{"id":61413,"date":"2021-06-25T01:35:49","date_gmt":"2021-06-25T04:35:49","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=61413"},"modified":"2021-09-03T14:36:24","modified_gmt":"2021-09-03T17:36:24","slug":"entrevista-fellini-ou-tudo-que-voce-queria-saber-sobre-a-banda-e","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/06\/25\/entrevista-fellini-ou-tudo-que-voce-queria-saber-sobre-a-banda-e\/","title":{"rendered":"Entrevista: Fellini (ou tudo que voc\u00ea queria saber sobre a banda e&#8230;)"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/chelseanights\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Manoel Magalh\u00e3es<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/fellini.bandcamp.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fellini<\/a> \u00e9 uma das mais relevantes bandas do p\u00f3s-punk brasileiro. S\u00e3o 37 anos de hist\u00f3ria como grupo, <a href=\"https:\/\/fellini.bandcamp.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">cinco discos oficiais de in\u00e9ditas<\/a>, tr\u00eas \u00e1lbuns de vers\u00f5es alternativas, b-sides e registros ao vivo e ainda alguns singles, como o mais recente &#8220;Leave Me Alone&#8221;, lan\u00e7ado no \u00faltimo dia 04 de junho e gravado de forma virtual durante a pandemia da Covid-19.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo das \u00faltimas duas d\u00e9cadas, o Scream &amp; Yell buscou acompanhar os shows de reuni\u00e3o do grupo, como o de <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/04\/08\/fellini-ao-vivo-em-sao-paulo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">celebra\u00e7\u00e3o ao \u00e1lbum &#8220;Amor Louco&#8221; em 2016<\/a> e o lan\u00e7amento <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/03\/10\/ao-vivo-fellini-emociona-grisalhos-em-mais-um-adeus\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">da caixa &#8220;A Melhor Coisa Que Eu Fiz&#8221; em 2020<\/a>, al\u00e9m de publicar conte\u00fados sobre os \u00e1lbuns, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2002\/05\/14\/faixa-a-faixa-amanha-e-tarde-fellini\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">como o faixa a faixa de \u201cAmanh\u00e3 \u00e9 Tarde\u201d<\/a> em 2002<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/03\/22\/entrevista-thomas-pappon-fellini-scream20anos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> e uma conversa com Thomas Pappon, em 2006<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A entrevista a seguir com Cad\u00e3o Volpato, Thomas Pappon e Jair Marcos foi realizada na conex\u00e3o Nova Iorque, Londres, S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro por videochamada. Os tr\u00eas falaram a respeito de diversos momentos da trajet\u00f3ria da banda e comentaram toda a discografia de in\u00e9ditas, que inclui os \u00e1lbuns &#8220;O Adeus de Fellini&#8221; (1985), &#8220;Fellini S\u00f3 Vive 2 Vezes&#8221; (1986), &#8220;3 Lugares Diferentes&#8221; (1987), &#8220;Amor Louco&#8221; (1990) e &#8220;Amanh\u00e3 \u00e9 Tarde&#8221; (2002).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Leave Me Alone\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/sKSOzrcTh5U?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sobre o lan\u00e7amento do single &#8220;Leave Me Alone&#8221;, a forma bem sucedida como aconteceu (foi gravado online entre Londres, Nova Iorque e S\u00e3o Paulo) abre a possibilidade para que exista um disco novo?<\/strong><br \/>\nCad\u00e3o Volpato: Nem pensar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas Pappon: Acho dif\u00edcil. \u00c9 muito complicado, e na verdade essa m\u00fasica nova, esse single, nem era uma coisa t\u00e3o nova assim, a gente meio que concluiu uma m\u00fasica que j\u00e1 estava praticamente composta, que fizemos no \u00faltimo ensaio da banda em 1990. O que teve de novo foi a letra, porque mesmo a linha vocal foi bem parecida com a original.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cad\u00e3o: O engra\u00e7ado \u00e9 que a letra, por exemplo, eu n\u00e3o consegui me livrar dela, porque quando a gente compunha, eu em geral colocava uma coisa qualquer em cima, que facilitava ser em ingl\u00eas por ser mais f\u00e1cil de cantar e depois eu trabalhava isso em algum momento. Mas dessa vez eu n\u00e3o consegui me livrar, isso aconteceu com &#8220;Chico Buarque Song&#8221; tamb\u00e9m, que foi uma letra que era toda em ingl\u00eas e eu tive que dar um jeito para que ela tivesse algum sentido. E com essa da\u00ed foi a mesma coisa. Demorou pra burro porque eu tive que fazer uma letra nova, mas que na verdade \u00e9 uma letra velha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ent\u00e3o a chance \u00e9 zero para um disco novo?<\/strong><br \/>\nThomas: Na verdade, a possibilidade \u00e9 a seguinte: algu\u00e9m chegar e falar &#8220;aqui voc\u00eas t\u00eam 100 mil d\u00f3lares para voc\u00eas poderem pedir f\u00e9rias nos trampos de voc\u00eas, para arrumarem um est\u00fadio e passar um m\u00eas gravando um disco&#8221;, que na verdade \u00e9 o que as gravadoras fazem. Cansei de ler sobre bandas que se recolhem e passam meses em uma fazenda compondo, a\u00ed \u00e9 mais f\u00e1cil. Infelizmente n\u00e3o existem essas condi\u00e7\u00f5es pra gente e nunca existiram. Ali\u00e1s, o &#8220;Amor Louco&#8221; foi o mais perto que chegamos desse tipo de condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No seu livro &#8220;<a href=\"https:\/\/www.sesispeditora.com.br\/produto\/a-sombra-dos-viadutos-em-flor\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00c0 sombra dos viadutos em flor<\/a>&#8220;, Cad\u00e3o, voc\u00ea fala que a banda come\u00e7ou em uma conversa com o Thomas no Bar do \u00c1rabe, no Centro de S\u00e3o Paulo. Essa conversa que deu origem ao Fellini \u00e9 de 1983 ou 1984?<\/strong><br \/>\nThomas: 1984. O primeiro ensaio foi em 18 de maio de 1984. A gente guardou essa data porque foi o quarto anivers\u00e1rio <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/06\/12\/livros-the-who-ian-curtis-e-smiths\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">da morte do Ian Curtis<\/a>, do Joy Division.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cad\u00e3o: E a gente deve ter conversado no ver\u00e3o, eu me lembro que n\u00e3o fazia frio naquele papo no bar. A conversa deve ter sido em fevereiro ou mar\u00e7o, a\u00ed depois a gente falou com o Jair e com o Ricardo na sequ\u00eancia e ent\u00e3o resolvemos fazer o primeiro ensaio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jair Marcos: Cad\u00e3o e eu tivemos uma banda chamada Toque de Recolher, que nunca se apresentou ao vivo. Foi um projeto que tivemos com uma turma da Mooca que praticamente s\u00f3 ensaiou. Com o Thomas tive Os Internacionalistas, um grupo de covers que criamos com o Minho K. A gente tocava em festas da USP, uma fase bem interessante, e posteriormente o Thomas e o Cad\u00e3o apareceram na PUC, n\u00e3o sei se eles lembram disso, e me convidaram para tocar guitarra no Fellini. Foi uma noite muito legal aquele encontro. Eu lembro que a gente foi no fusquinha do Thomas at\u00e9 o Morumbi e rabiscamos l\u00e1 as primeiras m\u00fasicas no quarto do Thomas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: Foi no por\u00e3o l\u00e1 de casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cad\u00e3o: Naquele dia, eu acho que a gente j\u00e1 tinha &#8220;Rock Europeu&#8221;, j\u00e1 tinha &#8220;Funziona Senza Vapore&#8221;. A coisa acontecia sempre assim: o Thomas tinha uma linha de baixo e a gente meio que recheava essa linha em algum momento quando se encontrava. E isso deve ter acontecido nesse primeiro momento, o Thomas apareceu com as linhas e a gente foi colocando as melodias do jeito que dava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: Eu estava tentando me lembrar se o Ricardo (Salvagni) chegou a fazer algum ensaio na casa dos meus pais, eu acho que sim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cad\u00e3o: Eu n\u00e3o me lembro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jair: Eu tamb\u00e9m n\u00e3o lembro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cad\u00e3o: No dia que foi o fim dessa banda que eu tive com o Jair, a Toque de Recolher, que eu n\u00e3o lembro o motivo da briga exatamente, deve ter sido um motivo f\u00fatil, o Vitor Leite, que era um baterista importante daquela \u00e9poca (era baterista do Ira ainda sem a exclama\u00e7\u00e3o), veio ver o ensaio com o Ricardo. Eu n\u00e3o conhecia o Ricardo pessoalmente. Curiosamente eu sa\u00ed puto desse ensaio e o Ricardo estava dando carona pro Vitor e me deu carona tamb\u00e9m. Ou seja, fui espumando dentro do carro e eu fui com a cara do Ricardo. E eu pensei: &#8220;Ele deve tocar alguma coisa&#8221;. Foi a\u00ed que eu sugeri o nome dele, acho que o Thomas j\u00e1 o conhecia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: O Ricardo era amigo do Ca\u00edto, que era empres\u00e1rio do Ira!. Foi o Ca\u00edto que indicou o Ricardo. Eu lembro de perguntar pra ele porque a gente estava precisando de um baterista e ele citou o Ricardo. O Ricardo tocava numa banda chamada UK7.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cad\u00e3o: A artista pl\u00e1stica Jac Leirner tocava baixo nessa banda do Ricardo. Era legal, um barulho desgra\u00e7ado.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-61416\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/adeusdofellini.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/adeusdofellini.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/adeusdofellini-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/adeusdofellini-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E qual foi a expectativa para o primeiro disco? Na \u00e9poca o BRock come\u00e7ava a aparecer como uma aposta das gravadoras, mas imagino que voc\u00eas tivessem expectativas diferentes.<\/strong><br \/>\nThomas: A gente sempre quis ver o repert\u00f3rio gravado. Acho que essa sempre foi a grande motiva\u00e7\u00e3o, porque gost\u00e1vamos muito do repert\u00f3rio. Chegamos a fazer duas demos. Na primeira a gente gravou tr\u00eas m\u00fasicas, eu tenho essas demos at\u00e9 hoje, a segunda demo eu tenho at\u00e9 a matriz, gravamos em um est\u00fadio que era um Portastudio, o est\u00fadio Calico, que era l\u00e1 no Brooklin, foi num s\u00e1bado. Voc\u00eas lembram disso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cad\u00e3o: Lembro bem, lembro muito bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: A primeira demo foi gravada na Av. Indian\u00f3polis e depois, em janeiro ou fevereiro, fizemos essa segunda no Calico. Todas as m\u00fasicas dessas demos acabaram entrando no &#8220;O Adeus de Fellini&#8221;, exceto &#8220;Eclipse&#8221;, que a gente depois abandonou. Com as demos vimos que as m\u00fasicas eram legais, mostramos a algumas pessoas e elas tamb\u00e9m gostaram das m\u00fasicas, ent\u00e3o resolvemos registrar isso. Eu sa\u00ed \u00e0 cata de um est\u00fadio porque resolvemos bancar o disco. A gente nunca achou, em momento algum da trajet\u00f3ria do Fellini, que uma gravadora fosse se interessar. Rapidinho achamos que o \u00fanico jeito de registrar isso era bancar. Fomos atr\u00e1s de um est\u00fadio barato ou que a gente pudesse pagar, achamos um est\u00fadio novo indicado pelo Peter Price, acho que a mulher do Peter Price era amiga da mulher de um dos donos do \u00d4nix, que era um est\u00fadio que dois s\u00f3cios abriram em Perdizes, perto da PUC. A gente combinou um pacote com eles e fomos v\u00e1rios fins de semana e algumas noites, acho que durante uns dois meses fomos gravando. A gente mixou o disco com a ajuda do Peter Price, que eu convidei, era um cara que tinha gravado discos na Inglaterra, achamos que era uma boa ideia chamar o cara e ele foi e deu alguns palpites. Foi engra\u00e7ado porque os caras do est\u00fadio n\u00e3o tinham experi\u00eancia alguma de grava\u00e7\u00e3o com rock, eles faziam jingles, comerciais, era um est\u00fadio pequeno, de 8 canais, tinha umas limita\u00e7\u00f5es, mas acho que lidamos super bem com todas essas limita\u00e7\u00f5es, n\u00e3o s\u00f3 a gente como eles tamb\u00e9m, os dois caras que se revezavam na engenharia de som. Eu me lembro do som da bateria ter ficado muito bom e eram basicamente dois microfones. A bateria montada l\u00e1 e dois microfones, com alguns efeitos, um gate reverb no bumbo e na caixa. Ficou um disco despretensioso, sem o ran\u00e7o de outros discos gravados na \u00e9poca, principalmente por gravadoras porque os caras tamb\u00e9m n\u00e3o tinham no\u00e7\u00e3o na \u00e9poca. Voc\u00ea tinha um som de bateria que eles triggavam uma LinnDrum, um som muito caracter\u00edstico dos anos 80. O disco do Volunt\u00e1rios da P\u00e1tria tem esse problema, as pessoas dizem que o som do disco dos Volunt\u00e1rios \u00e9 muito bom, elogiam e tal, eu lamento, acho que o disco do Fellini tem um som muito mais legal, muito mais vivo e org\u00e2nico, talvez por ter sido gravado nessas condi\u00e7\u00f5es restritas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cad\u00e3o: Sempre me incomodou muito o som dos discos brasileiros daquela \u00e9poca. E tem a ver com a bateria diretamente. O baixo inclusive era um problema tamb\u00e9m, mas no caso da bateria voc\u00ea j\u00e1 nota que \u00e9 disco brasileiro porque \u00e9 uma coisa fl\u00e1cida, \u00e9 bizarro, n\u00e3o tem volume. Essa \u00e9 a vantagem de come\u00e7ar sem muita experi\u00eancia, o Thomas tinha a experi\u00eancia do <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/10\/14\/voluntarios-da-patria-sesc-belenzinho\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Volunt\u00e1rios da P\u00e1tria<\/a>, mas a gente come\u00e7ou sem saber nada. Pra gente foi uma experi\u00eancia e tanto porque tivemos que inventar coisas. O t\u00e9cnico de som, se n\u00e3o me engano, era um surfista, tinha surfado no Hava\u00ed, alguma coisa assim, mas eles gostaram do lance, ent\u00e3o foi uma descoberta conjunta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: Eu levei um amplificador de baixo, acho que era um Polytone, mas n\u00e3o ficou legal o som. A\u00ed a gente usou o amplificador de guitarra do Pamps (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/11\/26\/entrevista-sergio-pamps-pamplona2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sergio Pamplona, guitarrista da banda Smack, falecido em 2015<\/a>), ele emprestou um Pearl que ele tinha de guitarra, a gente experimentou e ficou super bom. O baixo foi todo gravado em um amplificador de guitarra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cad\u00e3o: Ningu\u00e9m faria isso em est\u00fadio hoje em dia. Imagina se uma gravadora iria bancar, nunca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jair: Um aspecto que considero bem importante e inovador no caso do rock brasileiro ou rock paulista da \u00e9poca foram tamb\u00e9m os diversos efeitos sonoros que utilizamos no \u00e1lbum, de m\u00e1quinas de escrever, bigorna, helic\u00f3ptero. Uma outra coisa curiosa \u00e9 o megafone que o Cad\u00e3o gravou em &#8220;Outro endere\u00e7o, outra vida&#8221;. Voc\u00ea lembra disso, Cad\u00e3o? Ele foi l\u00e1 fora da casa do est\u00fadio e usou o megafone.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cad\u00e3o: Isso lembra uma cena do &#8220;24 Hour Party People&#8221;, o filme sobre o Joy Division e Factory, que o cara vai gravar l\u00e1 a bateria no banheiro e ele fica afastado de todo mundo. Parece que foi assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jair: Ah, voc\u00ea usou o interfone. Voc\u00ea usou o megafone pelo interfone.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: Foi isso mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cad\u00e3o: T\u00f4 falando, foi 24 Hour Party People. (Risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E a capa? O Fellini tem essa quest\u00e3o das cores bem definidas nas capas. Verde, azul, vermelho e amarelo.<\/strong><br \/>\nCad\u00e3o: Isso foi tudo pensado. A gente escolheu a cor primeiro, inclusive a gente chupou a cor de algum lugar que eu n\u00e3o me lembro. Thomas, voc\u00ea \u00e9 capaz de dizer qual \u00e9 o disco de onde saiu essa cor? A cor verde.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: Claro, o primeiro foi tirado de um disco de m\u00fasica cl\u00e1ssica que eu peguei emprestado da discoteca da R\u00e1dio Cultura. Eu trabalhava nessa \u00e9poca na r\u00e1dio e era um disco de m\u00fasica cl\u00e1ssica, lindo, exatamente essas duas cores. Verde e dourado. Mas n\u00e3o lembro de mais nada, o que tinha nesse disco. A capa do segundo disco \u00e9 inspirada no &#8220;Chronic Town&#8221;, que \u00e9 um EP do R.E.M., e a capa do terceiro disco \u00e9 inspirada no &#8220;Chimera&#8221;, do Bill Nelson. Literalmente eu levava a capa pro Luiz Calanca e falava &#8220;essas s\u00e3o as cores&#8221;, pra chupar essas cores. O do Bill Nelson \u00e9 o mais bandeira. Ele tem tamb\u00e9m as ideias das fotos na capa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cad\u00e3o: Eu n\u00e3o sei se foi ideia do Thomas colocar um desenho na capa, mas deve ter sido. Eu lembro de ter feito esse desenho em um caderno, n\u00e3o tenho mais o original, era tudo um pouco improvisado. E depois eu escrevi todas as letras a m\u00e3o na contracapa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: Pro CD o Calanca tentou reproduzir essa ideia, ele mesmo botou, e tem um monte de erros. Nome de m\u00fasica errado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cad\u00e3o: \u00c9 o que temos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: Uma coisa que muita gente esquece do primeiro disco \u00e9 que ele \u00e9 um LP de 45 rota\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cad\u00e3o: Todos os EPs que a gente achava legais eram 45, acho que pode ter sido essa a refer\u00eancia. O problema \u00e9 que muita gente tocou em 33 rota\u00e7\u00f5es e ficou um disco macabro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jair: Muita gente n\u00e3o entendeu, tocou em 33 e pensou &#8220;que bosta \u00e9 essa?&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: Ou achou do caralho tamb\u00e9m, n\u00e3o sei. (Risos)<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-61417\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fellinisovive.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fellinisovive.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fellinisovive-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fellinisovive-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o segundo disco? Como aconteceu exatamente a transi\u00e7\u00e3o para a grava\u00e7\u00e3o de um disco s\u00f3 com Cad\u00e3o e Thomas?<\/strong><br \/>\nCad\u00e3o: O que aconteceu \u00e9 que a gente expulsou o Jair (risos). A gente, na verdade, eu n\u00e3o lembro em que situa\u00e7\u00e3o exatamente, mas a gente quis comprimir o neg\u00f3cio. O Ricardo tinha sa\u00eddo da banda, eu acho que nesse momento para se casar, e em algum momento Thomas e eu pensamos em fazer um neg\u00f3cio min\u00fasculo. De fato \u00e9 um disco gravado em uma sala de visitas. Ficamos os dois naquela sala de visitas fazendo uma coisa muito de dupla mesmo. Eu acho que a ideia era no sentido de simplificar e, ao mesmo tempo, tinha uma guinada muito grande de estilo, porque \u00e9 a\u00ed que entra a MPB na hist\u00f3ria. Foi nesse momento que m\u00fasicas como &#8220;Tabu&#8221;, por exemplo, a gente acrescentou o efeito de bateria eletr\u00f4nica vagabunda com uma batida de bossa nova e eu acho que a gente achou que era esse o caminho. A gente vivia experimentando, inclusive experimentando forma\u00e7\u00f5es. Eu acho que foi isso que aconteceu. \u00c9 um disco bem mais simples nesse sentido, as pessoas tendem a gostar muito porque \u00e9 um disco que \u00e9 totalmente aberto \u00e0 experimenta\u00e7\u00e3o. De tal forma que entra um guarda noturno apitando, o Mitsu, que era o gato do Thomas, passa pela sala, eu falo com ele porque a gente t\u00e1 gravando ao vivo e o bicho t\u00e1 ali. Esse tipo de coisa. Era um barato, uma experi\u00eancia \u00fanica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: N\u00e3o foi o disco inteiro que foi assim, foi &#8220;M\u00e3e dos Gatos&#8221;, nesse esquema de improviso foi s\u00f3. A gente teve sorte. V\u00e1rios elementos aconteceram ao vivo que tornaram a m\u00fasica t\u00e3o interessante. Eu lembro que eu apertei um bot\u00e3o errado uma hora no ritmo eletr\u00f4nico e entrou um barulho, o gato passar e os pedais que foram apertados ali meio que ao l\u00e9u. O acaso teve um papel important\u00edssimo. Ficou uma m\u00fasica muito legal e \u00e9 muito dif\u00edcil duas pessoas tocando ao vivo fazerem um som desses. Realmente a sorte ajudou muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cad\u00e3o: \u00c9 bom lembrar que o resto a gente gravou no esquema de quatro canais tamb\u00e9m, mas s\u00f3 que assim, cada um no seu canal, da melhor forma poss\u00edvel. \u00c9 verdade. Eu acho que fazia parte de uma descoberta nossa de uma nova possibilidade que era trabalhar com o lance da MPB. \u00c9 importante dizer o seguinte: o Thomas, por exemplo, tem uma liga\u00e7\u00e3o com a MPB muito forte. Sempre teve. E ele curtia as coisas de vanguarda da MPB, ent\u00e3o tinha o Tamba Trio nos anos 60, a gente conhecia muito bem o som dos anos 70 que nos interessava. Outro dia eu ouvi o primeiro disco do Egberto (Gismonti), que eu n\u00e3o conhecia, ouvi agora e fiquei chocado. \u00c9 o tipo de coisa que se eu tivesse ouvido na \u00e9poca teria tido algum tipo de influ\u00eancia. Milton Nascimento. Eu ouvia muito r\u00e1dio nos anos 60 porque eu sou bem mais velho que eles. Era m\u00fasica brasileira, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma virada de chave s\u00f3, \u00e9 uma virada totalmente justificada. Foi ideia do Thomas e caiu como uma luva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: \u00c9 interessante tamb\u00e9m dizer que foi um disco que causou um puta estranhamento. Quando voc\u00ea abre com &#8220;O Adeus de Fellini&#8221;, que \u00e9 um disco de rock, p\u00f3s-punk, e de repente vem um treco. O Calanca falou que um monte de gente devolveu o disco. Eu me lembro que o Jos\u00e9 Augusto Lemos fez a cr\u00edtica desse disco na Bizz e colocou nas alturas, ent\u00e3o havia um fuzu\u00ea em torno do disco, mas acho que muita gente achou estranho demais e alguns devolveram. \u00c9 uma coisa que eu nunca fiz na minha vida, devolver um disco, eu nem sabia que era poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quanto tempo demorou o processo de grava\u00e7\u00e3o do &#8220;Fellini S\u00f3 Vive 2 Vezes&#8221;?<\/strong><br \/>\nThomas: Fizemos entre o final de 85 e o in\u00edcio de 86. Algumas coisas eu fiz na casa dos meus pais, eu peguei uma hepatite e mudei pra casa deles, eu lembro de gravar os viol\u00f5es de &#8220;Domingo de P\u00e1scoa&#8221; na sala de jantar da casa dos meus pais. Eu acho que ao todo durou uns dois meses.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-61418\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/treslugares.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/treslugares.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/treslugares-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/treslugares-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O terceiro disco, &#8220;Tr\u00eas Lugares Diferentes&#8221;, teve uma influ\u00eancia cubana nas letras?<\/strong><br \/>\nCad\u00e3o: A minha primeira mulher tinha morado em Cuba seis anos, os pais dela era da ALN (A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional), se n\u00e3o me engano, e ela primeiro se exilou no Chile, de onde saiu junto com o Gabeira, inclusive, do Consulado da Su\u00e9cia. Ela era muito nova e havia todo um clima que ela me contava, de uma Cuba id\u00edlica, eu acho que \u00e9 a vis\u00e3o de Cuba do ponto de vista de uma crian\u00e7a. Isso me parece que t\u00e1 no disco, uma poesia ligada a uma inf\u00e2ncia que n\u00e3o era minha, mas que me contaminava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O disco tamb\u00e9m parece guardar uma conex\u00e3o com o anterior.<\/strong><br \/>\nCad\u00e3o: \u00c9 a m\u00fasica brasileira, provavelmente. Os melhores sambas do Fellini est\u00e3o ali no &#8220;Tr\u00eas Lugares Diferentes&#8221;. Ou pelo menos os mais conhecidos, voc\u00ea tem &#8220;Teu Ingl\u00eas&#8221; e &#8220;Ambos Mundos&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: &#8220;Rio-Bahia&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E essa escolha pela m\u00fasica brasileira foi consciente? Era uma forma de se diferenciar um pouco do resto da gera\u00e7\u00e3o dos anos 80?<\/strong><br \/>\nCad\u00e3o: A ideia era mesmo fazer uma coisa diferente. A gente n\u00e3o devia nada a ningu\u00e9m. Est\u00e1vamos sempre querendo nos transformar de alguma forma. Nunca est\u00e1vamos satisfeitos com o modelo estabelecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: E os discos refletem bem as condi\u00e7\u00f5es em que eles foram gravados. S\u00e3o discos lo-fi, que \u00e9 uma coisa que j\u00e1 diferencia muito o som do Fellini dos outros discos da \u00e9poca. E essa mistura de ritmos eletr\u00f4nicos com samba foi uma coisa que pegou muito bem, as pessoas gostaram muito, principalmente o pessoal do Manguebeat. Esse \u00e9 o disco que fez a cabe\u00e7a da rapaziada l\u00e1. Eu n\u00e3o t\u00f4 exagerando, n\u00e3o. Tem at\u00e9 programas a\u00ed, se voc\u00ea for ver todo mundo cita o &#8220;Tr\u00eas Lugares Diferentes&#8221;. E \u00e9 nessa mistura entre som lo-fi, ritmo eletr\u00f4nico com m\u00fasica brasileira que eu acho que as pessoas come\u00e7aram a perceber que voc\u00ea pode fazer uma combina\u00e7\u00e3o encantadora, tem uma mistura legal que contrasta com o mainstream do rock na \u00e9poca, como os Tit\u00e3s. Eu acho engra\u00e7ado que o empate no primeiro lugar na lista de melhores do ano da Bizz em 1987 tenha ficado entre o &#8220;Tr\u00eas Lugares Diferentes&#8221; e o &#8220;Jesus N\u00e3o Tem Dentes no Pa\u00eds dos Banguelas&#8221;. S\u00e3o dois discos que mostram bem as duas faces, a cara do Rock Brasil e uma coisa diferente, um caminho alternativo, feito em casa. Ritmos brasileiros, letras incrivelmente legais e diferentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas acham que essa escolha pelo caminho da MPB foi vision\u00e1ria?<\/strong><br \/>\nCad\u00e3o: Eu acho que a gente estava muito \u00e0 frente no tempo. Pra mim \u00e9 uma evid\u00eancia e isso s\u00f3 foi se provar 30 anos depois, isso \u00e9 o mais engra\u00e7ado. Se a gente fosse viver de m\u00fasica na \u00e9poca estar\u00edamos ferrados. Tempos depois virou uma coisa &#8220;puxa, que incr\u00edvel, a gente foi descoberto&#8221;, as coisas sempre acontecem muito tarde. O Thomas, na \u00e9poca, meio que j\u00e1 vaticinava. Tem uma frase dele que ficou famosa na Bizz: &#8220;n\u00f3s vamos virar cult&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: Eu acho dif\u00edcil falar em uma banda \u00e0 frente do seu tempo. Eu acho que as bandas s\u00e3o produtos do seu tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cad\u00e3o: Eu digo isso por uma constata\u00e7\u00e3o posterior, n\u00e3o porque na \u00e9poca a gente achasse isso, mas essa coisa do &#8220;cult&#8221; t\u00e1 na revista, foi publicado isso, voc\u00ea falou isso, e virou cult mesmo. Porque era uma sensa\u00e7\u00e3o que a gente tinha nas conversas de que realmente estava fazendo uma coisa muito diferente. Voc\u00ea era o cara que mais botava f\u00e9 nessa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: Eu n\u00e3o tenho d\u00favida. Eu tinha convic\u00e7\u00e3o, isso sim, de que as coisas que a gente estava fazendo eram super legais. Isso talvez porque eu gostasse de ouvir essas coisas. Eu adorava ouvir os nossos discos. Os quatro discos eu ouvi sem parar, ouvi muito. E essa convic\u00e7\u00e3o, de que eram m\u00fasicas legais (e gra\u00e7as a Deus eu estava certo nisso), me deu talvez a impress\u00e3o de que iria demorar um tempo para as pessoas curtirem. Da\u00ed talvez eu tenha dito de ser banda cult, porque o cult tem essa coisa de ter sido algo que aconteceu no passado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cad\u00e3o: Exatamente, voc\u00ea apontou pro passado que era bem poss\u00edvel mesmo, mas a gente n\u00e3o era t\u00e3o otimista assim naquela \u00e9poca tamb\u00e9m porque tinha um problema, a gente n\u00e3o conseguia tocar uma carreira. Cada um trabalhava no seu pr\u00f3prio neg\u00f3cio, n\u00e3o tinha muito futuro. Esse &#8220;cult&#8221; a que voc\u00ea se referiu tamb\u00e9m tem a ver com o fato da banda n\u00e3o ter uma continuidade. Essas coisas que desaparecem prematuramente criam um ar de eternidade. Acho que com o passar dos anos a gente foi sentindo isso. As pessoas ouviram e isso s\u00f3 aconteceu por conta dos discos, porque n\u00f3s gravamos discos e registramos isso. Imagina quantas bandas daquela \u00e9poca n\u00e3o gravaram? Elas nunca foram lembradas e desapareceram simplesmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: Voc\u00ea v\u00ea hoje o Mateus (Mondini), da Nada Nada Discos, ele est\u00e1 fazendo esse trabalho arqueol\u00f3gico de resgatar demo tapes de bandas dessa \u00e9poca porque ele sacou que h\u00e1 um grande interesse mesmo, e nada melhor do que mostrar grava\u00e7\u00f5es dessas bandas. T\u00e1 saindo a\u00ed LP duplo dos Agentes, dos Ratos do Beco, bandas que mal tocaram ao vivo, mas eu mesmo indiquei algumas bandas, o Metropolis, que era uma banda super legal do Rodrigo Andrade, Paulo Monteiro e Supla. Eles compuseram &#8220;Garota de Berlim&#8221;, que depois foi gravada pelo Supla. Tinha o Diorama, tinha o Rosa Luxemburgo, uma banda que eu indiquei tamb\u00e9m, que era a banda do Redson do C\u00f3lera. Pouca gente sabe disso, o Redson tinha uma banda p\u00f3s-punk, meio g\u00f3tica, com o Carlos Strobin no baixo. Um dos discos mais legais dessa \u00e9poca foi a primeira demo que As Mercen\u00e1rias gravaram no est\u00fadio do Placa Luminosa, que a Nada Nada Discos lan\u00e7ou em compacto. Tudo isso pra dizer que, de fato, o que essas bandas fizeram nessa \u00e9poca realmente continua interessando muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cad\u00e3o: Acho que tem a ver com esse esp\u00edrito desbravador. O rock quando a gente come\u00e7ou a tocar era desprez\u00edvel. As pessoas n\u00e3o davam a m\u00ednima, elas queriam saber da MPB. MPB bem cafona, por sinal. Eu acho que n\u00e3o existia um ambiente de m\u00fasica jovem. A gente apareceu exatamente nesse momento, antenados com uma coisa internacional, que era a Inglaterra, que era um pouco os Estados Unidos. Acho que isso colocou a juventude brasileira no mapa. Porque o que aconteceu \u00e9 que a ditadura n\u00e3o permitia que voc\u00ea tivesse acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o a gente vivia como um n\u00e1ufrago, sendo obrigado a ouvir m\u00fasica do Gonzaguinha, aqueles boler\u00f5es, umas coisas depr\u00eas pra caramba. A m\u00fasica brasileira estava em um ambiente super depressivo no fim da ditadura. A gente apareceu justamente a\u00ed, era um jato de novidade com esse tri\u00e2ngulo Bras\u00edlia, S\u00e3o Paulo e Rio. Tem todos os elementos mitol\u00f3gicos e eu acho que tinha gente muito talentosa nesse meio. E muito jovens, as pessoas tinham 21, 22 anos. Essa era a m\u00e9dia. Todo mundo muito jovem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: Aqui na Inglaterra tamb\u00e9m h\u00e1 um interesse muito grande pelo o que se fazia nos anos do p\u00f3s-punk. N\u00e3o s\u00f3 aqui como nos Estados Unidos tamb\u00e9m. Essa \u00e9poca dos p\u00f3s-punk privilegiou experimentos e misturas, ent\u00e3o acaba interessando muito.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-61419\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/amorlouco.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/amorlouco.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/amorlouco-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/amorlouco-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o &#8220;Amor Louco&#8221;? \u00c9 o disco favorito de muita gente. O que voc\u00eas acham que ele tem de especial?<\/strong><br \/>\nJair: Foi um disco longo nas grava\u00e7\u00f5es. Demoramos muito, a gente trabalhou primeiro com o R. H. Jackson, depois ele viajou, ficou o Akira (S) produzindo, isso a\u00ed deu muita demora, mas foi um trabalho que a gente considera mais t\u00e9cnico. Foi um \u00e1lbum que trouxe tamb\u00e9m de volta um pouco a coisa do rock, que n\u00e3o esteve nos dois \u00e1lbuns anteriores, foi uma transforma\u00e7\u00e3o. O disco marca o meu retorno ao Fellini, em 1988, ap\u00f3s dois anos de nossa tempor\u00e1ria separa\u00e7\u00e3o. Foi, afinal, a volta da forma\u00e7\u00e3o original da banda. Esse retorno nos lavou a alma e conseguimos estar num estado de gra\u00e7a e liberdade emocional para compormos seu conte\u00fado com grande desenvoltura e alegria. Pra mim, em particular, foi uma enorme realiza\u00e7\u00e3o e sair divulgando o trabalho nov\u00edssimo, em 89 e 90, por algumas capitais como Rio, Belo Horizonte e Porto Alegre foi um sonho realizado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cad\u00e3o: &#8220;Amor Louco&#8221; \u00e9 um termo dos surrealistas. Eu sempre fui ligado nos surrealistas, o t\u00edtulo veio da\u00ed, n\u00e3o lembro se foi ideia minha ou se o Thomas que sugeriu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: Foi sua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cad\u00e3o: \u00c9 um disco que apela \u00e0s pessoas porque tem um lado rom\u00e2ntico. Ele tem um amor meio esquisito, porque em geral ele \u00e9 um amor que vem pela beirada, ele n\u00e3o \u00e9 uma coisa absolutamente l\u00edrica, tem um senso de humor. Talvez seja o \u00e1lbum mais voltado para uma confiss\u00e3o, tem muitas coisas ali que s\u00e3o bem derramadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Thomas em 2006, na entrevista sobre o &#8220;Amor Louco&#8221; publicada aqui no Scream Yell, disse que voc\u00ea estava bastante inspirado nesse momento.<\/strong><br \/>\nCad\u00e3o: Na verdade todos os discos eu estive bem inspirado e bem apaixonado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: S\u00e3o as musas. O &#8220;Amanh\u00e3 \u00e9 Tarde&#8221; tamb\u00e9m foi muito inspirado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cad\u00e3o: Um atrativo que eu acho de todos os discos \u00e9 que a gente n\u00e3o se furta em falar de alguns assuntos que o rock n\u00e3o costumava tratar. Em nenhum disco voc\u00ea vai encontrar gente falando as coisas que eu falo, isso \u00e9 real. Acho que tem esse impacto. E isso tamb\u00e9m porque os caras toparam fazer assim, eu achei uma banda em que eu pudesse me expressar dessa forma. Eu me expressei de acordo com as minhas leituras, de acordo com o que eu gostava. Eu fiz uma coisa completamente voltada a uma esp\u00e9cie de fidelidade a mim mesmo. Algumas vezes \u00e9 at\u00e9 cifrado e eu n\u00e3o t\u00f4 nem a\u00ed. Nunca estive, na verdade, o que eu queria era a emo\u00e7\u00e3o de estar compondo, porque todas as m\u00fasicas foram feitas em um momento de emo\u00e7\u00e3o, isso \u00e9 real. Quando a gente compunha juntos, quando eu ia pra casa com aquele &#8220;l\u00e1, l\u00e1, l\u00e1&#8221; na cabe\u00e7a que eu nem gravava e precisava compor em cima disso, era todo um projeto emocional. De quem gosta das m\u00fasicas, de quem t\u00e1 se empenhando naquilo. A independ\u00eancia era exatamente isso. Era poder dizer as coisas que eu disse, que \u00e0s vezes s\u00e3o at\u00e9 confessionais demais, mais cifradas do que deveriam ser, surrealistas, mas eu sou capaz de explicar todas as letras pra voc\u00ea. A origem delas. Uma coisa que me incomoda no &#8220;Amor Louco&#8221;, n\u00e3o sei se voc\u00eas j\u00e1 falaram disso alguma vez na vida, \u00e9 a parte r\u00edtmica do disco. A coisa da bateria eletr\u00f4nica do jeito que ela foi colocada no disco n\u00e3o \u00e9 algo que me deixa feliz pra caramba, mas independentemente disso, as m\u00fasicas s\u00e3o t\u00e3o legais, que elas poderiam ter sido gravadas debaixo d&#8217;\u00e1gua que ia ter algum efeito. Como o passar do tempo eu sempre falo &#8220;\u00e9 o meu disco favorito&#8221;, mas voc\u00ea ouve de repente aquele lo-fi bem vagabundo do &#8220;Tr\u00eas Lugares Diferentes&#8221;, ou mesmo do &#8220;Fellini S\u00f3 Vive 2 Vezes&#8221;, ou mesmo voltando pro primeiro disco, como eu fiz no meu livro, voc\u00ea percebe que ali tem coisas &#8220;que barato!&#8221;, e eu acho que \u00e9 esse tipo de barato que bate nas pessoas. Ter feito com uma puta alegria. Quando voc\u00ea trabalha com uma coisa que voc\u00ea gosta, o efeito mais cedo ou mais tarde atinge outras pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No disco, a quest\u00e3o da &#8220;paix\u00e3o&#8221; \u00e9 tamb\u00e9m muito latente com a quest\u00e3o da &#8220;cidade&#8221;. Can\u00e7\u00f5es como &#8220;Citt\u00e0 Pi\u00f9 Bella&#8221; permitem um outro n\u00edvel de leitura da paix\u00e3o para al\u00e9m do amor rom\u00e2ntico.<\/strong><br \/>\nThomas: Eu nunca vou esquecer da rea\u00e7\u00e3o do Rene Ferri (Selo Wop Bop) quando ouviu o disco pela primeira vez. O que a gente queria era produzir o disco com condi\u00e7\u00f5es profissionais. A gente chegou pro (Luiz) Calanca e perguntou se ele topava bancar um est\u00fadio e ele falou que n\u00e3o. A\u00ed eu fui na outra loja da outra galeria falar com o Rene e ele nem pestanejou, falou &#8220;claro!&#8221; e bancaram. Eu fiquei com o n\u00famero de 20 mil d\u00f3lares na cabe\u00e7a durante anos, mas n\u00e3o foi isso. O Miguel Barella, que era dono do est\u00fadio OBJ, depois me falou que foi bem menos, talvez 10 mil d\u00f3lares ou 8 mil, n\u00e3o sei, mas o fato \u00e9 que bancaram. O fato tamb\u00e9m \u00e9 que a gente fez um disco em condi\u00e7\u00f5es profissionais, ter demorado foram outras coisas, o Jack foi viajar, a gente ia continuar com o Akira, mas viu que n\u00e3o deu certo, resolvemos esperar o Jack voltar. N\u00f3s ficamos dois meses esperando ele voltar. Ele ficou at\u00e9 honrado com isso, mas o que eu queria mesmo falar era o que o Rene falou quando ouviu o disco: &#8220;Meu, me lembrou Adoniran Barbosa&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cad\u00e3o: \u00c9 isso mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: Quando ele falou isso, eu pensei &#8220;caralho!&#8221;. S\u00e9rio?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cad\u00e3o: &#8220;Cidade perdida, joga as cascas pra l\u00e1&#8221;, era assim que os Dem\u00f4nios da Garoa come\u00e7avam a cantar &#8220;Saudosa Maloca&#8221;. &#8220;Joga as cascas pra l\u00e1&#8221;, entendeu? \u00c9 isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: Acho que tem mais do que isso. Essa liga\u00e7\u00e3o com a cidade, com a vida bo\u00eamia. O tipo de coment\u00e1rio que voc\u00ea faz numa letra e que tem a ver com as letras do Adoniran. Da observa\u00e7\u00e3o ou de alguma experi\u00eancia pessoal, amorosa ou mais profunda, n\u00e3o sei. Acho que tem uma liga\u00e7\u00e3o com S\u00e3o Paulo via Adoniran Barbosa. Outra coisa que eu queria falar \u00e9 que eu acho impressionante que um disco gravado em condi\u00e7\u00f5es t\u00e3o melhores, t\u00e3o mais sofisticadas que os outros discos, se coloca no mesmo patamar deles. Isso que eu acho incr\u00edvel. Eu n\u00e3o consigo achar que um disco \u00e9 melhor do que o outro. Na verdade, eu consigo achar quais s\u00e3o os meus preferidos em determinados momentos da minha vida. Muita gente compartilha dessa vis\u00e3o, \u00e9 a\u00ed que est\u00e1 o elemento do mist\u00e9rio. O Fellini tem um mist\u00e9rio, tem alguma coisa que s\u00f3 d\u00e1 para explicar com um mist\u00e9rio que atrai as pessoas. Elas ficam intrigadas. &#8220;Como \u00e9 que pode? Os caras fazem discos completamente diferentes com bons resultados&#8221;. Eu acho o &#8220;Amor Louco&#8221; um puta disco e isso que o Cad\u00e3o falou do ritmo eletr\u00f4nico incomodar, me incomodou tamb\u00e9m uma \u00e9poca. Eu achava que tornava ele, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, o disco mais datado. Eu j\u00e1 n\u00e3o acho mais isso, mudei de ideia porque eu acho que o som eletr\u00f4nico faz parte do disco, ele \u00e9 t\u00e3o inerente aos sambas, funciona t\u00e3o bem com o baixo, que \u00e9 tamb\u00e9m t\u00e3o importante nesse disco. Ficou um samba meio\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cad\u00e3o: Alem\u00e3o. (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: N\u00e3o \u00e9 um ritmo eletr\u00f4nico discreto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cad\u00e3o: Sabe por que eu falei isso? Eu lembrava que os nossos ensaios dessas m\u00fasicas tinham mais pegada, o ritmo n\u00e3o tinha uma import\u00e2ncia t\u00e3o grande. N\u00e3o ficava t\u00e3o aparente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: A gente tocava ao vivo, eu lembro de um show em S\u00e3o Carlos, por exemplo, se voc\u00ea ouve as grava\u00e7\u00f5es, do show em Belo Horizonte tamb\u00e9m, a m\u00fasica come\u00e7ava assim &#8220;tun-ta-ti, tun-ti-tun-tati&#8221;. (risos). Quase todas as m\u00fasicas s\u00e3o assim, algu\u00e9m apertando um bot\u00e3o e entra aquele som &#8220;tun-qui-tun-t\u00e1, tun-qui-tun-t\u00e1&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cad\u00e3o: Era exatamente assim (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jair: As programa\u00e7\u00f5es ficaram muito boas dessas baterias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cad\u00e3o: \u00c9 um ru\u00eddo que fica realmente interessante. Nunca tinha pensado nisso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: Nesse disco, se f\u00f4ssemos remixar, eu acho que poderia valorizar mais os viol\u00f5es, eu faria isso, mas pra que mexer nesses quatro discos? \u00c9 at\u00e9 um sacril\u00e9gio.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-61420\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/amanhaetarde.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/amanhaetarde.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/amanhaetarde-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/amanhaetarde-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como surgiu a ideia de gravar o &#8220;Amanh\u00e3 \u00c9 Tarde&#8221; mais de dez anos depois?<\/strong><br \/>\nCad\u00e3o: Eu lembro que o Thomas teve a ideia. Eu recebi em casa um CD com todas as m\u00fasicas. Ele tinha colocado todas as m\u00fasicas em um CD e dito tipo &#8220;faz todas as letras a\u00ed&#8221;. Eu fiz as letras em cima do CD e fui a Londres j\u00e1 com as letras preparadas e inclusive com os vocais que eu tinha imaginado que poderiam estar em todas as m\u00fasicas. A gente gravou no esquema sala de visitas como \u00e9 o segundo disco, mas com essa prepara\u00e7\u00e3o anterior. As m\u00fasicas estavam prontas, o que o Thomas fez foi gravar as minhas vozes e alguma coisa ou outra, se a gente for ver as fotos da \u00e9poca ele t\u00e1 fazendo um instrumento ou outro. Foi uma \u00e9poca muito legal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: Foram duas semanas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cad\u00e3o: Eu fiquei na casa do Thomas e a gente praticamente n\u00e3o saiu de l\u00e1. A gente deu uma incerta ou outra em um pub ali perto, outro dia a gente foi ao Centro de Londres, andou por ali, mas no geral a gente ficou concentrado nessa vida familiar do Thomas e trabalhando essas m\u00fasicas na sala de visitas. \u00c9 um disco que eu gosto muito e tem uma das minhas m\u00fasicas favoritas que \u00e9 &#8220;As Peles&#8221;. Essa, de fato, d\u00e1 um tremendo orgulho de ter feito. Eu tinha a letra, mas quando n\u00f3s chegamos para gravar n\u00e3o dava muito certo. A\u00ed o Thomas sugeriu que eu fizesse os vocais em cima de uma m\u00fasica antiga que n\u00e3o tinha sido gravada, que era &#8220;Milho&#8221;. E caiu como uma luva. Tinha um sample da Elizeth Cardoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: Esse \u00e9 o disco dos samplers. V\u00e1rias m\u00fasicas o ritmo \u00e9 um sample. Eu tinha descoberto o sampler. Eu fazia loops, mas usava de uma forma bem rudimentar mesmo. Eu usava o sampler pra montar um loop, chupava uma bateria de um CD e depois fazia ali um loop e tocava isso eternamente para usar como ritmo da m\u00fasica. Foi o primeiro disco do Fellini que a gente fez assim. Eu lembro que tinha um berimbau d`Os Ipanemas, a Elizeth, tem um sample de um m\u00fasico de jazz em &#8220;Ventre Livre&#8221;, tem um compacto da cole\u00e7\u00e3o dos meus pais de Europop, de uma dupla chamada Esther &amp; Abi Ofarim, que era um duo israelense, um compacto dos anos 60, eu lembrei e fiz um sample para a \u00faltima m\u00fasica, &#8220;Can\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: A discografia tem ainda o &#8220;Voc\u00ea Nem Imagina&#8221;, que curiosamente na \u00e9poca a gente achou um flop, que n\u00e3o vendeu nada, mas eu soube depois que muita gente descobriu o Fellini por esse disco, muita gente jovem. Ele tem uma pegada mais pesada e como \u00e9 uma cole\u00e7\u00e3o das m\u00fasicas mais conhecidas, as que a gente consolidou no repert\u00f3rio ao vivo, ficou bem tocado, ficou legal, com peso. Ent\u00e3o muita garotada se ligou no Fellini por esse disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jair: E o &#8220;Posta Restante&#8221;?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: O interessante do &#8220;Posta Restante&#8221; \u00e9 que foi um disco feito para o Orkut, com raridades registradas (e n\u00e3o lan\u00e7adas) entre os anos 80 e 90 (nota do editor: que, inclusive, traz a primeira vers\u00e3o do &#8220;novo velho&#8221; single, &#8220;Leave Me Alone&#8221;).<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-61421\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/postarestante.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"346\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/postarestante.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/postarestante-300x138.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para encerrar, a banda vai chegar aos 40 anos em 2024. \u00c9 muito tempo de carreira e amizade. O que voc\u00eas tiram disso para a vida de cada um?<\/strong><br \/>\nCad\u00e3o: O Fellini me deu um monte de coisas. Eu fui trabalhar na televis\u00e3o por causa do Fellini. Uma pessoa foi ver um show e achou que eu levava jeito e me convidou para apresentar o Metr\u00f3polis (TV Cultura). As manifesta\u00e7\u00f5es de carinho de pessoas que conheceram o trabalho ao longo do tempo s\u00e3o in\u00fameras e sempre muito valiosas. As pessoas realmente foram tocadas por aquilo que a gente fez. As melhores coisas que eu fiz devem estar relacionadas com o Fellini de alguma forma. Sem contar que \u00e9 uma hist\u00f3ria de quatro amigos. De vez em quando a gente briga, a gente acabou de brigar, inclusive (risos), e isso \u00e9 legal porque somos quatro amigos mesmo, a import\u00e2ncia deve ser para todos eles, \u00e9 importante para a vida, a gente era jovem e isso ficou. O legal foi ter acontecido de uma forma muito nobre. A gente fez o que quis, do jeito que quis, e sempre foi assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thomas: A banda permitiu que eu pudesse dizer o seguinte: &#8220;Eu sou o Thomas Pappon do Fellini&#8221;. N\u00e3o \u00e9 qualquer um que pode falar isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jair: \u00c9 uma amizade de 40 anos, tem esse peso, a nossa milit\u00e2ncia trotskista, antes da banda a gente j\u00e1 estava militando juntos h\u00e1 uns tr\u00eas anos. Pra mim tem uma import\u00e2ncia muito grande, Fellini \u00e9 um dos grandes amores da minha vida.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Scream &amp; Yell entrevista Fellini\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/faLVAC_gyOo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Manoel Magalh\u00e3es (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/manoelmagalhaez\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@manoelmagalhaez<\/a>) \u00e9\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/10\/07\/entrevista-manoel-magalhaes-e-a-felicidade-de-lancar-um-disco-imensamente-triste\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">m\u00fasico<\/a> e jornalista. Vive no Rio de Janeiro. A foto que abre o texto \u00e9 de Lorena Calabria<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Divulgando um novo (velho) single, &#8220;Leave Me Alone&#8221;, 3\/4 do Fellini fizeram um passeio pela discografia oficial da banda, relembrando hist\u00f3rias sobre os cinco \u00e1lbuns de in\u00e9ditas do grupo.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/06\/25\/entrevista-fellini-ou-tudo-que-voce-queria-saber-sobre-a-banda-e\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":29,"featured_media":61422,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1222],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61413"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/29"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=61413"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61413\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":61423,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61413\/revisions\/61423"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/61422"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=61413"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=61413"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=61413"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}