{"id":60149,"date":"2021-02-21T02:36:41","date_gmt":"2021-02-21T05:36:41","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=60149"},"modified":"2021-04-23T03:15:40","modified_gmt":"2021-04-23T06:15:40","slug":"entrevista-rodrigo-meirelles-e-fernando-alves-pinto-falam-sobre-a-minisserie-hard-da-hbo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/02\/21\/entrevista-rodrigo-meirelles-e-fernando-alves-pinto-falam-sobre-a-minisserie-hard-da-hbo\/","title":{"rendered":"Entrevista: Fernando Alves Pinto e Rodrigo Meirelles falam da miniss\u00e9rie &#8220;Hard&#8221; (HBO)"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filmes pornogr\u00e1ficos (ou adultos, como queira cham\u00e1-los) trazem em si um estigma dif\u00edcil de ser superado. Condenados por muitas pessoas como uma esp\u00e9cie de banda podre da ind\u00fastria que produz entretenimento, o cinema porn\u00f4 \u00e9 um mercado que movimenta interesses, fantasias, libidos e muito dinheiro. Sim, h\u00e1, claro, uma banda podre ligada \u00e0 misoginia e ao machismo. Mas observar o modo como a atra\u00e7\u00e3o por esse tipo de consumo atua em diversos g\u00eaneros e orienta\u00e7\u00f5es sexuais \u00e9 algo fascinante de se notar e se propor a discutir. \u201cHard\u201d, miniss\u00e9rie cujos novos epis\u00f3dios acabam de ser disponibilizados na grade da HBO, tem neste norte exatamente a sua proposta. Com dire\u00e7\u00e3o geral de Rodrigo Meirelles (\u201cSom &amp; F\u00faria\u201d), e elenco com nomes como Natalia Lage e Fernando Alves Pinto, a produ\u00e7\u00e3o brasileira leva \u00e0 sua audi\u00eancia a reflex\u00e3o de observar, sem preconceitos e falso moralismo, esse mercado que atrai muitos olhares de julgamento, hipocrisias rasas e curiosidades veladas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na hist\u00f3ria, baseada em uma s\u00e9rie francesa de mesmo nome, Sofia (Natalia Lage), advogada n\u00e3o atuante, dona de casa de classe alta e elitista, descobre que o conforto e luxo de sua vida n\u00e3o s\u00e3o bancados pela empresa de tecnologia que seu finado marido vendia como fachada, mas, sim, com rent\u00e1veis filmes adultos realizados por sua produtora, a Sofix. Ap\u00f3s a morte acidental do &#8220;conge&#8221; , ela precisa sair de seu casulo de m\u00e3e &#8220;bela, recatada e do lar&#8221; e descobre-se capaz de encarar seus pr\u00f3prios preconceitos e precipitado auto-julgamento como algu\u00e9m incompetente naquele ramo. \u00c9 quando Sofia passa a tocar a produtora, fazendo-a se reinventar n\u00e3o mais como um local de grava\u00e7\u00e3o de filmes porn\u00f4s, mas, sim, como um &#8220;parque de divers\u00e3o&#8221; para quem quer realizar, com privacidade, seguran\u00e7a e respeito, suas fantasias sexuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fernando Alves Pinto, que interpreta o espalhafatoso e ador\u00e1vel Pierre, competente diretor dos filmes porn\u00f4s, e que precisa, ele mesmo, se adaptar aos novos desafios de um mercado que, com a internet, precisou se reinventar, traz uma observa\u00e7\u00e3o direta sobre as contradi\u00e7\u00f5es de uma sociedade que prega esse falso-moralismo em estranhos dias atuais.&#8221;As contradi\u00e7\u00f5es s\u00e3o gritantes. Mas uma coisa que eu acho muito legal da s\u00e9rie, do potencial dela, \u00e9 que ela questiona isso. A Sofia chega l\u00e1 e tenta mudar a pornografia masculina, que \u00e9 uma coisa meio engessada, meio antiga e, enfim, tem todas as coisas apodrecidas do machismo . E ela questiona isso&#8221;, pontua o ator, que, em sua constru\u00e7\u00e3o f\u00edsica, remete muito a Jack Horner, personagem de Burt Reynolds em Boogie Nights\u201d, cl\u00e1ssico dirigido por Paul Thomas Anderson em 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De maneira direta, ao colocar a personagem de Sofia em momentos de autoquestionamentos, e, do mesmo modo, de encontro a julgamentos absurdos vindo de pretendentes acerca daquela sua nova profiss\u00e3o, \u201cHard\u201d traz para sua audi\u00eancia mais oportunidades de se observar as hipocrisias di\u00e1rias que nos rodeiam nesse Brasil esquisito no qual vivemos atualmente. Rodrigo Meirelles contextualiza: &#8220;N\u00f3s filmamos a s\u00e9rie antes desse momento todo que estamos vivendo. Filmamos os 18 epis\u00f3dios que foram produzidos em 2018. Ent\u00e3o, ela \u00e9 anterior a todo esse momento. E s\u00f3 falando um pouco desse momento, estamos aqui para falar de \u2018Hard\u2019, mas eu acho que o Brasil \u00e9 o reino encantado das contradi\u00e7\u00f5es. Porque, voc\u00ea olha e, assim, uma das atrizes pornogr\u00e1ficas mais conhecidas do Brasil, sem citar o nome dela, \u00e9 bolsonarista, entendeu? Ela \u00e9 pr\u00f3-governo. Ent\u00e3o, esse conservadorismo falso \u00e9 uma loucura. O Brasil \u00e9 o pa\u00eds das contradi\u00e7\u00f5es. Tem um universo dentro da pornografia de atores porn\u00f4 que s\u00e3o pr\u00f3 governo, que \u00e9 esse falso moralismo. \u00c9 um balaio de gato. Eu n\u00e3o consigo entender mais nada&#8221;, pontua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde os prim\u00f3rdios do cinema (para usar uma express\u00e3o clich\u00ea), o sexo, o desejo e a libido s\u00e3o abordados de algum modo. O primeiro filme pornogr\u00e1fico, por exemplo, data de 1896. Trata-se de \u201cCoucher de la Mari\u00e9e\u201d, produ\u00e7\u00e3o francesa filmada um ano ap\u00f3s os Lumi\u00e8re apresentarem sua inven\u00e7\u00e3o em Paris. &#8220;A pornografia est\u00e1 dentro do instinto humano. A primeira c\u00e2mera de cinema que foi criada, foram l\u00e1 e fizeram um filme pornogr\u00e1fico. A primeira c\u00e2mera fotogr\u00e1fica que foi criada, foram l\u00e1 e retrataram a nudez, o erotismo. Isso \u00e9 inerente ao ser humano. Ent\u00e3o, eu acho que a quest\u00e3o a\u00ed \u00e9 melhorar o que \u00e9 feito. Tentar censurar ou acabar, e tudo mais, \u00e9 uma utopia. \u00c9 uma guerra perdida&#8221;, declara Rodrigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fernando Alves Pinto complementa trazendo a quest\u00e3o da libido e do desejo sexual como algo que faz parte, como pontuou Meirelles, da natureza humana. Mas alerta exatamente para o que foi colocado acerca do que deve ser, de fato, condenado no aspecto machista e mis\u00f3gino dessa ind\u00fastria que \u201cHard\u201d traz como an\u00e1lise. &#8220;A energia sexual \u00e9 o que tem de mais forte. \u00c9 a energia mais forte que o ser humano tem. \u00c9 a energia que cria uma outra vida. Ent\u00e3o, ela fazer parte de uma arte, n\u00e3o tem nada de errado. S\u00f3 que tem aquilo que faz ficar uma coisa meio podre do machismo. \u00c9 isso que tem que ser quebrado. \u00c9 isso que tem que ser questionado. (Questionar) o lado podre de uma pornografia e trazer uma coisa mais saud\u00e1vel na pornografia e no erotismo&#8221;, finaliza o ator. Nesta entrevista ao Scream &amp; Yell, Fernando e Rodrigo falam mais acerca dessas impress\u00f5es sobre o universo da pornografia e abordam a constru\u00e7\u00e3o de \u201cHard\u201d. Confira o papo!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Hard | Trailer oficial (HBO)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/cBzMp-vnhKo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fernando, voc\u00ea interpreta na s\u00e9rie o personagem do Pierre, um experiente diretor de filmes adultos, com um dom\u00ednio completo de set, dando as instru\u00e7\u00f5es exatas para seu elenco. Rodrigo, voc\u00ea \u00e9 o diretor de \u201cHard\u201d, algu\u00e9m que, exatamente, \u00e9 o diretor daquele set e precisa ter esse mesmo dom\u00ednio. Houve alguma figurinha trocada entre voc\u00ea e Fernando no modo como Pierre, um diretor, deveria ser constru\u00eddo?<\/strong><br>Fernando Alves Pinto \u2013 Eu ficava olhando para o Rodrigo para captar. Claro, a gente est\u00e1 sempre meio que observando. Mas era sempre engra\u00e7ado. Uma vez ele me fez sentar l\u00e1 e falou: (com a voz empostada) &#8220;E a\u00ed, diretor? Como \u00e9 que t\u00e1? Est\u00e1 gostando da cena?&#8221; Ele perguntava para mim (risos). Ent\u00e3o, sempre tem essa troca. A gente vive disso. Vive de ficar vendo como as coisas acontecem realmente para poder colocar essas coisas na fic\u00e7\u00e3o. Mas foi divertido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo Meirelles \u2013 Acho que o Fernando j\u00e1 trabalhou com muito diretor na vida dele. Ent\u00e3o acho que ele tem a\u00ed muito elemento para trazer para esse personagem. E \u00e9 sempre muito divertido para o ator poder brincar com o pr\u00f3prio universo, com o pr\u00f3prio cotidiano da vida que ele vive.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fernando Alves Pinto \u2013 Ele brincava dizendo que eu era o alter-ego (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo Meirelles \u2013 (risos) Eu dizia que n\u00e3o tinha nada a ver com isso. N\u00e3o sou esse pav\u00e3o no set, essa coisa do Pierre. Sou super low-profile. (risos). Fico na minha. Mas a gente se divertia muito nessa troca, nessa brincadeira. Acho que \u201cHard\u201d tem essa caracter\u00edstica. Foi uma miniss\u00e9rie muito divertida de se fazer para todo mundo que participou. Apesar de toda a nudez, de muita cena de sexo, que filmamos, a gente conseguiu criar um set leve, um lugar agrad\u00e1vel. Acho que a produ\u00e7\u00e3o foi muito bem feita no sentido tanto financeiro quanto de programa\u00e7\u00e3o, de planejamento. A gente nunca estava se atropelando. N\u00e3o tinha gritaria, o ambiente era sempre muito leve, muito divertido. Acho que isso reflete bem no produto final que fizemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fernando Alves Pinto \u2013 \u00c9 verdade. Atesto tudo isso. Era muito divertido. A dire\u00e7\u00e3o de arte muito legal tamb\u00e9m. Acabamos ficando amigos e se divertindo. Enfim, a equipe inteira foi muito legal.<\/p>\n<figure id=\"attachment_60152\" aria-describedby=\"caption-attachment-60152\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-60152 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Fernando-Alves-Pinto_Hard-1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Fernando-Alves-Pinto_Hard-1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Fernando-Alves-Pinto_Hard-1-300x180.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-60152\" class=\"wp-caption-text\"><em>Fernando Alves Pinto como Pierre em cena de &#8220;Hard&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Rodrigo, voc\u00ea citou o Pierre como esse personagem pav\u00e3o, com aqueles trejeitos e aquela postura singulares. Queria aproveitar essa descri\u00e7\u00e3o para perguntar a voc\u00ea e ao Fernando sobre as refer\u00eancias desse personagem. N\u00e3o vi a vers\u00e3o francesa. N\u00e3o pude comparar. Mas ele me lembra, tanto nas vestimentas, \u00f3culos, barba, o Jack Horner, personagem do Burt Reynolds em \u201cBoogie Nights\u201d, do Paul Thomas Anderson. Em quanto o filme de 1997 influenciou na escrita do personagem (e da s\u00e9rie), bem como em sua constru\u00e7\u00e3o na atua\u00e7\u00e3o?<\/strong><br>Fernando Alves Pinto \u2013 Acho que o Rodrigo mesmo quem indicou essa refer\u00eancia do \u201cBoogie Nights\u201d. Agora, a s\u00e9rie original francesa eu n\u00e3o vi, tamb\u00e9m. Ent\u00e3o n\u00e3o sei como era o Pierre franc\u00eas. Mas \u00e9 muito divertido o Pierre ser esse pav\u00e3o que o Rodrigo falou. Aquela tatuagem que ele tem aqui no pesco\u00e7o, subindo assim. E que tem todo um mist\u00e9rio dele ali atr\u00e1s. (Voz empostada) &#8220;Que s\u00f3 nos \u00faltimos epis\u00f3dios saberemos o que tem ali atr\u00e1s&#8221; (risos). Era muito divertido. E \u00e9 muito divertido isso que o Rodrigo falou: j\u00e1 trabalhei com muitos diretores. Todos eles muito diferentes. Enfim, o ser humano s\u00e3o milh\u00f5es de esp\u00e9cies completamente diferentes. Ent\u00e3o, j\u00e1 passei por tanto tipo de diretor, e pegar o pavonismo deles, e tudo o que eu lembrava, e mais essa refer\u00eancia do \u201cBoogie Nights\u201d foi fazendo ficar ainda mais divertido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo Meirelles \u2013 Trazendo um pouco o Pierre original, eu acho que essa foi uma grande adapta\u00e7\u00e3o que fizemos para a miniss\u00e9rie brasileira. O Pierre original era um clich\u00eaz\u00e3o do diretor pornogr\u00e1fico. Ele era um cara mais velho, gord\u00e3o, super mal educado&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fernando Alves Pinto \u2013 h, \u00e9 mesmo. \u00c9 verdade!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo Meirelles \u2013 Um cara bem nojent\u00e3o, sabe? Ele tinha uma coisa assim que eu achava uma fragilidade do personagem no sentido de que ele \u00e9 o antagonista da Sofia. Na transforma\u00e7\u00e3o da Sofia. Na transforma\u00e7\u00e3o que a Sofia quer trazer para a pornografia da Sofix. E ele era um personagem muito facilmente odi\u00e1vel. Voc\u00ea odiava aquele cara muito facilmente. Voc\u00ea ficava muito do lado da Sofia vendo a vers\u00e3o francesa. \u00c9 muito f\u00e1cil para o protagonista quando voc\u00ea tem um antagonista com essas caracter\u00edsticas t\u00e3o clich\u00eas e t\u00e3o detest\u00e1vel. Ent\u00e3o, o que a gente tentou fazer foi trazer um Pierre mais legal, mais divertido. Que ele se transforme em um rival mais interessante para a Sofia. Porque ele \u00e9 um cara que \u00e9 adorado por todo mundo na produtora. Ele \u00e9 um cara divertido, bom de papo, sedutor. Ele tem essas caracter\u00edsticas e isso torna mais dif\u00edcil ainda para a Sofia lutar contra os princ\u00edpios desse cara. Os princ\u00edpios da pornografia tradicional. \u00c9 mais dif\u00edcil para ela. O personagem do Pierre ser mais ador\u00e1vel do que ele ser t\u00e3o escrot\u00e3o como ele era originalmente enriquece mais a s\u00e9rie. &#8220;Escrot\u00e3o&#8221; \u00e9 uma palavra horr\u00edvel para usar em uma entrevista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fernando Alves Pinto \u2013 (risos) Esse detalhe acho legal. A s\u00e9rie (francesa) n\u00e3o foi chamada como refer\u00eancia para construirmos aquilo. O que a gente ouvia falar da vers\u00e3o francesa n\u00e3o parecia assim&#8230; (pausa). N\u00e3o dava vontade de assistir. Ent\u00e3o, foi muito mais legal criar com as refer\u00eancias que nos eram dadas, e o que a dire\u00e7\u00e3o trazia para a gente. Pelo pouco que ouvi falar da s\u00e9rie francesa, dramaturgicamente, ficou muito diferente. N\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo Meirelles \u2013 Sim. A s\u00e9rie francesa tem uma caracter\u00edstica muito de TV aberta. Uma TV aberta mais antiga. No sentido de uma s\u00e9rie toda produzida dentro de um est\u00fadio. \u00c9 tudo muito farsesco. O universo da pornografia \u00e9 muito mais fantasioso, mais clich\u00ea. Mais caricato, digamos assim. Eles fazem uma caricatura mais profunda tanto do universo pornogr\u00e1fico quanto dessa personagem principal que \u00e9 a Sofia. A Sofia original \u00e9 uma carola, uma mulher super cat\u00f3lica, cujo melhor amigo \u00e9 um padre. E ela fica o tempo inteiro nessa quest\u00e3o cat\u00f3lica da rela\u00e7\u00e3o com a pornografia. A gente derrubou tudo isso. Tentamos trazer um pouco mais de verdade para a s\u00e9rie. Criar, realmente, uma s\u00e9rie mais cinematogr\u00e1fica. Voc\u00ea mencionou o \u201cBoogie Nights\u201d, enfim, esse filme sempre foi uma refer\u00eancia para todo mundo. Porque \u00e9 um dos melhores filmes feitos sobre esse universo pornogr\u00e1fico tratando esse universo com muito respeito. \u00c9 muito f\u00e1cil fazer piada clich\u00ea da coisa. Ridicularizar o mundo pornogr\u00e1fico. A gente tentou evitar muito isso. Nossa piada, nosso humor, a gente busca nesse conflito desse universo que vem de uma classe m\u00e9dia alta. Uma classe m\u00e9dia conservadora, tradicional, entrando nesse universo. \u00c9 outra classe social das pessoas que interagem nesse mundo. S\u00e3o outros tipos de rela\u00e7\u00f5es e tudo mais. Tentamos deix\u00e1-la menos televisa e mais cinematogr\u00e1fica, digamos assim. Fazer outro tipo de com\u00e9dia. N\u00e3o uma com\u00e9dia de escracho, mas uma com\u00e9dia mais sutil com os elementos que a gente tinha.<\/p>\n<figure id=\"attachment_60153\" aria-describedby=\"caption-attachment-60153\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-60153 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Natalia-Lage-1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Natalia-Lage-1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Natalia-Lage-1-300x180.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-60153\" class=\"wp-caption-text\"><em>Nat\u00e1lia Lage como Sofia em cena de &#8220;Hard&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou sobre a personagem da Sofia na vers\u00e3o europeia como sendo uma mulher carola, profundamente religiosa, cujo melhor amigo \u00e9 um padre. Isso me faz observar \u201cHard\u201d como uma oportunidade para a audi\u00eancia refletir acerca desse falso conservadorismo que nos invadiu em tempos recentes, aqui no Brasil. Ao assistir aos cap\u00edtulos da s\u00e9rie, eu ficava pensando sobre essa proposta de reflex\u00e3o que ela traz. N\u00e3o somente para essa posi\u00e7\u00e3o falsa e conservadora de alguns, mas como uma maneira de abordar algo inerente ao ser humano, que \u00e9 a libido, o desejo sexual.<\/strong><br>Rodrigo Meirelles \u2013 Acho que sim. O retorno que tive um pouco desses primeiros epis\u00f3dios que foram exibidos foi muito em rela\u00e7\u00e3o a isso. Pessoas mais velhas, de outras gera\u00e7\u00f5es, conseguiram assistir aos epis\u00f3dios e se divertir, acompanhar a hist\u00f3ria da Sofia sem um olhar preconceituoso em cima daquele universo. N\u00f3s filmamos a s\u00e9rie antes desse momento todo que a gente est\u00e1 vivendo. Filmamos os 18 epis\u00f3dios que foram produzidos em 2018. Ent\u00e3o, ela \u00e9 anterior a todo esse momento que estamos vivendo. E s\u00f3 falando um pouco desse momento, a gente est\u00e1 aqui para falar de \u201cHard\u201d, mas acho que o Brasil \u00e9 o reino encantado das contradi\u00e7\u00f5es. Porque uma das atrizes pornogr\u00e1ficas mais conhecidas do Brasil, sem citar nomes, \u00e9 bolsonarista, entendeu? Ela \u00e9 pr\u00f3-governo. Esse conservadorismo falso \u00e9 uma loucura. O Brasil \u00e9 o pa\u00eds das contradi\u00e7\u00f5es. Tem um universo dentro da pornografia de atores porn\u00f4 que s\u00e3o pr\u00f3 governo que \u00e9 falso moralismo. \u00c9 um balaio de gato. N\u00e3o consigo entender mais nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fernando Alves Pinto \u2013 \u00c9 maravilhoso voc\u00ea ter falado isso. Realmente, as contradi\u00e7\u00f5es s\u00e3o gritantes. Mas uma coisa que acho muito legal da s\u00e9rie, do potencial dela, \u00e9 que ela questiona isso. Do legal da Sofia chegar l\u00e1 e tentar mudar a pornografia masculina, que \u00e9 uma coisa meio engessada, meio antiga e, enfim, com todas as coisas apodrecidas do machismo. Ela questiona isso. A energia sexual \u00e9 o que existe de mais forte. \u00c9 a energia mais forte que o ser humano tem. \u00c9 a energia que cria uma outra vida. Ent\u00e3o, ela fazer parte de uma arte, n\u00e3o tem nada de errado. S\u00f3 que tem o que faz ficar uma coisa meio podre. \u00c9 isso que tem que ser quebrado. \u00c9 isso que tem que ser questionado. (Questionar) o lado podre de uma pornografia e trazer uma coisa mais saud\u00e1vel na pornografia e no erotismo. Enfim, \u00e9 isso que acho mais legal nessa s\u00e9rie. Ela j\u00e1 quebrar esses preconceitos todos. S\u00f3 em quebrar preconceitos j\u00e1 \u00e9 muito saud\u00e1vel. N\u00e3o sei se falei direito, mas deu para entender.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo Meirelles \u2013 N\u00e3o, voc\u00ea falou sim. \u00c9 isso. Ela questiona assim como o espectador questiona. O espectador est\u00e1 acompanhando a s\u00e9rie junto com a Sofia. O espectador m\u00e9dio que assiste a uma s\u00e9rie na HBO, que tem acesso a isso, ele t\u00e1 ali meio que no mesmo lugar que a Sofia. Ent\u00e3o, ele olha para aquele universo com muito preconceito. E assim como o da Sofia vai ser quebrado, vai sendo desafiado, acho que o do espectador, tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, a entrada dela no universo da Sofia \u00e9 junto com o espectador dentro desse universo. Acho que tudo que o Fernando falou faz muito sentido. Enfim, como voc\u00ea mesmo defendeu, Jo\u00e3o, quando se coloca a pornografia dentro disso, hoje em dia l\u00ea-se muita cr\u00edtica a respeito da pornografia. A pornografia \u00e9 isso, \u00e9 aquilo. Como o Fernando falou, existe a parte podre da pornografia. Ent\u00e3o, quando se faz uma cr\u00edtica \u00e0 pornografia como um todo, \u00e9 como voc\u00ea fazer uma cr\u00edtica \u00e0 pol\u00edtica como um todo. A gente est\u00e1 vivendo um momento ser\u00edssimo no Brasil. Temos uma banda podre da pol\u00edtica. Mas a gente n\u00e3o pode demonizar a pol\u00edtica como um todo. Assim como na pornografia. A pornografia est\u00e1 dentro do instinto humano. A primeira c\u00e2mera de cinema que foi criada foram l\u00e1 e fizeram um filme pornogr\u00e1fico (N.E. O cineasta se refere ao filme franc\u00eas \u201cCoucher de la mari\u00e9e\u201d, de 1896, <a href=\"https:\/\/www.imdb.com\/title\/tt1728115\/trivia?ref_=tt_trv_trv\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">considerando o primeiro registro do cinema pornogr\u00e1fico<\/a>). A primeira c\u00e2mera fotogr\u00e1fica que foi criada <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/artanddesign\/gallery\/2014\/jun\/26\/history-of-nude-photography-in-pictures\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">foram l\u00e1 e retrataram a nudez<\/a>, o erotismo.&nbsp; Isso \u00e9 inerente ao ser humano. A quest\u00e3o \u00e9 melhorar o que \u00e9 feito. Tentar censurar ou acabar e tudo mais \u00e9 uma utopia. \u00c9 uma guerra perdida.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-60151\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/EW3jOGQXsAI2zsh-2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1159\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/EW3jOGQXsAI2zsh-2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/EW3jOGQXsAI2zsh-2-194x300.jpg 194w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em>\u2013&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto&nbsp;<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do&nbsp;<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Filmes pornogr\u00e1ficos trazem em si um estigma dif\u00edcil de ser superado. Mas sua atra\u00e7\u00e3o \u00e9 fascinante de se notar e se propor a discutir. \u201cHard\u201d, miniss\u00e9rie cujos novos epis\u00f3dios acabam de ser disponibilizados pela HBO, tem exatamente essa proposta.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/02\/21\/entrevista-rodrigo-meirelles-e-fernando-alves-pinto-falam-sobre-a-minisserie-hard-da-hbo\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":60165,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4,36],"tags":[3905],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60149"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=60149"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60149\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":60162,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60149\/revisions\/60162"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/60165"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=60149"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=60149"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=60149"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}