{"id":6080,"date":"2010-10-07T20:04:46","date_gmt":"2010-10-07T23:04:46","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=6080"},"modified":"2010-11-02T15:37:26","modified_gmt":"2010-11-02T18:37:26","slug":"cinema-comer-rezar-amar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/10\/07\/cinema-comer-rezar-amar\/","title":{"rendered":"Cinema: Comer, Rezar, Amar"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-6081 aligncenter\" title=\"eatpraylove\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/eatpraylove.jpg\" alt=\"\" width=\"248\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/eatpraylove.jpg 248w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/eatpraylove-212x300.jpg 212w\" sizes=\"(max-width: 248px) 100vw, 248px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\">Marcelo Costa<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea j\u00e1 quebrou a cara no amor, caro leitor? Para quem respondeu sim, um exerc\u00edcio: multiplique a dor desta vez que voc\u00ea quebrou a cara em um relacionamento por&#8230; sete. Dolorido, n\u00e9. E depois de quebrar a cara tantas vezes \u2013 ou em longos namoros, o que fazer da vida quando se descobre que voc\u00ea continua fazendo tudo errado? Resposta f\u00e1cil: come\u00e7ar de novo \u2013 do zero. Ou, como diria um velho samba, \u201clevanta, sacode a poeira e d\u00e1 a volta por cima\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 esse lema que a mezzo jornalista, mezzo escritora Elizabeth Gilbert emprega em \u201cComer, Rezar, Amar\u201d, livro que se tornou best seller ao contar a hist\u00f3ria da mulher que, ao sair de um casamento infeliz, se v\u00ea afogada em mais um relacionamento infeliz, decide largar tudo e se dedicar aos prazeres e as descobertas da vida em uma viagem por tr\u00eas pa\u00edses: It\u00e1lia, \u00cdndia e Indon\u00e9sia (\u00e9 poss\u00edvel que ela tenha escolhido mais pelo dicion\u00e1rio do que pelos dotes de cada lugar, mas tudo bem).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O t\u00edtulo do livro \u2013 agora filme \u2013 \u00e9 explicativo: em um pa\u00eds ela se entrega aos prazeres da boa mesa, em outro \u00e0 dificuldade da religi\u00e3o e, no terceiro, ao amor (sentiu o gosto do a\u00e7\u00facar?). Em uma \u00e9poca em que as com\u00e9dias rom\u00e2nticas parecem estar condenadas ao limbo da repeti\u00e7\u00e3o, \u201cComer, Rezar, Amar\u201d insere alguns elementos extras \u00e0 trama \u2013 nada que v\u00e1 fazer Billy Wilder sorrir no t\u00famulo \u2013 tentando se diferenciar das dezenas de clones de \u201cHarry e Sally\u201d que chegam aos cinemas. E consegue? N\u00e3o. Ou quase.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo no come\u00e7o da trajet\u00f3ria tur\u00edstica de Liz (Julia Roberts) temos bons momentos ancorados na com\u00e9dia de costumes. Ela est\u00e1 na It\u00e1lia, aprendendo a l\u00edngua italiana, comendo massa e engordando. Conselho de mesa de boteco detectado: \u201cA cal\u00e7a n\u00e3o fecha\u201d, diz uma nova amiga sueca. \u201cCompre um n\u00famero maior. Nenhum homem liga para as gordurinhas. Eles n\u00e3o v\u00e3o mandar voc\u00ea embora assim que voc\u00ea tirar a roupa. Eles sabem que tiraram a sorte grande\u201d, filosofa Liz. Tem l\u00e1 sua raz\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Roma, com bel\u00edssima fotografia externa e exagerada op\u00e7\u00e3o por closes nos atores, Liz forma um grupo de amigos, n\u00e3o pega ningu\u00e9m, mas come muita, muita massa. Dali ela parte para a \u00cdndia, onde pretende se dedicar a medita\u00e7\u00e3o e segue depois para Bali, para reencontrar um xam\u00e3 que havia previsto todo o desastre por qual ela passaria (o div\u00f3rcio em que ela sairia sem um tost\u00e3o, o retorno \u00e0 Indon\u00e9sia e a decantada volta por cima) e tamb\u00e9m o amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Historinha bonitinha (e ordin\u00e1ria) com pontadas de ironia (no primeiro momento em que se sente perdida ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o, Liz se afunda na se\u00e7\u00e3o de auto-ajuda de uma livraria e sai de l\u00e1 com \u201cQuem Mexeu no Meu Queijo\u201d, cl\u00e1ssico da literatura motivacional e atentado ao bom gosto liter\u00e1rio com pena variando entre pris\u00e3o perpetua e cadeira el\u00e9trica), \u201cComer, Rezar, Amar\u201d trope\u00e7a nos clich\u00eas. Os elementos extras n\u00e3o salvam o formato batido, pois o diretor Ryan Murphy trata o material com pouco caso, tornando o filme insosso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ok, vale tirar um pouco do peso das costas do diretor: a culpa \u00e9 mais do material original do que do roteiro complacente, que o conformismo com que Ryan filma a hist\u00f3ria corrobora. O personagem Elizabeth Gilbert \u00e9 caricato ao extremo, e os momentos em que o filme respira resultam de piadas, cita\u00e7\u00f5es ou mesmo da fotografia de lugares que n\u00e3o fazem partem dela. Toda beleza da parte indiana, por exemplo, reside mais na for\u00e7a da religi\u00e3o do que na incompet\u00eancia de Liz de se entregar a ela e\/ou entend\u00ea-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A falta de profundidade do personagem reflete (claro) no filme e o efeito ralo que proporciona sugere um ato de coragem da jornalista Elizabeth, que desnuda o vazio de sua alma n\u00e3o s\u00f3 para a literatura, mas tamb\u00e9m para Hollywood, como se levantasse uma bandeira (de certo modo valorizando a apatia) cujo lema poderia ser \u201ceu sou simpl\u00f3ria assim e me orgulho disso\u201d. Tem l\u00e1 o seu valor, mas \u00e9 pouco (muuuito pouco) para 2 horas e 13 minutos de pel\u00edcula.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Julia Roberts est\u00e1 ok e pode at\u00e9 conseguir uma indica\u00e7\u00e3o ao Oscar (Globo de Ouro \u00e9 f\u00e1cil) pelo papel, mas n\u00e3o \u00e9 a Julia voluptuosa de \u201cO Casamento do Meu Melhor Amigo\u201d, \u201cErin Brockovich\u201d, \u201cNoiva em Fuga\u201d, \u201cUm Lugar Chamado Notting Hill\u201d e \u201cDossi\u00ea Pelicano\u201d, em que com um sorriso j\u00e1 despeda\u00e7ava cora\u00e7\u00f5es. O processo de emagrecimento ap\u00f3s a gravidez (e, talvez, alguma pl\u00e1stica) lhe tirou boa parte do brilho. Em algumas cenas ela chega a parecer uma Meryl Streep de terceira categoria e em outras uma Sarah Jessica Parker ap\u00f3s cinco dias chorando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Javier Bardem est\u00e1 impag\u00e1vel em um papel que muita gente n\u00e3o toparia fazer: um brasileiro sentimental cuja primeira frase no filme \u00e9 \u201ceu gosto de gravar fitas k7 com m\u00fasicas de Phil Collins e Air Suplay\u201d. Seu portugu\u00eas macarr\u00f4nico s\u00f3 constrange, mas cabe perfeitamente no papel \u2013 e no filme e na vida de Elizabeth. Por fim, a trilha sonora clich\u00ea tem Neil Young, Eddie Vedder, Jo\u00e3o e Bebel Gilberto, Marvin Gaye e, a \u00fanica surpresa, Josh Rouse. S\u00e3o can\u00e7\u00f5es bonitas que no filme parecem embalar um cart\u00e3o postal, e n\u00e3o uma cena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eis o grande problema de \u201cComer, Rezar, Amar\u201d: \u00e9 um filme brega porque Elizabeth \u00e9 brega. N\u00e3o h\u00e1 surpresa, n\u00e3o h\u00e1 incomodo, n\u00e3o h\u00e1 pontadas de adaga no peito do espectador. \u201cComer, Rezar, Amar\u201d \u00e9 banal e pode ser encarado como um filme tur\u00edstico, em que uma pessoa com a vida encaminhada profissionalmente e desajustada particularmente tenta descobrir o melhor de tr\u00eas pa\u00edses (e tudo que ela ir\u00e1 mostrar deste melhor voc\u00ea j\u00e1 conhece, caro leitor) enquanto tenta descobrir quem mexeu em seu queijo. Se os problemas do mundo se resumissem a isso&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-6082 aligncenter\" title=\"eatpraylove2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2010\/10\/eatpraylove2.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"454\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Marcelo Costa\nVoc\u00ea j\u00e1 quebrou a cara no amor, caro leitor? 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