{"id":60084,"date":"2021-02-16T03:38:10","date_gmt":"2021-02-16T06:38:10","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=60084"},"modified":"2021-03-22T01:16:49","modified_gmt":"2021-03-22T04:16:49","slug":"entrevista-manoel-de-souza-fala-sobre-o-imperio-dos-gibis-que-conta-a-historia-dos-quadrinhos-da-editora-abril","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/02\/16\/entrevista-manoel-de-souza-fala-sobre-o-imperio-dos-gibis-que-conta-a-historia-dos-quadrinhos-da-editora-abril\/","title":{"rendered":"Entrevista: Manoel de Souza fala sobre \u201cO Imp\u00e9rio dos Gibis\u201d, que conta a hist\u00f3ria dos quadrinhos da Editora Abril"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 uma tarefa dif\u00edcil tentar escapar de um tom nost\u00e1lgico ao falar da forma\u00e7\u00e3o cultural oriunda de uma fase infanto-juvenil influenciada pelas hist\u00f3rias em quadrinhos publicadas nos anos 1980 e 1990 pela Editora Abril nos cl\u00e1ssicos &#8220;formatinhos&#8221;. Essa lembran\u00e7a afetiva bate pesado em leitores quase quarent\u00f5es como eu (bem como para quem j\u00e1 iniciou ou ultrapassou essa nova d\u00e9cada primaveril de vida) em pleno desesperan\u00e7oso s\u00e9culo XXI, e que tiveram sua entrada no h\u00e1bito da leitura a partir das p\u00e1ginas em papel jornal e recheadas de cores, aventuras e personagens publicados pela Abril. S\u00e3o mem\u00f3rias embaladas por hist\u00f3rias e figuras heroicas (ou n\u00e3o) criadas por Walt Disney, Maur\u00edcio de Sousa, Bob Kane, Bill Finger, Jerry Siegel, Joe Shuster, Jack Kirby, Stan Lee e um leque tremendo de outros artistas. Um leque que perdurou no Brasil pelas p\u00e1ginas da editora por quase 70 anos. E s\u00e3o esses quase 70 anos de gibis que os autores Manoel de Souza e Maur\u00edcio Muniz conseguiram, com brilhantismo, compilar nas 544 p\u00e1ginas (64 delas coloridas) do livro \u201c<a href=\"https:\/\/www.editoraheroica.com.br\/livro1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Imp\u00e9rio dos Gibis &#8211; A Incr\u00edvel Hist\u00f3ria dos Quadrinhos da Editora Abril<\/a>\u201d, publica\u00e7\u00e3o lan\u00e7ada pela <a href=\"https:\/\/www.editoraheroica.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Editora Heroica<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sua proposta de trabalho, Manoel e Maur\u00edcio se dividiram em uma demanda t\u00e3o \u00e9pica quanto a trajet\u00f3ria da empresa que eles decidiram documentar. Mas engana-se quem acha que o livro \u00e9 uma biografia ou um relat\u00f3rio da Editora Abril. Claro, l\u00e1 est\u00e1 toda a g\u00eanese da empresa dos Civita. Mas, como o nome do livro diz, os quadrinhos s\u00e3o seus personagens centrais. Dentro de uma pesquisa minuciosa junto a fontes no sentido de desvendar lendas e mitos para al\u00e9m de narrativas oficiais, os autores buscaram por esse processo, mas nunca perdendo o foco que norteia seu livro, a hist\u00f3ria dos gibis. O resultado \u00e9 uma narrativa fluida que leva o leitor pelas hist\u00f3rias dentro das hist\u00f3rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Surgindo no Brasil como um fen\u00f4meno de vendas em uma \u00e9poca na qual a leitura dos gibis n\u00e3o competia com tantas outras fontes de entretenimento para crian\u00e7as e adolescentes, os quadrinhos da Disney, na figura principal do Pato Donald (lan\u00e7ado inicialmente no formato magazine), teve seu debut na casa Abril em 1950, junto com a revista Raio Vermelho, que foi lan\u00e7ada antes e representa o marco de ser o primeiro quadrinho da editora cujas ra\u00edzes se iniciaram na Argentina, sob o nome de Editorial Abril. &#8220;O formatinho foi criado para se adaptar \u00e0s m\u00e1quinas que o Victor Civita montou em 1952. Al\u00e9m disso, Pato Donald\u2019= n\u00e3o estava vendendo muito bem nesse formato grande. Ent\u00e3o, ele fez uma estrat\u00e9gia para reduzir o formato e o pre\u00e7o. E conseguiu deixar mais atraente para as crian\u00e7as. Com o passar dos anos, ele meio que adotou aquele formato ali&#8221;, explica Manoel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com os personagens licenciados da Disney, a Abril, naquela d\u00e9cada de 1950, e nas duas subsequentes, juntamente com os personagens de Maur\u00edcio de Sousa, que surgiriam em 1970 na editora, viria a se consolidar em um mercado de entretenimento juvenil que at\u00e9 tinha concorrentes como a Ebal &#8211; Editora Brasil-Am\u00e9rica Limitada, mas seu alcance como imp\u00e9rio tornava a empresa dos Civita imbat\u00edvel em vendas. &#8220;Nos anos 1970, a Abril chegou a vender 6 milh\u00f5es de quadrinhos por m\u00eas. Ela vendia 72 milh\u00f5es por ano. Eram n\u00fameros que, dos anos 1980 para a frente, n\u00e3o se repetiram mais. Por que? Primeiro que (em 1986) o Maur\u00edcio de Sousa saiu da Abril&#8221;, contextualiza Manoel acerca das primeira d\u00e9cadas de ascens\u00e3o da empresa, bem como seu primeiro baque comercial, e complementa: &#8220;Nos anos 1970, o n\u00famero de vendas das revistas da Disney era um neg\u00f3cio absurdo. E a pr\u00f3pria M\u00f4nica, que foi aumentando cada vez mais. Com a sa\u00edda do Maur\u00edcio de Sousa em meados dos anos 1980, a Abril tomou um baque. Ai ela precisou tapar o buraco. Foi quando os her\u00f3is come\u00e7aram a receber um maior investimento&#8221;, argumenta Manoel em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 solu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica para a editora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A entrada dos super-her\u00f3is da Marvel Comics na Abril se deu em 1979, mas ainda sem os grandes medalh\u00f5es da Casa das Ideias estadunidense, que, por um tempo, acabaram ficando com a concorrente RGE. Isso ap\u00f3s a Bloch ter perdido o licenciamento que, desde 1967, j\u00e1 havia passado pela Ebal e outras menores. Com a Abril, os personagens Capit\u00e3o Am\u00e9rica, Homem de Ferro, Thor, Mestre do Kung Fu, Surfista Prateado e outros, ganharam inicialmente tr\u00eas t\u00edtulos: uma revista hom\u00f4nima do Capit\u00e3o, \u201cTerror do Dr\u00e1cula\u201d, que trazia, tamb\u00e9m, o personagem da Transilv\u00e2nia, e a gen\u00e9rica \u201cHer\u00f3is da TV\u201d, que abarcava todo um leque de personagens da Marvel. Manoel conta que o t\u00edtulo do Dr\u00e1cula n\u00e3o tardou a ser cancelado, mesmo com boas vendas. &#8220;Qual era o medo? A m\u00e3e assinava uma revista da M\u00f4nica, do Cebolinha, a\u00ed o filho via a revista do Dr\u00e1cula, e quando lia, tinha hist\u00f3rias de gente sendo morta com machadada, sabe? O medo da Abril era esse. A\u00ed os pais iam ficar putos, cancelariam as assinaturas, e iam querer processar a editora. Ent\u00e3o, era um neg\u00f3cio que na cabe\u00e7a deles n\u00e3o pegava bem. A Abril fugia disso&#8221;, esclarece o autor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A DC n\u00e3o tardaria a, tamb\u00e9m, fazer parte do leque da Abril, com a veterana Ebal n\u00e3o renovando seu contrato com a editora do Super-Homem e do Batman no come\u00e7o dos anos 1980. Assim, estes e outros her\u00f3is chegaram ao cat\u00e1logo dos Civita. Estendendo-se por toda a d\u00e9cada e, com obras de Frank Miller (\u201cCavaleiro das Trevas\u201d, \u201cDemolidor\u201d) e Alan Moore (\u201cMonstro do P\u00e2ntano\u201d), revolucionando a partir da segunda metade dos anos 1980, o setor de HQs da Abril acumulou sucessos. Mas os anos 1990, com um foco megaloman\u00edaco da empresa em outros mercados, como o de TV por assinatura, trouxeram grande preju\u00edzos. Mesmo com o maior recorde de vendas da hist\u00f3ria dos quadrinhos lan\u00e7ados no Brasil (a saga \u201cMorte e Retorno do Super-Homem\u201d, que vendeu um milh\u00e3o de exemplares em 1993 e 1994), a Abril come\u00e7ou a declinar. No decorrer daquela d\u00e9cada e a partir do ano 2000, com a extin\u00e7\u00e3o do formatinho, um surreal aumento de pre\u00e7os e a competi\u00e7\u00e3o acirrada da Panini Comics, que passou a licenciar a Marvel, logo o imp\u00e9rio dos Civita ruiu. A Abril durou at\u00e9 2018, apenas com alguns dos t\u00edtulos Disney sendo lan\u00e7ados por ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo e a mudan\u00e7a dos ventos s\u00e3o implac\u00e1veis. Mas podem deixar boas lembran\u00e7as. As mesmas de um garoto de 12 anos que comprou pela fortuna de R$3 aquele gibi especial com a morte do kriptoniano. Nessa entrevista ao Scream &amp; Yell, o co-autor Manoel de Souza detalha mais alguns dos aspectos da sua longa pesquisa, permitindo-se falar da sua pr\u00f3pria g\u00eanese como leitor dos quadrinhos nos anos 1980, e trazendo uma vis\u00e3o ampla dessa trajet\u00f3ria das HQs pela Editora Abril e as mudan\u00e7as \u00e0s quais esse mercado precisou se adaptar para sobreviver durante todas aquelas d\u00e9cadas. Confira o papo!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Livro O IMP\u00c9RIO DOS GIBIS\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/kg5RmFD_6lo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em um livro com tamanha quantidade de informa\u00e7\u00f5es, o que mais me chama aten\u00e7\u00e3o e ati\u00e7a a curiosidade de jornalista \u00e9 o processo de capta\u00e7\u00e3o dessas mesmas informa\u00e7\u00f5es e a cria\u00e7\u00e3o das pautas. Voc\u00ea vem de uma experi\u00eancia longa como editor da revista \u201cMundo dos Super-Her\u00f3is\u201d. Como se deu essa iniciativa de encarar a hist\u00f3ria dos quadrinhos lan\u00e7ados pela Editora Abril, bem como a trajet\u00f3ria da empresa nesse ramo?<\/strong><br \/>\nEu j\u00e1 estava trabalhando h\u00e1 muitos anos na \u201cMundo dos Super-Her\u00f3is\u201d. Tinha feito 110 edi\u00e7\u00f5es da revista. A \u201cMundo dos Super-Her\u00f3is\u201d foi um parto sair. Foi um parto manter. E essas 110 edi\u00e7\u00f5es foram um parto sair. 110 partos a forceps (risos). Um per\u00edodo bem complicado. Bem trabalhoso. E chegou um momento em que eu quis ter a minha pr\u00f3pria editora, porque era a pr\u00f3xima etapa. Eu, quando era adolescente, sonhava em ter a minha revista. Era aquele meu sonho de f\u00e3 de quadrinhos. Depois de muito custo, eu consegui a \u201cMundo dos Super-Her\u00f3is\u201d. E chegou num ponto em que eu quis ir al\u00e9m da revista. Decidi sair em carreira pr\u00f3pria e montar a minha editora. Na hora de montar a editora, veio uma d\u00favida. O que lan\u00e7ar primeiro? Porque a Heroica foi criada, basicamente, para ser uma editora para publicar os meus projetos de gaveta. Eram projetos que n\u00e3o interessavam \u00e0 Editora Europa, a empresa que eu trabalhava. E eu tamb\u00e9m n\u00e3o via outros lugares para publicar. Eu imaginava coisas mais complexas, mais detalhadas, livros com mais p\u00e1ginas, e isso envolvia um custo muito maior. Eram contas que n\u00e3o fechavam. As contas n\u00e3o fechavam nessas editoras tradicionais. Ent\u00e3o, decidi fazer por minha conta. Na hora de escolher o primeiro t\u00edtulo, a lista era enorme. Fui fazendo um pente fino. At\u00e9 o momento em que ficaram duas ideias. Uma era um livro sobre os bastidores da Marvel e da DC, que era um material que seria baseado <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/revistaMSH\/photos\/universo-marveldc-o-pesquisador-roberto-guedes-comenta-sobre-o-trabalho-de-jack-\/720108268038635\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">nas colunas do Roberto Guedes<\/a>. Eu j\u00e1 tinha meio que acertado com ele para a gente fazer uma colet\u00e2nea. E o segundo livro, que era um sonho antigo tamb\u00e9m, era sobre a Editora Abril. Eu tinha feito uma mat\u00e9ria para a \u201cMundo dos Super-Her\u00f3is\u201d uns anos antes. Acho que em 2013. N\u00f3s t\u00ednhamos uma se\u00e7\u00e3o a cada edi\u00e7\u00e3o na qual a gente englobava uma editora. Fomos fazendo com diversas editoras que publicaram quadrinhos no Brasil. A RGE, a Bloch, a Press, e por a\u00ed vai. At\u00e9 que chegou a Abril. Fizemos duas mat\u00e9rias, na verdade, pois n\u00e3o coube tudo. E mesmo assim ficou muita coisa de fora. Naquele momento ali, em 2013, eu j\u00e1 tinha sacado o potencial da pauta em si. Ent\u00e3o, em 2018, quando tive essa ideia de montar a minha pr\u00f3pria editora, comecei a estudar e fiquei com essas duas ideias. Ou o livro da editora Abril, ou o livro sobre os bastidores da Marvel e da DC. O livro da Abril, na verdade, estava como segundo lugar. Eu estava mais querendo fazer o livro sobre os bastidores da Marvel e da DC, porque eram coisas que tinham mais a ver com o que eu fazia na \u201cMundo dos Super-Her\u00f3is\u201d. Estava mais pr\u00f3ximo do que eu fazia no dia-a-dia. Era uma coisa que, na minha cabe\u00e7a, teria menos dificuldades. Planejei fazer esse livro para lan\u00e7ar em 2019, no <a href=\"http:\/\/www.fgdq.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Festival Guia dos Quadrinhos<\/a>, que \u00e9 um evento aqui de S\u00e3o Paulo organizado por um amigo nosso, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=CLwgBkB2UYU\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Edson Diogo<\/a>. Quando expliquei para ele essa ideia de fazer o livro, que eu tinha pensado em algo sobre os bastidores da Marvel e da DC, mas que eu achava que era mais bacana que um livro da hist\u00f3ria da Abril, ele que me desencorajou da ideia sobre a Marvel e DC. Ele me incentivou pelo da Editora Abril. Lembro que ele falou: &#8220;N\u00e3o, esse da Abril \u00e9 perfeito. Se eu fosse voc\u00ea, faria esse livro da Abril. Pelo menos, para um festival Guia dos Quadrinhos, ele tem tudo a ver com o p\u00fablico&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2018 foi, tamb\u00e9m, o ano em que a Editora Abril encerrou de vez sua participa\u00e7\u00e3o no mercado de quadrinhos, n\u00e3o foi?<\/strong><br \/>\nSim. A Abril tinha acabado de <a href=\"http:\/\/universohq.com\/noticias\/abril-confirma-em-comunicado-a-assinantes-fim-dos-quadrinhos-disney-na-editora\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">fechar o setor dela de quadrinhos<\/a>. Isso foi em junho de 2018, e eu estava discutindo com o Edson em novembro de 2018. Ent\u00e3o, eram cinco meses depois. Era uma coisa cujo trauma ainda estava ali. A ferida estava aberta. Ainda tinha aquela coisa de que a Abril tinha dado meio que um golpe nos funcion\u00e1rios, decretando fal\u00eancia. Feito um pedido de recupera\u00e7\u00e3o judicial e n\u00e3o pagado os funcion\u00e1rios. Tinha um monte de gente reclamando. O assunto estava no ar. E decidi pelo livro da Abril. Ent\u00e3o, chamei um amigo meu, o Maur\u00edcio Muniz, que \u00e9 um parceiro de v\u00e1rios projetos. N\u00f3s fizemos v\u00e1rias coisas juntos. A \u201cMundo dos Super-Herois\u201d, A \u201cMundo Nerd\u201d, que foi uma revista que criamos juntos, tamb\u00e9m e era publicada pela Editora Europa. J\u00e1 t\u00ednhamos escrito um livro uns anos antes sobre filmes de vampiros. Ele tamb\u00e9m gostava muito dessa ideia de um livro sobre os quadrinhos da Abril. Tamb\u00e9m era um sonho dele. Ent\u00e3o, o chamei para fazer junto comigo. Gosto de parcerias. Bastante. N\u00e3o sou muito f\u00e3 de fazer as coisas sozinho. E a gente se d\u00e1 muito bem. Era o cara perfeito para a empreitada. Ele, igual a mim, cresceu lendo os quadrinhos da Abril e tinha essa mem\u00f3ria afetiva, conhecia v\u00e1rias das pessoas que trabalharam l\u00e1. Ele mesmo prestou servi\u00e7o para a Abril como tradutor durante muito tempo. Tinha muito a ver. Era um assunto que nos interessava bastante. Isso em novembro de 2018. Final de outubro, novembro. Na minha cabe\u00e7a, inocentemente, pensei: &#8220;Bom, t\u00ednhamos aquelas duas mat\u00e9rias publicadas na \u2018Mundo dos Super-Her\u00f3is\u2019, em 2013, que, juntas, davam umas 16 p\u00e1ginas. Temos meio que um resumo de tudo&#8221;. Imaginamos, n\u00e9? Pegando aquelas duas mat\u00e9rias que fizemos na \u201cMundo\u201d, far\u00edamos algumas entrevistas a mais para potencializar, turbinar o material, e, na nossa cabe\u00e7a, em abril de 2019, estaria tudo pronto. Na \u201cMundo dos Super-Her\u00f3is\u201d, n\u00f3s faz\u00edamos mat\u00e9rias super complexas, dossi\u00eas de 50 p\u00e1ginas \u00e0s vezes, e faz\u00edamos em um m\u00eas. Eu pensei: &#8220;N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que em seis meses eu n\u00e3o fa\u00e7a esse livro&#8221; (risos). Fizemos uma campanha no Catarse para conseguir a grana para a impress\u00e3o e naquele momento eu j\u00e1 fui saindo da Editora Europa. Continuei fazendo a \u201cMundo dos Super-Her\u00f3is\u201d durante algum tempo ainda, mas j\u00e1 tinha comunicado para eles. Durante um per\u00edodo, eu at\u00e9 tinha meio que acordado com eles que continuaria fazendo a revista de casa. Junto, eu ia tocar o livro. Mas logo depois descobri que n\u00e3o daria. A\u00ed decidi sair de vez para me dedicar de cabe\u00e7a, mesmo, ao livro. Foi quando aconteceu uma coisa que mudou tudo. Na verdade, duas coisas. Primeiro que o retorno no Catarse foi muito bom. Logo de cara, batemos a meta. T\u00ednhamos pensado em 25 mil reais de meta. Mas eu j\u00e1 tinha feito uns c\u00e1lculos de que precisaria de, pelo menos, uns 40 mil. O resto eu ia completar com um dinheiro meu, com as minhas economias. Fiquei com medo de pedir muito e ficar invi\u00e1vel de realizar. Mas, no final, n\u00f3s conseguimos recolher quase 60 mil. Foi mais que o dobro no final. Vimos que o interesse pelo assunto era muito grande. Come\u00e7amos a fazer entrevistas com ex-funcion\u00e1rios para conseguir mais detalhes de bastidores. Foi quando notamos que o assunto era bem mais complexo do que a gente imaginava. Porque as entrevistas come\u00e7aram a render muitas e muitas horas. N\u00f3s fizemos, por exemplo, uma entrevista com o Sergio Figueiredo, ex-diretor da Abril, que durou nove horas! Fomos almo\u00e7ar com ele em um restaurante ali na Rua Augusta, em SP, ficamos do meio-dia \u00e0s nove da noite conversando (risos). E depois ainda falar\u00edamos com ele v\u00e1rias vezes sobre outros assuntos que tinham faltado. Tinha muita coisa para ser falada. Logo depois, quando comecei a pesquisa, notei que tinham v\u00e1rios furos na hist\u00f3ria da Abril, coisas que n\u00e3o fechavam. A hist\u00f3ria oficial era meio, digamos, conto da carochinha. &#8220;Aquela hist\u00f3ria oficial de que o Victor Civita chegou ao Brasil em 1950, lan\u00e7ou o Pato Donald, e tudo foi um puta sucesso desde o in\u00edcio. E depois ele lan\u00e7ou a Capricho. A\u00ed os filhos dele come\u00e7aram a trabalhar com ele. Eles lan\u00e7aram as cole\u00e7\u00f5es, lan\u00e7aram a Veja, e foram todos muito felizes, e montaram a maior editora da Am\u00e9rica Latina&#8221;. S\u00f3 que comecei a questionar: &#8220;Ok, legal, o Victor Civita era estrangeiro, veio para o Brasil, e ele n\u00e3o tinha nenhuma experi\u00eancia antes como editor. Mas como \u00e9 que ele conseguiu montar a revista?&#8221;<\/p>\n<figure id=\"attachment_60088\" aria-describedby=\"caption-attachment-60088\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-60088 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Mauricio-Muniz-e-Manoel-de-Souza-lendo-demolidor-1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Mauricio-Muniz-e-Manoel-de-Souza-lendo-demolidor-1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Mauricio-Muniz-e-Manoel-de-Souza-lendo-demolidor-1-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-60088\" class=\"wp-caption-text\"><em>Os autores de &#8220;Imp\u00e9rio dos Gibis&#8221;, Mauricio Muniz e Manoel de Souza<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi a divis\u00e3o dos trabalhos de capta\u00e7\u00e3o de entrevistas e de escrita entre voc\u00ea e o Maur\u00edcio?<\/strong><br \/>\nN\u00f3s t\u00ednhamos dividido o trabalho desde o come\u00e7o. Peguei a primeira parte do livro, que seria da cria\u00e7\u00e3o da editora nos anos 1950, e iria at\u00e9 a sa\u00edda do Maur\u00edcio de Sousa no final de 1986. E o Maur\u00edcio Muniz ia contar dali em diante. Dei a chance dele escolher qual das metades ele ia fazer. Ele preferiu essa porque pegava a parte dos super-her\u00f3is, que era a que ele mais conhecia. Era, tamb\u00e9m, a que eu mais conhecia (risos). Mas como nunca fui um grande conhecedor de Disney, achei bacana pois eu ia aprender bastante sobre ela. Foi uma bela oportunidade. E fui a fundo. Voc\u00ea estava perguntando a quest\u00e3o da pauta. Foi nesse ponto que decidi fazer o livro. Porque vi que tinha muito assunto. Vi que tinha um interesse grande do pessoal. E vi, tamb\u00e9m, que n\u00e3o existia nenhum livro do g\u00eanero. Nenhum livro que contasse a hist\u00f3ria dos quadrinhos da Editora Abril do in\u00edcio at\u00e9 o fim. Fui atr\u00e1s de muitos materiais, colher muitas informa\u00e7\u00f5es, e comecei a descobrir muita coisa sobre os primeiros anos da editora. Por exemplo, eu j\u00e1 sabia que \u201cO Pato Donald\u201d n\u00e3o era a primeira revista da Abril. Sabia que era a \u201cRaio Vermelho\u201d. Mas era uma revista que eu nunca tinha visto, e tamb\u00e9m nunca tinha tido interesse de ter ido atr\u00e1s de como era essa revista, do que ela publicava. E comecei a descobrir um monte de coisa a respeito. Ela tinha publicado v\u00e1rias edi\u00e7\u00f5es, publicado personagens que hoje s\u00e3o praticamente desconhecidos, alguns personagens italianos. Depois de um tempo, descobri que a \u201cRaio Vermelho\u201d n\u00e3o foi a primeira publica\u00e7\u00e3o da Abril brasileira, que havia importado uns livros publicados pela Editorial Abril argentina, que era a empresa original que deu origem \u00e0 Abril brasileira. A Editorial Abril era a empresa do irm\u00e3o do Victor Civita. Ent\u00e3o, foi assim, descoberta atr\u00e1s de descoberta. E eu como f\u00e3 do assunto, estava me deliciando com aquilo tudo ali, sabe? Porque a impress\u00e3o que eu tinha era de que eu tinha aberto um ba\u00fa do tesouro, que ningu\u00e9m tinha essas informa\u00e7\u00f5es. Elas estavam enterradas l\u00e1, escondidas. N\u00e3o tinha isso publicado em lugar nenhum. As pessoas tinham parado de discutir. Voc\u00ea via os livros oficiais sobre quadrinhos, e eles se limitavam a repetir a hist\u00f3ria oficial que a Abril contava sobre ela mesma. Ningu\u00e9m foi l\u00e1 questionar como foram os primeiros anos? Como foi criada a revista do Pato Donald? Ent\u00e3o, essa parte para mim, na verdade, foi um parque de divers\u00f5es. E foram meses indo atr\u00e1s. Decidi fazer uma pesquisa mais profunda do que nunca. Eu j\u00e1 estava acostumado com os dossi\u00eas dos super-her\u00f3is, que era aquelas reportagens nas quais a gente ia a fundo. Dossi\u00eas de sessenta p\u00e1ginas, \u00e0s vezes. E nessa eu fui mais a fundo ainda. Chequei todas as revistas e fui atr\u00e1s da origem dos irm\u00e3os Civita. Foi quando comecei a entrevistar as poucas pessoas que ainda estavam vivas daquele per\u00edodo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi esse processo de capta\u00e7\u00e3o de fontes que passaram por aquele per\u00edodo mais antigo dos quadrinhos da Abril?<\/strong><br \/>\nA\u00ed entra uma pessoa que foi fundamental para o processo, <a href=\"https:\/\/www.rika.com.br\/autor-goncalo-junior\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que foi o Gon\u00e7alo J\u00fanior<\/a>. Porque o Gon\u00e7alo \u00e9 um grande amigo meu e me ajudou muito na cria\u00e7\u00e3o da minha empresa, da minha editora. Ele e a editora dele, a <a href=\"https:\/\/editoranoir.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Noir<\/a>, tem uma hist\u00f3ria meio parecida com a minha. Ele trabalhou muitos anos no mercado e chegou uma hora em que quis publicar as coisas dele por conta pr\u00f3pria. Ele montou a Noir para isso. E ele meio que abriu as portas para mim. Deixou aberta todas as informa\u00e7\u00f5es, toda a experi\u00eancia dele com a Noir. Inclusive com o que deu errado, para que na Heroica eu n\u00e3o cometesse os mesmos erros. Ele abriu caminhos para eu ganhar tempo. Explicou tudo como ele fazia, como ele vendia os livros, os acordos que ele tinha com os livreiros. Ele foi meio que um padrinho da editora. E na quest\u00e3o do livro da Abril, ele foi al\u00e9m. Porque como ele tinha escrito um livro em 2005 sobre a carreira do Cl\u00e1udio de Souza, que foi um dos principais diretores do n\u00facleo de quadrinhos. Ali\u00e1s, muitos dizem que foi o maior diretor de hist\u00f3rias em quadrinhos da hist\u00f3ria da Editora Abril. E o Gon\u00e7alo tinha vasto material das entrevistas com o Cl\u00e1udio de Souza. E ali em 2018\/2019, ele j\u00e1 tinha morrido. Ele morreu em 2012. E n\u00e3o tinha mais como falar com ele. E o Gon\u00e7alo me liberou todas as grava\u00e7\u00f5es que ele tinha com o Cl\u00e1udio de Souza. Ele me liberou todas as informa\u00e7\u00f5es do livro dele, \u201cO Homem Abril\u201d, <a href=\"http:\/\/universohq.com\/reviews\/o-homem-abril-claudio-de-souza-e-a-historia-da-maior-editora-brasileira-de-revistas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que \u00e9 essa biografia do Cl\u00e1udio de Souza<\/a>. O Cl\u00e1udio de Souza foi um diretor que acho que era o funcion\u00e1rio de n\u00famero sete ou oito da Abril. Ele entrou na editora em 1951 e ficou at\u00e9 1974. Ele teve uma passagem monumental no setor de quadrinhos da Abril entre 1971 e 1974. Quando ele entrou, o setor de quadrinhos vendia um milh\u00e3o e meio por m\u00eas de quadrinhos. Quando ele saiu, em 1974, vendia por volta de quatro milh\u00f5es. Ele praticamente triplicou a quantidade. Foi um cara que criou diversas revistas importantes. Ele foi o cara que criou o \u201cManual do Escoteiro Mirim\u201d. Foi o cara que criou a base para montar toda aquela equipe que fazia hist\u00f3rias brasileiras da Disney. E, ao mesmo tempo, ele foi um cara que teve problemas s\u00e9rios l\u00e1, pois a filha dele foi levada pela ditadura. Foi l\u00e1 para os por\u00f5es do DOPS. E isso mexeu profundamente com a cabe\u00e7a dele. E ele come\u00e7ou a descontar isso nos funcion\u00e1rios. Era um per\u00edodo em que a Abril estava bem complicada com a Veja, pois estava dando um preju\u00edzo tremendo, e ainda tinha um censor dentro da reda\u00e7\u00e3o. Todos os donos, o Victor Civita e os filhos dele, estavam muito focados na Veja, e eles meio que deixaram o setor de quadrinhos funcionando sozinho. E o Cl\u00e1udio de Souza se sentiu o dono do neg\u00f3cio e meio que virou ali um pequeno ditador. Come\u00e7ou a passar da medida. Tanto que conto os detalhes que ele perseguiu o Primaggio (Mantovi), que era o respons\u00e1vel pelo est\u00fadio de cria\u00e7\u00e3o, e por a\u00ed vai. O Gon\u00e7alo tamb\u00e9m me liberou as entrevistas que tinha feito com o Roberto Civita, que era o filho do Victor Civita, e que j\u00e1 havia falecido em 2013. Al\u00e9m disso, ele me liberou entrevistas <a href=\"http:\/\/www3.eca.usp.br\/noticias\/lvaro-de-moya-uma-vida-em-quadrinhos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">com o \u00c1lvaro de Moya<\/a>, que foi um dos primeiros funcion\u00e1rios da Abril, trabalhou l\u00e1 no comecinho, no lan\u00e7amento da revista do Mickey. E eu fui conhecendo as pessoas. Foram aparecendo diversas pessoas no meio do caminho que tinham v\u00e1rias e v\u00e1rias informa\u00e7\u00f5es. Conheci um colecionador no interior de S\u00e3o Paulo que tinha a cole\u00e7\u00e3o completa da \u201cRaio Vermelho\u201d e da \u201cRayo Rojo\u201d, tamb\u00e9m, que era uma revista da Editorial Abril que publicou algumas hist\u00f3rias que vieram para o Brasil. Fui atr\u00e1s disso tudo e foi uma divers\u00e3o. Fiquei meses ali pesquisando o neg\u00f3cio. O problema \u00e9 que n\u00f3s t\u00ednhamos pensado que a gente ia subir o pico do Jaragu\u00e1 e, conforme entremos de cabe\u00e7a ali no projeto, vimos que a gente estava subindo o Everest de t\u00e3o complicada que era a coisa (risos). E com isso, o nosso prazo inicial foi para o espa\u00e7o. Aquela ideia de lan\u00e7ar em abril de 2019, sem chance. O livro acabou sendo lan\u00e7ado um ano depois. Em abril de 2020, para voc\u00ea ter uma ideia. Atrasou um ano o lan\u00e7amento. Nesse per\u00edodo, eu fui passando as informa\u00e7\u00f5es aos apoiadores do Catarse, que eram 588 ao todo. Mas eles foram bem compreensivos. Fui mostrando toda a pesquisa que eu estava fazendo. Tudo o que a gente estava encontrando. E s\u00f3 para voc\u00ea ter uma ideia, inicialmente, o livro tinha uma ideia de ficar com 256 p\u00e1ginas. No final, ele ficou com 544. Ele mais que dobrou o tamanho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lendo seu livro, fui meio que transportado no tempo para o come\u00e7o dos anos 1990, quando, come\u00e7ando a adolesc\u00eancia, tamb\u00e9m fui apresentado aos quadrinhos de super-her\u00f3is. Lembro que minha g\u00eanese na leitura da DC foi dentro da febre midi\u00e1tica da \u201cMorte do Super-Homem\u201d e, com a Marvel, o relan\u00e7amento da vers\u00e3o sem cortes de \u201cGuerras Secretas\u201d, em \u201cA Teia do Aranha n. 62\u201d. Quando foi a sua?<\/strong><br \/>\nA minha g\u00eanese foi em 1985, com o \u201cHulk n. 21\u201d, e o \u201cCapit\u00e3o Am\u00e9rica n. 70\u201d. Naquela \u00e9poca, eu n\u00e3o comprava as revistas na banca. Venho de uma fam\u00edlia muito humilde. Meu pai, motorista de \u00f4nibus; minha m\u00e3e, dona de casa. N\u00e3o tinha dinheiro para comprar na banca. Apesar dos gibis serem baratinhos naquela \u00e9poca, a gente era t\u00e3o pobre que nem o gibi na banca eu conseguia comprar. Eu comprava na banca de revistas usadas. E esse dono da banca de revistas usadas sempre tinha coisas relativamente recentes. E eu comprava mais barato. E sempre que eu completava dois gibis, eu ia l\u00e1 e trocava por um. N\u00e3o conseguia ter cole\u00e7\u00e3o. Eu s\u00f3 vim a ter cole\u00e7\u00e3o anos depois. Quando comecei a trabalhar, fui e comprei tudo de novo. Mas foi ali que come\u00e7ou. Antes de 1985, eu j\u00e1 lia alguma coisa um pouco antes. Lembro de ter lido algumas edi\u00e7\u00f5es do Homem-Aranha, da RGE. Gostava muito do Tio Patinhas, daquelas hist\u00f3rias do Almanaque Disney, que eles iam para aquelas civiliza\u00e7\u00f5es. Eram as hist\u00f3rias do Carl Barks, mas <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/literatura\/barks.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">eu nem sabia quem era o Carl Barks<\/a>. Da Turma da M\u00f4nica, eu gostava muito do Chico Bento. <a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/literatura\/pelezinho.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Gostava muito do Pel\u00e9zinho<\/a>, tamb\u00e9m. Mas, assim, era uma coisa que eu lia, mas, sabe, n\u00e3o tinha assim, digamos, uma aten\u00e7\u00e3o mais s\u00e9ria. Um dia eu lia Disney, outro dia eu lia a M\u00f4nica, depois eu lia alguma coisa de her\u00f3is que aparecia. E por a\u00ed vai. Depois que comecei mesmo nesse per\u00edodo que eu tinha uns 12 anos. A\u00ed foi s\u00e9rio mesmo. N\u00e3o parei mais. Fazia o poss\u00edvel para ler. Tinha alguns amigos que liam, tamb\u00e9m, mas depois eles sa\u00edram da escola. Acabei ficando eu sozinho l\u00e1 (risos). N\u00e3o tinha ningu\u00e9m para emprestar nada. Era algo meio raro. Mas durante um per\u00edodo, algumas pessoas me emprestaram, tamb\u00e9m. Depois fui estudar desenho em um col\u00e9gio t\u00e9cnico. L\u00e1, realmente, tinha muita gente que gostava de quadrinhos. Em 1990, fiz um curso em uma oficina cultural, e o Toninho Mendes, <a href=\"https:\/\/revistatrip.uol.com.br\/trip\/a-historia-da-circo-editorial-e-de-toninho-mendes-editor-que-lancou-laerte-angeli-glauco-e-outros\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que era o dono da Circo Editorial<\/a>, me chamou para ser um assistente l\u00e1. Durante seis meses, eu trabalhei na editora que fazia \u201cChiclete com Banana\u201d. Desde essa \u00e9poca, eu j\u00e1 tinha uma ideia de lan\u00e7ar uma revista igual a \u201cMundo dos Super-Her\u00f3is\u201d. Mas ela s\u00f3 deu certo mesmo em 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como colecionador dos quadrinhos em formatinho da Abril desde os anos 1990, uma das coisas que mais me interessavam na leitura de \u201cO Imp\u00e9rio dos Gibis\u201d foi a fase do come\u00e7o da Marvel e da DC na editora. As fases tiveram grande participa\u00e7\u00e3o dos trabalhos de tradu\u00e7\u00e3o do Jotap\u00ea Martins e o afinco editorial do Helcio de Carvalho. E uma das quest\u00f5es que me deixavam curioso era saber sobre as adapta\u00e7\u00f5es, cortes e mudan\u00e7as ocorridas no formato das HQs vinda dos Estados Unidos para as menores publicadas aqui. H\u00e1 aquelas diversas conversas em f\u00f3runs sobre tais cortes, inclusive. E o livro abrange bem essas explica\u00e7\u00f5es, principalmente no explicar das raz\u00f5es para os cortes na saga \u201cGuerras Secretas\u201d.<\/strong><br \/>\nEsse foi um norte do livro. Foi algo que eu e o Maur\u00edcio buscamos desde o in\u00edcio: explicar o porqu\u00ea das coisas. Porque a Abril \u00e9 cheia de lendas urbanas. Aquela coisa assim: &#8220;Ah, a Veja dava preju\u00edzo e quem bancava a Veja e a Abril era o Pato Donald&#8221;. Bom, vamos atr\u00e1s para ver se isso era verdade. &#8220;Ah, a revista do Dr\u00e1cula foi cancelada porque o Victor Civita n\u00e3o gostava dela&#8221;. Ent\u00e3o, a gente foi pegando essas lendas e fomos atr\u00e1s para descobrir o porqu\u00ea. No caso espec\u00edfico do que voc\u00ea falou, tem muitas pessoas que tratam o Jotap\u00ea como um vil\u00e3o, como se ele tivesse um prazer enorme em cortar. Como se n\u00e3o estivesse nem a\u00ed para ningu\u00e9m e que se danem os leitores (risos). D\u00e1 a entender que o cara era meio s\u00e1dico. Mas, na verdade, o que acontece \u00e9 o seguinte: os quadrinhos daquela \u00e9poca, o perfil de quem lia os quadrinhos daquela \u00e9poca, era bem diferente. Existia uma grande maioria que lia quadrinhos por divers\u00e3o. Pessoas que compravam como passatempo. E isso foi at\u00e9 a metade dos anos 1980. Depois, aos poucos, esses caras foram desaparecendo. Mas, o que acontecia era que tinha um cara que passava pela banca, depois ia pegar um \u00f4nibus, ficar na fila do banco, e ele tinha aquela tarde livre e ia l\u00e1 e comprava uma revista do Capit\u00e3o Am\u00e9rica pra ler. Muitos jogavam a revista fora depois, ou davam para outra pessoa ou davam para uma crian\u00e7a. Ou ent\u00e3o a deixavam perdida em casa e a m\u00e3e jogava fora. Diversas situa\u00e7\u00f5es. N\u00e3o tinha esse esp\u00edrito de colecionador que ficam vendo todos os pequenos detalhes. As pessoas queriam simplesmente um passatempo. Era mais ou menos como se fossem aquelas pessoas que compram palavras cruzadas, ficam fazendo, e depois, quando completam, jogam fora. Uma boa parte desses caras eram dessa linha. Compravam para se divertir, ou porque gostavam de alguns personagens, assistiam ao desenho do Homem Aranha na TV, e queriam ler uma hist\u00f3ria do Homem Aranha, tamb\u00e9m. N\u00e3o tinham maiores pretens\u00f5es. O cara n\u00e3o queria ser nerd. N\u00e3o queria ir al\u00e9m. E tinha uma parcela, j\u00e1 naquele per\u00edodo, que eram caras tipo n\u00f3s, mais apaixonados pelo assunto, que j\u00e1 acompanhavam de um tempo, que olhavam com mais aten\u00e7\u00e3o, e por a\u00ed vai. E a\u00ed eram esses caras que implicavam com os cortes. Porque, durante muito tempo, at\u00e9 por conta da economia brasileira, finalzinho da ditadura at\u00e9 o Collor, o Brasil ainda tinha aquela coisa da reserva de mercado. Era dif\u00edcil vir coisas de fora. N\u00e3o era f\u00e1cil encontrar as revistas originais para saber que determinada hist\u00f3ria teve X p\u00e1ginas cortadas. Eu, mesmo, li \u201cGuerras Secretas\u201d a primeira vez e estava de boa (risos). Eu tinha 12 anos, cara, e achei legal pra caramba. Chegou no final, o Homem Aranha voltou ao uniforme dele, ok. At\u00e9 estranhei que o desenho era um pouquinho diferente do resto, mas, beleza (risos). Pau na m\u00e1quina. Eu s\u00f3 fui saber anos depois que tinham acontecido todas aquelas mudan\u00e7as. Ent\u00e3o, o Helcio e o Jotap\u00ea estavam muito focados em atender a esse p\u00fablico. E para atend\u00ea-los, o que eles faziam? Eles tinham que adaptar o material ao padr\u00e3o da Abril.<\/p>\n<figure id=\"attachment_60091\" aria-describedby=\"caption-attachment-60091\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-60091 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Foto-1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1152\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Foto-1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Foto-1-195x300.jpg 195w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-60091\" class=\"wp-caption-text\"><em>As mudan\u00e7as na hist\u00f3ria &#8220;A Queda de Murdock&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E esse padr\u00e3o seguia, tamb\u00e9m, quest\u00f5es de planejamento financeiro, de capacidade de impress\u00e3o, certo?<\/strong><br \/>\nIsso. O padr\u00e3o da Abril era formatinho. Naquela \u00e9poca n\u00e3o existia chance de voc\u00ea fazer nada maior que o formatinho porque era uma produ\u00e7\u00e3o industrial. Os caras faziam um c\u00e1lculo no final do ano de quanto que eles iam gastar de tonelada de papel; quantas revistas eles iam fazer; por quanto eles iam vender; qual era a margem de lucro e qual era o lucro que a empresa ia ter. E tinha que seguir aquilo ali. N\u00e3o tinha como chegar no meio do caminho e falar: &#8220;Seu Victor (risos), essa revista aqui tem 84 p\u00e1ginas, mas, olha, eu n\u00e3o posso mais cortar essa p\u00e1gina. Eu preciso de mais um caderno&#8221;. O diretor ia demitir esse cara. &#8220;Se liga! Voc\u00ea tem dia para entregar e ta\u00ed o seu prazo, ta\u00ed a sua quantidade de p\u00e1gina. Se vira!&#8221; E foi o que eles fizeram. Eles tinham programado colocar X hist\u00f3rias l\u00e1. E, de repente, algu\u00e9m da publicidade vendia uma p\u00e1gina dupla de an\u00fancio. J\u00e1 n\u00e3o era muito f\u00e1cil conseguir an\u00fancio de publicidade para os quadrinhos. E a\u00ed aparecia uma p\u00e1gina dupla l\u00e1? O cara ia dar um jeito de cortar em algum lugar para colocar. Era uma realidade. Era uma quest\u00e3o, mesmo, de bastidores. Uma quest\u00e3o do neg\u00f3cio em si. Eles estavam focados muito nisso. Por que eles faziam isso? Porque, atendendo esses leitores que eram a maioria, eles conseguindo colocar an\u00fancios para rentabilizar a revista, eles conseguindo selecionar as melhores hist\u00f3rias, essa jun\u00e7\u00e3o toda \u00e9 que deu for\u00e7a para as revistas continuarem. Tanto que se voc\u00ea pegar as revistas da Abril, as numera\u00e7\u00f5es das de super-her\u00f3is, a Abril sempre tem as mais altas. \u201cCapit\u00e3o Am\u00e9rica\u201d, \u201cHomem-Aranha\u201d e \u201cConan\u201d chegaram a mais de 200 edi\u00e7\u00f5es. \u201cSuperaventuras Marvel\u201d chegando a 170. E vendiam uma quantidade absurda, comparado com hoje. 50, 60 mil. \u201cHomem Aranha\u201d vendia mais de 100 mil. Ent\u00e3o, na verdade, eu entendo como editor. Pensando como editor, pensando que ele tinha uma meta a cumprir, que ele tinha que entregar a revista no prazo, que ele tinha que atender o que os leitores queriam, e que o neg\u00f3cio tinha que dar lucro para continuar. E eles conseguiram. Mesmo com as limita\u00e7\u00f5es todas, eles conseguiram fazer um trabalho bacana. Agora, como leitor, alguns cortes eu acho que ficaram at\u00e9 melhores que o original (risos), pra falar a verdade. Porque, algumas hist\u00f3rias ali, eu cheguei a ler depois a vers\u00e3o da Panini, que era mais completo e tal. No caso, a gente sempre comenta \u201cX-Men\u201d, do Chirs Claremont. O texto dele \u00e9 meio chatinho, assim. Extremamente detalhados. E eles simplificavam isso. E isso, eu acho, deixava o texto at\u00e9 melhor. Ent\u00e3o, sendo editor, entendo essas escolhas todas e acho que realmente eles fizeram o que tinha que ser feito. Se n\u00e3o fosse assim, talvez as revistas n\u00e3o tivessem durado tanto. Mas como f\u00e3, tenho algumas restri\u00e7\u00f5es. Alguns dos cortes foram cortes bem grosseiros. \u00c9 engra\u00e7ado porque eu conhecia alguns deles. Os dois mais falados de todos foram os v\u00e1rios que ocorreram em \u201cGuerras Secretas\u201d e aquele de \u201cA Queda de Murdock\u201d. A seringa da Karen Paige que virou navalha. Esses foram os mais conhecidos. Mas depois, quando eu fui fazer a pesquisa do livro, comecei a descobrir v\u00e1rios. Um amigo chegou a fazer um levantamento. N\u00f3s est\u00e1vamos com a ideia de colocar nos extras do livro todos esses cortes. J\u00e1 t\u00ednhamos listado mais de 500. Mas n\u00e3o teve espa\u00e7o. Era muita coisa. Alguns me deixaram meio puto. Eu lembro que tinha uma edi\u00e7\u00e3o em que eles fizeram um especial de \u201cMestre do Kung Fu\u201d que saiu na mesma \u00e9poca de \u201cSuperaventuras Marvel\u201d. S\u00f3 que esse especial s\u00f3 teve um n\u00famero. Depois comparando com a revista original, vi que eles eliminaram uma (p\u00e1gina) dupla que era linda no come\u00e7o da hist\u00f3ria, e que fazia um resumo do que tinha acontecido antes. E era uma dupla toda desenhada. As cenas, se n\u00e3o me engano, formavam at\u00e9 umas palavras. Um trabalho de arte lindo. E na hist\u00f3ria da Abril, simplesmente eliminaram essa dupla. Ela tem a primeira p\u00e1gina, eliminou essa dupla seguinte, e j\u00e1 vai para o restante, sabe? Um puta trabalho art\u00edstico ferrado que s\u00f3 fui descobrir d\u00e9cadas depois que existia. De repente, podiam ter cortado outra coisa. Alguns cortes eu questionava, assim. E algumas coisas eu achava meio esquisita, como quando pegavam cinco hist\u00f3rias e transformavam em uma. Isso mexia profundamente na hist\u00f3ria. N\u00e3o era s\u00f3 eliminar uma p\u00e1gina e cortar um bal\u00e3o. Teve hist\u00f3rias ali que foram reeditadas. Ali, acho que passou da medida. Acho que tomaram gosto pela coisa e meio que fugiu do controle (risos).<\/p>\n<figure id=\"attachment_60100\" aria-describedby=\"caption-attachment-60100\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-60100 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Novo-Projeto-1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"637\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Novo-Projeto-1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Novo-Projeto-1-300x255.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-60100\" class=\"wp-caption-text\"><em>Os cortes na saga &#8220;Guerras Secretas&#8221;: personagens ainda in\u00e9ditos no Brasil<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lembro-me da quest\u00e3o dos letramentos manuais que a Lilian Mitsunaga fazia. Aquele trabalho incr\u00edvel em \u201cAsilo Arkham\u201d, do Grant Morrison (que a Panini deu vexame &#8211; depois corrigido &#8211; de n\u00e3o usar o mesmo tipo de apuro da Lilian). No papo com ela, voc\u00eas abordaram muitas desses detalhes?<\/strong><br \/>\nEssa entrevista especificamente n\u00e3o fui eu que fiz. Foi o Maur\u00edcio. Porque n\u00f3s entrevistamos quase 50 pessoas. Tirando o que devem ser umas seis que s\u00e3o do material de arquivo do Gon\u00e7alo, foram pelo menos umas 40 pessoas. E uma parte, eu e o Maur\u00edcio entrevistamos juntos. N\u00f3s buscamos o pessoal, digamos, mais de frente, mesmo. Aqueles editores que participaram ali, mesmo. Pessoas como Helcio, o Figa (Sergio Figueiredo), o Julio de Andrade. Esses a\u00ed, eu e o Maur\u00edcio fomos pessoalmente. E tentamos acertar a agenda o m\u00e1ximo poss\u00edvel que deu. Alguns outros, tamb\u00e9m, eram importantes, mas por conta de agenda, n\u00e3o deu para irmos os dois. Ent\u00e3o, dividimos. At\u00e9 para facilitar o trabalho, sen\u00e3o o livro n\u00e3o ia terminar nunca. Ent\u00e3o, ele ficou com alguns e ou com outros. No caso da Lilian, o Maur\u00edcio fez por j\u00e1 ter um contato maior com ela. O Festival Guia dos Quadrinhos, o Maur\u00edcio participava muito junto com o Edson. O Edson meio que o contratava para ajudar na organiza\u00e7\u00e3o. E teve um ano que eles fizeram uma homenagem para a Lilian. Ent\u00e3o, eles j\u00e1 tinham uma entrevista com ela que n\u00f3s usamos como base. Essa entrevista \u00e9 at\u00e9 citada na bibliografia. E depois o Maur\u00edcio fez uma nova entrevista com ela, tamb\u00e9m. A Lilian sempre foi muito t\u00edmida. Ela trabalhava em casa, praticamente. N\u00f3s falamos bastante do trabalho dela. Ela nos deu as informa\u00e7\u00f5es, e algumas n\u00f3s n\u00e3o colocamos em forma de depoimento, mas serviu mais para confirmar as informa\u00e7\u00f5es que a gente tinha do processo em si. Ela foi uma fonte bem bacana. Conseguimos bastante coisa com ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A quest\u00e3o dos espa\u00e7os nos textos ap\u00f3s a adapta\u00e7\u00e3o do formato americano para o formatinho tamb\u00e9m era algo a ser levado em conta. Como era esse processo?<\/strong><br \/>\nEssa quest\u00e3o das letras \u00e9 crucial para as hist\u00f3rias de super-her\u00f3is. Quando os super-her\u00f3is chegaram na Abril, eles j\u00e1 tinham passado por outras editoras. Eles j\u00e1 tinham sido em formato americano na Ebal e algumas outras editoras, como a GEP. Depois eles j\u00e1 tinham ido para o formatinho na Bloch e na RGE. Na Abril, eles ficaram de vez no formatinho. A Abril demorou muito tempo at\u00e9 publicar alguma coisa em formato americano. Na Abril, eles pegaram os super-her\u00f3is e colocaram no mesmo sistema da Disney e da Turma da M\u00f4nica. Ent\u00e3o, eles usavam um tamanho de fonte que era a mesma. S\u00f3 que os textos dos super-her\u00f3is eram muito maiores. Por isso que eles tinham que cortar para encaixar naquele tamanho de letra. Esse tamanho de letra existiu porque, depois de muitos anos estudando e testando, eles descobriram que se usassem o corpo 8 com espa\u00e7amento 8, e deixassem uma quantidade X de bal\u00f5es por p\u00e1gina, a leitura seria muito mais agrad\u00e1vel. A Abril tinha muito isso. Era uma busca de efici\u00eancia de produ\u00e7\u00e3o, sabe? Isso aparece em v\u00e1rios trechos do livro. O Primaggio (Mantovi), por exemplo, viu que eles estavam perdendo muito tempo fazendo os desenhos muito grandes, e a\u00ed pediu para os caras desenharem menor, em uma certa espessura de tra\u00e7o para quando reduzisse ao formatinho, n\u00e3o perdessem. L\u00e1 no come\u00e7o, tamb\u00e9m, o Cl\u00e1udio de Souza falava que o material que vinha para a \u201cRaio Vermelho\u201d era o da Argentina, da Editoria Abril de l\u00e1. Por conta de falta de verba, eles reaproveitavam o desenho da p\u00e1gina inteira. S\u00f3 mudavam o texto. S\u00f3 que l\u00e1 na Argentina, eles deixavam os bal\u00f5es todos quadrados. E ficava um neg\u00f3cio esquisito aqui no Brasil. Com o tempo, eles come\u00e7aram a deixar os bal\u00f5es mais redondos. Ent\u00e3o, assim, existe sempre uma procura pela excel\u00eancia gr\u00e1fica e por atender bem o leitor que eu acho que tudo isso se refletiu. Ent\u00e3o, quando os super-her\u00f3is chegaram na Abril, eles foram adaptados para aquele formato. Porque na cabe\u00e7a dos diretores, n\u00e3o havia diferen\u00e7a entre hist\u00f3ria do Homem-Aranha e hist\u00f3ria da Luluzinha, ou do Cebolinha, ou do Tio Patinhas. Era tudo quadrinho, tudo para crian\u00e7a, entendeu? A\u00ed o Helcio e o Jotap\u00ea que fizeram ali o se vira nos trinta para tentar, mesmo com aquelas limita\u00e7\u00f5es, fazer um trabalho melhor. Porque eles sabiam que se fizessem simplesmente como a RGE fazia, de pegar l\u00e1 e publicar de qualquer jeito, n\u00e3o ia dar muito certo. Como n\u00e3o deu. Tanto que os t\u00edtulos de her\u00f3is que a RGE tinha foram cancelados. O da Abril continuaram por muito tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Essa abordagem da parte t\u00e9cnica da cria\u00e7\u00e3o, bem como o detalhar dos lan\u00e7amentos da Abril, \u00e9 bem percept\u00edvel no desenvolvimento do livro, inclusive.<\/strong><br \/>\nEu tive uma preocupa\u00e7\u00e3o muito grande com essa parte t\u00e9cnica, porque o plano era que o livro fosse muito al\u00e9m de um livro s\u00f3 para colecionadores. Ele conta a hist\u00f3ria da editora Abril, mas ele n\u00e3o \u00e9 um livro sobre a hist\u00f3ria da editora Abril. Ele \u00e9 um livro sobre os quadrinhos da editora Abril. Ent\u00e3o, os quadrinhos lan\u00e7ados por ela sempre s\u00e3o o personagem. Os colaboradores s\u00e3o importantes. Os donos s\u00e3o importantes, mas mais importante que tudo, para o livro, s\u00e3o as revistas. As revistas sempre foram o foco. A ideia foi assim: explicar porque as revistas foram criadas, como elas foram criadas, e como elas eram criadas. Como a hist\u00f3ria era muito longa, come\u00e7ava l\u00e1 nos anos 1940 e ia at\u00e9 2018, eu tive uma preocupa\u00e7\u00e3o muito grande de explicar os processos para o livro servir, tamb\u00e9m, como um document\u00e1rio sobre a imprensa brasileira. Tanto a imprensa quanto a evolu\u00e7\u00e3o das artes gr\u00e1ficas. Eu sou editor de arte, ent\u00e3o, adoro essa parte gr\u00e1fica. E sempre tive muita curiosidade. &#8220;Como eram feitas as revistas antes do computador?&#8221; &#8220;Nos anos 1950, como eles montavam as revistas?&#8221; &#8220;Vinha fotolito pronto? Como era essa impress\u00e3o?&#8221; Ent\u00e3o, o que pude descobrir nessa \u00e1rea, coloquei no livro. L\u00e1 explica que, em determinado momento, a Abril mudou o sistema de impress\u00e3o deles de off-set para rotogravura, que era um sistema muito pr\u00f3ximo ao off-set, mas conseguia fazer impress\u00f5es mais r\u00e1pidas. Ent\u00e3o, para a Abril, isso era perfeito. Assim, eles teriam um ganho de efici\u00eancia enorme que baratearia o custo. Ent\u00e3o, todas as revistas eram impressas daquele jeito. Por conta disso, se pensar bem, at\u00e9 tinha uma perda de qualidade. Porque as outras editoras que imprimiam no sistema tradicional de off-set, as edi\u00e7\u00f5es at\u00e9 tinham uma qualidade um pouco melhor. Mas, no geral, para a Abril era mais vantajoso fazer daquele jeito, porque o custo era menor. Ela podia vender um pouco mais barato, e capitalizava nas vendas. Foi um processo usado por d\u00e9cadas. Eu fui l\u00e1, consegui localizar algumas pessoas que trabalhavam na gr\u00e1fica da Abril na \u00e9poca. At\u00e9 apareceu aquela hist\u00f3ria que o cara fez uma sacanagem na pintura do Cebolinha (risos), e ficou parecendo que um pinto dele na hora do banho. E por a\u00ed vai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No livro, voc\u00ea e Maur\u00edcio trazem informa\u00e7\u00f5es aprofundadas acerca do processo de censura que alguns t\u00edtulos sofreram dentro da Abril, como foi o caso do cancelamento do t\u00edtulo do \u201cDr\u00e1cula\u201d, al\u00e9m das j\u00e1 citadas mudan\u00e7as da p\u00e1gina de \u201cA Queda de Murdock\u201d, onde o tema das drogas era abordado; \u201cCamelot 3000\u201d, com uma cena de lesbianismo, al\u00e9m do \u201cArqueiro Verde\u201d e o personagem Ricardito, com, tamb\u00e9m, uma abordagem sobre drogas (que acabou sendo publicada). Na \u00e9poca, como foi essa abordagem da Abril?<\/strong><br \/>\nA Abril come\u00e7ou com quadrinhos, mas ela s\u00f3 foi uma editora de quadrinhos no in\u00edcio. Alias, se voc\u00ea pensar bem, a Abril nunca foi uma editora somente de quadrinhos. Porque quando o Victor Civita assumiu a empresa em 1950, ela j\u00e1 publicava livros infantis. E ela ficou publicando livros infantis por um tempo. Essa hist\u00f3ria \u00e9 meio obscura. Tanto que no livro digo que s\u00e3o livros rar\u00edssimos. Muitos ali a gente nem sabe se foram publicados todos, porque cada livro, aqueles \u201cPequenos Grandes Contos\u201d, a cole\u00e7\u00e3o \u201cEu Sou&#8230;\u201d, aquelas cole\u00e7\u00f5es saiam e depois vinha uma lista do que ia sair em seguida. Mas o neg\u00f3cio \u00e9 t\u00e3o obscuro que n\u00e3o se sabe se sa\u00edram todos os t\u00edtulos listados. Acho que listei uns 40 t\u00edtulos. Mas n\u00e3o se sabe se foram lan\u00e7ados 40 mesmo, sabe? Tanto que depois que lancei o livro, algumas pessoas at\u00e9 entraram em contato comigo e mandaram fotos de alguns livrinhos que eles tinham. Mas n\u00e3o consegui, realmente, encontrar todos. Mas, em resumo, a Abril, se voc\u00ea for contar com esses livrinhos, nunca foi uma editora somente de quadrinhos. No come\u00e7o, ela focou nos quadrinhos porque eles eram a onda da \u00e9poca. Era uma coisa que vendia bem. O irm\u00e3o do Victor Civita, o C\u00e9sar, tinha a licen\u00e7a da Disney, pois havia trabalhado na (editora) Mondadori. Depois ele virou um representante da Disney. E a Disney era conhecida mundialmente. Ent\u00e3o, eles tinham em m\u00e3os um material muito bom para publicar. Mas logo em 1952, a Abril j\u00e1 lan\u00e7ou a revista Capricho, depois lan\u00e7ou Manequim, depois ela lan\u00e7ou a Quatro Rodas. Ent\u00e3o, chegou uma \u00e9poca em que os quadrinhos eram mais um setor dentro de uma empresa que n\u00e3o foi pensada para ser uma empresa de quadrinhos. Ela foi pensada para ser uma editora dos mais variados tipos. Editoras que atendessem o homem, a mulher, o executivo, a crian\u00e7a. Ent\u00e3o, no caso dos quadrinhos, o foco da Abril era o mercado infanto-juvenil. Mais infanto do que juvenil, at\u00e9. Ent\u00e3o, o que acontecia era que o carro chefe era a Disney. E geralmente eles tentavam publicar coisas que eram parecidas com a Disney. Com o passar dos anos, a Abril at\u00e9 tentou publicar algumas coisas um pouco diferentes. Por exemplo, pouca gente sabe, mas a Abril publicou Tenente Blueberry nos anos 1970. Um personagem do Moebius de quando ele ainda nem se chamava Moebius, mas, sim, Jean Giraud. Mas n\u00e3o foi muito bem. E eles tentaram publicar algumas coisas europeias que eram mais de aventura, mas tamb\u00e9m n\u00e3o foi muito bem. Quando os super-her\u00f3is chegaram no final dos anos 1970, j\u00e1 existia uma cultura muito forte de que quadrinho, para a Abril, era quadrinho infanto-juvenil. O que sa\u00eda daquilo ali, a Abril n\u00e3o pegava porque n\u00e3o interessava. Eles achavam que n\u00e3o valia a pena. Porque eles estavam muito contentes com a Disney. Vendia pra caramba. Eles tinham os t\u00edtulos mais vendidos do Brasil. Era um setor que, teoricamente, estava resolvido. Eles n\u00e3o estavam querendo ficar arriscando muito. E outra coisa que existia era uma d\u00favida muito grande entre os diretores que se lan\u00e7assem coisas demais, poderia ocorrer o que eles chamavam de canibaliza\u00e7\u00e3o. Por exemplo, voc\u00ea tem a revista da M\u00f4nica e a do Cebolinha. Se voc\u00ea lan\u00e7asse outros t\u00edtulos, eles poderiam roubar leitores dos outros t\u00edtulos do Maur\u00edcio de Sousa, como a M\u00f4nica e o Cebolinha. A\u00ed voc\u00ea ia come\u00e7ar a ter um monte de t\u00edtulos que vendessem um pouquinho. Iria dar mais trabalho, enquanto que se tivessem poucos t\u00edtulos que vendessem muito, era mais interessante. Ent\u00e3o tinha essa d\u00favida, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E em que circunst\u00e2ncia chegou a HQ do \u201cDr\u00e1cula\u201d para ser um dos lan\u00e7amentos da Abril e seu subsequente cancelamento?<\/strong><br \/>\nO personagem \u201cDr\u00e1cula\u201d foi comprado junto com o pacote que tinha o material que deu origem a \u201cHer\u00f3is da TV\u201d, \u201cCapit\u00e3o Am\u00e9rica\u201d, e eles publicavam \u201cDr\u00e1cula\u201d. Mas o Dr\u00e1cula, desde o in\u00edcio, era um personagem que estava em uma tem\u00e1tica fora desse n\u00facleo infanto-juvenil. As hist\u00f3rias dele tinham um tom no qual a Abril n\u00e3o tinha interesse em investir. Tanto que logo eles tiraram o logo da Abril da capa. Quando eles faziam isso, era meio que um sinal de que a revista subiu no telhado. Porque, para eles, qual era o medo? A m\u00e3e assinava uma revista da M\u00f4nica, do Cebolinha, a\u00ed o filho via a revista do Dr\u00e1cula, e quando lia, tinha hist\u00f3rias de gente sendo morta com machadada, sabe? O medo da Abril era dos pais ficarem putos, cancelarem as assinaturas, e quererem processar a editora. Era um neg\u00f3cio que na cabe\u00e7a deles n\u00e3o pegava bem. A Abril fugia disso. Por exemplo, teve um depoimento do Figa (Sergio Figueiredo) no qual ele explicou que chegou um momento entre os anos 1970 at\u00e9 o final dos 1990, que o que a Abril n\u00e3o publicou certas coisas porque n\u00e3o quis. Se ela quisesse publicar \u201cCripta\u201d, ela teria ido l\u00e1 e teria comprado com o licenciador, sabe? Teria oferecido mais dinheiro e teria lan\u00e7ado. Se ela n\u00e3o publicava quadrinho er\u00f3tico, \u201cTex\u201d e outras coisas \u00e9 porque, simplesmente, n\u00e3o tinha interesse. N\u00e3o queria. Ela j\u00e1 tinha os principais personagens do universo dos quadrinhos. Tinha a Disney, tinha o Maur\u00edcio de Sousa, que j\u00e1 era uma coisa enorme, durante um per\u00edodo teve Hanna Barbera. Tinha Luluzinha, que tamb\u00e9m era um fen\u00f4meno. Vendia pra caramba. Tinha o material da Warner, como Tom e Jerry. Tinha Pantera Cor de Rosa, que tamb\u00e9m era uma pot\u00eancia. Tinha Pica-Pau. Enfim, tinha um portf\u00f3lio completo. Ent\u00e3o, o Dr\u00e1cula, o que pegou, era que os caras viram que aquilo ali n\u00e3o encaixava no portf\u00f3lio e eles n\u00e3o queriam &#8220;manchar&#8221; esse portf\u00f3lio. E olha que a revista do Dr\u00e1cula vendia bem. Vendia por volta de 60 mil exemplares. Um n\u00famero bom na \u00e9poca. Tanto que o Helcio de Carvalho ficou puto quando cancelaram a revista (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 com a cena do beijo em \u201cCamelot 3000\u201d e as abordagens relacionadas \u00e0s drogas nas outras edi\u00e7\u00f5es, qual foi a an\u00e1lise da editora?<\/strong><br \/>\nA quest\u00e3o do \u201cCamelot 3000\u201d e da Karen Page foi uma outra pegada, mas tem a ver com esse mesmo assunto. Por que? Bom, \u201cHomem-Aranha\u201d, \u201cSuper-Homem\u201d, para os diretores da Abril, quando voc\u00ea fala de uma revista da DC, por exemplo, eles imaginavam o desenho dos Superamigos. Eles imaginavam que era algo para crian\u00e7a. Ent\u00e3o, na cabe\u00e7a deles, n\u00e3o existia quadrinho adulto para que os super-her\u00f3is tivessem tem\u00e1tica adulta e para crian\u00e7a. Naquela \u00e9poca, o neg\u00f3cio estava surgindo ainda. Ent\u00e3o, por exemplo, se voc\u00ea pegar aqueles primeiros materiais do \u201cCapit\u00e3o Am\u00e9rica\u201d, \u201cHer\u00f3is da TV\u201d, eles at\u00e9 t\u00eam uma tem\u00e1tica, \u00e0s vezes, um pouco mais adulta, mas ainda \u00e9 uma coisa mais antiga. Essa coisa mais adulta, como essa pegada de mostrar mais sexo, drogas, viol\u00eancia, era um neg\u00f3cio que come\u00e7ou a iniciar ali no come\u00e7o dos anos 1980. E \u201cCamelot 3000\u201d foi um dos primeiros. S\u00f3 que como o pessoal sabia que existiam essas limita\u00e7\u00f5es, os caras n\u00e3o iam deixar passar uma cena de lesbianismo em uma revista de super-her\u00f3is, que era do n\u00facleo infanto-juvenil. Ent\u00e3o, o Jotap\u00ea fez o corte l\u00e1. J\u00e1 o Ricardito passou porque eles n\u00e3o entenderam muito bem a hist\u00f3ria. Foi meio que um vacilo l\u00e1 da parte de censura interna da Abril (risos). Mas o caso da Karen Paige ainda tinha um outro problema. Em determinado momento, a Abril come\u00e7ou a fazer parte de um movimento contra as drogas no Brasil. Ent\u00e3o, n\u00e3o pegava bem sair em uma revista da Abril um personagem se drogando. E eles n\u00e3o estavam nem a\u00ed para o contexto de que estavam mostrando que a droga era ruim. N\u00e3o! N\u00e3o iria sair. Ainda mais uma pessoa com uma seringa tomando um pico. \u00c9 um neg\u00f3cio muito forte para a \u00e9poca. Os editores at\u00e9 achavam que em 1987 isso j\u00e1 estaria ultrapassado, que j\u00e1 tinha sido vencida essa barreira, mas n\u00e3o foi bem assim. Tiveram que mudar de \u00faltima hora. Mas depois, realmente, mudou. Por volta de 1989 e 1990, j\u00e1 n\u00e3o teve mais como segurar. Depois do \u201cCavaleiro das Trevas\u201d, a\u00ed a coisa mudou bem. Os diretores abriram os olhos. Come\u00e7ou a vir uma leva de quadrinhos mais adultos e ali come\u00e7ou um movimento mais forte dos quadrinhos voltados mais para colecionadores do que simplesmente para o cara que comprava quadrinho s\u00f3 como passatempo. Tanto que os gibis come\u00e7aram a ficar cada vez mais complexos. Hoje, o cara compra um gibi para ler s\u00f3 por passatempo, ele n\u00e3o vai entender nada, tamanha a complexidade da cronologia.<\/p>\n<figure id=\"attachment_60094\" aria-describedby=\"caption-attachment-60094\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-60094 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Novo-Projeto.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"560\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Novo-Projeto.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Novo-Projeto-300x224.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-60094\" class=\"wp-caption-text\"><em>A cena do beijo entre as personagens de &#8220;Camelot 3000&#8221; acabou ficando de fora<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando um pouco mais acerca do tipo de formato que os quadrinhos da Abril possu\u00edam, essa marca do formatinho passou a mudar com o revista \u201cA Espada Selvagem do Conan\u201d, que surgiu com aquele aspecto magazine no primeira metade dos anos 1980, e, alguns anos depois, com a mensal do Batman, que tinha o tradicional formato americano. Como foi esse processo?<\/strong><br \/>\nNa verdade, a revista do Pato Donald j\u00e1 tinha um formato magazine no come\u00e7o, l\u00e1 na d\u00e9cada de 1950. O formatinho foi criado para se adaptar \u00e0s m\u00e1quinas que o Victor Civita montou em 1952. Al\u00e9m disso, Pato Donald n\u00e3o estava vendendo muito bem nesse formato grande. Ent\u00e3o, ele fez uma estrat\u00e9gia para reduzir o formato e o pre\u00e7o. E conseguiu deixar mais atraente para as crian\u00e7as. Com o passar dos anos, ele meio que adotou aquele formato ali. No come\u00e7o dos anos 1970, a crise mundial do petr\u00f3leo influenciou a ind\u00fastria gr\u00e1fica e a ind\u00fastria do papel. Com isso, por conta da mat\u00e9ria-prima, outras editoras come\u00e7aram a usar o formatinho. A pr\u00f3pria Ebal come\u00e7ou a publicar hist\u00f3rias de super her\u00f3is em formatinho. Mas a Abril foi a pioneira no Brasil. E tamb\u00e9m foi uma ideia copiada l\u00e1 da It\u00e1lia, com as revistas da Mondadori, que lan\u00e7avam o Mickey e do Pato Donald. Na Abril, essa quest\u00e3o do formatinho, isso s\u00f3 come\u00e7ou a mudar&#8230; (pausa) Com o Conan foi uma primeira mudan\u00e7a. Mas o Conan era um neg\u00f3cio meio \u00e0 parte, assim. A revista do Conan teve uma hist\u00f3ria parecida com a da revista do Dr\u00e1cula. As hist\u00f3rias tinham um alto teor er\u00f3tico, viol\u00eancia explicita, e para ajudar ainda as hist\u00f3rias eram em P&amp;B. Tinha aquela lenda l\u00e1 dentro da Abril de que quadrinho preto e branco n\u00e3o vendia. Mas tanto que o Conan, tamb\u00e9m, chegou um momento em que tiraram o logo da Abril da capa. Ent\u00e3o, ele ficou em cima do telhado, tamb\u00e9m. S\u00f3 que o Conan virou um fen\u00f4meno de vendas. Isso salvou o t\u00edtulo. Enquanto o Dr\u00e1cula vendia 60 mil, o Conan vendia 120 mil. E a revista do Conan era mais barata de fazer do que a do Dr\u00e1cula, pois era P&amp;B.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim. Lembro que no livro voc\u00ea comenta sobre isso ter chamado muito a aten\u00e7\u00e3o dos diretores. A rentabilidade do t\u00edtulo diante do baixo custo de produ\u00e7\u00e3o.<\/strong><br \/>\nSim. Era uma revista muito rent\u00e1vel. Ent\u00e3o, era aquele neg\u00f3cio: &#8220;Beleza, n\u00f3s temos a tradi\u00e7\u00e3o e tal&#8221;, mas quando o dinheiro entra na jogada, as pessoas meio que abrem algumas exce\u00e7\u00f5es. O Conan acabou virando uma exce\u00e7\u00e3o. Mas, mesmo assim, n\u00e3o tinha sido quebrada uma barreira. Tanto que em 1985, e o livro tamb\u00e9m descreve isso, o H\u00e9lcio e o Jotap\u00ea queriam lan\u00e7ar uma revista baseada na revista da Marvel, a \u201cEpic Illustrated\u201d. Era tipo uma \u201cHeavy Metal\u201d da Marvel, no formato magazine. 20,5cm x 28cm, nessa m\u00e9dia. S\u00f3 que eles n\u00e3o toparam. E a\u00ed eles acabaram fazendo um formato intermedi\u00e1rio. Fizeram um formatinho, n\u00e3o t\u00e3o formatinho, que foi aquele formato da \u201cEpic Marvel\u201d, que eles publicaram \u201cDreadstar\u201d, do Jim Starlin. S\u00f3 que a revista durou somente seis n\u00fameros. E ali era um intermedi\u00e1rio entre o formatinho e o formato americano. Mas o que realmente abriu os olhos para um potencial nesses quadrinhos com um formato maior e focado em um p\u00fablico mais adulto e com mais renda foi \u201cO Cavaleiro das Trevas\u201d. Esse foi o sub-cap\u00edtulo mais profundo do livro. O Maur\u00edcio que cuidou mais dessa parte. Ele foi a fundo em todos os detalhes do lan\u00e7amento de \u201cO Cavaleiro das Trevas\u201d. E ali mostra bem todas as barreiras que o Helcio e o Jotap\u00ea tiveram que enfrentar para que \u201cO Cavaleiro das Trevas\u201d n\u00e3o sa\u00edsse em formatinho. \u00c9 um neg\u00f3cio que \u00e9 meio impens\u00e1vel. Porque, realmente, era uma novidade. Ent\u00e3o foi necess\u00e1rio que \u201cO Cavaleiro das Trevas\u201d primeiro estourasse na m\u00eddia brasileira, com as mat\u00e9rias publicadas no Estad\u00e3o, na Folha e com um monte de gente falando do material para que os caras da Abril sacassem que eles publicavam DC e podiam lan\u00e7ar \u201cO Cavaleiros das Trevas\u201d tamb\u00e9m. E mesmo assim, n\u00e3o saiu exatamente como a edi\u00e7\u00e3o americana. Eles tiveram algumas adapta\u00e7\u00f5es ali. Ficou um meio a meio. Saiu com um an\u00fancio na quarta capa. O papel era outro, n\u00e3o tinha a lombada quadrada. Saiu um pouco diferente do formato prestige que havia sido publicado pela DC em 1985, 86. Aqui saiu em 1987. Ent\u00e3o, ali meio que foi um divisor de \u00e1guas, mesmo. E com esse sucesso, o Batman ganhou uma outra revista, que publicou at\u00e9 o Ano Um, mas ainda era em formatinho. Depois juntou essa ideia que a revista do Batman, que apesar de ser o Batman, n\u00e3o vendia bem. E era uma revista de linha. A\u00ed eles realmente tentaram inovar colocando o Batman em formato americano. Pelo que me lembro, realmente foi a primeira revista de linha no formato. Acho que foi ela e depois teve uma outra do Conan, a \u201cConan Rei\u201d. Logo depois tiveram as Graphic Novels, tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, foi tudo isso. Uma coisa foi levando a outra. Eles viram que as graphic novels estavam indo bem, ent\u00e3o, eles tamb\u00e9m come\u00e7aram a investir em revistas de t\u00edtulos de linha um pouco mais sofisticados. \u201cMonstro do P\u00e2ntano\u201d, depois, aumentou de formatinho para formato americano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim, lembro dessa mudan\u00e7a com o formato do t\u00edtulo \u201cMonstro do P\u00e2ntano\u201d. Sempre acho bem curioso ver essa mudan\u00e7a de formato ap\u00f3s o t\u00edtulo j\u00e1 ter sido iniciado.<\/strong><br \/>\nEsse per\u00edodo que coincide com a hist\u00f3ria do Batman foi um per\u00edodo em que a Abril decidiu publicar diversos t\u00edtulos em formato americano. No caso do Batman, eles tinham come\u00e7ado do zero, mas no caso do Monstro do P\u00e2ntano, eles decidiram aumentar o titulo que j\u00e1 existia. A Monstro do P\u00e2ntano, se n\u00e3o me engano, acho que foi o pr\u00f3prio Jotap\u00ea que falou sobre. A ideia deles, desde o come\u00e7o, era lan\u00e7ar em formato americano. A arte do Monstro do P\u00e2ntano \u00e9 cheia de detalhes. Imagina lan\u00e7ar em formatinho. Perderia tudo. \u00c9 uma revista complicada para se fazer muita redu\u00e7\u00e3o da arte. Ent\u00e3o, desde o in\u00edcio eles j\u00e1 queriam o formato americano, mas n\u00e3o aconteceu. S\u00f3 depois de uns n\u00fameros foi que acabou rolando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sendo um leitor, como disse, oriundo dos anos 1990, e observando como a m\u00eddia na \u00e9poca divulgou hist\u00f3rias como \u201cA Morte do Super-Homem\u201d, bem como lembrando das vendas recordes anunciadas da miniss\u00e9rie que o Jim Lee fez do \u201cX-Men\u201d, pergunto se os anos 1990 n\u00e3o foi um dos \u00e1pices da Abril, em sua opini\u00e3o.<\/strong><br \/>\nA Abril teve v\u00e1rias fases e se fosse para falar de um \u00e1pice dos quadrinhos mna editora, diria que foi de 1971 at\u00e9 1995, no m\u00e1ximo. Nos anos 1970, a Abril chegou a vender 6 milh\u00f5es de quadrinhos por m\u00eas. Ela vendia 72 milh\u00f5es de quadrinhos por ano. Eram n\u00famero que, dos anos 1980 para a frente, n\u00e3o se repetiram mais. Por qu\u00ea? Primeiro que o Maur\u00edcio de Sousa saiu da Abril. Quando o Maur\u00edcio de Sousa saiu, ele j\u00e1 deixou um buraco assim de&#8230;(pausa). A gente at\u00e9 fez um c\u00e1lculo para o livro. Foi algo em torno de 20% a 25%. Porque o Maur\u00edcio de Sousa estava em forte expans\u00e3o no mesmo momento em que a Disney estava em franca decad\u00eancia. O Maur\u00edcio de Sousa entrou em 1970 na Abril e ficou at\u00e9 1986. A sa\u00edda do Maur\u00edcio da Abril foi o propulsor de v\u00e1rias mudan\u00e7as ali. J\u00e1 a Disney teve seu auge nos anos 1970. Em 1974, a revista do Tio Patinhas vendia por m\u00eas algo em torno de 520 mil exemplares. Era a revista que mais vendia no Brasil. De todos os t\u00edtulos. T\u00edtulos jornal\u00edsticos, inclusive. Ela, de vez em quando, empatava com a Capricho. E era um per\u00edodo que j\u00e1 era tudo auditado. J\u00e1 exista o IVC, que era a empresa que auditava as revistas. Pouco antes, o Assis Chateaubriand falava que O Cruzeiro vendia um milh\u00e3o de exemplares, mas n\u00e3o tinha auditoria. Ent\u00e3o, era tudo no boca a boca. Depois que foi criado o IVC, at\u00e9 por insist\u00eancia do pr\u00f3prio Victor Civita, eles come\u00e7aram a fazer as auditorias e foi ali que mostrou que realmente a Abril vendia mais que todo mundo. No final do livro tem l\u00e1 os n\u00fameros de vendas. Foi um parto conseguir esses dados (risos). Era um neg\u00f3cio que n\u00e3o existia em lugar nenhum. Mas voc\u00ea v\u00ea ali nos anos 1970, o n\u00famero de vendas das revistas da Disney era um neg\u00f3cio absurdo. E a pr\u00f3pria M\u00f4nica, que foi aumentando cada vez mais. Com a sa\u00edda do Maur\u00edcio de Sousa em meados dos anos 1980, a Abril tomou um baque. Ai ela precisou ter que tapar o buraco. Foi quando os her\u00f3is come\u00e7aram a receber um maior investimento. Calhou que naquela \u00e9poca os her\u00f3is passavam por um per\u00edodo de muito brilhantismo nos Estados Unidos. Foi quando juntou as reformula\u00e7\u00f5es da DC com \u201cCrise nas Infinitas Terras\u201d, com um maior investimento nas Graphics Novels, e a Abril tinha um licenciamento disso tudo. Ent\u00e3o, na verdade, quando a Disney foi entrando cada vez mais em decad\u00eancia, os super-her\u00f3is foram tomando espa\u00e7o. Tanto que ali nos anos 1990, a Marvel era quem mais vendia. Metade das vendas de quadrinhos da Abril vinha da Marvel. Em 1995, inclusive, houve uma tentativa da Panini de pegar os direitos da Marvel e j\u00e1 publicar naquela \u00e9poca, e a\u00ed tiveram que fazer um acordo. Falaram com o Roberto Civita, que era o presidente da Abril na \u00e9poca, para tentar resolver isso, e nem ele sabia que a Disney j\u00e1 n\u00e3o era a que mais vendia. Ele ficou at\u00e9 espantado, achando que era o Pato Donald que ainda vendia mais na Abril.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E sobre os anos 1990?<\/strong><br \/>\nO que se pode dizer em rela\u00e7\u00e3o aos anos 1990 \u00e9 que eles tiveram um per\u00edodo em que os quadrinhos de super her\u00f3is venderam muito bem por conta de alguns fen\u00f4menos. Em especial \u201cA Morte do Super-Homem\u201d, que foi o quadrinho de super her\u00f3i, at\u00e9 onde se sabe, que mais vendeu at\u00e9 hoje aqui no Brasil. Teve tiragem de 200 mil exemplares e vendeu quase tudo. Se juntar ali aqueles n\u00fameros da Morte e Retorno do Super-Homem, d\u00e1 facilmente mais de um milh\u00e3o de c\u00f3pias. Ent\u00e3o, foi possivelmente o \u00faltimo grande fen\u00f4meno dos quadrinhos aqui no Brasil. Porque, desde ent\u00e3o, \u00e0s vezes o Maur\u00edcio de Sousa consegue alguma coisa assim, mas tudo meio que foi caindo aos poucos. Inclusive o Maur\u00edcio de Sousa. Se voc\u00ea olhar os n\u00fameros que est\u00e3o nas tabelas do final do livro, tem as informa\u00e7\u00f5es sobre as vendas do Maur\u00edcio de Sousa mesmo ap\u00f3s a ida para a Editora Globo e depois para a Panini. At\u00e9 por compara\u00e7\u00e3o. E voc\u00ea vai vendo que a Disney, no come\u00e7o, \u00e9 um fen\u00f4meno, s\u00f3 que com os anos ela vai caindo, caindo, at\u00e9 chegar a n\u00fameros p\u00e9ssimos nos \u00faltimos anos. E o Maur\u00edcio de Sousa chega a n\u00fameros estratosf\u00e9ricos de 300 mil exemplares e, \u00e0s vezes, mais do que isso at\u00e9. Mas se voc\u00ea for pegar os \u00faltimos n\u00fameros, a revista da M\u00f4nica estava vendendo, pela primeira vez, menos de cem mil exemplares. Foi em 2016, o \u00faltimo dado que eu consegui. E a partir dali as revistas em quadrinhos sa\u00edram do IVC, que j\u00e1 \u00e9 um ind\u00edcio. Quando sai do IVC \u00e9 porque a coisa n\u00e3o vai bem. E depois vieram todas essas crises seguidas. Crise editorial, crise pol\u00edtica com o impeachment da Dilma, pandemia. Fico imaginando quanto deve estar vendendo hoje a M\u00f4nica. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o sei te dizer. Em resumo, acho que o que aconteceu foi o seguinte. Pode falar que os anos 1990 foram os anos em que os super-her\u00f3is mais venderam, mas acho que o auge dos quadrinhos da Abril, realmente, ocorreram entre 1975 e 1987, por ali. Porque era o per\u00edodo em que a Abril ainda tinha tudo, tinha todas as grandes franquias, e tudo estava vendendo bem. Ent\u00e3o, no contexto geral, ali foi meio que o auge.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-60103\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Novo-Projeto-2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"545\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Novo-Projeto-2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Novo-Projeto-2-300x218.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nos anos 1990 inclusive, vimos a Abril diversificar suas atividades, chegando a, inclusive, investir em diversos canais de TV, como a pr\u00f3pria MTV Brasil. Esse foi um dos passos dados que indicou um come\u00e7o de uma queda para a empresa?<\/strong><br \/>\nA Abril ter investido em TV, sim. Aquilo foi um neg\u00f3cio que minou a empresa. Porque eles come\u00e7aram a ter u m n\u00edvel de investimento nessa \u00e1rea que era uma coisa absurda. Era coisa no n\u00edvel de gastar US$500 milh\u00f5es para lan\u00e7ar sat\u00e9lite. Era um dinheiro que se eles tivessem gasto com internet, por exemplo, de repente, hoje, estariam melhor. Mas a Abril, cara, era&#8230; (pausa) \u00c9 dif\u00edcil explicar a situa\u00e7\u00e3o da Abril porque o que a acontece \u00e9 que a Abril chegou a ser a maior editora da Am\u00e9rica Latina. Cheguei a ver um documento que confirmava que a Abril, em 1996, 1997, atuava em 25 \u00e1reas de interesse. 25 mercados, digamos assim. E era primeiro lugar, acho, em 23 desses mercados. Era uma empresa muito grande. Ela criava as principais revistas brasileiras em uma \u00e9poca que revista era um ve\u00edculo de muita import\u00e2ncia. S\u00f3 perdia para a TV. Ela distribu\u00eda o pr\u00f3prio material. Ela tinha a melhor equipe de vendas, o melhor sistema de assinaturas. E ela tamb\u00e9m tinha uma gr\u00e1fica onde imprimia. Em resumo: ela s\u00f3 n\u00e3o fazia o papel e n\u00e3o produzia eletricidade. Eram as \u00fanicas coisas do processo que ela n\u00e3o fazia. E ainda exportava para outros pa\u00edses. Era um monstro de empresa. E o setor de quadrinhos era mais um ali no meio. S\u00f3 que era um setor que era meio um patinho feio. Enquanto o setor de quadrinhos dava, por exemplo, um milh\u00e3o de lucro, a Veja, a Quatro Rodas, a Playboy dava 100 vezes mais. O setor de quadrinhos na Abril, perto do restante da empresa, era uma coisa menor. N\u00e3o era o foco principal da empresa. N\u00e3o era algo que o Roberto Civita estava preocupado. Eles n\u00e3o queriam que desse preju\u00edzo, obviamente. Mas n\u00e3o era um neg\u00f3cio que os caras focavam. Tanto que nunca houve uma ideia da pr\u00f3pria Abril ter os personagens dela, investir mais a fundo nisso. Ou chegar l\u00e1 no come\u00e7o e fazer uma parceria com o Maur\u00edcio de Sousa, virar s\u00f3cio dele, para tentar criar personagens tipicamente brasileiros, por exemplo. Nuca teve esse tipo de vis\u00e3o, sabe? \u00c9 meio diferente da Panini, porque o foco dela \u00e9 s\u00f3 o mercado infanto-juvenil. Panini \u00e9 uma editora praticamente s\u00f3 de quadrinhos e de revistas de cultura pop. Ela n\u00e3o publica revistas sobre pol\u00edtica. Ela n\u00e3o tem revistas, sei l\u00e1, sobre carros. Se tiver alguma coisa sobre carros, vai ser sobre os carros do Batman (risos). N\u00e3o vai ter uma revista igual a Quatro Rodas, por exemplo. Ent\u00e3o, a Abril tinha essa caracter\u00edstica de uma empresa multi. E o setor de quadrinhos acabou sofrendo com isso. Porque n\u00e3o era prioridade da empresa e quando ela come\u00e7ou a sangrar por conta desses enroscos todos, o setor de quadrinhos acabou sendo influenciado. Em 2002, por exemplo, a Abril quase faliu. Chegou um m\u00eas l\u00e1 que n\u00e3o tinha dinheiro para pagar os funcion\u00e1rios, de t\u00e3o grande era a quantidade de d\u00edvidas, sabe? Tiveram que fazer uma reformula\u00e7\u00e3o monstruosa. Eles meio que mandaram metade dos funcion\u00e1rios embora. A\u00ed em 2005 e 2006, estavam tendo recordes de faturamento, sabe? Era muito assim de altos e baixos. Quando estava ruim, mandava um monte de gente embora. Depois melhorava e eles contratavam todo mundo de novo e virava aquela empresa lotada de funcion\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os anos 1990 terminam para os quadrinhos de super-her\u00f3is publicados pela Abril em uma queda de vendas e de qualidade de material que foi not\u00f3rio. Tanto que, em 2000, eles tentaram reformular tudo, aposentando o formatinho e trazendo o formato Premium, s\u00f3 que custando quatro vezes mais. Chegou at\u00e9 a vender bem durante um per\u00edodo, mas depois naufragou a parte de super-her\u00f3is da Abril.<\/strong><br \/>\nEsse per\u00edodo que voc\u00ea falou da Premium remete a uma proposta inicial do livro. Como a gente tinha essa ideia de falar da Abril como um imp\u00e9rio, eu estava brincando muito no come\u00e7o de que ia ser uma alus\u00e3o ao imp\u00e9rio romano. Em um primeiro momento, o livro foi dividido em tr\u00eas partes. O surgimento, a expans\u00e3o e a decad\u00eancia do imp\u00e9rio. Depois, com o tempo, vimos que (o assunto) era muito amplo e come\u00e7amos a aumentar. Ficaram os primeiros anos, a expans\u00e3o, a \u00e9poca de ouro, depois a era heroica, que foi quando os super her\u00f3is tinham ficado mais em evid\u00eancia, e depois a decad\u00eancia. S\u00f3 que vimos que a decad\u00eancia, na verdade, come\u00e7ou l\u00e1 na frente. Em resumo, fomos criando subdivis\u00f5es. E uma subdivis\u00e3o que criei depois de uns meses de trabalho foi exatamente essa que mostra o per\u00edodo que teve o baque com os super her\u00f3is, que foi em 1997. Porque come\u00e7ou a rolar duas coisas ao mesmo tempo. Uma foi uma queda indiscriminada na venda de quadrinhos. Come\u00e7ou a cair muito. \u201cHomem-Aranha\u201d, que vendia 80 mil, come\u00e7ou a vender 20 mil. De uma hora para outra. Se voc\u00ea pegar os n\u00fameros que tem nessas tabelas IVC, voc\u00ea v\u00ea que a queda \u00e9 absurda. Isso principalmente super-her\u00f3is. \u201cTurma da M\u00f4nica\u201d ainda se manteve. A Disney tamb\u00e9m caiu. No caso dos super-her\u00f3is, foi um per\u00edodo em que, criativamente, n\u00e3o estava daquelas coisas. Porque muitos dos principais autores da Marvel e DC tinham sa\u00eddo para montar a Image. A Marvel e a DC tomaram um baque ali. Principalmente em 1992 e 1993, como a Abril s\u00f3 publicava o material depois, tinha um gap a\u00ed, \u00e0s vezes, at\u00e9 de quatro anos. Ent\u00e3o, realmente, estava um per\u00edodo meio complicado. Foi o per\u00edodo do (Homem-Aranha e a) \u201cSaga do Clone\u201d. Do Batman paral\u00edtico. S\u00e3o coisas que alguns leitores at\u00e9 gostavam, mas j\u00e1 tinha muita gente torcendo o nariz. Mas come\u00e7ou a ter uma queda. Foi naquele momento, tamb\u00e9m, que a internet come\u00e7ou a pegar mais forte. Os games deram um salto tremendo. Come\u00e7aram a ficar bem mais interessantes. Foi um per\u00edodo que a pr\u00f3pria Abril come\u00e7ou a investir em TV a cabo. De repente, as crian\u00e7as tinham ali um canal, o Cartoon Network, e podiam ficar o dia todo assistindo desenho. De repente, n\u00e3o tinham mais tempo para ler quadrinhos. Ent\u00e3o, come\u00e7aram a surgir v\u00e1rios concorrentes. E tamb\u00e9m era um per\u00edodo em que a Abril come\u00e7ou a ficar mal das pernas por conta desse investimento em TV que n\u00e3o acabava nunca. E ela n\u00e3o conseguia os assinantes suficientes para pagar o custo. Come\u00e7ou a influenciar no resultado da empresa. E no caso da Marvel, especificamente, a Panini j\u00e1 estava de olho para pegar o material. Juntou tudo isso e deu aquele cap\u00edtulo de \u201cPerdas e Danos\u201d, que h\u00e1 no livro. As coisas v\u00e3o degringolando. Por conta da crise, do momento ruim da Abril, eles acabam com o departamento de cria\u00e7\u00e3o da Disney, mandando embora todos aqueles funcion\u00e1rios. Muitos ali com mais de 25 anos de casa. Caras que passaram a vida inteira ali, criando hist\u00f3rias da Disney, de repente foram demitidos. Logo depois come\u00e7aram a diminuir v\u00e1rios t\u00edtulos. Come\u00e7aram a mandar um monte de gente embora. E a principal mudan\u00e7a foi essa que voc\u00ea comentou: a extin\u00e7\u00e3o do formatinho. Acabaram com todos aqueles formatinhos e ficaram s\u00f3 cinco revistas em um formato totalmente novo, com um pre\u00e7o tr\u00eas, quatro vezes maior. Realmente, ali foi uma aposta arriscada que em um primeiro momento n\u00e3o deu muito certo. Assustou todo mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea citou a Panini e um pretens\u00e3o j\u00e1 em 1995 de tentar adquirir os direitos de publica\u00e7\u00e3o da Marvel no Brasil. \u00c9 curioso observar como em 2001\/2002, isso realmente aconteceu e a Panini j\u00e1 conseguiu lan\u00e7ar logo em janeiro de 2002 as revistas Marvel, encerrando o ciclo da Abril com os direitos da &#8220;Casa das Ideias&#8221;. Observando toda busca por um dom\u00ednio mercadol\u00f3gico da Abril durante os anos 1990, os preju\u00edzos com a TV, a n\u00e3o valoriza\u00e7\u00e3o por parte dos diretores com o setor de quadrinhos, n\u00e3o \u00e9 de se admirar que isso tenha acontecido.<\/strong><br \/>\nO pr\u00f3prio Figa, que foi o cara que ficou de frente ali nessa coisa toda, explica bem isso no cap\u00edtulo. Foi cagada da Abril, mesmo. Porque eles estavam com problemas t\u00e3o ferrados por conta da grana gasta em investimentos na parte de TV, que a empresa estava sangrando. A empresa chegou a um momento de estar lutando pela sobreviv\u00eancia. E o que acontece. O setor de quadrinhos n\u00e3o era um dos setores chaves para a Abril, sabe? N\u00e3o era. O foco da Abril, ali, era a Veja, era a Quatro Rodas, era a Playboy, era a Exame. Todas essas revistas, para a Abril, teriam que ser salvas antes dos quadrinhos. Ent\u00e3o, na verdade, n\u00e3o tinha assim uma preocupa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era uma prioridade. Se tivesse que cancelar, cancelava. N\u00e3o era um neg\u00f3cio que eles tinham uma rela\u00e7\u00e3o mais forte. Isso, claro, estou me referindo aos donos da empresa. Dos altos diretores. O pessoal da reda\u00e7\u00e3o, com certeza. Primeiro porque eles gostavam do que faziam l\u00e1 e segundo porque tinha a quest\u00e3o do emprego deles. Mas, realmente, foi um reflexo disso tudo. E a Panini estava ali querendo abocanhar. Uma coisa em rela\u00e7\u00e3o a Abril que fica clara no livro \u00e9 aquela coisa de voc\u00ea ser grande demais. A arrog\u00e2ncia de achar que ningu\u00e9m pode te vencer. Ent\u00e3o, a Abril n\u00e3o contava que os caras tinham feito um acordo l\u00e1 com o Helcio, da Mythos, para produzir o material. Isso foi todo o diferencial. Porque, at\u00e9 ent\u00e3o, a Panini n\u00e3o tinha reda\u00e7\u00e3o no Brasil. A Panini, agora, tem uma estrutura com mais editores e tal, mas, assim, a Panini era um escrit\u00f3rio, sabe? N\u00e3o tinha, assim, uma editoria, um editor presente. O que eles lan\u00e7avam era mais na \u00e1rea de figurinhas. Mas muitas vezes era s\u00f3 licenciamento. N\u00e3o tinha uma quest\u00e3o de algu\u00e9m criando um setor de assinaturas. Eles n\u00e3o tinham know-how disso no Brasil. Ent\u00e3o, at\u00e9 por isso que talvez que eles tenham ficado meio parados. E tem que pensar nisso, tamb\u00e9m. Eu acho que \u00e9 aquela coisa. Os caras achavam que ningu\u00e9m podia com a Abril, cara. E durante muito tempo n\u00e3o podiam, mesmo, sabe? N\u00e3o podiam mesmo. Tem at\u00e9 uma parte curiosa ali, por volta de 1998, mais ou menos nesse per\u00edodo, em que os licenciadores come\u00e7aram a oferecer outros produtos. Por conta da crise, a Abril n\u00e3o estava mais querendo publicar tudo. Ent\u00e3o, tinham muitas miniss\u00e9ries ali, coisas pelas quais ela n\u00e3o se interessou. E a\u00ed os licenciadores come\u00e7aram a oferecer para outras editoras pequenas. E calhou exatamente com aquele per\u00edodo do desenvolvimento do desktop publishing, editora\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica, em que voc\u00ea n\u00e3o precisava mais de uma estrutura igual a da Abril para montar uma editora. Se voc\u00ea fosse montar uma editora no come\u00e7o dos anos 1990, voc\u00ea tinha que montar uma oficina ou contratar algu\u00e9m terceirizado para fazer os fotolitos. E era tudo na m\u00e3o. Era um investimento razo\u00e1vel. Ent\u00e3o, ali em 1997 e 1998, se o cara tivesse um micro razo\u00e1vel, e uma internet com uma conex\u00e3o razo\u00e1vel, j\u00e1 conseguia ele mesmo fazer a revista. Um traduzia, o outro diagramava, o outro fechava, e acabou. N\u00e3o precisava mais de uma equipe de 20, 30 pessoas. Hoje, por exemplo, aqui na minha editora, eu estou fazendo tudo sozinho, praticamente. Crio livros, edito, diagramo, escrevo, anuncio, fiz meu site, gerencio o site, tiro pedido e levo no Correio (risos). Fa\u00e7o tudo, cara. H\u00e1 20, 30 anos, isso era impens\u00e1vel. Era imposs\u00edvel. Ent\u00e3o, na verdade, acabou criando esse fen\u00f4meno que era at\u00e9 aquela brincadeira que eu ia fazer no livro, com a ideia de comparar o imp\u00e9rio dos gibis da Abril com o imp\u00e9rio romano. Eu ia at\u00e9 criar um cap\u00edtulo dessa fase que ia se chamar Invas\u00f5es B\u00e1rbaras, que ia falar sobre as pequenas editoras que come\u00e7aram a publicar coisas da DC e at\u00e9 a Mythos pegou algumas coisas da Marvel. Eu ia fazer essa brincadeira que era como se fossem os b\u00e1rbaros invadindo o imp\u00e9rio romano, sabe? Tentando derrubar o imp\u00e9rio. Depois, no final, acabei tirando. Deixei mais simples. Mas de certa maneira, foi o que aconteceu. Aos poucos, todo mundo come\u00e7ou a atacar a Abril, mesmo, at\u00e9 que a Panini foi l\u00e1 e tirou a Marvel. O golpe foi duro.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-60089\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Revistas-da-Abril-00018.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1066\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Revistas-da-Abril-00018.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Revistas-da-Abril-00018-211x300.jpg 211w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No livro, inclusive, voc\u00ea cita aquele momento em que o Figa tentou, em 2010, recuperar os direitos da DC, mas a editora estadunidense alegou n\u00e3o ter mais confian\u00e7a que a Abril conseguisse manter-se como detentora e lan\u00e7asse as revistas com regularidade.<\/strong><br \/>\nEsse contato do Figa aconteceu em um daqueles momentos que te falei, como o de 2002, quando a Abril estava quase falindo, mandou metade dos funcion\u00e1rios embora, fez a li\u00e7\u00e3o de casa, arrumou a casa, e melhorou. Em 2008, a Veja fez 40 anos. E se n\u00e3o engano, na \u00e9poca, foi o recorde de faturamento da Veja. Naquele per\u00edodo, a Abril estava muito bem. Porque a Abril j\u00e1 tinha sa\u00eddo desse enrosco da TV. Ela j\u00e1 tinha vendido toda a parte dela. E ela estava muito bem na \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o, porque ela tinha comprado umas editoras, como a \u00c1tica e coisas do g\u00eanero. Ent\u00e3o, ela estava em um per\u00edodo de alta. Foi por conta disso at\u00e9 que o Figa conseguiu convencer os caras a fazer um investimento desse porte. Mas a\u00ed tinha a quest\u00e3o da confian\u00e7a. E o futuro mostraria que o cara da DC estava certo. Mas o Figa j\u00e1 tinha conseguido dar uma melhorada na Disney, estava fazendo os \u00e1lbuns de figurinhas, e tentou recuperar alguma coisa. S\u00f3 que naquele momento duas coisas pesaram para n\u00e3o dar certo. Primeiro que a Panini j\u00e1 tinha um dom\u00ednio meio que geral de tudo. E segundo, tinha isso que o livro aborda. A DC tinha ficado meio traumatizada. Porque a Abril havia cancelado de uma hora para outra o contrato com a DC. Era aquele neg\u00f3cio: &#8220;Voc\u00eas cancelaram com a gente quatro anos atr\u00e1s, e agora voc\u00eas querem voltar? Qual garantia eu tenho de que o ano que vem n\u00e3o vai dar uma dor de barriga em voc\u00eas e voc\u00eas cancelam tudo de novo?&#8221; Ent\u00e3o, isso meio que pegou. E a Panini, bem ou mal, estava publicando em v\u00e1rios pa\u00edses. E \u00e9 uma empresa j\u00e1 focada nessa \u00e1rea. E a Abril j\u00e1 tinha ficado l\u00e1 para o final da fila. S\u00f3 tinha sobrado a Disney no material deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em rela\u00e7\u00e3o ao mercado de quadrinhos de hoje em compara\u00e7\u00e3o ao de anos anteriores, quando a Abril tinha o dom\u00ednio do mercado, e que o livro aprofunda bem, podemos analisar essas diferen\u00e7as e esse quase dom\u00ednio da Panini, como algo positivo? Esse quase monop\u00f3lio da Panini \u00e9 algo preocupante?<\/strong><br \/>\nAcho que primeiro n\u00e3o d\u00e1 para comparar o que acontece hoje com o que aconteceu antes. Voc\u00ea consegue comparar, por exemplo, o mercado dos anos 1990 com o do anos 1980, com o dos anos 1970 e com o dos anos 1960. J\u00e1 o mercado dos \u00faltimos 10, 20 anos, ele tomou um caminho que \u00e9 diferente de tudo que existia antes. Primeiro quando os quadrinhos come\u00e7aram a invadir as livrarias. Era um neg\u00f3cio que antes n\u00e3o existia. Tirando a Martins Fontes e a Record, que publicava \u201cAsterix\u201d, era meio raro ter quadrinhos em livrarias. N\u00e3o era muito comum. A Ebal lan\u00e7ava aqueles \u00e1lbuns do \u201cPr\u00edncipe Valente\u201d, \u201cFlash Gordon\u201d, mas n\u00e3o era o foco principal. Era uma exce\u00e7\u00e3o. Depois de um tempo foi que os quadrinhos em livrarias viraram um fen\u00f4meno. E tudo isso acho que est\u00e1 acontecendo porque o mercado de quadrinhos, as empresas e os profissionais da \u00e1rea, fizeram 20 anos que nos tornamos de nicho. Tem uma fala ali do depoimento do Figa, de uma conversa que ele teve com o diretor dele em 1999, que o cara fez uma an\u00e1lise de mercado. Ali ele chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que o mercado dos quadrinhos, que antes era de massa, tinha virado de nicho. Isso que deu origem aos quadrinhos Super Her\u00f3is Premium, que a Abril lan\u00e7ou. Foi esse racioc\u00ednio. E talvez ali eles tenham feito de uma maneira errada, mas o racioc\u00ednio estava certo. O que o cara falou ali foi meio que apontar um caminho que se tornou a realidade nos anos seguintes. Hoje n\u00f3s somos nicho. Quadrinhos de super her\u00f3i, quando um gibi vende 10 mil c\u00f3pias, os caras soltam fogos. Na \u00e9poca da Abril, \u201cHomem Aranha\u201d vendia 120 mil. Voc\u00ea pegava l\u00e1 \u201cA Morte do Super-Homem\u201d, o grupo todo vendeu um milh\u00e3o. \u00c9 o tipo de coisa que eu tenho d\u00favida se um dia vai se repetir. At\u00e9 porque a base toda desse mercado est\u00e1 sendo destru\u00edda. Porque a grande sacada do ve\u00edculo revista era a distribui\u00e7\u00e3o em bancas. O Brasil sempre foi um pa\u00eds carente de livrarias. Algumas cidades nem t\u00eam livrarias. E as bancas supriam essa necessidade, porque era um jeito de a pessoa ter cultura acess\u00edvel. Qualquer lugar tinha banca. Chegou a um per\u00edodo que o Brasil tinha mais de 20 mil bancas. \u00c9 bastante coisa, se voc\u00ea pensar bem. Eu acho que nunca teve mais de 500 livrarias no Brasil. E Abril foi important\u00edssima nessa \u00e1rea. Ela tinha a principal distribuidora, a DINAP, que chegava praticamente no Brasil inteiro. Onde ela queria, ela mandava a revista. Era um sistema monstruoso de distribui\u00e7\u00e3o. E esse sistema acabou. As bancas est\u00e3o agonizando, porque as pessoas est\u00e3o parando de ler material impresso, porque, na cabe\u00e7a das pessoas (risos), se voc\u00ea ler whatsapp, \u00e9 a mesma coisa de ler em uma revista feita por um jornalista. E isso explica muito como o Brasil est\u00e1 hoje. Hoje em dia, fica dif\u00edcil at\u00e9 quando voc\u00ea pensa que, mesmo que voc\u00ea imprima 100 mil c\u00f3pias, como \u00e9 que vai se vender isso? Voc\u00ea tem que fazer uma campanha monstruosa pela internet para tentar vender distribuindo pelo Correio. Mas, mesmo assim, hoje em dia a coisa \u00e9 t\u00e3o fragmentada, que n\u00e3o sei se tem 100 mil leitores no Brasil. De quadrinhos ou at\u00e9 de livros. N\u00e3o sei se tem. Os dados s\u00e3o meio confusos. Ent\u00e3o, por isso tudo que eu digo que \u00e9 dif\u00edcil comparar o que a Panini faz ao que a Abril fazia. Al\u00e9m do que, hoje, o racioc\u00ednio \u00e9 diferente. A Abril tinha menos t\u00edtulos que vendiam muito. A Panini tem muito mais t\u00edtulos. Mensalmente, desde 2012, a Panini passou a Abril em quantidade de t\u00edtulos nas bancas. A Panini, por anos, lan\u00e7a mais de mil quadrinhos. S\u00f3 que se voc\u00ea pegar esses quadrinhos, a maioria deve vender tr\u00eas, quatro mil exemplares. E olhe l\u00e1. Ela ganha no montante, sabe? Tem que pegar muitas varia\u00e7\u00f5es do produto para cada um vender um pouquinho para ganhar no total. Antigamente, voc\u00ea tinha um s\u00f3 produto com vendas gigantes. Al\u00e9m disso, dif\u00edcil responder isso porque n\u00f3s estamos no olho da tempestade. Eu acho que a gente chegou num ponto da discuss\u00e3o que se voc\u00ea falar: &#8220;Ah, a Panini \u00e9 monop\u00f3lio. Isso \u00e9 prejudicial para o mercado?&#8221; Eu acho que n\u00e3o. Porque se n\u00e3o tiver a Panini, eu n\u00e3o sei quem vai publicar isso. Quem que tem know-how para publicar esses materiais hoje? O que poderia acontecer, talvez, era a Panini n\u00e3o pegar tudo e outras editoras come\u00e7arem a lan\u00e7ar algumas coisas da Marvel, da DC. Mas pelo que eu vejo, a Panini tenta abocanhar tudo. Ela n\u00e3o larga nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Observando os quadrinhos em formato retangular do \u201cFlash Gordon\u201d que tenho aqui na estante, sempre fico admirado pelo apuro t\u00e9cnico. Pergunto-me se algo assim seria vi\u00e1vel hoje em dia&#8230;<\/strong><br \/>\nAt\u00e9 daria para lan\u00e7ar, mas a diferen\u00e7a \u00e9 que n\u00e3o seria coisa vendida em banca. Se for vendido, vai custar R$200. Graficamente, hoje, \u00e9 at\u00e9 mais f\u00e1cil fazer essas coisas. Mas o problema \u00e9 viabilizar. E tamb\u00e9m nesses casos de materiais do Flash Gordon, a conta \u00e9 cruel porque a d\u00favida \u00e9 sempre essa: quantas pessoas se interessariam por um material desse? E dessas pessoas, quantas teriam grana para comprar? A\u00ed voc\u00ea chega num n\u00famero que se voc\u00ea conseguir vender 200, 300 c\u00f3pias, \u00e9 muito. A\u00ed, para conseguir viabilizar, tem que dar um jeito de vender tudo antes e fazer sob demanda. Porque, realmente, n\u00e3o d\u00e1 para chegar e imprimir 5 mil c\u00f3pias e falar: &#8220;ah, legal, uma hora vende&#8221;. Talvez nunca venda, porque vai l\u00e1 saber.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esses per\u00edodos d\u00e9cada por d\u00e9cada que o livro traz ajudam bastante a criar esse panorama de acontecimentos, de altos e baixos da empresa, para entender como as coisas foram caindo.<\/strong><br \/>\nSim. Um dos focos do livro foi, realmente, comentar tudo que rolou. Teve um momento em que fiz uma planilha em que baixei do Guia dos Quadrinhos tudo que foi lan\u00e7ado pela Abril. A cria\u00e7\u00e3o de cada um dos t\u00edtulos. Criei uma planilha que depois fui dividindo conforme os cap\u00edtulos do livro. Peguei todas as revistas que surgiram naquele ano ou n\u00fameros especiais. Edi\u00e7\u00f5es 100, algumas comemorativas. Fui seguindo aquilo e fiz quest\u00e3o do livro falar de todos esses. Acabei descartando um ou outro por falta de espa\u00e7o ou porque n\u00e3o eram coisas assim muito importantes. Mas, cara, a partir de 1965, mais ou menos, o livro cobre basicamente todos os anos. Ele vai falando ano a ano tudo o que aconteceu at\u00e9 2018. E d\u00e1 para ver bem esses altos e baixos, sabe? Tem per\u00edodos que est\u00e1 bem, per\u00edodos que n\u00e3o. E chegou um momento que, como o setor de quadrinhos era um setor que foi ficando cada vez mais para tr\u00e1s em rela\u00e7\u00e3o aos outros. Ele ficou em um setor que podia at\u00e9 estar bem, mas se a empresa estivesse mal, ele ia junto. E foi o que aconteceu no final das contas. Sozinho ele at\u00e9 dava lucro. Mas o montante ali do enrosco todo, ele acabou afundando junto.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-60090\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Revistas-da-Abril-00025.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1146\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Revistas-da-Abril-00025.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Revistas-da-Abril-00025-196x300.jpg 196w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lendo o livro, \u00e9 percept\u00edvel uma fluidez no aspecto temporal, aprofundando os fatos e as informa\u00e7\u00f5es para o leitor, contando a trajet\u00f3ria do setor de quadrinhos da Abril. Como foi esse processo de escrita?<\/strong><br \/>\nIsso \u00e9 uma coisa que me incomodava bastante. Porque os livros que tem parecidos com esse, principalmente aqui no Brasil, ou s\u00e3o livros muito de opini\u00e3o da pessoa, com muito chutom\u00eatro, com a pessoa falando o fato, mas sem entrar em detalhes ou explicar o porqu\u00ea. Ou, \u00e0s vezes, s\u00e3o livros extremamente acad\u00eamicos, em que as informa\u00e7\u00f5es at\u00e9 est\u00e3o ali, mas \u00e9 um parto ler. Tive que ler tanta coisa para escrever esse livro. E vou te falar, o quanto de coisa que li sem prazer. Que tive que ler na marra s\u00f3 para buscar a informa\u00e7\u00e3o mesmo. Muitas escritas confusas, sem a preocupa\u00e7\u00e3o de colocar datas nas coisas. N\u00e3o tem depoimentos atestando o que aconteceu, mesmo. Foram tr\u00eas livros que foram a minha base para edi\u00e7\u00e3o. Porque teve um neg\u00f3cio curioso que eu nunca falei para ningu\u00e9m. \u00c9 a primeira vez que eu estou comentando isso. O livro, conforme a gente foi escrevendo, com o Maur\u00edcio fazendo a parte dele de 1987 para a frente e eu escrevendo a minha parte, aconteceu que eu criei os primeiros cap\u00edtulos e n\u00e3o estava nem um pouco contente com eles. Porque, primeiro, estava com uma linguagem muito parecida com revista, aquela coisa de explicar tudo detalhadamente. E tinha uma coisa muito de adiantar coisas que iam acontecer. E cheguei a uma conclus\u00e3o: &#8220;J\u00e1 que o livro, pelo visto, vai ficar bem grande, vamos fazer na ordem cronol\u00f3gica. Explicando as coisas. Elas v\u00e3o acontecendo no tempo certo. Para quando acontecer algo bomb\u00e1stico, que seja uma surpresa&#8221; Porque, sen\u00e3o, eu j\u00e1 explicaria ao leitor que aquele cara, o Cl\u00e1udio de Souza, por exemplo, seria o cara que iria revolucionar os quadrinhos da Disney, nos anos 1970, e ele come\u00e7aria aqui, em 1952. Ent\u00e3o, j\u00e1 seria um spoiler. E l\u00e1 na frente, ele j\u00e1 vai revolucionar. Ent\u00e3o, preferi n\u00e3o falar nada. Fui falando para, l\u00e1 na frente, o leitor j\u00e1 sabe: &#8220;Puxa, aquele Cl\u00e1udio de Souza que come\u00e7ou l\u00e1 nos primeiros anos, aqui ele virou o diretor geral&#8221;. Tive essa preocupa\u00e7\u00e3o. E teve um neg\u00f3cio tamb\u00e9m, assim, que em um primeiro momento, at\u00e9 por influ\u00eancia das mat\u00e9rias que eu fazia na \u201cMundo dos Super-Her\u00f3is\u201d, eu comecei a encher o livro de intert\u00edtulos. Ent\u00e3o, sempre que mudava de assunto, eu criava um intert\u00edtulo. Estava falando l\u00e1 da \u201cRaio Vermelho\u201d. Quando voltava para o Pato Donald, criava um intert\u00edtulo. E ia criando outro. E outro. Chegou uma hora que come\u00e7ou a criar tanto t\u00edtulo&#8230; E tamb\u00e9m tem o seguinte: no in\u00edcio, at\u00e9 1970, mais ou menos, a Abril n\u00e3o tinha muitos lan\u00e7amento de franquias diferentes. S\u00f3 que a partir da segunda passagem do Cl\u00e1udio de Souza pela reda\u00e7\u00e3o, em 1971, o neg\u00f3cio come\u00e7ou a se multiplicar. Porque ele come\u00e7aram a lan\u00e7ar tudo. Hanna Barbera, Mauricio de Sousa, Manual dos Escoteiros Mirins. A Disney ganhou um monte de t\u00edtulos extras. Come\u00e7aram a lan\u00e7ar Pica-Pau, Tom &amp; Jerry, e v\u00e1rias outras. E acabou n\u00e3o funcionando. E tamb\u00e9m tinha uma coisa que era uma forma de eu tentar organizar. Primeiro, eu falava tudo que acontecia com aquele setor. Depois, l\u00e1 na frente, falava de outro setor. S\u00f3 que como eles estavam interligados, eu acabava dando um spoiler do que ia acontecer no outro setor. Chegou uma hora que desencanei. Comecei a fazer por ordem cronol\u00f3gica e fui jogando os dados, como se fosse uma pe\u00e7a do quebra-cabe\u00e7a. Contando que o leitor, na cabe\u00e7a dele, ia montando a paisagem. Eu fui tirando, deixando o mais limpo poss\u00edvel, sem intert\u00edtulos. Criei apenas a (letra) capitular, para indicar a mudan\u00e7a de assuntos, e tem um espa\u00e7o entre os par\u00e1grafos para dar uma refrescada. E foi basicamente isso. Acho que ficou legal. Os livros que eu mais usei de refer\u00eancias na edi\u00e7\u00e3o foram \u201cA Hist\u00f3ria Secreta da Marvel\u201d, do Sean Howe, que \u00e9 um livro que adoro e que tem esse tom em uma coisa bem simples e direta. E \u201cHomens do Amanh\u00e3\u201d, do Gerard Jones. S\u00e3o dois livros estrangeiros maravilhosos. E aqui no Brasil, o livro do Gon\u00e7alo J\u00fanior, \u201cA Guerra dos Gibis\u201d, que \u00e9 sensacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea comentou sobre a Heroica ter surgido como uma forma de voc\u00ea levar para a frente projetos que voc\u00ea tem &#8220;engavetados&#8221;. Um livro sobre a Ebal seria um deles?<\/strong><br \/>\nEstou junto com o Gon\u00e7alo em um plano de lan\u00e7ar um livro sobre a Ebal. O meu plano era n\u00e3o fazer mais nenhum livro nessa linha at\u00e9 por conta do trabalho que d\u00e1. \u00c9 muito cansativo. Mas depois que lancei o livro e dei uma refrescada na cabe\u00e7a, e come\u00e7aram a surgir os pedidos dos leitores, vi que, realmente, um livro da Ebal cairia bem. Conversando com o Gon\u00e7alo, a gente meio que chegou a um acordo. Ele tem bastante coisa de pesquisa. E eu tamb\u00e9m tenho uma ideia de fazer umas coisas que use essa linguagem do livro da Abril, essa coisa mais direta, e a\u00ed estamos planejando. Devo mexer nisso no segundo semestre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 curioso observar o mercado de quadrinhos hoje, no qual muitas pessoas que consomem (eu, inclusive), preferem adquirir arcos fechados, hist\u00f3rias reeditadas em outros formatos que compilam materiais do que acompanhar mensalmente, comprando cada edi\u00e7\u00e3o individualmente. Pergunto-me se esse \u00e9 o futuro desse mercado.<\/strong><br \/>\nSempre digo assim: \u00e9 tudo chute, porque se algu\u00e9m falar que sabe o que vai acontecer, eu desacredito totalmente. Imagina h\u00e1 um ano, se a gente estivesse conversando, se eu dissesse para voc\u00ea que ia ter uma pandemia, que ia ficar todo mundo em casa, imagina? Vai saber se n\u00e3o v\u00e3o ter outras semelhantes. A gente est\u00e1 passando por um per\u00edodo muito louco. Agora saiu um vazamento de dados de milh\u00f5es de pessoas, e eu acabei de descobrir que vazaram os meus dados, tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, a gente est\u00e1 em um mundo t\u00e3o louco, as coisas acontecendo t\u00e3o rapidamente, que aquele conceito l\u00e1 de quadrinhos, o cara parar e tirar um momento como passatempo, isso est\u00e1 cada vez mais dif\u00edcil. Acho que os quadrinhos continuam como sempre foram. Discordo um pouco dessa coisa de: &#8220;ah, antigamente era melhor&#8221;. Acho que antigamente tinham coisas muito boas, mas tamb\u00e9m tinha muita porcaria. Acho que a maior diferen\u00e7a, hoje, n\u00e3o \u00e9 tanto nos quadrinhos. Acho que a maior diferen\u00e7a, hoje, \u00e9 o p\u00fablico. N\u00f3s estamos vivendo um momento meio doido no qual os principais lan\u00e7amentos que a Panini est\u00e1 divulgando s\u00e3o coisas velhas. \u201cOmnibus\u201d do Quarteto Fant\u00e1stico, do Byrne. Algo que foi lan\u00e7ado h\u00e1 mais de 30 anos. Do Conan. Algo dos anos 1970. \u201cOs Eternos\u201d, que at\u00e9 comprei agora. Mas \u00e9 do Jack Kirby anos 1970. Sabe? \u00c9 uma novidade velha. \u00c9 tipo voc\u00ea falar que o lan\u00e7amento do ano foi um novo vinil dos Beatles. E as m\u00fasicas novas? E os quadrinhos novos? Ent\u00e3o, acho que o maior desafio dos quadrinhos \u00e9 pegar caras como o meu sobrinho de 16 anos que n\u00e3o gosta de ler. Essa que \u00e9 a maior barreira. Acho que se ficarem investindo s\u00f3 em caras como n\u00f3s, tudo bem. Queira Deus que a gente ainda viva uns 40 anos. Mas uma hora vai acabar. Vai ficar cada vez mais nichado. Ent\u00e3o, acho que o problema dos quadrinhos \u00e9 isso. E \u00e9 um problema meio estranho. Outro problema foi que os quadrinhos digitais n\u00e3o deram certo. Se os quadrinhos digitais tivessem dado certo, teria sido a salva\u00e7\u00e3o. A distribui\u00e7\u00e3o digital \u00e9 a mais democr\u00e1tica e a mais eficiente poss\u00edvel. Imagina? Voc\u00ea termina um quadrinho e cinco minutos depois voc\u00ea coloca no ar. E a pessoa baixo no celular, no iPad, no kindle, na TV. Sabe? Essas tecnologias est\u00e3o a\u00ed. Mas elas n\u00e3o v\u00e3o para frente porque n\u00e3o tem procura. As pessoas n\u00e3o gostam. O p\u00fablico novo prefere ver v\u00eddeo no YouTube do que ler quadrinhos. E o p\u00fablico velho n\u00e3o gosta do quadrinho digital. Prefere papel. Ent\u00e3o, fica um neg\u00f3cio insol\u00favel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea ainda compra quadrinhos mensais?<\/strong><br \/>\nA quest\u00e3o das mensais, concordo com voc\u00ea. Eu mesmo n\u00e3o acompanho mais. At\u00e9 mesmo porque aqui perto de casa n\u00e3o tem mais banca. A \u00fanica banca que tem aqui fica em um lugar dif\u00edcil de chegar, n\u00e3o tem onde estacionar. Ent\u00e3o, raramente vou l\u00e1. E um fen\u00f4meno que tem acontecido, n\u00e3o sei por que, mas essa banca s\u00f3 tem coisa antiga. N\u00e3o sei se os caras est\u00e3o pagando, mas \u00e9 isso. N\u00e3o tem chegado muita coisa nova. E quando chega, s\u00e3o s\u00f3 coisas caras. Os gibizinhos de linha eu n\u00e3o tenho visto muito. Mas tamb\u00e9m, assim, \u00e9 muito dif\u00edcil acompanhar. \u00c9 muita coisa e, ao mesmo tempo, n\u00e3o tem mais aquele brilho que tinha antigamente para pessoas da nossa idade. S\u00f3 que a minha grande d\u00favida para finalizar \u00e9 o seguinte: eu tenho d\u00favida se os quadrinhos sobrevivem sem a revista mensal. Porque, pelo menos os quadrinhos de super her\u00f3is, a base deles sempre foi a revista mensal. Para eles conseguirem fazer a produ\u00e7\u00e3o, a mensal sempre foi a base. Conseguirem dividir a hist\u00f3ria que era em seis partes, fazem 22 p\u00e1ginas por m\u00eas, o cara com o compromisso de fazer uma p\u00e1gina por dia. Ent\u00e3o, \u00e9 um m\u00e9todo industrial. A\u00ed, de repente, voc\u00ea vai falar para o cara que ao inv\u00e9s de fazer 22 p\u00e1ginas, ele vai ter que fazer 120? Vai ter que dividir em cap\u00edtulos? Publica na internet os cap\u00edtulos e depois publica impresso? N\u00e3o sei. Vai ter que ser feita alguma mudan\u00e7a porque se n\u00e3o tiver essa divis\u00e3o de trabalho, deixar na m\u00e3o de um \u00fanico artista fazer tantas p\u00e1ginas de uma vez s\u00f3, eu acho que vai ser complicado. O fluxo mensal era perfeito para esse tipo de coisa. Porque toda hora voc\u00ea tem alguma coisa nova para vender, o dinheiro volta. Ent\u00e3o, isso que eu n\u00e3o sei como que as editoras v\u00e3o resolver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E essa aus\u00eancia de leitores novos, uma gera\u00e7\u00e3o nova que n\u00e3o l\u00ea, focada em celulares, redes sociais, que n\u00e3o se aprofunda em nada, \u00e9 algo que n\u00e3o ajuda. Voc\u00ea citou o seu sobrinho de 16 anos que n\u00e3o l\u00ea, e eu lembrei de mim mesmo, aos 16 anos, nos anos 1990, sendo levado por esse h\u00e1bito de ler quadrinhos e em como isso reflete em minha vida hoje.<\/strong><br \/>\nUma coisa que vejo que mudou muito e que est\u00e1 sendo crucial \u00e9 que a gente est\u00e1 mudando de uma sociedade que antes era muito focada na escrita, muito focada em ler a palavra, para uma sociedade que est\u00e1 cada vez mais focada em assistir ao v\u00eddeo, sabe? Muito focada em buscar informa\u00e7\u00e3o no YouTube. Muito focada em buscar informa\u00e7\u00e3o de outras pessoas falando. \u00c9 muito mais f\u00e1cil voc\u00ea assistir ao Jornal Nacional do que ler uma mat\u00e9ria em uma revista, em um jornal. S\u00f3 que n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa. Por exemplo, o conte\u00fado todo que tem nesse livro \u201cO Imp\u00e9rio dos Gibis\u201d teria que fazer um document\u00e1rio de 45 horas para sair tudo. E n\u00e3o teria tantos detalhes. N\u00e3o teria uma imers\u00e3o t\u00e3o grande na hist\u00f3ria. Uma coisa n\u00e3o substitui a outra. Mas, para as pessoas, n\u00e3o: quanto mais f\u00e1cil, melhor. Para que eu vou ler um gibi? Tanto que eu vejo por a\u00ed diversas pessoas que conhecem tudo do Thanos, por exemplo, baseados no que ouviram em podcasts ou assistiram no Youtube. Ningu\u00e9m foi l\u00e1 e leu os quadrinhos do Jim Starlin, a fonte prim\u00e1ria dessa saga. \u00c9 um neg\u00f3cio meio de louco.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-60101\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/00-Livro-e-adendos-001.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"721\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/00-Livro-e-adendos-001.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/00-Livro-e-adendos-001-300x288.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><em style=\"font-size: inherit;\">\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pel\u00edcula Virtual<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Nos anos 1970, a Abril chegou a vender 6 milh\u00f5es de quadrinhos por m\u00eas. 72 milh\u00f5es por ano&#8221;, diz Manoel de Souza, um dos autores do livro \u201cImp\u00e9rio dos Gibis &#8211; A Incr\u00edvel Hist\u00f3ria dos Quadrinhos da Editora Abril\u201d, publica\u00e7\u00e3o lan\u00e7ada pela Editora Heroica.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/02\/16\/entrevista-manoel-de-souza-fala-sobre-o-imperio-dos-gibis-que-conta-a-historia-dos-quadrinhos-da-editora-abril\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":60085,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[5055,5056,3360],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60084"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=60084"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60084\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":60114,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60084\/revisions\/60114"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/60085"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=60084"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=60084"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=60084"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}