{"id":61016,"date":"2021-05-23T03:19:31","date_gmt":"2021-05-23T06:19:31","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=61016"},"modified":"2021-07-07T00:11:40","modified_gmt":"2021-07-07T03:11:40","slug":"faixa-a-faixa-pelespirito-por-zelia-duncan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/05\/23\/faixa-a-faixa-pelespirito-por-zelia-duncan\/","title":{"rendered":"Faixa a faixa: \u201cPelesp\u00edrito\u201d, por Z\u00e9lia Duncan"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o por Susana Ribeiro<\/strong><br \/><strong>Faixa a faixa por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/zeliaduncanoficial\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Z\u00e9lia Duncan<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seria um caminho natural escolher por celebrar seus 40 anos de carreira com um projeto revisionista, ainda mais nesse momento inimagin\u00e1vel que o mundo est\u00e1 vivendo. S\u00e3o muitos os motivos. O necess\u00e1rio distanciamento f\u00edsico, a (compreens\u00edvel) dificuldade de inspira\u00e7\u00e3o, a triste realidade do atual cen\u00e1rio pol\u00edtico-social, as perdas, as in\u00fameras perdas&#8230; Mas Z\u00e9lia Duncan escolheu transformar suas d\u00favidas e dores em m\u00fasica. E assim ela apresenta \u201cPelesp\u00edrito\u201d, \u00e1lbum que celebra suas quatro d\u00e9cadas de of\u00edcio e marca o seu retorno \u00e0 Universal Music, companhia pela qual ela lan\u00e7ou discos como \u201cSortimento\u201d (2001), \u201cEu Me Transformo em Outras\u201d (2004), \u201cPr\u00e9 P\u00f3s Tudo Bossa Band\u201d (2005), entre outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPelesp\u00edrito\u201d \u00e9 fruto de um encontro musical profundo com o poeta e produtor pernambucano Juliano Holanda, ao lado de quem Z\u00e9lia comp\u00f4s todas as 15 faixas que figuram no disco. \u201cMeu novo encontro com o Juliano foi um acaso. Eu compus com v\u00e1rias pessoas durante esse tempo. Parceiros amados e queridos, como Ana Costa, Xande de Pilares, Lucina, Marcos Valle, Ivan Lins&#8230; Tem sido incr\u00edvel, mas, num certo momento, eu e o Juliano nos conectamos de uma maneira muito profunda, porque ele teve uma disponibilidade muito grande para mim e vice-versa. Esse \u00e1lbum tamb\u00e9m \u00e9 um di\u00e1logo meu com ele, que mora em Recife. A gente n\u00e3o se viu e come\u00e7ou a compor por WhatsApp e a coisa fluiu de uma maneira absurda\u201d, revela Z\u00e9lia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessas 15 can\u00e7\u00f5es t\u00e3o \u00edntimas e confessionais, Z\u00e9lia passeia por ritmos como folk e country (\u201cViramos p\u00f3?\u201d), rock&#8217;n&#8217;roll (\u201cNas horas cruas\u201d), sertanejo nordestino e pantaneiro (\u201cTudo por nada\u201d) e blues (\u201cSua cara t\u00e1 grudada em mim\u201d). Nele, a cantora prop\u00f5e perguntas (\u201cOnde \u00e9 que isso vai dar?\u201d, \u201cO que se perdeu?\u201d), faz declara\u00e7\u00f5es de amor (\u201cNossas coisinhas\u201d e \u201cSua cara\u201d), acenos e homenagens (\u201cVoc\u00ea rainha\u201d). E fecha o \u00e1lbum deixando expl\u00edcita a sua cren\u00e7a de que tudo vai ficar bem (\u201cVai melhorar\u201d). \u201cEsse disco foi todo feito nesse clima de mist\u00e9rio. Claro que a vida \u00e9 um grande mist\u00e9rio, mas a gente est\u00e1 num momento especialmente enigm\u00e1tico, porque estamos lidando com um v\u00edrus. E isso para n\u00f3s, artistas, nos atingiu na espinha e no cora\u00e7\u00e3o do nosso of\u00edcio, que prev\u00ea o encontro. A arte precisa se encontrar com quem vai absorv\u00ea-la de alguma forma. No caso da m\u00fasica e da performance, \u00e9 muito dif\u00edcil ficar longe de tudo isso\u201d, conta Z\u00e9lia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00e1lbum foi gravado entre 2020 e 2021 em v\u00e1rios home studios. Z\u00e9lia e Webster Santos gravaram em suas respectivas casas, em S\u00e3o Paulo, Juliano Holanda em Pernambuco, L\u00e9o Brand\u00e3o em Curitiba, Christiaan Oyens em Londres e \u00c9zio Filho no Rio de Janeiro. E assim o projeto nasceu em plena pandemia. \u201cAgora, ap\u00f3s um ano e pouco disso tudo, temos experi\u00eancia com esse sofrimento. S\u00f3 que ele est\u00e1 virando m\u00fasica, livro, quadro, coreografia, pe\u00e7a teatral. E \u00e9 isso que n\u00f3s artistas temos que produzir e inventar todo dia. Porque n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o fato de n\u00e3o estar trabalhando num palco, encontrando as pessoas, \u00e9 uma coisa \u00edntima tamb\u00e9m. No meu caso, isso virou muitas coisas. E uma delas \u00e9 esse \u00e1lbum, que \u00e9 absolutamente especial para mim. Porque \u00e9 um \u00e1lbum todo autoral e todo feito com o Juliano Holanda. Ele \u00e9 um desejo de ser um pequeno documento meu. E eu adoraria que ele pudesse mapear um pouquinho o momento das pessoas tamb\u00e9m. Porque as m\u00fasicas t\u00eam isso. Elas pertencem a quem as ouve, a quem se apodera delas\u201d, diz generosamente a cantora. Abaixo ela comenta o disco, faixa a faixa.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Pelesp\u00edrito\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/B7CDxQ6Cmhc?list=OLAK5uy_mJSfYGSSM5OFiG2mknJPWq2IBgDjUE55Q\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u201cPelesp\u00edrito\u201d &#8211; Faixa a faixa, por Z\u00e9lia Duncan:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>01) \u201cPelesp\u00edrito\u201d<\/strong> \u2013 \u00c9 o nome do \u00e1lbum e o nome da m\u00fasica que abre o disco. Essa letra foi feita num espasmo, de uma s\u00f3 vez, o que nem sempre acontece. Eu estava num momento especialmente dif\u00edcil, f\u00edsica e emocionalmente. Eu sempre tenho \u00e0 m\u00e3o um l\u00e1pis e um papel e foi quando comecei a escrever \u201cT\u00f4 pele e esp\u00edrito \/ t\u00f4 por um fio dessa minha blusa\u201d. E tudo o que eu escrevia era exatamente o que eu estava sentindo. Nenhuma v\u00edrgula foi mudada, nenhuma palavra. E assim a gente abre o disco, porque eu acho que essa m\u00fasica d\u00e1 o tom do sentimento todo. E a\u00ed entra o Webster Santos, um m\u00fasico muito sens\u00edvel e que me conhece muito, que assina a produ\u00e7\u00e3o comigo e o Juliano. O Webster foi muito especial nas suas interven\u00e7\u00f5es, o que deixou a m\u00fasica toda sensorial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>02) \u201cOnde \u00e9 que isso vai dar?\u201d<\/strong> \u2013 Ela \u00e9 explicitamente para esse momento. Mas tem uma particularidade que eu adoro. Ela \u00e9 literalmente um di\u00e1logo meu com o Juliano. Foi muito intensa a nossa rela\u00e7\u00e3o para construir essas m\u00fasicas. Eu imprimi 15 nesse \u00e1lbum, mas s\u00e3o muito mais do que isso. Um dia, a gente tinha feito uma m\u00fasica que a gente estava feliz de ter feito e ele me mandou uma mensagem dizendo que estava feliz de estar compondo e que isso estava sendo bom pra ele nesse tempo. E a\u00ed eu escrevi para ele: \u201cTe digo o mesmo. Isso me provoca\u201d. Ele me provoca e eu adoro desafios. O Juliano \u00e9 tamb\u00e9m um poeta. Ele mandava umas frases para mim, eu devolvia com outras e isso ia virando coisas, estrofes&#8230; E assim a gente foi construindo o di\u00e1logo nessa m\u00fasica, que \u00e9 t\u00e3o especial para mim. Essa \u00e9 umas das m\u00fasicas que me fez querer fazer o disco.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"ONDE \u00c9 QUE ISSO VAI DAR? (Clipe Oficial) | Z\u00e9lia Duncan #ZD40\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/f8gW3A5PG4A?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>03) \u201cTudo por nada\u201d<\/strong> \u2013 Essa foi a \u00faltima m\u00fasica a ser gravada, aos 46 do segundo tempo. Porque nesse processo todo a gente n\u00e3o parou de fazer m\u00fasica. E a\u00ed apareceu essa. A letra, que \u00e9 minha, surgiu primeiro. Na ocasi\u00e3o, eu estava assistindo na internet a Marcia Tiburi, uma amiga querida que admiro profundamente, que estava falando umas coisas t\u00e3o interessantes. E ela come\u00e7ou a falar sobre como \u00e9 importante que voc\u00ea sinta alguma coisa para poder ajudar os outros. Tem que come\u00e7ar em voc\u00ea esse sentimento. E a\u00ed, de novo, eu peguei o papel e comecei a escrever a letra, que diz \u201cpreciso doer pra te estender a m\u00e3o \/ se eu n\u00e3o me vejo, te ignoro\u201d. Fui seguindo nessa ideia e aquele sentimento ficou forte pra mim. Eu mandei para o Juliano, que entrou com uma melodia meio sertanejo nordestino, mas tamb\u00e9m ficou um pouco pantaneiro. O Webster fez uma viola que vem debaixo para cima. \u00c9 uma faixa muito vistosa, com viola e viol\u00e3o, que eu n\u00e3o consegui deixar de fora. Mesmo porque o refr\u00e3o dela diz: \u201cQuando eu digo \u2018vem\u2019, \u00e9 porque eu tamb\u00e9m vou\u201d. Acho que isso que afirma as coisas \u00e9 a minha cara. Eu quero cada vez mais me comprometer com as coisas e achei que essa m\u00fasica era um pouco isso. E ela est\u00e1 logo no come\u00e7o do disco porque eu quero dizer rapidamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>04) \u201cVou gritar seu nome\u201d<\/strong> \u2013 Ela \u00e9 uma das tr\u00eas m\u00fasicas \u201cfofas\u201d do disco. Curioso porque sempre tem uma pontinha de tristeza. Eu sempre acho que as coisas tristes n\u00e3o s\u00e3o necessariamente bonitas, mas quase sempre as coisas bonitas t\u00eam um pouco de tristeza, a meu ver. Nesses tempos ent\u00e3o&#8230; Esse \u00e9 um disco onde sempre tem uma pontinha de tristeza para mim. Embora essa m\u00fasica tenha uma leveza, ela est\u00e1 falando do futuro (\u201cTalvez o futuro nos espere com flores\u201d). Esse \u00e9 um desejo que parte de uma tristeza, mas vira um desejo bom. Tem uma coisa que eu adoro no come\u00e7o dela que \u00e9 o acordeom do L\u00e9o Brand\u00e3o. Eu tentei, pelo menos numa faixa, trazer esses m\u00fasicos que est\u00e3o comigo h\u00e1 tanto tempo e que s\u00e3o t\u00e3o importantes para mim, como o L\u00e9o, que toca teclado e acordeom na minha banda. J\u00e1 o viol\u00e3o \u00e9 meu. Quase todas as faixas come\u00e7aram com a minha voz e o viol\u00e3o. Esse \u00e9 o cerne do \u00e1lbum. \u00c9 uma m\u00fasica que tem a pretens\u00e3o de ser um pouco um parquinho de divers\u00f5es, um sonho. \u00c9 mesmo um sonho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>05) \u201cNossas coisinhas\u201d<\/strong> \u2013 Essa \u00e9 uma m\u00fasica absolutamente especial pra mim. Eu fiz para a Flavia, minha companheira. As m\u00fasicas t\u00eam esse neg\u00f3cio de servir para todo tipo de situa\u00e7\u00e3o se voc\u00ea se identifica com elas. Por exemplo, uma das primeiras pessoas para quem eu mostrei essa m\u00fasica foi uma querida amiga minha, que ficou ouvindo com a filhinha dela. E eu fiquei muito emocionada com isso, porque a m\u00fasica j\u00e1 estava se transformando, porque ela fala sobre \u201cas nossas coisinhas de meninas\u201d. E a minha amiga brinca com a filha quando elas est\u00e3o sozinhas dizendo \u2018vamos fazer as nossas coisinhas de meninas, vamos conversar, fazer o que a gente quiser\u2019. E \u00e9 um pouco isso o que a m\u00fasica diz tamb\u00e9m. No meio da pandemia, eu estava voltando de uma situa\u00e7\u00e3o superdif\u00edcil e pensei: \u2018Eu preciso tanto agradecer a essa pessoa que est\u00e1 aqui comigo, cuidando tanto de mim\u2019. \u00c9 muito pessoal. E quanto mais pessoal mais \u00e9 universal descobrir isso como compositora. Essa \u00e9 uma faixa em que eu toco viol\u00e3o sozinha. Os meninos acharam que a melhor tradu\u00e7\u00e3o para ela era essa. Ela emociona as pessoas, \u00e9 muito amorosa. E a gente ama essa m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>06) \u201cViramos p\u00f3?\u201d<\/strong> \u2013 \u00c9 a outra pergunta que tem no disco. Tem uma coisa importante que eu estou tocando viol\u00e3o e cantando, mas todo o arranjo dessa m\u00fasica foi feito pelo Christiaan Oyens, meu parceiro, meu compadre, meu amor, que hoje mora em Londres. Todos n\u00f3s gravamos as nossas partes em nossas respectivas casas, sem podermos nos encontrar. E o Christiaan mandou de Londres as coisas e a gente se emocionou muito. Quando ele me mandou, ele disse que gravou muito emocionado. Sempre com o bom gosto dele, o Christiaan trouxe uma viagem diferente para o disco. Ali\u00e1s, na faixa \u201cOnde \u00e9 que isso vai dar?\u201d voc\u00ea sente que tem uma viagem ali. E ele fez todos aqueles sons. Essa m\u00fasica tamb\u00e9m fala muito sobre esse momento, que tem essas perguntas pra fazer e que a gente espera poder responder. Ela \u00e9 um country, que \u00e9 bem a nossa cara. O disco est\u00e1 todo folk, de modo geral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>07) \u201cRaio de neon\u201d<\/strong> \u2013 \u00c9 outra das m\u00fasicas \u201cfofinhas\u201d, gostosas do dico, acredito, que tamb\u00e9m tem um delicioso arranjo do Christiaan. Tem um solo de guitarra daqueles que eu adoro, que est\u00e1 te falando uma coisa. N\u00e3o apenas um solo que est\u00e1 mostrando habilidade. Ele est\u00e1 contando uma hist\u00f3ria com a melodia. Essa \u00e9 a \u00fanica m\u00fasica que foi feita poucos dias antes de a gente fechar de vez e entrar em isolamento. Mas \u00e9 interessante como ela j\u00e1 fala sobre essa situa\u00e7\u00e3o. Porque j\u00e1 tinha um clima muito ruim no Brasil desde&#8230; n\u00f3s sabemos quando (risos). Ent\u00e3o j\u00e1 estava um clima muito dif\u00edcil no pa\u00eds quando entramos nessa fase do v\u00edrus. A gente j\u00e1 estava contaminado com outros v\u00edrus. V\u00edrus de \u00f3dio, de uma polariza\u00e7\u00e3o muito perversa. E essa m\u00fasica fala disso tamb\u00e9m. Ela vem para aliviar, porque \u00e9 uma m\u00fasica suave, mas tamb\u00e9m est\u00e1 falando de um momento um pouco triste. Mas ela \u00e9 alegre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>08) \u201cNas horas cruas\u201d<\/strong> \u2013 \u00c9 o rock&#8217;n&#8217;roll do disco, que tamb\u00e9m fala da situa\u00e7\u00e3o mais explicitamente, que fala sobre ficar em casa. \u201cQuais s\u00e3o as armas que usamos dentro de casa, nas horas cruas, sem nada?\u201d Eu escolho o amor. E voc\u00ea?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>9) \u201cSua cara\u201d<\/strong> \u2013 Outra m\u00fasica que nasce extremamente confessional e pessoal, porque eu a fiz para o meu pai. Perdi meu pai em dezembro de 2020. Meu pai morava em Rio Claro e eu estou em S\u00e3o Paulo. Ent\u00e3o, fui de carro at\u00e9 a cidade dele algumas vezes. Numa dessas ocasi\u00f5es, eu voltei e fiz essa letra, que diz \u201ca sua cara t\u00e1 grudada em mim\u201d. Ent\u00e3o, ela virou um blues. Eu tamb\u00e9m toco sozinha. Estou feliz de t\u00ea-la feito. \u00c9 uma m\u00fasica emocionante do disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>10) \u201cPassam\u201d<\/strong> \u2013 Foi uma das primeiras m\u00fasicas que eu fiz com o Juliano Holanda, ainda sem saber que ia virar disco. Quando a gente fez, eu senti um \u2018pancad\u00e3o\u2019 e disse: \u2018\u00c9 importante essa m\u00fasica pra mim\u2019. Foi num momento tamb\u00e9m dif\u00edcil, que eu estava chateada com um monte de coisas, coisas que tinham falado, tanto que no final dela eu falo \u201cNos querem sem palavras \/ mas todos passam\u201d. Essa \u00e9 umas das m\u00fasicas que chegaram para refor\u00e7ar o fato de que eu comecei a desconfiar que aqui isso ia virar um disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>11) \u201cO que se perdeu?\u201d<\/strong> \u2013 Essa \u00e9 uma m\u00fasica bem diferente do disco. Ela \u00e9 esse di\u00e1logo meu com o Juliano. Eu fiz as letras muitas vezes pensando nele, na nossa conversa. \u201cSeu rem\u00e9dio meu \/ Meu rem\u00e9dio seu \/ Sua cura, minha cura \/ O que se perdeu?\u201d. Tamb\u00e9m tentando pensar onde que a gente adoeceu. Onde a gente adoeceu emocionalmente, no discurso, socialmente&#8230; Por que \u00e9 que estamos t\u00e3o doentes assim? Por que para enfrentar uma doen\u00e7a a gente escolheu esse vazio todo, esse vazio de pensamento? Essa m\u00fasica come\u00e7a numa conversa minha com o Juliano e termina numa m\u00fasica que quer falar pra todo mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>12) \u201cEu e voc\u00eas\u201d<\/strong> \u2013 \u00c9 uma balada bem simples e que se prop\u00f5e a ser bem simples mesmo. A gente estava t\u00e3o agoniado que come\u00e7amos a conversar sobre fazer uma m\u00fasica que acalmasse o nosso peito um pouco. E eu, como todos os meus colegas \u2013 tenho certeza \u2013 com essa abstin\u00eancia do palco, de gente perto pra poder tocar, trocar, ouvir a rea\u00e7\u00e3o das pessoas&#8230; \u00c9 muito dif\u00edcil essa parte. \u00c9 a parte dif\u00edcil das lives que a gente faz, porque \u00e9 o nosso trabalho. Mas \u00e9 uma coisa que nos deixa muito cansado de imaginar como seria se fosse. Eu estou fazendo 40 anos de carreira. S\u00e3o quatro d\u00e9cadas de contato com o p\u00fablico. E, de repente, esse corte. Ent\u00e3o, \u2018Eu e voc\u00eas\u2019 fala tamb\u00e9m disso. Ela come\u00e7a falando \u201cUma daquelas pra suavizar a alma \/ Uma tranquila \/ Pra reconquistar a calma\u201d. E o refr\u00e3o fala diretamente para o meu p\u00fablico: \u201cVontade de cantar \/ Num coro essa can\u00e7\u00e3o \/ Com voz de cora\u00e7\u00e3o. Eu e voc\u00eas\u201d. Nada substitui eu e voc\u00eas. Voc\u00eas e eu juntinhos. Antes de eu gravar essa m\u00fasica, eu a mandei a para a Elba Ramalho. E pensei: \u2018Nossa, isso \u00e9 a cara da Elba, que \u00e9 uma m\u00e3ezona!\u2019. Ela ouviu e imediatamente se identificou. E ela batizou o \u00e1lbum dela com os filhos de \u201cEu e Voc\u00eas\u201d, que saiu bem antes do nosso, mas como um pren\u00fancio de uma boa sorte para essa m\u00fasica, que \u00e9 simples e que eu acredito que vai chegar muito f\u00e1cil at\u00e9 as pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>13) \u201cEu moro l\u00e1\u201d<\/strong> \u2013 Ela \u00e9 um pouco diferente do resto do disco. O Webster Santos est\u00e1 tocando nela toda, \u00e9 bem a praia dele, uma m\u00fasica suingada. E outra vez eu fiz essa m\u00fasica para o Juliano. Ele e a Mery (sua esposa) moram num lugar que tem uma vista incr\u00edvel, aberta, tem mar&#8230; Teve uma \u00e9poca em que eu vi algo na internet sobre o Nordeste. Sou filha de baiano, sou nordestina tamb\u00e9m e tenho muito orgulho disso. E eu fiz essa m\u00fasica como uma declara\u00e7\u00e3o de amor pelo lugar de onde a gente vem. E eu estava pensando dele. \u201cEu moro l\u00e1 porque tem o horizonte e um monte de c\u00e9u pra olhar\u201d. S\u00f3 que a\u00ed eu comecei a pensar que eu falo de um rio. N\u00e3o era o Rio de Janeiro exatamente. Eram os rios que n\u00f3s temos nas nossas cidades. Mas como eu sou do Rio, \u00e9 claro que isso vai ficar tamb\u00e9m marcado. N\u00e3o me importo. Como eu me mudei para S\u00e3o Paulo, ficou parecendo que eu fiz essa m\u00fasica s\u00f3 para o Rio. N\u00e3o foi isso, mas eu adoro pensar que tamb\u00e9m \u00e9. Na verdade, \u201cEu moro l\u00e1\u201d tem a ver com o Brasil. O Brasil que a gente quer, que n\u00e3o \u00e9 esse em que n\u00f3s estamos vivendo hoje. A gente quer um outro Brasil. A gente quer virar o disco pra recome\u00e7ar. O Brasil nunca foi um lugar justo, nunca foi um lugar igual. A gente sempre teve grandes problemas por conta de abismo social, principalmente. Mas o Brasil que a gente entrou \u00e9 um Brasil que \u00e9 pior e mais dif\u00edcil ainda. Ent\u00e3o, eu moro l\u00e1. Eu moro l\u00e1 naquele Brasil que eu vou buscar. Eu vou buscar!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>14) \u201cVoc\u00ea rainha\u201d<\/strong> \u2013 \u00c9 uma m\u00fasica muito delicada do disco, cuja letra eu fiz para as mulheres que sofrem na pandemia viol\u00eancia, para as que at\u00e9 morreram \u2013 que n\u00e3o foram poucas \u2013 para as que est\u00e3o trancadas com seus algozes, para as que n\u00e3o conseguem pedir socorro. E para as que conseguem pedir socorro. Para que elas saibam que elas sempre ter\u00e3o uma sa\u00edda. E que n\u00f3s, juntas, somos muito fortes e podemos nos ajudar. \u00c9 um sinal para essas mulheres, para que elas saibam que n\u00e3o est\u00e3o sozinhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>15) \u201cVai melhorar\u201d<\/strong> \u2013 O disco se encerra com essa m\u00fasica. Por motivos \u00f3bvios. \u00c9 o que a gente deseja, \u00e9 o que a gente espera. A gente est\u00e1 vivo, a gente quer melhorar. \u201cVai melhorar \/ vem melhorar comigo \/ contigo eu consigo melhor\u201d. Desde o primeiro dia, eu venho dizendo (eu e tanta gente) que a gente s\u00f3 vai sair dessa situa\u00e7\u00e3o todos juntos. N\u00e3o d\u00e1 pra sair em partes. Por isso que temos que nos vacinar juntos. \u00c9 coletivamente que vamos conseguir fazer uma coisa melhor. Vai melhorar, se a gente for junto. Nessa faixa eu conto com a participa\u00e7\u00e3o especial de \u00c9zio Filho no contrabaixo e percuss\u00e3o. Ele \u00e9 diretor da minha banda h\u00e1 muitos anos e meu amigo querido.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-61017\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/ZD_pelespirito_capa_digital.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/ZD_pelespirito_capa_digital.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/ZD_pelespirito_capa_digital-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/ZD_pelespirito_capa_digital-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m: Entrevistas<\/strong><br \/>&#8211; Z\u00e9lia Duncan (2015): &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/09\/03\/entrevista-zelia-duncan-na-estrada\/\">Meu trabalho \u00e9 tentar fazer, dizer, me renovar. N\u00e3o cabe a mim analisar, sabe?<\/a>&#8220;<br \/>&#8211; Z\u00e9lia Duncan (2019): &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/07\/03\/entrevista-zelia-duncan-lanca-novo-disco-de-ineditas\/\">O artista precisa ser livre e saber o que fazer com a liberdade<\/a>&#8220;.<\/p>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Seria um caminho natural escolher por celebrar seus 40 anos de carreira com um projeto revisionista, mas Z\u00e9lia Duncan escolheu transformar suas d\u00favidas e dores em m\u00fasica. Aqui ela comenta as 15 faixas de \u201cPelesp\u00edrito\u201d\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/05\/23\/faixa-a-faixa-pelespirito-por-zelia-duncan\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":61018,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1036],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61016"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=61016"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61016\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":61021,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61016\/revisions\/61021"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/61018"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=61016"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=61016"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=61016"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}