{"id":61363,"date":"2021-06-22T23:55:13","date_gmt":"2021-06-23T02:55:13","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=61363"},"modified":"2021-07-05T04:28:35","modified_gmt":"2021-07-05T07:28:35","slug":"entrevista-francis-vogner-e-cleber-eduardo-falam-sobre-a-mostra-cineop-2021","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/06\/22\/entrevista-francis-vogner-e-cleber-eduardo-falam-sobre-a-mostra-cineop-2021\/","title":{"rendered":"Entrevista: Francis Vogner e Cl\u00e9ber Eduardo falam sobre a Mostra CineOP 2021"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">De 23 (quarta) a 28 de junho (segunda) acontece a 16\u00aa edi\u00e7\u00e3o da <a href=\"https:\/\/cineop.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mostra de Cinema de Ouro Preto<\/a>, a popular CineOP (<a href=\"https:\/\/cineop.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/cineop.com.br<\/a>). Pelo segundo ano consecutivo, por\u00e9m, ainda devido \u00e0s imprescind\u00edveis restri\u00e7\u00f5es decorrentes da pandemia, as tradicionais sess\u00f5es na bel\u00edssima cidade mineira, Patrim\u00f4nio Cultural da Humanidade, n\u00e3o v\u00e3o trazer o b\u00f4nus do encontro presencial entre p\u00fablico, Cinema e Hist\u00f3ria. Assim, a CineOP 2021 ser\u00e1, novamente, realizada on-line diretamente no site do evento. Conhecida pelo seu perfil de resgate hist\u00f3rico e afetivo da mem\u00f3ria do Cinema Brasileiro, a Mostra de 2021 contar\u00e1 com um total de 118 filmes divididos entre curtas, m\u00e9dias e longas metragens que n\u00e3o somente trazem esse resgate, mas que tamb\u00e9m focam em produ\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas que dialogam com o urgente presente da realidade do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chico Diaz, ator brasileiro cuja carreira no cinema, palcos e TV j\u00e1 transcorre um per\u00edodo de quase 40 anos, \u00e9 o homenageado da CineOP desse ano. Durante a entrevista coletiva concedida na apresenta\u00e7\u00e3o da mostra, o artista, que nasceu na Cidade do M\u00e9xico, mas cresceu no Brasil, pontuou sua trajet\u00f3ria de int\u00e9rprete de personagens oriundos das mais diversas regi\u00f5es brasileiras, saudando a Bahia e Salvador como lugares que lhe permitiram um fortalecimento dessa identidade como um int\u00e9rprete das mais variadas express\u00f5es nacionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste ano, a CineOP traz na sua Mostra Contempor\u00e2nea a divis\u00e3o dos filmes em quatro eixos: \u201cPassado em investiga\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cMem\u00f3rias das artes brasileiras\u201d; &#8220;Ind\u00edgenas e as imagens: entre o passado e o presente\u201d e \u201cOs espa\u00e7os e os vest\u00edgios da hist\u00f3ria\u201d. Nos quatro, e em especial nos dois primeiros eixos citados, cumpre seu papel de foco na tanto na Hist\u00f3ria passada do Brasil quanto nas reverbera\u00e7\u00f5es atuais dessa mesma hist\u00f3ria, alertando sua audi\u00eancia quanto aos riscos de repeti\u00e7\u00e3o das mesmas trag\u00e9dias hist\u00f3ricas do s\u00e9culo XX, bem como celebrando pessoas que, dentro das Artes, lutaram contra a opress\u00e3o do regime militar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos curadores da mostra, Francis Vogner, comenta o processo curatorial de escolha de filmes que abordam a hist\u00f3ria do Teatro Oficina e a trajet\u00f3ria de Z\u00e9 Celso; a estrada dentro das artes percorrida <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/04\/18\/entrevista-orlando-senna-lara-belov-e-jamille-fortunato-falam-sobre-o-amor-dentro-da-camera\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">por Concei\u00e7\u00e3o e Orlando Senna<\/a>, bem como a hist\u00f3ria de <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/06\/28\/musica-corte-a-banda-que-une-alzira-e-a-musicos-do-bixiga-70-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alzira Esp\u00edndola<\/a>. &#8220;A arte brasileira, a tend\u00eancia \u00e9, e eu entendo perfeitamente, \u00e9 tentar a arte como essa resist\u00eancia a per\u00edodos obscuros da vida brasileira. Ao mesmo tempo, com o seu modo de vida e a sua atitude, estar na contra-m\u00e3o desses regimes e da trucul\u00eancia de um regime pol\u00edtico espec\u00edfico. No caso dessas pessoas, \u00e9 a ditadura militar&#8221;, explica Francis, e complementa: &#8220;Essas figuras todas est\u00e3o no embate ao sistema que se coloca. E isso se prova com a obra, mas prova-se, tamb\u00e9m, em fazer da vida parte da obra. A obra vem da vida e a vida se dirige \u00e0 obra. Acho que isso que \u00e9 muito interessante. A gente n\u00e3o est\u00e1 lidando com artistas que separam isso&#8221;, pontua o curador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cl\u00e9ber Eduardo, tamb\u00e9m curador da CineOP, enfatiza essa rela\u00e7\u00e3o de tais artistas com seus modos questionadores de vida tem a ver mais com uma quest\u00e3o de atitude. &#8220;\u00c9 uma atitude e um modo de vida que, sim, tem uma rela\u00e7\u00e3o com a sociedade, com os seus momentos hist\u00f3ricos vividos ao longo dos anos. Mas, talvez, menos por uma quest\u00e3o de uma consci\u00eancia, de uma obedi\u00eancia a princ\u00edpios, de uma fidelidade a digamos, um programa, sabe? E muito mais por uma quest\u00e3o de atitude. Eu acho que todo o desdobramento \u00e9 posterior a essa atitude existencial. \u00c9 isso que, para mim, sobretudo, marca esses personagens, Orlando e Concei\u00e7\u00e3o Senna, Alzira, Z\u00e9 Celso e o Teatro Oficina&#8221;, explica Cl\u00e9ber. &#8220;\u00c9 um modo de se colocar do ponto de vista particular, pessoal e p\u00fablico, j\u00e1 que s\u00e3o figuras p\u00fablicas. E a\u00ed, sim, o desdobramento \u00e9, digamos, uma resist\u00eancia, porque, enfim, estavam em um dado momento, num regime que essa atitude n\u00e3o era permitida. Ent\u00e3o, estavam, inevitavelmente, do lado de l\u00e1. Mas, sobretudo, acho que pela sua atitude existencial e art\u00edstica&#8221;, finaliza o curador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o artistas conscientes de suas fun\u00e7\u00f5es sociais e do mundo em sua volta que precisamos, de fato, louvar. Nesta entrevista ao Scream &amp; Yell, Francis e Cl\u00e9ber falam um pouco mais sobre esse processo de curadoria. Confira!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"VT  16\u00aa CineOP | De 23 a 28 de junho | Programa\u00e7\u00e3o online e gratuita\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/FE9hHjlJkJc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ao observar a divis\u00e3o da Mostra Contempor\u00e2nea desse ano nos quatro eixos propostos, me fez refletir sobre a quest\u00e3o primordial da CineOP como uma mostra que visa trazer \u00e0 tona a discuss\u00e3o sobre o resgate hist\u00f3rico do cinema brasileiro. E nesse 2021, bem como nos \u00faltimos dois anos, a quest\u00e3o do cinema feito pelo povo ind\u00edgena ganha ainda mais relev\u00e2ncia nessa discuss\u00e3o. O eixo \u201cInd\u00edgenas e as imagens: entre o passado e o presente\u201d pontua bem esse foco. Como foi essa percep\u00e7\u00e3o das obras dentro desse contexto urgente que o tema das vidas ind\u00edgenas possui?<\/strong><br \/>Francis Vogner \u2013 Tentamos elaborar as coisas a partir dos filmes como eles se apresentam. Nos \u00faltimos anos, tem sido mais frequente a presen\u00e7a de filmes de realizadores ind\u00edgenas. E a\u00ed tem uma particularidade que me parece uma tend\u00eancia dos \u00faltimos dois anos. Pode ser mais antiga, mas \u00e9 algo que acabei notando a partir do que chega a mim. \u00c9 um crossover, a jun\u00e7\u00e3o de realizadores ind\u00edgenas com realizadores n\u00e3o ind\u00edgenas. Teve um filme no ano passado da Patr\u00edcia Ferreira Par\u00e1 Yxapy Guarani junto com a Sophia Pinheiro (\u201cNhemongueta Kunh\u00e3 Mbaraete\u201d, 2020), que \u00e9 uma realizadora branca. Um filme feito a partir de uma troca epistolar. E os cineastas guarani, especificamente, \u00e0s vezes ficam muito aplicados a estabelecer essa rela\u00e7\u00e3o com outros realizadores e fazer os filmes em conjunto. \u00c9 o caso, esse ano, de dois filmes: \u201cSabedoria das Mulheres\u201d, do Alberto Alvares e da Cristina Fl\u00f3ria; e o \u201cXadalu e o Jaqueret\u00ea\u201d, do Tiago Bortolini e Ariel Kuaray Ortega. S\u00e3o filmes nos quais voc\u00ea tem esse crossover, e que essa troca \u00e9 colocada em quest\u00e3o. Sobretudo em \u201cXadalu e Jaquaret\u00ea\u201d. \u201cO \u00cdndio Cor de Rosa contra a Fera Invis\u00edvel\u201d n\u00e3o \u00e9 um filme de um realizador ind\u00edgena, mas \u00e9 feito a partir das imagens em 16mm realizadas durante d\u00e9cadas por Noel Nutels, um m\u00e9dico sanitarista que atendia popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas \u2013 al\u00e9m do \u00e1udio dele gravado no Congresso Nacional um pouco antes do AI-5 em defesa das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. Ent\u00e3o, voc\u00ea tem, de fato, tr\u00eas filmes que s\u00e3o varia\u00e7\u00f5es dessa rela\u00e7\u00e3o com as imagens e com a mem\u00f3ria dos povos ind\u00edgenas. O Cl\u00e9ber prop\u00f4s essa divis\u00e3o, que \u00e9 uma maneira de entender esses filmes a partir de blocos. E esses filmes cujas partes das imagens s\u00e3o sobre a representa\u00e7\u00e3o e sobre a mem\u00f3ria dos povos ind\u00edgenas, sejam feitos por realizadores brancos, ou por realizadores ind\u00edgenas. E \u00e9 curioso que, no caso dos realizadores ind\u00edgenas, esse crossover me parece que tem sido frequente. Penso eu que \u00e9 uma tentativa dos realizadores guaranis, de fato, estabelecerem um di\u00e1logo para fora da tradi\u00e7\u00e3o. Para afirmar, enfim, os seus lugares e as suas tradi\u00e7\u00f5es, mas um pouco fora dessa tradi\u00e7\u00e3o. Uma maneira, digamos assim, de ganhar um pouco de campo no debate contempor\u00e2neo. Um pouco para al\u00e9m das quest\u00f5es circunscritas ao ambiente do debate do cinema ind\u00edgena, do cinema guarani. \u00c9 um debate que, atualmente, me parece ser necess\u00e1rio de se fazer para fora. Porque muitos realizadores ind\u00edgenas fazem filmes para os seus pr\u00f3prios povos. Acho que existem v\u00e1rios povos e v\u00e1rios realizadores que, muitas vezes, de fato, n\u00e3o est\u00e3o interessados em fazer filmes que n\u00e3o sejam para eles mesmos, para o seu pr\u00f3prio povo. Mas sinto que para os cineastas guaranis, especificamente esses dois, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 de hoje. Me parece determinante para esses filmes essa tentativa de di\u00e1logo e de fazer uma a\u00e7\u00e3o conjunta. E o do Noel Nutels \u00e9 isso, tamb\u00e9m. Essa media\u00e7\u00e3o est\u00e1 presente na figura do pr\u00f3prio Noel e do Tiago Carvalho, que \u00e9 o diretor. O protagonista do filme acaba sendo, na verdade, quem fez as imagens dos ind\u00edgenas, que \u00e9 o Noel. Mas a media\u00e7\u00e3o a\u00ed se imp\u00f5e. E nos outros, o di\u00e1logo se imp\u00f5e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 palp\u00e1vel a import\u00e2ncia da escolha dos longas metragens do eixo \u201cPassado em Investiga\u00e7\u00e3o\u201d, com tais obras sendo exibidas dentro do contexto atual do Brasil, de nega\u00e7\u00e3o, de tentativa de reescrita da Hist\u00f3ria, e o que \u00e9 mais importante, de n\u00e3o deixar mudarem os fatos do que realmente aconteceu com o per\u00edodo ditatorial, que foi h\u00e1 t\u00e3o pouco tempo e que, agora, ocorre esse risco de se repetir. Quando se coloca esse questionamento dentro do cinema, dentro de uma mostra, isso ganha ainda mais representatividade e mais import\u00e2ncia. Como foi abordar essa crucial fun\u00e7\u00e3o da curadoria no sentido de alerta quanto ao que segue como uma amea\u00e7a contra as institui\u00e7\u00f5es?<\/strong><br \/>Cl\u00e9ber Eduardo \u2013 Claro que, quando n\u00f3s estamos vendo os filmes, n\u00e3o temos a ordem que temos quando os programamos. N\u00f3s assistimos em uma ordem completamente individual. Cada um tem seu crit\u00e9rio. Eu uso a ordem da inscri\u00e7\u00e3o. Vou indo filme a filme. Quem for inscrito primeiro, vejo primeiro. Quem for inscrito por \u00faltimo, vejo por \u00faltimo. Quando a programa\u00e7\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 fechada, parece que n\u00f3s t\u00ednhamos uma s\u00e9rie de pressupostos e princ\u00edpios dentro da curadoria, e chegamos \u00e0quela sess\u00e3o. Mas n\u00e3o. N\u00e3o se sabe muito o que voc\u00ea vai encontrar, mas estamos muito atentos a quais s\u00e3o os filmes que, de alguma forma, lidam com uma certa sintonia fina com as nossas quest\u00f5es pol\u00edticos sociais de hoje, 2021. Mas de que maneira esses filmes lidam, tamb\u00e9m, com a tem\u00e1tica hist\u00f3rica, como a d\u00e9cada de 1990. E com o segmento do cinema brasileiro na d\u00e9cada 1990 que olhou para o passado, que foi l\u00e1 problematizar a hist\u00f3ria oficial do Brasil. Os pressupostos identit\u00e1rios do pa\u00eds. Se voc\u00ea for assistir a todos os filmes, cada um com as suas particularidades estil\u00edsticas, e, eventualmente, cada um com seus \u00eaxitos enquanto projeto, eles t\u00eam essa premissa de retornar para tentar remexer na historiografia oficial que veio l\u00e1 do regime militar. E que ainda era, digamos, predominante, na d\u00e9cada de 1990. Ent\u00e3o, temos, do ponto de vista curatorial, que assistir a estes tr\u00eas filmes (\u201cGolpe de Ouro\u201d, \u201cA Trilha dos Ratos\u201d e \u201cOpera\u00e7\u00e3o Camanducaia\u201d) em um di\u00e1logo com essa programa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que, tamb\u00e9m, lida com a problematiza\u00e7\u00e3o do passado. Como se n\u00f3s tiv\u00e9ssemos uma estrutura hist\u00f3rica atrav\u00e9s dos filmes que, mais ou menos, explicam o porque da gente ficar dando voltas no Brasil contempor\u00e2neo. E estamos no Brasil de hoje. E o que eu acho interessante nestes filmes contempor\u00e2neos, e a\u00ed \u00e9 uma particularidade, talvez, at\u00e9 mais forte neles do que nos filmes dos anos 1990, \u00e9 que eles tratam a hist\u00f3ria, o passado, como uma caixa de segredos. Como uma esp\u00e9cie de caixa forte a ser aberto e a ser decodificado. E, portanto, a ser denunciado. Quer dizer, n\u00e3o se trata de uma representa\u00e7\u00e3o do senso comum, relacionado aos processos hist\u00f3ricos que esses filmes abordam. Trata-se, sempre, de uma perspectiva investigativa. Do cinema como um instrumento investigativo. E isso \u00e9 uma natureza diferente dos filmes dos anos 1990 que trataram a Hist\u00f3ria. Era um pouco isso que a gente estava tentando enfatizar. \u00c9 a hist\u00f3ria como uma mat\u00e9ria de investiga\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o s\u00f3 como uma mat\u00e9ria prima da representa\u00e7\u00e3o dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 curioso observar a urg\u00eancia dessa produ\u00e7\u00e3o mais recente que aborda esse cinema atual como uma mat\u00e9ria de investiga\u00e7\u00e3o em compara\u00e7\u00e3o a esse citado e que foi feito nos anos 1990. Estamos diante de um iminente risco da democracia e as produ\u00e7\u00f5es em suas tem\u00e1ticas est\u00e3o cientes disso, enquanto nas produ\u00e7\u00f5es realizadas h\u00e1 25 anos, essa alegoria parecia mais distante. Agora, esse risco \u00e9 real.<\/strong><br \/>Francis Vogner \u2013 Vejo que s\u00e3o duas maneiras diferentes de lidarem com a Hist\u00f3ria. Os filmes dos anos 1990 s\u00e3o rec\u00e9m-sa\u00eddos de um per\u00edodo de abertura democr\u00e1tica de um regime ditatorial. E, na verdade, eles tentam elaborar a experi\u00eancia do ponto de vista, muitas vezes, ou com uma certa amplitude mais ou menos panor\u00e2mica no sentido de lidar com um grande painel hist\u00f3rico, ou voltar algum per\u00edodo da Hist\u00f3ria e elaborar uma narrativa sobre aquilo. Como, por exemplo, \u201cLa Marca\u201d e \u201cCarlota Joaquina\u201d. Alguns v\u00e3o lidar com a perspectiva de olhar para o que constitui o Brasil desde sua funda\u00e7\u00e3o, outros v\u00e3o tentar olhar para esse regime militar e tentar entender, ali, o fracasso das esquerdas. Acho que isso \u00e9 muito forte nestes filmes. E acho que, hoje, estamos olhando para o regime militar de uma outra maneira. Enquanto eles estavam saindo daquilo, em alguma medida, esse esqueleto agora saiu do arm\u00e1rio. E como o Cl\u00e9ber falou, tem esses filmes de investiga\u00e7\u00e3o desse per\u00edodo. \u00c9 tentar entender a emin\u00eancia parda disso da\u00ed durante esse per\u00edodo hist\u00f3rico que a gente viveu de democracia. Ou seja, isso nunca foi embora. N\u00f3s, provavelmente, jogamos para debaixo do tapete ou tentou-se ignorar, achando que isso seria simplesmente superado com o avan\u00e7o das institui\u00e7\u00f5es. E isso aparece de novo. E a nossa rela\u00e7\u00e3o, hoje, \u00e9 muito diferente com a que era aquela. Mas, ao mesmo tempo, existe uma rela\u00e7\u00e3o de um olhar para esse passado para tentar entender, no nosso caso, o momento que estamos vivendo. Ou tentar, naquele momento dos anos 1990, elaborar algo dessa virada, dessa passagem. Mas nunca ignorando que, de fato, muita coisa ainda nos constitui. Ao menos, desde o s\u00e9culo XVIII.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sobre o outro eixo da Mostra Contempor\u00e2nea, o que aborda a \u201cMem\u00f3ria das Artes Brasileiras\u201d, por coincid\u00eancia, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/04\/18\/entrevista-orlando-senna-lara-belov-e-jamille-fortunato-falam-sobre-o-amor-dentro-da-camera\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">eu conversei h\u00e1 pouco mais de tr\u00eas meses com Orlando Senna sobre o filme \u201cO Amor Dentro da C\u00e2mera\u201d<\/a>. Ele trouxe para o papo uma quest\u00e3o de uma circularidade da hist\u00f3ria, com a repeti\u00e7\u00e3o dos fatos que ele presenciou no come\u00e7o dos anos 1960, e de l\u00e1 em diante, com o que est\u00e1 acontecendo agora. E o Orlando acabou de fazer 81 anos, tendo vivido todo esse per\u00edodo e possui a clareza dessa vis\u00e3o comparativa. E a outra voz que voc\u00eas trazem nesse contexto \u00e9 a do Z\u00e9 Celso e a do Teatro Oficina, com o filme \u201cM\u00e1quina do Desejo\u201d. E al\u00e9m desses dois, o filme sobre Alzira Esp\u00edndola, \u201cAquilo que eu Nunca Perdi\u201d. Esse eixo \u201cMem\u00f3ria das Artes Brasileiras\u201d serve como um complemento da proposta de estudo contida em \u201cPassado em Investiga\u00e7\u00e3o\u201d para mostrar uma face de resist\u00eancia das artes nesse sentido. Queria lhes perguntar acerca dessa import\u00e2ncia atual do discutir as artes como modo de resist\u00eancia.<\/strong><br \/>Cl\u00e9ber Eduardo \u2013 Antes disso tudo, esses filmes todos batem para mim, acima de tudo, como atitude e modo de vida. Que \u00e9 uma atitude e um modo de vida que, sim, tem uma rela\u00e7\u00e3o com a sociedade, com os seus momentos hist\u00f3ricos vividos ao longo dos anos. Mas, talvez, menos por uma quest\u00e3o de uma consci\u00eancia, de uma obedi\u00eancia a princ\u00edpios, de uma fidelidade a digamos, um programa, sabe? E muito mais por uma quest\u00e3o de atitude. Acho que todo o desdobramento \u00e9 posterior a essa atitude existencial. \u00c9 isso que, para mim, sobretudo, marca esses personagens. Orlando e Concei\u00e7\u00e3o Senna, Alzira, Z\u00e9 Celso e o Teatro Oficina. Sabe? \u00c9 um modo de se colocar do ponto de vista particular, pessoal e p\u00fablico, j\u00e1 que s\u00e3o figuras p\u00fablicas. E a\u00ed, sim, o desdobramento \u00e9, digamos, uma resist\u00eancia porque, enfim, estavam em um dado momento, num regime que essa atitude n\u00e3o era permitida. Ent\u00e3o, estavam, inevitavelmente, do lado de l\u00e1. Mas, sobretudo, acho que pela sua atitude existencial e art\u00edstica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Francis Vogner \u2013 Vejo a quest\u00e3o de resist\u00eancia a\u00ed&#8230; Tem uma coisa que para mim n\u00e3o \u00e9 muito novidade, assim, de reunir esses tr\u00eas eixos, esses tr\u00eas grupos de artistas: Teatro Oficina, a dupla Concei\u00e7\u00e3o e Orlando Senna e a Alzira Esp\u00edndola, e quem est\u00e1 junto com ela, como fam\u00edlia e amigos. Acho que a arte brasileira, a tend\u00eancia \u00e9, e eu entendo perfeitamente, \u00e9 tentar a arte como essa resist\u00eancia a per\u00edodos obscuros da vida brasileira. Ao mesmo tempo, com o seu modo de vida e a sua atitude, estar na contram\u00e3o desses regimes e da trucul\u00eancia de um regime pol\u00edtico espec\u00edfico. No caso dessas pessoas, \u00e9 a ditadura militar. Mas acho que eles sempre s\u00e3o de resist\u00eancia, por um lado. Acho que \u00e9 bom olhar, assim, a gente teve esse per\u00edodo que foi de ditadura, que eles lutaram, e depois tivemos outro per\u00edodo de bonan\u00e7a, ou de liberdade, e eles voltaram. Por exemplo, com o Teatro Oficina, acabou a ditadura, mas eles come\u00e7aram a brigar com o grande capital. \u00c9 o grupo Silvio Santos querendo derrubar o Teatro Oficina e construir um shopping. Isso permaneceu. E h\u00e1 toda uma luta deles com rela\u00e7\u00e3o ao espa\u00e7o urbano. E a necessidade de existir naquele lugar, naquele espa\u00e7o, que atravessou a hist\u00f3ria do Oficina inteira. Antes, era contra a ditadura, depois o poder do dinheiro e novamente o poder do governo. Teatro, afinal, n\u00e3o \u00e9 um neg\u00f3cio. E no caso da Alzira, por exemplo, ela tamb\u00e9m surgiu em um contexto de mais ou menos fim da ditadura militar, e \u00e9 uma dessas artistas radicais da m\u00fasica, que atravessa os anos 1980, mas, tamb\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 uma artista que fez parte, digamos, do establishment. E como ela resiste esse tempo todo criando. Acho que isso est\u00e1 colocado. Como, tamb\u00e9m, a Concei\u00e7\u00e3o e o Orlando Senna fizeram parte de momentos do cinema brasileiro nos anos 1960, 1970 e parte dos 1980. N\u00e3o por acaso, foram a Cuba, para EICTV, e t\u00eam toda essa hist\u00f3ria em Cuba, que \u00e9 esse pa\u00eds fora do eixo. E o Orlando, principalmente como gestor cultural dos \u00faltimos anos, \u00e9 uma pessoa que sempre esteve implicada em tentar construir um lugar para o audiovisual. Que o audiovisual tivesse uma vida. E, para isso, voc\u00ea acaba enfrentando algumas resist\u00eancias. Ou seja, o lugar da arte brasileira \u00e9 sempre de resist\u00eancia. Por condi\u00e7\u00e3o, mesmo. Eu acho que essas figuras todas est\u00e3o no embate ao sistema que se coloca. E isso se prova com a obra, mas prova-se, tamb\u00e9m, em fazer da vida parte da obra. A obra vem da vida e a vida se dirige \u00e0 obra. Ent\u00e3o, acho que isso que \u00e9 muito interessante. A gente n\u00e3o est\u00e1 lidando com artistas que separam isso. Acho at\u00e9 que a rela\u00e7\u00e3o da Concei\u00e7\u00e3o e do Orlando \u00e9 muito curiosa. Esse amor dentro da c\u00e2mera a gente v\u00ea dentro e fora. Acho que isso est\u00e1 na obra deles como um casal; est\u00e1, tamb\u00e9m, na vida deles. E a gente consegue ver um projeto existencial em comum. Acho que \u00e9 um pouco por a\u00ed. E, para mim, \u00e9 uma coisa que vem desde os anos 1960 dessa form. Eu acho que essa resist\u00eancia \u00e9 um pouco uma condi\u00e7\u00e3o da arte brasileira.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Bate-papo com os curadores | 16\u00aa CineOP\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/I3_UvdVxbXs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Visitando Ouro Preto com Quintino Vargas | 16\u00aa CineOP\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/q56P7WbvSLQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.<\/em><\/p>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"De 23 (quarta) a 28 de junho (segunda) acontece a 16\u00aa edi\u00e7\u00e3o da Mostra de Cinema de Ouro Preto, que contar\u00e1 com 118 filmes entre curtas, m\u00e9dias e longas metragens. Nesta entrevista, os curadores comentam alguns eixos da Mostra 2021.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/06\/22\/entrevista-francis-vogner-e-cleber-eduardo-falam-sobre-a-mostra-cineop-2021\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":61365,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[5233],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61363"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=61363"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61363\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":61375,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61363\/revisions\/61375"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/61365"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=61363"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=61363"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=61363"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}