{"id":60317,"date":"2021-03-07T00:44:07","date_gmt":"2021-03-07T03:44:07","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=60317"},"modified":"2023-04-12T02:14:51","modified_gmt":"2023-04-12T05:14:51","slug":"entrevista-jorge-bodanzky-fala-sobre-a-serie-transamazonica-uma-estrada-para-o-passado-hbo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/03\/07\/entrevista-jorge-bodanzky-fala-sobre-a-serie-transamazonica-uma-estrada-para-o-passado-hbo\/","title":{"rendered":"Entrevista: O diretor Jorge Bodanzky fala sobre a s\u00e9rie &#8220;Transamaz\u00f4nica &#8211; Uma Estrada para o Passado&#8221; (HBO)"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil do &#8220;passar a boiada&#8221;, pa\u00eds da explora\u00e7\u00e3o irracional e desenfreada da Amaz\u00f4nia em nome de um &#8220;progresso&#8221; que s\u00f3 existe para poucos, a Hist\u00f3ria se repete de maneira sempre tr\u00e1gica. Jorge Bodanzky, que dirigiu, em 1975, ao lado de Orlando Senna, o cl\u00e1ssico \u201cIracema &#8211; Uma Transa Amaz\u00f4nica\u201d, conhece essa repeti\u00e7\u00e3o e a aborda de maneira \u00edmpar, junto ao co-diretor Fabiano Maciel, em \u201cTransamaz\u00f4nica &#8211; Uma Estrada para o Passado\u201d, s\u00e9rie em seis epis\u00f3dios atualmente em exibi\u00e7\u00e3o pelo canal HBO Mundi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sua cena de abertura, \u201cTransamaz\u00f4nica &#8211; Uma Estrada para o Passado\u201d, traz uma fala de Bodanzky sobre o aspecto fara\u00f4nico da obra iniciada no governo do sanguin\u00e1rio M\u00e9dici. Obra esta que ligava o nada a lugar nenhum, &#8220;conectando os famintos do Nordeste aos miser\u00e1veis do Norte&#8221;. Na sua fala, o cineasta aborda o revisitar a alguns dos pontos daquela estrada inacabada, desde seu quilometro zero, em Cabedelo, na Para\u00edba, passando por diversos outros locais simb\u00f3licos daquele trajeto em dire\u00e7\u00e3o ao Norte do Brasil. A constata\u00e7\u00e3o trazida pelo cineasta nesta entrevista ao Scream &amp; Yell \u00e9 de que, ap\u00f3s diversos retornos seus \u00e0 Amaz\u00f4nia, \u00e0 frente deste novo e de outros trabalhos anteriores, aqueles problemas que o seu filme de 1975 destacavam permanecem os mesmos quase meio s\u00e9culo depois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu visitei a Amaz\u00f4nia muitas vezes nesse per\u00edodo todo. S\u00e3o 45 anos. E o que eu observei, a partir da primeira vez, \u00e9 que o os problemas que o \u2018Iracema\u2019 coloca, todos, todos sem exce\u00e7\u00e3o, s\u00f3 aumentam. A quest\u00e3o do menor de idade na prostitui\u00e7\u00e3o, o trabalho escravo, a quest\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o do solo, a quest\u00e3o da madeira, os grandes projetos. Todos os temas que o \u2018Iracema\u2019 aborda s\u00f3 cresceram. Eles s\u00f3 aumentaram e continuam aumentando&#8221;, explica Bodanzky.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para al\u00e9m do asfalto e do barro que se encontram nos trajetos de suas constru\u00e7\u00f5es tanto narrativas quanto geogr\u00e1ficas, \u201cTransamaz\u00f4nica &#8211; Uma Estrada para o Passado\u201d carrega boa parte de sua for\u00e7a em seus personagens e no modo como seus encontros se apresentam para a audi\u00eancia. Desde o equil\u00edbrio entre a quest\u00e3o pragm\u00e1tica e cient\u00edfica do registro dos fatos a partir de um historiador que det\u00e9m vasto acervo tanto material quanto imaterial em sua liga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da estrada, at\u00e9 as quest\u00f5es de f\u00e9 de um padre e sua congrega\u00e7\u00e3o em um dos munic\u00edpios existentes na regi\u00e3o, esse encontro com tais figuras enriquecem a s\u00e9rie e denotam o denso trabalho de pesquisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Foi um longo, longo trabalho de prepara\u00e7\u00e3o. Foi uma equipe de prepara\u00e7\u00e3o, com o produtor Nuno Godolphim, que viajou durante um bom tempo para achar esses personagens. N\u00f3s quer\u00edamos mostrar a hist\u00f3ria da Transamaz\u00f4nica com o testemunho das pessoas que vivem l\u00e1. N\u00e3o adianta falar as coisas pela gente, apenas. Quer\u00edamos que a estrada falasse por ela mesma. E quem \u00e9 a estrada? A estrada s\u00e3o as pessoas que moram l\u00e1. Ent\u00e3o, foi um longo e minucioso processo de se escolher esses personagens. Ach\u00e1vamos que cada um, da sua maneira, poderia contar um aspecto dessa hist\u00f3ria&#8221;, pontua o diretor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O produtor Nuno Godolphim apresenta, tamb\u00e9m, um pouco desse processo, trazendo uma estrutura\u00e7\u00e3o de cada um dos seis cap\u00edtulos da s\u00e9rie. &#8220;Nos tr\u00eas primeiros epis\u00f3dios, ela apresenta essa rela\u00e7\u00e3o com passado, esses grandes problemas hist\u00f3ricos. A partir do quarto, ela d\u00e1 uma virada. Come\u00e7amos a sair da estrada e nos aproximar dos problemas de perto. Ela vira quase um thriller. J\u00e1 no quinto epis\u00f3dio, ainda fora da estrada, conhecemos as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. A s\u00e9rie vai ter uma coisa mais l\u00edrica para lidar com essas popula\u00e7\u00f5es. E o sexto \u00e9 esse encerramento l\u00e1 no fim da estrada onde a floresta n\u00e3o deixou que os militares seguissem a construindo at\u00e9 o Peru, como eles gostariam&#8221;, explica o produtor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na s\u00e9rie, a citada reflex\u00e3o hist\u00f3rica em rela\u00e7\u00e3o ao modo c\u00edclico como os fatos se repetem, torna-se evidente quando observamos todo o planeta olhar com indigna\u00e7\u00e3o para a destrui\u00e7\u00e3o amaz\u00f4nica, exceto aqueles que dizem nos governar, que seguem com seu projeto de destrui\u00e7\u00e3o definido pelo &#8220;passar a boiada&#8221;. Bodanzky, com seus quase 50 anos de constante contato com a Amaz\u00f4nia, criva: &#8220;Voc\u00ea fala do momento agora, em que a Amaz\u00f4nia s\u00f3 \u00e9 citada quando tem grandes trag\u00e9dias. Eu vou at\u00e9 um pouco mais adiante. Acho que a Amaz\u00f4nia \u00e9 uma trag\u00e9dia permanente. Ela nunca deixou de ser uma trag\u00e9dia. Infelizmente. Esses problemas todos se alternam, mas est\u00e3o sempre presentes&#8221;, esclarece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cIracema &#8211; Uma Transa Amaz\u00f4nica\u201d, um personagem simb\u00f3lico \u00e9 o Ti\u00e3o &#8220;Brasil Grande&#8221;, interpretado com vigor por Paulo Cesar Pereio. Com seu discurso ufanista, falacioso e fr\u00e1gil, o caminhoneiro aborda o &#8220;progresso&#8221; como sendo mais importante que a natureza. A rima tr\u00e1gica com o discurso oportunista e covarde da atualidade \u00e9 dolorosa. &#8220;Os Ti\u00f5es de hoje s\u00e3o os garimpeiros. S\u00e3o aqueles que falam as mesmas coisas que falava o Ti\u00e3o em cima do caminh\u00e3o. A pol\u00edtica oficial deste governo \u00e9 exatamente aquilo que o Ti\u00e3o fala. O projeto dos militares que constru\u00edram a Transamaz\u00f4nica foi a base de todos os projetos que vieram depois. Mesmo nos governos civis e, principalmente agora, de novo, com uma vis\u00e3o dos militares sobre a ocupa\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia. \u00c9 a mesma. N\u00e3o mudou nada. Na cabe\u00e7a das pessoas que planejaram a Amaz\u00f4nia durante a ditadura militar nos anos 1970, \u00e9 a mesma (vis\u00e3o). Veja o que o general Mour\u00e3o est\u00e1 falando. \u00c9 a mesma coisa, hoje. Absolutamente a mesma. Em 50 anos, n\u00e3o conseguiram enxergar a Amaz\u00f4nia de uma maneira diferente&#8221;, finaliza Jorge Bodanzky.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O medo da trag\u00e9dia que se anuncia n\u00e3o somente com a constante destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, mas com a combina\u00e7\u00e3o do fracassado projeto militar da Transamaz\u00f4nica ecoando junto ao genocida projeto de Brasil atualmente em curso, \u00e9 palp\u00e1vel. Olhar para o passado, aprender com essas trag\u00e9dias e n\u00e3o repeti-las \u00e9 urgente. Desesperan\u00e7oso e inalcan\u00e7\u00e1vel diante de tanta ignor\u00e2ncia, admito, mas urgente. Nesta entrevista ao Scream &amp; Yell, Jorge Bodanzky aprofunda mais suas vis\u00f5es sobre a experi\u00eancia de revisitar muitas vezes o tema da Amaz\u00f4nia nos \u00faltimos 45 anos, e, apesar de tudo, traz uma otimista e revigorante vis\u00e3o de futuro. Confira o papo!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"TRANSAMAZO\u0302NICA: UMA ESTRADA PARA O PASSADO\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/cbkLODvRjE8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na abertura de \u201cTransamaz\u00f4nica &#8211; Uma Estrada para o Passado\u201d, voc\u00ea traz em sua fala a quest\u00e3o do seu reencontro com parte dos locais onde, ao lado de Orlando Senna, rodou nos anos 1970 \u201cIracema &#8211; Uma Transa Amaz\u00f4nica\u201d. Neste reencontro com a estrada e seus locais, quais foram sua impress\u00f5es em compara\u00e7\u00e3o \u00e0quele per\u00edodo h\u00e1 quase 50 anos? <a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/s%C3%B3-se-fala-da-amaz%C3%B4nia-quando-h%C3%A1-uma-trag%C3%A9dia-diz-jorge-bodanzky\/a-52407978\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lembro de ter lido uma entrevista sua<\/a> acerca da m\u00eddia s\u00f3 abordar a Amaz\u00f4nia quando alguma trag\u00e9dia a envolve. Hoje, essa trag\u00e9dia \u00e9 cada vez mais evidente.<\/strong><br \/>\nNa realidade, n\u00e3o refiz a Transamaz\u00f4nica, mas eu visitei a Amaz\u00f4nia muitas vezes nesse per\u00edodo todo. S\u00e3o 45 anos. E o que eu observei, a partir da primeira vez, \u00e9 que o os problemas que o \u201cIracema\u201d coloca, todos, todos sem exce\u00e7\u00e3o, s\u00f3 aumentam. A quest\u00e3o do menor de idade na prostitui\u00e7\u00e3o, o trabalho escravo, a quest\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o do solo, a quest\u00e3o da madeira, os grandes projetos. Todos os temas que o \u201cIracema\u201d aborda s\u00f3 cresceram. Eles s\u00f3 aumentaram e continuam aumentando. Voc\u00ea fala do momento agora, em que a Amaz\u00f4nia s\u00f3 \u00e9 citada quando tem grandes trag\u00e9dias. Eu vou at\u00e9 um pouco mais adiante. Acho que a Amaz\u00f4nia \u00e9 uma trag\u00e9dia permanente. Ela nunca deixou de ser uma trag\u00e9dia. Infelizmente. Esses problemas todos se alternam, mas est\u00e3o sempre presentes. Mas tem uma coisa que observei, que mudou bastante e que n\u00e3o tinha na \u00e9poca em que filmamos o \u201cIracema\u201d, quando foi praticamente a primeira vez que eu fui para l\u00e1. \u00c9 a organiza\u00e7\u00e3o da sociedade civil. Nos anos 1970, no auge da ditadura militar, era totalmente imposs\u00edvel a sociedade civil se organizar. E, hoje, em qualquer pequena aldeia que voc\u00ea vai, seja ind\u00edgena, quilombola, ou ribeirinhos, as comunidades s\u00e3o organizadas, t\u00eam representa\u00e7\u00e3o, sabem o que querem, sabem quais s\u00e3o os seus problemas. T\u00eam e apontam solu\u00e7\u00f5es para os seus problemas. S\u00f3 que a sociedade civil n\u00e3o \u00e9 ouvida. O governo n\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed para a sociedade civil. Mas ela est\u00e1 a\u00ed. E talvez isso seja uma pequena esperan\u00e7a de reter esse &#8220;progresso&#8221; que est\u00e1 invadindo a Amaz\u00f4nia desde sempre. S\u00e3o duas for\u00e7as. Uma \u00e9 pol\u00edtica e a outra \u00e9 a sociedade local, mesmo. Sem a participa\u00e7\u00e3o da sociedade local, \u00e9 imposs\u00edvel se pensar em alterar isso que est\u00e1 acontecendo agora.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-60321\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/transamazonica3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/transamazonica3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/transamazonica3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 um equil\u00edbrio entre as fontes entrevistadas, pessoas que vivem na regi\u00e3o no entorno da estrada, cidades do Nordeste e do Norte do Brasil, que o filme apresenta de maneira instigante para sua audi\u00eancia. Por exemplo, o historiador que det\u00eam um impressionante acervo material em sua casa e imaterial em sua mem\u00f3ria e palavras acerca da Transamaz\u00f4nica colocado em contraponto com o padre que lidera pela f\u00e9 os moradores da regi\u00e3o. Como foi, na escrita do roteiro e processo de montagem, essa busca por esse equil\u00edbrio de abordagens?<\/strong><br \/>\nFoi um longo, longo trabalho de prepara\u00e7\u00e3o. Foi uma equipe de prepara\u00e7\u00e3o, com o produtor Nuno Godolphim, que viajou durante um bom tempo para achar esses personagens. N\u00f3s quer\u00edamos mostrar a hist\u00f3ria da Transamaz\u00f4nica com o testemunho das pessoas que vivem l\u00e1. N\u00e3o adianta falar as coisas pela gente, apenas. Quer\u00edamos que a estrada falasse por ela mesma. E quem \u00e9 a estrada? A estrada s\u00e3o as pessoas que moram l\u00e1. Ent\u00e3o, foi um longo e minucioso processo de se escolher esses personagens. Ach\u00e1vamos que cada um, da sua maneira, poderia contar um aspecto dessa hist\u00f3ria. Ent\u00e3o, quando a gente voltou com a equipe de filmagem, voltamos a esses personagens que j\u00e1 tinham sido contatados e filmamos com eles. Mas isso que voc\u00ea citou \u00e9 bem interessante. Um \u00e9 o historiador, o outro vai por uma quest\u00e3o de f\u00e9, o terceiro vai por uma quest\u00e3o de trabalho. Enfim, cada um tem o seu motivo de estar l\u00e1, e o que ele est\u00e1 procurando l\u00e1. Mas adiante, n\u00f3s entramos na \u00e1rea ind\u00edgena. E o filme muda bastante a cada cap\u00edtulo. E a partir dos cap\u00edtulos quatro, cinco e seis, ele j\u00e1 mostra uma Amaz\u00f4nia completamente diferente. Mas isso foi planejado e \u00e9 um trabalho de edi\u00e7\u00e3o. \u00c9 um grande trabalho de edi\u00e7\u00e3o voc\u00ea dar a propor\u00e7\u00e3o, \u00e0 medida do que \u00e9 a parte hist\u00f3rica, e o material de arquivo que conseguimos levantar. E que n\u00e3o \u00e9 pequeno. \u00c9 um material muito dif\u00edcil de conseguir. [Tem] uma pequena coisa do meu arquivo pessoal. Tem muitas imagens de \u201cIracema\u201d espalhadas por dentro do filme. Imagens de Super8 minhas. Da \u00e9poca em que eu fazia as pesquisas do \u201cIracema\u201d, um grande material de pesquisa, com jornais de \u00e9poca e que est\u00e1 l\u00e1 justamente para a gente fazer um paralelo do que est\u00e1 acontecendo hoje e a hist\u00f3ria desses acontecimentos. Nada acontece de um dia para outro. A Amaz\u00f4nia n\u00e3o est\u00e1 pegando fogo [somente] hoje. Ela j\u00e1 pega fogo desde aquela \u00e9poca. Uma das primeiras grandes imagens de inc\u00eandios na Amaz\u00f4nia \u00e9 aquela no filme \u201cIracema\u201d, aquele travelling que \u00e9 um sil\u00eancio de um minuto onde a c\u00e2mera simplesmente mostra o fogo. E isso n\u00e3o parou at\u00e9 hoje. Essa imagem poderia ser rodada hoje.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-60322\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/TRANSAMAZONICA4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"563\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/TRANSAMAZONICA4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/TRANSAMAZONICA4-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em sua filmografia, ap\u00f3s \u201cIracema &#8211; Uma Transa Amaz\u00f4nica\u201d, \u00e9 recorrente voltar aos problemas que voc\u00ea lan\u00e7ou luz na obra de 1975. E isso \u00e9 louv\u00e1vel. Podemos citar o document\u00e1rio de 2005, \u201cEra uma Vez Iracema\u201d, com \u201cO \u00daltimo Eldorado\u201d, com \u201cAmaz\u00f4nia &#8211; A Nova Minamata?\u201d recentemente. Qual a sensa\u00e7\u00e3o de voltar a tais fatos t\u00e3o importantes para o Brasil? Como cineasta, \u00e9 doloroso de alguma forma voltar a tais temas?<\/strong><br \/>\nInfelizmente, a gente n\u00e3o pode abandonar esses temas, porque eles est\u00e3o a\u00ed. Est\u00e3o acontecendo. Ent\u00e3o, se eu volto, mesmo que o objetivos dos filmes sejam outros, como em \u201cIgreja dos Oprimidos\u201d, \u201cTristes Tr\u00f3picos\u2019, baseado na obra do (Claude) L\u00e9vi-Strauss, \u201cTerceiro Mil\u00eanio\u201d, e voc\u00ea citou alguns outros, eles s\u00e3o permeados por esses grandes problemas que, na minha filmografia, foram introduzidos pelo \u201cIracema\u201d. Eles est\u00e3o a\u00ed. Ent\u00e3o, qualquer aspecto que voc\u00ea aborde a Amaz\u00f4nia, mais recentemente com \u201cAmaz\u00f4nia &#8211; A nova Minamata?\u201d, que traz a quest\u00e3o do envenenamento por merc\u00fario dos rios da Amaz\u00f4nia, isto est\u00e1 l\u00e1. Ent\u00e3o, no meu ponto de vista, \u00e9 imposs\u00edvel falar da Amaz\u00f4nia sem abordar esses temas que se repetem. Eles est\u00e3o sempre a\u00ed, infelizmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lembrando do personagem do Ti\u00e3o &#8220;Brasil Grande&#8221;, vivido pelo Paulo Cesar Pereio em \u201cIracema\u201d, naqueles ataques de prote\u00e7\u00e3o ao progresso e fal\u00e1cias caracter\u00edsticas de del\u00edrios do poder, quem voc\u00ea observa, hoje, na mesma situa\u00e7\u00e3o de destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, de \u00edmpetos tir\u00e2nicos de &#8220;passar a boiada&#8221;, quem seriam os atuais &#8220;Ti\u00f5es Brasil Grande&#8221;?<\/strong><br \/>\nOs Ti\u00f5es de hoje s\u00e3o os garimpeiros. S\u00e3o aqueles que falam as mesmas coisas que falava o Ti\u00e3o em cima do caminh\u00e3o. A pol\u00edtica oficial deste governo \u00e9 exatamente aquilo que o Ti\u00e3o fala. O projeto dos militares que constru\u00edram a Transamaz\u00f4nica foi a base de todos os projetos que vieram depois. Mesmo nos governos civis e, principalmente agora, de novo, com uma vis\u00e3o dos militares sobre a ocupa\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia. \u00c9 a mesma. N\u00e3o mudou nada. Na cabe\u00e7a das pessoas que planejaram a Amaz\u00f4nia durante a ditadura militar nos anos 1970, \u00e9 a mesma (vis\u00e3o). Veja o que o general Mour\u00e3o est\u00e1 falando. \u00c9 a mesma coisa, hoje. Absolutamente \u00e9 a mesma vis\u00e3o. Em 50 anos, n\u00e3o conseguiram enxergar a Amaz\u00f4nia de uma maneira diferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 um trecho na s\u00e9rie em que a defini\u00e7\u00e3o da Transamaz\u00f4nica em ligar o nada ao lugar nenhum, os famintos do Nordeste aos miser\u00e1veis do Norte, parece definir os caminhos do Brasil atual. Mais grave ainda \u00e9 que o trajeto \u00e9 repleto de ainda mais mortes que as causadas pela constru\u00e7\u00e3o da estrada. Confesso que o peso desse Brasil tem me afetado de maneira dolorosa. Queria lhe perguntar se voc\u00ea \u00e9 otimista em rela\u00e7\u00e3o ao Brasil?<\/strong><br \/>\nEu acho que podemos, sim. Temos que ser otimistas. Se n\u00e3o, a gente se mata. Vamos fazer o que? Se voc\u00ea n\u00e3o tem um fundo de otimismo em achar que as coisas podem mudar, elas n\u00e3o v\u00e3o mudar. Ent\u00e3o, voc\u00ea tem que partir do princ\u00edpio de que \u00e9 poss\u00edvel mudar. Por mais dif\u00edcil que seja, acredito que d\u00e1 para mudar, sim. Como te disse, a sociedade civil est\u00e1 organizada l\u00e1. Se o governo trabalhar junto com a sociedade civil, pode se encontrar boas solu\u00e7\u00f5es para a Amaz\u00f4nia. Mas as coisas s\u00e3o din\u00e2micas na vida. Nada dura para sempre. Mas elas duram muito. A ditadura militar durou 21 anos. Este governo eu n\u00e3o sei quanto tempo ele pode durar ainda. Mas apesar de tudo, tenho certo otimismo. Acredito na possibilidade de mudan\u00e7a. At\u00e9 porque temos que pensar nos jovens. Hoje, a quest\u00e3o da consci\u00eancia ambiental, ela \u00e9 um problema mundial. Em enquetes que se fez com jovens de v\u00e1rios locais do mundo, qual \u00e9 a primeira quest\u00e3o que os jovens colocam? \u00c9 a quest\u00e3o ambiental. E na quest\u00e3o ambiental, a Amaz\u00f4nia est\u00e1 no topo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-60320\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/TRANSAMAZONICA2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/TRANSAMAZONICA2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/TRANSAMAZONICA2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ver a hist\u00f3ria se repetir perante aquelas realidades que, tanto o filme \u201cIracema\u201d quanto a s\u00e9rie \u201cTransamaz\u00f4nica\u201d, ilustraram para o p\u00fablico, \u00e9 algo que desanima diante da ideia c\u00edclica da Hist\u00f3ria. Mas, ao mesmo tempo, pensar nesse otimismo oriundo da mudan\u00e7a \u00e9 algo que traz certa esperan\u00e7a, sim.<\/strong><br \/>\nEu acho que a gente s\u00f3 interfere naquilo que conhecemos. Ent\u00e3o, \u00e9 importante ter o conhecimento das coisas. Os problemas da Amaz\u00f4nia s\u00e3o muitos complexos. S\u00e3o tantos e todos entrela\u00e7ados. Ent\u00e3o, acho que conhecer a Amaz\u00f4nia \u00e9 a primeira etapa para que as pessoas comecem a se preocupar com a Amaz\u00f4nia. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ficar na manchete de jornal, s\u00f3 no dia que pega fogo \u00e9 que voc\u00ea vai pensar na Amaz\u00f4nia, entende? O conhecimento em torno da Amaz\u00f4nia \u00e9 muito importante. E as pessoas n\u00e3o conhecem a Amaz\u00f4nia. Eu, mesmo. Tem muita coisa que n\u00e3o conhe\u00e7o. Cada vez que vou, me surpreendo, entende? O objetivo do filme \u00e9 fazer com que o grande p\u00fablico, que o p\u00fablico que assiste s\u00e9ries na televis\u00e3o, tenham um conhecimento maior sobre, talvez, a regi\u00e3o mais importante que o Brasil tem hoje. E que \u00e9 o grande legado que a gente pode deixar para os nossos filhos e netos: \u00e9 a Amaz\u00f4nia preservada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Outro ponto doloroso \u00e9 que vemos, muitas vezes, uma preocupa\u00e7\u00e3o internacional na preserva\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, enquanto que aqui, quando deveria haver um cuidado provido pelos pr\u00f3prios brasileiros, ela passa por uma devasta\u00e7\u00e3o desenfreada.<\/strong><br \/>\nEu acho que a preocupa\u00e7\u00e3o do planeta como a quest\u00e3o ambiental, e particularmente com a quest\u00e3o amaz\u00f4nica, \u00e9 absolutamente pertinente. Isso n\u00e3o quer dizer que eles est\u00e3o preocupados porque eles querem tomar a Amaz\u00f4nia. Acho que quem deveria estar, em primeiro lugar, preocupado com a Amaz\u00f4nia somos n\u00f3s, brasileiros. Mas se a gente n\u00e3o cuida da Amaz\u00f4nia, acabou tudo. N\u00e3o adianta pensar em outra coisa. Ent\u00e3o, a primeira responsabilidade \u00e9 a nossa. E depois vem os outros. Mas acho bom que todos estejam preocupados. Porque isso cria uma certa press\u00e3o e, ao mesmo tempo, mant\u00eam o tema \u00e0 tona. N\u00e3o podemos tirar o foco desse tema.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-60323\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/transamazonica11.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1213\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/transamazonica11.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/transamazonica11-185x300.jpg 185w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Bodanzky dirigiu em 1975, ao lado de Orlando Senna,\u201cIracema &#8211; Uma Transa Amaz\u00f4nica\u201d, e agora aborda a explora\u00e7\u00e3o irracional e desenfreada da Amaz\u00f4nia em \u201cTransamaz\u00f4nica &#8211; Uma Estrada para o Passado\u201d, s\u00e9rie em seis epis\u00f3dios.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/03\/07\/entrevista-jorge-bodanzky-fala-sobre-a-serie-transamazonica-uma-estrada-para-o-passado-hbo\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":60318,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[3905],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60317"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=60317"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60317\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73936,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60317\/revisions\/73936"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/60318"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=60317"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=60317"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=60317"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}