{"id":61774,"date":"2021-07-31T00:31:17","date_gmt":"2021-07-31T03:31:17","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=61774"},"modified":"2022-01-11T04:01:56","modified_gmt":"2022-01-11T07:01:56","slug":"entrevista-julia-grilo-fala-sobre-caes-seu-primeiro-romance-publicado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/07\/31\/entrevista-julia-grilo-fala-sobre-caes-seu-primeiro-romance-publicado\/","title":{"rendered":"Entrevista: J\u00falia Grilo fala sobre &#8220;C\u00e3es&#8221;, seu primeiro romance publicado"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/linktr.ee\/navionoespaco\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcela G\u00fcther<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Romancista, ensa\u00edsta e cronista, <a href=\"https:\/\/twitter.com\/jupiteriza\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">J\u00falia Grilo<\/a> nasceu em Salvador, no in\u00edcio dos anos 2000. \u00c9, por\u00e9m, a partir da conson\u00e2ncia entre o sert\u00e3o e o rec\u00f4ncavo baiano que encontra os fundamentos de sua literatura: morando em Am\u00e9lia Rodrigues, deslocava-se a Feira de Santana quase diariamente, do gin\u00e1sio ao fim do colegial. \u201c(\u2026) No sert\u00e3o eu costumava estar de passagem, nunca para dormir; meu sono era \u00famido e abafado, lambido pelo mela\u00e7o da cana-de-a\u00e7\u00facar\u201d. Enredada na cibercultura, aos 10 assimila a linguagem intern\u00e9tica e, atrav\u00e9s da escrita em blogspots, esbo\u00e7a as bases de sua est\u00e9tica, marcada pelo coloquialismo, pela rapidez e, sobretudo, pela ruptura com a anterioridade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos 15, escreve o seu primeiro livro, um ensaio sobre a escola a partir de sua perspectiva estudantil, fazendo uso de estil\u00edstica tensa, espirituosa e estridente. Este texto, nomeado \u201cPerdemos o futuro\u201d, \u00e9 a g\u00eanese essencial de seu projeto liter\u00e1rio e configura os pilares de sua escrita. J\u00falia Grilo n\u00e3o se interessa em public\u00e1-lo, no entanto, embora tenha sido convidada para tal. Aos 17, finaliza \u201cDeser\u00e7\u00e3o\u201d, o seu primeiro romance, cuja publica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o veio a interessar a autora, que encontra em \u201c<a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/C%C3%A3es-J%C3%BAlia-Grilo-ebook\/dp\/B095TYSYQ5\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">C\u00e3es<\/a>\u201d (2020), finalmente, o raiar de sua trajet\u00f3ria no universo da literatura. Ela tinha o objetivo de vender &#8220;ao menos 300 exemplares, que esgotaram em poucas horas&#8221;. Agora, <a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/C%C3%A3es-J%C3%BAlia-Grilo-ebook\/dp\/B095TYSYQ5\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">disponibiliza &#8220;C\u00e3es&#8221; em e-book<\/a>, tentando fazer &#8220;com que o livro chegue um pouco mais distante de mim&#8221; (se voc\u00ea quiser a vers\u00e3o f\u00edsica, <a href=\"https:\/\/www.editorapenalux.com.br\/loja\/caes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">adquira aqui<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;C\u00e3es&#8221;, que traz a orelha assinada por Laerte (&#8220;Ela sempre me acolheu, e ainda hoje \u00e9 uma das primeiras a ler o que eu escrevo&#8221;), \u00e9 uma obra que tra\u00e7a uma investiga\u00e7\u00e3o profunda e filos\u00f3fica sobre o que \u00e9 humanidade, e o que aproxima e distancia o homem de outros animais. Na conversa abaixo, J\u00falia Grilo lista revolu\u00e7\u00f5es (&#8220;Machado de Assis, aos 15. Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, aos 17. E Elena Ferrante, aos 19.&#8221;), influ\u00eancias, fala sobre o processo de cria\u00e7\u00e3o de &#8220;C\u00e3es&#8221;, destaca o feminino no livro e avisa: &#8220;H\u00e1 quem n\u00e3o goste do popular, o que para mim \u00e9 rid\u00edculo (dado que elitista, dado que racista, dado que o Brasil \u00e9 um pa\u00eds s\u00e1dico por natureza). Eu gosto do popular e gosto da contradi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. O que eu n\u00e3o gosto \u00e9 que me digam o que fazer&#8221;. Com voc\u00ea, J\u00falia Grilo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-61776\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/caes2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1125\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/caes2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/caes2-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como a literatura entrou em sua vida? Quais autores a influenciaram?<\/strong><br \/>\n\u00c9 dif\u00edcil falar da arte sem fazer com que ela pare\u00e7a um fen\u00f4meno extraordin\u00e1rio. S\u00f3 que a literatura, para mim, \u00e9 um exerc\u00edcio bastante cotidiano, e justamente nas miudezas da vida comum que ela tem as suas ra\u00edzes: acho que eu s\u00f3 virei escritora porque nunca quis ser uma. A escrita passa a ser uma pr\u00e1tica aos meus 10 ou 11 anos, quando eu publicava textos cheios de humor e ironia nas plataformas Blogspot \u2013 ningu\u00e9m lia, claro. Em circunst\u00e2ncias assim \u00e9 que a arte se revela uma inutilidade essencial, como diz Caetano \u2013 eu escrevia para escrever, sem justificativas mais sofisticadas. Aos 15, por\u00e9m, a coisa vai ganhando a solidez de um of\u00edcio, quando escrevo um ensaio sobre a escola chamado \u201cPerdemos o futuro\u201d. Eu comecei a escrev\u00ea-lo sem ter ideia do que estava fazendo e s\u00f3 descobri o que era aquilo depois, quando lhe deram um nome \u2013 antes eu e Laerte o cham\u00e1vamos de \u201ctexto-grande\u201d. Em minha rela\u00e7\u00e3o com literatura, tr\u00eas revolu\u00e7\u00f5es copernicanas foram respons\u00e1veis por mudar tudo o que veio depois: Machado de Assis, aos 15. Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, aos 17. E Elena Ferrante, aos 19.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais as suas principais influ\u00eancias liter\u00e1rias atuais?<\/strong><br \/>\nGosto de Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, de Ana Paula Maia, de Daniel Galera, de Marcelo Labes e do saudoso Victor Heringer. Gosto das minhas amigas paulistas Mariana Carrara e Maria Eug\u00eania Moreira. Gosto dos meus amigos baianos Hosanna Almeida, Maria Luiza Machado, K\u00e1tia Borges e Jo\u00e3o Victtor Gomes Varj\u00e3o. Gosto de Tom Z\u00e9, sempre ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais livros e escritores influenciaram diretamente \u201cC\u00e3es\u201d?<\/strong><br \/>\nAcho que \u00e9 na dist\u00e2ncia entre a verdade e o desejo que arte e ci\u00eancia se separam. E me interessam os dois: me interessa o rigor cient\u00edfico e me interessa a irresponsabilidade art\u00edstica. Dentro deste intervalo, ent\u00e3o, eu posso dizer que est\u00e3o em \u201cC\u00e3es\u201d Milton Santos em \u201cA urbaniza\u00e7\u00e3o brasileira\u201d, a \u201cTetralogia Napolitana\u201d de Elena Ferrante, \u201cSa\u00fade Mental, G\u00eanero e Dispositivos\u201d de Valeska Zanello e \u201cAs veias abertas da Am\u00e9rica Latina\u201d de Eduardo Galeano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como define seu estilo de escrita?<\/strong><br \/>\nH\u00e1 algum tempo li um artigo que definia Jo\u00e3o Gilberto como a contradi\u00e7\u00e3o de ser ao mesmo tempo um cl\u00e1ssico e um esc\u00e2ndalo. \u00c9 essa mesma contradi\u00e7\u00e3o que eu admiro em Ferrante. H\u00e1 quem n\u00e3o goste do popular, o que para mim \u00e9 rid\u00edculo (dado que elitista, dado que racista, dado que o Brasil \u00e9 um pa\u00eds s\u00e1dico por natureza). Eu gosto do popular e gosto da contradi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. O que eu n\u00e3o gosto \u00e9 que me digam o que fazer, e tem isso tudo na minha escrita: \u00e9 desesperada, com meus vest\u00edgios de crian\u00e7a; \u00e9 s\u00f3bria, com minha vontade de adulto; e \u00e9 incivil, porque eu n\u00e3o gosto que me digam o que fazer. \u201cC\u00e3es\u201d tem uma linguagem densa e fluida, eu acho, e eu gosto da contradi\u00e7\u00e3o de ser densa e fluida. Gosto da contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que a fez se sentir segura para lan\u00e7ar seu primeiro romance? Quais dificuldades enfrentou no processo de edi\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nAntes de \u201cC\u00e3es\u201d, eu j\u00e1 havia finalizado dois projetos, mas n\u00e3o quis public\u00e1-los, embora tenha recebido alguns convites para faz\u00ea-lo. Eu n\u00e3o me sentia pronta. Acho que o horizonte de Am\u00e9lia Rodrigues, cidade onde cresci, fazia tudo parecer muito assustador. Em Salvador, por\u00e9m, eu encontro a efervesc\u00eancia, a urbanidade que se movimenta, a dial\u00e9tica, e a din\u00e2mica da vida art\u00edstica deixou ent\u00e3o de me soar t\u00e3o intang\u00edvel: eu via as pessoas produzindo e queria fazer parte da brincadeira tamb\u00e9m. Assim, a publica\u00e7\u00e3o de \u201cC\u00e3es\u201d foi se tornando inevit\u00e1vel, n\u00e3o s\u00f3 pela recep\u00e7\u00e3o positiva que vinha recebendo desde o princ\u00edpio, mas tamb\u00e9m porque encontrei em sua narrativa, finalmente, o Zeitgeist que procurava. Com o perd\u00e3o pelo cartesianismo, reconhecer-me em dom\u00ednio da forma liter\u00e1ria me levou a concluir que j\u00e1 havia em meu trabalho uma solidez que o sustentaria independentemente de mim. Queria que a minha estreia tivesse for\u00e7a o bastante para desbravar o mundo sozinha, e esta escolha n\u00e3o poderia ter sido mais feliz: \u201cC\u00e3es\u201d marca o in\u00edcio do meu projeto liter\u00e1rio e anuncia que a minha rela\u00e7\u00e3o com a literatura se trata de uma rela\u00e7\u00e3o cont\u00ednua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Queria que voc\u00ea falasse tamb\u00e9m sobre o processo de cria\u00e7\u00e3o de \u201cC\u00e3es\u201d.<\/strong><br \/>\n\u201cC\u00e3es\u201d come\u00e7ou, primeiro, como um desafio que decretei para mim mesma: eu j\u00e1 sabia que conseguia dissertar ensaisticamente, coisa que havia aprendido com \u201cPerdemos o futuro\u201d, e por isso mesmo queria saber at\u00e9 que ponto guiaria uma narrativa como romancista, contando uma hist\u00f3ria que n\u00e3o a minha. Em 2017, eu finalizei um romance chamado \u201cDeser\u00e7\u00e3o\u201d, que eu detesto, porque acho que ele denuncia tudo que eu tinha de mais rid\u00edculo \u2013 \u00e9 vulgarmente adolescente, dram\u00e1tico, apressado, impreciso (estive em contradi\u00e7\u00f5es dolorosas com minha juventude por muito tempo, como se pode ver). Quis ent\u00e3o me desvencilhar de vez da adolesc\u00eancia, per\u00edodo quando tudo parece muito fatal e muito urgente \u2013 um amigo disse uma vez que o sofrimento \u00e9 egoc\u00eantrico e eu acho que d\u00e1 para encontrar algum sentido nesta afirma\u00e7\u00e3o. Criar personagens e escrever na terceira pessoa era uma tentativa de praticar a alteridade e romper um pouquinho com o meu narcisismo (risos). Quando eu enviei o original de \u201cC\u00e3es\u201d para Laerte, eu escrevi: esta \u00e9 uma despedida da adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 que voc\u00ea falou nela: \u201cC\u00e3es\u201d traz uma orelha assinada por Laerte. Qual \u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o com a cartunista?<\/strong><br \/>\nEu fui uma adolescente t\u00edpica, muito dram\u00e1tica e melanc\u00f3lica. Digo assim, hoje, para tentar atenuar um pouco o horror que foi a minha adolesc\u00eancia; as coisas eram bastante tempestivas para mim. Eu estudei em col\u00e9gio particular e isso explica muita coisa (risos). Atrav\u00e9s da literatura, eu pude desenvolver uma atitude meio existencialista, e pensava: tudo bem se eu sofrer, tudo isso pode virar texto depois. Escrever era uma maneira de fazer a vida valer a pena, de signific\u00e1-la. E a\u00ed, um dia, eu descobri que um cartunista da Folha, o Jo\u00e3o Montanaro, fora contratado aos 14. Eu fiquei toda serelepe (risos), porque tinha 14 anos tamb\u00e9m, sofrendo as agruras da precocidade. Da\u00ed escrevi para ele, e ele me disse: escreve para Laerte, ela vai te adorar. N\u00e3o \u00e9 que ela me adorou mesmo? Viramos amigas, surpreendentemente amigas, e acho que \u00e9 com ela que eu compartilho as dimens\u00f5es mais basilares da minha vida \u00edntima. Como ningu\u00e9m me dava muita bola no col\u00e9gio, era Laerte quem lia as coisas que eu escrevia. Ela costuma ser sempre uma das primeiras a ler, at\u00e9 hoje. Gosto demais dela. E quero ser que nem ela quando eu crescer (risos). Na escola, quando eu dizia que \u00e9ramos amigas, ningu\u00e9m acreditava! Durante quase toda a minha adolesc\u00eancia, Laerte foi a \u00fanica pessoa que dava bola para o que eu escrevia \u2013 e eu realmente me sentia muito sozinha. Acho que \u00e9 aqui que a representa\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica do artista como um outsider, um estrangeiro irremedi\u00e1vel, pode se esbaldar (risos). N\u00e3o sou muito partid\u00e1ria desta representa\u00e7\u00e3o, mas o fatalismo da adolesc\u00eancia \u00e9 um prato cheio para ela: eu n\u00e3o me compreendia muito bem entre os meus pares e as minhas d\u00favidas sempre culminavam em grandes trag\u00e9dias. O meu primeiro livro \u201cPerdemos o futuro\u201d (que tem o pref\u00e1cio de Laerte, tamb\u00e9m) foi fruto de uma dessas trag\u00e9dias, dessa cis\u00e3o com alguns aspectos da coletividade. Laerte sempre me acolheu, e ainda hoje \u00e9 uma das primeiras a ler o que eu escrevo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que diria a quem est\u00e1 produzindo, ou pretende produzir, uma narrativa de f\u00f4lego? Quais s\u00e3o as maiores dificuldades?<\/strong><br \/>\nEu fiquei muito surpresa quando descobri, na apresenta\u00e7\u00e3o que Richard P. Martin faz \u00e0 edi\u00e7\u00e3o da \u201cOdisseia\u201d da Cosac Naify, que os textos hom\u00e9ricos foram m\u00fasicas cantadas ao longo dos s\u00e9culos antes de terem sido aprisionadas pela palavra escrita. No grego hom\u00e9rico, o poeta \u00e9 um cantor (aoidos), e \u00e9 de can\u00e7\u00e3o (aoid\u00e9) que surgem as \u201codes\u201d. E eu, que sempre me constrangi pela minha inabilidade musical, que mal sei distinguir as notas musicais, que sempre me apaixono por m\u00fasicos porque eles sabem do que eu n\u00e3o sei e o n\u00e3o saber me \u00e9 assombroso e fascinante, descobri que a m\u00fasica e a literatura estavam mais afins do que o que eu pensava. \u00c9 justamente desta afinidade que surge o ritmo, o f\u00f4lego narrativo. Nunca pensei que fosse capaz de fazer m\u00fasica \u2013 mas pelo visto, eu sou sim. Em Elena Ferrante, \u201cLila sabia falar por meio da escrita (&#8230;), sabia falar sem que se sentisse o artif\u00edcio da palavra escrita\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Poderia comentar sobre o feminino em \u201cC\u00e3es\u201d?<\/strong><br \/>\nEu comecei a escrever &#8220;C\u00e3es&#8221; porque Cafe\u00edna \u2013 sim, a cachorra \u2013 estava morrendo e eu me sentia culpada por isto. Ai de mim que ainda sou crist\u00e3! Cafe\u00edna meio que come\u00e7ou a apodrecer depois que pariu, e ela pariu porque eu quis, pariu por mim, por minha culpa. Eu sei que o cio \u00e9 um acontecimento org\u00e2nico, a biologia tem ares tir\u00e2nicos. Tem uns per\u00edodos dos meses que as cadelas de l\u00e1 de casa ficam doidas para dar, e n\u00f3s nunca deix\u00e1vamos at\u00e9 que um dia deixamos. Na minha cria\u00e7\u00e3o, o sexo s\u00f3 foi autorizado (porque uma autoriza\u00e7\u00e3o era necess\u00e1ria) depois de muita insist\u00eancia. Eu sempre quis filhotes, mas s\u00f3 consegui que meus pais os consentissem quando Cafe\u00edna j\u00e1 estava velha. N\u00e3o sei se ela os quis, porque n\u00e3o sei se os bichos t\u00eam querer, porque n\u00e3o sei se os homens t\u00eam querer. (Ali\u00e1s, se o homem, essa concep\u00e7\u00e3o milenar, n\u00e3o tem querer, acho que a mulher, essa concep\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, tem menos ainda). Eu gosto muito das int\u00e9rpretes da dor feminina. Uso \u201cfeminina\u201d porque \u00e9 uma palavra forte e porque o que \u00e9 forte quase sempre \u00e9 bom, ainda que eu n\u00e3o ache que o feminino seja uma ess\u00eancia platonista. Gosto muito de Gal Costa, gosto muito at\u00e9 de Salma J\u00f4, que foi \u201ccancelada\u201d (nem sei se o cancelamento \u00e9 uma coisa que existe). Dizem que eu pare\u00e7o Clarice, mas acho que dizem isso menos porque nos parecemos e mais porque escrevemos coisas de mulherzinha. Detesto ser mulher, mas a verdade \u00e9 que sou mulherzinha pra caramba. Sou uma mulherzinha melanc\u00f3lica \u00f3bvia pra caramba. E da\u00ed? Elena Ferrante tamb\u00e9m \u00e9, e eu a adoro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que h\u00e1 hoje em suas gavetas de in\u00e9ditos?<\/strong><br \/>\nTodas as minhas revolu\u00e7\u00f5es copernicanas, n\u00e3o \u00e0 toa, me levaram a escrever. Eu n\u00e3o me lembro de come\u00e7ar a escrever pensando que queria fazer como um ou outro autor, mas o assombro que eles provocam \u00e9 t\u00e3o grande que seus resqu\u00edcios se incorporam com naturalidade \u00e0 escrita. Depois que li Machado de Assis, aos 15, pareceu muito simples e muito natural que eu escrevesse tamb\u00e9m. Da\u00ed surgiu \u201cPerdemos o futuro\u201d, em 2015, o ensaio que eu comecei a escrever achando que era um artigo porque n\u00e3o sabia nem o que era artigo e nem o que era ensaio (risos). Ele \u00e9 um texto sobre a escola cuja for\u00e7a est\u00e1 justamente em descrever a perspectiva de uma estudante, uma adolesc\u00eancia. Eu gosto bastante dele e fiquei muito feliz quando recebi o convite da professora Maria Virg\u00ednia Dazzani, professora de Psicologia da UFBA: agora \u201cPerdemos o futuro\u201d vai compor o corpo bibliogr\u00e1fico da disciplina \u201cPsicologia e Educa\u00e7\u00e3o\u201d e vai deixar de ser t\u00e3o in\u00e9dito assim. H\u00e1 tamb\u00e9m \u201cDeser\u00e7\u00e3o\u201d (2017), o meu primeiro romance, que esbo\u00e7a as bases de minhas inclina\u00e7\u00f5es estil\u00edsticas. Embora eu tenha desenvolvido uma rela\u00e7\u00e3o estranha com ele ap\u00f3s a sua conclus\u00e3o, s\u00f3 h\u00e1 \u201cC\u00e3es\u201d porque houve \u201cDeser\u00e7\u00e3o\u201d. Ainda n\u00e3o decidi o que farei com esse texto, mas tenho pensado em sintetiz\u00e1-lo num novo tratamento. Quem sabe incorporar o seu argumento central em um pr\u00f3ximo romance, talvez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual o lugar que a literatura ocupa hoje em sua vida?<\/strong><br \/>\nDentro da oposi\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica entre empiristas e racionalistas, os primeiros que defendem que o conhecimento adv\u00e9m da experi\u00eancia, da \u201ctranspira\u00e7\u00e3o\u201d, e os segundos que s\u00e3o do time da \u201cinspira\u00e7\u00e3o\u201d, hoje a literatura ocupa em minha vida um lugar ordin\u00e1rio, bastante t\u00e9cnico. Eu gosto de pesquisar e experimentar. N\u00e3o gosto tanto dos ares m\u00edsticos que imputam \u00e0 arte, mas \u00e9 prov\u00e1vel que esta resposta mude com o tempo \u2013 h\u00e1 cinco anos eu diria uma coisa completamente diferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais s\u00e3o os seus desafios enquanto escritora independente?<\/strong><br \/>\nA tiragem m\u00e9dia de um escritor publicado por uma editora grande no Brasil \u00e9 de cerca de 2 mil exemplares, que s\u00e3o vendidos ao longo dos anos. Eu tinha o objetivo de vender ao menos 300 exemplares, o que eu achei que levaria alguns meses, mas eles esgotaram em poucas horas! Isso me deixou bem feliz, porque boa parte da divulga\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o s\u00e3o por minha conta \u2013 o que \u00e9 meu maior desafio, acho. O livro foi bem recebido na minha bolha (risos) e isso me alivia \u2013 \u00e0s vezes a gente n\u00e3o consegue convencer nem os nossos pr\u00f3prios amigos, n\u00e3o \u00e9? Acabei aprendendo que o marketing \u00e9 uma corruptela da literatura: ambos os campos giram ao redor d&#8217;uma narrativa, uma historieta. Tentei encontrar a hist\u00f3ria da hist\u00f3ria de \u201cC\u00e3es\u201d e difundi-la. Os memes tamb\u00e9m me ajudaram muito! Agora, estou lan\u00e7ando vers\u00e3o e-book de \u201cC\u00e3es\u201d e tentar fazer com que o livro chegue um pouco mais distante de mim.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-61777\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/caes3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1125\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/caes3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/caes3-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em>&#8211; <a href=\"https:\/\/linktr.ee\/navionoespaco\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcela G\u00fcther<\/a> \u00e9 jornalista, produtora de conte\u00fado, assessora de imprensa e mediadora do Leia Mulheres.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Romancista, ensa\u00edsta e cronista, J\u00falia Grilo nasceu em Salvador, no in\u00edcio dos anos 2000. \u00c9, por\u00e9m, a partir da conson\u00e2ncia entre o sert\u00e3o e o rec\u00f4ncavo baiano que encontra os fundamentos de sua literatura, que agora expande o alcance com a edi\u00e7\u00e3o em e-book de seu primeiro romance, &#8220;C\u00e3es&#8221;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/07\/31\/entrevista-julia-grilo-fala-sobre-caes-seu-primeiro-romance-publicado\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":107,"featured_media":61775,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[5278,5400],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61774"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/107"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=61774"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61774\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":61780,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61774\/revisions\/61780"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/61775"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=61774"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=61774"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=61774"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}