u00e1 no futuro, vamos cristalizar e jogar em um caleidosc\u00f3pio de ilus\u00e3o. O que eu quero, e que \u00e9 preciso, \u00e9 fazer um pacto de dar valor. Mais do que tudo, sempre dar valor. Eu tenho uma mem\u00f3ria prodigiosa que guarda elementos da minha inf\u00e2ncia, da minha mocidade, da minha adolesc\u00eancia. E isso \u00e9 um acervo que todas as pessoas t\u00eam dentro de si, e que t\u00eam que manter de tempo em tempo a reavivar. Alimentar para que essas mem\u00f3rias n\u00e3o fiquem em uma zona j\u00e1 de arquivo morto. Porque nada na vida \u00e9 arquivo morto. Tudo est\u00e1 presente. E a nossa mente \u00e9 prodigiosa em vencer o tempo. Acaba vencendo o par\u00e2metro do tempo, que \u00e9 o grande mist\u00e9rio da vida. Voc\u00ea ter tudo isso presente, o acervo que voc\u00ea tem, que \u00e9 a sua vida, \u00e9 precioso. \u00c9 uma coisa que voc\u00ea tem que guardar com muito zelo. Com carinho, com perd\u00e3o, com compaix\u00e3o. Mais uma vez, a palavra compaix\u00e3o comparece porque ela \u00e9 a maneira melhor de conservar as mem\u00f3rias. O conservante de mem\u00f3rias perfeito \u00e9 a compaix\u00e3o. Porque voc\u00ea abra\u00e7a o que voc\u00ea viveu e consegue dar um passo al\u00e9m. N\u00f3s somos prodigiosos nas nossas mem\u00f3rias. \u00c9 algo muito presente em n\u00f3s. Essa m\u00fasica \u00e9 muito especial para mim, pois fiz em um momento dram\u00e1tico de minha vida. A idade vai passando. A gente vai chegando nos 70 anos e eu acho que houve uma sinergia com o p\u00fablico. O pessoal de r\u00e1dio adorou a m\u00fasica. O Zeca Camargo, por exemplo, falou para mim que a m\u00fasica e a letra bateram fundo nele. Com quase 70 anos de idade, essa \u00e9 uma realiza\u00e7\u00e3o muito grande: eu conseguir ser pungente, ser importante, como eu fui quando tinha 15 anos. Foi quando eu escrevi &#8220;me atirei no mundo, vi tudo mudar. Das verdades que eu sabia&#8230;&#8221; Eu era um menino. Um menino angustiado, como eu sou hoje, ainda. Aquele Guilherme est\u00e1 aqui presente, ainda. Isso \u00e9 uma alegria muito grande que sobreviveu. O melhor de mim era a minha ang\u00fastia. O melhor de mim era o meu estranhamento, a minha solid\u00e3o. Era um menino ensimesmado, caminhando sozinho, e escrevendo, escrevendo. Eu me senti de novo assim, agora, no quartinho aqui de casa onde eu fiz o disco. (N.E. Nesse momento, durante a conversa de v\u00eddeo, Guilherme mostrou o local de trabalho &#8211; abaixo &#8211; e a prova da capa do disco).<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-61933\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/elrastro.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/elrastro.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/elrastro-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E a arte da capa?<\/strong><br \/>\nEssa imagem na capa do disco \u00e9 o El Rastro. Essa \u00e9 a imagem do LP, com essa capa dupla. O LP vai ter que ser importado, pois no Brasil est\u00e1 faltando a mat\u00e9ria prima. Fizemos grande, assim, com um encarte que \u00e9 todo tipo um almanaque. E se aproxima do cordel, tamb\u00e9m. Essa linguagem ib\u00e9rica de Don Sebasti\u00e3o, que sumiu na guerra l\u00e1 no Alc\u00e1cer Quibir, e que \u00e9 uma coisa portuguesa que est\u00e1 muito presente no imagin\u00e1rio do cordel. Presente no Nordeste do Brasil, no agreste, que na nossa gera\u00e7\u00e3o, tem o Geraldo Azevedo, que \u00e9 um mestre do Barroco. Ele \u00e9 um bardo barroco com o seu viol\u00e3o. E junto com ele, vem o Alceu Valen\u00e7a e o Z\u00e9 Ramalho. Tem tamb\u00e9m o Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, o Ariano Suassuna, e o Movimento Armorial. Tudo isso \u00e9 muito ib\u00e9rico. Lembra o muito Espanha, Portugal. Lembra muito idade m\u00e9dia. Esse \u00e9 o clima disso a\u00ed, que eu acho que tem muito a ver comigo, com o afeto meu, tamb\u00e9m. Com o fato de eu transformar o rock progressivo em um bai\u00e3o, um rock progressivo de cangaceiros. E o canga\u00e7o possui esse hero\u00edsmo e essa utopia. E a distopia, tamb\u00e9m. \u00c9 algo muito brasileiro e tem tudo a ver com a supera\u00e7\u00e3o da nossa etnia brasileira. Eu achei que me leva muito para as m\u00fasicas de festivais, sabe? (Cantando a m\u00fasica \u201cPonteio\u201d, de Edu Lobo): &#8220;Era um, era dois, era cem. Vieram pr\u00e1 me perguntar: \u00d3 voc\u00ea de onde vai, de onde vem?&#8221; Ent\u00e3o, \u00e9 Capinam, \u00e9 o \u201cDomingo no Parque\u201d. Eu acho que isso \u00e9 fant\u00e1stico. \u00c9 \u201cDisparada\u201d (canta a m\u00fasica de Jair Rodrigues):&#8221;mas o mundo foi rodando, nas patas do meu cavalo.&#8221; O Brasil precisa disso, Jesus! Sabe? Precisa desse hero\u00edsmo. Precisa levantar a nossa alma. A nossa alma guerreira, no bom sentido, entendeu? Contra a trucul\u00eancia do mundo. Eu acho que esse disco consegue levantar essas quest\u00f5es j\u00e1 de uma vida longa. J\u00e1 estou indo para os 70 anos, em breve. Mas \u00e9 um privil\u00e9gio, aqui, porque eu estou longe, fora no tempo e do espa\u00e7o das coisas. Parece que o mundo parou para que eu conseguisse alinhavar um tro\u00e7o novo na minha vida. Eu tenho uma gratid\u00e3o enorme por estar vivendo isso. Por lan\u00e7ar um disco desse. Por poder contar tudo isso. \u00c9 um privil\u00e9gio para mim, sabe? Um momento, assim, de vida, em que voc\u00ea coloca para fora uma pepita grande que se achou ali. \u00c9 pra isso que a gente vive. Para esses momentos assim. E eu quero com esse disco, realmente, conquistar outros p\u00fablicos, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-61936\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/desordem.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"377\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/desordem.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/desordem-300x151.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em rela\u00e7\u00e3o ao seu processo de composi\u00e7\u00e3o, queria abordar contigo se a faixa \u201cNenhum Sinal do Sol\u201d possui uma inten\u00e7\u00e3o de transcrever um momento de pesadelo, uma situa\u00e7\u00e3o que voc\u00ea pode ter vivido realmente, por\u00e9m ela traz uma sensa\u00e7\u00e3o de otimismo de nos fazer perceber que trata-se de uma fase que poder\u00e1 vir a passar. Houve essa inten\u00e7\u00e3o, realmente, na sua mensagem?<\/strong><br \/>\nA m\u00fasica fala de um pesadelo no qual o rei estava na porta do El Rastro. Esse nome, El Rastro, \u00e9 o de uma rua, aqui. Na Espanha, El Rastro \u00e9 onde se faz o mercado, onde se vende as mercadorias. Aqui se chama El Rastro de la Carne, porque a rua ficava toda ensanguentada, pois traziam os bichos mortos. \u00c9 uma coisa meio b\u00e1rbara daqui de \u00c1vila. Aqui \u00e9 um lugar de pecu\u00e1ria. \u00c9 a capital da carne na Espanha. Ent\u00e3o, chama El Rastro de La Carne. Mas ele ficou marcado como um lugar nobre de participa\u00e7\u00e3o social, onde todos os eventos p\u00fablicos aconteciam. Tem um balc\u00e3o ali e eu fico imaginando que se abriam as portas e o rei fazia seu pronunciamento. As leis e todos os eventos aconteciam no El Rastro. A multid\u00e3o toda ia para l\u00e1. Enfim, \u00e9 um espa\u00e7o pol\u00edtico. E ali, ent\u00e3o, o rei decretava que os jovens teriam que se alistar, os var\u00f5es. E eu realmente tive esse sonho no qual n\u00f3s \u00e9ramos bem pobres, e eu me pus no lugar que n\u00f3s \u00e9ramos dois jovens com 20 anos, inocentes, com roupas de trajes pastoris. E ali naquele balc\u00e3o, o rei decretando que eu teria que me alistar e partir rumo ao Sol Nascente, que \u00e9 Jerusal\u00e9m. E l\u00e1, lutar pela f\u00e9, decretando as cruzadas. E, ent\u00e3o, eu juro para ela que vou voltar, que eu vou me encoura\u00e7ar, que nenhum drag\u00e3o vai me amea\u00e7ar e que vou voltar para casar com ela. Eu fiquei muito envolvido por essa cena. Parece uma cena de filme, daqueles medievais, com o rei autorit\u00e1rio sobre a popula\u00e7\u00e3o. No meu sonho, eu voltava l\u00e1 para buscar a minha esposa. N\u00f3s fug\u00edamos de l\u00e1 e v\u00ednhamos para o tempo atual, de 2021, em \u00c1vila, onde o dia estava amanhecendo. N\u00f3s escap\u00e1vamos daquele tempo de guerra e v\u00ednhamos para esse tempo, aqui. Um tempo mais real, s\u00f3 nosso. Isso porque o tempo que vale \u00e9 o tempo afetivo. \u00c9 o tempo do amor. \u00c9 o tempo da paz. \u00c9 o tempo da compaix\u00e3o. Esse \u00e9 o nosso mundo. \u00c9 o mundo real. Aquele mundo de guerra. Aquele mundo de cruzada, de morte, lan\u00e7a, de se encoura\u00e7ar, aquilo tudo \u00e9 uma mentira. A realidade da vida \u00e9 a beleza do nosso tempo, aqui. Nosso tempo afetivo, em que o sol est\u00e1 nascendo. E eu, naquele momento, anotei r\u00e1pido aquilo, pois sabia que era uma letra de m\u00fasica. E eu tentei transform\u00e1-la no mais Elton John poss\u00edvel. Assim, com o baixo de pau, a orquestra. Porque o Elton John \u00e9 altamente barroco nas m\u00fasicas dele. Ent\u00e3o, eu fiquei muito satisfeito com a beleza, com a delicadeza, com a vassourinha que o Gabriel (Martini) fez na bateria. Com o baixo de pau, uma coisa acess\u00edvel, com viol\u00f5es, ala\u00fade, e a orquestra. \u00c9 uma coisa que remete ao Jean Claude Vannier, que \u00e9 o arranjador do Serge Gainsbourg. Quando na parte final a letra diz: &#8220;vem, nos resgata essa manh\u00e3, que nos faz desertar, fugir, para um mundo mais real, s\u00f3 nosso. Acordo assombrado de um sonho e ainda n\u00e3o tem nenhum sinal do sol.&#8221;Achei t\u00e3o bonito isso. \u00c9 um dos momentos mais eu, porque n\u00f3s, aqui, somos muito sozinhos. Eu e a M\u00e1rcia, isolados, sem a fam\u00edlia, sem ningu\u00e9m. \u00c9 o nosso amor, aqui. Algo que \u00e9 importante para a gente, importante para mim. Este \u00e9 um disco que me d\u00e1 um tro\u00e7o de ouvir. E eu quero passar isso para todo mundo. Se passar, ficarei muito feliz. Porque eu acho que esse \u00e9 o melhor da gente. \u00c9 o afeto. \u00c9 isso que a trucul\u00eancia espera que a gente perca. O afeto. E aqui, \u00f3! Aqui para a trucul\u00eancia! N\u00f3s temos que ser amorosos. N\u00f3s temos que ser afetivos. Ent\u00e3o, para preservar n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 receber uma vacina e botar uma m\u00e1scara. \u00c9 tamb\u00e9m, alegoricamente, a gente encoura\u00e7ar o nosso afeto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Come\u00e7amos o papo falando sobre sua trajet\u00f3ria e sobre os desafios que voc\u00ea se imp\u00f4s na busca por reconhecimento. H\u00e1 rimas, por exemplo, entre o lan\u00e7amento de \u201cCora\u00e7\u00e3o Paulista\u201d por aquele Guilherme Arantes de vinte e poucos anos, e, agora com A Desordem dos Templ\u00e1rios pelo Guilherme de sessenta e poucos.<\/strong><br \/>\nH\u00e1, sim, com certeza. Esse \u00e9 um disco de supera\u00e7\u00e3o. Supera\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias coisas. Da ang\u00fastia, da minha dor f\u00edsica, que eu continuo sentindo. Tive que vencer essa braquialgia. Tive que vencer o nosso isolamento da pandemia. Vencer esse tempo de distopia no mundo, no Brasil. Um tempo, tamb\u00e9m, de ang\u00fastia com a minha carreira, com o que foi. A gente n\u00e3o quer entregar a rapadura, como se diz. N\u00e3o queremos largar o osso. Queremos significar. Significar um diferencial para as pessoas. Trazer um novo olhar. Um olhar que eu acho que posso proporcionar. Um olhar distanciado no tempo e no espa\u00e7o. \u00c9 um vinilz\u00e3o como era o \u201cCora\u00e7\u00e3o Paulista\u201d, tamb\u00e9m. Um disco com uma arte na capa, algo mais conceitual, uma coisa mais forte. Agora, eu tenho uma grande gratid\u00e3o com a vida e uma gratid\u00e3o com a ind\u00fastria fonogr\u00e1fica, tamb\u00e9m. Porque, naquela \u00e9poca, poderia ter sido proibido para mim, fazer um tro\u00e7o daquele. E as pessoas a quem eu tenho que agradecer, como o Andre Midani, o Leonardo Neto, essa gente que acreditou e deixou. &#8220;Deixa o Guilherme fazer as loucuras dele ali.&#8221; Isso \u00e9 um privil\u00e9gio. Eu me considero um privilegiado de verdade. Uma gratid\u00e3o muito grande de ter um p\u00fablico muito amplo, muito diverso, muito socialmente crossover total. Pega pessoas de todas a gamas sociais, regionais ou religiosas, que seja. A gente consegue ser abrangente. Isso \u00e9 um privil\u00e9gio muito grande. Sabe, m\u00fasicas que eu fiz, como \u201cCheia de Charme\u201d, uma can\u00e7\u00e3o comercial, de balan\u00e7o, de r\u00e1dio, mas \u00e9 uma m\u00fasica que deu alegria para tanta gente, de tantas gamas da sociedade. E quando toca, podemos estar desde uma comunidade mais simples, como um clube naval da marinha, um pessoal mais chique da zona sul, e a gente percebe que a alegria \u00e9 a mesma. Imagina que tem show que eu fa\u00e7o e quando eu toco \u201cCheia de Charme\u201d, os casais se beijam, os homens se abra\u00e7am, viram crian\u00e7as. Puxa, quando voc\u00ea traz essa alegria, \u00e9 um grande diferencial para a gente. Ent\u00e3o, \u00e9 isso. Eu consigo ter uma carreira bastante completa. Espero que esse ano a gente emplaque v\u00e1rias dessas m\u00fasicas. Porque elas s\u00e3o, tamb\u00e9m, radiof\u00f4nicas. Foram todas medidas para ter um tamanho radiof\u00f4nico. Aquela coisa da introdu\u00e7\u00e3o de 20 segundos, depois vem uma parte de um minuto e \u00e9 quando entra j\u00e1 o refr\u00e3o. Isso a\u00ed \u00e9 Beatles, \u00e9 Erasmo Carlos, \u00e9 Tim Maia, s\u00e3o os grandes hitmakers. Ent\u00e3o, esse ano, aqui eu acho que eu estou com a macaca (risos). Vai ser um ano bom!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-61937\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/puzzle.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/puzzle.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/puzzle-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/puzzle-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ele acaba de completar 68 anos de idade e 45 de carreira. Como marco, lan\u00e7ou um disco com influ\u00eancias do rock progressivo e letras que criam pontes entre o passado e o presente ao abordar a hist\u00f3ria da humanidade atrav\u00e9s de suas guerras\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/08\/12\/entrevista-guilherme-arantes-fala-sobre-vida-universo-carreira-e-seu-novo-disco-a-desordem-dos-templarios\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":61938,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[102],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61924"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=61924"}],"version-history":[{"count":14,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61924\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":61958,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61924\/revisions\/61958"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/61938"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=61924"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=61924"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=61924"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}