{"id":60968,"date":"2021-05-17T02:07:41","date_gmt":"2021-05-17T05:07:41","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=60968"},"modified":"2021-06-15T01:16:13","modified_gmt":"2021-06-15T04:16:13","slug":"entrevista-chico-felitti","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/05\/17\/entrevista-chico-felitti\/","title":{"rendered":"Entrevista: Chico Felitti"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Vinhas<\/a>\u00a0<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/chicofelitti\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Chico Felitti<\/a> \u00e9 um nome de destaque no restrito universo dos que praticam jornalismo liter\u00e1rio no pa\u00eds. Suas investiga\u00e7\u00f5es jornal\u00edsticas podem penetrar tanto o universo familiar das v\u00edtimas de Covid-19 como vasculhar a hist\u00f3ria esquecida e ignorada de um dos nomes mais importantes do entretenimento brasileiro: o que importa \u00e9 \u201centender a hist\u00f3ria inteira\u201d para coloc\u00e1-la \u201cem seu lugar\u201d, como ele mesmo contou ao Scream &amp; Yell.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos tr\u00eas anos, esse paulista natural de Jundia\u00ed entregou tr\u00eas livros not\u00e1veis: \u201c<a href=\"https:\/\/todavialivros.com.br\/livros\/a-casa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A casa \u2014 A hist\u00f3ria aterradora da seita de Jo\u00e3o de Deus<\/a>\u201d, \u201c<a href=\"https:\/\/todavialivros.com.br\/livros\/ricardo-e-vania\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ricardo e V\u00e2nia \u2014 O maquiador, a garota de programa, o silicone e uma hist\u00f3ria de amor<\/a>\u201d (ambos pela editora Todavia) e o audiolivro \u201c<a href=\"https:\/\/www.storytel.com\/br\/pt\/series\/40976-Mulher-Maravilha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mulher Maravilha<\/a>\u201d, uma biografia de Elke Maravilha. Al\u00e9m deles, \u00e9 respons\u00e1vel tamb\u00e9m pelo podcast <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/CDOoTLan_mc\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Muitas Vidas<\/a>, no qual relata a vida de pessoas que perderam a vida para o coronav\u00edrus a partir de relatos de pessoas pr\u00f3ximas a elas \u2013 o programa est\u00e1 dispon\u00edvel exclusivamente no app Orelo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todas essas obras, bem como muitas de suas reportagens e podcasts pregressos, trazem hist\u00f3rias ricas e contundentes, mesmo lidando com universos muito distintos. A complexa teia de omiss\u00f5es, coniv\u00eancias e crimes que permitiam que o autoproclamado Jo\u00e3o de Deus abusasse impunemente de centenas de mulheres nada tem a ver com as jornadas pessoais de Ricardo Corr\u00eaa da Silva (que ficou conhecido pelo infame e pejorativo apelido \u201cFof\u00e3o da Augusta\u201d) e da garota de programa V\u00e2nia. Por\u00e9m, a apura\u00e7\u00e3o extensa e rigorosa, a eleg\u00e2ncia das palavras e a sensibilidade de trazer emo\u00e7\u00f5es a partir de fatos est\u00e1 presente em todos eles.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Podcast Quarta Capa (TP01) #06 - Chico Felliti l\u00ea um trecho do livro A CASA\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/kDTD_u9Ofo8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Seus livros trazem extensas investiga\u00e7\u00f5es jornal\u00edsticas. Em um cen\u00e1rio como o que hoje vivemos, onde tudo \u00e9 nicho e n\u00e3o interessam os fatos, e sim quem consegue gritar mais alto, quem se interessa por essas investiga\u00e7\u00f5es?<\/strong><br \/>As pessoas que n\u00e3o se satisfazem s\u00f3 com opini\u00e3o o tempo inteiro. As redes sociais e mesmo os ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o surgidos nas \u00faltimas d\u00e9cadas privilegiam muito a opini\u00e3o, a pol\u00eamica, o que vai ser compartilhado porque vai levantar \u00e2nimos e paix\u00f5es. E no fim do dia, voc\u00ea falou mal de 18 pessoas de quem voc\u00ea n\u00e3o gosta, xingou muito o presidente&#8230; Qual o estofo disso? Qual a hist\u00f3ria? O que voc\u00ea tem de mais longevo, al\u00e9m da tocha e do tridente que voc\u00ea carrega todo dia, inflamado pelo \u00f3dio? Que universo voc\u00ea conheceu que voc\u00ea n\u00e3o conhecia, que mundo que voc\u00ea desconhecia e visitou e ficou maravilhada ou maravilhado ou assustado e saiu carregando pra vida? \u00c9 muito pouco o que a gente carrega hoje. Opini\u00e3o \u00e9 super necess\u00e1ria, claro, an\u00e1lises s\u00e3o necess\u00e1rias, mas n\u00e3o d\u00e1 para viver s\u00f3 de opini\u00e3o e an\u00e1lise. A gente precisa de novidade, se surpreender com a realidade. Esse \u00e9 o papel de uma grande reportagem. Pra mim, a frase \u00e9 \u201cisso est\u00e1 acontecendo\u201d. \u00c9 mostrar algo para o leitor ou para a leitora, mostrar que isso est\u00e1 acontecendo, e ele falar \u201cn\u00e3o acredito\u201d de t\u00e3o inconceb\u00edvel que \u00e9 \u2013 por ser muito bonito, ou muito ex\u00f3tico, ou muito revoltante. Essa reportagem que a ag\u00eancia P\u00fablica fez sobre o Samuel Klein, eu fiquei uma hora sem conseguir sair do telefone porque conheci um universo que eu n\u00e3o conhecia, e dias depois ainda estou carregando-o e acho que vou carregar pro resto da vida. A ag\u00eancia foi l\u00e1 e me mostrou essa fatia do mundo que eu n\u00e3o conhecia. Acho que esse \u00e9 o meu trabalho tamb\u00e9m. A estrutura do poder de Jo\u00e3o de Deus: como esse z\u00e9 man\u00e9 semianalfabeto virou um dos maiores gurus do mundo, como ele transformou uma cidade, o que a cidade fez com ele. \u00c9 o tipo de coisa que eu n\u00e3o saberia se n\u00e3o tivesse passado um ano por l\u00e1, e o leitor e a leitora tamb\u00e9m n\u00e3o saberiam. De verdade, \u00e9 s\u00f3 mostrar um peda\u00e7o do mundo e apontar uma lanterna pra ele. Mesma coisa a vida da V\u00e2nia: ela vai pra Europa sem nunca ter entrado em um avi\u00e3o, desembarca em um pa\u00eds cuja l\u00edngua ela n\u00e3o fala, revoluciona o mercado do sexo pago&#8230; \u00c9 mostrar esse peda\u00e7o do mundo que as pessoas n\u00e3o conheciam, e a opini\u00e3o n\u00e3o faz isso. Opini\u00e3o mostra um peda\u00e7o dentro de voc\u00ea que os outros n\u00e3o conheciam \u2013 ou conheciam e t\u00eam esse mesmo peda\u00e7o dentro dele (ri). A reportagem \u00e9 uma lufada de ar fresco, e a gente est\u00e1 em um mundo de ar t\u00f3xico, tanto literal quanto metaforicamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual o impacto que um livro como \u201cA Casa\u201d, ou outras grandes investiga\u00e7\u00f5es, pode trazer para a sociedade?<\/strong><br \/>Um impacto enorme, sem d\u00favida. \u201cRicardo e V\u00e2nia\u201d vendeu bem e fez sucesso em c\u00edrculos muito pr\u00f3ximos \u00e0 minha vida. J\u00e1 \u201cA Casa\u201d \u00e9 uma loucura, porque vendeu e eu n\u00e3o vi. Eu n\u00e3o conhe\u00e7o as pessoas que leram! E quando essas pessoas v\u00eam me procurar, eu descubro que s\u00e3o donas de casa de Goi\u00e2nia, advogadas de Manaus, pessoas que de fato tinham interesse por aquele universo, mas o desconheciam. O livro foi a possibilidade de conhecer aquela hist\u00f3ria. Elas dizem que o livro foi o que permitiu que elas entendessem o que foi Abadi\u00e2nia, porque at\u00e9 ent\u00e3o s\u00f3 tinham acesso a vers\u00f5es picadas, informa\u00e7\u00f5es que eram mais marketing do que a hist\u00f3ria tal qual aconteceu. Teve gente que foi quase foi abusada e veio me agradecer pelo livro; tamb\u00e9m gente que foi abusada e contando que agora entendeu como tudo aconteceu; gente agradecendo por n\u00e3o ter ido agora que entende o que era&#8230; Eu mesmo tive uma doen\u00e7a anos atr\u00e1s e meu pai queria me levar para Abadi\u00e2nia. Era meio natural no Brasil, ningu\u00e9m questionava o que era aquilo, de onde tinha vindo. Se voc\u00ea estava desenganado, a resposta n\u00e3o era \u201cvamos fazer quimioterapia\u201d, e sim \u201cvamos para Abadi\u00e2nia\u201d. Era uma institui\u00e7\u00e3o brasileira, e entender a hist\u00f3ria inteira \u00e9 dar a devida import\u00e2ncia, colocar aquilo no lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em dado momento de \u201cA Casa\u201d, voc\u00ea diz preferir escrever sobre pessoas que admira, o que obviamente n\u00e3o era o caso do m\u00e9dium. Voc\u00ea acaba de falar sobre esse apre\u00e7o pelo novo, e entendo que ele possa estar presente no caso do Jo\u00e3o de Deus, mas tamb\u00e9m tem um lado denso na hist\u00f3ria, que envolve informa\u00e7\u00f5es e sensa\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis, mesmo em hist\u00f3rias de quem voc\u00ea admira. Como \u00e9 lidar com isso?<\/strong><br \/>Eu elaboro muito pouco as coisas. Eu sou muito torpe, e isso n\u00e3o \u00e9 fazer tipo, \u00e9 autoan\u00e1lise mesmo. Eu n\u00e3o sei mapear meus sentimentos e minhas sensa\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o tudo que eu fa\u00e7o \u00e9 muito org\u00e2nico e instintivo, e demorei muito para identificar que eu s\u00f3 me aproximava de pedreiras (risos), de hist\u00f3rias muito pesadas. Era tudo sem consci\u00eancia! (risos) Demorou muito tempo para entender que eu gostava de uma melancolia, de universos mais soturnos, mais pesados. Eu vejo mais a beleza desses universos do que tudo de ruim e de tr\u00e1gico e de horr\u00edvel que os cerca. Claro, tem um peso emocional, mas para mim isso \u00e9 natural. Acho natural chorar trabalhando, hoje em dia nem sei como seria de outro jeito (risos). J\u00e1 tive muitos momentos de ter que parar por dois dias s\u00f3 para ficar fazendo coisas menos desesperadoras para conseguir seguir adiante. Isso rola muito. Mas at\u00e9 nos trabalhos que parecem ser super solares, como foi o caso da Elke, no fim t\u00eam um lado obscuro. Ent\u00e3o talvez seja onde meu olho pouse sem eu ter controle. A Elke morreu \u00e0 m\u00edngua em um apartamento cheio de lixo, e foi uma pessoa que revolucionou o entretenimento. Acho que talvez eu tenha um pendor para ir em dire\u00e7\u00e3o a coisas n\u00e3o bonitas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea se definiu como \u201ctorpe\u201d, no sentido que n\u00e3o analisa sobre aquilo que escreve&#8230;<\/strong><br \/>(interrompendo) Sou tipo um cachorro, vou fazendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8230; mas n\u00e3o tem s\u00f3 o lado pesado. Tem o lado bom, que tamb\u00e9m \u00e9 intenso. \u00c9 not\u00e1vel sua paix\u00e3o pela Elke, assim como seu amor pelo Ricardo e pela V\u00e2nia.<\/strong><br \/>Super.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E se voc\u00ea me permite, \u00e9 not\u00e1vel tamb\u00e9m o amor pela sua m\u00e3e, que tem grande destaque no livro.<\/strong><br \/>(ri muito) Sim, ela \u00e9 protagonista. Pra mim, o t\u00edtulo do livro \u00e9 \u201cRicardo, V\u00e2nia e Isabel\u201d. Eu t\u00f4 s\u00f3 de espectador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bem, digo tudo isso porque os manuais de reda\u00e7\u00e3o defendem uma separa\u00e7\u00e3o entre jornalista e personagem que a gente sabe ser invi\u00e1vel na pr\u00e1tica. Essa separa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais um ponto de refer\u00eancia que algo exequ\u00edvel. Mas n\u00e3o chega uma hora onde fica dif\u00edcil escrever sobre essas figuras justamente por ter esse afeto envolvido?<\/strong><br \/>Seria super um problema, se eu tivesse que biografar algu\u00e9m que eu admirasse muito e essa pessoa estivesse viva e se envolvesse no processo. Nesse caso, n\u00e3o \u201cdaria bom\u201d (risos). N\u00e3o seria legal, n\u00e3o. Mas no caso da Elke, como ela j\u00e1 tinha morrido, j\u00e1 tinha um distanciamento. Eu j\u00e1 tinha tido um contato com ela em vida, porque minha ideia era ter feito uma biografia dela como trabalho de conclus\u00e3o de curso na faculdade. Mas j\u00e1 tinha um distanciamento. Eu n\u00e3o estava l\u00e1 para agradar a Elke, e acho que mesmo com ela viva eu n\u00e3o me importaria. Isso \u00e9 algo que trago dos meus 10 anos de Folha de S\u00e3o Paulo. Ali tem um manual, como voc\u00ea disse, com a premissa de impessoalidade e objetividade. O rep\u00f3rter nunca \u00e9 a not\u00edcia, a m\u00e3e do rep\u00f3rter menos ainda (ri). Essas padroniza\u00e7\u00f5es s\u00e3o importantes e funcionam para muitos tipos de trabalho, mas n\u00e3o para todos. Um livro como o \u201cRicardo e V\u00e2nia\u201d teria sido inviabilizado. \u00c9 que, quando voc\u00ea vai para um trabalho de mais f\u00f4lego, que exige mais envolvimento, acho ingenuidade achar que voc\u00ea vai conseguir se distanciar. Eu convivia com as pessoas que sobreviveram aos crimes dentro da casa da Dom In\u00e1cio de Loyola, nos encontramos umas 20 vezes, troc\u00e1vamos mensagens. Mesmo em um perfil longo que eu fiz sobre a Ana Luiza dos Anjos Garcez, uma corredora de rua conhecida como Animal \u2013 <a href=\"https:\/\/www.buzzfeed.com\/br\/felitti\/a-inacreditavel-vida-de-animal-a-maratonista-que-mora-ha-17\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">foi para o Buzzfeed<\/a>, n\u00e3o chegou a virar livro nem nada \u2013 ela se tornou minha amiga at\u00e9 hoje. Ela foi ao meu casamento! A V\u00e2nia veio [de Paris] para o lan\u00e7amento do livro porque a gente (Chico e sua m\u00e3e) trouxe. \u00c9 o caminho que encontrei. N\u00e3o sei se \u00e9 o caminho aconselhado ou aconselh\u00e1vel (ri), mas \u00e9 o que eu encontrei. Porque eu n\u00e3o precisava bater contin\u00eancia para ningu\u00e9m, sabe? Podia relatar tudo como aconteceu, inclusive meus sentimentos. Porque, se eles eclodem, \u00e9 meu dever de of\u00edcio relat\u00e1-los. Mas eu acho que n\u00e3o daria certo se eu tivesse que fazer sobre algu\u00e9m por quem tenho uma admira\u00e7\u00e3o de entrega, de vida. Se bem que esse \u00e9 um grupo de t\u00e3o poucas pessoas&#8230; (hesita) N\u00e3o sei, Lygia Fagundes Telles, talvez? Se eu fosse fazer uma biografia dela hoje, talvez eu n\u00e3o conseguisse ser o rep\u00f3rter que eu precisaria ser, porque gosto muito dela e talvez quisesse preservar sua imagem. Por outro lado, ter uma personalidade curiosa \u00e9 ter uma personalidade desatenta, ao menos um pouco. Nada prende minha aten\u00e7\u00e3o por muito tempo. Meu foco est\u00e1 ali por um ano, e depois vai mudar, porque vai vir algo novo. \u00c9 natural. Claro, voc\u00ea vai levar aprendizados e pessoas daquilo tudo para o resto da vida, mas n\u00e3o vai viver em fun\u00e7\u00e3o daquilo. N\u00e3o consigo me imaginar passando anos me dedicando \u00e0 hist\u00f3ria da Carmen Miranda, a\u00ed fazendo uma biografia de 700 p\u00e1ginas sobre ela e me tornar \u201co bi\u00f3grafo da Carmen Miranda\u201d para o resto da vida. Eu acho que tenho uma necessidade de passagem, de novidade, que me impedem de ser esse especialista. Eu acho maravilhoso quem faz isso, mas para mim n\u00e3o daria, n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E hist\u00f3rias correlatas semelhantes \u00e0s que voc\u00ea j\u00e1 cobriu, te interessariam? Vamos fazer um exerc\u00edcio de hip\u00f3tese: voc\u00ea se animaria a fazer uma investiga\u00e7\u00e3o sobre o Prem Baba ou o Deva Nishok, outros dois \u201cgurus\u201d acusados de ass\u00e9dio sexual? Claro que a hist\u00f3ria de cada um deles tem sua particularidade, mas em ess\u00eancia, \u00e9 a mesma \u201cpremissa\u201d do Jo\u00e3o de Deus.<\/strong><br \/>Me interessaria, sim! Porque s\u00e3o outras pessoas, e isso muda o contexto totalmente. N\u00e3o que eu v\u00e1 virar setorista de abusos em ambientes m\u00edsticos e religiosos, por mais que eu ache que isso \u00e9 um grande tema desses tempos em que a gente vive, ent\u00e3o precisamos desses setoristas (risos). Mas sei l\u00e1&#8230; Estou fazendo outra hist\u00f3ria sobre Centro de S\u00e3o Paulo marginalizado, sobre a qual n\u00e3o posso adiantar muito ainda. Mas j\u00e1 conclu\u00ed o livro, e foi uma investiga\u00e7\u00e3o que passou por v\u00e1rias coisas inacredit\u00e1veis. \u201cRicardo e V\u00e2nia\u201d tamb\u00e9m \u00e9 uma hist\u00f3ria de um Centro de SP marginalizado, anos 70, 80, 90. Vale para esse livro que eu terminei agora. Depois de muito tempo, eu consegui entender que as hist\u00f3rias [desses dois livros] s\u00e3o diferentes. Se a hist\u00f3ria \u00e9 boa e \u00e9 aut\u00f4noma, vale fazer um novo livro, n\u00e3o tem porque ficar \u00e0 espera de um tema totalmente novo e diverso do livro anterior. \u00c9 um preconceito achar o contr\u00e1rio. Claro, d\u00e1 um medo de virar uma pessoa de uma tecla s\u00f3, mas esse medo vem de um preconceito de achar que esses universos s\u00e3o restritos. Na verdade, eles guaram um milh\u00e3o de hist\u00f3rias boas. Acho que estou nesse momento de liberta\u00e7\u00e3o, de entender que se aparecer mais uma hist\u00f3ria desse universo LGBTQA+ marginalizado que tenha se passado em S\u00e3o Paulo, eu vou fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea sempre se apresentou, assumidamente, como um jornalista e uma pessoa do universo LGBTQA+. Por\u00e9m, n\u00e3o encontrei em nenhum dos seus textos o recorte de uma microrrepresentatividade. O [historiador e escritor ingl\u00eas] Tony Judt defendia que as representa\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de minoras foram perdendo o car\u00e1ter coletivo para se tornarem microidentit\u00e1rias, e com isso criavam \u201ccasinhas\u201d onde, em vez de propor solu\u00e7\u00f5es de uni\u00e3o e respeito, acabava criando mais diferen\u00e7as. \u00c9 algo que voc\u00ea tende a concordar? E como voc\u00ea cuida para que seus textos n\u00e3o resvalem para esse lado?<\/strong><br \/>Acho que vem muito do recorte. Eu s\u00f3 consigo contar os acontecimentos como eles s\u00e3o ou como eles foram, e a realidade n\u00e3o \u00e9 microssegmentada e hiperdividida. A realidade \u00e9 um bolol\u00f4, n\u00e9? (ri) \u00c9 uma loucura, ela est\u00e1 muito al\u00e9m da nossa capacidade de divis\u00e3o e descri\u00e7\u00e3o. Pegando um exemplo literal: eu escrevi nesse \u00faltimo livro sobre uma travesti que nasceu socialmente considerada menino, transicionou para a mulher que era, fez outra transi\u00e7\u00e3o para homem e depois transicionou novamente para mulher. Olha como isso \u00e9 complexo! Em que gavetinha voc\u00ea vai colocar isso? Talvez eu me atraia pelas hist\u00f3rias que s\u00e3o mais dif\u00edceis de classificar mesmo, e que por isso gerem um contexto maior. Permite ver mais da realidade. O mundo \u00e9 muito mais complexo, n\u00e3o d\u00e1 para falar de uma causa s\u00f3, s\u00e3o muitas for\u00e7as operando, as incoer\u00eancias se mostram na pr\u00e1tica. Eu entendo a necessidade de uma milit\u00e2ncia mais te\u00f3rica, mas a realidade s\u00e3o outros quinhentos. O mundo \u00e9 um sarapatel maluco de tudo o que existe, e \u00e9 muito dif\u00edcil de botar em gavetinhas. Por isso, idealmente prefiro mostrar o que foi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Brasil tem uma escola pr\u00f3pria de jornalismo liter\u00e1rio, ou ainda somos muito devedores ao modelo do new journalism? Ou, mais ainda, nossa produ\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o pequena que n\u00e3o d\u00e1 nem para identificar um padr\u00e3o? (risos)<\/strong><br \/>Acho que tem muita gente que faz muita coisa boa, autoral, aut\u00eantica. O problema \u00e9 que, para ter uma escola, tanto estil\u00edstica quanto institucionalmente, precisar\u00edamos ter meios. Precisar\u00edamos ter gente ganhando dinheiro para produzir, ter uma possibilidade de carreira com isso. E t\u00e3o poucas pessoas conseguem viver da escrita de n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o. Tanta gente boa, e mesmo assim dificilmente conseguem viver disso, quanto mais ter um volume de trabalho para fazer uma escola. A impress\u00e3o que d\u00e1 \u00e9 que s\u00e3o duas d\u00fazias de gatos pingados. \u00c9 gente que eu venero, que manda muito bem, com um trabalho que n\u00e3o faria vergonha em lugar algum, mas que \u00e9 um rol\u00e9. T\u00e1 todo mundo lutando. Voc\u00ea pega outros pa\u00edses, com imprensa mais estabelecida e um mercado editorial mais s\u00f3lido e capilarizado, as pessoas conseguem viver disso, conseguem tocar grandes projetos. Acho dif\u00edcil analisar nossa produ\u00e7\u00e3o de jornalismo liter\u00e1rio sem deixar de levar em conta os meios de produ\u00e7\u00e3o. Como o maluco vai fazer um livro que vai consumir dois anos de trabalho se ele vai ser pago no m\u00e1ximo o equivalente a tr\u00eas meses de sal\u00e1rio para isso? O cara n\u00e3o vai conseguir comer! Conhe\u00e7o muitos livros \u00f3timos que n\u00e3o foram escritos por causa disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Trabalhos como o seu trazem essa atitude de olhar para o diferente com acolhimento, n\u00e3o com julgamento ou condescend\u00eancia. Estamos em um momento onde estamos propensos a ouvir que as diferen\u00e7as n\u00e3o importam tanto, ou estamos t\u00e3o cegos de \u00f3dio que nossos ouvidos est\u00e3o fechados para isso?<\/strong><br \/>Primeiro, a vers\u00e3o \u201ccopo meio vazio\u201d: o alcance de um trabalho desse \u00e9 limitad\u00edssimo. Tende a chegar apenas a pessoas que pensam mais ou menos parecido, pessoas que t\u00eam no\u00e7\u00f5es humanistas e acreditam em coisas abstratas como direitos humanos. A vers\u00e3o \u201ccopo meio cheio\u201d \u00e9 achar que o \u00f3dio est\u00e1 t\u00e3o ferrenho, a falta de aceita\u00e7\u00e3o t\u00e1 t\u00e3o intensa, que vai haver um movimento contr\u00e1rio para repelir isso. Acreditar que muita gente vai se distanciar disso nos pr\u00f3ximos anos quando entender que o \u00f3dio \u00e9 nocivo, que a segrega\u00e7\u00e3o de qualquer forma \u00e9 nociva. Que a escolha de um grupo para ser superior \u00e9 a base dos maiores erros que a humanidade j\u00e1 cometeu. Muita gente vai descer desse barco porque a hist\u00f3ria \u00e9 c\u00edclica. Estamos em um momento de horror, de muita escurid\u00e3o, e em um momento essa esfenoide vai come\u00e7ar a subir. A gente est\u00e1 entendendo aos poucos.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"RICARDO E V\u00c2NIA - Entrevista com o autor Chico Felitti\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/lhEBA4nygSU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Estante Entrevista: Como os livros-reportagem preservam a hist\u00f3ria?, por Chico Felitti\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ezchnU_EhnY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Podcast Quarta Capa (TP01) #06 \u2013 A Casa, uma cidade e seus segredos\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Vf-fv3jhF0I?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) \u00e9 produtor e assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/05\/03\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Um bate papo imperd\u00edvel com o autor de \u201cA casa \u2014 A hist\u00f3ria aterradora da seita de Jo\u00e3o de Deus\u201d, \u201cRicardo e V\u00e2nia \u2014 O maquiador, a garota de programa, o silicone e uma hist\u00f3ria de amor\u201d (ambos pela editora Todavia) e do audiolivro \u201cMulher Maravilha\u201d&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/05\/17\/entrevista-chico-felitti\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":60969,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60968"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=60968"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60968\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":60971,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60968\/revisions\/60971"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/60969"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=60968"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=60968"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=60968"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}