{"id":61628,"date":"2021-07-16T01:19:05","date_gmt":"2021-07-16T04:19:05","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=61628"},"modified":"2021-09-24T02:13:59","modified_gmt":"2021-09-24T05:13:59","slug":"entrevista-cannibal-fala-do-projeto-punk-reggae-da-devotos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/07\/16\/entrevista-cannibal-fala-do-projeto-punk-reggae-da-devotos\/","title":{"rendered":"Entrevista: Cannibal fala do projeto punk reggae da Devotos"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com 32 anos de carreira, o <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/DevotosPunk\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Devotos<\/a> \u00e9 um dos maiores expoentes quando o assunto \u00e9 arte e milit\u00e2ncia no Brasil. A maior prova \u00e9 o fato de que para al\u00e9m da sonoridade punk, que lhe \u00e9 peculiar e indissoci\u00e1vel, a banda pratica diversas a\u00e7\u00f5es sociais em Recife, mais especificamente no bairro Alto Jos\u00e9 do Pinho. Essa atua\u00e7\u00e3o, inclusive, tem contribu\u00eddo de maneira significativa para a transforma\u00e7\u00e3o da realidade local.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Formada pelo trio Cannibal (baixo e voz), Neilton (guitarra) e Celo Brown (bateria), a Devotos construiu uma s\u00f3lida discografia composta por sete \u00e1lbuns de est\u00fadio, um disco ao vivo (celebrando 20 anos de estrada) e duas compila\u00e7\u00f5es. Para al\u00e9m da sonoridade punk, a banda tem como marca letras afiadas (e dolorosamente atemporais) com forte apelo pol\u00edtico\/social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tr\u00eas anos ap\u00f3s o \u00faltimo \u00e1lbum de est\u00fadio, \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=wNlR6xw3ROw&amp;list=OLAK5uy_nB4bEKy2PMTY-ULmEWwY28FK6csqEmX0k\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Fim Que Nunca Acaba<\/a>\u201d, agora em 2021 o grupo decidiu estreitar de vez as rela\u00e7\u00f5es com o reggae, g\u00eanero que j\u00e1 haviam flertado em produ\u00e7\u00f5es anteriores, mas agora \u00e9 o fio condutor de um novo disco a ser lan\u00e7ado neste semestre atrav\u00e9s do selo Estelita. O \u00e1lbum trar\u00e1 10 releituras e a in\u00e9dita \u201c<a href=\"https:\/\/found.ee\/nossa_historia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Nossa Hist\u00f3ria<\/a>\u201d, primeiro single do projeto, j\u00e1 dispon\u00edvel nas plataformas de m\u00fasica (e com clipe foi dirigido por Ricardo Le\u00e3o abaixo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em inspiradora entrevista, Cannibal fala sobre a pandemia, a aproxima\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica entre o punk e o reggae, a import\u00e2ncia de um posicionamento antirracista, a atemporalidade do repert\u00f3rio, a influ\u00eancia da cultura local, o legado transmitido para as novas gera\u00e7\u00f5es, o papel da arte em tempos reacion\u00e1rios, a m\u00fasica em formato digital e seu car\u00e1ter democr\u00e1tico, planos futuros e muito mais. Papo essencial!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Devotos - Nossa Hist\u00f3ria\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wZPP9HmNZog?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Primeiramente gostaria de saber como voc\u00eas est\u00e3o. O que tem feito nesse per\u00edodo de pandemia?<\/strong><br \/>\nEstamos tentando manter a sanidade perante este momento de enfermidade e negacionismo no Brasil. Nesse per\u00edodo de pandemia, nos concentramos em alguns trabalhos sociais, nos envolvendo e criando. Projetos como SAS \u2013 Social Artistas Solid\u00e1rios que foi criado no come\u00e7o da pandemia por n\u00f3s tr\u00eas da Devotos, Maciel Salu, ong FASE, Dulce Reis, Priscila Moreira e Patr\u00edcia Correia. A ideia foi conseguir doa\u00e7\u00e3o financeira e com essa ajuda compramos cestas b\u00e1sicas com materiais de higiene nos mercadinhos das pr\u00f3prias comunidades. Tr\u00eas comunidades foram beneficiadas, Alto Jos\u00e9 do Pinho, Morro da Concei\u00e7\u00e3o e Cidade Tabajara. <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/sascampanha\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">No Instagram do SAS &#8211; Social Artista Solid\u00e1rio tem todos os detalhes dessa campanha<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a produ\u00e7\u00e3o executiva do <a href=\"https:\/\/www.seloestelita.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Selo Estelita<\/a> produzimos o \u201cPunk Reggae\u201d com o incentivo da lei Aldir Blanc. N\u00e3o foi f\u00e1cil porque desde que come\u00e7ou a pandemia, a banda n\u00e3o se reunia nem para ensaiar. Quando o projeto foi aprovado e sentimos uma certa seguran\u00e7a, come\u00e7amos a planejar como executar\u00edamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Criei um projeto em 2016 chamado <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/Jardim-Sonante-168170403585078\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jardim Sonante<\/a> e convidei meu amigo Fabricio Nunes, da banda Plugins, para realizarmos juntos. A ideia do Jardim Sonante \u00e9 um show sempre no \u00faltimo domingo do m\u00eas onde se apresentam quatro bandas, a maioria bandas iniciantes. A \u00fanica exig\u00eancia \u00e9 que as bandas sejam autorais e a entrada \u00e9 1kg de alimento que doamos para ONGs e asilos. Com a pandemia o projeto parou e com a iniciativa da Lei Aldir Blanc e a entrada de Aline Sales, fot\u00f3grafa e idealizadora do <a href=\"https:\/\/revistacontinente.com.br\/secoes\/indicacoes\/-ativismo--bonita-de-corpo-\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bonita de Corpo<\/a> (um coletivo que luta contra a Gordofobia), conseguimos fazer o Jardim Sonante em Forma de Live durante uma semana, 20 bandas, 5 debates e 6 ONGs contempladas. Conseguimos 1 tonelada e meias de alimentos. Al\u00e9m dos envolvimentos em trabalhos sociais aqui em Recife &#8211; vale citar o <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/projetoolharsincero\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Olhar Sincero<\/a> &#8211; todas as segundas feiras <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/07\/13\/e-preciso-renovar-a-fe-no-rock\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">fa\u00e7o uma live pelo meu Instagram<\/a> tocando meus vinis e conversando com a galera. O projeto se chama: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/canni1000\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Trocando Ideia, Ouvindo Vinil<\/a>. Come\u00e7a \u00e0s 20h e vai \u00e0s 23h.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m durante a pandemia tenho procurado vender meu livro, o \u201c<a href=\"http:\/\/editora.cepe.com.br\/livro\/musica-para-o-povo-que-nao-ouve-\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">M\u00fasica para o Povo que n\u00e3o Ouve<\/a>\u201d, que tem todas as letras da Devotos de 1997 a 2918. <a href=\"http:\/\/editora.cepe.com.br\/livro\/musica-para-o-povo-que-nao-ouve-\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Para saber mais clique aqui<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No mais, estamos nos cuidando, cuidando da fam\u00edlia, lendo, ouvindo m\u00fasica e pedindo a Deus pai Oxal\u00e1 que nos d\u00ea sa\u00fade, sapi\u00eancia e acabem com esse negacionismo, negacionismo mata!.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por mais que a Devotos seja naturalmente associada a cena punk \/ hardcore, imagino que o reggae seja um dos pilares que ajudaram a banda ser o que \u00e9 hoje. E digo isso pensando n\u00e3o s\u00f3 na sonoridade, mas tamb\u00e9m na filosofia pol\u00edtico \/ social que, historicamente, est\u00e1 associada ao g\u00eanero. Nesse sentido, como se deu a g\u00eanese e o processo de grava\u00e7\u00e3o do disco?<\/strong><br \/>\n\u00c9 bem isso mesmo&#8230; O punk e o reggae est\u00e3o muito pr\u00f3ximos, at\u00e9 no apartheid cultural que rola em Recife com esses dois ritmos. N\u00e3o estou falando no caso do Devotos que, com muita luta e perseveran\u00e7a, conseguiu furar barreiras. Mas temos os p\u00e9s no ch\u00e3o que ainda faltam muitas. Tem muita banda de reggae e punk aqui em Recife que n\u00e3o consegue se inserir nos grandes eventos, seja ele privados ou governamentais. O processo de grava\u00e7\u00e3o foi muito dif\u00edcil pelo pouco tempo que t\u00ednhamos para desconstruir o que j\u00e1 hav\u00edamos feito. Mas com pessoas como Mathias, nosso t\u00e9cnico de som e produtor do nosso \u00faltimo disco, \u201cO Fim Que Nunca Acaba\u201d (um cara que entende muito bem o nosso som e sempre foi f\u00e3 da banda) ficou mais f\u00e1cil. A ajuda do Rodrigo Catita, produtor que tamb\u00e9m como Mathias tem uma grande experi\u00eancia e tamb\u00e9m \u00e9 f\u00e3 da banda, \u00e9 a cereja do bolo. Outro cara que ajudou nesse processo foi o Pedrinho. Esse cara \u00e9 muito phoda. \u00c9 um puta arranjador, ama o reggae e o mais foda de tudo, tem a mente aberta para outros ritmos. O que eles fizeram com a m\u00fasica \u201cNossa Hist\u00f3ria\u201d foi muito do caralho. N\u00f3s gostamos muito do resultado. Sem falar nos m\u00fasicos convidados para que as m\u00fasicas chegassem o mais pr\u00f3ximo poss\u00edvel do reggae sem tirar nossa caracter\u00edstica punk. Jo\u00e3o Zarai (backing vocals), Surama Ramos (backing vocals), Diego Dr\u00e3o (\u00f3rg\u00e3o, clarinete e piano el\u00e9trico), Henrique Albino (sax tenor), Jonatas Gomes (trompete) e Thiago Duarte (percuss\u00f5es). N\u00e3o podemos deixar de destacar tamb\u00e9m a masteriza\u00e7\u00e3o feita por Buguinha Dub, um cara que temos maior respeito e considera\u00e7\u00e3o. Ele tem uma hist\u00f3ria muito forte na cultura jamaicana musical. Quando se escuta e se influencia em bandas que mudam sua hist\u00f3ria positivamente \u00e9 muito prov\u00e1vel que essas influ\u00eancias se incluam no seu som. Bandas como Bad Brains e The Clash eram as mais ouvidas. Tinham outras, mas essas ouv\u00edamos muito. Assim como o Alto Jos\u00e9 do Pinho \u00e9 uma r\u00e1dio ligada em v\u00e1rias esta\u00e7\u00f5es, aqui se toca e se escuta de tudo um pouco. A Devotos tem esse DNA no sangue porque somos nascidos e criados aqui no Alto Jos\u00e9 do Pinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Nossa Hist\u00f3ria&#8221; \u00e9 o primeiro single deste novo trabalho. A faixa \u00e9 um aut\u00eantico manifesto em prol da cultura negra, e toda a sua diversidade, em suas mais diversas esferas sociais. Historicamente, apesar de diversos avan\u00e7os nesta seara, o combate ao racismo \u00e9 uma luta secular que, infelizmente, continua em voga. Nesse sentido, qual \u00e9 a import\u00e2ncia para a banda de manter-se \u00e0 frente nesse campo de batalha?<\/strong><br \/>\nA Devotos \u00e9 uma banda que foi criada dentro do movimento punk de Recife. A parada era fazer uma banda para falar do inconformismo da nossa comunidade perante os descasos do poder p\u00fablico, coisas como saneamento, seguran\u00e7a e outras mazelas que a pol\u00edtica faz quest\u00e3o que as comunidades sofram. Essas mazelas viram promessas de votos. Falar sobre as lutas sociais e conquistas vai muito al\u00e9m do movimento punk. Essas lutas sociais e conquistas, infelizmente, n\u00e3o est\u00e3o nos livros escolares, tudo isso foi muito bem invisibilizado pela sociedade. Mulheres que lutam e se imp\u00f5e? Negros revolucion\u00e1rios lutando por sua liberdade e liberdade dos seus? Isso n\u00e3o seria uma coisa positiva para uma sociedade dominante. Esses livros estavam nas conversas com pessoas do movimento punk e, principalmente, simpatizantes que tamb\u00e9m frequentavam o point. O discurso de quem s\u00f3 queria reivindicar pela sua comunidade ia ficando mais forte, mais abrangente na medida que ir\u00edamos nos permitindo conversar, ler e debater sobre outros assuntos, alguns fora do nosso universo perif\u00e9rico. Debater em favor da homofobia dentro do movimento punk daquela \u00e9poca era praticamente imposs\u00edvel. Falar sobre gordofobia? Nem sab\u00edamos que essa palavra existia e o que significava. Os tempos mudaram, a tecnologia veio como a teoria do kaos (onde se resolve um problema e dentro das coisas resolvidas aparecem outros problemas), mas o importante \u00e9 que essa tecnologias uniu nossas lutas. Costumamos dizer que antes era cada um no seu quadrado lutando pelos seus direitos. Hoje estamos unidos. As manifesta\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 em prol de uma classe, as manifesta\u00e7\u00f5es s\u00e3o sociais em prol de uma sociedade justa para todos. \u201cO dever de um artista \u00e9 refletir o tempo em que vive\u201d. Essa frase \u00e9 de Nina Simone e n\u00f3s concordamos e fazemos quest\u00e3o de propagar! N\u00e3o entra na nossa cabe\u00e7a que o mundo est\u00e1 um Kaos e voc\u00ea n\u00e3o se manifestar de forma nenhuma. Se voc\u00ea tem o poder da m\u00fasica na sua m\u00e3o, e sabemos que a m\u00fasica muda um quadro social em qualquer \u00e9poca, voc\u00ea tem que usar, e estendo isso para a literatura, cinema, artes visuais etc&#8230; Porque m\u00fasica transforma, arte transforma. Um artista que v\u00ea a sua sociedade enferma e n\u00e3o se manifesta \u00e9 uma mentira, ele n\u00e3o est\u00e1 fazendo arte, ele s\u00f3 quer pagar suas contas!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acredito que a atemporalidade do repert\u00f3rio do Devotos seja um dos motivos que os levaram a trazer \u00e0 tona as regrava\u00e7\u00f5es que far\u00e3o parte do novo disco. Olhando para tr\u00e1s, voc\u00eas imaginavam que can\u00e7\u00f5es compostas h\u00e1 d\u00e9cadas ainda dialogariam com a contemporaneidade?<\/strong><br \/>\nQuando se fala de temas sociais no Brasil temos a certeza que esses temas v\u00e3o durar s\u00e9culos. Como voc\u00ea mesmo citou na pergunta anterior sobre o racismo, n\u00f3s podemos incluir os massacres das comunidades ind\u00edgenas e quilombolas. Esses dois exemplos at\u00e9 hoje s\u00e3o praticados. \u00cdndios lutando at\u00e9 a morte por demarca\u00e7\u00e3o de terras que, por direito, sempre foram suas. Assim como comunidades quilombolas que tem sua economia vinda do plantio, tamb\u00e9m sendo expulsos de suas terras. Governos que desde a \u00e9poca imperial lesam a sociedade com impostos e etc&#8230; Concordamos que estamos tendo grandes avan\u00e7os de lutas sociais, inclus\u00f5es e ocupa\u00e7\u00f5es principalmente na pol\u00edtica. Esse \u00e9 o lugar de mudan\u00e7a. Nada vai mudar se n\u00e3o ocuparmos os \u00f3rg\u00e3os que mudam as leis, nada vai mudar se as pessoas que sofrem no seu dia a dia, homofobia, racismo e discrimina\u00e7\u00f5es n\u00e3o ocuparem cargos que mudam as leis. Esse lance de olhar para as m\u00fasicas antigas e ver que a situa\u00e7\u00e3o continua a mesma \u00e9 muito triste e n\u00e3o imagin\u00e1vamos que, d\u00e9cadas depois, aqueles temas ainda est\u00e3o sendo debatidos ou tristemente exaltados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Musicalmente a banda carrega as tradi\u00e7\u00f5es universais do movimento punk, mas tem como diferencial a rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima com a cultura regional. Acredito que seja um exerc\u00edcio dif\u00edcil traduzir em palavras, mas de que maneira viver em Alto Jos\u00e9 do Pinho (Recife) ajudou a formatar a identidade do Devotos?<\/strong><br \/>\nFalamos sobre isso em uma das respostas anteriores. O Alto Jos\u00e9 do Pinho sempre foi uma comunidade muito efervescente culturalmente falando. O Maracatu Estrela Brilhante tem mais de 100 anos. O afox\u00e9 Il\u00ea de Egba tamb\u00e9m \u00e9 muito antigo. Os caboclinhos tup\u00e3 e tapirap\u00e9 e as escolas de samba Galeria do Ritmo e Gigante do Samba tamb\u00e9m. As duas foram formadas aqui do Alto Jos\u00e9 do Pinho. Aqui tem um clube chamado Bom Sucesso e nesse clube teve show de Nelson Gon\u00e7alves e Gretchen. Reginaldo Rossi era um desses artistas que sempre estavam se apresentando aqui no Alto. E ainda tinha a manh\u00e3 de sol Cubana onde s\u00f3 rolava m\u00fasica caribenha. Depois do futebol sempre tinha uma roda de samba na resenha. Viver em uma comunidade t\u00e3o plural, culturalmente falando, n\u00e3o tem como voc\u00ea crescer bitolado, mesmo quando voc\u00ea descobre seu estilo musical. No nosso caso, o punk rock \/ hardcore, n\u00f3s descobrimos, trouxemos para o Alto Jos\u00e9 do Pinho e a semente germinou e gerou frutos como Faces do Sub\u00farbio, Matalanam\u00e3o, Nanica Papaya, B.U, O Verbo, A Ostenta, Inexistente, III\u00ba Mundo, Os Maletas, The M\u00edopes. Apesar da influ\u00eancia do punk rock, todas essas bandas tinham suas identidades, nenhuma era igual a outra. Rap, reggae, pop, guitar band, todos esses ritmos eram a base dessas bandas, ou seja, continu\u00e1vamos a ser plural dentro do universo de uma nova gera\u00e7\u00e3o aqui. Nunca usamos instrumentos da cultura popular, mas estamos juntos no cotidiano e nas a\u00e7\u00f5es al\u00e9m da m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/03\/17\/entrevista-o-capitulo-negro-do-black-pantera\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Recentemente entrevistei a galera do Black Pantera para o Scream &amp; Yell<\/a> e durante o papo voc\u00ea e a Devotos foram citados como uma das principais refer\u00eancias para a banda. Como voc\u00eas lidam com esse fato de que, passado tanto tempo, a banda segue sendo influente para diversas gera\u00e7\u00f5es?<\/strong><br \/>\nFicamos muito felizes. Somos de uma gera\u00e7\u00e3o que a influ\u00eancia por nossos \u00eddolos ficava s\u00f3 na m\u00fasica, principalmente porque t\u00ednhamos poucas informa\u00e7\u00f5es sobre o cotidiano deles. Quando descobr\u00edamos algo a mais a admira\u00e7\u00e3o era bem maior. Quando se pensava em punk, se comparava com destrui\u00e7\u00e3o e era praticamente um fato. Hoje as palavras mudar, inserir, reivindicar, envolver, engajar, est\u00e3o muito dentro do punk. Atitude n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 subir o moicano e vestir uma jaqueta. Em outra \u00e9poca se tinha o discurso, mas n\u00e3o se tinha tanta pr\u00e1tica. Hoje at\u00e9 quem \u00e9 das antigas est\u00e1 mais envolvido em causas sociais. Antes essas manifesta\u00e7\u00f5es estavam s\u00f3 nas m\u00fasicas. Essa refer\u00eancia que somos para o Black Pantera \u00e9 muito rec\u00edproco. Eles tamb\u00e9m nos influenciam e nos representam pra caralho com suas m\u00fasicas e seus engajamentos com a cultura black punk, afro punk. Temos uma safra de bandas punk novas muito inteligentes e inclusivas como a Black Pantera, a Punho de Mahin, que tem suas letras e influ\u00eancias na negritude, comportamento, lutas e a\u00e7\u00f5es. A longevidade de 32 anos da Devotos junto com nossa hist\u00f3ria de transforma\u00e7\u00e3o social atrav\u00e9s da m\u00fasica, fato que aconteceu com o Alto Jos\u00e9 do Pinho, que antes era visto nas p\u00e1ginas policiais, mas com a ascens\u00e3o da Devotos aproveitando os meios de comunica\u00e7\u00e3o daquela \u00e9poca, apresentamos para a sociedade um outro Alto Jos\u00e9 do Pinho: o Alto Jos\u00e9 do Pinho dos grupos populares e das bandas de rock, rap e reggae. Assim colocamos o Alto Jos\u00e9 do Pinho nas p\u00e1ginas culturais e at\u00e9 hoje a comunidade \u00e9 lembrada por sua musicalidade, sua arte, sua cultura e a\u00e7\u00f5es sociais. Isso d\u00e1 uma outra vis\u00e3o para que curte a banda, curte nosso som, e contagia as outras bandas e f\u00e3s levando ao engajamento em a\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A banda sempre teve como ess\u00eancia um discurso social potente, marca que o Devotos nunca abandonou. Em tempos em que o discurso e a\u00e7\u00f5es fascistas ganham corpo, qual \u00e9 o papel da arte neste contexto?<\/strong><br \/>\nEstar cada vez mais informando a verdade ao povo, seja atrav\u00e9s da m\u00fasica, dos livros, dos filmes, de uma entrevista, num post nas redes sociais. Estamos vivendo um tempo que n\u00e3o tem como voc\u00ea n\u00e3o opinar, n\u00e3o tem como voc\u00ea ficar em cima do muro e, sinceramente, se voc\u00ea abre um Instagram de um artista e n\u00e3o tem nenhuma opini\u00e3o sobre essas trag\u00e9dias que est\u00e3o acontecendo no Brasil e no mundo, pode crer, que esse artista n\u00e3o est\u00e1 em cima do muro!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Devotos - Vida de Ferreiro (Clip Oficial)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/UXhVrfgKZAY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Dias atr\u00e1s me deu vontade de rever o ic\u00f4nico v\u00eddeo para o hino &#8220;Vida de Ferreiro&#8221;. Assisti-lo me remeteu \u00e0 \u00e9poca, fim dos anos 90 \/ in\u00edcio dos 2000, em que o mercado da m\u00fasica vivia um outro momento de popularidade e acesso devido ao apoio da MTV e das r\u00e1dios. De l\u00e1 para c\u00e1, o que vemos \u00e9 uma aut\u00eantica transforma\u00e7\u00e3o, em v\u00e1rios sentidos, em especial no modo como o p\u00fablico se relaciona com a m\u00fasica. Como voc\u00eas lidaram \/ lidam com essa transi\u00e7\u00e3o? Acreditam que a m\u00fasica em seu formato digital se tornou mais democr\u00e1tica quanto ao acesso?<\/strong><br \/>\nSim, acreditamos que a m\u00fasica hoje \u00e9 bem mais democr\u00e1tica. Antes fic\u00e1vamos dependendo das gravadoras para nossa m\u00fasica chegar nos lugares. Hoje com a tecnologia a m\u00fasica chega em qualquer lugar. O artista pode estar come\u00e7ando ou j\u00e1 ter uma estrada. Mas nunca abandonamos aquele gostinho de pegar no CD, folhear o encarte, admirar o vinil. Isso para n\u00f3s \u00e9 muito importante, mesmo porque a parte gr\u00e1fica da Devotos, que <a href=\"https:\/\/revistacontinente.com.br\/edicoes\/208\/neilton--por-conta-propria\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">sempre foram feitas por Neilton<\/a>, s\u00e3o verdadeiras obras de arte, com muita for\u00e7a visual. Inclusive em 2018 Neilton fez uma exposi\u00e7\u00e3o aqui em Recife no MAMAM (Museu de Arte Moderna Aloisio Magalh\u00e3es). Tem pessoas que, como n\u00f3s, gostam de pegar na arte, seja ela livros, CD ou vinil. Ali\u00e1s o vinil est\u00e1 voltando com tudo. Nunca vai ter as mesmas propor\u00e7\u00f5es de discos fabricados em outras \u00e9pocas, mas mata uma saudade do som mais org\u00e2nico e do ritual de admira\u00e7\u00e3o de toda obra, capa, bolacha e encarte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por fim, falar de planos futuros talvez seja um exerc\u00edcio dos mais complicados nesse per\u00edodo em que estamos, mas o que o Devotos planeja fazer neste segundo semestre? J\u00e1 h\u00e1 alguma data de lan\u00e7amento prevista para o novo disco?<\/strong><br \/>\nNosso planejamento principal \u00e9 se manter vivo, tomar todas as doses da vacina e seguir as normas do SUS. N\u00e3o temos ideia quando voltaremos a fazer shows, mas estamos com uma esperan\u00e7a muito grande que est\u00e1 mais pr\u00f3ximo que distante. Enquanto isso n\u00e3o acontece, estamos produzindo. Esse projeto do \u201cPunk Reggae\u201d foi aprovado pela lei Aldir Blac e teve a produ\u00e7\u00e3o executiva do Selo Estelita. O projeto est\u00e1 no in\u00edcio de sua difus\u00e3o. A ideia \u00e9 ter um lan\u00e7amento com show\/live mas ainda n\u00e3o batemos o martelo. Se rolar esse show faremos uma grande divulga\u00e7\u00e3o. \ud83d\ude09 Outro planejamento \u00e9 lan\u00e7ar o \u201cPunk Reggae\u201d em vinil. J\u00e1 estamos conversando com poss\u00edveis parceiros. Assim que batermos o martelo divulgaremos.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Primeiro show da Devotos em 1988.\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/aqMUshMt3qI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"\u00daltimo show da Devotos, Porto Musical 2020\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/z7CrUQIvSKY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"DEVOTOS-punk rock, hard core alto jose do pinho\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QlSTK4zm6a4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a>\u00a0\u00a0\u00e9 redator\/colunista\u00a0do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.opoderosoresumao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O Poder do Resum\u00e3o<\/a>. Escreve no Scream &amp; Yell desde 2014.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em inspiradora entrevista, Cannibal fala sobre a pandemia, a aproxima\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica entre o punk e o reggae, a import\u00e2ncia de um posicionamento antirracista, a atemporalidade do repert\u00f3rio, a influ\u00eancia da cultura local e muito mais\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/07\/16\/entrevista-cannibal-fala-do-projeto-punk-reggae-da-devotos\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":4,"featured_media":61629,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[5256],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61628"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=61628"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61628\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":61638,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61628\/revisions\/61638"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/61629"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=61628"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=61628"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=61628"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}