{"id":61376,"date":"2021-06-23T01:57:06","date_gmt":"2021-06-23T04:57:06","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=61376"},"modified":"2021-08-18T01:41:59","modified_gmt":"2021-08-18T04:41:59","slug":"especial-musica-portuguesa-a-pandemia-e-o-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/06\/23\/especial-musica-portuguesa-a-pandemia-e-o-futuro\/","title":{"rendered":"Especial &#8211; M\u00fasica Portuguesa: A Pandemia e o Futuro"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/pedro.m.salgado.5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pedro Salgado<\/a>, especial de Lisboa<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando a pandemia eclodiu em Portugal, o pa\u00eds vivia um momento de boa recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e de confian\u00e7a generalizada. Com a propaga\u00e7\u00e3o do surto (Portugal foi um exemplo na 1\u00aa onda da pandemia, e <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/internacional-55913119\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">quase entrou em colapso na segunda onda<\/a><strong>, <\/strong>quando o pico de \u00f3bitos bateu em 300 no final de janeiro &#8211; atualmente a m\u00e9dia semanal do pa\u00eds \u00e9 3 mortes por Covid-19), a forte redu\u00e7\u00e3o do consumo e do turismo condicionaram todos os setores de atividade e a cultura foi uma das \u00e1reas mais prejudicadas. No meio musical, a resposta ao confinamento e \u00e0s v\u00e1rias restri\u00e7\u00f5es impostas pela Dire\u00e7\u00e3o-Geral da Sa\u00fade (DGS) resultou num aumento das iniciativas digitais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante o m\u00eas de Mar\u00e7o de 2020, o <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/festivaleuficoemcasa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Festival Eu Fico Em Casa<\/a> foi transmitido diretamente no Instagram de artistas como <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/04\/28\/tres-discos-portugueses-esteves-o-manipulador-capicua\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Capicua<\/a>, Tom\u00e1s Wallenstein, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/01\/08\/entrevista-ana-bacalhau\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ana Bacalhau<\/a>, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/10\/23\/tres-discos-noiserv-samuel-uria-selma-uamusse\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Samuel \u00daria<\/a> e <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/12\/02\/entrevista-filho-da-mae\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Filho da M\u00e3e<\/a>, entre outros, e o sexteto lisboeta You Can&#8217;t Win Charlie Brown apresentou um v\u00eddeo alternativo da m\u00fasica \u201cAbove the Wall\u201d, no qual os m\u00fasicos, munidos dos instrumentos que tinham em casa, contribu\u00edram, \u00e0 dist\u00e2ncia, com a sua parte para a interpreta\u00e7\u00e3o da nova vers\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra iniciativa importante surgiu oito meses mais tarde, quando os <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/04\/11\/ao-vivo-capitao-fausto-no-cineteatro-capitolio-uma-comunhao-geracional\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Capit\u00e3o Fausto<\/a> lan\u00e7aram o filme-concerto \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=mOhg89z5T_g&amp;list=PL_gToAVyTf8cUH1TT01TrjcDXid9XXovP\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sol Posto<\/a>\u201d, exibido em simult\u00e2neo numa sess\u00e3o \u00fanica em 70 salas de cinema portuguesas, integrando tr\u00eas performances exclusivas da banda, registradas em tr\u00eas momentos distintos do dia (crep\u00fasculo, noite e alvorada) e propondo uma reflex\u00e3o sobre a passagem do tempo e a sua percep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Manuel Molarinho, m\u00fasico do <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/04\/02\/entrevista-baleia-baleia-baleia-portugal\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Baleia Baleia Baleia<\/a> e na one-man-band Manipulador e respons\u00e1vel do selo portuense <a href=\"https:\/\/salivadiva.bandcamp.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Saliva Diva<\/a>, as dificuldades sentidas no confinamento exigido implicaram um acerto no seu trajeto: \u201cComo m\u00fasico, o principal problema foi a quest\u00e3o psicol\u00f3gica. Eu tinha em perspectiva 70 shows para o ano de 2020 e no in\u00edcio do surto foi angustiante. Depois, recebi uma resposta grande da sociedade civil, que me ajudou comprando discos e fazendo doa\u00e7\u00f5es. Para al\u00e9m disso, candidatei-me \u00e0s linhas de apoio dispon\u00edveis e como abri atividade nas finan\u00e7as h\u00e1 muito tempo, n\u00e3o ocorreram problemas nesse campo. Fiz a minha readapta\u00e7\u00e3o e agrade\u00e7o o interregno pois permitiu-me dar mais amor a algumas coisas, como \u00e9 o caso do pr\u00f3ximo disco dos Baleia Baleia Baleia que dever\u00e1 sair no outono. Era para ter sido editado no ano passado, mas agora estamos a dar-lhe mais tempo, energia e ideias\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pedro Valente, o respons\u00e1vel da <a href=\"https:\/\/www.azafama.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Az\u00e1fama<\/a> (uma empresa sediada em Lisboa que se dedica ao agenciamento e ao management de artistas como <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/05\/20\/tres-discos-lobo-mau-pedro-de-troia-andre-henriques\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pedro de Tr\u00f3ia<\/a>, Beautify Junkyards, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/04\/28\/tres-discos-portugueses-esteves-o-manipulador-capicua\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Esteves<\/a> e JP Sim\u00f5es, entre outros, bem como \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de eventos), recorda a diminui\u00e7\u00e3o e em alguns momentos o desaparecimento total dos shows e do seu impacto financeiro e an\u00edmico nos v\u00e1rios agentes culturais: \u201cFoi a altura de colocar o dedo na ferida, percebendo o grau de vulnerabilidade da ind\u00fastria e a sua depend\u00eancia dos shows, quando, idealmente, as apresenta\u00e7\u00f5es ao vivo deviam ser apenas uma de v\u00e1rias formas de rendimento e sobreviv\u00eancia. Chegamos a um ponto em que a estrada \u00e9 o ventilador a que a m\u00fasica e os m\u00fasicos est\u00e3o ligados e quando falha a energia deixamos de respirar. O processo de cria\u00e7\u00e3o por si s\u00f3 \u00e9 pouco sustent\u00e1vel, o que poder\u00e1 ter consequ\u00eancias na qualidade das cria\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_61383\" aria-describedby=\"caption-attachment-61383\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-61383 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/casadocapitao.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/casadocapitao.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/casadocapitao-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-61383\" class=\"wp-caption-text\"><em>Terra\u00e7o do espa\u00e7o cultural Casa do Capit\u00e3o, em Lisboa \/ Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o Facebook<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Momento de transi\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>A <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/acasacapitao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Casa do Capit\u00e3o<\/a>, um espa\u00e7o cultural localizado no <a href=\"https:\/\/hubcriativobeato.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Hub Criativo do Beato<\/a> (zona oriental de Lisboa), abriu ao p\u00fablico nos meses de ver\u00e3o de 2020 e foi, em si mesmo, uma resposta ao contexto de pandemia e da paralisa\u00e7\u00e3o da atividade cultural da cidade que, na altura, se encontrava com uma programa\u00e7\u00e3o muito reduzida. \u201cFoi necess\u00e1ria alguma criatividade para iniciar este pop-up, porque para abrirmos ao p\u00fablico num modelo de alguma forma vi\u00e1vel, precisamos incorporar as regras aplicadas \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o, respeitando todas as medidas de confinamento vigentes, e mesmo com essa adapta\u00e7\u00e3o subsistiram as principais dificuldades quando abrimos pela primeira vez, como a limita\u00e7\u00f5es das lota\u00e7\u00f5es e as restri\u00e7\u00f5es dos hor\u00e1rios que estavam em vigor. Estas condicionantes levantam algumas dificuldades \u00e0 viabilidade dos shows, no que diz respeito \u00e0 bilheteira e do pr\u00f3prio espa\u00e7o, que tamb\u00e9m depende de receitas de consumo de bar para sobreviver. Por fim, enfrentamos outro problema \u00e0 data da nossa abertura, que dizia respeito \u00e0 confian\u00e7a do p\u00fablico no regresso aos espet\u00e1culos culturais\u201d, explica Gon\u00e7alo Riscado, diretor da Casa do Capit\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos setores mais penalizados na crise pand\u00e9mica foi o dos festivais. Em 2020, o cancelamento da maioria dos festivais de ver\u00e3o em Portugal representou uma perda de cerca de 1,6 mil milh\u00f5es de euros, segundo Ricardo Bram\u00e3o, fundador e presidente da <a href=\"https:\/\/www.aporfest.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Aporfest<\/a> (Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Festivais de M\u00fasica), a associa\u00e7\u00e3o mais representativa dos festivais e dos seus agentes e que organiza os eventos <a href=\"https:\/\/www.talkfest.eu\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Talkfest<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/iberianfestivalawards\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Iberian Festival Awards<\/a>: \u201cOs festivais de 2020 n\u00e3o come\u00e7aram a trabalhar nesse ano, mas sim em 2019 e s\u00f3 regressando em 2022, tornam-se quatro anos de produ\u00e7\u00e3o de eventos que s\u00f3 ter\u00e3o uma edi\u00e7\u00e3o. Para recuperar esses quase tr\u00eas anos, todas as verbas investidas, o dinheiro e a produ\u00e7\u00e3o ser\u00e1 muito complicado e\u00a0 acho que demorar\u00e1 uma d\u00e9cada a ser conseguido\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre o futuro dos festivais, Bram\u00e3o revela pondera\u00e7\u00e3o, mas sublinha igualmente o car\u00e1ter contingente do per\u00edodo. \u201cVivemos um momento de transi\u00e7\u00e3o em que est\u00e1 a haver uma adapta\u00e7\u00e3o a novas regras e ainda n\u00e3o se arrisca muito. Por isso, \u00e9 um ano de maior complexidade no reajuste dos festivais e mesmo que a pandemia acabasse agora ou a vacina\u00e7\u00e3o tivesse sido cumprida para todos os grupos de risco seria sempre um per\u00edodo transit\u00f3rio. \u00c9 uma fase de adapta\u00e7\u00e3o, porque depende da confian\u00e7a do p\u00fablico\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Face \u00e0 incerteza, a Az\u00e1fama teve de repensar as suas estrat\u00e9gias, tomar decis\u00f5es e, em alguns casos, lan\u00e7ar trabalhos novos, mesmo sabendo que o retorno imediato ficaria abaixo daquele que teria num cen\u00e1rio pr\u00e9-pand\u00e9mico. \u201cTorna-se preponderante pensar a m\u00e9dio e a longo prazo. N\u00e3o faz sentido lan\u00e7ar discos \u00e0 pressa, em cima do joelho, para \u201csalvar o ver\u00e3o\u201d a n\u00edvel de apresenta\u00e7\u00f5es ao vivo. O que \u00e9 lan\u00e7ado tem que ser pensado e certeiro, porque pode determinar quem sobrevive a tempestade e quem morre na praia. Mais do que nunca \u00e9 preciso privilegiar a qualidade e n\u00e3o a quantidade\u201d, diz Pedro Valente.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-61385\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/circuitolisboa.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/circuitolisboa.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/circuitolisboa-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sobreviv\u00eancia das salas de programa\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>Uma das iniciativas fundamentais de revitaliza\u00e7\u00e3o cultural \u00e9 o <a href=\"https:\/\/www.lisboa.circuito.live\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Circuito Lisboa<\/a>, que se iniciou em 3 de Maio e prolonga-se durante o m\u00eas de Junho. A a\u00e7\u00e3o resultou de um apoio da C\u00e2mara Municipal (prefeitura) de Lisboa no \u00e2mbito do programa Lisboa Protege com o objetivo de garantir a sobreviv\u00eancia das salas de programa\u00e7\u00e3o da rede Circuito em Lisboa, nos meses de inverno, e permitir que os espa\u00e7os abrissem portas, temporariamente, atrav\u00e9s de um apoio destinado a artistas e outros profissionais do espet\u00e1culo. A Casa do Capit\u00e3o foi uma das 12 salas de programa\u00e7\u00e3o abrangidas por este apoio, junto com Musicbox, Titanic Sur Mer, Lounge, Valsa, Lux Fr\u00e1gil, Hot Clube de Portugal, Damas, B.Leza, Village Underground Lisboa, RCA Club e Casa Independente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTal como nos restantes locais, para a Casa do Capit\u00e3o a iniciativa foi fundamental, permitindo retomar a nossa programa\u00e7\u00e3o, apoiar artistas emergentes e n\u00e3o s\u00f3, garantindo-lhes um cache m\u00ednimo, e possibilitando que eles voltem a um dos palcos da cidade. A grande maioria destes int\u00e9rpretes n\u00e3o tem grandes p\u00fablicos e as suas carreiras ficam em risco sem estas oportunidades, por isso, embora estas medidas n\u00e3o resolvam as suas vidas financeiras, o sucesso das mesmas est\u00e1 na soma do trabalho que estes espa\u00e7os puderam desenvolver e da visibilidade que est\u00e3o a dar aos m\u00fasicos que regressam a estes lugares. A programa\u00e7\u00e3o do Circuito Lisboa na Casa do Capit\u00e3o tem tido tamb\u00e9m boa ades\u00e3o do p\u00fablico\u201d, explica Gon\u00e7alo Riscado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Relativamente \u00e0 dinamiza\u00e7\u00e3o da atividade art\u00edstica, os teatros municipais deram um contributo significativo. Em Lisboa, o Teatro S\u00e3o Luiz e o Teatro Maria Matos, tal como o Teatro Rivoli (Porto) e o Theatro Circo (Braga) t\u00eam inclu\u00eddo nas suas programa\u00e7\u00f5es v\u00e1rios m\u00fasicos portugueses, num processo marcado pela continuidade das atua\u00e7\u00f5es e contando com a ades\u00e3o do p\u00fablico. Os espa\u00e7os respeitam as orienta\u00e7\u00f5es da DGS, entre as quais que o p\u00fablico utilize m\u00e1scaras de prote\u00e7\u00e3o e as salas de espet\u00e1culos tenham lota\u00e7\u00e3o a 50% e, atualmente, nos casos concretos de Lisboa e Braga, devido ao aumento da taxa de infectados pela Covid-19 (superior ao resto do pa\u00eds), os shows t\u00eam de terminar \u00e0s 22h 30m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNa m\u00fasica a quest\u00e3o divide-se em duas \u00e1reas espec\u00edficas. Por um lado, os shows, eventos institucionais ligados aos munic\u00edpios e aos teatros municipais, s\u00e3o iniciativas que n\u00e3o t\u00eam larga escala, pertencem a uma estrutura central e n\u00e3o dependem das contas a pagar para serem concretizadas. Por outro lado, a maior dificuldade est\u00e1 a acontecer na \u00e1rea do mercado mais informal, no underground, nas salas mais pequenas e em espa\u00e7os que abriam s\u00f3 para fazer um determinado evento. As dificuldades s\u00e3o grandes. Na cidade do Porto, a sala <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/mhabitos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Maus H\u00e1bitos<\/a> transformou-se num restaurante e fazem-se shows \u00e0 mesa (com o p\u00fablico sentado). Desconhe\u00e7o se as duas salas do Hard Club est\u00e3o dispon\u00edveis, mas \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o um pouco similar e t\u00eam lugares sentados\u201d, conta Manuel Molarinho.<\/p>\n<figure id=\"attachment_61386\" aria-describedby=\"caption-attachment-61386\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-61386 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/maushabitos.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/maushabitos.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/maushabitos-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-61386\" class=\"wp-caption-text\"><em>Show recente no Espa\u00e7o de Interven\u00e7\u00e3o Cultural Maus H\u00e1bitos, em Porto \/ Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o Facebook<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Programa Garantir Cultura<\/strong><br \/>Sobre o <a href=\"https:\/\/www.culturaportugal.gov.pt\/pt\/criar\/apoios\/diversos-2021\/programa-garantir-cultura\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">programa Garantir Cultura<\/a>, que contou com verbas consider\u00e1veis, as quais se espera que sejam aplicadas total e corretamente, e a aprova\u00e7\u00e3o do Estatuto dos Profissionais da Cultura, duas medidas do Minist\u00e9rio da Cultura anunciadas em 2021, Pedro Valente valoriza as delibera\u00e7\u00f5es, mas revela algumas preocupa\u00e7\u00f5es: \u201dVerificam-se problemas de precariedade na ind\u00fastria que deveriam ter sido abordados h\u00e1 muito tempo com seriedade. \u00c9 um efeito colateral da pandemia (n\u00e3o s\u00e3o muitos, mas existem) e que tornou ainda mais urgente essa an\u00e1lise. E, naturalmente, programas como o Garantir Cultura, ser\u00e3o um bal\u00e3o de oxig\u00e9nio para muitos players na ind\u00fastria. Embora os prazos estabelecidos para a realiza\u00e7\u00e3o dos planos de atividades previstos nas candidaturas me inquietem um pouco, porque vai haver muita coisa a acontecer at\u00e9 ao fim do ano, quando o mercado continua a ser bastante pequeno, podendo n\u00e3o ter capacidade para absorver tudo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cancelamento dos festivais de grande dimens\u00e3o, como o Rock in Rio Lisboa, o NOS Alive (Oeiras), Primavera Sound (Porto, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/CPno8nEnyeN\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que j\u00e1 anunciou sua edi\u00e7\u00e3o para 2022<\/a>) ou o Super Bock Super Rock (Sesimbra), que dependem de uma determinada log\u00edstica e\/ou de aspectos internacionais, possibilitou um interesse maior em festivais de menor dimens\u00e3o e indoor, n\u00e3o t\u00e3o dependentes de uma enorme bilheteria e que est\u00e3o a ocorrer. O <a href=\"https:\/\/festivalaporta.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Festival A Porta<\/a> (na cidade de Leiria) e o <a href=\"https:\/\/www.artesavila.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Festival Artes \u00e0 Vila<\/a> (na vila da Batalha), que contar\u00e1 com as atua\u00e7\u00f5es de <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/03\/09\/de-portugal-filipe-sambado-aproximo-me-muito-mais-do-funk-carioca\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Filipe Sambado<\/a>, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/10\/07\/entrevista-benjamim-lanca-seu-terceiro-disco-vias-de-extincao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Benjamim<\/a> e JP Sim\u00f5es, entre outros, representam alguns dos momentos especiais da temporada festivaleira de Portugal. \u201cS\u00e3o duas iniciativas muito interessantes. Destaco a transversalidade cultural do Festival A Porta, que vai buscar elementos \u00e0s v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es e recordo que h\u00e1 dois anos os First Breath After Coma (banda de Leiria) tocaram l\u00e1 durante 24 horas. O Festival Artes \u00e0 Vila integra as ra\u00edzes da m\u00fasica portuguesa e coloca-as em lugares onde n\u00e3o estamos habituados a escut\u00e1-la (o evento decorre no Mosteiro da Batalha). Portanto, n\u00f3s temos muito boas ideias de festivais e n\u00e3o foi por causa da pandemia que apareceram, porque elas j\u00e1 existiam antes\u201d, explica Ricardo Bram\u00e3o, presidente da Aporfest.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"festival Artes a Vila 2021_ promo\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ZlLWj7-ZwwQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No que respeita \u00e0 presente \u201cfome de concertos\u201d do p\u00fablico, que resulta em salas cheias, Bram\u00e3o demonstra alguma cautela: \u201cAinda n\u00e3o sabemos se essas enchentes acontecem por termos sede de espet\u00e1culos ou se \u00e9 claramente o reconhecimento do produto portugu\u00eas. O que defendemos enquanto associa\u00e7\u00e3o \u00e9 que o artista portugu\u00eas seja cada vez mais apreciado, ou seja, que paguemos para ver uma determinada atua\u00e7\u00e3o do nosso agrado. O nosso trabalho vai demorar muitos anos, mas o panorama est\u00e1 a mudar. A Aporfest quer que o p\u00fablico valorize da mesma forma o produto nacional e internacional. Considero que a valoriza\u00e7\u00e3o tem de partir do artista, do promotor e do p\u00fablico. Acredito que mais bandas portuguesas ir\u00e3o estar acess\u00edveis para os espectadores\u201d, conclui Bram\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Futuro da m\u00fasica portuguesa<\/strong><br \/>\u201cTemos de arranjar outras formas de existir e crescer para al\u00e9m das apresenta\u00e7\u00f5es ao vivo. N\u00e3o podemos ficar novamente nesta situa\u00e7\u00e3o aflitiva perante o aparecimento de uma nova pandemia. Mas isso \u00e9 um problema que deve ser resolvido \u00e0 escala mundial, embora em Portugal a situa\u00e7\u00e3o seja ainda mais grave devido ao reduzido tamanho do nosso mercado, aliado a dificuldades cr\u00f4nicas de exporta\u00e7\u00e3o da nossa cultura. O micromercado portugu\u00eas \u00e9 incapaz de alimentar muitas bocas com receitas de streaming, por exemplo. Embora existam, s\u00e3o poucos os que conseguem pagar estruturas com vendas online de m\u00fasica. A pandemia teve efeitos nefastos na ind\u00fastria, mas os problemas estruturais e os desafios j\u00e1 existiam. Temos muitas reflex\u00f5es a fazer e n\u00e3o nos podemos esquecer de tudo, assim que o mercado dos shows voltar \u00e1 velocidade de cruzeiro\u201d, defende Pedro Valente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em rela\u00e7\u00e3o ao panorama musical portugu\u00eas do futuro, Manuel Molarinho apresenta igualmente o seu ponto de vista: \u201cSinto que o online n\u00e3o funcionou porque os m\u00fasicos alimentam-se da audi\u00eancia e num pa\u00eds como Portugal v\u00e3o sempre existir respostas camar\u00e1rias (das prefeituras). Para al\u00e9m disso, o atual modelo coaduna-se melhor com a m\u00fasica ambiental, o cantautor ou o jazz cl\u00e1ssico e menos para a pista de dan\u00e7a, o mosh e o suor em conjunto. Acredito que futuramente haja uma preocupa\u00e7\u00e3o mais visual com os shows e v\u00e3o haver algumas a\u00e7\u00f5es nesse sentido. A adapta\u00e7\u00e3o poder\u00e1 passar por um cuidado superior com a cenografia, cinematografia e teatralidade dos espet\u00e1culos\u201d. Molarinho acredita tamb\u00e9m que poder\u00e3o existir \u201cIniciativas menores e exclusivas, para amigos, que permitam uma proximidade maior e em seguran\u00e7a\u201d, mas sublinha que, em fun\u00e7\u00e3o do grau de incerteza, \u201cainda \u00e9 cedo para falar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com Gon\u00e7alo Riscado existem v\u00e1rios fatores importantes no horizonte: \u201cArtisticamente, no cen\u00e1rio nacional e n\u00e3o s\u00f3, est\u00e1 por avaliar o impacto desta parada em termos de novos criadores, novas bandas, projetos que terminaram e a consequ\u00eancia deste fen\u00f4meno na diversidade da oferta, bem como o que se pode ter perdido em aspectos geracionais, tema que nos preocupa e parece ser relevante. Depois, imp\u00f5e-se a quest\u00e3o da viabilidade dos espa\u00e7os, que depender\u00e1 do impacto da prevista crise econ\u00f4mica p\u00f3s-pandemia e do processo de recupera\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Adicionalmente, Riscado sustenta que vai levar algum tempo at\u00e9 que a circula\u00e7\u00e3o internacional de artistas tenha a express\u00e3o que tinha antes da pandemia. \u201cTudo indica que o foco estar\u00e1 mais colocado em artistas locais nos primeiros meses e anos de funcionamento, mas depois ser\u00e1 poss\u00edvel recuperar o trabalho de programa\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o. A garantia de uma boa divulga\u00e7\u00e3o da m\u00fasica e dos artistas passa, primeiramente, por continuar a investir para que os processos criativos n\u00e3o parem e assegurar que todas as estruturas base do ecossistema est\u00e3o protegidas quando for poss\u00edvel voltarem a funcionar\u201d, conclui.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-61387\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/primaveraporto.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"937\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/primaveraporto.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/primaveraporto-240x300.jpg 240w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Pedro Salgado (siga\u00a0<a href=\"http:\/\/twitter.com\/woorman\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@woorman<\/a>) \u00e9 jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream &amp; Yell desde 2010 contando novidades da m\u00fasica de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/author\/pedro-salgado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>. A foto que abre o texto \u00e9 de <a href=\"https:\/\/veramarmelo.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Vera Marmelo<\/a>, registro do show &#8220;meia casa&#8221; de <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/06\/20\/jonatas-pires-ao-vivo-no-teatro-maria-matos-em-lisboa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">J\u00f3natas Pires no Teatro Maria Matos<\/a>, em Lisboa, em junho de 2021.<\/em><\/p>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Como a cena cultural portuguesa est\u00e1 lidando com a pandemia, que a\u00e7\u00f5es o poder p\u00fablico local est\u00e1 realizando para auxiliar os profissionais e o que o meio pensa do futuro da m\u00fasica no pa\u00eds\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/06\/23\/especial-musica-portuguesa-a-pandemia-e-o-futuro\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":7,"featured_media":61389,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[47],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61376"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=61376"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61376\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":61391,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61376\/revisions\/61391"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/61389"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=61376"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=61376"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=61376"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}