{"id":60728,"date":"2021-04-22T22:27:56","date_gmt":"2021-04-23T01:27:56","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=60728"},"modified":"2021-05-23T03:21:42","modified_gmt":"2021-05-23T06:21:42","slug":"entrevista-tinto-tango-reverencia-piazzolla-em-disco-de-estreia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/04\/22\/entrevista-tinto-tango-reverencia-piazzolla-em-disco-de-estreia\/","title":{"rendered":"Entrevista: Tinto Tango reverencia Piazzolla em disco de estreia"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Vinhas<\/a>\u00a0<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Astor Piazzolla est\u00e1 para o tango assim como John Coltrane est\u00e1 para o jazz. Ambos foram revolucion\u00e1rios, fizeram seus respectivos g\u00eaneros evoluir, e se n\u00e3o s\u00e3o o referente mais pop de seus universos musicais, certamente s\u00e3o os mais respeitados. Assim, revisitar a obra de qualquer um deles n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil. O placar j\u00e1 come\u00e7a desfavor\u00e1vel pelo peso da obra original. Isso n\u00e3o intimidou a <a href=\"https:\/\/www.tintotango.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tinto Tango<\/a>, banda argentina baseada em Los Angeles, que acaba de lan\u00e7ar um \u00e1lbum totalmente dedicado \u00e0 obra do mestre argentino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<a href=\"https:\/\/www.tintotango.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tinto Tango Plays Piazzolla<\/a>\u201d \u00e9 um disco de homenagem, sim, mas n\u00e3o deixa de ser uma ousadia. Ainda mais quando se nota a presen\u00e7a de Rafa Sardina no comando da mesa. O produtor e engenheiro basco-americano tem uma carreira notabilizada por refor\u00e7ar a sonoridade de artistas dados \u00e0 grandiloqu\u00eancia e ao espet\u00e1culo, como Lady Gaga, Mariah Carey e Celine Dion. Por outro lado, tamb\u00e9m j\u00e1 trabalhou com Stevie Wonder, Dr. Dre e Ladysmith Black Mambazo, entre outros, dando a entender que o groove n\u00e3o passa longe de seu radar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00e1lbum do quinteto argentino (que conta, no disco, com a participa\u00e7\u00e3o de outros tr\u00eas m\u00fasicos) transita entre esses dois mundos \u2013 nem sempre com sucesso, \u00e9 preciso dizer. Em alguns momentos, as frequ\u00eancias altas e a produ\u00e7\u00e3o \u201cplatinizada\u201d roubam as sutilezas das composi\u00e7\u00f5es de Piazzolla, enquanto em outras, percebe-se um bem-vindo aceno a uma sonoridade moderna. Mariano Dugatkin, bandeonista e diretor musical do Tinto Tango, n\u00e3o se esquivou das perguntas diretas que o Scream &amp; Yell lhe fez e explicou, com gentileza e argumentos, a ousadia e as escolhas est\u00e9ticas do disco de seu conjunto. Um papo cabe\u00e7a e interessante, que voc\u00ea confere a seguir.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Libertango - Piazzolla\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/yeLL2lYD-tE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tinto Tango sempre busca suas can\u00e7\u00f5es nos mestres do tango, e agora focou naquele que talvez seja o maior de todos, Astor Piazzolla. O que voc\u00eas pretendem somar \u00e0 obra dele? Ou a ideia \u00e9 mais uma homenagem mesmo?<\/strong><br \/>\nEste disco representa um ponto de chegada para a gente. V\u00ednhamos tocando a m\u00fasica de Piazzolla h\u00e1 nove anos, e com uma sonoridade consolidada, decidimos encarar a grava\u00e7\u00e3o do disco com o objetivo de deixar impressa nossa pr\u00f3pria personalidade interpretativa. O que quero dizer com isto \u00e9 que a ideia \u00e9 apresentar a obra de Astor com nossa gestualidade, nossos tra\u00e7os, cuidando da express\u00e3o de sua m\u00fasica ao mesmo tempo que a tornamos nossa. Entre os elementos que agregamos, est\u00e1 a inclus\u00e3o da bateria, por exemplo. Ainda que Astor tenha utilizada a percuss\u00e3o em muitas de suas diferentes forma\u00e7\u00f5es, esse n\u00e3o foi um elemento que prevalece em seus quintetos. Em nossas vers\u00f5es, com o grande Oscar Giunta na bateria, conseguimos que a percuss\u00e3o n\u00e3o invada e que, ao mesmo tempo, cumpra um papel que v\u00e1 al\u00e9m de remarcar, sublinhar o groove, conseguindo assim que ela se integre como mais uma voz do conjunto. Foi por isso que decidi somar a bateria s\u00f3 depois que tiv\u00e9ssemos terminado de gravar com o quinteto, para que ela n\u00e3o nos contagiasse nem se impusesse com seu papel habitual de hierarquizar o groove. Esse foi nosso jeito de cuidar para que mantivesse uma sonoridade mais camarista, com a qualidade \u00edntima de gestualidades sutis. E para esclarecer: quando falo de gestualidade, me refiro aos tra\u00e7os expressivos, \u00e0s mudan\u00e7as de tempo, din\u00e2micas, car\u00e1ter, a express\u00e3o em geral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O tango se encontra hoje entre os g\u00eaneros que s\u00e3o mais reverentes aos cl\u00e1ssicos. Quem busca inovar costuma recorrer \u00e0 mistura com outros estilos, como as bandas de tango eletr\u00f4nico, ou dar uma interpreta\u00e7\u00e3o diferente, como a Orquesta T\u00edpica Fernandez Fierro. Onde o Tinto Tango se encontra nesse panorama?<\/strong><br \/>\n[O compositor Arnold] Sch\u00f6enberg se referia ao \u201cnovo\u201d com o conceito de progresso, considerando que este devia ser o objetivo de toda investiga\u00e7\u00e3o. Para ele, o novo seria imprevis\u00edvel, e n\u00e3o significava a destrui\u00e7\u00e3o do antigo, porque considerava que no passado se encontraria o germe do futuro. Por isso ele dava tanta relev\u00e2ncia \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o. Esse disco \u00e9 um ponto de chegada, como eu disse, mas tamb\u00e9m representa um ponto de partida para novas cria\u00e7\u00f5es. Temos inten\u00e7\u00e3o de gravar material pr\u00f3prio, todos os integrantes s\u00e3o compositores. Tivemos a necessidade de materializar nesses dois discos a obra de Piazzolla que costumamos executar em nossos concertos. \u201cTinto Tango plays Piazzolla\u201d \u00e9 o primeiro, o pr\u00f3ximo \u00e1lbum ser\u00e1 editado no ano que vem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O fato de estarem baseados nos EUA os coloca frente a um p\u00fablico para quem o tango \u00e9 algo distante, diferente, curioso. Diante disso, o que voc\u00eas fazem para evitar a armadilha de se apresentar como &#8220;ex\u00f3ticos&#8221; ou &#8220;world music&#8221;?<\/strong><br \/>\nOs Estados Unidos s\u00e3o um pa\u00eds muito grande e ecl\u00e9tico. Ambas as costas \u2013 do Atl\u00e2ntico e do Pac\u00edfico \u2013 vivem realidades culturais muito diferentes do resto do pa\u00eds, e ainda assim, cada uma delas t\u00eam muita diversidade. Lamentavelmente, entre filmes e dan\u00e7a de sal\u00e3o, o americano m\u00e9dio continua vendo o tango de uma forma um tanto caricaturizada: o cara que leva a mo\u00e7a de uma forma um tanto quanto abrupta e exagerada de um lado pro outro na pista com uma rosa vermelha na boca&#8230; Ainda assim, existem aqueles que gostam de dan\u00e7ar o que aqui chamam de Argentine Tango, que levam isso como uma atividade mais s\u00e9ria, ainda que recreativa. S\u00e3o esses que chegam ao nosso tango. \u00c9 muito bonito ver os gringos disfrutando das composi\u00e7\u00f5es de [Juan] D&#8217;Arienzo e da velha guarda. Mas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00fasica de Astor, Piazzolla n\u00e3o entra nas festas, mas sim nas salas de concertos e no mundo do jazz. Ele conseguiu expandir os padr\u00f5es tradicionais do tango, unindo o g\u00eanero com a m\u00fasica cl\u00e1ssica, com a contempor\u00e2nea, e tamb\u00e9m com o jazz. Ent\u00e3o, para esse reduto cultural que gosta de ir a shows e festivais, a obra de Astor funciona e satisfaz a um grande leque de ouvintes, e consegue cada vez mais adeptos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Contar com Rafa Sardina \u00e9 uma busca consciente por estar mais perto do mainstream ou tem mais a ver com a engenharia de som caracter\u00edstica dele? Ou os dois?<\/strong><br \/>\nO motivo de termos nos aproximado de Rafa Sardina foi a necessidade de contar com uma pessoa experiente que pudesse nos ajudar com o rumo que quer\u00edamos tomar como grupo. Eu dou muito espa\u00e7o para o di\u00e1logo, para o confronto de ideias a favor da constru\u00e7\u00e3o e n\u00e3o para ver quem tem raz\u00e3o. Por isso valorizo ter por perto interlocutores v\u00e1lidos. Nessa situa\u00e7\u00e3o complexa que n\u00f3s, m\u00fasicos, atravessamos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ind\u00fastria da m\u00fasica, contar com um interlocutor como Rafa Sardina foi e continua sendo um verdadeiro luxo. E digo isto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s m\u00faltiplas capacidades e virtudes que ele tem, tanto do ponto de vista acad\u00eamico como da experi\u00eancia no ramo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O disco tem um som \u201ccheio\u201d, bem adequado para a compress\u00e3o de \u00e1udio das plataformas de streaming. Ainda assim, o tango traz uma audiofilia anal\u00f3gica. Mudar para esse padr\u00e3o de registro mais moderno \u00e9 uma mudan\u00e7a necess\u00e1ria para as novas grava\u00e7\u00f5es do g\u00eanero, ou \u00e9 apenas a op\u00e7\u00e3o est\u00e9tica escolhida para o \u00e1lbum?<\/strong><br \/>\nA sonoridade final \u00e9 um dos elementos que fazem parte da nossa interpreta\u00e7\u00e3o e da nossa gestualidade. Para a mixagem desse disco eu convoquei Mariano Bilinkis, que \u00e9 um engenheiro de som talentos\u00edssimo, com a particularidade de ser especializado em rock. Ele gravou e mixou [as bandas argentinas] Las Pelotas, Catupecu Machu, Divididos, entre v\u00e1rios outros. Por isso, quando encarei a mixagem, falei com ele sobre estas qualidades da obra de Astor que mencionava antes: que Piazzolla construiu pontes entre o tango e a m\u00fasica cl\u00e1ssica, a m\u00fasica contempor\u00e2nea, o jazz e a can\u00e7\u00e3o. Diante desse combo todo de estilos, a inten\u00e7\u00e3o era que ao final cheg\u00e1ssemos a uma proposta de \u00e1udio pr\u00f3xima do jazz, por\u00e9m com uma pincelada roqueira.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Libertango - Tinto Tango plays Piazzolla Album\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/SpInm7yk_oI?list=PLHE3-vmRwVKKzCIPOZmqzbRZZVdRQmUxV\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) \u00e9 produtor e assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/05\/03\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Mariano Dugatkin, bandeonista e diretor musical do Tinto Tango, n\u00e3o se esquivou das perguntas diretas que o Scream &#038; Yell lhe fez e explicou, com gentileza e argumentos, a ousadia e as escolhas est\u00e9ticas do disco de seu conjunto\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/04\/22\/entrevista-tinto-tango-reverencia-piazzolla-em-disco-de-estreia\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":60729,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[5130,45,5129],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60728"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=60728"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60728\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":60730,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60728\/revisions\/60730"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/60729"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=60728"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=60728"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=60728"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}