{"id":60416,"date":"2021-03-14T01:07:47","date_gmt":"2021-03-14T04:07:47","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=60416"},"modified":"2021-04-14T00:27:33","modified_gmt":"2021-04-14T03:27:33","slug":"entrevista-edson-bastos-e-henrique-filho-falam-da-7a-edicao-do-festival-de-cinema-baiano-feciba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/03\/14\/entrevista-edson-bastos-e-henrique-filho-falam-da-7a-edicao-do-festival-de-cinema-baiano-feciba\/","title":{"rendered":"Entrevista: Edson Bastos e Henrique Filho falam da 7\u00aa edi\u00e7\u00e3o do FECIBA"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inteiramente gratuita e on line com 50 filmes baianos (curtas, m\u00e9dias e longas) dos \u00faltimos cinco anos exibidos no site do festival &#8211; <a href=\"https:\/\/www.feciba.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">feciba.com.br<\/a> &#8211; e no Youtube &#8211; <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/user\/feciba\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">youtube.com\/user\/feciba<\/a> (<a href=\"https:\/\/www.feciba.com.br\/2021\/programacao-completa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">confira programa\u00e7\u00e3o completa<\/a>), come\u00e7a nesta segunda (15 de mar\u00e7o), e segue at\u00e9 o dia 26, a 7\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Festival de Cinema Baiano (FECIBA). O evento, que retorna depois de cinco anos sem acontecer, traz nesta edi\u00e7\u00e3o um importante revisitar de parte da filmografia baiana realizada nesse per\u00edodo. Com 10 longas, 10 m\u00e9dias e 30 curtas-metragens na grade de filmes selecionados, o festival idealizado pelos cineastas Edson Bastos e Henrique Filho se reinventou. Para Edson, o per\u00edodo sem acontecer, al\u00e9m da necessidade de uma adapta\u00e7\u00e3o por conta da pandemia, serviu como uma forma de formatar o festival.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O FECIBA, fosse presencial ou on line, n\u00e3o poderia mais ser da forma como era antes por diversos motivos. Porque j\u00e1 surgiram v\u00e1rias problem\u00e1ticas, v\u00e1rios outros anseios que precis\u00e1vamos arcar neste evento. E um deles \u00e9 a representatividade. A pessoa se enxergar nas telas e na organiza\u00e7\u00e3o de uma forma geral&#8221;, explica Edson. Uma das mudan\u00e7as atreladas \u00e0 vers\u00e3o on line do festival est\u00e1 na composi\u00e7\u00e3o da equipe de curadoria. &#8220;A diversidade e a quantidade de pessoas na curadoria foi um dos pontos mais positivos. Foram onze de todo o estado. Pessoas diversas, de faixas et\u00e1rias diferentes. Pessoas de classes sociais diferentes, de ra\u00e7as diferentes e de sexualidades diferentes. Porque a realidade da gente era observar esses olhares. A Bahia \u00e9 muito ampla, muito m\u00faltipla. Assim como o cinema baiano, tamb\u00e9m. Nada melhor do que colocar essas pessoas para dialogar, para entender o recorte que poderia dar dos filmes que foram lan\u00e7ados nesses \u00faltimos cinco anos&#8221;, salienta o produtor-executivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentre os destaques de longas-metragens, \u201c<a href=\"https:\/\/www.feciba.com.br\/2021\/filmes\/longa-metragem\/diarios-de-classe\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Di\u00e1rios de Classe<\/a>\u201d, de Maria Carolina Silva e Igor Souza, filme de 2017, ainda impacta bastante sua audi\u00eancia na reflex\u00e3o oriunda do acompanhar de tr\u00eas mulheres em seus processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o j\u00e1 na fase adulta; \u201c<a href=\"https:\/\/www.feciba.com.br\/2021\/filmes\/longa-metragem\/akara-no-fogo-da-intolerancia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00c0k\u00e0r\u00e0 &#8211; No Fogo da Intoler\u00e2ncia<\/a>\u201d,\u00a0 urgente document\u00e1rio lan\u00e7ado em 2020, traz em seu cerne a den\u00fancia dos crimes de persegui\u00e7\u00e3o e intoler\u00e2ncia contra religi\u00f5es de matriz africana em um Brasil, infelizmente, neopentecostal, ref\u00e9m politicamente de igrejas, e racista. No resgate da mem\u00f3ria de Caymmi, \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/11\/29\/entrevista-henrique-dantas-fala-de-seu-doc-dorivando-sarava-o-preto-que-virou-mar\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Dorivando Sarar\u00e1 &#8211; O Preto que Virou Mar<\/a>\u201d, de Henrique Dantas, \u00e9 um importante registro da trajet\u00f3ria desse m\u00fasico que cantou n\u00e3o s\u00f3 a Bahia, como, tamb\u00e9m, seus credos, amores e as ra\u00edzes africanas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sele\u00e7\u00e3o de m\u00e9dias e curtas metragens, \u201c<a href=\"https:\/\/www.feciba.com.br\/2021\/filmes\/media-metragem\/entre-o-ceu-e-o-subsolo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Entre o C\u00e9u e o Subsolo<\/a>\u201d, m\u00e9dia de 2019 dirigido por Felipe da Silva Borges, relata o peso esmagador da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria no bairro da Vit\u00f3ria, metro quadrado mais caro de Salvador, e local onde o extinto Col\u00e9gio Estadual Odorico Tavares sofreu por anos diante das amea\u00e7as de fechamento para cess\u00e3o do seu terreno. O m\u00e9dia, hoje, funciona como um epit\u00e1fio simb\u00f3lico para o valor dado \u00e0 educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica de qualidade. Nos curtas, destacam-se tr\u00eas produ\u00e7\u00f5es recentes. \u201c<a href=\"https:\/\/www.feciba.com.br\/2021\/filmes\/curta-metragem\/rebento\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Rebento<\/a>\u201d, curta dirigido por Vinicius Elizi\u00e1rio, que traz o encarar precoce das responsabilidade da vida adulta a partir de uma paternidade inesperada, bem como uma an\u00e1lise da aus\u00eancia desse afeto paterno na vida de um jovem; \u201c<a href=\"https:\/\/www.feciba.com.br\/2021\/filmes\/curta-metragem\/5-fitas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">5 Fitas<\/a>\u201d, trabalho dirigido por Vilma Martins e Heraldo de Deus, que trazem um olhar sobre a tradi\u00e7\u00e3o da Lavagem do Bonfim a partir de um foco infantil em encontro \u00e0s origens do cortejo pela experi\u00eancia matriarcal; e \u201c<a href=\"https:\/\/www.feciba.com.br\/2021\/filmes\/curta-metragem\/dela\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Dela<\/a>\u201d, curta de 2018 dirigido por <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/11\/06\/entrevista-cineasta-bernard-attal-fala-sobre-o-documentario-sem-descanso\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bernard Attal<\/a>, que, al\u00e9m de uma singela homenagem a Nelson Mandela, \u00e9 uma tenra, por\u00e9m direta, reflex\u00e3o sobre a autoestima infantil e a identifica\u00e7\u00e3o com ideais definidores de car\u00e1ter.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas atividades, com variado leque de oficinas e debates, o s\u00e9timo FECIBA, evento realizado em conjunto pela <a href=\"https:\/\/vooaudiovisual.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Voo Audiovisual<\/a> e pelo <a href=\"http:\/\/nuproart.com.br\/2021\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">N\u00faproart &#8211; N\u00facleo de Produ\u00e7\u00f5es Art\u00edsticas<\/a>, com o suporte financeiro da Lei Aldir Blanc, trar\u00e1 a presen\u00e7a do veterano diretor Orlando Senna <a href=\"https:\/\/www.feciba.com.br\/2021\/oficinas\/roteiro-com-orlando-senna\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">em uma oficina de Roteiro<\/a>; a produtora Solange Lima ministrar\u00e1 <a href=\"https:\/\/www.feciba.com.br\/2021\/oficinas\/desenho-de-producao-com-solange-lima\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">oficina voltada para Desenho de Produ\u00e7\u00e3o<\/a>; a cineasta Cec\u00edlia Amado ministrar\u00e1 a <a href=\"https:\/\/www.feciba.com.br\/2021\/oficinas\/direcao-e-as-sete-artes-do-cinema\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">oficina Dire\u00e7\u00e3o e as Sete Artes do Cinema<\/a>; e fechando o ciclo de oficinas, o ator, roteirista e diretor, Thiago Almasy, participa com <a href=\"https:\/\/www.feciba.com.br\/2021\/oficinas\/producao-audiovisual-para-a-internet-com-thiago-almasy\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Produ\u00e7\u00e3o Audiovisual para a Internet<\/a>.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O produtor executivo Henrique Filho pontua o quanto esses encontros presenciais em debates e oficinas eram importantes para o FECIBA nas suas seis edi\u00e7\u00f5es anteriores. Al\u00e9m disso, o cineasta observa, tamb\u00e9m, a edi\u00e7\u00e3o virtual como uma oportunidade de reinven\u00e7\u00e3o, mas, ainda, esperan\u00e7oso para futuras edi\u00e7\u00f5es presenciais. &#8220;Com o contexto da pandemia e a possibilidade dos eventos online, se tornou uma oportunidade muito boa para o FECIBA fazer uma retomada em um formato diferente. Acho que o nosso desejo para o futuro vai muito na perspectiva de voltar \u00e0 ess\u00eancia do festival. As mostras que a gente executava antes e que n\u00e3o conseguimos realizar agora, e que \u00e9 muito a cerne, a cara do FECIBA. E principalmente o fato de ser (anteriormente) um evento presencial. Ter se tornado um ponto de encontro de cineastas e realizadores para trocar ideias, fazer contatos, network, para ter contato com o p\u00fablico. Isso \u00e9 um desejo que se potencializa agora nesse momento&#8221;, explica Henrique.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como parte j\u00e1 tradicional do calend\u00e1rio cultural da cidade de Ilh\u00e9us, onde o festival acontecia antes de seu hiato de cinco anos, o FECIBA cumpria um papel importante no fomentar e propagar da produ\u00e7\u00e3o baiana. Sobre voltar a essa posi\u00e7\u00e3o nos pr\u00f3ximos anos sem pandemia, Henrique \u00e9 esperan\u00e7oso. &#8220;N\u00e3o temos muito como prever politicamente os pr\u00f3ximos acontecimentos, por que estamos vivendo uma novela louqu\u00edssima, com v\u00e1rios acontecimentos que est\u00e3o mudando os rumos. N\u00e3o sabemos o que vai acontecer ainda em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pandemia, \u00e0 vacina, aos eventos presenciais, e como ficar\u00e1 a hist\u00f3ria do FECIBA com isso da\u00ed. Mas essa edi\u00e7\u00e3o, visualizando esses 50 filmes que est\u00e3o representando esses \u00faltimos cinco anos sem o FECIBA, j\u00e1 traz na gente todo o desejo de voltar a fazer o evento presencialmente. E de voltar a ser calend\u00e1rio de Ilh\u00e9us&#8221;, finaliza Henrique. De qualquer modo, bem-vindo de volta, caro Feciba. Fez falta!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta entrevista ao Scream &amp; Yell, Edson e Henrique abordam as dificuldades durante o per\u00edodo de cinco anos no qual o FECIBA n\u00e3o aconteceu, fazem um apanhado de suas carreiras como cineastas, rela\u00e7\u00e3o afetiva com Ipia\u00fa e o levar da cidade \u00e0s telas, al\u00e9m de aprofundar o impacto dessa fase desde 2016 tanto em suas vidas pessoais como carreira. Confira o papo!<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/www.feciba.com.br\/2021\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>https:\/\/www.feciba.com.br\/2021<\/strong><\/a><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"7\u00ba FECIBA - Festival de Cinema Baiano - VT\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/lW0wp3pmy8Q?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Edson, cinco anos sem o Festival de Cinema Baiano (FECIBA) acontecer. Uma quest\u00e3o um tanto \u00f3bvia para come\u00e7armos a entrevista, mas queria te perguntar sobre os desafios para esta edi\u00e7\u00e3o.<\/strong><br \/>Edson Bastos \u2013 \u00c9 muito desafiador criar um projeto. Principalmente um como o FECIBA. Porque os projetos t\u00eam vida pr\u00f3pria. V\u00e3o se adaptando de acordo com as necessidades, tamb\u00e9m. E o FECIBA surgiu em um momento super importante, que foram os 100 anos do cinema baiano (N.E. 2011). E se tornou, durante um per\u00edodo de pelo menos 6 anos, a expectativa dos realizadores do Estado. Expectativa em estar no evento, em dialogar sobre o audiovisual como um todo na Bahia. E era muito interessante isso. O p\u00fablico foi chegando, foi achando interessante o evento, as possibilidades de di\u00e1logo, tamb\u00e9m, que a gente estava provocando. E a cada ano o p\u00fablico ia aumentando mais ainda. Ent\u00e3o, tivemos um per\u00edodo de, todo ano, j\u00e1 terminarmos uma edi\u00e7\u00e3o com a verba garantida para a pr\u00f3xima no ano seguinte. Porque havia editais. Isso foi na \u00e9poca da gest\u00e3o do (ent\u00e3o governador da Bahia) Jacques Wagner. Com a mudan\u00e7a para Rui Costa, e, tamb\u00e9m, no cen\u00e1rio nacional, com a persegui\u00e7\u00e3o \u00e0 Cultura de uma forma geral, ficamos muito tempo sem financiamento. E isso deu um desgaste muito grande. Porque ficamos tentando e n\u00e3o consegu\u00edamos. Era dif\u00edcil. Tentamos pelo governo federal, tamb\u00e9m, atrav\u00e9s da Ancine, quando houve edital espec\u00edfico, mas n\u00e3o ganhamos. Porque eles acharam que n\u00f3s n\u00e3o dar\u00edamos retorno financeiro suficiente para eles. Ficamos nessa espera. Entendendo tamb\u00e9m o momento, as situa\u00e7\u00f5es. O FECIBA parou justamente em 2016, no momento do Golpe contra Dilma. O Brasil j\u00e1 estava pegando fogo h\u00e1 um tempo. E a gente estava entendendo o que fazer. Ent\u00e3o, devido a essa pausa de financiamento, e a esse per\u00edodo, entramos em um processo mais de escuta, de observa\u00e7\u00e3o de como estava o cen\u00e1rio baiano. Dos anseios e das necessidades dos realizadores, da classe como um todo. E houve muita cobran\u00e7a da sociedade civil, das pessoas que j\u00e1 nos acompanhavam, dos cineastas que perguntavam pelo evento, querendo saber porque n\u00e3o ia acontecer. E h\u00e1 uma press\u00e3o muito grande para isso. Acho que foi uma resposta, de certa forma, por a gente querer realizar o evento e as pessoas tamb\u00e9m quererem que fosse realizado. O FECIBA \u00e9 feito em parceria com o Nuproart, o N\u00facleo de Produ\u00e7\u00f5es Art\u00edsticas, onde Victor Aziz atua como coordenador t\u00e9cnico, e Cristiane Santana como coordenadora geral. Foi um projeto que foi fruto dessa parceria, tamb\u00e9m. O festival tem muitas caras, muitas pessoas por detr\u00e1s. E agora, principalmente nessa s\u00e9tima edi\u00e7\u00e3o, refor\u00e7a como o cinema baiano \u00e9 amplo e diverso. Com a quantidade de inscri\u00e7\u00f5es. Acho que a diversidade est\u00e1 estampada em todas as frentes. Desde a equipe de curadoria aos filmes que s\u00e3o exibidos. Tamb\u00e9m resolvemos tirar a premia\u00e7\u00e3o esse ano, porque achamos que n\u00e3o era o momento de estimular essa competitividade. Aproveitando que a gente tinha a licen\u00e7a de fazer uma vers\u00e3o totalmente diferente, agora, tamb\u00e9m, por conta da pandemia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Com a importante Lei Aldir Blanc, essa volta foi poss\u00edvel. Como foi reformular o festival para uma vers\u00e3o on line, com a participa\u00e7\u00e3o de 11 pessoas na curadoria?<\/strong><br \/>Edson Bastos \u2013 O edital da Lei Aldir Blanc, agora, foi a oportunidade para suprirmos essas expectativas. Tanto as nossas quanto a do p\u00fablico em geral. S\u00f3 que como j\u00e1 haviam passado cinco anos, muita coisa mudou na gente, no Brasil e no mundo, de uma forma geral. E agora, vivendo uma pandemia, tamb\u00e9m. E n\u00f3s ficamos pensando nisso. O FECIBA, fosse presencial ou on line, n\u00e3o poderia mais ser da forma como era antes por diversos motivos. Porque j\u00e1 surgiram v\u00e1rias problem\u00e1ticas, v\u00e1rios outros anseios que a gente precisava arcar neste evento. E um deles era a representatividade. A pessoa se enxergar nas telas e na organiza\u00e7\u00e3o de uma forma geral. Ent\u00e3o, sempre centralizamos a curadoria em poucas pessoas. No m\u00e1ximo tr\u00eas ou quatro. E eu era uma delas. Os longas metragens eram convidados. Com essa possibilidade da Lei Aldir Blanc, e com a pandemia trazendo a obriga\u00e7\u00e3o da realiza\u00e7\u00e3o on line, entendemos que essa edi\u00e7\u00e3o deveria ser um ponta a p\u00e9 para um retorno e para um di\u00e1logo de uma forma geral com a classe. E, tamb\u00e9m, para a gente suprir esses anseios. De fazer o FECIBA de uma forma totalmente diferente, reformatando o projeto para essa edi\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, acho que um dos pontos mais positivos dele, inclusive, foi a diversidade e quantidade de pessoas na curadoria. Foram 11 pessoas de todo o estado, pessoas diversas, de faixas et\u00e1rias diferentes. Classes sociais diferentes, ra\u00e7as diferentes, sexualidades diferentes. Porque a realidade da gente precisa observar esses olhares. A Bahia \u00e9 muito ampla e muito m\u00faltipla, assim como o cinema baiano. Ent\u00e3o, nada melhor do que colocar essas pessoas para dialogar e entender o recorte que poderia dar dos filmes que foram lan\u00e7ados nesses \u00faltimos cinco anos em que n\u00e3o houve FECIBA.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em janeiro e fevereiro o FECIBA abriu um processo seletivo para montar a equipe de curadoria, citada acima por voc\u00ea. No final, onze nomes de gera\u00e7\u00f5es diferentes e diversos contatos com o audiovisual. Como foi esse di\u00e1logo entre as pessoas que compuseram essa equipe curatorial?<\/strong><br \/>Edson Bastos \u2013 Os di\u00e1logos entre curadores e curadoras eram muitos intensos. E havia discord\u00e2ncias e consensos. Por isso que chegamos nessa quantidade de filmes. S\u00e3o 50 filmes que v\u00e3o ser exibidos on line no site do FECIBA. Dez longas. Dez m\u00e9dias e trinta curtas. E \u00e9 justamente por isso. Para promover esse di\u00e1logo, para promover o debate sobre a diversidade, sobre as obras que precisam ocupar esses espa\u00e7os. Foi muito interessante colocar essas pessoas para dialogar e dar seguimento a esse processo que espero que nas pr\u00f3ximas edi\u00e7\u00f5es continuem dessa mesma forma. Que seja um marco para ampliar os nossos horizontes do que seja um cinema baiano, que \u00e9 um termo muito abstrato e importante de ser debatido, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-60424\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Curadores-FECIBA.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Curadores-FECIBA.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Curadores-FECIBA-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Curadores-FECIBA-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>50 filmes baianos (curtas, m\u00e9dias e longas) dos \u00faltimos cinco anos. Quando vi que essa era a proposta do FECIBA esse ano, achei uma ideia excelente por poder resgatar essa hist\u00f3ria recente do nosso cinema. Revisitando toda essa produ\u00e7\u00e3o e pensando nos pr\u00f3ximos anos, tanto como realizador como, tamb\u00e9m, produtores de um festival, voc\u00eas s\u00e3o otimistas?<\/strong><br \/>Edson Bastos \u2013 Jo\u00e3o, sou otimista, sim. Pelo o que observo como produtor executivo do projeto, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s edi\u00e7\u00f5es anteriores, e o que observo desse cen\u00e1rio dos \u00faltimos cinco anos. Inclusive, muitos filmes que circularam nesses \u00faltimos cinco anos, n\u00e3o est\u00e3o na programa\u00e7\u00e3o do FECIBA. E houve muitos filmes que n\u00e3o se inscreveram, tamb\u00e9m. Acho que at\u00e9 por conta do momento on line, da pandemia, ou por conta da exibi\u00e7\u00e3o do filme on line. E acho que tivemos uma quantidade de inscritos que ainda n\u00e3o compreende a quantidade de filmes dos \u00faltimos cinco anos. E, ao mesmo tempo, observo que, agora, a pandemia nos trouxe uma limita\u00e7\u00e3o, mas, tamb\u00e9m, nos exigiu criatividade. Tanto que o tema da gente esse \u00e9 &#8220;Dentro de casa, asa&#8221;, <a href=\"http:\/\/www.uesc.br\/editora\/livrosdigitais\/expressao_poetica.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que \u00e9 inspirado no poema de Valdelice Pinheiro<\/a>, uma poeta itabunense que criou o poema &#8220;Dentro do Ovo, o Voo&#8221;. E a ideia \u00e9 essa. A de buscar inspira\u00e7\u00e3o nesse per\u00edodo para sobreviver, para respirar, para criar. E a pandemia trouxe essa limita\u00e7\u00e3o, mas, ao mesmo tempo trouxe essa reflex\u00e3o da necessidade de produ\u00e7\u00e3o com o que a gente tem. Tem muita coisa sendo produzida agora nesse per\u00edodo da pandemia. E espero que fique como aprendizado justamente a autonomia da produ\u00e7\u00e3o. Da pessoa utilizar o equipamento ou o recurso dispon\u00edvel para poder realizar os seus projetos. Tivemos essa experi\u00eancia com \u201cCinema de Amor\u201d, a minha pesquisa no mestrado, no P\u00f3s Cultura, \u00e9 sobre a produ\u00e7\u00e3o audiovisual durante a pandemia. Ent\u00e3o, tem muitos filmes sendo feitos agora, apesar da pandemia. S\u00f3 pra citar exemplos, 200 curtas <a href=\"http:\/\/revistadecinema.com.br\/2020\/05\/projeto-curta-em-casa-fomentara-curtas-metragens-feitos-em-casa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">no festival Curta em Casa<\/a>; 200 curtas <a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/cultura\/itau-cultural-lanca-edital-de-emergencia-para-audiovisual-1-24475111\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">premiados pelo Ita\u00fa Cultural<\/a>. V\u00e1rios curtas premiados <a href=\"https:\/\/www.revistamuseu.com.br\/site\/br\/noticias\/nacionais\/8512-13-05-2020-funceb-lanca-8-edicao-do-calendario-das-artes-e-premiara-200-propostas-virtuais.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">pelo calend\u00e1rio das artes<\/a>.\u00a0 E assim sucessivamente, porque v\u00e1rios projetos e editais foram criados nessa linha de apoio. E de exibi\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, sou otimista e espero que o aprendizado fique em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 autonomia da produ\u00e7\u00e3o com os recursos que temos dispon\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Henrique Filho \u2013 Essa constru\u00e7\u00e3o, desde o primeiro FECIBA, serviu tamb\u00e9m para a gente como um mergulho no pr\u00f3prio cinema baiano. Confesso para voc\u00ea que, antes do FECIBA, eu n\u00e3o tinha muito conhecimento de cinema baiano. Uma compreens\u00e3o mais ampla sobre o que \u00e9 esse cinema. Isso veio at\u00e9 a ser o tema da terceira edi\u00e7\u00e3o. \u201cO que \u00e9 cinema baiano?\u201d Foi muito simb\u00f3lico para a gente. Come\u00e7amos a gravar um fala povo com as pessoas da rua que relacionavam o cinema baiano a apenas \u201cO Pai \u00d3\u201d, por conta da repercuss\u00e3o nacional que o filme ganhou. E n\u00f3s, realmente, desconhec\u00edamos o cinema baiano. A cada edi\u00e7\u00e3o do FECIBA, t\u00ednhamos aquele receio de que n\u00e3o ter\u00edamos filmes suficientes para montar uma programa\u00e7\u00e3o inteira de um festival com v\u00e1rias mostras. Foram diversas mostras que tivemos. Mostra Atualidades; Mostra Retrospectiva; Mostra Sexualidade, que trazia um recorte LGBTQIA+; Mostra Infanto-Juvenil; Mostra Bahia Adentro, que s\u00e3o filmes do interior. N\u00f3s t\u00ednhamos esse receio e come\u00e7amos a ficar muito surpresos com o crescimento das inscri\u00e7\u00f5es para o festival. Acho que foi justamente a partir dessa terceira edi\u00e7\u00e3o que usamos esse tema que provocou muito a compreens\u00e3o do que \u00e9 o cinema baiano. Isso colocou o FECIBA em outro lugar. No olhar dos cineastas, do p\u00fablico de forma geral. Porque come\u00e7amos a exibir filmes que eram muito bons e interessantes e que, se n\u00e3o fosse pelo FECIBA, l\u00e1 em Ilh\u00e9us, muitas pessoas n\u00e3o iriam conhec\u00ea-los. E n\u00e3o s\u00f3 quem era de Ilh\u00e9us. Tinha gente que viajava seis a oito horas de estrada para poder ir a Ilh\u00e9us durante o evento e conhecer essa cinematografia. E a\u00ed, n\u00f3s, como realizadores, come\u00e7amos a ter mais contato com esses cineastas de diversas gera\u00e7\u00f5es. Uma gera\u00e7\u00e3o que estava vindo, nova, irreverente. As gera\u00e7\u00f5es mais antigas e o que eles j\u00e1 traziam de hist\u00f3ria do cinema novo, do movimento Super8. Ent\u00e3o, acabamos entrando, mesmo, na hist\u00f3ria do cinema baiano e ficando muito surpresos com essa qualidade e a quantidade de filmes produzidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Henrique, perguntei ao Edson l\u00e1 no come\u00e7o sobre os desafios da constru\u00e7\u00e3o do festival ap\u00f3s esse hiato de cinco anos. Qual foi o impacto para voc\u00ea desse per\u00edodo?<\/strong><br \/>Henrique Filho \u2013 Ficamos muito sentidos durante esse per\u00edodo em que n\u00e3o tivemos o festival. Por v\u00e1rias quest\u00f5es e principalmente o contexto pol\u00edtico do que foram esses \u00faltimos cinco anos, desde o golpe. Sabemos que essas pol\u00edticas p\u00fablicas vieram pelo governo do PT e que fizeram que n\u00f3s, do interior, consegu\u00edssemos ser contemplados em editais e fazer trabalhos profissionais como esse pr\u00f3prio festival. E o FECIBA \u00e9 fruto dessa pol\u00edtica p\u00fablica. Ent\u00e3o, come\u00e7amos a ficar muito tristes com todo o contexto. Com os desmontes que estamos vivendo de l\u00e1 para c\u00e1. Estamos perdendo muita coisa. Tivemos desmonte da Ancine. Depois tiveram problemas com editais, com inscri\u00e7\u00f5es. Desmotiva\u00e7\u00e3o, mesmo, sabe? Enquanto realizadores. E a\u00ed eu acho que quando a gente come\u00e7a a retomar, j\u00e1 falando um pouco da nossa trajet\u00f3ria, quando retomamos a nossa produ\u00e7\u00e3o audiovisual de uma forma mais independente, com \u201cCinema de Amor\u201d, um filme que fizemos como um &#8220;selfmentary&#8221;, um longa metragem retratando a nossa pr\u00f3pria rotina enquanto cineastas, enquanto um casal gay, do interior e que mora em Salvador, e que vive de arte. Acho que isso trouxe uma renova\u00e7\u00e3o de energia na gente, sabe? De motiva\u00e7\u00e3o, mesmo. E com esse contexto da pandemia e a possibilidade dos eventos online, acabou que seria uma oportunidade muito boa para o FECIBA de fazer uma retomada em um formato diferente, porque j\u00e1 estamos em um contexto diferente. Acho que o desejo da gente para o futuro vai muito na perspectiva de voltar \u00e0 ess\u00eancia do festival. As mostras que a gente executava antes e que n\u00e3o conseguimos realizar agora, e que \u00e9 muito a cerne, a cara do FECIBA. E principalmente o fato de ser (anteriormente) um evento presencial. Ter se tornado um ponto de encontro de cineastas e realizadores para trocar ideias, fazer contatos, network, para ter contato com o p\u00fablico. Isso \u00e9 um desejo que se potencializa agora, na gente, nesse momento. N\u00e3o temos muito como prever politicamente os pr\u00f3ximos acontecimentos, por que estamos vivendo uma novela louqu\u00edssima, com v\u00e1rios acontecimentos que est\u00e3o mudando os rumos. N\u00e3o sabemos o que vai acontecer ainda em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pandemia, \u00e0 vacina, aos eventos presenciais, e como ficar\u00e1 a hist\u00f3ria do FECIBA com isso da\u00ed. Mas essa edi\u00e7\u00e3o, visualizando esses 50 filmes que est\u00e3o representando esses \u00faltimos cinco anos sem o FECIBA, j\u00e1 traz na gente todo o desejo de voltar a fazer o evento presencialmente. E de voltar a ser calend\u00e1rio de Ilh\u00e9us. O que era muito interessante do FECIBA \u00e9 que ele acontecia anualmente e em uma data muito semelhante, sempre. Constru\u00edamos, mesmo, um calend\u00e1rio, no qual as pessoas se organizavam para participar do evento. E acho que o nosso desejo do retorno do FECIBA \u00e9 esse. E o ideal \u00e9 que sejam nessas condi\u00e7\u00f5es. Por isso, talvez precisemos esperar mais algum tempo at\u00e9 as coisas se normalizarem para que ele volte a ter a mesma pot\u00eancia que tinha antes. E em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o audiovisual, nossa, a gente j\u00e1 consegue ver. A quantidade de inscritos que tivemos esse ano foi muito boa. Estamos tendo muita produ\u00e7\u00e3o nesse per\u00edodo de pandemia. Produ\u00e7\u00f5es independentes, produ\u00e7\u00f5es que est\u00e3o refletindo esse per\u00edodo hist\u00f3rico que estamos vivendo. Muitas coisas que est\u00e3o sendo feitas agora, e que ainda v\u00e3o precisar desse espa\u00e7o para serem exibidos, distribu\u00eddos, debatidos futuramente. Quando chegarmos em uma retomada do evento presencial, teremos bastante conte\u00fado para exibir. Porque, \u00e9 isso. O cinema baiano, por mais que tenham todos esses problemas, n\u00e3o est\u00e1 parado. Continuamos em movimento. Talvez de outra forma comparada com antes, mas continuamos produzindo bastante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas salientaram o fato de serem realizadores oriundos do interior da Bahia e, de fato, acompanhando a carreira de voc\u00eas desde 2011, sempre achei bonita essa rela\u00e7\u00e3o da sua filmografia com a cidade de Ipia\u00fa, onde nasceram.<\/strong><br \/>Edson Bastos \u2013 Sim, Ipia\u00fa \u00e9 refer\u00eancia nos trabalhos da gente desde os primeiros trabalhos. Temos uma rela\u00e7\u00e3o muito intensa com a cidade. Onde a gente viveu, onde temos as nossas mem\u00f3rias fincadas. \u00c9 onde as nossas fam\u00edlias moram, ainda, tamb\u00e9m. Estamos em constante contato. E \u00e9 uma cidade que nos d\u00e1 tudo, de certa forma. \u00c0s vezes ficamos muito agoniados por ser pequena e, \u00e0s vezes, acharmos que tem um pensamento tacanho. Mas \u00e9 uma cidade que nos d\u00e1 muitas ideias e possibilidades. Tanto que praticamente 99% da nossa obra fala sobre a nossa cidade. E a gente sempre faz com muito amor justamente porque sabemos do que estamos falando. N\u00f3s nos aprofundamos no que estamos falando. \u00c9 uma forma de levar Ipia\u00fa at\u00e9 as pessoas, e a nossa cidade ficar conhecida. Porque \u00e9 uma cidade \u00fanica, exclusiva, com coisas e hist\u00f3rias e monumentos que s\u00e3o \u00fanicos, inclusive. Temos alguns trabalhos por agora na Lei Aldir Blanc, inclusive um curta chamado \u201c\u00cdcone\u201d, sobre um pr\u00e9dio de nove andares, o \u00fanico pr\u00e9dio da cidade de Ipia\u00fa com nove andares, e que est\u00e1 parado h\u00e1 quase 40 anos. Foi constru\u00eddo em 1979, e em 1981 foi paralisado. At\u00e9 hoje, est\u00e1 l\u00e1 s\u00f3 a estrutura. E isso nos instigou a fazer esse curta que vamos lan\u00e7ar agora pela Lei Aldir Blanc. E \u00e9 isso. Nas nossas hist\u00f3rias, acabamos trazendo a nossa cidade, as nossas viv\u00eancias, as nossas mem\u00f3rias, os nossos familiares como refer\u00eancia para ir construindo as hist\u00f3rias que queremos contar. Para dar visibilidade a Ipia\u00fa, tamb\u00e9m, e aos artistas da nossa cidade. Fico muito feliz quando a gente consegue criar uma obra sobre a nossa cidade e perceber, ainda, que n\u00e3o se esgota a quantidade de assuntos, conte\u00fados e hist\u00f3rias que podemos criar nela. \u00c9 o nosso mini Projac.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hnrique Filho \u2013 Na forma como vejo, existe uma rela\u00e7\u00e3o muito grande de amor e \u00f3dio por Ipia\u00fa. Temos essa rela\u00e7\u00e3o da nostalgia muito grande, da mem\u00f3ria afetiva, pela inf\u00e2ncia, por tudo isso que Edson falou sobre os lugares da cidade, das pessoas, dos familiares. Mas tamb\u00e9m temos muita frustra\u00e7\u00e3o na cidade. Isso fez at\u00e9 com que a gente resolvesse vir morar em Salvador. E mesmo continuando todo nosso discurso para o interior e produzindo filmes que se passem em Ipia\u00fa, e mesmo que a gente v\u00e1 para l\u00e1 filmar, existe uma frustra\u00e7\u00e3o muito grande do descaso para a parte da Cultura de Ipia\u00fa. Voc\u00ea imagine essas cidade de 50 mil habitantes que j\u00e1 teve um espa\u00e7o cultural como o <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=7EChF_iAwec\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cine Eden<\/a>, que era um Cine Teatro onde aconteceu, por exemplo, apresenta\u00e7\u00e3o de Raul Seixas. Em uma \u00e9poca que nem \u00e9ramos nascidos ou t\u00ednhamos acabado de nascer. E a gente se depara com uma cidade que n\u00e3o tem sequer um equipamento cultural, um espa\u00e7o de exibi\u00e7\u00e3o. A gente produz um filme em Ipia\u00fa e n\u00e3o temos onde exibir. Sempre temos que procurar algum tipo de gambiarra ou alguma forma de fazer independente para viabilizar. Falta muita sensibilidade das pessoas. Inclusive, est\u00e1vamos gravando (o curta) \u201c\u00cdcone\u201d, entrevistando uma pessoa, e ela nos perguntou como ganhamos dinheiro. E a\u00ed falamos que era com nosso trabalho. E ele estava tendo um pouco de dificuldade de entender que o que n\u00f3s est\u00e1vamos fazendo ali, gravando um depoimento com ele, n\u00e3o era uma brincadeira. Era um trabalho. Ent\u00e3o, tem, sim, essa mentalidade. Ainda mais para n\u00f3s que somos dois jovens gays, e que somos casados. Existe um pensamento muito retrogrado em Ipia\u00fa e que isso, tamb\u00e9m, nos afasta de l\u00e1 de alguma forma. E acho que da\u00ed que vem nesse pacote essa rela\u00e7\u00e3o de amor e \u00f3dio. Temos um amor por toda essa mem\u00f3ria, mesmo, e essas frustra\u00e7\u00f5es todas em rela\u00e7\u00e3o a Ipia\u00fa. E a\u00ed come\u00e7amos a construir essas hist\u00f3rias para al\u00e9m da mem\u00f3ria afetiva, mas, porque, querendo ou n\u00e3o, acabamos trazendo hist\u00f3rias que s\u00e3o universais. S\u00f3 que elas se passam em Ipia\u00fa. Elas precisam se passar em algum lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E tem, tamb\u00e9m, o fato de que Salvador concentra muitas das hist\u00f3rias contadas pelo cinema baiano. Descentralizar isso \u00e9 importante.<\/strong><br \/>Henrique Filho \u2013 Sim. Quantas hist\u00f3rias se passam em Salvador? Quantos filmes que j\u00e1 se passaram em Salvador? E quantos filmes se passaram em Ipia\u00fa? Se colocarmos na balan\u00e7a, vemos que isso segue por uma linha muito mais original de produ\u00e7\u00e3o se pegarmos a nossa pr\u00f3pria cultura. Cada cidade tem sua cultura, mesmo pertencente a um s\u00f3 estado. Mesmo sendo da mesma Bahia, n\u00e3o \u00e9 a mesma de Salvador, n\u00e3o \u00e9 a mesma de \u201c\u00d3 Pa\u00ed \u00d3\u201d, n\u00e3o \u00e9 a mesma do Centro Hist\u00f3rico, do sotaque, das comidas. Tem sempre uma diferen\u00e7a muito grande na rotina em si das pessoas. E para n\u00f3s \u00e9 tudo muito interessante. \u00c9 tudo muito cinematogr\u00e1fico, tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, quando fazemos um filme que se passa em Ipia\u00fa, n\u00e3o \u00e9 necessariamente de uma forma panflet\u00e1ria de querer apenas levar Ipia\u00fa para o mundo, de querer divulgar Ipia\u00fa. N\u00e3o \u00e9 no intuito apenas da divulga\u00e7\u00e3o da cidade. Mas \u00e9 para entender de que forma podemos valorizar a nossa pr\u00f3pria cultura. Porque, afinal de contas, somos de l\u00e1. Falamos, tamb\u00e9m, como as pessoas de l\u00e1. Entendemos o linguajar e o comportamento. E como podemos nos colocar nestes projetos. No momento em que nos colocamos nos projetos, tamb\u00e9m estamos colocando Ipia\u00fa porque l\u00e1 \u00e9 o nosso lugar. \u00c9 o nosso terreno, ali, digamos. Todos esses filmes que se passam em Ipia\u00fa, da nossa produ\u00e7\u00e3o, s\u00e3o filmes universais e que circulam, tamb\u00e9m, pelo mundo. Temos alguns exemplos de alguns filmes que tiveram uma excelente distribui\u00e7\u00e3o, como o pr\u00f3prio \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=-ZWSdtzX0u0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Filme de Carlinhos<\/a>\u201d, que passou no Short Film Corner, do festival de Cannes, <a href=\"https:\/\/vooaudiovisual.com.br\/o-filme-de-carlinhos-em-cannes-e-no-grande-premio-do-cinema-brasileiro-2015\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">e que teve uma repercuss\u00e3o e premia\u00e7\u00e3o internacional<\/a>, tamb\u00e9m. Exibi\u00e7\u00e3o em v\u00e1rios festivais grandes fora do pa\u00eds. Por mais que essa hist\u00f3ria de Carlinhos se passe em Ipia\u00fa, \u00e9 uma hist\u00f3ria universal. \u00c9 uma hist\u00f3ria que uma crian\u00e7a, ou um jovem ou adulto de qualquer outro lugar do pa\u00eds, consegue entender esse desejo e pode se reconhecer ali, de falar; &#8220;poxa, eu tamb\u00e9m tive esse desejo e corri atr\u00e1s&#8221;. As diferen\u00e7as s\u00e3o as ruas, \u00e9 a cara do povo. \u00c9 a forma como o povo fala, e que, para a gente, isso \u00e9 muito original, criativo e interessante, mesmo. Ao inv\u00e9s da gente centralizar em lugares que j\u00e1 t\u00eam essa explora\u00e7\u00e3o de imagem muito maior como \u00e9 o caso de Salvador&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Edson Bastos \u2013 Para voc\u00ea ter uma no\u00e7\u00e3o, Jo\u00e3o, Lula Martins, que fez \u201c<a href=\"http:\/\/enciclopedia.itaucultural.org.br\/obra67282\/meteorango-kid-o-heroi-intergalatico\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Meteorango Kid<\/a>\u201d, ele foi um dos primeiros projecionistas do Cine Eden. Ent\u00e3o, tem essa rela\u00e7\u00e3o a\u00ed, tamb\u00e9m. De v\u00e1rios cineastas, v\u00e1rias pessoas que j\u00e1 foram e conhecem Ipia\u00fa. Gl\u00e1uber ia direto a Ipia\u00fa. Acho que ele tinha parente l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Henrique Filho \u2013 E eu acho que n\u00e3o \u00e9 nem s\u00f3 a quest\u00e3o de ser a cidade da gente, mas tem um fator que \u00e9 Ipia\u00fa ter casos muito curiosos. E que, pela regi\u00e3o, s\u00e3o sempre muito comentados. Em v\u00e1rios lugares do pa\u00eds, tem gente que comenta sobre coisas que s\u00e3o muito inusitadas em Ipia\u00fa, sabe? S\u00e3o hist\u00f3rias de personagens muito inusitados. Eu acho que isso se torna um prato cheio para a dramaturgia de uma cidade que, ao mesmo tempo, \u00e9 muito parada, mas tem umas hist\u00f3rias e acontecem algumas coisas que s\u00e3o muito surreais, estranhas e espont\u00e2neas. E que acabamos por agregar ao nosso trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Edson Bastos \u2013 Est\u00e3o em alguns dos filmes da gente, como \u201c<a href=\"https:\/\/vooaudiovisual.com.br\/portfolio-item\/veras\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Veras<\/a>\u201d, como a pr\u00f3pria \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=paZ4Dv9nQXg&amp;list=PLgj0__qgsh7hIxVjps2txZQQhI6xPZkFf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Joelma<\/a>\u201d, que \u00e9 uma das primeiras transsexuais transg\u00eanero da Bahia e do Brasil. Ela, hoje, est\u00e1 com 75 anos. Veras, que foi um bon vivant da cultura cacaueira, tamb\u00e9m \u00e9 citado no filme \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=OGrIMj-4UWc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Dzi Croquetes<\/a>\u201d.\u00a0 O pr\u00f3prio Euclides Neto, inclusive, que \u00e9 uma grande refer\u00eancia para a gente. Um escritor de Ipia\u00fa com 14 obras lan\u00e7adas. (N.E. Euclides Neto foi tema do filme \u201c<a href=\"https:\/\/vooaudiovisual.com.br\/portfolio-item\/dr-ocride\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Dr. Ocride<\/a>\u201d, produ\u00e7\u00e3o de 2018).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Henrique Filho \u2013 Um homem revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Edson Bastos \u2013 E que, tamb\u00e9m, traz essa est\u00e9tica de falar sobre o interior, falar sobre Ipia\u00fa e sobre aquilo que ele conhece tamb\u00e9m. Ele \u00e9 uma grande refer\u00eancia para a gente, tamb\u00e9m. Al\u00e9m do jornalista Jos\u00e9 Am\u00e9rica Castro, que sempre aborda as mem\u00f3rias de Ipia\u00fa atrav\u00e9s de personagens. Outro exemplo, tamb\u00e9m, de curta em que abordamos Ipia\u00fa \u00e9 o \u201c\u00cdcone\u201d, que estamos filmando agora sobre o pr\u00e9dio. Ent\u00e3o, tem coisas bem inusitadas na cidade, bem \u00fanicas, e que, ao mesmo tempo, conseguimos transformar em universais.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.feciba.com.br\/2021\/programacao-completa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone wp-image-60425 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/feciba212.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/feciba212.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/feciba212-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/feciba212-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Henrique, voc\u00ea citou \u201cCinema de Amor\u201d, e eu queria perguntar a voc\u00eas dois acerca da coragem do filme, da constru\u00e7\u00e3o de uma obra que desnuda a intimidade de voc\u00eas dois e \u00e9 feita em um momento no qual acontece exatamente o que voc\u00ea citou em rela\u00e7\u00e3o ao desmonte da Cultura, no primeiro ano desse atual desgoverno. Como foi a constru\u00e7\u00e3o do filme para voc\u00eas?<\/strong><br \/>Henrique Filho \u2013 Ed come\u00e7ou a trajet\u00f3ria dele como realizador mais relacionado com essa quest\u00e3o de Ipia\u00fa em si no cinema. Eu, no meu primeiro curta, n\u00e3o necessariamente trouxe Ipia\u00fa ali no filme. Depois \u00e9 que fui cada vez mais embarcando nessa, tamb\u00e9m, e entendendo tudo que a gente exp\u00f4s para voc\u00ea na resposta anterior. \u201cCinema de Amor\u201d chega nesse momento. Justamente nesse contexto pol\u00edtico muito duro, muito dif\u00edcil para n\u00f3s, que foi logo o primeiro semestre do governo de Bolsonaro. Est\u00e1vamos vivendo, at\u00e9 ent\u00e3o, uma crescente muito estimulante para as escolhas que fizemos na nossa profiss\u00e3o. De conseguir ser contemplados em editais, de produzir um curta anual falando sobre nossa cidade. Produzindo o Festival de Cinema Baiano, v\u00e1rios projetos muito relevantes e interessantes que a gente estava empolgado, gostando mesmo de produzir. E a\u00ed chegou esse momento do governo de Bolsonaro, j\u00e1 desde um pouco antes, j\u00e1 se reverberando pelo Golpe, mas entre 2018 e 2019, tivemos uma baixa absurda de produ\u00e7\u00e3o. Naquela crescente, n\u00f3s j\u00e1 est\u00e1vamos at\u00e9 estabelecendo aqui no nosso ambiente uma base de produ\u00e7\u00e3o para ocupar e continuar trabalhando. E essa base de produ\u00e7\u00e3o estava se mantendo ativa durante esses projetos. Era uma crescente muito bonita. E isso vem com uma frustra\u00e7\u00e3o muito grande. Porque, primeiro, est\u00e1vamos acostumados com esse crescimento. E, ent\u00e3o, recebemos uma baixa e ficamos meio sem saber como lidar com isso. E com muitas d\u00favidas. Se dever\u00edamos abandonar a profiss\u00e3o, seguir por outra \u00e1rea. A frustra\u00e7\u00e3o de n\u00e3o estar conseguindo pagar as contas, de n\u00e3o estar tendo essa dignidade que a gente estava buscando, que a gente tinha conquistando antes. E ter tantos direitos diminu\u00eddos e com toda a sensa\u00e7\u00e3o de preocupa\u00e7\u00e3o com a nossa pr\u00f3pria seguran\u00e7a, por sermos LGBTs dentro de um governo com um discurso completamente homof\u00f3bico, violento, genocida. Ent\u00e3o, realmente, ficamos muito mal durante um per\u00edodo. E esse per\u00edodo de ficar mal, n\u00f3s tamb\u00e9m ficamos mais distantes da produ\u00e7\u00e3o. A gente meio que n\u00e3o estava mais produzindo. O que estava nos causando, tamb\u00e9m, uma certa ang\u00fastia de querer produzir alguma coisa, se manifestar de alguma forma. Ent\u00e3o, acho que tivemos essa sagacidade de aproveitar esse momento dif\u00edcil, duro, para registrarmos. Porque, na constru\u00e7\u00e3o do cinema, um elemento que \u00e9 muito importante s\u00e3o os conflitos. E esse foi um per\u00edodo de muito conflito para n\u00f3s. E fizemos de uma forma extremamente despretensiosa mesmo. Inclusive, nem sab\u00edamos se ia se tornar um filme, um curta ou um longa. S\u00f3 est\u00e1vamos filmando e editando. E sentindo. E a\u00ed, quando terminamos, tivemos essa no\u00e7\u00e3o do quanto que a gente estava se expondo. Expondo nossas maiores intimidades, e que n\u00e3o foram forjadas para o filme. Foram org\u00e2nicas. Intimidade como a nossa casa, como as cenas de DR, de briga. A intimidade de estar de cueca em casa. A forma como a gente estava em casa. E isso ser visto por v\u00e1rias pessoas, de v\u00e1rios tipos de olhares, sejam eles preconceituosos ou n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi discutir entre voc\u00eas dois essa exposi\u00e7\u00e3o pessoal que \u201cCinema de Amor\u201d traz?<\/strong><br \/>Henrique Filho \u2013 A gente, realmente, se exp\u00f4s muito. E conversamos muito sobre essa exposi\u00e7\u00e3o. S\u00f3 que essa exposi\u00e7\u00e3o, para a gente, acabou n\u00e3o vindo de uma forma negativa. N\u00f3s nos sentimos, depois, \u00e0 vontade. Porque percebemos a import\u00e2ncia desse registro enquanto um registro hist\u00f3rico e o que n\u00e3o somente n\u00f3s dois, eu e Edson, est\u00e1vamos vivendo, mas do que toda uma classe estava vivendo nesse per\u00edodo. E essa exposi\u00e7\u00e3o vem como uma manifesta\u00e7\u00e3o muito pol\u00edtica. A gente j\u00e1 tinha um pouco de um tipo de exposi\u00e7\u00e3o na pr\u00f3pria rede social, no Instagram, de publicar foto de beijo. E isso j\u00e1 gerou diversas pol\u00eamicas familiares, entre outras pessoas, por apenas uma foto de beijo que, em um perfil heterossexual, jamais \u00e9 questionado. E conosco j\u00e1 foi muito questionado. E ao inv\u00e9s de parar e deixar de publicar, eu continuei ainda publicando como uma forma pol\u00edtica. Porque, se est\u00e1 mexendo de alguma forma com a pessoa, est\u00e1 comunicando algo. Isso dialoga muito com \u201cCinema de Amor\u201d, da gente expor a nossa intimidade como um grito tamb\u00e9m. Um grito de desespero, de socorro, de desabafo, de frustra\u00e7\u00e3o, e de pessoas que estavam ali perdidas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 profiss\u00e3o. E n\u00e3o imagin\u00e1vamos o quanto isso poderia reverberar nas sess\u00f5es. <a href=\"https:\/\/vooaudiovisual.com.br\/cinema-de-amor-ganha-3-premios-no-panorama-coisa-de-cinema\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Houve sess\u00f5es de \u201cCinema de Amor\u201d no Panorama de Cinema<\/a>, que tinham pessoas que saiam chorando e vinham abra\u00e7ar a gente. N\u00f3s est\u00e1vamos no 02 de fevereiro, antes da Pandemia, ao pisar na festa do Rio Vermelho, fomos parados por pessoas que vinham nos abra\u00e7ar porque tinham nos identificado por causa de \u201cCinema de Amor\u201d. E elas queriam nos dar um abra\u00e7o para confortar e de falar: &#8220;Puxa, me identifiquei. Tamb\u00e9m estou vivendo a mesma coisa&#8221;. Foram muitas pessoas que se identificaram com o filme por conta dessa crueza, mesmo. Dessa realidade que tem ali. Dessa intimidade. \u00c9 como se a gente, realmente, se desnudasse, tirasse qualquer tipo de m\u00e1scara e de qualquer possibilidade para mostrar o qu\u00e3o realista estava sendo aquela situa\u00e7\u00e3o que est\u00e1vamos vivendo. Os momentos de depress\u00e3o, os momentos de alegria, de tristeza. E foi muito impressionante, porque a gente estava justamente em um per\u00edodo sem produ\u00e7\u00e3o audiovisual, e quando geramos esse produto, ele se torna um longa-metragem que \u00e9 selecionado para festival. Um longa metragem que \u00e9 premiado, que come\u00e7a a construir uma trajet\u00f3ria de distribui\u00e7\u00e3o. E que come\u00e7a a render para a gente diversos frutos. Porque muitas pessoas da \u00e1rea come\u00e7aram a entender e a ver a gente de uma outra forma, o que desdobrou depois em at\u00e9 outros trabalhos para n\u00f3s. As pessoas viram a qualidade do nosso trabalho, toda a perspectiva da dire\u00e7\u00e3o ou na perspectiva do trabalho de edi\u00e7\u00e3o em si. Acabamos tendo uma reverbera\u00e7\u00e3o dos nossos nomes de uma forma muito positiva para revertermos todo esse quadro do que est\u00e1vamos vivendo, de estar sem produ\u00e7\u00e3o e estimulo. E a partir de \u201cCinema de Amor\u201d, conseguimos recuperar muito da nossa dignidade, da gente conseguir pagar as nossas contas e de conseguirmos continuar na nossa profiss\u00e3o e trabalhar muito. N\u00f3s n\u00e3o imagin\u00e1vamos que iriamos colher tantos frutos com o filme, como o que aconteceu. Porque, realmente, n\u00e3o criamos expectativas por ter sido um projeto muito despretensioso. E com ele, gerou uma reverbera\u00e7\u00e3o muito interessante do nosso nome. Possibilidades de trabalho que surgiram a partir do filme, com exibi\u00e7\u00f5es e com debates que surgiram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lembro-me das sess\u00f5es que voc\u00eas come\u00e7aram a organizar em sua pr\u00f3pria casa, recebendo o p\u00fablico para assistir ao filme.<\/strong><br \/>Edson Bastos \u2013 Sim. Fomos muito felizes por termos podido proporcionar a experi\u00eancia da <a href=\"https:\/\/fb.watch\/4azYZpDwFD\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sess\u00e3o Priv\u00ea de \u201cCinema de Amor\u201d<\/a>, o que, para n\u00f3s, foi algo muito inovador por podermos fazer a sess\u00e3o do filme dentro da casa da gente. N\u00f3s cobr\u00e1vamos o ingresso, um valor simb\u00f3lico, preparava um caf\u00e9, uma pipoca, e recebia gente entre amigos e pessoas desconhecidas. Receb\u00edamos na nossa casa para exibir o filme aqui no nosso sof\u00e1. E isso gerava nas pessoas uma sensa\u00e7\u00e3o muito interessante, quase que uma sensa\u00e7\u00e3o de cinema 4D. De voc\u00ea estar no lugar onde o filme se passa, estar sentado no sof\u00e1 onde est\u00e1 acontecendo uma cena e de ir visualizando detalhes da casa. Tem uma cena de \u201cCinema de Amor\u201d em que estamos desfazendo a base de produ\u00e7\u00e3o e reorganizando os pr\u00eamios aqui na prateleira. Quando esse momento do filme passava, as pessoas que estavam aqui olhavam para cima e viam que, sim, os pr\u00eamios estavam ali em cima mesmo, como estava l\u00e1 no filme. E come\u00e7ava a trazer mais realidade para quem estava assistindo. Foi uma experi\u00eancia muito legal. Quando se instaurou a pandemia, tivemos que interromper e n\u00e3o fizemos mais a sess\u00e3o priv\u00ea. E o que foi muito doido na cabe\u00e7a da gente, tamb\u00e9m, foi o quanto que conseguimos fazer desse filme, \u201cCinema de Amor\u201d, um ano antes da pandemia, e que, durante a pandemia, esse formato se potencializou. \u00c9 como se antes da pandemia, n\u00f3s tiv\u00e9ssemos nos acostumado com um tipo de qualidade de imagem e que, durante a pandemia, como tudo se tornou audiovisual, as videochamadas, os encontros, os projetos, tudo era dessa forma, o olhar de todo mundo acabou se acostumando muito para esse tipo de qualidade. E que \u00e9 o tipo de qualidade compat\u00edvel, tamb\u00e9m, com o pr\u00f3prio \u201cCinema de Amor\u201d. E a\u00ed a gente acabou fazendo algo de uma forma at\u00e9 meio antecipada do que o que veio depois, durante esse per\u00edodo, em termos de produ\u00e7\u00e3o. De voc\u00ea se retratar, de filmar a sua casa, dessa pot\u00eancia que tem de colocar a casa como um personagem do filme. L\u00f3gico que n\u00e3o criamos isso, pois j\u00e1 existia antes. Mas isso se potencializou durante a pandemia e conseguimos nos antecipar e fazer esse formato antes dela. E a\u00ed, durante esse per\u00edodo, acho que \u201cCinema de Amor\u201d acabou ganhando muito mais pot\u00eancia. Porque o olhar das pessoas j\u00e1 estava melhor acostumado com esse tipo de imagem. <a href=\"https:\/\/www.mixbrasil.org.br\/28\/cinema\/vozes-do-brasil-real\/cinema-de-amor\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Foi quando ele foi selecionado para o Mix Brasil<\/a>, que foi uma experi\u00eancia muito importante para a carreira do filme. L\u00f3gico, para al\u00e9m da premia\u00e7\u00e3o que teve no Panorama, mas o Mix Brasil \u00e9 o maior festival LGBTQIA+ da Am\u00e9rica Latina. Ent\u00e3o, para n\u00f3s, isso tinha um significado muito importante pelo filme seguir, tamb\u00e9m, uma linha de discurso LGBTQIA+. Ficamos muito felizes com essa sele\u00e7\u00e3o. E ele come\u00e7ou a ser convidado para fazer v\u00e1rias exibi\u00e7\u00f5es. Vai acontecer uma agora em abril, inclusive, <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/CinePapoDigital\/photos\/a.102497188519601\/102497115186275\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">pela Sala de Arte<\/a>. Foram gerados tantos desdobramentos que eu n\u00e3o sei nem te dizer. A gente nem imaginava nada disso, enquanto est\u00e1vamos produzindo, sabe? \u00c0s vezes eu sinto que se tiv\u00e9ssemos feito um outro tipo de projeto, com dinheiro, ou de um outro formato que n\u00e3o tivesse esse contexto dele, talvez nem teria tido a mesma distribui\u00e7\u00e3o que teve de um projeto que foi totalmente independente, sem recursos. Isso foi muito provocador na gente de pensar: &#8220;N\u00e3o, estamos aqui sem recurso, sem condi\u00e7\u00e3o de fazer. Estamos na merda, mas agora a gente vai poder produzir com isso, tamb\u00e9m.&#8221; E foi muito bom que a gente tenha feito isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Henrique Filho \u2013 E se vacilar foi o momento que recebemos alguma coisa por distribui\u00e7\u00e3o. A gente faz v\u00e1rios filmes, faz contato com distribuidores, exibe em festival, e tal. E por mais que seja tudo \u00f3timo, n\u00e3o levamos um centavo. N\u00e3o que tenhamos recebido muito dinheiro, ou algum dinheiro significativo, mas para n\u00f3s foi muito simb\u00f3lico receber algum dinheiro por distribui\u00e7\u00e3o sem depender de ningu\u00e9m. Sem depender de distribuidor nem de nada. Apenas com uma a\u00e7\u00e3o na rede social. Ent\u00e3o, foi muito legal. E estava tendo uma procura muito boa. \u00cdamos fazer, inclusive, uma sess\u00e3o mais especial, que a\u00ed, ao inv\u00e9s de servir s\u00f3 caf\u00e9 e pipoca, a gente ia servir um signo do bar do Zod\u00edaco, n\u00e9? Aquela brincadeira que tem do bar do Zod\u00edaco no filme. N\u00f3s \u00edamos reproduzir o bar do Zod\u00edaco aqui em casa, e depois ia ter o drinque de cada signo da pessoa que est\u00e1 ali assistindo ao filme junto. Mas acabou que n\u00e3o deu certo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Cinema de Amor - Teaser\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/n7ePuloNeFU?list=PLgj0__qgsh7h6mYJx3x5dI0ddaaaxrIsW\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Inteiramente gratuita e on line com 50 filmes baianos (curtas, m\u00e9dias e longas) dos \u00faltimos cinco anos exibidos no site do festival e no Youtube, come\u00e7a nesta segunda (15 de mar\u00e7o), e segue at\u00e9 o dia 26, a 7\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Festival de Cinema Baiano (FECIBA)\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/03\/14\/entrevista-edson-bastos-e-henrique-filho-falam-da-7a-edicao-do-festival-de-cinema-baiano-feciba\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":60422,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[5077],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60416"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=60416"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60416\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":60430,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60416\/revisions\/60430"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/60422"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=60416"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=60416"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=60416"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}