{"id":60699,"date":"2021-04-18T01:53:58","date_gmt":"2021-04-18T04:53:58","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=60699"},"modified":"2021-07-01T04:20:47","modified_gmt":"2021-07-01T07:20:47","slug":"entrevista-orlando-senna-lara-belov-e-jamille-fortunato-falam-sobre-o-amor-dentro-da-camera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/04\/18\/entrevista-orlando-senna-lara-belov-e-jamille-fortunato-falam-sobre-o-amor-dentro-da-camera\/","title":{"rendered":"Entrevista: Orlando Senna, Lara Belov e Jamille Fortunato falam sobre &#8220;O Amor Dentro da C\u00e2mera&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A casa nos convida a entrar e a se sentir \u00e0 vontade e confort\u00e1veis. Aconchegante, a luz do sol toca os c\u00f4modos do mesmo modo vagaroso como nossos olhos tocam aquele ambiente anfitri\u00e3o de boas-vindas. As paredes, com quadros, livros e mem\u00f3rias vivas, nos abra\u00e7am. Mem\u00f3rias vivas, ali\u00e1s, define o car\u00e1ter tenro como as lembran\u00e7as afetivas de duas almas g\u00eameas ser\u00e3o desnudadas e compartilhadas com a audi\u00eancia. Tempo e mem\u00f3ria. Tempo n\u00e3o linear, mas circular, como define Orlando Senna ao falar de sua rela\u00e7\u00e3o com a passagem dos anos. Passar das d\u00e9cadas que \u00e9 ilustrado pela lente das diretoras Lara Beck Belov e Jamille Fortunato, que, a partir da rotina de Concei\u00e7\u00e3o Senna e seu companheiro de vida, surge em uma colagem de momentos marcantes em fotos antigas. Registros que destacam a cumplicidade de ambos tanto no aspecto pessoal, quanto dentro da identidade de cinema brasileiro que ajudaram a construir. \u00c9 nesta brecha que revive momentos que adentramos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando Senna, ao aprofundar essa impress\u00e3o do transcorrer do tempo como um modo circular de passagem, relembra um momento familiar. &#8220;No \u00faltimo almo\u00e7o que tive com minha m\u00e3e, pouco antes dela morrer h\u00e1 alguns anos, quando est\u00e1vamos todos festejando seu anivers\u00e1rio, ela disse, de repente: &#8216;A vida \u00e9 curta.&#8217; E a\u00ed, imediatamente, ela repensou e disse: &#8216;Ali\u00e1s, n\u00e3o. A vida n\u00e3o \u00e9 curta. A vida \u00e9 longa, mas \u00e9 muito veloz.&#8217; \u00c9 essa sensa\u00e7\u00e3o que eu tenho com rela\u00e7\u00e3o ao tempo. \u00c9 que ele \u00e9 de uma velocidade incr\u00edvel para a gente. Jovens n\u00e3o notam isso, por exemplo. Para os jovens, o tempo \u00e9 uma coisa que tem uma velocidade, digamos, normal&#8221;, explica o cineasta, \u00e0s v\u00e9speras de completar 81 anos de idade, no pr\u00f3ximo 25 de abril.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O document\u00e1rio \u201cO Amor Dentro da C\u00e2mera\u201d (2021) permite essa constata\u00e7\u00e3o de uma maneira cuja velocidade citada por Orlando se faz percept\u00edvel, mas a placidez com que a audi\u00eancia absorve tal trajet\u00f3ria, nos momentos de revisitas pelo pr\u00f3prio casal, suaviza tal fugacidade dos anos. Orlando e Concei\u00e7\u00e3o Senna se conheceram em 1961, quando ele gravava seu primeiro curta-metragem, \u201cFeira\u201d. A paix\u00e3o imediata os levou a uma vida juntos e nela participaram de movimentos como o Cinema Novo, o Cinema Marginal e o Nuevo Cinema Latino Americano. Cultivaram amizades com nomes como Fernando Birri e Gabriel Garcia Marques, com quem Orlando co-fundou a Escola de Cinema de Cuba, da qual foi diretor. Nos anos 1970, Orlando co-dirigiu, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/03\/07\/entrevista-jorge-bodanzky-fala-sobre-a-serie-transamazonica-uma-estrada-para-o-passado-hbo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ao lado de Jorge Bodanzky<\/a>, \u201cIracema &#8211; Uma Transa Amaz\u00f4nica\u201d, al\u00e9m de \u201cGitirana\u201d, outro marco. Concei\u00e7\u00e3o atuou em obras fundamentais do cinema baiano, como \u201cO Drag\u00e3o da Maldade Contra o Santo Guerreira\u201d, de Glauber Rocha, e \u201c<a href=\"http:\/\/pelicula-virtual.blogspot.com\/2018\/06\/cine-op-comeca-amanha-em-outro-preto-mg.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Caveira my Friend<\/a>\u201d, de \u00c1lvaro Guimar\u00e3es. Como diretora, <a href=\"http:\/\/pelicula-virtual.blogspot.com\/2018\/08\/ultimo-filme-de-conceicao-senna-sera.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">tem tr\u00eas document\u00e1rios na sua filmografia<\/a>, al\u00e9m de dois livros, tendo atuado, tamb\u00e9m, como apresentadora na TV de Cuba, al\u00e9m de lecionado na escola cubana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concei\u00e7\u00e3o Senna, infelizmente, faleceu em maio do ano passado, <a href=\"http:\/\/pelicula-virtual.blogspot.com\/2020\/05\/o-adeus-conceicao-senna.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aos 83 anos<\/a>. Com sua partida, o filme de Lara e Jamille passa a carregar ainda mais import\u00e2ncia como registro de momentos que se tornaram os \u00faltimos da atriz e diretora captados por uma c\u00e2mera. Em um deles que, por conta dessas coincid\u00eancias inexplic\u00e1veis, se tornou o \u00faltimo registro tanto de todo o processo de produ\u00e7\u00e3o quanto a \u00faltima cena na montagem final do longa, o casal se abra\u00e7a, sentados no sof\u00e1 de sua casa, pouco depois de Concei\u00e7\u00e3o brincar sobre a sensa\u00e7\u00e3o de, &#8220;como peteca&#8221;, ser jogada para o passado e para o futuro em sua trajet\u00f3ria de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Orlando, revisitar, sem Concei\u00e7\u00e3o ao seu lado, \u201cO Amor Dentro da C\u00e2mera\u201d foi uma tarefa dif\u00edcil, mas que ele, ap\u00f3s um tempo, conseguiu fazer. &#8220;S\u00e3o as artimanhas da vida que constroem isso na gente. No in\u00edcio, logo quando ela se foi, eu n\u00e3o conseguia nem ver o filme, porque me emocionava muito. Mas agora eu j\u00e1 posso v\u00ea-lo com tranquilidade. E exatamente essa cena&#8230; N\u00e3o s\u00f3 a cena, mas tamb\u00e9m essa informa\u00e7\u00e3o que est\u00e1 no filme. Informa\u00e7\u00e3o que est\u00e1 l\u00e1 de uma maneira muito sutil. No momento em que ela aparece, agora que eu j\u00e1 consegui ver o filme sem toda a melancolia em cima de mim, eu acho uma coisa muito bonita que tenha acontecido. Principalmente isso (de ser) a \u00faltima cena do filme, a \u00faltima cena gravada, a \u00faltima cena da vida dela,&#8221; salienta Orlando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO Amor Dentro da C\u00e2mera\u201d passou por um processo de constru\u00e7\u00e3o delicado at\u00e9 se consolidar como um trabalho que capta com esmero a intimidade e a cumplicidade de seus protagonistas. Contemplado pelo edital Rumos Ita\u00fa Cultural, o filme recebeu Men\u00e7\u00e3o Honrosa Especial na edi\u00e7\u00e3o desse ano do BAFICI. Mas quando ainda era apenas um embri\u00e3o, o projeto representou um desafio para Lara e Jamile em se lan\u00e7arem no registro da vida de Concei\u00e7\u00e3o e Orlando. Amigas de longa data do casal, elas se propuseram a captar aquela trajet\u00f3ria, mas sabiam que a hist\u00f3ria de ambos (que passou por d\u00e9cadas e diversos pa\u00edses, al\u00e9m de nomes de peso do cinema, literatura e teatro), se seguisse por uma estrutura convencional de document\u00e1rios, poderia se tornar uma tarefa \u00e1rdua e quase imposs\u00edvel de capta\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, tal mergulho em uma hist\u00f3ria de vida t\u00e3o repleta de profundidade poderia trazer para elas, que j\u00e1 tinham uma amizade com ambos, certa inseguran\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jamille explica: &#8220;N\u00f3s nutr\u00edamos a vontade de fazer um filme sobre eles. S\u00f3 que as hist\u00f3rias que ouv\u00edamos dos dois, sab\u00edamos que passavam pela Am\u00e9rica Latina, por outros pa\u00edses, por diversas pessoas e personalidades. Era muita gente e muitos lugares. Fic\u00e1vamos nos perguntando como ir\u00edamos fazer um filme sobre eles tendo que falar com tantas pessoas e ir para tantos lugares. E at\u00e9 que em 2016, ao inv\u00e9s de ficar pensando em como, decidimos come\u00e7ar a fazer. Falamos: \u2018Vamos dar um ponta a p\u00e9 inicial? Acho que quando a gente come\u00e7ar, vamos entender qual filme temos que fazer'&#8221;, relembra a co-diretora e acrescenta: &#8220;(Decidimos) fazer do particular para o geral. Fazer um filme s\u00f3 com eles dois dentro da casa deles. E se formos sair dali, sa\u00edmos atrav\u00e9s de imagem de arquivo, de mem\u00f3ria&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara aborda esse poss\u00edvel sentimento: &#8220;A inseguran\u00e7a faz parte da vida. \u00c9 uma mistura de vontade e medo ao mesmo tempo, mas que, nessa equa\u00e7\u00e3o, a vontade \u00e9 muito maior. Ent\u00e3o, existe um frio na barriga no fazer. Acho que n\u00e3o s\u00f3 no fazer desse filme, mas \u00e9 algo do pr\u00f3prio viver, mesmo. Na vontade de realizar, de fazer algo na vida. E, na vida, decidimos contar a hist\u00f3ria de Concei\u00e7\u00e3o e de Orlando. Essa hist\u00f3ria de amor, essa hist\u00f3ria do cinema. Para mim, uma coisa que sinto, \u00e9 que essa inseguran\u00e7a e esses medos poss\u00edveis foram resolvidos a partir do afeto. A partir do amor. Sinto que, para mim, este foi o caminho de resolver isso&#8221;. Orlando Senna, Lara Beck Belov e Jamille Fortunato conversaram longamente com o Scream &amp; Yell sobre vida, tempo circular e sobre o amor, evidenciado de modo t\u00e3o cativante em \u201cO Amor Dentro da C\u00e2mera\u201d. Confira o papo!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"O AMOR DENTRO DA CAMERA - trailer\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Sqyq9sPlntA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Orlando, o filme de Lara e Jamille abre em um pr\u00f3logo com um belo momento de intimidade entre voc\u00ea e Concei\u00e7\u00e3o, com ela se emocionando ao cantar uma can\u00e7\u00e3o que voc\u00ea comp\u00f4s para ela. Ap\u00f3s vermos diversas fotos da vida em conjunto de voc\u00eas dois e uma montagem com v\u00e1rios trabalhos no cinema, voc\u00ea fala sobre a n\u00e3o linearidade do tempo. Pensando neste aspecto circular do tempo, qual o peso que voc\u00ea sente ao observar a sua trajet\u00f3ria e a de Concei\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da lente de Lara e Jamille em \u201cO Amor Dentro da C\u00e2mera\u201d?<\/strong><br \/>\nOrlando Senna \u2013 No \u00faltimo almo\u00e7o que tive com a minha m\u00e3e, pouco antes dela morrer h\u00e1 alguns anos, quando est\u00e1vamos todos festejando no anivers\u00e1rio dela, ela disse, de repente: &#8220;A vida \u00e9 curta.&#8221; E a\u00ed, imediatamente, ela repensou e disse: &#8220;Ali\u00e1s, n\u00e3o. A vida n\u00e3o \u00e9 curta. A vida \u00e9 longa, mas \u00e9 muito veloz.&#8221; Ent\u00e3o, \u00e9 essa sensa\u00e7\u00e3o que tenho com rela\u00e7\u00e3o ao tempo. \u00c9 que ele \u00e9 de uma velocidade incr\u00edvel para a gente. Jovens n\u00e3o notam isso, por exemplo. Para os jovens, o tempo \u00e9 uma coisa que tem uma velocidade, digamos, normal. Esta velocidade da vida. E n\u00e3o tem nada na frente que possa fazer com que essa velocidade mude ou que as pessoas possam control\u00e1-la. Isso \u00e9 uma vis\u00e3o das pessoas mais jovens. Mas a partir dos 40, 45 anos, eu acho, a gente come\u00e7a a perceber o movimento do tempo. Come\u00e7a a perceber isso, evidentemente, mais do que em qualquer outro lugar ou qualquer outra circunst\u00e2ncia. Come\u00e7a a perceber isso com o andamento da nossa pr\u00f3pria vida. Como, realmente, \u00e9 de uma velocidade inacredit\u00e1vel. Esse \u00e9 o meu sentimento com rela\u00e7\u00e3o ao tempo. E se soma ao que voc\u00ea mencionou, ou seja, que o tempo n\u00e3o \u00e9 uma linha reta. \u00c9 uma circularidade. Isso, tamb\u00e9m, a gente s\u00f3 se d\u00e1 conta com um pouco mais de idade do que quando chegamos \u00e0 maturidade. Quer dizer, quando \u00e9 que se chega \u00e0 maturidade? Dizem que aos 40, realmente. Antigamente, se dizia que se nasce outra vez aos 40 anos. Essa circularidade \u00e9 muito f\u00e1cil de voc\u00ea notar, por exemplo, no que est\u00e1 acontecendo com o Brasil. Se o tempo fosse linear, n\u00f3s n\u00e3o estar\u00edamos dando essa volta aos tempos horrorosos da ditadura militar. N\u00f3s estamos em uma situa\u00e7\u00e3o, inclusive, psicologicamente, pior. Mais amea\u00e7adora do que quando se instalou a ditadura militar, l\u00e1 nos anos 1960. Na ditadura militar, a gente sabia quem era o inimigo, digamos assim. Sabia a quem combater. Sab\u00edamos por quem est\u00e1vamos sendo ca\u00e7ados. Atualmente, quando o tempo deu de novo um dos seus giros, temos outra sensa\u00e7\u00e3o. Uma sensa\u00e7\u00e3o de absoluta inseguran\u00e7a. N\u00e3o sabemos o que vai acontecer amanh\u00e3. N\u00e3o sabemos para onde um governante louco, um governante para quem a vida humana n\u00e3o tem nenhum valor, vai nos levar. Ou seja, mais uma vez, o tempo deu uma de suas voltas, retornando. Mas, claro, esses retornos, essas curvas da vida, a exist\u00eancia de uma maneira geral, elas n\u00e3o se repetem exatamente igual. Cada giro tem a sua caracter\u00edstica, digamos assim. Mas s\u00e3o voltas do tempo. Um vai e volta do tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lara e Jamille, a amizade de voc\u00eas duas com Concei\u00e7\u00e3o e Orlando vem de longa data. Ao sentar-se com eles para propor a ideia do filme, bateu alguma inseguran\u00e7a na necessidade de separar a amizade do \u00eddolo? De pessoas por quem voc\u00eas nutrem uma admira\u00e7\u00e3o gigante como artista, mas que, tamb\u00e9m, s\u00e3o pessoas pr\u00f3ximas em termos de intimidade, de amizade. Houve uma separa\u00e7\u00e3o de voc\u00eas ou alguma inseguran\u00e7a nesse sentido e que acabou sendo superada na produ\u00e7\u00e3o do filme?<\/strong><br \/>\nJamille Fortunato \u2013 Acho que no come\u00e7o, principalmente, sim. N\u00f3s, tanto eu como Lara, j\u00e1 nutr\u00edamos a vontade de fazer um filme sobre eles. S\u00f3 que era assim&#8230; as hist\u00f3rias que ouv\u00edamos e sab\u00edamos dos dois, n\u00f3s sab\u00edamos que passavam pela Am\u00e9rica Latina, por outros pa\u00edses, por diversas pessoas e personalidades. Era muita gente e muitos lugares. E fic\u00e1vamos nos perguntando como ir\u00edamos fazer um filme sobre eles tendo que falar com tantas pessoas e ir para tantos lugares. E at\u00e9 que em 2016, resolvemos, ao inv\u00e9s de ficar pensando em como, decidimos come\u00e7ar fazer. Falamos: &#8220;Vamos dar um ponta a p\u00e9 inicial? Acho que quando a gente come\u00e7ar, vamos entender qual filme temos que fazer&#8221;. E a\u00ed quando fomos conversar com eles, Lara estava morando em Buenos Aires, e eu morava no Pantanal. Ligamos para eles e falamos: &#8220;Podemos ir a\u00ed? Tipo, semana que vem para come\u00e7ar a filmar voc\u00eas?&#8221; Eles disseram as datas, n\u00f3s olhamos as nossas agendas, compramos passagens e fomos para l\u00e1. E nesse primeiro momento ficamos uma semana l\u00e1, filmando e conversando. Neste primeiro momento, n\u00e3o t\u00ednhamos muita coisa definida. O que t\u00ednhamos definido era que, para resolver a nossa situa\u00e7\u00e3o, a nossa quest\u00e3o inicial de como fazer um filme sobre duas pessoas que circularam o mundo e conheceram milhares de pessoas, seria a gente mudar isso. Vamos fazer do particular para o geral. Vamos fazer um filme s\u00f3 com eles dois dentro da casa deles. E se formos sair dali, sa\u00edmos atrav\u00e9s de imagem de arquivo, de mem\u00f3ria. Ent\u00e3o, t\u00ednhamos definido isso antes de ir. E quando chegamos l\u00e1, a princ\u00edpio, a gente tamb\u00e9m tinha essa ideia de que eles que nos ensinaram, de certa maneira, a dar os primeiros passos no cinema. Ent\u00e3o, isso tinha que fazer parte desse processo criativo, tamb\u00e9m. E no come\u00e7o, as imagens que voc\u00ea v\u00ea no filme, em que Concei\u00e7\u00e3o est\u00e1 com o cabelo vermelho, s\u00e3o as imagens de 2016. \u00c9ramos somente eu e Lara fazendo tudo. \u00c1udio, produ\u00e7\u00e3o, dire\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, nesse come\u00e7o, a gente queria que fosse mais esse processo coletivo. N\u00e3o que n\u00e3o tenha sido, entendeu? (risos) N\u00e3o que n\u00e3o tenha sido de certa forma. Mas, no come\u00e7o, a gente abriu mais essa possibilidade. At\u00e9 a gente entender melhor qual caminho gostar\u00edamos de seguir. E depois, em 2018, 2019, voltamos l\u00e1, e abrimos, tamb\u00e9m, para eles, \u00f3bvio. Porque n\u00e3o tem como n\u00e3o abrirmos o espa\u00e7o. E eles foram extremamente generosos todas as vezes. Mas eles come\u00e7aram, tamb\u00e9m, a empurrar, assim, para a gente. &#8220;N\u00e3o. Fa\u00e7am voc\u00eas. Decidam voc\u00eas&#8221;. (risos). Ent\u00e3o, era uma coisa assim, tamb\u00e9m, a gente tentando dirigir, dando espa\u00e7o para eles dirigirem, e eles fingindo para n\u00f3s que a gente estava dirigindo. Tudo certo! (risos gerais).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara Beck Belov \u2013 Respondendo um pouco a essa pergunta e ouvindo a resposta da Jamille, me vieram, tamb\u00e9m, algumas coisas \u00e0 cabe\u00e7a. Tanto em rela\u00e7\u00e3o a isso da inseguran\u00e7a, pela admira\u00e7\u00e3o, quanto passando pelo clich\u00ea e pelo tempo, que foi a pergunta inicial para Orlando. Eu acho que inseguran\u00e7a em fazer algo \u00e9&#8230; (pausa). Com certeza tivemos tamb\u00e9m. A inseguran\u00e7a faz parte da vida. \u00c9 uma mistura de vontade e medo ao mesmo tempo, mas que, nessa equa\u00e7\u00e3o, a vontade \u00e9 muito maior. Ent\u00e3o, existe um frio na barriga no fazer. Acho que n\u00e3o s\u00f3 no fazer desse filme, mas \u00e9 algo do pr\u00f3prio viver, mesmo. Na vontade de realizar, de fazer algo na vida. E, na vida, decidimos contar essa hist\u00f3ria. A hist\u00f3ria de Concei\u00e7\u00e3o e de Orlando. Essa hist\u00f3ria de amor, essa hist\u00f3ria do cinema. Para mim, uma coisa que sinto, \u00e9 que essa inseguran\u00e7a e, tamb\u00e9m, esses medos poss\u00edveis, foram resolvidos a partir do afeto. A partir do amor. Sinto que, para mim, este foi o caminho de resolver isso. E, para mim, Lando e Concei\u00e7\u00e3o, e \u00e9 engra\u00e7ado falar agora nessa entrevista enquanto olho para Orlando, porque, normalmente, falamos e ele n\u00e3o est\u00e1. Mas agora estou falando com voc\u00ea e de voc\u00ea e Concei\u00e7\u00e3o sobre essa inseguran\u00e7a, eu acho que ela foi resolvida a partir do afeto. N\u00e3o sei se Orlando e Concei\u00e7\u00e3o s\u00e3o \u00eddolos, mas s\u00e3o pessoas que me despertaram profundo afeto n\u00e3o s\u00f3 por eles, mas um profundo afeto pela vida. Ent\u00e3o, acho que n\u00e3o relaciono muito com a ideia de \u00eddolos ou \u00eddolas, mas, sim, com pessoas capazes de despertar em mim um profundo amor pelo viver. E que n\u00e3o tem a ver s\u00f3 com cinema. Tem a ver com uma condu\u00e7\u00e3o da vida. Em alguns momentos, inclusive, os feitos, eles eram menos importantes. Eles estavam mais apaziguados. E o que se admirava e compartilhava era o cotidiano do relacionamento. Voc\u00ea se relacionar com o mundo e com as pessoas. Ent\u00e3o, para al\u00e9m do cinema, que aprendi com ambos, existe um aprendizado sobre uma forma de viver. E que \u00e9 um aprendizado que n\u00e3o acaba nunca. E eu acho que o nosso filme entra nesse aprendizado dessa forma de viver. Sempre digo que essa c\u00e2mera entra de uma rela\u00e7\u00e3o que j\u00e1 existia. E essa c\u00e2mera modifica essa rela\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m. E essa rela\u00e7\u00e3o modifica essa c\u00e2mera. Ent\u00e3o, qual seria essa separa\u00e7\u00e3o entre o cinema e a vida? Aquela grande pergunta, n\u00e9? Ent\u00e3o, buscamos fazer um cinema, um filme, que \u00e9 relacional, que \u00e9 da vida, que \u00e9 cotidiano. Que \u00e9 inseguro como a vida, tamb\u00e9m. E \u00e9 afetuoso como querermos que a vida seja. Ent\u00e3o, tem todo esse jogo, acho, dentro dessas nossas escolhas. E uma coisa que eu penso, tamb\u00e9m, em rela\u00e7\u00e3o ao tempo, e que eu sempre agrade\u00e7o, falando desse tempo circular, desse tempo que podem ser muitos tempos, e que cada pessoa adora o tempo de uma forma, \u00e9 que \u00e9 a felicidade de a gente ter se encontrado em uma interse\u00e7\u00e3o de tempos. Orlando fazendo 81, eu com 35, Mille na casa dos seus 30. Que bom que a nossa amizade p\u00f4de se realizar junto com Concei\u00e7\u00e3o e com Orlando em uma interse\u00e7\u00e3o de vida. N\u00f3s justamente nos encontramos nesse tempo. E isso me emociona muito. E me emociona que, com toda essa inseguran\u00e7a, com todos os carinhos e medos, que temos uma hist\u00f3ria que quer\u00edamos fazer. Uma hist\u00f3ria que decidimos contar, mesmo. E tratamos muito nesse caminho, com Orlando e Concei\u00e7\u00e3o, em um jogo de aprendizado, de provoca\u00e7\u00f5es, de aprendizes e mestres, mas tamb\u00e9m de pessoas que se encontraram. Acho que isso \u00e9 o principal.<\/p>\n<figure id=\"attachment_60705\" aria-describedby=\"caption-attachment-60705\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-60705 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Orlando-e-Conceicao-Senna.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Orlando-e-Conceicao-Senna.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Orlando-e-Conceicao-Senna-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-60705\" class=\"wp-caption-text\"><em>Cena de &#8220;O Amor Dentro da C\u00e2mera&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Orlando, para voc\u00ea, ser dirigido por Lara e Jamille, voc\u00ea que tem uma experi\u00eancia extensa como diretor, apesar de j\u00e1 ter sido dirigido, colocando-se agora como a pessoa que est\u00e1 sendo orientada na atua\u00e7\u00e3o, passou pela sua cabe\u00e7a pontuar e orientar as diretoras durante o processo de filmagem de \u201cO Amor Dentro da C\u00e2mera\u201d, ou voc\u00ea preferiu se resguardar nesse sentido e se deixar levar?<\/strong><br \/>\nOrlando Senna \u2013 Antes de tudo, pela ordem como voc\u00ea perguntou, fui muito pouco dirigido na minha vida como ator. Apesar de ter estudado em uma escola de teatro, uma excelente escola da Universidade Federal da Bahia, n\u00e3o tenho muita experi\u00eancia como ator que foi dirigido por algu\u00e9m. Basicamente porque nunca atuei muito. Sempre atuei em uma coisa ou outra, substituindo algu\u00e9m ou por necessidade de produ\u00e7\u00e3o, digamos assim. E s\u00f3. N\u00e3o tenho uma vasta experi\u00eancia nisso. E exatamente por essa raz\u00e3o, por n\u00e3o ter sido muito dirigido e tamb\u00e9m por n\u00e3o me sentir um ator. Enfim, n\u00e3o me sinto um ator. Mesmo quando estou, por acaso, em um palco, n\u00e3o me sinto um ator. Acho que sou sempre eu quem est\u00e1 ali. Sou sempre eu. Ou seja, eu sou super brechtniano. Meu afastamento cr\u00edtico \u00e9 total. Inclusive, at\u00e9 quando vou atuar sem ser em uma atua\u00e7\u00e3o teatral. Quando vou fazer um discurso, por exemplo. Mesmo fazendo o discurso, fa\u00e7o o distanciamento. Sinto-me muito mal quando estou em um lugar p\u00fablico, diante de uma plateia, e algu\u00e9m come\u00e7a a me elogiar. Um dia fiz uma consulta a outra pessoa que sofria disso, o Fernando Birri. Tinham o elogiado tremendamente. Ele sentado no palco e as pessoas tecendo elogios. E ele l\u00e1, encolhido, assim. Logo depois lhe perguntei a ele: &#8220;Como \u00e9 que voc\u00ea se sentiu embaixo dessa chuva de elogios, dessa chuva de loas \u00e0 voc\u00ea?&#8221; E ele respondeu: &#8220;Eu fa\u00e7o de conta que n\u00e3o \u00e9 comigo. Que n\u00e3o sou eu que estou ali.&#8221; Aprendi isso com ele e uso muito. N\u00e3o sou eu que est\u00e1 ali. \u00c9 um personagem. Enfim, tenho que inventar um personagem. E por a\u00ed vai. Mas tem outra parte da sua pergunta que me interessou. Sobre compartilhar vis\u00f5es de dire\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tive nenhuma inten\u00e7\u00e3o sobre isso. Nem a Concei\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m, eu acho. E na verdade, conscientemente, a gente n\u00e3o queria se meter na dire\u00e7\u00e3o das meninas. Porque, claro, cada pessoa tem uma vis\u00e3o diferente. \u00c9 uma outra pessoa que est\u00e1 fazendo o filme. Se voc\u00ea colocar duas pessoas para fazer a mesma cena, no mesmo lugar, com a mesma c\u00e2mera, com os mesmos atores, v\u00e3o sair duas cenas diferentes. Imagine em um filme inteiro, ou em um peda\u00e7o do filme. Me deixei levar no tempo. E gostei muito da experi\u00eancia. Me lembro que pensava, e \u00e0s vezes at\u00e9 conversava com a Concei\u00e7\u00e3o, n\u00e3o durante a grava\u00e7\u00e3o, mas ao lado da grava\u00e7\u00e3o, enquanto esper\u00e1vamos que elas decidissem o que a gente ia fazer, eu dizia: &#8220;Puxa, se sempre fosse assim o trabalho de um ator, eu at\u00e9 que gostaria de ser ator.&#8221; Ou seja, se jogar dessa maneira. As pessoas, ao mesmo tempo que est\u00e3o dirigindo, n\u00e3o est\u00e3o. E assim era com Lara e Jamille. Ao mesmo tempo que estavam dirigindo, elas n\u00e3o estavam dirigindo. E suponho porque queriam que fosse assim. Porque essa era uma metodologia delas, mesmo inconsciente. N\u00e3o sei se era consciente ou inconsciente, mas mesmo inconsciente, era uma metodologia maravilhosa para mim e para Concei\u00e7\u00e3o. Concei\u00e7\u00e3o tinha um elemento dela mesma. Concei\u00e7\u00e3o fez muita coisa na vida. Fez muitas artes. Mas o que ela gostava, e ali\u00e1s, ela diz isso no filme: o que ela gostava, e eu acho que continua gostando onde esteja, \u00e9 ser atriz. Era atuar. E eu exatamente o contr\u00e1rio. Eu tenho certo medo da atua\u00e7\u00e3o. Tenho certa necessidade do que disse antes: o m\u00e1ximo distanciamento dos personagens. Mas foi uma experi\u00eancia escandalosamente maravilhosa. Para mim e acho que tamb\u00e9m para Concei\u00e7\u00e3o. De qualquer maneira, ela que \u00e9 uma atriz, e gosta de ser uma atriz, era uma experi\u00eancia bastante nova, porque ali ela era e n\u00e3o era atriz. Ela era e n\u00e3o era dirigida. Ela estava e n\u00e3o estava criando o personagem. E isso \u00e9 uma experi\u00eancia, como eu disse, escandalosamente maravilhosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lara e Jamille, na aproxima\u00e7\u00e3o para um document\u00e1rio que visita a intimidade de duas pessoas com uma rela\u00e7\u00e3o de d\u00e9cadas, houve alguma preocupa\u00e7\u00e3o de voc\u00eas como diretoras no sentido de orientar Concei\u00e7\u00e3o e Orlando a evitar construir personagens de um modo artificial na capta\u00e7\u00e3o daquela rotina, para que eles pudessem ser eles mesmos? Mesmo que, claro, a constru\u00e7\u00e3o do personagem possa vir a ser inevit\u00e1vel. Lembro, inclusive, de um momento bem tenro quando Orlando e Concei\u00e7\u00e3o brincam com o ritmo vagaroso com que se bebe o caf\u00e9&#8230;<\/strong><br \/>\nLara \u2013 Uma das pessoas que mais me ensinaram, eu posso dizer que primeiro me ensinou ou me mostrou, ou eu ouvi, sobre a mistura entre a realidade e a imagina\u00e7\u00e3o, foi Orlando. E acho que para Mille, tamb\u00e9m, n\u00e9? Inclusive, isso se transparece nos filmes de doc-fic, como \u201cIracema\u201d. Mas para al\u00e9m disso, \u00e9 uma maneira, tamb\u00e9m, de entender as coisas. De se relacionar com aquilo. E acho que essa mistura entre o encenar e o ser; entre o ser e o encenar, o imaginar, acho que isso esteve presente no filme de uma maneira incorporada. Mas isso n\u00e3o significa que n\u00e3o existiu conflitos. Sim, havia momentos, n\u00e3o \u00e9, Mille? N\u00e3o sei o que Mille sente sobre isso. \u00c9 at\u00e9 uma pergunta. Em alguns momentos, a gente tinha d\u00favidas, tamb\u00e9m, sobre os caminhos. &#8220;\u00c9 isso, mesmo?&#8221; \u00c0s vezes, Orlando falava: &#8220;Isso vai ficar artificial&#8221;. Voc\u00eas lembram? \u00c9 at\u00e9 a \u00faltima cena do filme. Mas, \u00e0s vezes, era justamente em uma provoca\u00e7\u00e3o de uma cena que tamb\u00e9m nascia uma verdade, sabe? No se encenar e no se interpretar a si mesmo, ou no quem se queria ser no momento, \u00e9 que verdades tamb\u00e9m escapam. E n\u00e3o verdades. E que n\u00e3o s\u00e3o menores, tamb\u00e9m. Acho que a gente brincou com isso. E brincamos, tamb\u00e9m, com essa metalinguagem de deixar os rastros do fazer. Acho que esse filme deixa os rastros do fazer. Seja o nosso fazer na edi\u00e7\u00e3o e na n\u00e3o dire\u00e7\u00e3o. Quando a dire\u00e7\u00e3o surge ou quando ela aparece; seja numa situa\u00e7\u00e3o totalmente espont\u00e2nea, ou quase espont\u00e2nea. Ou numa situa\u00e7\u00e3o em que a c\u00e2mera provoca, ou quando c\u00e2mera se esconde. Acho que o tempo inteiro a gente tinha esse jogo. Do esconder e do revelar. Do imaginar e do espont\u00e2neo. E acho que o filme \u00e9 fruto disso. \u00c9 fruto desses caminhos que n\u00f3s tamb\u00e9m nos deixamos levar, Lando, viu? Voc\u00eas se deixaram e a gente, tamb\u00e9m (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Eu sei (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Eu acho que a gente se deixou muito levar. Por todos n\u00f3s. Pela casa, pelos humores, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Sim. E tem um lado nosso, ou seja, de quem estava diante da c\u00e2mera, Concei\u00e7\u00e3o e eu, que eu acho que, tamb\u00e9m, em alguns momentos, voc\u00eas chegaram a esses momentos de brincar. Fazer brincadeiras. Agora h\u00e1 pouco voc\u00ea se lembrou da coisa do tomar o caf\u00e9 vagarosamente, que parecia que era em c\u00e2mera lenta. Aquilo a gente inventou na hora em que est\u00e1vamos tomando caf\u00e9. Exatamente naquele momento. Este que voc\u00ea me lembrou est\u00e1 bem vivo na mem\u00f3ria. E em outros momentos, tamb\u00e9m, a gente inventava brincadeiras. E podiam gravar alguma coisa ou n\u00e3o podiam. E eu acho que as diretoras, tamb\u00e9m, abriam seus cora\u00e7\u00f5es e mentes para isso. Para o brincar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Eu acho que \u00e9 uma palavra fundamental: brincar. \u00c9 verdade. Na cena da cama, eles estavam l\u00e1, e a gente do outro lado, rindo. Inclusive, vazavam as nossas risadas. E a gente ia brincando. &#8220;Agora, diga a\u00ed: E o diamante que Concei\u00e7\u00e3o tem guardado? Diga a\u00ed?&#8221; Era nessa brincadeira, n\u00e3o era, Mille? N\u00f3s riamos tanto \u00e0s vezes que tivemos que incorporar a gente, tamb\u00e9m. At\u00e9 vaz\u00e1vamos os \u00e1udios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 E at\u00e9 fez falta, porque, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cama, ao cen\u00e1rio cama, por exemplo, n\u00f3s brinc\u00e1vamos, mas voc\u00eas brincavam, mesmo. De verdade. Como se fossem duas crian\u00e7as. Eu me lembro&#8230; Eu nem sei por que voc\u00eas n\u00e3o colocaram essa coisa da cama no filme. Deve ser engra\u00e7ado o resultado disso. Eu me lembro que tem um momento em que n\u00f3s j\u00e1 est\u00e1vamos na cama e voc\u00eas duas vieram e saltaram, como meninas, pequenas. Sem pensar no pr\u00f3prio peso, inclusive, que j\u00e1 alcan\u00e7aram. E saltaram. Eu estava bem perto da lateral da cama, e a Lara pulou exatamente nesse espa\u00e7o da cama que ainda tinha. E eu achei que ela ia cair. Tive que agarr\u00e1-la. Eu pensei: &#8220;Ela vai cair!&#8221; (risos). Ou seja, era quase j\u00e1 que uma possess\u00e3o de brincadeira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jamille \u2013 Essa coisa do brincar \u00e9 um caminho que faz parte da minha vida, particularmente. Apesar de que eu e Lara sempre fizemos coisas assim, brincando. E sobre essa coisa do dirigir e n\u00e3o dirigir, tamb\u00e9m. E o n\u00e3o dirigir ser um dirigir, de certa maneira. \u00c9 uma coisa que eu, particularmente, tento seguir. Nos document\u00e1rios, estar o menos presente poss\u00edvel quando a c\u00e2mera est\u00e1 ligada. Deixar que a cena aconte\u00e7a. Tentar chegar ali no momento mais espont\u00e2neo da a\u00e7\u00e3o. Sempre fico mais tranquila, mais quietinha, deixando o REC ali acionado e &#8220;futucando&#8221; nas perguntas para ver onde a gente consegue chegar. Porque uma das coisas que nos motivou a fazer esse filme era justamente o que a gente presenciava nos momentos de intimidade com eles. Ent\u00e3o, as hist\u00f3rias que surgiam nesses momentos da conviv\u00eancia. Que vinham nesses momentos mais espont\u00e2neos. Dentro do document\u00e1rio, tento sempre seguir esse caminho mais da espontaneidade e da aus\u00eancia dentro do momento presente. Isso falando de dire\u00e7\u00e3o, de certa maneira. E o brincar, tamb\u00e9m, acho que sempre fez parte da nossa vida. Mesmo nos momentos mais complicados, o que n\u00e3o falta \u00e9 piada. (risos). E por que n\u00e3o nos momentos felizes n\u00e3o teriam uma brincadeira? Com certeza. Sempre tem. \u00c0s vezes, a gente tem que se controlar. Mas por que n\u00e3o trabalhar com o brincar? Que, inclusive, naquela \u00e9poca, especificamente, eu estava dentro de um projeto em que eu ca\u00e7ava brincadeiras. Circulei o Mato Grosso do Sul, o Pantanal inteiro, filmando brincadeiras. E, enfim, o brincar \u00e9 a linguagem universal do ser humano. Brincar existe em todas as l\u00ednguas, todas as culturas. Brincadeiras que sugiram na mesma \u00e9poca, em eras totalmente distantes, que n\u00e3o havia comunica\u00e7\u00e3o, mas que o brincar existia e foi surgindo ali de maneira universal. Ent\u00e3o, acho que fazer cinema sem brincar n\u00e3o tem gra\u00e7a nenhuma.<\/p>\n<figure id=\"attachment_60706\" aria-describedby=\"caption-attachment-60706\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-60706 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/SET-o-AMOR-RIO18.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/SET-o-AMOR-RIO18.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/SET-o-AMOR-RIO18-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-60706\" class=\"wp-caption-text\"><em>Set de &#8220;O Amor Dentro da C\u00e2mera&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Orlando, voc\u00ea completa 81 anos agora nesse m\u00eas de abril. Anivers\u00e1rios s\u00e3o ocasi\u00f5es nas quais muitas pessoas se tornam introspectivas e nost\u00e1lgicas. Pelo menos acontece comigo. Rever o filme, observar sua trajet\u00f3ria e de Concei\u00e7\u00e3o a partir da lente de Lara e Jamille, rememorar os encontros com diversas pessoas gigantes das artes mundiais, lhe causa essa introspec\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nOrlando \u2013 Tem tr\u00eas momentos da minha rela\u00e7\u00e3o com o filme. Primeiro \u00e9 o momento em que a gente est\u00e1 fazendo o filme, onde n\u00e3o existe isso que voc\u00ea acaba de mencionar. Ou seja, repensando a vida, pensando se voc\u00ea errou ou n\u00e3o, se voc\u00ea acertou ou n\u00e3o. N\u00e3o existe porque a gente estava fazendo uma outra coisa. A gente estava vivendo, e n\u00e3o revivendo. E um outro momento \u00e9 o filme pronto. E a\u00ed, para mim, \u00e9 um momento muito curto, porque, evidentemente, eu vi o filme umas duas vezes com a Concei\u00e7\u00e3o. E logo depois vem um terceiro em que eu tenho que ver o filme e tenho que falar do filme, n\u00e3o me nego a isso, sem a Concei\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, \u00e9 um momento que eu ainda estou vivendo. Um momento muito profundo. N\u00e3o sei se \u00e9 essa a palavra. Um momento muito profundo em minha vida. Esse filme faz parte principal, digamos, neste momento. Minha rela\u00e7\u00e3o com o filme tem toda uma andan\u00e7a neste&#8230; (pausa) H\u00e1 um ano que ele est\u00e1 pronto, mais ou menos. \u00c9 muito intensa essa rela\u00e7\u00e3o. E eu acho que a minha rela\u00e7\u00e3o com esse filme ser\u00e1 sempre essa. E ser\u00e1 superficial, de falar sobre o filme, discutir o filme, mas tamb\u00e9m em uma outra camada, que \u00e9 totalmente existencial, relacionada com a emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esse contato com tantas personalidades definidoras em termos culturais ajudam nesse sentido de refletir sobre a sua trajet\u00f3ria de vida?<\/strong><br \/>\nOrlando \u2013 Sim, ajudam. Claro! Fazem parte, n\u00e9? Essa coisa de que a gente viveu uma vida extraordin\u00e1ria. Muita gente nos diz isso. Diziam para n\u00f3s dois e, agora, continuam dizendo a mim. &#8220;Voc\u00eas viveram uma vida extraordin\u00e1ria. Conheceram pessoas maravilhosas. Percorreram o mundo inteiro, etc&#8230;&#8221; Jogo tudo isso dentro da circunst\u00e2ncias. As circunst\u00e2ncias aconteceram, ningu\u00e9m planejou nada. Claro que eu queria conhecer o mundo. A Concei\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m, tinha o mesmo sentimento quando est\u00e1vamos no interior da Bahia. Ela na cidade dela, sertaneja; eu na minha cidade chapadeira, ou seja, na Chapada Diamantina. Quer\u00edamos conhecer o mundo. Sair de nosso pequeno mundo e ver o mundo grande, que a gente sabia que existia, mas n\u00e3o sab\u00edamos como era. Mas esse foi o \u00fanico impulso das nossas vidas. E a\u00ed, sem nenhum planejamento, e ajudados por uma coisa que, na Chapada Diamantina, \u00e9 considerada uma deusa, uma coisa chamada sorte. Pela sorte, n\u00f3s podemos conhecer essas pessoas, fazer amizades com pessoas realmente extraordin\u00e1rias, mas s\u00f3 pela sorte, s\u00f3 pelo fato de termos sido empurrados pela sorte. A sorte \u00e9 uma deusa da religi\u00e3o sincr\u00e9tica, que existe na Chapada Diamantina, na minha terra. Chama-se Jar\u00ea. Ali\u00e1s, estou lendo um livro maravilhoso agora. Chama-se \u201cTorto Arado\u201d (N.E. do autor Itamar Vieira J\u00fanior, um dos livros mais votados <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/01\/26\/scream-yell-os-melhores-livros-de-2020\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">no Melhores de 2021 Scream &amp; Yell<\/a>). \u00c9 exatamente sobre essa regi\u00e3o onde existe certa profundidade social no livro, mas existe tamb\u00e9m uma profundidade de car\u00e1ter al\u00e9m do social, al\u00e9m do viver naturalmente. S\u00e3o as encantarias. Os encantos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"http:\/\/pelicula-virtual.blogspot.com\/2012\/03\/entrevista-walter-carvalho-diretor-de.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lembro-me de ter entrevistado Walter Carvalho<\/a> por ocasi\u00e3o do lan\u00e7amento do document\u00e1rio sobre Raul Seixas e de ouvi-lo falar sobre o documentarista contar com a sorte e precisar estar na hora certa e no lugar certo. Ele fazia refer\u00eancia ao momento em que uma mosca pousa em Paulo Coelho. Na montagem final das entrevistas de Concei\u00e7\u00e3o e Orlando para \u201cO Amor Dentro da C\u00e2mera\u201d, observei diversos momentos \u00fanicos, como o das l\u00e1grimas durante a can\u00e7\u00e3o que abre o filme, ou o olhar de Concei\u00e7\u00e3o quando Orlando cria a sinopse. Como foi a expectativa e prepara\u00e7\u00e3o para captar tais momentos?<\/strong><br \/>\nJamille \u2013 Sim. Tivemos alguns momentos destes. Que entraram e que n\u00e3o entraram, tamb\u00e9m. Por exemplo, um momento que \u00e9 bem marcante e que n\u00e3o foi planejado, \u00e9 quando Concei\u00e7\u00e3o come\u00e7a a falar do sotaque dela, e Orlando diz que n\u00e3o era para falar sobre isso. E depois ela manda a gente ir embora, que j\u00e1 est\u00e1 na hora. N\u00f3s est\u00e1vamos ali, sentadas no ch\u00e3o, eu e Lara, trocando os cart\u00f5es e as baterias da c\u00e2mera. Ou seja, j\u00e1 tinha encerrado, mesmo, a entrevista. E ai, de repente, Concei\u00e7\u00e3o come\u00e7a a falar, e eu, do jeito que estava sentada, comecei filmar. E Lara ligou a dela, tamb\u00e9m, e conseguimos pegar Orlando e ela. Mas foi uma coisa que surgiu ali, j\u00e1 no fim do dia. N\u00f3s j\u00e1 t\u00ednhamos encerrado e foi quando resolvemos ligar a c\u00e2mera. Do jeito que a gente estava. Tanto que essa cena foi s\u00f3 \u00e1udio da c\u00e2mera diretamente. J\u00e1 a cena da m\u00fasica que voc\u00ea cita, n\u00f3s sempre a achamos muito forte. A que entrou, inclusive, foi a primeira cena que gravamos com Concei\u00e7\u00e3o cantando. Isso foi em 2016. De 2016 a 2020, gravamos Concei\u00e7\u00e3o cantando essa m\u00fasica v\u00e1rias vezes. V\u00e1rias vezes. Mas a que entrou foi a primeira. E o nosso desejo era que essa m\u00fasica, composta por Orlando para Concei\u00e7\u00e3o, fosse gravada com um arranjo. J\u00e1 exista a melodia que eles cantavam, mas nunca tinha sido feito um arranjo com uma banda ou uma orquestra, enfim. E nas nossas agendas, n\u00e3o consegu\u00edamos bater dentro desse per\u00edodo um momento de ir l\u00e1 no Rio fazer eles gravaram essa m\u00fasica em um est\u00fadio. Porque, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, foram dois, tr\u00eas anos, mas Orlando e Concei\u00e7\u00e3o, nesse meio tempo, rapaz&#8230; Eles n\u00e3o paravam de trabalhar! Orlando dirigiu tr\u00eas longas metragens. Concei\u00e7\u00e3o finalizou o outro longa dela e estava lan\u00e7ando. N\u00f3s t\u00ednhamos dificuldades em achar uma agenda para encontr\u00e1-los. Ano passado, eu estava na It\u00e1lia. Passei um ano l\u00e1. Voltei h\u00e1 um m\u00eas. E alguns dias antes de viajar para l\u00e1, me deu um neg\u00f3cio e eu disse a eles: &#8220;Estou indo a\u00ed no Rio visitar voc\u00eas.&#8221; Foi uma coisa assim de surpresa. Eu comprei a passagem em um dia e ia voltar no outro. E a gente estava tentando contratar algu\u00e9m para gravar a m\u00fasica, pois tinha sido feito um arranjo pelo nosso compositor, o Luciano Salvador Bahia, que fez a trilha. E como n\u00e3o t\u00ednhamos conseguido ir at\u00e9 eles gravar, est\u00e1vamos pensando em contratar algu\u00e9m. Pensamos em v\u00e1rios nomes. Mas n\u00e3o consegu\u00edamos enxergar nem ouvir a m\u00fasica em outra voz que n\u00e3o fosse a de Concei\u00e7\u00e3o. E isso estava no consumindo, assim, de certa maneira. E a\u00ed eu consegui fazer essa viagem antes para o Rio. Fui em uma sexta e voltei no s\u00e1bado. L\u00e1, perguntei se poder\u00edamos tentar gravar mais uma vez. Dessa vez, com o arranjo feito naquilo que tinha sido. Eu falei que talvez n\u00e3o daria certo, porque o ideal era que fosse gravado em um est\u00fadio, mas tentamos. Eles toparam e gravamos horas antes de eu ir para o aeroporto. No mesmo dia, eu consegui mandar para Luciano, que encaixou a voz ao arranjo que eles fizeram, e deu certo. Deu muito certo. Eu, particularmente, acho que ficou muito linda a m\u00fasica. Em um dos \u00faltimos momentos que eu falei com Concei\u00e7\u00e3o, inclusive, em uma liga\u00e7\u00e3o, ela me disse da felicidade que estava sentindo por ter gravado aquela m\u00fasica. Por ter uma m\u00fasica gravada na voz dela. Uma letra de Orlando para ela. E eu acho que deu um plus especial para o filme. Foi um desses momentos que n\u00e3o estava mais previsto, que a gente n\u00e3o tinha muita esperan\u00e7a de conseguir, mas que acabou dando certo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Completando isso que Mille est\u00e1 contando desses momentos, eu fui lembrando tamb\u00e9m, Jo\u00e3o, que entre esses momentos que a gente sentia que precisava filmar, que sent\u00edamos que alguma coisa aconteceria, foram 60 horas de material. Foi uma montagem extensa. Mais de 400 p\u00e1ginas transcritas por mim e por Jamille. E um filme feito muito miudinho, muito enxuto, muito \u00edntimo. E foram mais de 400 p\u00e1ginas escrevendo essas cenas que, claro, a gente, muitas vezes, atentou para a pot\u00eancia delas na montagem. De descobrirmos aquela cena que, \u00e0s vezes, n\u00e3o lembr\u00e1vamos. E uma dessas cenas que aconteceu de uma forma espont\u00e2nea foi a \u00faltima do filme, em que acontece o abra\u00e7o dos dois, de Lando e Conce. Ela est\u00e1 vendo fotos, Orlando chega, e isso gera o abra\u00e7o que \u00e9 a \u00faltima cena do filme, sem spoiler. Aquela foi, tamb\u00e9m, a \u00faltima cena gravada. N\u00e3o s\u00f3 a do nosso filme na montagem, como, tamb\u00e9m, a \u00faltima cena do dia de grava\u00e7\u00e3o. E teve uma coisa nesse dia, pois Orlando estava ocupad\u00edssimo com o filme dele. E lembro que ele havia pedido para n\u00e3o ser interrompido, pois estaria no escrit\u00f3rio e n\u00e3o ia participar da grava\u00e7\u00e3o naquele dia. Ent\u00e3o, sugerimos a Concei\u00e7\u00e3o que ela visse um pouco das fotos, que j\u00e1 estavam espalhadas pela casa. A\u00ed come\u00e7amos a film\u00e1-la vendo as fotos, deixando a c\u00e2mera l\u00e1, apenas ligada. Concei\u00e7\u00e3o, realmente, foi se emocionando vendo as fotos. Tinha um monte de fotos que a gente estava procurando, inclusive, para saber se utilizar\u00edamos de uma outra maneira, se ir\u00edamos digitalizar. Ent\u00e3o, enquanto se buscava as fotos, ela foi vendo e se emocionou. E \u00e9 quando Orlando resolve sair do escrit\u00f3rio e interromper a cena. Ent\u00e3o, quando ele aparece, ningu\u00e9m sabia que ele ia sair do escrit\u00f3rio. Ele aparece, interrompe, provoca, fala, v\u00ea Concei\u00e7\u00e3o chorando e fala (tom de voz grave): &#8220;Essas meninas s\u00e3o impiedosas. \u00c0s vezes nos faz at\u00e9 sofrer.&#8221; E a\u00ed Concei\u00e7\u00e3o fala uma frase que me marca muito, assim, que \u00e9: &#8220;Me joga para o passado, me joga para o futuro, me joga para o passado, me joga para o futuro&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 &#8220;Elas me fazem de peteca.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 &#8220;Fazem de peteca&#8221;. Exato! Foi o que ela disse. E tudo isso aconteceu ali, de forma imprevis\u00edvel. Tanto que a gente ajusta as c\u00e2meras para poder filmar. Tem esse movimento. E foi algo que aconteceu que tamb\u00e9m \u00e9 uma cena dada de presente, de certa forma. Quando voc\u00ea decide entrar em cena, tamb\u00e9m se d\u00e1 de presente uma cena. E isso tem a ver com essa generosidade, tamb\u00e9m. Porque eu acho que essa cena ficou linda. E o tempo inteiro eu acho que a gente brincava um pouco com isso. &#8220;E a\u00ed, Mille? Filma? E a\u00ed? Filma ou n\u00e3o filma? Olha, vou botar pra gravar aqui, viu? Prepara a c\u00e2mera. N\u00e3o fala nada.&#8221; Ou, tamb\u00e9m, a gente propunha uma cena e arrumava a c\u00e2mera, e os convidava a entrar em cena. Havia dois movimentos, sabe? Aquele do: &#8220;olha o que est\u00e1 acontecendo ali. Vai acontecer. Vai acontecer&#8221; quanto aquele em que prepar\u00e1vamos algo e faz\u00edamos um convite: &#8220;e a\u00ed? Voc\u00eas topam?&#8221; Por exemplo, as cenas da cama foram um convite. N\u00f3s tivemos que armar uma c\u00e2mera no teto, praticamente, para filmar. Tivemos que provocar isso. Mas uma vez provocado, tamb\u00e9m aconteciam outras coisas. Uma vez provocado, se instalava um outro universo ali. E da mesma forma, tamb\u00e9m, existiam coincid\u00eancias, e sorte, e encontros, com os dois movimentos. Tanto em um espont\u00e2neo quanto no provocado, acho que a vida pode acontecer.<\/p>\n<figure id=\"attachment_60704\" aria-describedby=\"caption-attachment-60704\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-60704 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Orlando-Lara-e-Jamille.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Orlando-Lara-e-Jamille.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Orlando-Lara-e-Jamille-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-60704\" class=\"wp-caption-text\"><em>Orlando, Lara e Jamille<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Orlando, voc\u00ea falou sobre o momento profundo que vive e citou que apenas recentemente conseguiu assistir ao filme ap\u00f3s a partida de Concei\u00e7\u00e3o. Eu queria lhe pedir licen\u00e7a para perguntar a voc\u00ea sobre o aspecto de ver o filme com esse olhar ap\u00f3s a partida dela. A obra traz uma cena muito impactante, quando ela fala do diagn\u00f3stico que recebeu, inclusive. Sem querer parecer deslocado em uma pergunta, eu queria abordar com voc\u00ea esse sentimento de rever a obra com essa carga de despedida.<\/strong><br \/>\nOrlando \u2013 Eu acho isso lindo, na verdade. Esse filme tem, tamb\u00e9m, esse outro lado. Essa import\u00e2ncia enorme. Essa cena da qual as meninas falavam h\u00e1 pouco, essa cena final do filme, foi a \u00faltima gravada. E tamb\u00e9m \u00e9 a \u00faltima cena de Concei\u00e7\u00e3o. S\u00e3o as artimanhas da vida que constroem isso na gente. No in\u00edcio, ou seja, logo quando ela se foi, eu n\u00e3o conseguia nem ver o filme, porque me emocionava muito. Mas agora eu j\u00e1 posso v\u00ea-lo com tranquilidade. E exatamente essa cena&#8230; N\u00e3o s\u00f3 a cena, mas tamb\u00e9m essa informa\u00e7\u00e3o que est\u00e1 no filme. Informa\u00e7\u00e3o que est\u00e1 l\u00e1 de uma maneira muito sutil. No momento em que ela aparece, agora que eu j\u00e1 consegui ver o filme sem toda a melancolia em cima de mim, eu acho uma coisa muito bonita que tenha acontecido. Principalmente isso da \u00faltima cena do filme, da \u00faltima cena gravada, da \u00faltima cena da vida dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jamille \u2013 Curioso que, se a gente for analisar o filme falando sobre isso, a entrevista, tamb\u00e9m, come\u00e7ou falando sobre isso. Sobre o tempo circular. E o filme funciona assim. A gente abre com a cena gravada no primeiro dia, com ela cantando. E fecha o filme com a cena gravada no \u00faltimo dia de grava\u00e7\u00e3o de todos os anos. Ent\u00e3o, a gente volta. O tempo circula, o tempo precisa ser circular porque ele ventila. Ele ventila e espalha o p\u00f3. &#8220;Tempo tem p\u00f3&#8221;&#8230; (risos) Eu estou viajando aqui&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Ela est\u00e1 fazendo um dos seus belos poemas. Ela acaba de fazer um. O&#8221; tempo tem p\u00f3.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jamille \u2013 E s\u00f3 para esclarecer uma coisa, na verdade. Durante o filme, Conce tinha recentemente superado o primeiro diagn\u00f3stico. Por isso, ela fala de uma maneira mais tranquila, talvez. E a gente pergunta de uma maneira mais tranquila. Depois que a gente gravou tudo, no final de 2019, foi que surgiu o novo diagn\u00f3stico. E a \u00fanica coisa que foi feita nesse per\u00edodo foi o \u00e1udio quando eu fui l\u00e1 gravar a can\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, a gente n\u00e3o fez isso em um clima, digamos&#8230;. J\u00e1 tinha o filme pronto quando surgiu esse outro diagn\u00f3stico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Fizemos em um clima de supera\u00e7\u00e3o. Na verdade, est\u00e1vamos saindo disso. Em uma esperan\u00e7a total na supera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 E tamb\u00e9m me chamou a aten\u00e7\u00e3o, Jo\u00e3o, que voc\u00ea v\u00ea como \u00e9 que cada pessoa pode interpretar as cenas e os momentos. Para mim, aquela cena, como cronologicamente n\u00e3o correspondia exatamente a um momento de um diagn\u00f3stico x, mas eu acho que uma coisa que a gente teve \u00e9 que entre n\u00f3s, com Conce e com Lando, entre n\u00f3s, a gente sempre falou de vida e morte, sabe? Nas nossas conversas, de come\u00e7os e de fins. Justamente, como Mille tamb\u00e9m retomou, essa circularidade que voc\u00ea traz. Ent\u00e3o, aquele papo j\u00e1 \u00e9 era um papo que falava sobre isso. Sobre viver e morrer. N\u00f3s sempre falamos sobre isso. Sobre juventude e velhice. Sobre ser novo e ser velho. Inclusive, sobre essas misturas dessas idades, uma coisa que a gente sempre conversa. Quest\u00f5es filos\u00f3ficas. Jodorowsky fala muito sobre isso. Outras pessoas tamb\u00e9m falam. Sobre ter muitas idades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Ter todas as idades dentro de voc\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara \u2013 Isso. Dentro de n\u00f3s. E me lembro como h\u00e1 um tempo eu estava falando com Orlando, n\u00e3o me lembro o que foi, e eu falei que estava com um dor aqui e ele disse: &#8220;eu, tamb\u00e9m&#8221;. E n\u00f3s rimos. &#8220;Mas, pera\u00ea! Eu tenho 35 anos! Voc\u00ea tem 80! D\u00e1 um desconto.&#8221; E \u00e0s vezes a gente esquece disso, n\u00e3o \u00e9, Lando? \u00c0s vezes a gente esquece dessas idades at\u00e9 mesmo entre n\u00f3s. &#8220;Ah, n\u00e3o estou conseguindo fazer isso.&#8221; &#8220;Nem eu.&#8221; &#8220;Mas voc\u00ea nasceu cinco gera\u00e7\u00f5es depois de mim.&#8221; E a gente consegue esquecer e brincar. Novamente, a palavra brincadeira, nestes ciclos, sempre esteve presente. Falar disso. Sobre finitude e nascimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando \u2013 Falar s\u00e9rio e, \u00e0s vezes, falar brincando. As duas coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jamille \u2013 E a mem\u00f3ria, tamb\u00e9m, que est\u00e1 dentro disso tudo. Concei\u00e7\u00e3o fala do trabalho dela, que \u00e9 bem focado na mem\u00f3ria, tamb\u00e9m. Os tr\u00eas filmes dela est\u00e3o relacionados \u00e0 mem\u00f3ria de momentos que ela passou. E acho que o filme, tamb\u00e9m, n\u00f3s conversamos entre a gente sobre vida e morte, momentos de supera\u00e7\u00e3o, mas fizemos um filme pensando na import\u00e2ncia dessa mem\u00f3ria viva dos dois.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-60703\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Cartazconceicao.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1062\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Cartazconceicao.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Cartazconceicao-212x300.jpg 212w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Orlando Senna, Lara Beck Belov e Jamille Fortunato conversaram longamente com o Scream &#038; Yell sobre vida, tempo circular e sobre o amor, evidenciado de modo t\u00e3o cativante em \u201cO Amor Dentro da C\u00e2mera\u201d. Confira o papo!\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/04\/18\/entrevista-orlando-senna-lara-belov-e-jamille-fortunato-falam-sobre-o-amor-dentro-da-camera\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":60702,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60699"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=60699"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60699\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":60707,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60699\/revisions\/60707"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/60702"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=60699"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=60699"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=60699"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}