{"id":61354,"date":"2021-06-21T17:10:59","date_gmt":"2021-06-21T20:10:59","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=61354"},"modified":"2023-06-17T09:50:12","modified_gmt":"2023-06-17T12:50:12","slug":"entrevista-alexandre-mapa-fala-do-documentario-sobre-a-banda-gritando-hc","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/06\/21\/entrevista-alexandre-mapa-fala-do-documentario-sobre-a-banda-gritando-hc\/","title":{"rendered":"Entrevista: Alexandre Mapa fala do document\u00e1rio sobre a banda Gritando HC!"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fruto da efervescente cena punk\/hardcore brasileira dos anos 90, o Gritando HC fez hist\u00f3ria ao conquistar p\u00fablico e cr\u00edtica com seus dois primeiros \u00e1lbuns, \u201cGritando HC\u201d (1997) e \u201cAnde de Skate e Destrua\u201d (2000), marcando presen\u00e7a em programas televisivos (como o Musikaos, ent\u00e3o na TV Cultura, e a MTV) e ajudando a definir uma gera\u00e7\u00e3o que teria o skate, o punk, e a cr\u00edtica social como filosofias de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A trajet\u00f3ria da banda foi marcada de maneira tr\u00e1gica em 2001 com a morte precoce de Marcelo Freitas (Donald), que al\u00e9m de ser vocalista e compositor de grande parte das can\u00e7\u00f5es, agia como um menestrel da cena underground. Mas apesar do baque, o Gritando HC seguiu na ativa, lan\u00e7ado discos de est\u00fadio e se apresentando de forma incendi\u00e1ria pelo pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os 27 anos de estrada do Gritando HC foram a inspira\u00e7\u00e3o para que <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/alexandre.mapa.3\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alexandre Mapa<\/a>, montador e realizador audiovisual que estreia como diretor de longa metragem documental, se debru\u00e7asse sobre a hist\u00f3ria do grupo em \u201c<a href=\"https:\/\/br.in-edit.tv\/film\/253\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Gritando! Punk Rock, Skate &amp; Underground<\/a>\u201d (2021), document\u00e1rio que ganha lan\u00e7amento oficial na <a href=\"https:\/\/br.in-edit.tv\/film\/253\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">13\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Festival In-Edit Brasil<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme aborda n\u00e3o s\u00f3 o Gritando HC e o seu papel na cena como tamb\u00e9m \u00e9 um registro emocional com relatos de pessoas que fizeram (e ainda fazem) parte desta hist\u00f3ria de resili\u00eancia e supera\u00e7\u00e3o. Na entrevista abaixo, Alexandre Mapa fala sobre a sua rela\u00e7\u00e3o com o punk, o processo de produ\u00e7\u00e3o do longa, a import\u00e2ncia do Gritando HC na cena, o legado deixado por Donald, a inclus\u00e3o do document\u00e1rio na programa\u00e7\u00e3o do In-Edit e muito mais.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Trailer do  document\u00e1rio: Gritando! Punk Rock, Skate Underground: A hist\u00f3ria do Gritando HC\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Ct9vLC_aRcw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Primeiramente gostaria de saber como se deu a sua rela\u00e7\u00e3o com o punk rock e como a m\u00fasica do Gritando HC! surgiu na sua vida?<\/strong><br \/>\nO rock sempre esteve presente na minha vida, dentro de casa, com minha m\u00e3e e meu pai. Nasci em S\u00e3o Paulo, morei l\u00e1 at\u00e9 os 13 anos e aos 11 come\u00e7ou meu acesso mais espec\u00edfico ao punk rock, com o pessoal de escola, que j\u00e1 tinha banda e a gente ia conhecendo as coisas. A simplicidade e o barulho sempre foram coisas que me chamaram aten\u00e7\u00e3o, me cativaram, e talvez estas sejam as principais caracter\u00edsticas da m\u00fasica punk. Junto com isso vem toda aquela hist\u00f3ria do movimento, uma coisa de anarquia que eu estava conhecendo ali na \u00e9poca e que tamb\u00e9m fazia sentido para mim. E ali, no in\u00edcio dos anos 2000, quando comecei a ter acesso, a curtir, o Gritando HC! estava no auge, n\u00e9? Ent\u00e3o j\u00e1 era uma banda tamb\u00e9m que, junto com v\u00e1rias outras, se tornavam palat\u00e1veis. Ent\u00e3o me mudei para Recife, mas continuei correndo atr\u00e1s do som e do movimento, do que estava acontecendo no Nordeste tamb\u00e9m. Nesse per\u00edodo fiz uma grande amizade com o Pablo que, na \u00e9poca, quando a gente come\u00e7ou a produzir o filme, estava tocando baixo na banda, mas anteriormente tinha sido guitarrista, como \u00e9 retratado no document\u00e1rio. E nisso se deu a conex\u00e3o. Eu tinha acabado de fazer o curso de Comunica\u00e7\u00e3o, estava fazendo um curso de r\u00e1dio\/tv na Universidade Federal de Pernambuco, e precisava fazer um TCC. Na \u00e9poca eu j\u00e1 conhecia o pessoal do Gritando \u00e0 fundo. Ent\u00e3o fui filmar um show deles em Recife e a\u00ed surgiu a ideia de fazer o document\u00e1rio sobre a banda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O document\u00e1rio &#8220;Gritando!&#8221; foi feito durante a pandemia. Quais foram os maiores desafios ligados a produ\u00e7\u00e3o do longa?<\/strong><br \/>\nApesar do filme ter sido lan\u00e7ado em 2021, j\u00e1 no segundo ano de pandemia no mundo, o filme j\u00e1 estava num processo avan\u00e7ado de p\u00f3s-produ\u00e7\u00e3o. A fase de grava\u00e7\u00e3o das entrevistas foi toda em 2016 e em 2017 a gente j\u00e1 tinha todas gravadas. N\u00f3s come\u00e7amos a montar o filme ainda em 2017. E a\u00ed alguns formatos foram aparecendo. Na \u00e9poca se chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que esse formato de 52 minutos seria o ideal, para tentar comercializar. E ao falar de comercializa\u00e7\u00e3o a gente j\u00e1 fala como foi o processo de produ\u00e7\u00e3o. Foi totalmente autoral, totalmente independente. Inicialmente fiz s\u00f3 com os meus equipamentos, que na \u00e9poca nem eram t\u00e3o bons em termos cinematogr\u00e1ficos, de qualidade de imagem. Usei tamb\u00e9m alguns equipamentos emprestados de amigos, mas tudo num estilo de produ\u00e7\u00e3o bem DIY que, no final das contas, acabou casando e criando um pouco a est\u00e9tica do filme, o que faz todo sentido com a trajet\u00f3ria da banda. Quando a pandemia chegou, na verdade, j\u00e1 est\u00e1vamos 100% em p\u00f3s-produ\u00e7\u00e3o. E foi nesse per\u00edodo que j\u00e1 come\u00e7aram a parecer parceiros importantes. Foi o meu primeiro trabalho como diretor, mas fazendo algumas outras coisas. Fui diretor de fotografia e produtor executivo tamb\u00e9m. Durante um tempo, precisei de poucas pessoas para me ajudar, mas quando o filme j\u00e1 estava montado vi que precisava de alguns profissionais para poder executar algumas coisas que realmente n\u00e3o eram a minha (\u00e1rea). Como, por exemplo, essa parte de produ\u00e7\u00e3o, principalmente voltada a distribui\u00e7\u00e3o. E a\u00ed \u00e9 que entra a Marina, da Ideias Produ\u00e7\u00f5es, a Alessandra Alves, que \u00e9 a diretora de produ\u00e7\u00e3o, e a Wendy Rodrigues, que \u00e9 assistente de produ\u00e7\u00e3o. Elas est\u00e3o dando uma for\u00e7a gigante, pois s\u00e3o coisas que realmente sem essa parceria o filme n\u00e3o conseguiria chegar aonde chegou. Em termos art\u00edsticos tamb\u00e9m consegui pessoas para fazer a parte de anima\u00e7\u00e3o, a coloriza\u00e7\u00e3o, a finaliza\u00e7\u00e3o de \u00e1udio, o cartaz do filme com a ilustra\u00e7\u00e3o. O filme tem esse processo na pandemia, mas n\u00e3o chegou a afetar muito porque ele j\u00e1 tinha sido todo captado e montado. \u201cGritando\u201d se deu nesse processo que \u00e9 totalmente independente, com baixo custo, baixo or\u00e7amento e at\u00e9 agora a resposta est\u00e1 sendo bem legal de conte\u00fado, das poucas pessoas que viram, das pessoas que participaram. A inten\u00e7\u00e3o agora e dar uma rodada em festivais e ver exatamente como a gente vai conseguir comercializar e distribuir isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E quanto ao fato der estrear como diretor nesse per\u00edodo?<\/strong><br \/>\nA pandemia foi, de certa forma, o menor dos desafios porque, como disse, os desafios foram gigantes e foram v\u00e1rios. A parte de n\u00e3o ter or\u00e7amento foi o principal desafio. Eu morava l\u00e1 em Recife na \u00e9poca, fui para S\u00e3o Paulo duas vezes. Na \u00e9poca precisei de muito aux\u00edlio. Fiquei na casa da minha tia que foi uma pessoa muito importante para a execu\u00e7\u00e3o do filme. Em termos financeiros e psicol\u00f3gicos. O filme fez parte da hist\u00f3ria dela tamb\u00e9m. As coisas meio que se misturaram. A parte de falta de equipe tamb\u00e9m. A vontade, o estudo, a necessidade de fazer algo do jeito que desse, mas sempre com o m\u00e1ximo de amor e qualidade poss\u00edvel, fez tudo ocorrer de uma maneira bastante profissional. Consegui fazer muita coisa sozinho, fazer muita coisa que talvez ficasse melhor com outra pessoa, ou talvez n\u00e3o tamb\u00e9m porque eu sabia exatamente o que eu queria em termos est\u00e9ticos e pr\u00e1ticos. Mas o filme demorou muito tempo para ser finalizado, porque eu n\u00e3o achava as pessoas certas e eu n\u00e3o tinha muito o que oferecer sen\u00e3o uma parceria. Sen\u00e3o o fato de ter que fazer, terminar e depois na fase da distribui\u00e7\u00e3o ver se consegu\u00edamos comercializar e capitalizar isso. Ent\u00e3o teve anos que o filme ficou praticamente parado. Muitas pessoas apareceram e sa\u00edram no meio do caminho. Que eu me lembre teve tr\u00eas pessoas que tentaram participar, mas nessa \u00e9poca de pandemia tiveram depress\u00e3o e n\u00e3o conseguiram ajudar do jeito que tinha prometido ou que queriam. E a\u00ed eu tive que correr atr\u00e1s de outras coisas. Acho que a principal desafio foi conseguir achar as pessoas certas, para fazer as coisas certas. Mesmo depois que eu achei, se isso que aconteceu comigo, imagine algumas outras pessoas. Todo trabalho que aparece voc\u00ea tem que botar na frente, n\u00e9? Porque voc\u00ea tem que sobreviver, todo mundo que participou sobrevive e vivencia o audiovisual e qualquer trabalho comercialmente vi\u00e1vel voc\u00ea tem que botar na frente. Ent\u00e3o mesmo com toda vontade de fazer, de terminar, de ter o deadline de tempo, muitas vezes as coisas que apareciam, isso acontecia inclusive comigo, voc\u00ea tem que botar na frente ali. Mas \u00e9 gratificante chegar no final e ver que o esfor\u00e7o de todo mundo chegou no produto legal e de qualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Apesar de d\u00e9cadas de material de pesquisa, o punk rock nacional tem parcos registros de sua hist\u00f3ria. &#8220;Botinada&#8221; (do Gast\u00e3o Moreira), &#8220;Guidable&#8221;, sobre o Ratos de Por\u00e3o (de Fernando Rick e Marcelo Appezzato), &#8220;Do underground ao emo&#8221; (de Daniel Ferro) e &#8220;Calif\u00f3rnia Brasileira&#8221; (de Rodiney Assun\u00e7\u00e3o e Wladimyr Cruz) s\u00e3o alguns exemplos. Na sua opini\u00e3o, por que, aparentemente, o mercado cinematogr\u00e1fico tem tido pouco apre\u00e7o por produ\u00e7\u00f5es ligadas ao g\u00eanero?<\/strong><br \/>\nResponder a pergunta sobre o porqu\u00ea das produ\u00e7\u00f5es ligadas ao punk rock n\u00e3o terem tanto apre\u00e7o pelo mercado n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil, mas acho que tem h\u00e1 uma certa obviedade ligada ao underground. Acho que, possivelmente, de maneira \u00f3bvia, produ\u00e7\u00f5es que focam mais no mainstream s\u00e3o mais f\u00e1ceis de divulgar. Deve ser mais f\u00e1cil de divulgar uma Ivete Sangalo do que o Gritando HC, mas a gente est\u00e1 provando que produ\u00e7\u00f5es voltadas a isso tamb\u00e9m tem um p\u00fablico-alvo grande. A gente est\u00e1 vendo o interesse do pessoal na cena dos anos 90. E \u00e9 um pessoal que gosta muito de document\u00e1rio, um pessoal que \u00e9 ligado, que \u00e9 antenado, que procura cultura mais alternativa, que \u00e9 o que eles vivenciaram a vida inteira. Vi uma lacuna quando eu estava fazendo. Quando decidi fazer o filme vi que produ\u00e7\u00f5es, que j\u00e1 n\u00e3o eram muitas, sobre o punk rock, sobre hardcore, sobre movimento eram muito focadas ali no in\u00edcio na d\u00e9cada de 80 e falavam sobre bandas que continuaram ali na nos anos 90, mas que n\u00e3o tinha uma est\u00e9tica espec\u00edfica daquele per\u00edodo. E e vi essa lacuna tem\u00e1tica. Nem falo tanto em termos comerciais, pois quando quis fazer era mais para gerar documenta\u00e7\u00e3o. Mas a principal coisa de fazer document\u00e1rio foi dar minha contribui\u00e7\u00e3o pro punk. Nunca toquei nada. Sempre gostei muito de punk de voc\u00ea ficava pensado como \u00e9 que eu vou fazer para conseguir dar minha contribui\u00e7\u00e3o. Hoje \u00e9 gratificante ver que correr atr\u00e1s do document\u00e1rio \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o muito maior do que eu imaginava. \u00c9 muito maior do que a m\u00fasica, Ainda mais quando voc\u00ea consegue cravar uma hist\u00f3ria, fazer um documento, que fala sobre muita coisa, a hist\u00f3ria de muita gente e conta uma boa hist\u00f3ria. Acho que esse foi o principal, mas eu acho que \u00e9 nossa obriga\u00e7\u00e3o fazer esse tipo de conte\u00fado, para tentar mudar um pouco esse mercado. Se o mercado precisa de produtos comercialmente vi\u00e1veis, estamos provando que n\u00f3s conseguimos (produzir com viabilidade) com a tem\u00e1tica espec\u00edfica do underground, do punk. Aacho que, assim como outros filmes que voc\u00ea citou (como o \u201cGuidable\u201d e o \u201cBotinada\u201d), que foram grandes refer\u00eancias para mim, espero que o \u201cGritando!\u201d tamb\u00e9m seja refer\u00eancia para muita gente. Tanto para quem queira fazer um filme sobre algo de dentro do underground, que voc\u00ea tenha que viabilizar para veicular. Se voc\u00ea v\u00ea que se est\u00e1 muito dif\u00edcil, que o mercado n\u00e3o est\u00e1 abrindo, cara, fa\u00e7a. Punk rock \u00e9 isso. \u00c9 DIY. \u00c9 se juntar de boas pessoas para que depois, quando der certo, as coisas se viabilizam, mesmo que depois de prontas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Gritando HC faz parte de uma gera\u00e7\u00e3o do punk \/ hardcore nacional que chegou ao mainstream no fim dos anos 90 \/ in\u00edcio dos anos 2000, per\u00edodo em que bandas como Dead Fish, CPM 22, Fresno, Charlie Brown Jr. e Hateen conquistaram popularidade. Numa seara t\u00e3o vasta qual o papel representando pela banda paulista?<\/strong><br \/>\nEm rela\u00e7\u00e3o ao posicionamento da banda na cena a gente tem que falar sobre a quest\u00e3o a representatividade e a quest\u00e3o musical tamb\u00e9m. Quando eles chegaram, na d\u00e9cada de 90, estava todo mundo cantando em ingl\u00eas. Ent\u00e3o eles j\u00e1 chegaram com essa proposta de cantar em portugu\u00eas, de forma mais simples. Ao mesmo tempo, a banda estava seguindo uma tend\u00eancia mundial, indo para algo um pouco mais mel\u00f3dico, s\u00f3 que com as caracter\u00edsticas bem pesadas de cr\u00edtica social. No document\u00e1rio pessoas como o Ganjaman, o Jo\u00e3o Gordo, o Badau\u00ed, que vivenciaram e que s\u00e3o influentes na cena, dizem que o Gritando HC chegou de uma maneira muito \u00fanica, com um diferencial muito grande, e que o Donald era o porta-voz da gera\u00e7\u00e3o. Essas s\u00e3o as palavras do Badau\u00ed, por exemplo. Ele (Donald) assumiu o protagonismo dessa \u00e9poca, que tinha a TV Cultura investindo nessa tem\u00e1tica. A MTV estava no auge. E a juventude ainda estava muito ligada a esse contexto underground. A morte do Donald, de fato, foi um grande baque para essa representatividade. O Gritando HC!, interrompeu as atividades por tr\u00eas anos com a morte do Donald, e acabou por perder um pouco do protagonismo. Mas depois a banda voltou e nunca mais parou. E assim ela sempre se colocou num lugar de dentro do underground. Ela realmente n\u00e3o conseguiu atingir o mainstream, que parecia que viria ali no final de 2001, quando o Donald morreu. Acho que o Gritando \u00e9 uma das grandes bandas de punk rock do pa\u00eds. Ela tem shows memor\u00e1veis e ainda fazem. Mas n\u00e3o sei conseguiu (atingir o mainstream). E n\u00e3o sei se era tanto a inten\u00e7\u00e3o, mas a banda ficou no underground, n\u00e3o consegui chegar nesse n\u00edvel mainstream das outras bandas citadas na pergunta. Nao final do da d\u00e9cada de 90, no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, eles chegaram a ter protagonismo gigante. Assumiram a frente de uma gera\u00e7\u00e3o, junto com algumas outras bandas. E muita gente come\u00e7ou a tocar e at\u00e9 hoje est\u00e1 a\u00ed por causa deles. A hist\u00f3ria \u00e9 longa, mas de fato o mainstream n\u00e3o foi um lugar conquistado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A morte de Marcelo Freitas, o &#8220;Donald&#8221; (vocalista e principal compositor da banda), causou como\u00e7\u00e3o na cena em 2001. Como foi resgatar parte da trajet\u00f3ria do m\u00fasico? Qual foi o legado deixado por ele?<\/strong><br \/>\nFalar da hist\u00f3ria do Donald \u00e9 falar da hist\u00f3ria do Gritando HC e vice-versa. Ambos est\u00e3o muito ligados e o filme \u00e9, com certeza, uma homenagem a ele e a tudo que ele queria que acontecesse, tudo que ele fez e a hist\u00f3ria dele. Para deixar o filme comercialmente vi\u00e1vel tive que deixar numa metragem espec\u00edfica, mas tenho um filme captado, maior do que esse, s\u00f3 sobre a hist\u00f3ria do Donald. Isso \u00e9 algo que n\u00e3o descarto. Quero fazer ainda no futuro. Mas como a gente n\u00e3o teria a possibilidade do depoimento dele no filme, fiz quest\u00e3o de que a primeira entrevista que a gente fizesse fosse do M\u00e1rcio, irm\u00e3o do Donald, porque traria um ponto de vista mais pr\u00f3ximo ao dele, uma rela\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima. E a\u00ed simplesmente ele usou o filme como a possibilidade de dar um depoimento dele, como uma possibilidade de dizer algo que ele n\u00e3o tinha dito ali no enterro do irm\u00e3o. Ele disse que no enterro pediram para ele falar e ele n\u00e3o conseguiu. Ent\u00e3o ele usou o document\u00e1rio para poder se redimir e para dar o seu recado. E a\u00ed como foi a primeira entrevista, quando eu vi aquilo aconteceu que entendi de fato o tamanho a grandiosidade da coisa. Foi onde eu vi o compromisso que eu teria que ter com aquela situa\u00e7\u00e3o. O Donald foi protagonista, enquanto ele esteve ali. Ele foi uma pessoa diferenciada e a morte dele foi algo tr\u00e1gico pra banda e pra cena. Ent\u00e3o \u00e9 um dos principais motivos do filme \u00e9 fazer uma homenagem a ele e tenho certeza que era isso que ele queria. Espero que a gente tenha conseguido fazer algo a altura do que ele merece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voltando a falar sobre o g\u00eanero musical, historicamente o punk rock tem sido, desde a sua g\u00eanese, instrumento de mobiliza\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o social. Em tempos ca\u00f3ticos como os nossos, como a m\u00fasica, em especial a do Gritando HC, pode conduzir o debate na contemporaneidade?<\/strong><br \/>\n27 anos de banda, remando contra a mar\u00e9, sem grandes conquistas financeiras com isso, acho que s\u00f3 o fato da banda ainda estar na ativa e de ter tanta gente os auxiliando e apoiando demonstram um ato de resist\u00eancia. J\u00e1 tiveram mil motivos para parar, para n\u00e3o fazer mais e eles est\u00e3o a\u00ed, produzindo conte\u00fado novo, um disco que talvez esse ano ainda saia. E as tem\u00e1ticas s\u00e3o sempre as mesmas. As letras falam muito de skate. O Gritando HC! \u00e9 uma banda de skate punk e me arrisco a dizer que \u00e9 a principal banda deste g\u00eanero do Brasil. Quando falo isso, inevitavelmente tenho que falar do Grinders, que foi a primeira a carregar essa bandeira, mas o Gritando acho que tem um protagonismo, que nem vem s\u00f3 da\u00ed. Acho que s\u00e3o as tem\u00e1ticas mesmo que chamam aten\u00e7\u00e3o, voltadas a cr\u00edtica social, de luta, de juventude, de skate. Em termos musicais eu acho que o punk rock sempre ser\u00e1 um movimento de resist\u00eancia, de contracultura, de debate. Nesse momento que a gente est\u00e1 vivendo, cara, se h\u00e1 10 anos atr\u00e1s o pessoal j\u00e1 estava combatendo, reclamando, tentando abrir cabe\u00e7as, olha o que aconteceu de 10 anos para c\u00e1? A gente vai ser sempre combatente. Acho que o a realiza\u00e7\u00e3o do filme tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de agradecimento a tudo que eles sempre fizeram, influenciaram, abriram mentes, clarearam algumas coisas e causaram revolta,. Falar de revolta, de skate punk, de anarco punk causa revolta dentro da gente, e isso \u00e9 que falta no brasileiro. E eu espero que com filme tamb\u00e9m a gente consiga remar contra a mar\u00e9 e fazer acontecer, mas isto n\u00e3o est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A trajet\u00f3ria do grupo \u00e9 permeada por altos e baixos, num dos raros exemplos de como luta e a perseveran\u00e7a podem ser expressas atrav\u00e9s da arte. O que os f\u00e3s podem esperar do document\u00e1rio?<\/strong><br \/>\nQuando voc\u00ea vai dirigir e montar um filme voc\u00ea faz as suas escolhas narrativas, n\u00e9? Voc\u00ea entende qual que \u00e9 o melhor jeito de contar aquela hist\u00f3ria. Mas a hist\u00f3ria do Gritando HC! \u00e9 bem autoexplicativa. \u00c9 uma hist\u00f3ria de muita supera\u00e7\u00e3o e acredito que isso vem de algo maior, que a m\u00fasica, que \u00e9 o punk rock, conduz e permeia vidas. \u00c9 a hist\u00f3ria de um cara e de uma menina, que come\u00e7aram a namorar e implementaram na banda a hist\u00f3ria deles. Mas esta hist\u00f3ria tem um recorte de tr\u00e1gico que \u00e9 a morte desse cara que estava \u00e0 frente das coisas. A supera\u00e7\u00e3o vem da vontade de continuar fazendo hist\u00f3ria, fazer acontecer. E a\u00ed as pessoas \u00e0s vezes entram em conflito, seguem caminhos diferentes, s\u00f3 que com o mesmo ideal, carregando o mesmo nome, levantando uma bandeira, mesmo tendo a\u00e7\u00f5es diferentes, pensamentos diferentes, mas com o mesmo ideal. Ent\u00e3o essa hist\u00f3ria de brigas, de supera\u00e7\u00e3o, de morte, de continuar focado em um ideal, eu acho s\u00e3o hist\u00f3rias que est\u00e3o al\u00e9m do punk rock, al\u00e9m de uma banda, e por isso vale a pena ser contada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O filme faz parte da programa\u00e7\u00e3o do festival internacional de document\u00e1rios In-Edit, que chega a sua 13\u00aa edi\u00e7\u00e3o. Para voc\u00ea qual \u00e9 a import\u00e2ncia de se potencializar a\u00e7\u00f5es voltadas para a interface imagem e m\u00fasica no campo das artes?<\/strong><br \/>\nA principal justificativa do filme \u00e9 eu conseguir dar minha contribui\u00e7\u00e3o ao punk rock. Eu conseguir ter uma moeda de troca para tudo aquilo que o punk fez na minha vida, sabe? Sou muito f\u00e3 de document\u00e1rio de m\u00fasica e acho muito legal ver as hist\u00f3rias que est\u00e3o por tr\u00e1s disso. E o Gritando HC tem uma hist\u00f3ria muito recheada. Quando comecei a gravar e produzir eu nem sabia. Acho incr\u00edvel essa possibilidade, do mix cinematogr\u00e1fico com m\u00fasica. E nisso o In-Edit est\u00e1 \u00e0 frente. N\u00e3o tinha melhor jeito da gente estrear, porque considero a grande plataforma do mundo, pois \u00e9 espec\u00edfica de document\u00e1rios musicais. Essa \u00e9 13\u00aa edi\u00e7\u00e3o do festival no Brasil, que come\u00e7ou l\u00e1 em Barcelona. Ter conseguido participar \u00e9 algo que me deu muita alegria. O festival foi muito importante para gente porque deu um deadline para a gente terminar. Acabou dando uma obriga\u00e7\u00e3o para conseguir chegar no resultado. Foi muita correria nos \u00faltimos tempos, mas uma correria que valeu \u00e0 pena.Para al\u00e9m do filme a gente vai ter uma live com uma apresenta\u00e7\u00e3o do Gritando HC e isso a\u00ed, talvez, seja a coisa mais gostosa, a maior satisfa\u00e7\u00e3o. Quem assistir ao filme vai ver que tem uma diverg\u00eancia, uma treta literalmente, entre os integrantes e o document\u00e1rio foi decisivo para essas pessoas voltarem a se falar, conseguirem ficar tranquilas entre elas. E nessa live vai ter participa\u00e7\u00e3o de gente que n\u00e3o toca na banda h\u00e1 mais de 15 anos. O filme possibilitou isso, mas o festival est\u00e1 sendo de fato o agente. Ent\u00e3o o In-Edit \u00e9 tudo e esperamos continuar rodando festivais. Principalmente que tenham essa pegada voltada para a m\u00fasica. Meu foco de produ\u00e7\u00e3o s\u00e3o hist\u00f3rias musicais e eu tenho outros projetos, n\u00e3o documentais, mas que relacionam m\u00fasica e audiovisual. Para mim \u00e9 o auge. Acho que a gente tem que continuar produzindo, espero que com apoio, mas como eu j\u00e1 disse se n\u00f3s n\u00e3o fizermos as coisas n\u00e3o acontecem. N\u00f3s estamos aqui para fazer acontecer.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-61355\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Gritando_cartaz_-com_-raminho_-festival_-in_-edit.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"998\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Gritando_cartaz_-com_-raminho_-festival_-in_-edit.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Gritando_cartaz_-com_-raminho_-festival_-in_-edit-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a>\u00a0\u00a0\u00e9 redator\/colunista\u00a0do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.opoderosoresumao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O Poder do Resum\u00e3o<\/a>. Escreve no Scream &amp; Yell desde 2014.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Fruto da efervescente cena punk\/hardcore brasileira dos anos 90, o Gritando HC fez hist\u00f3ria ao conquistar p\u00fablico e cr\u00edtica com seus dois primeiros \u00e1lbuns. Agora, 27 anos, a hist\u00f3ria do grupo \u00e9 contada em um document\u00e1rio que estreia no In-Edit Brasil 2021!\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/06\/21\/entrevista-alexandre-mapa-fala-do-documentario-sobre-a-banda-gritando-hc\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":4,"featured_media":61356,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[3052,5231],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61354"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=61354"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61354\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":61361,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61354\/revisions\/61361"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/61356"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=61354"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=61354"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=61354"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}