{"id":61269,"date":"2021-06-13T02:00:45","date_gmt":"2021-06-13T05:00:45","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=61269"},"modified":"2021-08-27T00:43:46","modified_gmt":"2021-08-27T03:43:46","slug":"entrevista-ducca-rios-fala-sobre-meu-tio-jose-animacao-baiana-selecionada-para-o-festival-annecy-2021","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/06\/13\/entrevista-ducca-rios-fala-sobre-meu-tio-jose-animacao-baiana-selecionada-para-o-festival-annecy-2021\/","title":{"rendered":"Entrevista:  Ducca Rios fala sobre &#8220;Meu Tio Jos\u00e9&#8221;, anima\u00e7\u00e3o baiana selecionada para o Festival Annecy 2021"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia um peso na vida do ent\u00e3o garoto que viria a se tornar o diretor de cinema Ducca Rios. Tal peso era aquele da aus\u00eancia de respostas pelo assassinato de seu tio, o artista gr\u00e1fico e ativista pol\u00edtico Jos\u00e9 Sebasti\u00e3o Rios de Moura, morto a tiros h\u00e1 38 anos, em junho de 1983, em Salvador, quando o menino tinha apenas 10 anos de idade. Tal aus\u00eancia de respostas ainda permanece. Por\u00e9m, existe uma percept\u00edvel sensa\u00e7\u00e3o de diminui\u00e7\u00e3o do peso carregado por anos ap\u00f3s a perda de seu tio. &#8220;Larguei um peso que vinha carregando exatamente nesse momento. Ao soltar o filme para os festivais e, em breve, para o p\u00fablico, eu sinto um grande al\u00edvio. Por ter conseguido concretizar um objetivo t\u00e3o antigo. Quando tomei consci\u00eancia de que queria, realmente, fazer algo com o Jos\u00e9 Sebasti\u00e3o, foi por volta de 2010&#8221;, explica Ducca, salientando a import\u00e2ncia da vitrine representada pelo Festival de Annecy.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na hist\u00f3ria de seu tio, que conhecemos atrav\u00e9s da \u00f3ptica da crian\u00e7a Adonias, figura infantil de Ducca aos 10 anos, vemos um homem que vai perdendo sua for\u00e7a motriz \u00e0 medida que a ditadura militar, o autoritarismo e o fascismo avan\u00e7am no Brasil de 1964 em diante. A partir das lembran\u00e7as compartilhadas pela fam\u00edlia de Adonias, conhecemos Jos\u00e9 na adolesc\u00eancia ainda em Teresina e, depois, desembarcando no Rio de Janeiro na efervesc\u00eancia cultural brasileira naquele come\u00e7o dos promissores anos 1960. Ap\u00f3s sua ida a Bras\u00edlia, onde come\u00e7a a atuar como professor da UNB, \u00e9 quando envereda de vez na luta contra a ditadura, chegando a fazer parte do grupo que sequestrou o embaixador estadunidense Charles Elbrick, em 1969. Exilado e em fuga constante, Jos\u00e9 torna-se, tamb\u00e9m, exilado de si mesmo, sob o peso daquela roda viva. Retorna ao Brasil com a anistia, mas nunca conseguiu voltar a si mesmo. Torna-se introspectivo e silencioso, possivelmente ainda revivendo os dias de terror ditatorial. Em Salvador, \u00e9 baleado dentro de uma farm\u00e1cia por homens de terno e gravata. Morreria dias depois no hospital. Um crime que a pol\u00edcia nunca buscou solucionar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A transmuta\u00e7\u00e3o, digamos assim, do Jos\u00e9 come\u00e7a a acontecer na UNB. Porque come\u00e7a a repress\u00e3o de um lado, com os setores conservadores encampados pelos militares. Eles come\u00e7am a dar mostras que n\u00e3o v\u00e3o deixar o Brasil seguir pelo caminho democr\u00e1tico, e acabam dando um golpe. E aquilo ali \u00e9 um golpe, realmente. Uma cis\u00e3o, em 1964, na personalidade do Jos\u00e9. Eu n\u00e3o sei como me colocar na pele dele, mas imagino isso. Imagino que ele, vendo o povo sem sa\u00edda, viu a si mesmo sem sa\u00edda. Porque voc\u00ea n\u00e3o ter democracia \u00e9 voc\u00ea n\u00e3o ter sa\u00edda. \u00c9 voc\u00ea n\u00e3o poder se expressar. \u00c9 voc\u00ea n\u00e3o poder opinar. N\u00e3o existe voto. N\u00e3o existe direito. Ent\u00e3o, voc\u00ea \u00e9 o que?&#8221;, reflete Ducca Rios ao pensar na situa\u00e7\u00e3o pela qual passou seu tio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao optar por contar a hist\u00f3ria de seu tio Jos\u00e9 atrav\u00e9s da anima\u00e7\u00e3o, Ducca Rios contou com uma ferramenta de liberdade criativa que o permitiu ilustrar o pensamento infantil e o choque de uma maturidade alcan\u00e7ada t\u00e3o precocemente pela dor da morte de maneira ao mesmo tempo l\u00fadica e calcada nessa dura realidade. &#8220;Usamos em \u2018Meu Tio Jos\u00e9\u2019 momentos de ilus\u00e3o, de del\u00edrio quando a anima\u00e7\u00e3o vai para um ad libitum completo. Mas o mais presente \u00e9 o real. A est\u00e9tica do real. E dentro dessa est\u00e9tica, imprimimos essa opini\u00e3o a partir da escolha do preto e branco, que tem duas quest\u00f5es que eu gostaria de ressaltar. Uma \u00e9 \u00f3bvia que \u00e9 a ditadura militar. \u00c9 um per\u00edodo preto e branco da Hist\u00f3ria brasileira. Sem cor. E a outra \u00e9 a for\u00e7a da m\u00eddia impressa. No filme, estampamos manchetes nos pr\u00e9dios, nas casas e em muros&#8221;, pontua o diretor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Wagner Moura \u00e9 quem d\u00e1 voz ao Jos\u00e9 Sebasti\u00e3o. O filme conta, ainda, com outros atores baianos, como Bertrand Duarte, Jackson Costa e Evelin Butchegger. Ducca Rios explica que Moura gravou sua participa\u00e7\u00e3o em \u201cMeu Tio Jos\u00e9\u201d no dia seguinte ao encerrar os trabalhos de dire\u00e7\u00e3o em \u201cMarighella\u201d, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/11\/22\/entrevista-wagner-moura-fala-sobre-a-importancia-de-marighella-no-brasil-de-2020\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">seu filme de estreia como diretor<\/a>.\u00a0 &#8220;Ele j\u00e1 estava com a viv\u00eancia atr\u00e1s das c\u00e2meras como diretor, mas estava mergulhado naquele per\u00edodo, entendendo quem era o Marighella, e sabia o que era a clandestinidade. Imagine a clandestinidade, quando as pessoas n\u00e3o podiam falar com seus familiares, e n\u00e3o tinham acesso nenhum, porque n\u00e3o existia internet. No m\u00e1ximo, um telefone, se n\u00e3o presen\u00e7a f\u00edsica&#8221;, salienta o diretor, descrevendo a experi\u00eancia com o ator. &#8220;Ele percebeu quem era o Jos\u00e9. Foi muito f\u00e1cil para ele entender. Eu j\u00e1 observei outros pap\u00e9is do Wagner. Ele entra nos personagens e voc\u00ea n\u00e3o reconhece mais a pessoa. Ele tem essa capacidade de n\u00e3o rotular o personagem. Ele realmente constr\u00f3i personagens diferentes. Ele imprime a sua personalidade, claro, mas n\u00e3o d\u00e1 pistas de quem ele \u00e9 quando est\u00e1 dentro do personagem. Isso \u00e9 muito raro em atores&#8221;, elogia Ducca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Idealizado em 2010, em um per\u00edodo cuja conjuntura brasileira era outra, a anima\u00e7\u00e3o \u00e9 lan\u00e7ada em um ano como o de 2021, d\u00e9cada que se inicia repetindo as mesmas armadilhas de uma oportunista situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que, agora, j\u00e1 n\u00e3o mais flerta com o fascismo, mas, sim, o assume completamente. &#8220;Eu nunca imaginei que lan\u00e7aria esse filme em um momento como esse. \u00c9 uma coincid\u00eancia ruim para o pa\u00eds. Para o filme, acaba passando uma coisa meio prof\u00e9tica que, para mim pelo menos, n\u00e3o existe em \u2018Meu Tio Jos\u00e9\u2019. Acho que foi uma conspira\u00e7\u00e3o do universo para esse filme estar sendo lan\u00e7ado neste momento, quando estamos vivendo uma \u00e9poca que nos remete a momentos que aconteceram antes do golpe de 1964. Gente indo para a rua em &#8216;Marcha para a Fam\u00edlia&#8217;, entendeu? Uma marcha para a fam\u00edlia que, na verdade, escondem ideais super retr\u00f3grados. Gente pedindo cassa\u00e7\u00e3o do STF. &#8216;Mais b\u00edblia, menos constitui\u00e7\u00e3o.&#8217; Isso \u00e9 uma loucura! Estamos dentro de um processo dist\u00f3pico de volta ao passado inacredit\u00e1vel. Acho que tem muita gente indo para a rua e pedindo interven\u00e7\u00e3o militar porque n\u00e3o sabe o que \u00e9. N\u00e3o sabe o qu\u00e3o ruim \u00e9 isso. \u00c9 um caminho perigos\u00edssimo. Perigos\u00edssimo! Para todos! \u00c9 um caminho que leva ao abismo&#8221;, alerta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas melodias das m\u00fasicas de Chico Buarque, desconstru\u00eddas em vers\u00f5es instrumentais a dividir os cap\u00edtulos do filme, al\u00e9m da pulsante vers\u00e3o de \u201cApesar de Voc\u00ea\u201d na voz de Lirinha, \u201cMeu Tio Jos\u00e9\u201d nos deixa introspectivos ao seu final. Mas esperan\u00e7osos de que &#8220;apesar de voc\u00ea&#8221;, poderemos voltar a sorrir. Nesta entrevista ao Scream &amp; Yell, Ducca Rios aprofunda essa experi\u00eancia de levar \u00e0s telas a hist\u00f3ria de seu tio e de sua fam\u00edlia. Confira!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"TRAILER OFICIAL &quot;MEU TIO JOS\u00c9&quot; ANNECY\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ZoLOq7j_3r4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ducca, eu queria come\u00e7ar esse papo lhe perguntando sobre o peso de contar essa hist\u00f3ria em \u201cMeu Tio Jos\u00e9\u201d, um filme que tem uma liga\u00e7\u00e3o imensa com a hist\u00f3ria de sua pr\u00f3pria fam\u00edlia. Jos\u00e9 Sebasti\u00e3o, seu tio, teve uma import\u00e2ncia crucial na sua forma\u00e7\u00e3o como pessoa. A partida dele de maneira t\u00e3o brutal representou um baque grande naquele menino que j\u00e1 era influenciado pelo tio e que enveredou pelo lado das artes gr\u00e1ficas, assim como o pr\u00f3prio Jos\u00e9.<\/strong><br \/>\nNo filme, existe uma reda\u00e7\u00e3o. E essa reda\u00e7\u00e3o existiu em algum momento de minha vida. Eu condensei v\u00e1rias coisas que aconteceram ao longo de minha vida em uma colagem e em uma fic\u00e7\u00e3o que criei em torno desse fato real, que foi o do assassinato do Jos\u00e9. Voc\u00ea fala de peso&#8230; Na verdade, acho que larguei um peso, digamos assim, que eu vinha carregando. Exatamente nesse momento, ao soltar o filme para os festivais e em breve para o p\u00fablico, sinto um grande al\u00edvio. Por ter conseguido concretizar um objetivo t\u00e3o antigo. Quando tomei consci\u00eancia de que queria, realmente, fazer algo com o Jos\u00e9 Sebasti\u00e3o, foi por volta de 2010. Foi quando comecei a pensar no que fazer. Ent\u00e3o, esse processo de constru\u00e7\u00e3o mais consciente, digamos assim, creio que vem dessa \u00e9poca. Posso dizer que o filme come\u00e7ou em 2010, a cria\u00e7\u00e3o. Depois dele concretizado, que j\u00e1 tinha editais envolvidos, ANCINE e Governo do Estado, levou tr\u00eas anos de produ\u00e7\u00e3o, at\u00e9 chegar nesse momento que \u00e9 o de pr\u00e9-lan\u00e7amento, digamos assim. Porque ele est\u00e1 sendo lan\u00e7ado, sim, em festivais, mas ainda n\u00e3o no circuito comercial. E \u00e9 uma felicidade muito grande j\u00e1 come\u00e7ar essa fase de festivais sendo aceito pelo principal festival de anima\u00e7\u00e3o do mundo, que \u00e9 o <a href=\"https:\/\/www.annecy.org\/programme\/index:film-20212826\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Festival de Annecy<\/a>. Fico muito, muito feliz com isso. Fico feliz pela hist\u00f3ria do Jos\u00e9, que \u00e9 uma hist\u00f3ria pessoal, que \u00e9 uma hist\u00f3ria familiar, mas \u00e9 uma hist\u00f3ria, tamb\u00e9m, ic\u00f4nica para muita gente que teve seus entes queridos perseguidos por essa monstruosidade que foi a ditadura militar brasileira. E as ditaduras militares em todos os cantos. Isso fala, tamb\u00e9m, para as pessoas que s\u00e3o da Argentina, do Chile, pessoas de todo canto onde houve repress\u00e3o \u00e0s liberdades. Eu fico feliz que um festival como esse tenha sido logo um dos primeiros a aceitar o filme. \u201cMeu Tio Jos\u00e9\u201d acaba sendo o quarto filme brasileiro a ser aceito <a href=\"https:\/\/www.annecy.org\/programme\/festival-programme:lmcc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">em uma competi\u00e7\u00e3o de longa metragem do festival de Annecy<\/a>.\u00a0 Fico feliz porque a hist\u00f3ria vai se espalhar. E o Jos\u00e9, de um personagem invis\u00edvel, acaba se tornando um personagem vis\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Com o filme, essa import\u00e2ncia do Jos\u00e9 Sebasti\u00e3o na luta contra a repress\u00e3o \u00e9 bem ilustrada, mesmo.<\/strong><br \/>\nO Jos\u00e9 \u00e9 meio que um Forrest Gump brasileiro. Ele participou de v\u00e1rios momentos importantes entre a d\u00e9cada de 1960 e 1980 do Brasil, inclusive com o pr\u00f3prio assassinato dele sendo um desses acontecimentos. Ele participou sem ser muito lembrado ou falado. Ele \u00e9 lembrado rapidamente em um lugar ou outro com alguma cita\u00e7\u00e3o de pessoas que participaram da resist\u00eancia de esquerda. E quando se fala, tamb\u00e9m, do sequestro do Elbrick, ele \u00e9 citado, mas de forma muito r\u00e1pida. Ele funciona como essa rela\u00e7\u00e3o que eu fa\u00e7o. Como uma esp\u00e9cie de Forrest Gump. Porque ele estava l\u00e1, mas pouca gente fala dele, ou n\u00e3o se lembra, enfim. E esse filme mostra um outro lado do Jos\u00e9 que quase ningu\u00e9m conhece. Porque ele passou muito tempo na clandestinidade. E eu, quando crian\u00e7a, escutava muito as hist\u00f3rias do Jos\u00e9 crian\u00e7a contadas por minha av\u00f3. Ouvi muito de minha m\u00e3e hist\u00f3rias dele. Ouvi muito de meu pai, tamb\u00e9m. Enfim. Isso \u00e9 muito retratado no filme, tamb\u00e9m. Condenso essas coisas que foram chegando na minha vida ao longo de muito tempo. Hoje, tenho 48 anos. Condenso isso no filme, tamb\u00e9m. Em um momento fixo, como parte dessa estrutura de fic\u00e7\u00e3o que d\u00e1 sustenta\u00e7\u00e3o para uma hist\u00f3ria em torno desse fato real que aconteceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na cria\u00e7\u00e3o do roteiro, como foi a op\u00e7\u00e3o entre apresentar o Jos\u00e9 atrav\u00e9s da rela\u00e7\u00e3o dele com o Adonias, uma vez que fica clara a influ\u00eancia dele em sua vida, e a de criar a narrativa a partir do flashback?<\/strong><br \/>\n\u00c9 meio que uma linguagem de retrospecto o filme. Ele come\u00e7a j\u00e1 com o assassinato. Ent\u00e3o, segue um caminho meio que de retrospecto e avante. Vai para tr\u00e1s, vai para frente, ent\u00e3o, eu me concentrei muito nessa busca do garoto, vou colocar na terceira pessoa, essa busca do garoto por saber, realmente, quem \u00e9 o Jos\u00e9. Essas perguntas&#8230; Sim, ele tinha a viv\u00eancia pessoal, pois ele fala com a av\u00f3, por exemplo, no quarto, logo no in\u00edcio do filme: &#8220;quem \u00e9 que a senhora acha que me ensinou a nadar no mar?&#8221; Essas coisinhas de rela\u00e7\u00e3o pessoal est\u00e3o ali. Empinar pipa, por exemplo. Coloco a pipa no filme, mas n\u00e3o digo que o meu tio Jos\u00e9 foi quem me ensinou a empinar e a fabricar pipas, algo que sei at\u00e9 hoje. Mas, me coloco empinando pipa. Coloco a crian\u00e7a ali empinando pipa com outra da favela em um determinado momento. Ent\u00e3o, tem essas pequenas coisas que s\u00e3o desse conv\u00edvio. Mas o filme \u00e9 basicamente concentrado no aprendizado da crian\u00e7a sobre o que \u00e9 uma ditadura militar, a partir da morte do Jos\u00e9. Esse aprendizado fica em um subtexto ao longo do filme. Inclusive, parte do subtexto \u00e9 o bullying ao qual eu coloco o Adonias submetido, e que \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o. Agora, \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o que constru\u00ed para se ter um paralelo do que \u00e9 uma repress\u00e3o, do que \u00e9 uma ditadura militar dentro do universo da crian\u00e7a. Ent\u00e3o, o que seria a repress\u00e3o dentro do universo da crian\u00e7a? A escola. Uma escola que parece um quartel. Uma diretora que parece um general. Um bedel que parece um sargento. E um colega de escola que fica ali o tempo inteiro rebaixando e humilhando a crian\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para espectadores de Salvador, geograficamente \u00e9 curioso ver o filme e identificar na anima\u00e7\u00e3o locais conhecidos, como o bairro de Amaralina, onde fica um quartel militar bem evidenciado pelo filme, al\u00e9m do Rio Vermelho.<\/strong><br \/>\nSim. Logo no in\u00edcio do filme, voc\u00ea v\u00ea esse caminho. O trajeto do carro passa por trechos conhecidos. Passa por trechos da Barra, Amaralina, Rio Vermelho. A igreja do Rio Vermelho est\u00e1 l\u00e1, no momento em que ele faz aquela curva, na praia da Paci\u00eancia. Depois, segue para Amaralina e vai at\u00e9 a Pituba, retornando para a Amarlina, que \u00e9 onde fica o edif\u00edcio Quinerete, um pr\u00e9dio real onde eu morei e existe l\u00e1 at\u00e9 hoje. Era amarelo e agora ficou azul. \u00c9 um filme pol\u00edtico, mas, tamb\u00e9m, \u00e9 um filme afetivo. \u00c9 um filme muito afetivo, um drama familiar. E tento aproximar essas lembran\u00e7as, esses recortes de lembran\u00e7as, tanto geogr\u00e1ficos da cidade de Salvador, quanto de amigos do Quinerete, e familiares.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-61275\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Meu-Tio-Jose.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"422\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Meu-Tio-Jose.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Meu-Tio-Jose-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em algum momento, houve qualquer d\u00favida entre contar a hist\u00f3ria pelo live-action ou pela anima\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nTeve esse momento de d\u00favida no in\u00edcio. Mas optei pela anima\u00e7\u00e3o. Sou diretor criativo da <a href=\"https:\/\/www.origemprodutora.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Origem<\/a>, um est\u00fadio de anima\u00e7\u00e3o que, hoje, \u00e9 um dos mais produtivos do pa\u00eds. Ent\u00e3o, \u00e9 natural a gente seguir sempre para essa linha de anima\u00e7\u00e3o. Agora, algo que as pessoas normalmente n\u00e3o atentam em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 anima\u00e7\u00e3o, \u00e9 que a maioria acha que a anima\u00e7\u00e3o \u00e9 um recurso a ser utilizado quando voc\u00ea tem algo que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ou que \u00e9 muito dif\u00edcil, muito complicado, de se fazer com a c\u00e2mera em uma situa\u00e7\u00e3o real. Ent\u00e3o, se recorre \u00e0 anima\u00e7\u00e3o para fazer voar, para aparecer um monstro gigante, enfim. At\u00e9 os filmes que hoje misturam 3D e que parece real, 90% \u00e9 anima\u00e7\u00e3o. Filmes como \u201cAvengers\u201d, por exemplo, t\u00eam 80% a 90% em recursos 3D imitando o real. Mas a anima\u00e7\u00e3o tem um outro lado que pouca gente atenta. O lado da for\u00e7a simb\u00f3lica do tra\u00e7o. Da opini\u00e3o. Do sentimento de quem desenha ao imprimir aquilo no papel. Ent\u00e3o, isso tem uma for\u00e7a simb\u00f3lica muito grande por si. Tem um filme que a gente usou como refer\u00eancia, tamb\u00e9m, que \u00e9 o \u201cPers\u00e9polis\u201d, da Marjane Satrapi, e que conta uma hist\u00f3ria familiar e pol\u00edtica. E, al\u00e9m disso, religiosa, que foi em cima da ditadura dos Mullah. Ela \u00e9 for\u00e7ada a sair de casa. Uma coisa bem real. \u00c9 um filme muito forte. Uma coisa muito forte por conta do tra\u00e7o. \u00c9 claro que a gente usa, em \u201cMeu Tio Jos\u00e9\u201d, momentos de ilus\u00e3o, de del\u00edrio. Que a\u00ed a anima\u00e7\u00e3o vai para um ad libitum completo. Mas o mais presente \u00e9 o real. A est\u00e9tica do real. E dentro dessa est\u00e9tica, imprimimos essa opini\u00e3o a partir de uma escolha, por exemplo, do preto e branco. O preto e branco tem duas quest\u00f5es que eu gostaria de ressaltar. Uma \u00e9 \u00f3bvia que \u00e9 a ditadura militar. \u00c9 um per\u00edodo preto e branco da Hist\u00f3ria brasileira. Sem cor. E a outra \u00e9 a for\u00e7a da m\u00eddia impressa. Porque n\u00f3s, na \u00e9poca da d\u00e9cada de 1980, \u00e9ramos informados basicamente por ela. Claro que a TV era muito forte, mas a m\u00eddia impressa tinha uma for\u00e7a muito grande, tamb\u00e9m. Os jornais e as revistas impressas tinham uma for\u00e7a muito grande. E os jornais, na \u00e9poca, n\u00e3o eram coloridos. Os jornais s\u00f3 come\u00e7aram a ser coloridos aqui na d\u00e9cada de 1990, com o Bahia Hoje. At\u00e9 ent\u00e3o, eram todos preto e branco. Tinham as picha\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m, que eram sempre frases. <a href=\"https:\/\/atarde.uol.com.br\/cultura\/noticias\/1543207-faustino-da-entrevista\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Faustino que pichava muito muro \u00e0 \u00e9poca<\/a>. E outros pichadores que colocavam frases an\u00e1rquicas. O movimento punk estava ali na d\u00e9cada de 1980. Ent\u00e3o, tudo isso influenciou nesse tra\u00e7o que a gente chegou. O Concretismo, o Movimento Concretista, ainda tinha muita for\u00e7a na d\u00e9cada de 1980. Esse tra\u00e7o mais angulado, com sombras mais marcadas, isso tudo vem com essa pesquisa que a gente fez de escolha por estar dentro da d\u00e9cada de 1980.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea citou o \u201cPers\u00e9polis\u201d, e eu, ao assistir ao filme, observei essa refer\u00eancia n\u00e3o somente na hist\u00f3ria, mas nas express\u00f5es. Aproveitando essa an\u00e1lise de estilo, em rela\u00e7\u00e3o ao tra\u00e7o dos personagens, nota-se uma diferencia\u00e7\u00e3o entre os garotos que perseguem Adonias para com todo o restante. O pai militar de um deles, tamb\u00e9m.<\/strong><br \/>\nIsso. Primeiro vem a hist\u00f3ria. Primeiro vem o roteiro. Vamos entender os personagens quando pegarmos o roteiro e fazer o animatic, o storyboard, que \u00e9 quando come\u00e7amos a imaginar as formas. Ent\u00e3o, se voc\u00ea relembrar, tamb\u00e9m, as vozes da repress\u00e3o s\u00e3o sempre uma voz. \u00c9 o mesmo ator que faz todas as vozes. Existe essa preocupa\u00e7\u00e3o, sim. Em diferenciar, em colocar como um bloco, digamos assim, a repress\u00e3o e o outro bloco as pessoas. As pessoas normais. O hippie que nada na praia, o m\u00fasico, o advogado, os profissionais que vivem aqui no dia a dia, independente dessa loucura fascista que aconteceu no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea citou as vozes. Como foi o trabalho com o Wagner Moura dublando o Jos\u00e9 Sebasti\u00e3o?<\/strong><br \/>\nPrimeiro, voc\u00ea tem que entender que o Wagner Moura \u00e9 um ator incr\u00edvel. Ele \u00e9 muito bom. Muito bom, mesmo. Tivemos algumas conversas \u00e0 dist\u00e2ncia, em videoconfer\u00eancia. Ele leu o roteiro duas vezes. Primeiro, foi o processo dele ter o tempo. De dar o tempo dele para filmar. Foi justamente no momento em que ele estava fazendo o filme dele, o \u201cMarighella\u201d. Eu esperei nove meses at\u00e9 ele terminar. Viajei a S\u00e3o Paulo e, em um hotel, gravamos durante uma tarde todas as falas dele para o filme. E a dire\u00e7\u00e3o de arte foi essa de explicar quem era o Jos\u00e9. Ele percebeu rapidamente. Foi muito r\u00e1pido. Ele entendeu muito bem quem era o Jos\u00e9 Sebasti\u00e3o. E n\u00e3o houve nenhuma dificuldade. Durante o processo de grava\u00e7\u00e3o, foram ajustes pontuais no momento da fala. E ele percebia claramente tudo o que eu queria dizer atrav\u00e9s da fala dele. Tudo o que eu queria que o Jos\u00e9 dissesse atrav\u00e9s dele. Ele j\u00e1 estava com a viv\u00eancia atr\u00e1s das c\u00e2meras como diretor, estava mergulhado naquele per\u00edodo, entendendo quem era o Marighella. Ele sabia o que era a clandestinidade. Imagine a clandestinidade, quando as pessoas n\u00e3o podiam falar com seus familiares, e n\u00e3o tinha acesso nenhum, porque n\u00e3o existia internet. No m\u00e1ximo, um telefone, se n\u00e3o fosse presen\u00e7a f\u00edsica. Ele percebeu quem era o Jos\u00e9. Foi muito f\u00e1cil para ele entender. E, assim, eu j\u00e1 observei outros pap\u00e9is do Wagner. O Wagner entra nos personagens e voc\u00ea n\u00e3o reconhece mais a pessoa. Ele tem essa capacidade de n\u00e3o rotular o personagem. Ele realmente constr\u00f3i personagens diferentes. Ele imprime a sua personalidade, claro, mas ele n\u00e3o d\u00e1 pistas de quem ele \u00e9 quando est\u00e1 dentro do personagem. Ele \u00e9 o personagem mesmo. Isso \u00e9 muito raro em atores. N\u00f3s vemos muitos que n\u00e3o conseguem fazer isso. E s\u00e3o atores bons, mas que n\u00e3o conseguem fazer nesse n\u00edvel. E eu tive a sorte, tamb\u00e9m, de ter outros grandes atores daqui da Bahia e de outros lugares, como o Tonico Pereira, que foi fant\u00e1stico. Um dos melhores atores brasileiros. A Lorena Comparato foi uma grat\u00edssima surpresa, mesmo. Uma atriz extremamente talentosa e filha do Doc Comparato, que \u00e9 um amigo e um grande roteirista. Ela faz o papel da professora. Daqui da Bahia, tivemos o Bertrand Duarte, que \u00e9 um grande ator. Tivemos a Evelin Butchegger e a Neide Moura, grandes atrizes daqui. Tivemos, tamb\u00e9m, o Jackson Costa, que fez o papel do Torquato jovem e adulto. Al\u00e9m das crian\u00e7as, que foram 15 no total. Uma mais talentosa que a outra, e que eu tive a chance de dirigir. Foi um presente dirigir essa crian\u00e7ada nos est\u00fadios. Todo esse processo foi muito prazeroso. Dirigir ator \u00e9 muito prazeroso. Eu gosto pra caramba. Nunca dirigi live action de fic\u00e7\u00e3o. Somente document\u00e1rio. Mas acho que vou adorar fazer fic\u00e7\u00e3o e dirigir atores com c\u00e2mera. Deve ser muito bom.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 triste observar como o Jos\u00e9 se torna um exilado, tamb\u00e9m, de si mesmo. Como a ditadura, a persegui\u00e7\u00e3o e a repress\u00e3o das liberdades tiraram dele a alegria que tinha na juventude. Aquele momento em que ele aparece solit\u00e1rio na Fran\u00e7a denota bem isso.<\/strong><br \/>\nSim. \u00c9 um momento bem claro em que eu quis realmente passar isso. O Jos\u00e9 tinha todo o futuro pela frente. Ele chegou ao Rio de Janeiro. Era talentoso. Trabalhou como artista gr\u00e1fico em est\u00fadios conhecidos na \u00e9poca. Por exemplo, o logotipo do Leite de Rosas foi ele quem criou. Eu lembro dele construindo o logotipo em casa. Ele tinha uma pranchetinha no quarto em que dormia quando ainda morava l\u00e1 em casa. Constru\u00eda na massa de modelar primeiro e, depois, desenhava no papel. Ele fez v\u00e1rios exerc\u00edcios. Eu tenho at\u00e9 hoje os exerc\u00edcios gr\u00e1ficos que ele fazia at\u00e9 chegar em um resultado. Ele levava muito a s\u00e9rio essas coisas. E eu aprendi muito com ele sobre isso. Na \u00e9poca, eu j\u00e1 desenhava como crian\u00e7a, mas j\u00e1 me entendia como desenhista. Quando ele chegou, me deu muita dica. Tamb\u00e9m me ensinou muito em rela\u00e7\u00e3o a isso. E a\u00ed ele chega ao Rio com essa ambi\u00e7\u00e3o de entrar no mundo das artes. Eu o coloco junto com o Torquato, mas n\u00e3o necessariamente eles andaram juntos no Rio de Janeiro, apesar de terem sido conterr\u00e2neos e amigos. Mas coloquei isso em uma liberdade po\u00e9tica. Coloquei outros artistas. Coloquei o H\u00e9lio Oiticica. Quando exclamam: &#8220;H\u00e9lio!&#8221;, \u00e9 ele quem est\u00e1 ali. Era a turma que andava junta naquela \u00e9poca. A turma das artes que estava toda no Rio de Janeiro. E, depois, o Jos\u00e9 foi para Bras\u00edlia, para a UNB, indicado como professor assistente. \u00c9 l\u00e1 onde ocorre essa transmuta\u00e7\u00e3o, digamos assim. Porque come\u00e7a a haver a repress\u00e3o de um lado, com os setores conservadores encampados pelos militares, que come\u00e7am a dar mostras que n\u00e3o v\u00e3o deixar o Brasil seguir pelo caminho democr\u00e1tico e acabam dando um golpe. E aquilo ali \u00e9 um golpe, realmente, uma cis\u00e3o em 1964 na personalidade do Jos\u00e9. N\u00e3o sei consigo me colocar na pele dele, mas imagino. Imagino que ele, vendo o povo sem sa\u00edda, viu a si mesmo sem sa\u00edda. Porque voc\u00ea n\u00e3o ter democracia \u00e9 voc\u00ea n\u00e3o ter sa\u00edda. \u00c9 voc\u00ea n\u00e3o poder se expressar. \u00c9 voc\u00ea n\u00e3o poder opinar. N\u00e3o existe voto. N\u00e3o existe direito. Ent\u00e3o, voc\u00ea \u00e9 o que? Voc\u00ea \u00e9 uma pessoa que acorda, vai trabalhar, seguindo as regras que s\u00e3o impostas. N\u00e3o pode falar, n\u00e3o pode dizer que n\u00e3o gosta. E volta para casa. Vira uma vida mec\u00e2nica. Creio que o Jos\u00e9, assim como outras pessoas que entraram para uma luta de esquerda na \u00e9poca, sentiram isso. Sentiram-se assim: &#8220;Olha, n\u00e3o tem mais como ir por outro caminho&#8221;. Fico imaginando isso. Costumo dizer, tamb\u00e9m: sou totalmente contra atos de viol\u00eancia radicais. Isso vai contra tudo que acredito. Mas consigo entender o que aconteceu na cabe\u00e7a dessas pessoas, daqueles jovens daquela \u00e9poca. O que aconteceu ali dentro. Esse sonho louco de achar que podem transformar o mundo daquela forma. \u00c9 a coragem absurda de querer transformar o mundo daquela maneira. S\u00e3o m\u00e1rtires! M\u00e1rtires fant\u00e1sticos e incr\u00edveis. Todos. O Jos\u00e9 sendo um deles.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-61274\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Meu-Tio-Jose-3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"422\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Meu-Tio-Jose-3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Meu-Tio-Jose-3-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Com a Hist\u00f3ria do Brasil se repetindo, um momento no qual a desinforma\u00e7\u00e3o \u00e9 usada como mote, \u00e9 importante que um filme como \u201cMeu Tio Jos\u00e9\u201d lance \u00e0 luz a trajet\u00f3ria de Jos\u00e9 Sebasti\u00e3o e alerte sobre os riscos de um novo golpe nesse Brasil que ressuscita fantasmas como a Lei de Seguran\u00e7a Nacional e que minimiza o horror ditatorial. No qual pessoas v\u00e3o \u00e0s ruas pedir interven\u00e7\u00e3o militar e nada lhes acontece, mas uma faixa contra um presidente acaba em pris\u00e3o.<\/strong><br \/>\nSim. O filme acaba tendo, tamb\u00e9m, esse objetivo que \u00e9 o de mostrar o que \u00e9 uma ditadura militar pelo ponto de vista de uma crian\u00e7a que viveu durante os anos 1980. Que viveu o final dessa ditadura militar. Nasci em 1972. Digamos que come\u00e7o a tomar consci\u00eancia e conhecimento de pol\u00edtica a partir desse momento, quando tinha 10 anos. Acho que \u00e9 muito importante as pessoas entenderem para que n\u00e3o entrem nessa viagem. Que entendam e n\u00e3o entrem nisso de novo. Exatamente o que voc\u00ea falou. Acho que tem muita gente indo para a rua e pedindo interven\u00e7\u00e3o militar porque n\u00e3o sabe o que \u00e9. N\u00e3o sabe o qu\u00e3o ruim \u00e9 isso. \u00c9 um caminho perigos\u00edssimo. Perigos\u00edssimo! Para todos! \u00c9 um caminho que leva ao abismo. Ent\u00e3o, o filme tamb\u00e9m tem essa quest\u00e3o. Foi uma coincid\u00eancia. Eu nunca imaginei que lan\u00e7aria esse filme em um momento como esse. \u00c9 uma coincid\u00eancia ruim para o pa\u00eds. Para o filme, acaba passando uma coisa meio prof\u00e9tica. Acaba dando uma ideia um pouco prof\u00e9tica que n\u00e3o existe no filme, para mim pelo menos. Acho que foi uma conspira\u00e7\u00e3o do universo para esse filme ser lan\u00e7ado neste momento, quando estamos vivendo uma \u00e9poca que nos remete a momentos que aconteceram antes do golpe de 1964. Gente indo para a rua em &#8220;Marcha para a Fam\u00edlia&#8221;, entendeu? Uma marcha para a fam\u00edlia que, na verdade, esconde ideais super retr\u00f3grados. Gente pedindo cassa\u00e7\u00e3o do STF. &#8220;Mais b\u00edblia menos constitui\u00e7\u00e3o.&#8221; Isso \u00e9 uma loucura! Estamos dentro de um processo dist\u00f3pico de volta ao passado inacredit\u00e1vel. E em meio \u00e0 pandemia, torna isso ainda mais surreal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi o processo de licenciamento para uso das m\u00fasicas de Chico Buarque e o trabalho com elas para a inser\u00e7\u00e3o na narrativa de \u201cMeu Tio Jos\u00e9\u201d?<\/strong><br \/>\nFoi uma grande surpresa. Foi uma ousadia muito grande de nossa parte. Descobrimos que era a Marola Produ\u00e7\u00f5es que cuidava dos direitos do Chico. O primeiro ponto foi saber como chegar a ele. Nunca tive um contato pessoal com o Chico. Espero ainda ter. Adoraria bater um papo com Chico Buarque sobre o filme e sobre o que ele quiser falar (risos). Mas, isso ainda n\u00e3o aconteceu. Ele sabe do filme. Temos uma amiga em comum, que \u00e9 a nossa distribuidora, a Priscila (Ros\u00e1rio), que \u00e9 amiga dele e, de vez quando, manda as coisas para o Chico. E eu ainda espero estar com ele algum dia para conversar mais longamente. Mas a gente chegou a ele atrav\u00e9s da Marola. E o primeiro ponto que eles pediram foi para ler o roteiro. Ler a hist\u00f3ria e saber do que se tratava. Mandamos o roteiro e eles ficaram com isso por mais ou menos uns 15 a 20 dias. E logo depois disseram que topavam. &#8220;Pode licenciar. Chico concordou&#8221;. E eu respondi: &#8220;Quero licenciar cinco m\u00fasicas&#8221;. &#8220;Tudo bem&#8221;. &#8220;Cinco cl\u00e1ssicos?&#8221;. &#8220;Tudo bem!&#8221;&#8221; (risos). &#8220;As cinco m\u00fasicas que mais gosto do Chico!&#8221;. &#8220;Tudo bem. N\u00e3o tem problema nenhum&#8221;. A\u00ed veio \u201cConstru\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cRoda Viva\u201d&#8230; M\u00fasicas que v\u00e3o mostrando&#8230; A gente tentou unir aspectos da hist\u00f3ria. A hist\u00f3ria \u00e9 dividida em cinco cap\u00edtulos e elegemos uma m\u00fasica por cap\u00edtulo. A\u00ed cada cap\u00edtulo tem uma das m\u00fasicas que foi desconstru\u00edda pelo Luciano (Silva), que \u00e9 um craque baiano da gema. Ele desconstruiu as m\u00fasicas e dentro da est\u00e9tica que eu lhe sugeri, achou que ia ficar genial. Acontece que n\u00f3s t\u00ednhamos na \u00e9poca dos anos 1980 o movimento punk. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/07\/19\/camisa-de-venus-ao-vivo-em-sao-paulo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Havia o Camisa de V\u00eanus<\/a> e outras bandas punks que surgiram no Brasil inteiro. Principalmente Bras\u00edlia, Rio e S\u00e3o Paulo. Em Salvador tinha o Camisa, que era a melhor de todas as bandas da \u00e9poca aqui. Quando eu comecei a tocar viol\u00e3o, a primeira m\u00fasica que eu tirei foi do Camisa de V\u00eanus. Para mim, aos 10 anos, eu j\u00e1 era f\u00e3 do Camisa. N\u00e3o podia entrar nos shows, porque eram censurados, mas eu adorava. A\u00ed, por conta dessa coisa do movimento punk, a sugest\u00e3o que eu dei a Luciano foi: &#8220;vamos desconstruir as m\u00fasicas do Chico e reconstruir como rockabilly punk, naquele estilo bem Camisa de V\u00eanus, bem \u2018Simca Chambord\u2019 e tal&#8221;. E a\u00ed ele fez isso com o Alexandre Vargas, que \u00e9 um puta guitarrista que j\u00e1 tocou at\u00e9 com Jimmy Page. Saiu um resultado inacredit\u00e1vel, acho que ficou genial. E ao mesmo tempo, ele usa orquestra. Ele faz uma jun\u00e7\u00e3o entre as m\u00fasicas do Chico orquestradas, reconstru\u00eddas para dar a pontua\u00e7\u00e3o da cena da a\u00e7\u00e3o do filme. E em determinado momento ele lan\u00e7a o rock and roll. Em geral, \u00e9 quando o Adonias tem aqueles del\u00edrios, aquelas viagens da mente dele, em que entramos em um ad libitum completo da anima\u00e7\u00e3o. \u00c9 quando ela fica mais solta. \u00c9 quando entra a m\u00fasica do Chico toda assim na vers\u00e3o instrumental. E a \u00faltima m\u00fasica \u00e9 na voz do Lirinha, que canta \u201cApesar de Voc\u00ea\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-61273\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Meu-Tio-Jose-2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"422\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Meu-Tio-Jose-2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Meu-Tio-Jose-2-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esses momentos de catarse do personagem do Adonias casam bem com as vers\u00f5es instrumentais das m\u00fasicas de Chico. Nestes momentos, inclusive, pensei novamente em \u201cPers\u00e9polis\u201d e, tamb\u00e9m, em \u2018Yellow Submarine\u201d. Como foi esse processo de cria\u00e7\u00e3o visual deles?<\/strong><br \/>\nPrimeiro, o que eu quis fazer ali foi uma coisa meio de giz. \u00c9 um quadro negro, que aparece at\u00e9 o Adonias desenhando em algum momento do filme. Quando o bedel o v\u00ea desenhando &#8220;coisas subversivas&#8221; (risos), e a\u00ed vai chamar a diretora que est\u00e1 louca para expuls\u00e1-lo. Primeiro foi isso. Eu queria um quadro negro em que os desenhos de giz ganhassem vida. Ou seja, as fantasias do Adonias. E as refer\u00eancias assim de anima\u00e7\u00e3o, sem d\u00favidas. A gente recorreu muito ao filme dos Beatles. Coloquei toda minha equipe para assistir. Porque anima\u00e7\u00e3o n\u00e3o se faz sozinho. Eu n\u00e3o sou nem animador. Na verdade, eu sou desenhista, sou ilustrador, mas n\u00e3o sou animador. Sou diretor. Ent\u00e3o, eu tenho uma equipe de animadores super competente. Est\u00e3o conosco at\u00e9 hoje a maior parte deles. E um deles, especificamente, ficou com essas cenas que voc\u00ea est\u00e1 falando. Foi o M\u00e1rio Alves, um craque. Um dos melhores animadores que existem no Brasil e trabalha conosco j\u00e1 h\u00e1 cinco anos, praticamente. Assistimos a esses filmes, eu mandei refer\u00eancias para ele de v\u00e1rias coisas. Mandei o \u201cPers\u00e9polis\u201d, tamb\u00e9m. \u00c9 um filme que tem umas viagens assim, ad libitum, tamb\u00e9m, que acontece. Ent\u00e3o, foi uma colagem disso tudo. De todas essas refer\u00eancias at\u00e9 chegarmos aonde quer\u00edamos. Tem um quadro que \u00e9 muito importante dentro do filme, e que fica em cima do sof\u00e1, e que o Adonias olha para ele e mergulha. Um quadro de uma igreja. Ent\u00e3o, tem a coisa da f\u00e9 envolvida tamb\u00e9m ali. Principalmente depois do atentado, que \u00e9 quando mostramos muito a av\u00f3 rezando com outras pessoas em correntes de ora\u00e7\u00e3o. E isso tamb\u00e9m entra nas fantasias. Elas s\u00e3o essa colet\u00e2nea. A\u00ed entra a imagem da av\u00f3 rezando, como uma coisa pesada, uma coisa quase f\u00fanebre. E as coisas da repress\u00e3o que se via na televis\u00e3o, que se ouvia nas hist\u00f3rias. As brutalidades como pau-de-arara, gente sendo jogada no meio do mar. Enfim. Nessas aliena\u00e7\u00f5es, vamos chamar assim, a gente tem essa catarse simb\u00f3lica, entendeu? Eu acho muito legal quando a gente faz isso em anima\u00e7\u00e3o. Essas misturas de uma coisa gerando outra. A pipa mostra a favela; a favela mostra o processo de repress\u00e3o sobre a favela. E dali sai um personagem, uma vitima, que \u00e9 lan\u00e7ada ao mar. Enfim, \u00e9 uma colagem do nosso dia a dia. Uma coisa meio surreal, mas bem real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O filme apresenta esse impacto imenso que a morte de Jos\u00e9 teve em sua fam\u00edlia. Como foi esse per\u00edodo de supera\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nFoi um processo dif\u00edcil. A fam\u00edlia se reergueu. Minha fam\u00edlia \u00e9 muito forte. Mas a minha av\u00f3 passou alguns meses e a gente a via chorando sozinha. Tamb\u00e9m a minha m\u00e3e. Mas conseguimos dar uma volta por cima. Eu acho que por conta da gente. Meus pais e minha av\u00f3 ganharam muita for\u00e7a por conta daquilo: &#8220;olha, os meninos n\u00e3o podem sofrer tanto&#8221;. Eles reprimiram muita coisa para poder garantir que a nossa inf\u00e2ncia fosse boa. E a minha inf\u00e2ncia foi muito boa. A minha e a de meu irm\u00e3o. Agora, claro que essa hist\u00f3ria ficou. A crian\u00e7a escuta e v\u00ea. N\u00e3o adianta tentar se esconder a verdade, porque ela descobre. E foi o que aconteceu. Uma conversa ou outra. Uma coisa que escapava de uma conversa ao telefone. Coisas que eu lia. Hist\u00f3rias que a minha av\u00f3 contava, antigas, de meu tio ainda crian\u00e7a em Teresina. E a morte dele foi exatamente esse momento, esse epicentro desse momento de aprendizado da noite para o dia de que o mundo n\u00e3o \u00e9 o tempo inteiro lindo e sem problemas. Como para a maioria das crian\u00e7as. Ent\u00e3o, eu, com 10 anos de idade, aprendi isso. Logo cedo, amadureci nesse sentido sobre o que \u00e9 poss\u00edvel acontecer na vida. E isso vem se amadurecendo ao longo do tempo. Amadureceu e o fruto est\u00e1 a\u00ed. O fruto \u00e9 esse filme. Esse primeiro fruto. N\u00f3s vamos lan\u00e7ar, tamb\u00e9m, uma revista em quadrinho com essa hist\u00f3ria desenhado por cinco artistas diferentes. Cada cap\u00edtulo do filme desenhado por um artista diferente, com tra\u00e7os totalmente diferentes. Total liberdade criativa. A maioria das artistas s\u00e3o mulheres. Artistas pl\u00e1sticas e artistas gr\u00e1ficas. S\u00e3o quatro desenhistas e eu que vou entrar com um dos cap\u00edtulos. E ta\u00ed. Esse \u00e9 o processo de amadurecimento e de entrega. E agora vamos ver como \u00e9 que esse fruto \u00e9 deglutido.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"MEU TIO JOS\u00c9 - DEPOIMENTO DO DIRETOR\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/X-7wWp6NXAc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O artista gr\u00e1fico e ativista pol\u00edtico Jos\u00e9 Sebasti\u00e3o Rios de Moura foi morto a tiros h\u00e1 38 anos, em junho de 1983, em Salvador. Seu sobrinho conta agora sua hist\u00f3ria (e da ditadura brasileira) em &#8220;Meu Tio Jos\u00e9&#8221;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/06\/13\/entrevista-ducca-rios-fala-sobre-meu-tio-jose-animacao-baiana-selecionada-para-o-festival-annecy-2021\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":61272,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61269"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=61269"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61269\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":61369,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61269\/revisions\/61369"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/61272"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=61269"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=61269"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=61269"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}